Imagem da Semana

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E a imagem dessa semana representa, na verdade, um importante marco para a política brasileira. Foram celebrados hoje, em Brasília, os 10 anos do programa Bolsa Família [foto], iniciado durante o primeiro governo de Lula.

As críticas ao programa sempre existiram, e certamente sempre há melhorias a serem realizadas (especialmente no âmbito da transparência), mas a verdade é que o Brasil se tornou referência mundial no que tange às políticas sociais de combate à fome e à pobreza. Isso não significa que ainda não existam pessoas passando fome ou em situação de necessidade, contudo o avanço desta última década é inegável. 

O combate à fome e à miséria é o primeiro dos Objetivos do Milênio das Nações Unidas para 2015 e deve representar uma prioridade para o Brasil na busca de resultados sustentáveis. Espera-se que não apenas a estatística seja aprimorada, mas sim a realidade dos milhões de brasileiros que ainda carecem das mais básicas condições de vida para seu desenvolvimento pessoal e profissional. 


Qual pátria de chuteiras?

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Num ano em que pressões migratórias causam tragédias entre a África e a Europa, temos caso um pouco menos trágico, mas que vai chamar muito mais atenção da mídia que centenas de africanos mortos em praias do Mediterrâneo, devido à Copa do Mundo. Ontem, o jogador de futebol Diego Costa informou que não tem intenção de defender a seleção brasileira e isso está causando revolta tanto entre a comissão técnica (segundo a qual ele está “abrindo mão do sonho de milhões de garotos”) quanto nos torcedores. E se não parece uma questão das mais relevantes, traz alguns pontos de reflexão bem pertinentes. 

Talvez a principal “acusação” contra o jogador é de que seria “antipatriótico”, um “traidor”, e se ele realmente for jogar pela Espanha deve-se esperar todo tipo de apupos em 2014. Paixão de torcedor é uma coisa meio irracional mesmo (o termo “paixão” tem a mesma origem de “doença”), mas quando a comissão cria um clima de hostilidade devido à escolha da pessoa, já temos uma questão mais espinhosa. 

Jogadores mudando de país não são novidade alguma. O grande Puskas, maestro da Hungria de 1954, teve de fugir da opressão soviética e defendeu a seleção da Espanha (que parece ter esse costume de trazer talentos de fora) em outra Copa. Mudar de país e depois se envolver com a seleção local parece uma progressão aceitável. Claro que existem casos que chegam a ser cômicos, e até moralmente questionáveis, como os times de tênis de mesa nas Olimpíadas – das delegações que chegam às etapas avançadas, o espectador vai ver um monte de nomes chineses, já que maioria são atletas naturalizados para esta função especificamente. 

Claro, não parece ser o caso de Diego. O jogador que saiu cedo do país (e até cidadania espanhola tem). A “revolta” parece ser muito mais recalque ou mesmo temor pela má fase dos atacantes do time nacional. Mas… e se ele realmente tivesse escolhido a Espanha por fatores “imorais” como o dinheiro? Seria condenável? 

Muitas vezes, os jogadores que mudam de time ao tilintar das moedas são chamados de mercenários. Dá pra fazer uma analogia bem interessante sobre isso. Lá atrás, na sua obra mais conhecida, “O Príncipe”, Maquiavel recomendava aos governantes que nunca delegassem a defesa nacional a mercenários, justamente por que eles não teriam comprometimento com o Estado, e não estariam dispostos dar a vida apenas pelo vil metal – pior ainda, poderiam mudar de lado pelo mesmo motivo. 

Devemos a isso a acepção negativa que existe até hoje para o termo “mercenário”, mas é totalmente despropositado quando pensamos em esporte, e quanto mais em outras questões mais pungentes como guerras e catástrofes. Seja um jogador de futebol, de tênis de mesa, ou um engenheiro, ou um médico, ou apenas refugiados africanos em busca de melhores condições de vida – escolher um país diferente para residir e trabalhar, e sim, por causa de uma possibilidade de renda maior, e porventura decidir (de acordo com a lei) se tornarem cidadãos do outro país, não é nenhum tipo de imoralidade. 

Já que falamos de autores clássicos, vamos lembrar também de Immanuel Kant e seu cosmopolitismo – para o filósofo, todos os homens nascem iguais, são “cidadãos do mundo”, e possuem todos os mesmo direitos. Barreiras como idioma e nações são artificiais – todos teríamos o mesmo direito a poder transitar ou habitar em qualquer pedaço da Terra. E quando pensamos que o próprio nacionalismo, que parece alimentar o tipo de crítica levantado contra o jogador, é apontado por muitos atores como uma artificialidade, uma construção social que legitima o poder do Estado, fica ainda mais frágil manter qualquer tipo de censura. 

