Black Friday

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E chegou o grande dia esperado por milhares de brasileiros. Ir a alguma loja física ou praticar o e-commerce com descontos de até (grifo meu) 70% sobre o preço real. Já peço desculpas pelo bordão: “Só que não!”. Teoricamente a Black Friday é o dia do ano com as maiores promoções e descontos do comércio, mas na prática, aqui no Brasil, isso está longe de ser real. 

A “sexta-feira negra” foi criada nos Estados Unidos em 2005 como tentativa dos comerciantes e empresários em alavancar as vendas sempre no final de novembro e logo após o feriado de Ação de Graças, o qual é muito comemorado e exaltado por lá. Para os norte-americanos, estar com orçamento no “black” significa um bom sinal e é sinônimo de lucros (não sabia disso até hoje e não me pergunte o porquê). Com o passar dos anos, o dia tornou-se internacional, diga-se de passagem, e atualmente ocorre em vários outros países como Canadá, Austrália e Reino Unido. 

Obviamente, rumou ao Brasil, até porque não só programas de tevê como “Big Brother” e “The Voice” são copiados por estas bandas. Carece de fontes, mas se estima que tal evento foi inaugurado aqui em 2010, sendo que me lembro somente do realizado em 2012. Virou sinônimo de piada, falsas propagandas e “feriado pré-natal” em virtude de vários lojistas aumentarem o preço na véspera e jogarem descontos em valores mais altos. 

Como se já não bastasse, agora em 2013 a Black Friday virou “meme”, algo viral e que ficou popular em muito pouco tempo na internet e redes sociais. A sexta-feira virou Black Fraude, “Tudo pela metade do dobro”, “Black Friday é uma cilada, Bino”, “Black is a Trap” e assim por diante. Hoje, no Facebook, só se fala disso e nada mais. É gente tentando vender e o PROCON tentando orientar os consumidores para não trocarem coelhos por lebres. 

Nada mais internacional do que a Black Friday, né? Saiu da terra do Tio Sam, vem rumando para outros países e serve como mais um dia para todo mundo comprar coisas que, por vezes, seria desnecessário. É aquela história de já aproveitar o fim do ano com presentes de Natal e propagar a ideia de que adquirir itens “x” é bom demais (e em algumas ocasiões não deixa de ser verdade). Até o Greenpeace lançou a campanha Green Friday para criticar o consumismo da “sexta-feira negra” e defender a preservação das florestas. 

Pode esperar que daqui uns tempos surgirão Yellow Friday, Blue Friday, Purple Friday, etc. O nome em inglês fica mais bonito e sempre haverá pessoas comprando a ideia. Tomara que essas não virem fraude, independentemente do motivo de suas existências.


Categorias: Brasil, Economia, Mídia


Um caminho para o futuro

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Está havendo muito auê por conta do acordo provisório entre EUA e Irã sobre o programa nuclear deste, mas será mesmo um daqueles momentos de inflexão histórica? Vamos por partes. Pra quem vive embaixo de uma pedra ou ficou longe dos jornais na última semana, os dois países firmaram um acordo em que o Irã se compromete a cumprir algumas exigências (que praticamente paralisam seu programa nuclear) em troca do alívio de algumas das sanções econômicas que castigam o país por conta dessa aventura. 

Vendo por cima parece algo muito bom, mas tem muitos problemas por trás. Não foi algo feito de uma hora para a outra – inclusive diz-se que as negociações “secretas” começaram ainda na época de Ahmadinejad. Apesar de ser considerada uma vitória para a estabilização da região, a maioria dos países da região (incluindo Israel e Arábia Saudita) são contra, assim como a maioria do Congresso nos EUA e a Guarda Revolucionária do Irã. E na prática os países nem retomaram as relações oficiais (rompidas em 1979), estão apenas mantendo um canal de diálogo, e se o Irã pisar na bola as sanções voltam e ainda piores. Na verdade, parece surpreendente como algo assim tenha saído, para começo de conversa, e isso se deve principalmente ao impacto que as sanções tiveram na economia iraniana. Mesmo a eleição de um moderado como Rohani não teria tanto impacto para isso quanto massas de desempregados pelas ruas. 

