A injustiça recorrente

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Rioting erupts in Ferguson, Missouri after police involved shooting of an unarmed teen

O enredo é conhecido, bem como o desfecho. Periferia de um centro urbano, jovem negro abordado pela polícia, algo sai muito errado. Os policiais atiram contra o suspeito, que acaba morrendo. Na versão oficial, era alguém perigoso, que reagiu e foi alvejado por resistir à voz de prisão. Segundo a família e conhecidos, era uma pessoa de ficha limpa, honesta, que se tornou a mais nova vítima de uma polícia despreparada. A indignação na comunidade explode rapidamente, com protestos nas ruas, pneus queimados para interromper o trânsito e as forças policiais são mais uma vez enviadas para conter a turba. Enquanto parte dos manifestantes aproveita a baderna para promover quebra-quebras, destruir vidraças e saquear lojas, a polícia reprime com violência desproporcional parte das manifestações, o que gera indignação na mídia local e internacional. Quando as coisas parecem esfriar, os policiais envolvidos na morte são absolvidos em júri popular e mais uma vez a tensão cresce, com a população indignada pelo fato de que as acusações parecem distantes da realidade.

Brasil? Poderia muito bem ser uma manchete daqueles programas de fim de tarde, mas é exatamente o que está acontecendo nos Estados Unidos, por conta da morte de Michael Brown, o jovem em questão. Durante a semana, até a Guarda Nacional foi enviada à antes pacata cidade de Ferguson para conter os distúrbios. Se o caso mostra que a truculência e despreparo policial para lidar com multidões, bem como a violência policial injustificada contra inocentes não são exclusividade tupiniquim (na verdade, parece ser a regra para o mundo todo), também serve de alerta para uma realidade de exclusão e preconceito ainda latente em um país que mantinha leis segregacionistas até o século passado.

Mais que o ultraje pela morte do inocente, percebe-se uma campanha de demonização da vitima. Mesmo que não fosse mal-intencionada, a culpa é sempre do que resistiu ou não obedeceu a ordens da lei. Provas e depoimentos inconsistentes, canais de notícias veiculando fatos enganosos ou pouco confiáveis sobre Brown, tudo leva a crer que a criação da imagem de um “vilão” para justificar a força letal é símbolo de um racismo que ainda possui grande apelo, mesmo que inconsciente, naquela sociedade.

Há pouco tempo também causou grande comoção a morte de Trayvon Martin, morto em circunstâncias parecidas. O caso de Brown causa mais comoção pelo fato de que alia ao racismo o elemento da injustiça pelo modo ambíguo com que o julgamento dos acusados está sendo conduzido. Mas nesta semana mesmo temos um novo candidato a caso de comoção nacional, com um elemento ainda maior de tragédia por se tratar de uma criança. Apesar de ser uma situação delicada (o menino estaria com uma réplica de arma de fogo ameaçando pessoas numa praça) um vídeo de segurança que capturou a ação mostra que os policiais atiram segundos após chegarem ao local – enquanto segundo a versão oficial teriam dado voz de prisão e apenas atirado quando o menino (mais uma vez) resistiu. Do modo como esse tipo de evento é retratado, fica difícil saber em que ponto terminam os fatos e começam as desculpas, e até mesmo se o menino efetivamente estava ameaçando as pessoas ou apenas brincando de uma maneira pouco saudável.

Dúvidas à parte, fica a certeza de que continuarão a ocorrer muitos fatos semelhantes pelo mundo afora, com jovens negros e pobres “resistindo” à voz de prisão e terminando estirados em calçadas. Mas aqui fica marcada a grande diferença disso para o Brasil – enquanto por aqui essas mortes são até comemoradas e os protestos ficam limitados à região ou bairro onde ocorreu o assassinato, nos EUA a onda de protestos contra o ultraje policial e legal está se alastrando por diversas cidades e terá um impacto social muito maior.


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O Papa é (mais que) pop

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Papa

A frase consagrada em 1990 pelo grupo “Engenheiros do Hawaii” parece mais atual que nunca quando se trata do Papa Francisco. Se ser “pop” é sinônimo de atrair a atenção dos demais para seus atos e mobilizar esforços por causas nobres, estando em posição de destaque, o Papa argentino é mais que pop.

266º líder máximo da história da Igreja, o primeiro latino-americano, Francisco assumiu o pontificado em março de 2013 e nesse um ano e meio já mostrou a que veio. Com suas declarações conciliatórias e demonstrações de humildade nos menores gestos (na foto acima, o Papa cumprimenta um integrante da Guarda Suíça), não caberia em apenas um post uma análise completa acerca da importância de seu papel nos dias de hoje, em que lideranças assim são tão caras e raras.

