Imagem da Semana

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Os protestos do que começa a ser chamada de “Revolução Ucraniana” garantem as imagens mais impressionantes e importantes da semana. Tudo que começou graças a insatisfação de críticos e opositores do governo de Yanukovyck e sua reaproximação com a Rússia, toma cada vez mais contornos  de episódio central na história recente do país.

A Ucrânia foi um dos principais países afetados pela política russa durante o regime Soviético. Momento que marcou a política e a sociedade do país, dividida em torno de defensores do passado e da proximidade com o país de Putin, e de defensores de uma nova fase, com o país flertando aproximação ao bloco da União Europeia e do ocidente. Quando a vontade do segundo grupo pareceu frustrada por decisões de Yanukovych, as ruas se tornaram lugar de protestos e cenário de guerra, com cenas impressionantes de ruas destruídas, estátuas postas ao chão, civis marchando como soldados.

Os desdobramentos apontam para a queda do atual líder do governo, o que faz surgir algumas dúvidas sobre o futuro do país: uns defendem que a vitória da oposição é o inicio de um novo momento democrático, em que a Ucrânia encontrará seu caminho distante da Rússia e de seu passado comunista. Outros afirmam que há interesses de grupos nazistas e fascistas infiltrados na oposição do país, o que deve minar ainda mais as oportunidades de democracia e liberdade do povo. O certo é que as ruas do país são mais um capítulo do inicio efervescente do século XXI, cheio de revoltas, reviravoltas e instabilidade de governos diversos nos quatro cantos da Terra. Ficam os votos para que essa população encontre rapidamente a melhor saída para a batalha política diante de tantos interesses diversos, poupando a sua população dos dias que vivem atualmente e que formam tantas imagens belas e tristes, de um povo em luta.


A laranja seca

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UKRAINE-EU

Numa surpreendente reviravolta, a Ucrânia acordou hoje com a notícia de um acordo preliminar que restauraria a Constituição de 2004 e possibilidade de anistia aos presos nas manifestações e confrontos das últimas semanas. Um desfecho bastante interessante quando consideramos que ontem mesmo o presidente (em vias de defenestração) Viktor Yanukovich mandava a polícia mandar bala (literalmente) nos manifestantes gerando uma carnificina nos últimos dias com dezenas de mortes.  O que mudou nesse meio tempo?

Pressão internacional parece ser a primeira ideia. Lembramos que um dos maiores interessados nessa questão está ali do outro lado da fronteira, o russo Vladmir Putin, e a violência em Kiev estava tirando o brilho da imagem dos jogos de Inverno, que deveriam ter sido um show particular de pujança do governante. Parece um pouco tarde para contornar os estragos, mas certamente haveria interesse de Moscou em que as coisas esfriassem. Já os EUA estão interessados, mas muito mais para espezinhar a Rússia. Quem entrou com unhas e dentes na questão foi mesmo a União Europeia, que praticamente costurou esse “acordo” de paz, mas conseguiu apertar o governo ucraniano mesmo com uso das boas e velhas sanções. A Rússia deve perder influência e os ucranianos mostram claramente que rejeitam Moscou. Pressionado por todos os lados, o congresso expurgou o ministro do interior e cortou as asas do presidente enquanto Bruxelas aprova a tudo.  No fim das contas, é o único lado que parece ganhar com tudo isso.

Evitar uma guerra civil parece um triunfo daqueles, mas qual o significado disso? A anistia traz de volta a principal figura de oposição, a ex-primeira ministra Yulia Timoschenko, mas que não tem a força politica de quando conduziu a pacífica Revolução Laranja do começo da década passada. Escândalos de corrupção e brigas internas (como a que levou Yanukovich ao poder) mancham a política ucraniana, cuja população vê a associação à UE como uma última oportunidade de mudança e evolução contra velhos hábitos patrimonialistas lá da época dos soviéticos. As concessões de Yanukovich, que incluem antecipação de eleições, são sinais positivos, mas uma vez mais surge esse risco do “vácuo” de poder. Mesmo com um governo de coalizão entre situação e oposição, a falta de uma liderança que corresponda aos anseios dos protestos preocupa. O risco que a Ucrânia corre é proporcional à oportunidade que se apresenta, de passar uma borracha nos desmandos dos últimos anos, e literalmente começar de novo a revolução de 2004. Mas para isso é necessário ainda superar a onda de violência e confrontos, que ainda persiste e pode jogar por terra todos esses esforços caso não seja resolvida.