O que isso pode mudar na geopolítica da região? Vamos lembrar que até a queda de Saddam Hussein, os três grandes polos de poder no Oriente Médio eram Arábia Saudita, Iraque e Irã. Os três inimigos uns dos outros, e se contrabalanceando. A queda de Saddam resultou em um governo xiita que se alinhou a Teerã e a polarização rompeu o equilíbrio regional, reduzindo as alianças a amigos de Irã ou Arábia Saudita/países do Golfo. Mas como tudo no Oriente Médio é complicado, as questões religiosas e étnicas podem colocar aliados em lados opostos e aproximar inimigos. A questão do terrorismo pode ser a grande chave para entender o futuro, já que o movimento salafita (presente na Líbia e no Iraque, principalmente) é inimigo de praticamente todo mundo por lá, de Assad à Arábia Saudita. 

Uma aproximação com o Irã, se der certo, pode mudar completamente o rumo da política regional. Claro que Israel e os sauditas vão espernear, mas com os favores dos EUA, uma possibilidade de relação aceitável entre Washington e Teerã pode ter um impacto muito positivo em longo prazo, seja por evitar um conflito armado na região, seja por acabar com o poder de barganha e jogo duplo das monarquias do Golfo. Ainda tem muita água para rolar nos próximos seis meses (a data de validade do acordo), mas vão ser meses incrivelmente agitados na política mundial. Dependendo do resultado, Obama pode finalmente deixar sua marca na história e fazer valer aquele Nobel da Paz.


Categorias: Conflitos, Defesa, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Política e Política Externa, Segurança


Por uma cultura de não violência

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“Existe apenas uma verdade universal, aplicável a todos os países, culturas e comunidades: a violência contra as mulheres nunca é aceitável, nunca é perdoável, nunca é tolerável.” 

Ban Ki-Moon, Secretário-Geral das Nações Unidas 

A mensagem de Ban Ki-Moon reflete o espírito de 25 de novembro: Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher. Esta data foi instituída em 1999 pela Organização das Nações Unidas (ONU) em homenagem às irmãs Mirabal (Pátria, Minerva e Maria Teresa Mirabal), três dominicanas ativistas políticas que, ao se oporem à ditadura de Leonidas Trujillo (1930-1961), na República Dominicana, foram brutalmente assassinadas em 1961.

A história de valentia destas mulheres alcançou repercussão para um problema que, mesmo nos dias de hoje, frequentemente permanece inaudível e invisível aos olhos da sociedade. Os números que ilustram o cenário atual de violência contra a mulher, contudo, não passam despercebidos. Pelo contrário, são impressionantes.

Segundo a ONU, aproximadamente 70% das mulheres no mundo sofrem algum tipo de violência ao longo da vida, sendo que existem cálculos que apresentam a triste estatística de que uma em cada cinco mulheres no mundo se tornará uma vítima de estupro ou tentativa de estupro na vida. Em casos de conflito, a prática da violência sexual se torna recorrente: no caso da República Democrática do Congo, cerca de 1.100 estupros são relatados por mês – uma média que choca e traz à tona a gravidade do tema.

Na própria ONU, existe o segmento ONU Mulheres, antes presidido pela chilena Bachelet e agora pela sul-africana Phumzile Mlambo, dentro do qual existe uma comissão específica sobre o Status da Mulher, cúpula que revisa os progressos na luta pela igualdade de gênero e pelo empoderamento das mulheres no mundo, também se dedicando à avaliação de estratégias para eliminação da violência contra a mulher.

No Brasil, a Lei Maria da Penha é uma das mais conhecidas pela população no país, completando 7 anos de existência para encorajar a denúncia de violência contra mulheres no ambiente doméstico – onde grande parte dos casos ocorrem, a Justiça não chega e a vergonha ou o temor usualmente inibem qualquer iniciativa por parte das vítimas.

