Retrospectiva 2013: um ano de testes

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Um ano em que nos encontramos no meio de uma enorme agitação e incerteza e fomos testados a cada minuto de cada dia. Ban Ki-moon não poderia estar mais certo em sua mensagem de janeiro à Assembleia Geral das Nações Unidas. A comunidade internacional, os países e as sociedades enfrentaram inúmeros testes em 2013, e o mundo talvez atravesse uma das piores crises de sua história. Uma crise desconhecida, imprevisível, transversal e inédita que atinge indiscriminadamente a todos nós.

Há um sentimento de insatisfação generalizada, quando não de ódio, que se dissemina pelo globo. Nações estão em guerra, inseguras, ou em protesto, vidas estão no limite. De conflitos políticos, econômicos e socioculturais a demandas por serviços públicos de qualidade, passando por choques entre a modernidade e a tradição. Os atentados de Boston; intervenções militares francesas no Mali e na República Centro-Africana, com a anuência da ONU; o aprofundamento da situação crítica da Síria; disputas étnicas e religiosas na Nigéria e no Sudão do Sul; a onda global de protestos que arrastou Turquia, Brasil, Argentina, Tailândia, Ucrânia, entre outros.

A diplomacia está em crise! Faltam líderes, instituições críveis e, sobretudo, faltam ambição e visão de futuro. O abalo das relações diplomáticas não decorre apenas da ampla espionagem virtual promovida pelos Estados Unidos, senão também da incompetência da comunidade internacional em administrar essa insatisfação generalizada. Parece pouco provável uma solução definitiva. Japão e China continuam à beira de uma confrontação militar pela posse das ilhas Senkaku ou Diaoyu, e a solução provisória para o incidente do uso de armas químicas na Síria partiu da Rússia. Da mesma forma, um tratamento multilateral para a governança da internet partiu de Brasil e Alemanha. Cada vez mais, o protagonismo diplomático alarga as fronteiras do velho Ocidente. É preciso reconhecer isso.

Líderes não ocidentais surgem. Após a renúncia (inusitada) do Papa Bento XVI, assumiu o cardeal jesuíta Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco. É a primeira vez que um latino-americano ocupa o posto e, para muitos, é considerado a personalidade mundial de 2013. Em sua primeira mensagem de Natal, a Urbi et orbi, o novo papa fez um apelo à paz mundial, ao lembrar que ela é um compromisso diário e que é feita em casa. Ele ainda convidou até os que não acreditam a desejarem a paz. O Brasil, novamente, se destacou em duas frentes neste ano: uma delas, com a eleição do diplomata Roberto Azevêdo para o cargo de diretor-geral da OMC, a qual aprovou um acordo global de comércio pela primeira vez; a segunda, a nomeação do general Santos Cruz para comandar as tropas da MONUSCO, missão de paz na República Democrática do Congo, que levou à rendição do M-23, principal grupo rebelde.

No ano da morte do revolucionário Hugo Chávez, uma nova (e surpreendente) liderança surgiu na região e no mundo: o presidente uruguaio Pepe Mujica. Ele substituiu a ideologia pelo pragmatismo. Seu discurso na Assembleia Geral da ONU foi muito aclamado, demonstrando que atingimos o limite, enquanto sociedade, do modelo político, econômico, cultural, etc. vigente no mundo. E deixou uma mensagem clara: “Para que todos os sonhos sejam possíveis, precisamos governar a nós mesmos, ou sucumbiremos porque não somos capazes de estar à altura da civilização em que fomos desenvolvendo.”

Luz e inspiração também não faltaram em dezembro, no mesmo ano em que perdemos a Dama de Ferro, quando a humanidade chorou a morte de Nelson Mandela. O líder africano, e mundial, deixou inúmeras lições imprescindíveis às nossas escolhas sobre o destino. Ao discursar em sua posse em 1994, a tônica foi a reconciliação: “Chegou o momento de sarar as feridas. Chegou o momento de transpor os abismos que nos dividem. Chegou o momento de construir.” Precisamos, urgentemente, enquanto seres humanos, reconciliarmos conosco. É ponto de partida para aprendermos a nos governar e, então, construir.