Categorias: Conflitos, Direitos Humanos, Europa, Política e Política Externa


Novo prazo para o sorteio do livro “O mundo”

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Sorteio LivroA Equipe Página Internacional gostaria de compartilhar com todos a extensão, em uma semana, do prazo para que todos os leitores e interessados participem do sorteio de dois exemplares do livro “O Mundo – Um guia para principiantes”, do sociólogo Göran Therborn.

O prazo para o sorteio, que se encerraria hoje, agora vai até a próxima segunda-feira, dia 24 de fevereiro, com comentários aceitos até às 23h59. Não deixem de participar!

Neste mês de comemorações pelos cinco anos do blog, concorrer a este ótimo livro é muito simples. Basta demonstrar seu interesse em forma de comentário e deixar seu e-mail para contato no post oficial do sorteio:

http://www.paginainternacional.com.br/sorteio-do-livro-o-mundo/

Esperamos a participação de todos nesta última semana de promoção! Boa sorte!


Categorias: Post Especial


Imagem da Semana

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Imagem da semana

A imagem da semana no blog é, na verdade, a “Foto do ano de 2013″, eleita no âmbito do mais importante concurso internacional de fotografias, o “World Press Photo”. Intitulada “Signal”, a foto de John Stanmeyer, dos Estados Unidos, conquistou o prêmio não apenas pela qualidade e originalidade da imagem em seus contrastes de luz e sombras, mas notadamente pela mensagem que traz.

Datada de fevereiro de 2013, a imagem retrata um grupo de emigrantes africanos na costa do Djibouti com seus telefones celulares em punho buscando sinal de rede para se comunicarem com seus familiares. Considerado um local de passagem, o pequeno país Djibouti se encontra no caminho daqueles que, emigrando principalmente da Somália, da Etiópia e da Eritréia, buscam melhores condições de vida no Oriente Médio ou na Europa.

O comentário de Jillian Edelstein, um dos membros do júri que premiou a imagem, resume uma reflexão interessante: “É uma fotografia que está ligada a tantas outras histórias – abre discussões sobre tecnologia, globalização, migração, pobreza, desespero, alienação, humanidade”.

A perspicácia do fotógrafo em registrar uma cena tão cheia de significado traz à tona uma série de temas discutidos diariamente em tantas esferas diferentes, mas que estão intrinsecamente relacionados na contemporaneidade. Neste caso, e em tantos outros, vemos que, de fato, uma imagem vale mais do que mil palavras…


De qual lado?

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A crise política na Venezuela (pouco divulgada, aliás) tem muito a ver com o que ocorre no Brasil. Nessa última semana, protestos explodiram em diversas localidades do país vizinho, começando como uma alusão ao dia do Estudante e que cresceu e inflamadas por líderes da oposição se tornaram marchas contra o governo, que resultaram em confrontos violentos e em pelo menos três mortes. De certo modo, lembra um pouco o que aconteceu no Brasil ano passado (apesar de, até onde eu saiba, a derrubada do governo nem ter sido pauta por aqui). Na verdade, o que chama a atenção é como a questão está sendo tratada, e nesse ponto encontramos a principal correlação.

Vejam bem, é complicado avaliar a informação de fora. Geralmente, busca-se um culpado quando há mortes. No caso venezuelano, levando em consideração o fato de que observamos de fora, é bem inconclusivo pensar em termos de “responsabilidades”. De um lado, as fontes do governo acusam a oposição defascismo. De outro, temos reivindicações acerca de problemas sérios e indícios de violência e abusos do governo na repressão. E a polarização acaba acontecendo naturalmente: quem não está conosco, está contra. O que leva ao questionamento é pensar se realmente se torna necessário “escolher” um lado. A polarização do debate se torna realmente necessária? É preciso ficar do lado de Maduro e escorraçar os “terroristas”? É necessário pleitear a queda do governante?