Que este 25/11, hoje ainda necessário para a conscientização e denúncia dos casos de violência contra mulheres, possa vir um dia a se tornar, na verdade, uma data de celebração da cultura de não violência pelo mundo afora na medida em que o assédio – de todo tipo – deixe de constituir parte da rotina feminina… 


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Organizações Internacionais


Imagem da Semana

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Fonte: Carta Capital


Neste mês de novembro ainda não havíamos postado nossa coluna “Imagem da Semana”. Assim, é impossível deixar de mencionar a tragédia ambiental ocorrida nas Filipinas, seja ela o Tufão Haiyan que chegou à velocidade de 315 km/h na costa leste do país. 

Até o presente momento foram registradas cerca de cinco mil mortes, caracterizando o pior desastre natural da história filipina. Organizações internacionais e não governamentais como as Nações Unidas, o Banco Mundial e o Médicos Sem Fronteiras estão atuando para tentar minimizar o sofrimento local. 

Mais de mil pessoas estão desaparecidas e o prejuízo econômico gira em torno de 270 milhões de dólares. Fenômenos climáticos desse tipo são comuns na região, mas fiquemos na torcida para que nunca mais ocorra outro Haiyan.

Fonte: Yann Libessart (Médicos Sem Fronteiras/MSF)


1º Conferência de Mercados em Destaque: BRICS e outros emergentes

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Caros leitores,

Gostaríamos de convidá-los para a 1º Conferência de Mercados em Destaque: BRICS e outros emergentes, evento organizado pelo nosso parceiro, Prisma Consultoria Internacional, a ser realizada entre os dias 25/11 e 27/11, na PUC-SP, no Auditório 239, prédio Bandeira de Melo, R. Ministro de Godoy, 969 – Perdizes.

O foco do debate será, primordialmente, a adaptação às mudanças na dinâmica da economia mundial pelos representantes de Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e República da Coreia.

Entre esses desafios, serão abordadas questões como: demanda doméstica versus exportação como motor do crescimento, falta de abertura, protecionismo, dependência e vulnerabilidade; novas possibilidades de cooperação através de tratados; novas oportunidades de comércio Sul-Sul; commodities versus manufaturados; ampliação de pauta de exportação e políticas de investimentos e transferência de informação e tecnologia .

As palestras acontecerão tanto em português, quanto em inglês, não havendo tradução simultânea. Haverá emissão de certificados.

Abaixo o cronograma do evento. Confiram:

PROGRAMAÇÃO:

Dia 25 – África do Sul, China e Índia

17h45-18h: Credenciamento

18h:

G V Srinivas (Cônsul Geral da Índia no Brasil) Willem Van der Spuy (Consul Comercial do Consulado Geral da África do Sul em São Paulo) Daniel Lau (Diretor da KPMG na América do Sul) Auro Pagnozzi (Diretor Corporativo do ICBC- Industrial and Commercial Bank of China)

19h30: Coffee Break

Dia 27 – Coreia do Sul, Turquia e Brasil

17h45-18h: Credenciamento

18h: Jean-Claude Silberfeld (Diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da FECOMERCIOSP – Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo) Suk Soo Jung (Gerente no KOTRA – Korea Trade-Investment Promotion Agency) Ramazan Kısa (Adido Comercial do Consulado Geral da Turquia em São Paulo) Mustafa Goktepe e Yusuf Elemen (Centro Cultural Brasil-Turquia)

19h30: Abertura Coffee Break

INSCRIÇÃO: As inscrições devem ser feitas através de preenchimento obrigatório de formulário.