Que 2014 nos ensine a não apenas sobreviver aos testes que 2013 nos colocou, mas também a vencê-los. O mundo depende menos de concepções tradicionais e mais da quebra de paradigmas, já enunciados por lideranças passadas e algumas do presente. Enfim, leitores da Página Internacional, nós, da equipe, desejamos a cada um de vocês muita paz, saúde, alegria e principalmente esperança no ano vindouro. E reforçamos o convite para que continuem conosco. Vocês são a alma do blog!


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"No rape"

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“No rape”. Frase curta, mas de impacto gigantesco na Índia e no mundo inteiro. Há um ano, o caso de estupro coletivo de Jyoti Singh Pandey chocou o mundo e mobilizou as indianas na luta contra esse crime tão sério quanto repugnante em qualquer localidade, cultura ou credo.

Jyoti foi a jovem estudante de medicina que sofreu violência sexual por parte de seis homens ao voltar de ônibus do cinema, acompanhada de seu namorado que também foi agredido, mas sobreviveu. Após dias internada, ela não resistiu e tornou-se mais uma vítima dessa prática pavorosa que tem como fim não o prazer, mas apenas a humilhação e a expressão de poder e superioridade.

Em uma sociedade ainda patriarcal e machista como a indiana, infelizmente as vítimas são, muitas vezes, consideradas culpadas pela violência vivida. É a deplorável lógica de que, mesmo ao exercerem seus direitos básicos de “ir e vir” do modo e no horário que lhes convier, vestidas como igualmente lhes convier tal como qualquer cidadão livre, as mulheres “estão pedindo” para serem violentadas. Lógica ilógica que garante a perpetuação de uma cultura de violência em um país com histórico já manchado pelo sangue de tantas vítimas inocentes.

Após a triste história de Jyoti, o número de registros de casos de estupro na Índia aumentou, revelando que a mobilização ampliou a coragem das vítimas em denunciar – trazendo a verdade à tona e contribuindo para um processo de reeducação que deveria envolver a base da sociedade. Processo, entretanto, que se vê em face de um tradicionalismo por vezes extremado que ainda torna as mulheres vulneráveis às mais cruéis práticas no dia-a-dia.

Em termos numéricos, os casos de estupro aumentaram em 70% nos últimos dois anos no país (apesar do endurecimento de leis para crimes sexuais em março deste ano, o qual não foi acompanhado pela celeridade nos tribunais…), enquanto o turismo, notadamente feminino, caiu em aproximados 25% devido à sensação de insegurança generalizada.

Não que a violência sexual seja um problema exclusivo da Índia, pelo contrário. Contudo, casos como o de Jyoti sensibilizam a mídia devido ao grau de violência envolvido e especialmente considerando seu padrão de vida de classe média, mais próximo da cultura ocidental que boa parte dos casos de vítimas indianas.

“No rape”. Que esse seja um dos desejos em nossos anseios por um 2014 mais bonito, menos violento e em memória daquelas(es) que já sofreram qualquer tipo de violência sexual, na Índia ou em qualquer outra parte do mundo. 


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Espírito de reconciliação?

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Eis que no funeral de Nelson Mandela, ícone mundial da reconciliação, vimos uma cena inédita ocorrer: um cordial aperto de mãos entre os líderes Obama e Raúl Castro – sob o olhar atento de Dilma, dos demais presentes e dos flashes mundiais.

E por que tal ato surpreende de forma a transformar-se em manchete internacional? Estados Unidos e Cuba, de fato, não possuem relações entre si desde 1961, dois anos após a chegada de Fidel ao poder na ilha, nacionalizando propriedades estadunidenses. Em 1962, portanto, Kennedy impôs um embargo econômico duradouro aos cubanos, o qual permanece até hoje e torna as relações entre os países tão tensas.

