A arte na guerra

Por

26fev2015---membros-do-estado-islamico-el-destroem-esculturas-antigas-no-museu-de-mossul-1424963820310_956x500

Chamou a atenção nessa semana a destruição de artefatos assírios no Iraque pelo grupo Estado Islâmico, em vídeos divulgados pela internet. Não tem como não lembrar de um caso semelhante (e um pouco mais explosivo) quando o Taleban dinamitou estátuas gigantes de Buda em Bamiyan, no Afeganistão em 2001. O ultraje da comunidade internacional pelo ocorrido, com a depredação de peças históricas de valor incalculável para a arqueologia fez inclusive que a Unesco pedisse uma reunião extraordinária no CS da ONU para buscar uma solução para a crise iraquiana (que desde a derrubada de Saddam Hussein vê inúmeros artefatos do berço da civilização desaparecerem de museus, destruídos ou pilhados para coleções particulares).

O nome desse fenômeno é iconoclastia, originalmente de acepção religiosa que basicamente significa a rejeição ao culto a imagens, dentro ou fora de seu “conjunto” cultural. E a versão mais conhecida atualmente é a do islamismo, que rejeita inclusiva e representação gráfica de seu fundador. No contexto religioso tem um caráter de afirmação da fé, mas ao mesmo tempo se reveste de um caráter politico (como quase sempre acontece com a religião, de qualquer modo).

Não é novidade alguma. Alguns dos grandes eventos da história recente, especialmente os ligados a fins de conflitos ou quedas de regimes tem aquela imagem clássica de uma estátua sendo derrubada e destruição de arte e imagens ligadas ao regime anterior. Não sem razão – o significado cultural e discursivo desse tipo de imagem é muito forte, e por isso recorrente. Por exemplo, antes de os russos verem as estátuas Lenin indo ao chão nos anos 90, já em 1917 os revolucionários haviam feito o mesmo com imagens da família do Czar.

Talvez a chave aqui seja o interesse cultural. É sabido que os nazistas, entre suas conquistas territoriais, tomavam obras de arte clássicas das regiões conquistadas (especialmente de judeus…) e buscavam criar um museu gigantesco de cultura europeia (enquanto arte “degenerada” como a moderna era destruída impiedosamente). Boa parte das obras que compõem a enorme coleção egípcia do Louvre vieram da conquista napoleônica do país africano. Quando há o interesse, a arte é preservada – e por vezes até mesmo buscada. Então no fim tudo se resume a cultura?

Pode ser política. Quando o Taleban destruiu os Budas, além do teor religioso da implosão houve a explicação oficial de que se tratava de um protesto contra as políticas e fundações ocidentais que repassavam mais dinheiro para a conservação das estátuas que para a população faminta do país. O ISIS é um grupo fundamentalista que assusta até a Al Qaeda, então certamente a explicação iconoclasta cabe como uma luva, mas podemos pensar em algo mais? Há um perigo em identificar o grupo com a alcunha de “Estado” por ser um recurso discursivo para reforçar sua intenção de legitimidade no sistema internacional. Destruir artigos assírios, considerados os “pais” do povo iraquiano, mais que atentar contra ídolos, deixa claro um sentido de ruptura com a cultura iraquiana tradicional. Não há espaço no califado para aquilo que não seja, essencialmente, islâmico, e o objetivo é a diferenciação do “outro”.  A preocupação com a cultura e preservação histórica é legítima, mas a destruição desses itens está muito mais próxima das decapitações e imolações que o noticiário deixa transparecer…


Categorias: Conflitos, Cultura, Organizações Internacionais, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Um ano sem aniversário

Por

UKRAINE-RUSSIA-CRISIS-MILITARY

A Ucrânia está em guerra há um ano. No dia 20 de fevereiro de 2014, o massacre de ativistas na Praça da Independência em Kiev (com mais de 50 mortos) foi o estopim de uma reação em cadeia inesperada que resultou na secessão da Crimeia e coloca o país em rota de conflito com a gigante Rússia.

Como está a situação após um ano? Infelizmente, assim como outros conflitos recentes (Líbia, Síria, Nigéria…) o que chama muita atenção no começo começa a perder um pouco de apelo (e da atenção) quando os combates se tornam recorrentes. Há uma semana foi assinado um acordo de cessar-fogo entre o governo de Petro Poroshenko e os separatistas, mas nada impede os combates. Notícias do dia relatam uma destruição semelhante à da Segunda Guerra Mundial em cidades como Debaltseve. Como esperado, o governo Putin dá risada das sanções econômicas ocidentais, continua a ajudar os separatistas e preocupa os vizinhos. Velhas práticas da Guerra Fria, como invadir o espaço aéreo de países da OTAN com bombardeiros Tupolev “Bear”, mantidas nos últimos vinte anos como uma ocorrência incômoda, passam a ter um significado muito mais aterrador nesse último ano.