Realize sua inscrição através desse link: https://docs.google.com/a/prismajr.com/forms/d/11VG4v4ViRyFwKrp4W7sSK6d_R5ZlV8tmn0zvGrqfbiQ/viewform

*Os palestrantes podem ser alterados sem aviso prévio. Qualquer mudança será prontamente atualizada no evento do Facebook ( https://www.facebook.com/events/474470429335860/?fref=ts ) ou no site da Prisma Consultoria Internacional ( http://www.prismajr.com/ )


Categorias: Post Especial


O preço do inevitável

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Na semana com o noticiário tomado pelo desastre do tufão nas Filipinas, fica a perplexidade por conta da força impossível de ser contida da natureza e pela perda incalculável de vidas humanas. Infelizmente, é quase impossível deter esse tipo de tragédia, e condições sociais menos privilegiadas geralmente resultam em hecatombes como essa, com número oficiais computando mais de 4 mil mortos, mas com estimativas na casa das dezenas de milhares. 

É possível até fazer uma ligação com a questão do desenvolvimento. O vencedor do prêmio Nobel Amartya Sem dizia que desenvolvimento é o mesmo que provisão de liberdades básicas (como o direito de ir e vir, participação política, a liberdade de poder se alimentar plenamente, etc.). Na sua visão, não é necessário que se tenha dinheiro para ser “desenvolvido” em alguns casos, mostrando como mesmo em países ricos temos minorias com qualidade de vida ruim comparada a certas populações de países pobres. Mas, sem querer contrariar um pensador desse calibre, há casos em que dinheiro ajuda muito, e basta comparar a tragédia das Filipinas com o que aconteceu no Japão em 2011. 

O nível de destruição foi parecido nos dois países (que têm até uma configuração parecida, sendo arquipélagos e tudo mais), apesar de haver um componente dramático no caso japonês por conta do vazamento radioativo, mas as dificuldades após a tragédia lá foram um pouco menores, pois a logística funcionou melhor, e o acesso das equipes de resgate foi mais rápido. Nas Filipinas, por mais que haja uma certa preparação e que o país seja atingido regularmente por eventos desse tipo (o Hayian nem é considerado o pior desastre de sua história pra ver como a coisa é feia), a infraestrutura foi abalada e o acesso é restrito, com falta de alimento e água, cadáveres pelas ruas e riscos à saúde dos sobreviventes. Em ambos os casos houve ajuda internacional, mas um fator primordial acaba sendo aquilo que havia antes do desastre, e nem temos como comparar a infraestrutura do Japão com a das Filipinas. 

No fim das contas, é mais um daqueles desastres que entra na conta dos países em desenvolvimento, onde o número de vítimas (com exceção e casos excepcionais) é sempre maior do que em países desenvolvidos enfrentando situações semelhantes, e essa realidade de disparidade econômica tem efeitos reais quando ocorre o inevitável.


Categorias: Ásia e Oceania, Assistência Humanitária, Direitos Humanos


A dupla imbatível

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Congestionamentos em feriados prolongados tornaram-se habituais no Brasil

Fonte da imagem: Renato Cerqueira/Futura Press


Já é de praxe aqui no Brasil. Se tem feriado, ainda mais feriado prolongado, os congestionamentos no trânsito das grandes cidades e no litoral aparecem como “bônus”. Ontem não foi diferente e hoje, dia da Proclamação da República, a dupla imbatível voltou a aparecer. Na cidade de São Paulo registrou-se o maior congestionamento da história com aproximadamente 310 km de filas, o que equivale a quase 36% de todas as vias municipais monitoradas pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). 

São Paulo é um caso clássico. Mas congestionamentos em feriados também ocorrem com frequência no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e várias outras capitais. E no litoral nem se fala, sentido Santos e Ubatuba sempre é um caos. Mas, afinal, quais seriam as explicações para esses acontecimentos? Gestores públicos sempre argumentam que não existe possibilidade de acabar com o intenso tráfego durante feriados por uma questão simples: é muita gente para pouco espaço. 

E isso acaba sendo a realidade de grandes cidades brasileiras e ao redor do mundo. É a ótica da aglomeração. Não é algo anormal, diga-se de passagem, só que cada vez mais muda-se a paisagem das cidades e emergem aqueles arranha-céus gigantescos. Novamente, de “bônus” vem acompanhada a famosa bolha imobiliária brasileira já afirmada por muitos, inclusive pelo ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Por experiência própria, vi isso em Brasília de forma cabal. Não consigo entender porque um aluguel de uma kitnet de 25 m² varia em torno de 800 reais por mês (sem contar condomínio) e porque o valor do m² no Plano Piloto às vezes ultrapassa 12 mil reais. Enfim, volto à pergunta feita anteriormente. 