Raúl hoje propõe que ambos os países venham a “respeitar mutuamente suas diferenças e acostumar-se a conviver pacificamente com elas”, denotando a necessidade de flexibilizar as posições para viabilizar o diálogo. O próprio Obama reconheceu recentemente que tinha acabado de nascer quando Castro chegou ao poder, sendo “tolice acreditar que as medidas implementadas em 1961 ainda são eficazes hoje, na era da Internet e do Google”.

Ou seja, ambas as partes demonstram um certo grau de abertura ao diálogo que não se via há décadas. O aperto de mão da foto apenas reforça, em sua sutileza, a esperança de que as relações bilaterais Cuba-EUA sejam restabelecidas em um momento histórico propício a renovações e movimentos de reconciliação.

Os traços de rivalidade entre os países ainda são grandes e não se espera, ingenuamente, que um aperto de mãos resolva todos os problemas. Contudo, Raúl Castro tem colocado em prática – ainda que lentamente – reformas econômicas na ilha que podem facilitar esse diálogo com os “inimigos” do norte. Discussões bilaterais recentes sobre imigração e serviço de correio entre os países representam ainda um avanço histórico após tantos anos de distanciamento entre os países e seus líderes.

Que a chama do espírito reconciliador de Mandela mantenha-se viva após as cerimônias oficiais de despedida ao líder sul-africano que comoveram o mundo em tantos momentos. Uma porta, ou uma brecha que seja, talvez aberta ao diálogo entre Cuba e Estados Unidos é certamente significativa em nosso contexto atual, reavivando as expectativas de que 2014 seja um ano decisivo com relação a avanços nas negociações internacionais em todos os âmbitos. 


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UE x Brasil

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No começo de Dezembro, mais especificamente no dia sete, a Organização Mundial do Comércio (OMC) estava em clima de comemoração. Em reunião realizada naquela data, 159 países-membros conseguiram consolidar o primeiro acordo da instituição depois de cerca de duas décadas sem resultados positivos. Desde 2001, a Rodada Doha estava (e ainda está parcialmente) parada, mas os encontros recentes em Bali, na Indonésia, deram forma a um pacote chamado de “Doha Light”, no qual temas como agricultura, desenvolvimento e facilitação de intercâmbios comerciais serão progressivamente liberalizados, aumentando o fluxo do comércio internacional. 

Tal episódio ocorreu em um momento muito positivo para o Brasil. Fazia três meses e meio que Roberto Azevêdo havia assumido o comando da OMC. Em entrevista, o mesmo afirmou que a organização conseguiu sair do seu estancamento, mas que ainda seria necessário destravar Doha e “atualizar” diretrizes institucionais. Sua posse representou um ótimo momento para nosso país, pragmatizando a ideia de que o Brasil é um “novo player” mundial. 

Se tudo estava caminhando conforme o previsto, houve uma pequena reviravolta nos planos nacionais. Diga-se de passagem, tal mudança não denota transformações na natureza da OMC, muito menos no comando de Azevêdo, mas sim um abalo na imagem brasileira na organização. Ontem, dia dezenove, a União Europeia (UE) anunciou que acionou os tribunais contra os incentivos fiscais dados pelo Brasil, acusando-o de protecionista. 

A UE declarou que nos últimos anos o Brasil aumentou drasticamente sua carta de impostos, algo contrário às suas obrigações junto à OMC. Tal ação impacta diretamente o setor automobilístico nacional, pois recai na questão da isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e na instalação de montadoras estrangeiras no nosso território, uma vez que marcas como Audi, Mercedes-Benz e BMW já anunciaram construção de fábricas e desenvolvimento de veículos aqui em um futuro próximo. O IPI também influi diretamente em produtos eletrônicos como computadores e smartphones. Entretanto, é a indústria automobilística que carrega o bônus e, agora, o ônus da questão. 

O próprio Azevêdo disse que ainda não viu apresentação oficial do questionamento da UE junto à OMC e contra o Brasil. O atual Ministro de Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, afirmou que as medidas do país estão em total conformidade com as diretrizes da organização, não devendo haver muito alarde até então. O provável contencioso ainda está em fase preliminar, sendo que a Comissão Europeia e o governo brasileiro têm o prazo de 60 (sessenta) dias para por fim à desavença. O prazo é curto e, caso não tiver sucesso, aí sim entrará em vias de fato na OMC. 