A situação na Ucrânia é muito séria. O risco de a guerra sair do controle e afetar países vizinhos, direta ou indiretamente, é grande, apesar de depender do humor de Moscou. Mesmo a consideração de um conflito generalizado, apesar de praticamente nula, acaba passando pela cabeça dos líderes europeus e só por isso é algo aterrador. Um relatório crítico emitido pela Inglaterra (apesar de se considerar o euroceticismo) parece acertado ao sugerir que a União Europeia errou ao tentar se aproximar da Rússia e esperar um comportamento amistoso de um país em vias de democratização – que demonstrou não ser nada disso. A possível sugestão norte-americana de armar o governo para enfrentar os separatistas em pé de igualdade resultaria em uma corrida armamentista explícita. A própria ideia derradeira de enviar tropas de paz da ONU para supervisionar o cessar-fogo literalmente seria considerado pelos separatistas um rompimento do mesmo e daria munição para avançarem. E nunca vai acontecer, já que a Rússia vetaria de qualquer jeito.

Deve a Ucrânia considerar perder os anéis para não perder os dedos? O grande risco (para os Estados) do sucesso de movimentos separatistas é o exemplo que isso pode dar (razão pela qual a China, tradicional aliada de Moscou, nem gosta de tocar nesse assunto). Uma via diplomática, assim como nas guerras mencionadas ali no começo, seria a melhor saída, mas também se chegou a um ponto sem retorno em que a situação deve ser resolvida pelo conflito. Essa solução já esta acontecendo há um ano. O problema é saber se vai trazer mais negociadores para seu desenvolvimento macabro.


Categorias: Conflitos, Defesa, Europa, Política e Política Externa, Segurança


Enquanto isso, no Afeganistão…

Por

 

Afeganistao

Enquanto a folia de Carnaval termina no Brasil, um relatório das Nações Unidas revela, em números, uma triste realidade que ainda aflige o Afeganistão. Ocorre que, durante o ano de 2014, foi registrado o mais alto número de civis mortos ou feridos em confrontos no país no comparativo dos últimos cinco anos.

No ano em que as tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) encerraram oficialmente suas atividades no Afeganistão e os Estados Unidos iniciaram a retirada das suas tropas – após mais de uma década passada desde o fatídico 11 de setembro – os números revelam que o desafio da estabilidade persiste no país. [Confira o relatório completo aqui, em inglês.]

Segundo as Nações Unidas, por meio de sua Missão no Afeganistão (UNAMA, na sigla em inglês), o número de vítimas civis foi de 10.548 em 2014, dentre as quais estão registradas 3.699 mortes, 25% a mais que o ano anterior (2013).

Uma das razões apresentadas para justificar a alta cifra são os combates em solo, que envolvem armamento bélico em meio a grandes aglomerações, causando grande número de vítimas civis. Os talibãs são responsabilizados pela maior parte das casualidades, de acordo com o relatório.

A realidade demonstra que o Afeganistão, após tantos anos de intervenção da comunidade internacional (especialmente dos Estados Unidos), ainda vive uma situação de precariedade institucional, com inúmeras dificuldades que se refletem na vida da população civil. Os civis ainda se encontram em situação de extrema vulnerabilidade, em meio a uma fase de transição do país em que as responsabilidades parecem não estar claras, de modo que os maiores prejudicados são aqueles que menos vínculos possuem com as (já históricas) hostilidades políticas afegãs…


Categorias: Conflitos, Direitos Humanos, Organizações Internacionais, Oriente Médio e Mundo Islâmico


A desumanidade nossa de cada dia

Por

Broimp

 

A selvageria das execuções do grupo Estado Islâmico chama a atenção do mundo. Quando decapitações (nenhuma exclusividade deles, a propósito) não eram chocantes o suficiente, a imolação do piloto jordaniano causa comoção e uma reação de países ocidentais clamando pelo confronto ao grupo e da Jordânia executando terroristas convictos prisioneiros (mesmo não tendo, a rigor, nada a ver com o ISIS). É a improdutiva lei de Talião, pura e simples.