No Brasil, algo semelhante há bastante tempo, mas ficou mais agudo desde o ano passado. Pegamos o exemplo lamentável do cinegrafista que morreu na semana passada. Basicamente, temos aqueles que condenam completamente a atividade dos manifestantes, e aqueles que tentam mostrar que tudo foi uma armação ou resultado de manipulação do governo para desacreditar os protestos. Tem teoria da conspiração pra tudo. E nesse meio, perdem-se aqueles que expressam livremente suas ideias e colocam pautas de fato para as manifestações, assim como as ações que poderiam ser tomadas efetiva e legitimamente pelos membros do governo.

Não falo de ficar em cima do muro – fazer nada é tão ruim quanto ser extremista. Mas quando a insatisfação extrapola limites, a repressão responde na mesma moeda e chegamos às mortes, em um movimento de reivindicação em um Estado de direito, que tem ferramentas apropriadas para isso, existe alguma coisa muito errada. A polarização tende apenas a piorar o problema – em ambos os lados. Deixar de entender o “outro” lado significa deixar de perceber soluções diferentes para problemas comuns. Cruzar a linha do extraordinário faz com que algumas soluções não tenham mais volta – o que é muito comum na vivência internacional, hoje experimentamos na vida cotidiana. É o que está acontecendo em Caracas – um dos líderes da oposição, Henrique Capriles, se mostrava contra a estratégia dos protestos por achar que não era o momento nem o meio adequado. Não foi ouvido. Agora, o governo já manda prender mentores das manifestações. Não tem mais volta.


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Imagem da Semana

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Reuniao Coreias

Hoje começou uma série de reuniões de alto escalão entre Coreia do Sul e Coreia do Norte realizada na cidade de fronteira chamada Panmunjom. É a primeira desse nível a ocorrer desde 2007 e, pelo que parece, um dos principais temas a serem discutidos é a questão do programa para reunir famílias separadas em virtude da Guerra da Coreia (1950-1953).

Provavelmente, o norte pedirá ao sul a revisão e até mesmo o cancelamento dos exercícios militares programados para ocorrer do final deste mês até abril. Tais manobras contam com a parceria dos Estados Unidos e todo o discurso diplomático dizendo que os testes com bombardeiros não têm caráter provocativo já está na boca dos líderes e porta-vozes.

Colocar um ponto final nas ameaças de ambos os lados parece impossível, mas tomara que resolvam a questão da separação das famílias. Após a guerra, foi estipulada uma Zona Desmilitarizada da Coreia (ZDC) que proíbe o trânsito de pessoas entre os dois países.


Entra e sai

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Uma antiga profecia mexicana afirma que os territórios conquistados pelos EUA durante seu processo de expansão serão um dia retomados, devolvidos aos velhos donos graças a mística que protege tais terras de ocupações feitas por outros povos. A crescente presença latina no país vez ou outra voltam a ser debatida, quase sob uma ótica de medo de que de alguma forma tortuosa essa profecia se cumpra.

A “invasão latina” é um fenômeno de efeitos colaterais, que causam problemas como a xenofobia e a intolerância, problemas de superpopulação e violência urbana. Mas independente das opiniões sobre a imigração nos EUA, principalmente a ilegal, é inegável a importância dessas pessoas na construção econômica do país, principalmente pela garantia de uma saudável força de trabalho e da vontade individual de alguns, baseados no “sonho americano” de oportunidade para todos, mesmo que esse sonho por muitas vezes não passe disso.

Do outro lado do atlântico, a Europa sofre exatamente de um fenômeno contrário ao dos EUA. Com uma natalidade menor do que o mínimo para a garantia da reposição populacional e sem vizinhos com sorte diferente, alguns países europeus já beiram a escassez de força de trabalho, sobretudo em posições de serviços e da indústria que necessitam de profissionais jovens e de pouca instrução, completamente o oposto das populações locais, bastante instruídas e envelhecidas. É nessa realidade que vimos nos últimos anos políticas de apoio a imigração geridas por diversos países, que oferecem vantagens a famílias e casais dispostos a se mudarem em definitivo para onde falta gente. Também observamos um forte fluxo de imigrantes oriundos de países em desenvolvimento, graças as melhores condições de vida e a grande oferta de trabalho para atividades não especializadas.