Entretanto, cabe um comentário reflexivo acerca de duas importantes participações do Papa Francisco em fóruns de grande repercussão internacional nos últimos dias.

Na última quinta-feira, discursando para representantes de mais de 170 países durante a Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição, realizada na sede da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Papa se fez presente em momento importante de concertação política em torno do tema da fome da desnutrição no mundo.

Ressaltando a necessidade de não se tratar alimentos como quaisquer mercadorias, sua fala privilegiou, dentre outros, o argumento de que os tomadores de decisão na área precisam se guiar pela preocupação com o “sujeito real”, aquele que sofre de fato os efeitos da desnutrição (confira seu discurso completo aqui). Ainda hoje 805 milhões de pessoas sofrem de fome crônica no mundo, revelando que o problema é real e precisa de tratamento urgente por parte dos governos (reveja post no blog sobre o tema aqui e o último relatório da FAO aqui).

Em seguimento à sua participação na reunião em Roma, hoje o Papa discursou no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, e comparou o continente europeu a uma “avó cansada”, insistindo para que o bloco não se preocupe apenas com questões econômicas. Um discurso forte, digno de nota, em que o Papa demonstra estar disposto, em suas próprias palavras a procurar “uma solução política para as crises em curso” (leia aqui post recente no blog sobre grandes crises pouco noticiadas).

Sua visita ao Parlamento acontece 26 anos depois da visita do Papa João Paulo II no mesmo espaço, em um contexto ainda de Guerra Fria em que a Europa permanecia dividida. Criticando uma Europa hoje “envelhecida”, o Papa reforça a necessidade de que a Europa reassuma seu protagonismo internacional, com ênfase para a questão da imigração, instando o continente a trabalhar para que o mar Mediterrâneo não se torne um “grande cemitério” (leia posts no blog aqui e aqui).

Comentário ainda sobre a necessidade de se manter a “porta aberta” ao diálogo com o Estado Islâmico, apesar das dificuldades no contexto iraquiano. [Lembrando que esse assunto gerou recentemente enorme polêmica em interpretações realizadas sobre o discurso da Presidenta Dilma na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York…]

Diante dessas situações, vemos um Papa que, mais que pop, se mostra disponível e atuante no cenário global. Líder religioso cuja projeção se estende muito além do mundo católico, o Papa Francisco tem garantido visibilidade às mais diversas causas humanitárias, revelando que os desafios internacionais nos dias de hoje exigem ação coordenada e disposição redobrada…


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Um sonho futuro

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obama imigração

Em um ano que não vai deixar saudades para Barack Obama, pelo menos uma de suas decisões vai ter um impacto duradouro na sociedade norte-americana, e possivelmente benéfico. Nesta semana, o presidente recorre a decreto, um recurso não muito bem-visto nos meios democráticos, mas que funciona quando necessário, para aprovar mudanças nas leis de imigração do país e passar por cima da oposição cerrada no Congresso, legalizando milhões de imigrantes em situação irregular.

Vamos por partes. A reforma da imigração sempre foi uma das principais bandeiras de Obama (lembrem-se que grande parte dos eleitores que o colocaram na Casa Branca são os de origem latina, imigrantes ou descendentes), com a finalidade de resolver o problema dos quase 12 milhões de ilegais no país. Porém, o que se viu foi uma onda de deportação recorde, igualando em dois anos a quantidade de deportados em oito anos de Bush filho. A razão disso é o velho problema da política de oferecer agrados a opositores para tentar colher os frutos no futuro. Visando ao apoio republicano, Obama teve de endurecer as políticas as aguentar as críticas em cima disso, na esperança de que quando a nova legislação de reforme fosse votada, tivesse a simpatia dos opositores. Não deu muito certo, seja por que os republicanos não engoliram esse macete, seja pelo fato de que conseguiram conquistar a maioria nas duas casas e agora estão pouco se importando com quaisquer políticas de Obama – ou, pior, se dedicando a sabotá-las.

Sem alternativa, o presidente abraçou uma alternativa mais modesta, e por meio de decreto deve beneficiar quase 5 milhões de ilegais com o abrandamento de condições para a deportação. Permanece o rigor com os que chegaram recentemente ou cometeram crimes, mas aqueles que estão há mais de 10 anos ou tenham filhos cidadãos norte-americanos podem acabar permanecendo. O decreto não chega ao ponto da concessão de cidadania (que era um dos pontos principais da nova lei), mas é um passo importante para manter funcionando uma das principais engrenagens da economia norte-americana ao trazer uma enorme parcela de população economicamente ativa para o setor formal.