Por que isso chocou tanto? Na história da humanidade, se existe uma coisa que o ser humano demonstra saber fazer muito bem é matar uns aos outros. Decapitações são até benevolentes quando comparados a outros métodos de execução, e mesmo queimar gente viva não parece tão cruel. Entre outros, por exemplo, destaco o “necklacing” africano (em que um pneu cheio de óleo é colocado ao redor de uma pessoa e ateado fogo para que queime lentamente), a morte por animais selvagens nas arenas romanas, fervura (com a pessoa mergulhada em óleo ou água fervente e virando um pastel humano), evisceração (arrancar órgãos de pessoas vivas, especialmente o coração), empalação (atravessar com uma estaca de baixo para cima, famosa por conta de um certo Vlad Tepes, o lorde romeno que inspirou o Drácula de Bram Stoker) e, possivelmente o mais aterrador, aquele chamado escafismo, praticado pelos persas (em que uma pessoa é largada em um barco, besuntada em mel e nos próprios dejetos, para que seja devorada por aves, insetos e vermes num suplício que duraria mais de uma semana).

Isso serve para aliviar a barra dos radicais? De modo algum. Mas por que causa tanta indignação? Polícias do mundo todo cometem atos de tortura que, se não causam a morte, são tão dolorosos ou degradantes quanto os mencionados. Prisioneiros em campos de concentração nazistas passaram por horrores indescritíveis antes das câmaras de gás. Pessoas pobres sofrem privações e fome que são uma violência inadmissível no século XXI. O problema em si não é o modo como as execuções ocorrem, mas como são divulgadas. A tortura policial ocorre às escondidas. A tortura nazista é parte dos livros de história e da memória dos sobreviventes (apesar de ser uma das causas para o fortalecimentos dos regimes de Direitos Humanos, inegavelmente). Os miseráveis são “invisíveis” nas periferias e sarjetas. Mas as mortes do ISIS? Circulam pela internet e fazem parte do cotidiano do noticiário. É claro que o ultraje resultante é maior.

Geralmente, a morte como pena serve como punição exemplar. Lembrem da casa do Tiradentes sendo demolida e o terreno salgado, para humilhar sua descendência e mostrar para o resto do povo como seria ruim se revoltar contra a Coroa de novo. As mortes do ISIS seguem esse padrão de mensagem? Aparentemente, nem tanto. “Aceitem nossas condições, libertem nossos colegas, reconheçam nosso califado, senão…”.

Não importa como a morte ocorre – poderia ser um fuzilamento, enforcamento, o que importa é a ideia de haver pessoas sendo mortas como uma moeda de barganha com a comunidade internacional. Em menor escala, é o que ocorre quando países negociam a troca de espiões capturados ou cidadãos presos – mas sem que, geralmente, essas vidas estejam em risco. Mesmo quando são pessoas condenadas à morte, como no recente caso dos brasileiros presos na Indonésia, a causa da pena capital é relacionada ao próprio indivíduo, não sendo uma ameaça a seus Estados de origem. O caso do ISIS é inovador no sentido que praticamente está havendo uma negociação de sequestro internacional com um grupo que almeja se tornar um Estado, quebrando todas as “regras” que os próprios Estados seguem, e que de maneira indireta consegue um pouco de sua intenção justamente pelo reconhecimento recebido e a importância que a questão consegue na política e mídia internacionais. O emprego de métodos não-convencionais e chocantes é apenas uma ferramenta, e não o objetivo da execução em si.

Mortes horríveis, vidas desperdiçadas de todos os lados. Mais que a obtenção de resultados políticos, o caso das execuções do ISIS reforça, uma vez mais, o velho argumento realista de que o ser humano, em geral, não presta mesmo.


Categorias: Ásia e Oceania, Cultura, Direitos Humanos, Mídia, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica


Imagem da Semana

Por

jordan jordan1

As imagens da semana não poderiam deixar de envolver o Estado Islâmico e os últimos casos de execução sumária realizados pelo grupo. Após as polêmicas negociações que envolviam a “troca de liberdade” da iraquiana Sajida al Rishawi, condenada à morte na Jordânia por terrorismo, por um refém jordaniano e um japonês. Nos últimos dias, foram divulgados vídeos em que Kenji Goto, o jornalista japonês, é decapitado; e Muath al-Kasaesbeh, o piloto jordaniano, é queimado vivo.

kenjigoto

Em que pese o fato de que a veracidade das imagens e vídeos ainda está sendo verificada, a violência dos atos revela o nível de gravidade do tema, que afeta toda a comunidade internacional e cujas perspectivas futuras se mostram incertas e assustadoras…