Até aí nenhuma novidade. Notamos na Europa uma troca entre a necessidade econômica diante da nova realidade demográfica dos países desenvolvidos e a imigração de trabalhadores em busca de uma vida melhor. Entretanto, essa troca está longe de ser uma relação simbiótica e pacífica. A imigração tem que conviver com o ônus da chegada descontrolada de uma nova população e o ódio injustificável da xenofobia, fazendo com que parte dos habitantes nativos vitimados pela imigração alguns grupos nacionalistas entrassem em rota de colisão com os estrangeiros. Culpando-os por males que vão desde o aumento da criminalidade á crise que vive a Europa, alguns defendem até mesmo a expulsão de estrangeiros e a proibição da entrada de pessoas, ganhando novos adeptos a cada evento que acirre ainda mais a tensão social que fica latente nesse tipo de cenário.

Independente das razões sensatas ou preconceituosas com os imigrantes, a Europa segue precisando da força de trabalho importada. Chegamos a uma bifurcação, em que o reconhecimento da necessidade de crescimento populacionais e de força de trabalho e os problemas  da imigração descontrolada entram em choque e colocam em xeque diversos governos da região, que devem considerar com carinho qual seria a melhor saída para um problema aparentemente sem solução que agrade a todos.

Assim, podemos ver em um único dia duas manchetes completamente opostas. Por um lado, países do leste anunciaram essa semana que será facilitada a confecção vistos de trabalho para diversos países latinos a partir desse ano, visando facilitar a chegada de novos trabalhadores. Em outra, a  Suíça ameaça dificultar a entrada de imigrantes, limitando drasticamente o número máximo de estrangeiros que podem entrar no país por ano.

Entre o discurso dos nacionalistas, há também a preocupação em relação a proteção da cultura e da sociedade nativa dessas regiões, diante do que chamam de “invasão estrangeira”, lembrando os medos profetizados pelos mexicanos de reconquistarem o que lhes foi usurpado pelos EUA: a reconquista por meio da invasão de imigrantes. Mais realista do que tais preocupações que justificam preconceitos, há a certeza de que com os novos índices demográficos teremos uma Europa cada vez menos europeia, a despeito da vontade de determinados grupos. A não ser que políticas anti-imigração ganhem força, fato que teria uma reação interessante nas economias regionais, provavelmente negativa. Veremos isso nos próximos capítulos da guerra pela imigração.


Categorias: Europa, Polêmica


As reais imagens de Sochi

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Sochi Simbolo

Na última sexta-feira houve a abertura oficial dos Jogos Olímpicos de Sochi 2014, na Rússia. O que apareceu na televisão foi eloquente, bonito e alegre como normalmente são todas aberturas de grandes eventos. A delegação de doze atletas brasileiros foi saudada como carinho, a delegação estadunidense entrou ovacionada parecendo esquecer-se do boicote ocorrido em ocasião passada e a delegação russa fechou tudo com o “espetáculo de encher os olhos”.

Até aí tudo bem. No máximo divulgou-se que houve uma falha na abertura dos anéis olímpicos, porque o último deles permaneceu fechado e, adivinhem, representa o continente americano. Talvez tenha sido até proposital para as teorias da conspiração dizerem que o suposto erro representa os velhos tempos de Guerra Fria com o embate entre Estados Unidos e União Soviética.

Brincadeiras à parte, vamos às reais imagens de Sochi:

1) Corrupção

Somente uma parcela mínima da mídia divulgou que a olimpíada russa custou mais que o dobro da Copa de 2014 e Rio 2016 juntas, somando um valor não-oficial de 50 bilhões de dólares! Isso, inclusive, foi postado no texto “Imagem é tudo” aqui na Página Internacional. Segundo dados da ONG Fundação Anti-Corrupção, esse montante representa de 1,5 a 2,5 a mais do que o normal se comparado com outras olimpíadas de inverno. Em Pequim (2008) foram gastos 43 bilhões de dólares, em Vancouver (2007) 7 bilhões, em Londres (2012) aproximadamente 14 bilhões e no Rio de Janeiro (2016) estima-se um total de gastos/investimentos nessa ordem também de 14 bilhões de dólares.