Mesmo com todo tom diplomático envolvendo os dois lados, não há dúvidas de que um episódio dessa magnitude acaba abalando as relações políticas e econômicas de ambos. Mesmo com um histórico de bons relacionamentos e aproximações entre UE e Brasil, talvez haja incidência negativa e direta na construção do acordo de livre comércio entre a União e o Mercosul. A realização dessa parceria é uma das prioridades do governo de Dilma Rousseff, a qual deseja concluí-la ainda em 2014.

Obviamente, trata-se de um ponto específico tanto na esfera comercial (setor automobilístico, principalmente) quanto no trato da questão estrita com o Brasil. Mas não se deve esquecer que nosso país representa enorme fatia econômica do Mercosul e este bloco tem como um dos eixos centrais de atuação a integração produtiva. Consequentemente, o imposto e o carro vêm do Brasil, só que seus reflexos têm grande dimensão regional. Resta saber se o discurso liberalizante da OMC não causará efeitos drásticos no livre comércio entre os lados europeus e mercosulinos.


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Quem vai ficar com Snowden?

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Já comentamos anteriormente que Edward Snowden é como aquele presente que ninguém quer ganhar – ele fez revelações bombásticas que tiveram muito impacto na política internacional, mas quando ele precisar de ajuda, não haverá muitas mãos amigas dispostas a tirá-lo do sufoco. Em junho, ele conseguiu se refugiar na Rússia, e ganhou um ano para ficar por lá. Toda aquela discussão sobre possibilidades de asilo ficou para um segundo momento – por enquanto. Pois tão logo termine o prazo, Moscou não parece tão inclinada a se indispor com Washington novamente e Snowden vai precisar se virar. 

É nesse contexto que surgiu a tal carta aberta aos brasileiros, de sua autoria, revelada ontem. Pra quem não viu, Snowden fala aos brasileiros que poderia ajudar nas investigações sobre as violações de privacidade da NSA, impedido apenas por que enquanto não estiver em um asilo definitivo sempre estará cercado. Para bom entendedor, meia palavra basta, e apesar de não expressar o desejo de asilo no Brasil em momento algum (e dessa intenção ser negada pelos seus interlocutores), a intenção é bem clara. 

Buscar refúgio no Brasil não seria má ideia, se até carrascos nazistas conseguiram se esconder por aqui, quanto mais uma pessoa bem-intencionada (até onde se sabe) como Snowden. A chave disso tudo é que Snowden está enrascado – os países ocidentais, mesmo que ultrajados com a espionagem norte-americana, jamais vão conceder asilo pelo risco que correm de sofrer retaliação dura do Tio Sam. Mesmo a Venezuela, que em outros tempos aventava essa possibilidade, não tem mais a figura de Chavez (pelo menos, pessoalmente) para espezinhar os EUA e certamente não iria querer enfurecer seu maior comprador de petróleo em tempos de crise econômica. Restariam os países que são declaradamente “contra” os EUA, como um Irã ou Coreia do Norte, mas pelo fato de Snowden ter feito o que fez pelo bem da liberdade de informação e proteção de direitos individuais, essa possibilidade parece bastante improvável, pra não dizer ridícula. 

Uma boa aposta seria justamente o Brasil. Foi o país que mais mostrou indignação com a espionagem (a ponto de gerar um mal-estar na Assembleia Geral da ONU), está junto da Alemanha em uma possível revisão da governança da internet, e tem todo um histórico de proteção a refugiados. Já existem movimentações para aceitar essa “proposta”. A grande dúvida é se o Brasil poderia realmente aceitar a vinda de um procurado com embasamento relativamente sólido em sua acusação, e arrumar mais uma briga com Washington de lambuja. Planejar sua política externa com a previsão de decadência da potência americana (como o Brasil andou fazendo, e equivocadamente) é uma coisa, dar abrigo a um dos homens mais procurados dos EUA e ensejar uma crise diplomática e política severa, outra bem diferente. A única certeza disso tudo, apesar de ter feito um grande serviço ao mundo (dependendo do ponto de vista), Snowden está frito. E pode levar um país junto dele.