Basta lembrar que, em comparação a outras economias desenvolvidas maduras, os EUA são a única em que não há déficit populacional. A Europa em crise sofre com a redução da força de trabalho, mas isso não acontece nos EUA por ser um polo de atração tão forte de imigrantes, que substituem os aposentados em ritmo estável. Pensando mais adiante, os impactos em longo prazo são ainda maiores, pois a contribuição dessa camada da população para planos de previdência social e programas assistenciais é imprescindível para que as contas fechem. Conseguir inserir legalmente uma parcela na casa dos milhões de cidadãos, que já estão na economia de algum modo mas sem participar do sistema, é uma medida impopular com setores mais conservadores (apesar de a maior crítica dos republicanos não ser às medidas, mas pelo fato do presidente ter passado por cima do Congresso) mas ao mesmo tempo assenta bases para uma fundação sólida do sistema previdenciário nas próximas décadas, e a depender dos rumos do mandato, pode acabar sendo a maior contribuição de Obama para o país em seus dois mandatos.


Categorias: Economia, Estados Unidos, Política e Política Externa


Escravidão moderna

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Fonte: BBC.CO.UK

Fonte: BBC.CO.UK

O Brasil tem, hoje, aproximadamente 155 mil pessoas vivendo em condições de trabalho escravo. No mundo a estimativa é de cerca de 35 milhões de homens, mulheres e crianças, meio por cento da população global, que se encontram na mesma situação. Esses dados foram divulgados pela organização não governamental (ONG) “Walk Free Foundation” em seu “2014 Global Slavery Index”.

Por “escravidão moderna” entende-se o envolvimento de uma pessoa que controla ou possui outra tendo como resultado a privação da liberdade desta última. Trabalho forçado, exploração sexual, tráfico de órgãos e servidão absoluta são alguns dos exemplos práticos que entraram nos resultados em questão. De mais notório, a pesquisa chegou a dois resultados principais. Em primeiro lugar, pelo fato da mesma ter uma metodologia mais específica e apropriada, viu-se que a escravidão moderna em 2014 aumentou em relação ao ano passado. E, em segundo, constatou-se positivamente na maioria dos países, dentre os 167 analisados, a existência de leis e regras específicas no combate à escravidão. Todavia, suas implementações permanecem escassas e fracas.

Em torno de 60% da escravidão moderna está situada em cinco países: Índia, China, Rússia, Paquistão e Uzbequistão. Mauritânia, na África, lidera o ranking com sua “escravatura hereditária” de 4% do total da população. Na América, o Haiti é o país com o pior número e o México é o que apresenta o maior índice absoluto de escravos com aproximadamente 267 mil pessoas exploradas. Do lado oposto está o continente europeu como um todo, representando somente 1,6% dos 35 milhões de escravos modernos.

 

Mapa da Escravidão Moderna de 2014 (Fonte: Walk Free Foundation)

Mapa da Escravidão Moderna de 2014 (Fonte: Walk Free Foundation)

 

Especificamente sobre o Brasil, nosso país melhorou em relação ao ano passado, tendo saído da 94ª para a 143ª posição na escala da pesquisa. A ONG ainda deu destaque para políticas nacionais como a PEC do Trabalho Escravo e o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. Em contrapartida, afirmou que ainda é baixa a identificação de vítimas decorrentes de abuso sexual no território nacional.

Interessante notar que houve uma proporcionalidade direta entre instabilidade política de determinados Estados e a vulnerabilidade da população para com a escravidão moderna. Obviamente, conflitos civis e/ou guerras religiosas enfraquecem a perenidade de leis domésticas, cujos objetivos centrais, no caso aqui retratado, são garantir a liberdade individual. O Brasil melhorou, a Europa mantém a dianteira, mas a discrepância permanece e, cada dia mais, será necessário o trabalho de interdependência entre os atores governamentais e não governamentais. E é aqui que se deve destacar o trabalho da “Walk Free Foundation”.

PS: Para ter acesso direto ao “The Global Slavery Index 2014”, clique aqui.


Categorias: Assistência Humanitária, Brasil, Conflitos


Imagem da Semana

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G-20

Foi realizado no último final de semana o encontro do G-20 na Austrália, com os líderes que respondem por 85% da riqueza global reunidos em um mesmo espaço.