2) Preconceito contra homossexuais

Em janeiro, o presidente russo, Vladimir Putin, disse publicamente que os visitantes gays que desejavam ir aos jogos de Sochi não deveriam temer o país, mas que os mesmos precisavam “deixar as crianças sozinhas”. Dias atrás a ONG Human Right Watch (HRW) publicou um vídeo em que são mostrados diversos ataques a gays e lésbicas no país. As imagens são revoltantes e diversas organizações acusam o governo conservador russo de perseguir os homossexuais e não investigar seriamente os ataques feitos contra os mesmos. Essa questão vai muito além das olimpíadas, mas até mesmo Thomaz Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) afirmou na abertura que os jogos são “festival de esportes que abraça a diversidade humana e sua grandiosidade”.

3) Exclusão social

Em matéria intitulada “Sochi tem o ouro. Vila ignorada tem a poeira”, o New York Times trouxe a notícia do total descaso do governo para com regiões vizinhas de Sochi, citando o caso do vilarejo de Akhshtyr, o qual é situado entre dois complexos esportivos dos jogos. Lá não há combustível, a qualidade da água é horrível e não existem estradas de escoamento ou que permitam a saída tranquila e viável dos moradores. As imagens podem ser encontradas no link da notícia e revelam o outro lado de Sochi, literalmente.

Cidade Sochi

Obviamente, a abertura dos jogos é legal de assistir e os esportes ganham uma nova roupagem nessas épocas. Entretanto, muito mais do que isso, é preciso atentar-se e aludir algumas questões que ficam “embaixo do tapete”. Era para eu ter escrito o texto da “Imagem da Semana” aqui na Página Internacional, mas acabei escrevendo sobre as reais imagens de Sochi que não aparecem na TV. Corrupção, preconceito e exclusão social são algumas delas.


Categorias: Ásia e Oceania, Direitos Humanos, Mídia, Polêmica


A Suíça e o fim da imigração massiva?

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Imigração Suíça

A Suíça e seus referendos… em um país em que inúmeros assuntos internos são levados a consulta pública, vemos que um dos temas votados hoje ultrapassa as fronteiras nacionais e impacta, na verdade, toda a União Europeia (UE): trata-se da limitação à livre circulação de cidadãos do bloco europeu no país.

campanha retrata a imigração a partir da imagem simbólica de uma árvore que dá frutos, mas cujas raízes destroem gradativamente o país em sua base (foto), criticando a entrada massiva de imigrantes no país. Trata-se, de fato, de uma crise identitária em um país diversificado em suas regiões e idiomas, e cujo destacado centro cultural e econômico é Genebra, uma cidade com 43% de estrangeiros compondo sua população.

Vale lembrar que a Suíça não pertence à UE, mas, cercada por países do bloco, mantém com este uma série de acordos bilaterais de benefício mútuo. O acordo de livre circulação entrou em vigor em 2002, mas, com o resultado de hoje, será necessária uma revisão da relação entre as partes.

A proposta, apresentada em 2012 pelo partido conservador da “União Democrática do Centro” (UDC), advogou para que fosse estabelecido um teto máximo de imigrantes e um contingente anual limitado de estrangeiros entrando no país. A votação foi acirrada, mas deu a vitória à UDC, com aproximados50,4% de votantes de acordo com estes termos. Ironicamente, a taxa de participação voluntária foi alta (56,6%) como não ocorria desde 2005 quando foi votada a associação do país ao Espaço Schengen, o “espaço sem fronteiras internas” na Europa, o qual teve a ratificação suíça em 2008.

A entrada na Suíça de aproximados 80 mil imigrantes dos Estados Membros da UE na última década foi criticada com o argumento de que está ocorrendo uma “pressão” na infraestrutura e no mercado incompatíveis com as condições de acolhimento do país. Entretanto, os dados demonstram que, em 2002, a Suíça tinha 20% de imigrantes e hoje este contingente representa 23,4% em uma população total de quase 8 milhões. Com um aumento cuja expressividade pode ser questionada e levando-se em consideração que 22% da força de trabalho, principalmente na área de serviços, é composta por mão-de-obra estrangeira, percebe-se porque o assunto gera polêmica.