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Imagem da Semana

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Fonte: Notícias/Terra

Temos nesta semana aqui na Página Internacional uma imagem “presidenciável”. Trata-se de foto divulgada hoje pelo atual senador Fernando Collor em sua página no Facebook. Nela, além do dito cujo, estão a atual presidente Dilma Rousseff e os “ex” José Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. 

A foto foi tirada dentro do avião presidencial durante viagem à África do Sul para as homenagens e o funeral de Nelson Mandela, falecido no último dia 05 de dezembro. 

Com exceção de Dilma, que está com feição de intelectual e magistrada, todos apresentam seus colarinhos brancos. FHC, com um sorrisinho neoliberal, Lula “abraçando” Sarney – este com ar de quem não aguenta mais a política brasileira – e Collor, que ainda tenta esquecer 1992, registram um bom apanhado de quase trinta anos de presidencialismo brasileiro.


Estratégia franco-brasileira

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Em clima amistoso, vimos um cordial François Hollande visitar o Brasil essa semana, retribuindo visita de Dilma a Paris no final do ano passado e buscando estreitar as relações franco-brasileiras em diversos domínios estratégicos.

Aspectos diplomáticos da visita à parte, economicamente a França é o quarto país que mais investe no Brasil, apresentando ainda o sexto maior Produto Interno Bruto do mundo. E Hollande reiterou, presencialmente, o interesse francês em ampliar seus negócios com o Brasil. Notadamente, vimos o destaque da mídia em relação ao lobby para a bilionária negociação dos jatos militares que se arrasta há meses – e deve continuar incerta até 2015, dadas as diferentes prioridades assumidas em ano eleitoral.

Os jatos “Rafale” fabricados por empresa francesa competem com outros modelos fabricados pela Suécia (!) e pelos Estados Unidos pela preferência brasileira. Antes favoritos, os jatos yankees ficaram à mercê do debate sobre espionagem, já que nossas relações com os ‘amigos do Norte’ esfriaram depois das recentes denúncias na mídia.

Aliás, Hollande também vem em momento propício para juntar-se ao coro anti-espionagem-estadunidense, procurando aproveitar-se disso também para reerguer sua popularidade decadente na França, já que ser considerado o presidente mais impopular do país desde 1958 não é um título desejado por nenhum líder mundial…

Com a visita, foi ainda assinado um interessante acordo de “visto mochileiro”, possibilitando a estadia de jovens brasileiros na França (e vice-versa) por um período de um ano com a possibilidade de trabalhar. Iniciativa interessante que amplia o intercâmbio, promove oportunidades aos jovens e, consequentemente, aproxima ainda mais os países.

Para Dilma, a visita de Hollande vem ainda revestida de um forte caráter político, evidenciando o interesse brasileiro em manter/ampliar suas relações com os países desenvolvidos enquanto assume seu papel de líder dos emergentes. Trata-se de parceria visualizada como estratégica para ambos os lados, cada qual em busca do reforço de suas prioridades por meio de laços que, ano a ano, vem vislumbrando novos horizontes. 


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Acordo histórico

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Nos últimos anos, qualquer menção à Rodada Doha seria utilizada como sinônimo de fracasso, reunião interminável ou impossibilidade de consenso. Não mais. Vemos, em momento dito histórico, o primeiro acordo firmado no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) desde o início de suas atividades, em 1995.

Sob a Diretoria-Geral do brasileiro Roberto Azevêdo, a Rodada Doha foi “destravada” com o “Pacote de Bali” ou “Doha Light”, adotado por consenso entre os 159 membros da organização, na última reunião ministerial ocorrida essa semana em Bali, na Indonésia. Consenso que não é e nem nunca foi simples, repleto de reviravoltas e dificuldades de negociação, mas que foi, finalmente, após quase duas décadas, alcançado nos termos deste pacote.