Congestionamentos em feriados continuarão existindo, mas refletem a ótica de um problema há muito conhecida aqui no Brasil: questão de mobilidade urbana. Nosso país é comandado por transporte terrestre, ruas, avenidas e rodovias. E, mesmo assim, basta sair do estado de São Paulo para ver o quão precárias algumas dessas se encontram. É o reflexo de um mau planejamento absurdo e total descaso por parte de autoridades públicas responsáveis para tanto. 

Vejamos alguns números. Nos estados do Sul, São Paulo e Distrito Federal há uma média de três habitantes para cada carro. Em São Caetano do Sul, existe um carro para cada 1,6 habitante. São Paulo precisaria mais do que duplicar a área de ruas para que todos os veículos circulassem ao mesmo tempo!! De 2001 até 2012 o número de carros no Brasil cresceu 104,6% para 50,2 milhões de unidades, algo muito superior ao próprio crescimento da população, de acordo com dados da Revista Carta Capital (n. 774). Tudo isso acompanhado por propagandas de concessionárias que vendem a ideia de “sucesso = carro”, mais um incentivo aqui e ali do governo para baixar o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). O resultado é isso: falta de estrutura para um consumo por vezes desnecessário. Quando a bomba explode? Nos feriados! Dupla imbatível! 

Há ainda números sobre outros tipos de mobilidade urbana que assustam. Tóquio, Nova Iorque, Pequim e Londres possuem linhas de metrô que ultrapassam a marca dos 300 km. No Rio são 44 km acompanhados por 74 km na capital paulista. Os ônibus são uma alternativa precária e, na grande maioria, utilizados somente por aqueles que os veem como recurso necessário e não por livre escolha. Quem usa metrô e ônibus é a massa trabalhadora. Ninguém gosta de entrar em lata de sardinha. Daí entra a questão do carro: vejo a propaganda e penso: “Vou comprar meu carro, abaixar o vidro e ligar o ar-condicionado”. E o mundo lá fora respira… 

Poderia citar, também, as ciclovias e bicicletas. Prefeituras tentam implementar inúmeros projetos para torná-las viáveis, mas é difícil sair do papel para adentrar o cotidiano das pessoas. Infelizmente, estamos acostumados com a realidade dos motores. 

Por fim, recapitulando a pergunta, não podemos apenas afirmar que a máxima “muita gente para pouco espaço” é a resposta única para o grande número de congestionamentos em feriados prolongados brasileiros. O que existe é um processo duplo: primeiro, negligência governamental e, segundo, negligência da população. Falta recurso e falta infraestrutura pública. Todavia, não podemos deixar de lado o fato de existir essa consciência “sucesso = carro”. Faltam faixas de ônibus, linhas de metrô, ciclovias e ciclofaixas… E faltam caronas, integração. O pior de tudo é que demandará tempo para uma mudança da nossa mentalidade.


Categorias: Brasil


Há um ano...

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Há um ano, as discussões no blog passavam por diferentes cantos do mundo. Destacando alguns dos principais pontos, temos um interessante post sobre François Hollande, então com apenas seis meses cumpridos de mandato na França, em que já se destacavam alguns elementos contraditórios em sua forma de governar. A partir de um discurso tido como esquerdista, Hollande foi eleito por franceses esperançosos por mudanças após a emblemática era Sarkozy. Após um ano e meio de governo, ele está sendo avaliado hoje como o presidente com menor apoio da população em 30 anos (!) – pior que o próprio Sarkozy… os anos vão delineando a política de uma forma imprevisível (ou alguém imaginava isso?) na França.