Representando um retrocesso à integração do continente, ao discutir um de seus princípios fundamentais de integração, os impactos da decisão suíça ainda são incertos. A renegociação de acordos representa um risco à própria economia suíça, que não deseja o isolamento e depende de boas relações com seus vizinhos europeus – com os quais o “saldo” nas relações sempre foi positivo.

Se a campanha apresenta o “excesso” como prejudicial também em matéria de imigração, trazendo consequências a longo prazo às instituições sociais e à integração cultural, vale a pena refletir até que ponto o excesso de nacionalismo também não representa um prejuízo ao futuro de um país como a Suíça. Diante de uma crise de identidade controversa, questiona-se se os frutos da imigração não enriquecem as raízes suíças, ao invés de destruí-las como a campanha pelo “sim” apresentou…


Categorias: Economia, Europa, Polêmica


Imagem é tudo

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A Rússia está nos holofotes essa semana, seja pelo improvável duelo de olhares entre seu presidente e um filhote de leopardo, seja pelo início no dia de hoje das Olimpíadas de Inverno, na cidade de Sochi, seja pela escalada da crise ucraniana que gradualmente está se tornando um romance de espionagem da Guerra Fria.

Se o caro leitor acha que a gastança do Brasil com a Copa e Olimpíadas já causa alvoroço e indignação por esses lados (como já esperávamos há alguns anos…), o caso de Sochi é ainda pior. Basta dizer que o dinheiro gasto para a realização dos jogos supera a quantidade de TODAS as edições anteriores somadas. Entre outras coisas, até a neve tem que ser “produzida” para o evento – já que, entre tantas cidades literalmente congeladas no país, escolheram uma em que o sol brilha forte nessa época do ano. As denúncias de superfaturamento e corrupção deveriam ir lado a lado com o quadro de medalhas, mas com a liberdade de imprensa bastante comprometida naquele país, resta à comunidade internacional observar o boicote de alguns atletas e políticos internacionais ao evento como protesto. E isso para não entrar na questão da ameaça dos possíveis ataques terroristas, já que a localização dos jogos é perfeita para isso.

Mas o que está chamando a atenção mesmo é o caso da Ucrânia, por que a briga com os EUA remonta aos tempos da bipolaridade. Resumindo a ópera, a população ucraniana protesta desde novembro do ano passado contra a decisão do governo de cancelar um acordo com a União Europeia, supostamente sob pressão russa, e a tensão se desenrola há meses. EUA e Rússia fazem parte dos esforços de negociação para resolver o impasse, mas um vazamento nessa semana esquentou o clima: provando um pouco de seu próprio veneno, a secretária de Estado adjunta dos EUA foi flagrada em conversa com o embaixador norte-americano nos EUA, na qual ofendia (pra dizer o mínimo) os esforços da UE em participar do processo. A troca de acusações vai para todos os lados: os EUA acusam a Rússia de espionar e vazar a conversa, a Rússia acusa os EUA de ajudar a oposição e a UE fica indignada com tudo isso.

O que vemos aqui é uma clara mensagem do governo russo de exibição de poder. O caso da Ucrânia mostra que mais uma vez a Rússia expande e tenta manter sua esfera de influência. Os EUA espionam todo mundo? “Nós também podemos”, responde entrelinhas Moscou (na verdade todos fazem isso, mas já é outra história). A China fez a mais imponente Olimpíada de todos os tempos? Putin faz nevar em uma cidade ensolarada para os Jogos de Inverno. E encerramos esse raciocínio com a imagem do presidente entre os leopardos. A ideia, oficialmente, é de divulgar uma iniciativa ecologicamente correta sobre um santuário para a preservação desses animais, mas é claro que aparecer amansando feras selvagens adiciona mais um capítulo no imaginário desse presidente “folclórico”, por assim dizer. Sua ideia de reerguer a Rússia no plano internacional é clara. E para isso, um país precisa demonstrar recursos de poder, seja duro ou brando. E a Rússia está demonstrando que domina ambos, com foco na figura desse presidente enigmático e matreiro.


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