Se a imagem da semana certamente foi a foto oficial com os líderes dos 19 países mais poderosos do mundo mais a União Europeia, a capa do jornal australiano “Courier Mail” deu um tom descontraído às boas-vindas e também merece registro…

Capa jornal


Onde há fumaça…

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china eua

Enquanto a Agência Espacial Europeia faz história no espaço, aqui na Terra tivemos uma notícia tão surpreendente quanto a expectativa do pouso de uma sonda em um cometa longínquo. O que antes parecia impossível abismou a comunidade internacional, de um jeito positivo, quando EUA e China declararam um esforço conjunto para, entre outras modalidades de cooperação, reduzir as emissões de gases estufa pela primeira vez na história.

Quem acompanha o noticiário internacional sabe das motivações por trás da recusa em assumir os compromissos do protocolo de Kyoto, a base para o esforço global em reduzir os problemas de mudanças climáticas. Os maiores responsáveis pelas emissões sempre foram contrários às reduções “arbitrárias” que danificariam seu crescimento econômico. Por isso a surpresa com o anúncio, mas existe muito mais por trás dessa cooperação (nem tão) inusitada.

Primeiro, os países ainda não entraram no esforço “global” por assim dizer. Quando necessário, quiseram adequar suas reduções aos próprios termos, ou seja, à revelia da comunidade internacional. Não se trata de intransigência, mas pragmatismo – fica o recado para o mundo de que algo precisa ser feito, e será, mas do jeito que os gigantes quiserem. O fato de China nem estabelecer um teto para essa meta, mas apenas dizer que vai reduzir as emissões até 2030, bem vago mesmo, é indicativo disso. Ao mesmo tempo, é histórico por ser o primeiro movimento claro e oficial de ambos em direção a políticas ambientais mais sustentáveis, mas as expectativas podem não corresponder à realidade quando for necessário avaliar os resultados de tais políticas.

E claro que existe um jogo político. O anúncio das metas de redução veio em um grande pacote de cooperação sino-americano, que passa por acordos econômicos e militares. Isso se deu após uma reunião de cúpula dos países asiáticos, e Obama acabou tendo algumas conversas breves e pouco amistosas com Putin por ocasião disso. A relação gélida com Moscou contrasta com a aproximação clara de Washington com Beijing, eleito como o grande rival e parceiro na região nos últimos anos. Mais do que uma novidade bem vinda para o cenário ambiental, essa declaração conjunta pode significar uma mudança drástica mas já em curso nas relações de poder daquela região do mundo.


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Sobre muros e pontes

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Berlim

“A humanidade precisa de pontes, não de muros”. Com base nas sábias palavras do Papa Francisco proferidas ontem, a reflexão sobre os 25 anos que se celebram desde a queda do muro de Berlim se reveste dos traços históricos para pensar o futuro.

Construído em 1961, o arame farpado se converteu em concreto e deu origem a uma dura segmentação de Berlim no pós-Segunda Guerra Mundial, controlada por Estados Unidos e aliados em contraposição à União Soviética. Com as constantes fugas do lado oriental ao lado ocidental, a divisão foi imposta de modo a criar um cerco e impedir o acesso, interna e externamente, ao lado ocidental.

Há 25 anos, caía por terra (literalmente) o principal marco ideológico da história recente no período da Guerra Fria: o Muro de Berlim, que dividiu durante décadas a capital alemã em duas partes, sendo o lado oriental comunista e o lado ocidental capitalista.

Nas celebrações de ontem no centro de Berlim, mais de dois milhões de pessoas participaram da festa pela queda do muro, ocorrida no dia 9 de novembro de 1989. Apesar da inexistência, a partir de então, de um muro físico, apenas em 3 de outubro de 1990 caíram, de fato, os muros políticos, com a reunificação do país na República Federal da Alemanha.

Foram lançados ontem ao ar aproximados 8 mil balões (foto), os quais estavam localizados na antiga faixa do muro, posicionados na mesma altura do mesmo (3,6 metros). A dissolução dessa barreira imaginária, em ato simbólico de grande representatividade, nos leva a refletir sobre a história da Alemanha (e do mundo) durante o século XX, marcado por grandes avanços tecnológicos, mas também sangrentos conflitos. A “era dos extremos” de Hobsbawn viu as sociedades, por diversas vezes, se dividirem e se reunificarem, lutarem e se reconciliarem…

Se de fato entendermos que o mundo não precisa de muros, mas sim de pontes – ou seja, de vias pelas quais as partes se encontrem para buscar o diálogo – veremos que vários dos embates atuais, não mais revestidos com o pano de fundo da Guerra Fria (pelo menos em teoria), poderiam vislumbrar soluções.