De fato, os elementos acordados representam menos de 10% das ambições originais de Doha na facilitação comercial, mas trazem consigo o que foi chamado por Obama de “rejuvenescimento do sistema multilateral de comércio”. Sistema multilateral que, reconhecidamente, ainda tem muito que avançar, mas cujos resultados finais não podem ser visualizados em um bloco único, mas sim em blocos fragmentados de conversação, sendo o acordo de Bali histórico, portanto, principalmente neste sentido.

Restaurar a crença no poder do multilateralismo e nos benefícios da cooperação global na esfera comercial significa restaurar os laços para futuros acordos – nunca fáceis, dados os interesses de todas as partes envolvidas – mas não por isso impossíveis de serem alcançados.

O acordo aprovado possui três elementos essenciais: “agricultura, com um compromisso de reduzir os subsídios às exportações; a ajuda ao desenvolvimento, que prevê uma isenção crescente das tarifas alfandegárias para os produtos procedentes dos países menos desenvolvidos, e a facilitação de intercâmbios, que pretende reduzir a burocracia nas fronteiras”.

No âmbito da “agenda para o desenvolvimento” da OMC, os ganhos principais envolvem a redução dos trâmites alfandegários e burocráticos que dificultam relações comerciais, reduzindo custos e atrasos e viabilizando a geração de empregos – instituto estadunidense estima em ganhos mundiais após o acordo da ordem de US$ 1 trilhão e a geração de 20 milhões de empregos.

Com a ambição de renovar a credibilidade de uma organização cuja imagem desgastou-se principalmente nos últimos dez anos, vemos um Azevêdo empenhado e empenhando-se em facilitar consensos, trazendo novo ar à instituição por meio do apoio de seus membros. Ao negociar temas tão sensíveis, a imprevisibilidade impera e os interesses são muitos, nem sempre mútuos. Bali é só o início na esperança de maior flexibilidade comercial por parte dos países desenvolvidos. Acordo histórico, impulsionando novas páginas na história da OMC… 


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Na contramão?

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Nos últimos anos, desde a crise de 2008 (que parece ter sido há uma eternidade mas ainda está repercutindo), quando se fala do noticiário europeu as notícias são quase sempre negativas, com as reclamações dos países que estão pagando pela incompetência dos devedores (leia-se, Alemanha) e lamúrias dos que precisam cumprir as regras do jogo, estão devendo até as calças e precisam praticar a austeridade. Nisso tudo, a União Europeia acaba vilanizada, seja por proporcionar a necessidade desse arrocho fiscal, seja por causar gastos aos bons pagadores para salvar outros países. A Inglaterra sorri de orelha a orelha por não ter caído nessa “armadilha” monetária. E na maioria das vezes vemos o risco é de países saírem da zona do Euro… mas eis que um país em crise está fazendo exatamente o oposto, e aqui entra a discussão sobre a Ucrânia.

Já falamos algumas vezes do país eslavo por aqui. A ex-presidente Yulia Timoschenko foi a última grande manchete, quando acusada de corrupção foi presa e, suspeita-se, vítima de tortura. A prisão, considerada arbitrária por muitos observadores internacionais, mostra o grau de turbulência por que passa o celeiro da Europa, com a oposição e o presidente Viktor Ianukovich trocando farpas das mais afiadas. Ianukovich (outrora aliado de Timoschenko) é pró-Rússia, e em tempos de crise (e a condição que a ex-presidente fosse libertada), mandou a UE catar coquinho e optou por buscar arrego com Moscou, anulando um acordo de adesão que gerou protestos e revolta no país, resultando em violenta repressão policial e ainda mais protestos em consequência (conhecemos bem essa equação aqui no Brasil lá pelos idos de junho). 

