[2050] Brasil visionário: nosso papel no Oriente Médio

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[Como em um filme, avancemos algumas décadas – hipoteticamente, claro]

 

Tratar o Oriente Médio como uma área para onde os ideários ocidentais deveriam se expandir, propondo uma forma de colonização para nações e Estados vivendo ainda sob formas primitivas, foi talvez o primeiro erro conceitual e estratégico das grandes potências com relação a esta região. Retomando exemplos do início do século, as missões norte-americana no Iraque e Afeganistão pouco ou nenhum efeito tiveram no processo de “libertação” ou “democratização”, muito menos funcionaram como “spill over effect” para outros países. O presidente Obama, eleito como a nova cara para o “American way”, seguia arraigado na abordagem de sempre para o Oriente Médio. Foi justamente o Brasil que conseguiu abrir caminhos e traçar uma nova estratégia e parcerias na região, Obama sem Lula (o primeiro presidente brasileiro a propor a estratégia) seria um fracasso nessa questão.  

O que muitos não queriam admitir ou reconhecer, o Brasil apregoou e perseverou até obter o reconhecimento e congratulações da comunidade internacional. O principal ator internacional para o Oriente Médio no início do século XXI seguia sendo os Estados Unidos. No entanto, a visão americana seguia fortemente vinculada a uma lógica ainda presa a Guerra Fria que, por conseguinte, impedia seus líderes e diplomadas de propor negociações e promover acordos que levassem a consubstanciação de interesses estratégicos (não só americanos) nesta parte do globo. Enquanto muitos países exigiam diversas precondições para sentar-se a uma mesa com um diplomata iraniano, o Brasil desde o governo Lula tomou este país como um aliado estratégico, tecendo um emaranho de tratados bilaterais de cooperação. Defendendo, inclusive, a ampliação das negociações quando a seu programa nuclear. Por fim, o triângulo de poder conformado por Estados Unidos, Irã e Turquia, conseguiu estabelecer equilíbrio na região, algo pouco provável 40 anos atrás. O Brasil provou que sua estratégia era efetiva para construir melhores relações entre o Ocidente e o Oriente Médio. O mundo não seria o que é atualmente sem o esse Brasil visionário.  

[Termino a ficção (ou devaneio) para tratar da realidade em 2010] 

Caro leitor, não estou louco ou tenho bola de cristal. O meu texto não é uma previsão, mas sim um possível cenário traçado a partir das idéias de Stephen Kinzer. O autor descreve a política dos Estados Unidos para o Oriente Médio como uma insanidade, no sentido de sempre repetir o mesmo procedimento e esperar resultados diferentes em relação ao passado, e que ao contrário de sua visão o país fomentou na região conflitos, ódio e um sentimento antiamericano. Pensar o futuro do Oriente Médio, ainda de acordo com Kinzer, exige um exercício de criatividade, começar do zero. Analisando a sociedade americana, quais seriam os aliados que os Estados Unidos buscam para fugir do atual paradigma? O americano responde que: Irã e Turquia. Parece loucura, mas sua convicção é que estes países têm interesses no longo prazo e valores – nos quais suas sociedades estão baseadas – próximos aos americanos. Assim, a escolha de Israel, Arábia Saudita e Paquistão como aliados seria um dos principais erros da Política Externa atual sob a tutela de Hilary Clinton.  

A partir desta premissa inicial, surgiria um novo triângulo de poder: Estados Unidos, Turquia e Irã. São países que possuem um forte viés democrático junto a seus cidadãos (não necessariamente na prática) e serviriam de como uma forma sustentação à nova abordagem para o Oriente Médio. A Turquia como um parceiro para abrir caminhos em termos de negociações diplomáticas e o Irã como um possível estabilizador do Iraque e Afeganistão. Além disso, o Irã teria um segundo benefício: o de ser um grande inimigo do extremismo sunita, que tem como expoentes o Talibã e a Al-Qaeda. Kinzer, levando em conta este fatores, defende que os atuais aliados dos Estados Unidos para o Oriente Médio não seriam o caminho mais efetivo pensando em seus interesses, mais estratégico seriam aproximar-se do Irã e Turquia. O Paquistão e a Arábia Saudita ficariam no meio do caminho, servindo como suporte ao Talibã ao mesmo tempo em que cooperam com os americanos. Para concluir com sua teoria, é evidente que tal estratégia não virá dos setores ligados a diplomacia ou do “establishment” de Washington, ainda presa a aliança com o Israel. 

Chego também a minha conclusão e a explicação para o devaneio do início. O Brasil, involuntariamente, parece seguir em certo sentido essa premissa. Sem os vínculos excludentes dos Estados Unidos, a diplomacia brasileira tenta costurar acordos sobre o programa nuclear iraniano, com o auxílio da Turquia. entregou avanços, um começo, que poderia servir de base para uma nova rodada de negociação entre os norte-americanos e os iranianos. No entanto, tal mediação foi prontamente rejeitada pela Casa Branca. O mundo teve que aceitar eventualmente a China, antes reconhecida como o antro comunista e que hoje é talvez a futura principal potência mundial. Em algumas décadas é possível que o mesmo processo aconteça com o Irã e o Oriente Médio como um todo, pensar novo (apesar das extensas críticas e contra-argumentos) passaria pela inclusão do Brasil na vanguarda de uma estratégia nova e que poderia tornar-se realidade no futuro, queiramos ou não.  

[O Irã já foi assunto muitas vezes na Página Internacional: 12345]


Categorias: Brasil, Oriente Médio e Mundo Islâmico


1 comments
Mário Machado
Mário Machado

Devo admitir a minha ignorância descobri Kinzer semana passada numa entrevista dele a Globo News. Ainda estou em processo de formação de opinião sobre os pensamentos dele, nesse sentido esse post foi bem útil.Abs,