A celebração da importância da queda do Muro de Berlim não deve, portanto, se restringir ao povo alemão, mas sim inspirar o mundo inteiro que, com seus muros (visíveis ou não), ainda é palco de tantos conflitos cuja resolução depende, em grande medida, de vontade política.


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Déjà vu

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Para um mundo que passou o século XX acostumado a ver EUA e Rússia (então com outro nome) se bicando, não parece nada de novo ver o pé em que estão as relações entre os dois países hoje. O que começou com um imbróglio diplomático por conta do asilo russo ao analista da CIA Edward Snowden virou uma crise internacional por conta dos eventos na Ucrânia no começo do ano. O cancelamento de visitas entre os líderes foi seguido pela exclusão russa do G8 (que voltou a ser G7 mesmo, sem +1) e troca de farpas, que pelo andar da carruagem não terá fim tão cedo.

Tome-se por exemplo a proibição da venda de um modelo de celular em território russo a partir do ano que vem. Existe uma justificativa técnica, de adequação à legislação russa, mas a exemplo da China, que mantem rigoroso controle sobre sistemas de informação, não seria o caso de limitar a “presença” norte-americana em seu território? Aqui entramos num terreno de especulação, mas a coincidência é inegável.

E no nível protocolar, as consequências podem ser bem mais nefastas. Moscou já disse, por exemplo, que não vai participar da cúpula bianual sobre segurança nucelar de 2016, justificando que prefere participar das reuniões semelhantes no sistema ONU por intermédio da AIEA. Mas é claro que sendo uma reunião proposta pelos EUA e a ser realizada na cidade de Obama, fica claro que há outras motivações. A aproximação com a Sérvia, que tem um passado recente de relação complicada com a Europa e os EUA também indica uma busca por consolidação de esfera de influência e mesmo afrontamento aos aliados ocidentais.

Ao mesmo tempo, o país enfrenta uma crise – a exemplo do Brasil, a economia enfrenta problemas, desvalorização cambial, e a queda no preço de commodities, sua tábua de salvação nos anos de crise. Além disso, as sanções impostas a empresas russas por causa da crise na Ucrânia causam perdas consideráveis. Resta saber se nesse ambiente conturbado prevalecerá o discurso do interesse nacional ou o pragmatismo tão necessário para a distensão e o retorno a relações amigáveis e mutuamente benéficas para os dois gigantes da política internacional. No aniversário dos 25 anos da queda do muro de Berlim, símbolo da Guerra Fria e de todo aquele processo de bipolaridade, os mesmos protagonistas se vêm em lados opostos e com uma nova barreira a ser vencida.


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Imagem da Semana

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lava

A força da natureza geralmente é insuperável como vemos nos diversos tufões e tornados anuais, mas uma das mais impressionantes é certamente a força das erupções vulcânicas, que podem explodir de maneira violenta, afetando o ecossistema mundial por décadas, ou vazar lentamente por anos, sem que se possa fazer nada contra a não ser fugir. É isso que está acontecendo no Havaí, onde a lava do vulcão Kilauea, em erupção contínua desde 1983, já invade a propriedade de vários moradores a está ameaçando a residência de tantos outros na vila de Pahoa. Pode não parecer muita coisa, mas chegou ao ponto do presidente Obama liberar recursos para ajuda aos refugiados, que perdem pouco o pouco o terreno para a lenta, mas indomável, onda de rocha derretida.


Divulgação – II Fórum de Paradiplomacia

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Prezado leitor

Estão abertas as inscrições para o “II Fórum Universitário de Paradiplomacia” a ser realizado em São Paulo nos dias 10, 11 e 12 de dezembro de 2014.

As inscrições podem ser feitas diretamente aqui e outras informações podem ser encontradas na página oficial do Fórum no Facebook. Participe!

Reforçando o interesse em ampliar o contato entre alunos universitários de Relações Internacionais e a prática da paradiplomacia, a Assessoria Especial para Assuntos Internacionais do Governo do Estado de São Paulo realiza nos dias 10, 11 e 12 de dezembro a segunda edição do Fórum Universitário de Paradiplomacia, promovendo uma simulação de negociação internacional no tema “Regiões das Américas pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”.

Serão 120 vagas para participar deste modelo inédito de simulação! Você tem interesse em participar? Escolha sua dupla e faça a inscrição!


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