A relação da Ucrânia com a Rússia é visceral. Os países mantêm laços econômicos estreitos, na verdade, a própria origem do Império Russo (séculos atrás) se deu em território ucraniano, para depois começar a se expandir setentrionalmente. Foi apenas com a desintegração da URSS que o país se “desligou” formalmente do gigante euroasiático, e isso foi uma das maiores perdas russas com o fim de seu império socialista (indo de aspectos econômicos, como os recursos agropecuários e minerais, até mesmo ao futebol, já que a Ucrânia era a fonte de uma estirpe de jogadores de alto nível). A relação é, obviamente, controversa – por exemplo, existe uma lei de 2012 sobre o ensino da língua russa que causa discussões exaltadas (e pancadaria) até hoje no país. 

Essa sombra da “dominação” russa é o que faz a população ucraniana se revoltar. Não bastasse a dependência econômica, agora estaria voltando a acontecer ingerência política. Como vemos diariamente nos jornais, a entrada na UE certamente não seria pela estabilidade do bloco (apesar de possivelmente trazer grandes benefícios ao país). A revolta com o cancelamento é muito mais uma mensagem de reprovação ao alinhamento com Moscou, que parece interessar apenas a membros do governo de Ianukovich e à própria Rússia, enquanto a população fica à mercê dessa crise econômica e política. A prisão de Timoschenko já era um sinal de que as coisas já não iam bem no país, e esse ambiente de revolta e descontentamento pode ter um desfecho ainda mais impactante que os protestos do meio do ano por aqui.


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Post Especial: homenagem a Nelson Mandela (1918-2013)

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“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar” (Nelson Mandela) 

O dia 05 de dezembro de 2013 entra, a partir de hoje, para a história. Faleceu agora há pouco o primeiro presidente negro da África do Sul, ganhador do Nobel da Paz e símbolo da resistência contra o Apartheid – política de segregação racial adotada no país durante grande parte da segunda metade do século XX –, seja ele um dos maiores ícones pacifistas de nosso tempo: Nelson Mandela, então com 95 anos. 

“Madiba”, como era carinhosamente apelidado, já se encontrava em precárias condições de saúde, tendo sido internado cinco vezes no decorrer dos últimos dois anos. A causa de sua morte adveio de infecção pulmonar. Vai-se uma das maiores personalidades do último século. Um ícone, um idealista feroz na defesa dos direitos humanos. O líder que tentou trazer aos sul-africanos um pouco de paz em meio a regimes segregacionistas e racistas. 

Em decorrência de sua luta ferrenha por maiores direitos da população negra, passou 27 anos da vida aprisionado. Após este período, tornou-se presidente de 1994 a 1999, tendo rejeitado permanecer no cargo mesmo com 80% de aprovação da população. Era simples e humilde: doava um terço do salário para fundação de caridade criada com o dinheiro do Prêmio Nobel da Paz de 1993. 

“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”, afirmava Mandela. Nasceu em 1918, formou-se em Direito em Johanesburgo e logo criou uma instituição chamada Liga da Juventude. Em 1958 foi preso acusado de traição, conseguiu escapar, mas anos mais tarde foi condenado à prisão perpétua. Neste período as manifestações ocorriam em peso no país, a exemplo do acontecido no famoso “Levante de Soweto”, episódio em que mais de quinhentos estudantes negros foram mortos em meio a passeatas pacíficas. Foi liberado em 1990, sendo que três anos mais tarde fora decretado o fim do Apartheid. Depois, conforme dito acima, tornou-se presidente e retirou-se da vida pública em 2004. Teve suas últimas aparições públicas durante a Copa do Mundo de 2010 e recentemente quando estava saindo de hospital em Pretória ao lado do atual presidente Jacob Zuma. 

De palavras finais, ficam as do presidente norte-americano Barack Obama, ganhador contestável (e político) do Nobel da Paz em 2009. Segundo ele, Mandela atingiu mais do que seria esperado de qualquer homem e, a partir de hoje, não mais pertence a nós, mas sim às eras. Seria muita pretensão admitir que há possibilidade de haver outros líderes do porte de Mandela. Figura-se ao lado de Gandhi e Luther King, outros inigualáveis. Que ele continue servindo e deixando seu legado no combate a um dos maiores males existentes a nível mundial: a intolerância. Vai-se o homem, permanecem seus ideais.


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