Já previsível, contudo, era a falta de perspectivas para o término do conflito na Síria. Infelizmente, o título do post de um ano atrás (“Nada de novo na Síria”) poderia ser o título de um post sobre o tema essa semana. Se naquele momento o número de vítimas fatais era estimado em 36 mil, neste ano vimos a cifra quintuplicar, chegando a mais de 115 mil mortos atualmente e milhões de refugiados nos países vizinhos e pelo mundo afora. Com metade da população na miséria, estamos vendo a destruição de um país sem que nenhuma medida efetiva consiga evitar os danos. Em um pós-guerra que ainda não consegue ser visualizado, as dificuldades certamente persistirão por anos a fio até que esses momentos façam parte de lembranças longínquas.

Já na América Latina, há um ano apresentávamos um embate argentino que persiste entre o governo e os meios de comunicação, mais precisamente o Grupo Clarín (a “Rede Globo” da Argentina). A batalha envolve a “Lei da Mídia” promulgada em 2009 e contra a qual o grupo tem lutado incessantemente, já que a legislação obrigaria o Clarín a se desfazer de licenças tanto de rádio como de televisão, respeitando uma série de limitações que visam evitar o monopólio dos meios de comunicação. Ontem, poucos dias depois de derrota na Corte Suprema de Justiça do país, foi apresentado (a contragosto) pelo Grupo Clarín plano de adequação voluntária à lei. O assunto ainda deve gerar discussão por lá – e bem que a moda podia contagiar os demais países da região…

Postando, relembrando e avaliando o que o tempo traz de novo em temas já discutidos no blog, seguimos com o “Há um Ano…” na Página Internacional! 


Categorias: Américas, Conflitos, Europa, Há um ano...


A arte de ser mulher

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Sim, ser mulher é uma arte. O gênero não deveria, por si só, determinar tamanha discrepância de oportunidades, porém, (ainda nos dias de hoje!) os desafios do dia-a-dia contradizem as aspirações ideais de uma sociedade igualitária. Um longo caminho vem sendo percorrido nas últimas décadas em meio à luta das mulheres – em suas mais diversas realidades – pelo reconhecimento de direitos básicos, humanos, que nunca deveriam estar subordinados a exigências (artificiais) de gênero.

Segundo um relatório sobre desigualdades de gênero produzido e divulgado recentemente pelo Fórum Econômico Mundial, a Islândia é o “melhor país para ser mulher” no mundo. O país nórdico lidera um ranking de 136 países em que são elencados os elementos determinantes para uma sociedade em que homens e mulheres têm acesso igualitário garantido aos seus direitos. Os eixos avaliados incluem, majoritariamente, o poder político, a participação econômica, e o acesso à educação e à saúde – englobando, na amplitude de tal análise, os aspectos essenciais da vida em sociedade. [Confira o estudo completo aqui.]

Com o Iêmen (não surpreendentemente) em último lugar, e o Brasil assumindo uma tímida 62ª posição (idêntica à do ano passado, aliás), é reconhecido que o histórico islandês não foi alcançado sem lutas e sem a determinação de 90% das mulheres (!) que, em 1975, saíram às ruas para protestar. Paralisação que marcou o histórico feminista no país e que reflete a importância de que todas as vozes sejam ouvidas na participação na política e no mercado de trabalho.

Dizer que não houve mudanças históricas no Brasil seria também negligenciar os fatos. Se em 1979 não havia nem banheiro feminino no Senado (!!!), por exemplo, em 2011 tomou posse a primeira presidenta do país. Nesse ínterim, o relatório reconhece os avanços brasileiros na área de educação das mulheres, contudo, no que se refere à igualdade salarial, o Brasil ainda ocupa a 117ª posição da lista (do mesmo total de 136 países): um índice que impressiona (negativamente) e que demonstra que ainda temos muito a aprimorar, em muitos aspectos…

Na busca de quebras de paradigmas no mundo, é notável ainda o exemplo da jovem Malala, paquistanesa que, ao tentar ser silenciada, se tornou, paradoxalmente, a voz mais ouvida na luta pelo direito das mulheres à educação em seu país. Os países do Oriente Médio e do Norte da África figuram notoriamente no final das classificações, já que reconhecidamente a mulher ainda sofre barreiras sociais muito maiores na região que em outras áreas do mundo.

Em face a um panorama de tal complexidade, são conquistas e desafios ainda em jogo que se destacam. [Interessante série de reportagens sobre o tema aqui.] Conquistas que não deveriam ser vistas apenas como “feministas”, mas sim “sociais”, já que compreender o papel da mulher na sociedade constitui, na verdade, um esforço de homens e mulheres em avaliar o acesso a seus direitos e ao reconhecimento de suas capacidades – as quais não estão (e nunca estiveram) condicionadas à questão do gênero.

Enquanto isso, o “ser mulher” continua representando uma arte: a arte de demonstrar seu potencial e conquistar seu espaço paritariamente com os homens no dia-a-dia, desvinculando o gênero dos preconceitos históricos que, infeliz e injustamente, sempre situaram as mulheres em posição de inferioridade na vida social. 


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Polêmica


Que se lixe a troika

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É mais um dos episódios desencadeados pelos fortes ajustes econômicos de um país endividado. Nesse caso, não há a necessidade de tradução. Os portugueses organizam manifestações com o objetivo de protestar contra o orçamento do país para 2014, no qual estão previstos cortes agressivos nos salários e nas pensões.  

Há cerca de duas semanas, o ex-presidente do Banco Central Europeu, Jean Claude Trichet, comentava a crise econômica na zona do euro. Para ele, muitos dos países do bloco atravessaram anos gastando mais do que arrecadavam, de forma a resultar em déficits públicossignificativos. Todo déficit público exige financiamento de alguém. Quando veio a crise econômica, os financiadores enxergaram riscos na continuação do financiamento dos déficits, em especial de alguns países, e decidiram impor condições estritas. 

Entre os afetados, estão Grécia, Espanha e Portugal. Os portugueses, assim, encontraram-se endividados e forçados a implementar um ajuste impopular. Na realidade, gastar mais do que se ganha provoca consequências tanto econômicas quanto sociais. No âmbito social, promove serviços e condições de vida superiores às que a economia do país permitiria. No âmbito econômico, gera desequilíbrios de duradouras consequências.  

A analogia com o endividamento privado, por exemplo de uma família, pode ajudar-nos a entender. Um agente privado endividado vai ter que cortar despesas, caso deseje retornar ao equilíbrio. Contudo, na mesma analogia surge outro questionamento. Para pagar uma dívida, deve-se trabalhar e gerar receita, para a família na forma de salário. Sem trabalho, por mais profundo que sejam os cortes, pouco se avança.  

Retomando a comparação anterior, a temida austeridade é isso. Os governos diminuem os serviços oferecidos aos cidadãos, cortam gastos com encargos e salários, além de aumentarem os impostos. Assim, gradualmente retomam o equilíbrio ao diminuir o déficit público. Por outro lado, nestes períodos há uma retração dos agentes privados devido à incerteza. Por isto, o governo tem papel importante para não deixar a economia afundar mais do que deveria. 

Os países endividados, porém, não escolhem o que fazer. A troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI) traça metas ambiciosas para cortes das despesas. A margem para o governo agir e impedir a economia de colapsar fica restrita. Portugal, como os demais afetados, deveria pensar em reformas para incrementar sua competitividade e modernizar sua economia, fortalecendo suas bases para o futuro. Se no curto prazo os portugueses veem a economia entrar numa profunda recessão, poderia haver ao menos um melhor planejamento a médio-longo prazo.  

Os credores, no caso português a troika, querem mais é receber o que lhe devem. Enquanto isto, a crença nas instituições europeia diminui no mesmo sentido dos gastos sociais. No âmbito político, este fenômeno poderia ensejar um fortalecimento da extrema direita. Em Portugal, tendo em vista o não distante regime Salazar, esta tendência parece não se consolidar por enquanto. Consolida-se o “que se lixe a troika” e o repúdio à outrora promotora de boas novas, a União Europeia.


Categorias: Economia, Europa