As pessoas são livres para escolherem onde querem ser felizes, seja para fugir de uma situação insustentável, seja para jogarem futebol. Já não bastasse a rejeição ao “estrangeiro” (vejam o caso dos médicos “importados” pelo Brasil), lidar com rejeição dos seus conterrâneos não deixa de ser uma violência. E a discussão que isso levanta vai muito além dos gramados.


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O grampo que une?

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Se informação é poder, hoje poderíamos afirmar que Edward Snowden lidera o ranking internacional de poderosos do mundo, que sabem o quanto valem seus trunfos e estudam as melhores estratégias para apresenta-los. E Snowden está conseguindo fazer mais barulho do que qualquer um jamais imaginou… a verdade é que o assunto da espionagem que antes “passava batido” por todos os grandes interlocutores mundiais veio a foco recentemente e, para azar de Obama, parece estar longe de sair dos holofotes.

A partir das informações vazadas por ele com a ajuda do jornalista Greenwald, o movimento questionador – impulsionado por Dilma após as revelações de espionagem a nível pessoal e estratégico no Brasil – está agora ecoando mais fortemente em território europeu. A revelação de possíveis escutas a celulares e grampos telefônicos a líderes de mais de 35 países geraram nítido desconforto nas relações com Estados Unidos e se tornaram o centro das atenções da Cúpula da União Europeia em Bruxelas na última semana. 

Merkel exigiu inclusive explicações por telefone por parte de Obama, o qual nega os feitos e se justifica como pode. Aliás, situação complicada de qualquer forma para ele já que, por um lado, se ele tinha conhecimento das operações da Agência de Segurança Nacional (NSA), as negativas e alegações de insinuação constituem uma grande farsa. Por outro, se efetivamente a Casa Branca não tivesse acesso a essas informações, trata-se de um lapso de quase cinco anos do presidente em um dos temas mais caros ao país. A primeira opção parece muito mais plausível.

Depois da Alemanha e da França, a última denúncia na Europa envolve a espionagem, por parte da NSA, de 60 milhões de ligações telefônicas na Espanha entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013 (!). Uma bomba atrás da outra, com um Snowden que alerta a que veio e que tem em suas mãos informação e informação privilegiada – sinônimo de poder para alterar o status quo internacional.

É claro que nenhuma das grandes potências é totalmente neutra nesta história e também tratam atenciosamente deste tema na agenda e os aliados dos Estados Unidos que se cuidem, sendo alertados pelo próprio governo dos Estados Unidos sobre isso.

Em meio a um debate que conta com jargões variando entre “restabelecimento da confiança” e “necessidade de averiguar denúncias”, as nações “amigas” dos Estados Unidos se veem em um momento delicado de gerenciamento das relações. Em momento de descontração na reunião europeia, Merkel chegou a afirmar ao belga presidente do Conselho Europeu que “sermos todos grampeados nos une” (!). Será? Talvez o próprio laço que sele esta união seja estadunidense sem que eles saibam… 


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O que 60 mil Almas Devem Ensinar

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Por vezes a distância territorial e cultural não nos permite, por mais informados que estejamos sobre o mundo e a realidade de um país específico, ao menos uma compreensão superficial destes. Os conflitos religiosos na Irlanda do Norte, os estupros e a proliferação da AIDS como arma de guerra na África ou a total falta de direitos das mulheres no Marrocos podem ser conhecidas facilmente, mas poucas vezes entendidas.

Na maioria das vezes apenas nos atemos a definições genéricas para cada assunto, enquanto na vida real e as relações que definem quem somos é mais complexa. Em certo momento, para todos que tentam conhecer as razões que definem as sociedades é necessário a utilização de todas as peças do quebra-cabeça social, mesmo enquanto analisamos uma única parte. Ainda mais quando se procura más características, como a quem busca compreender conflitos ou injustiças, temas em que as verdades são apagadas propositadamente dos livros oficiais e só levantadas às vezes por uma série de pensadores e críticos corajosos.

Entretanto, tudo pode parecer mais claro quando relacionamos injustiças sociais à como uma cultura ou uma sociedade que conhecemos profundamente foi estabelecida. Para completar um dos quebra-cabeças entre legitimação social de uma injustiça e como é estabelecida uma sociedade, utilizo um fato ocorrido em nosso país há apenas 30 anos atrás.  

O caso do hospital psiquiátrico de Barbacena e do tratamento de seus “pacientes”, ocorrido por quase um século, é o melhor exemplo que podemos utilizar. Os motivos para as internações da maioria que ali residiam, a vida que levavam dentro da instituição e, por fim, o baixo preço da existência dessas pessoas formam um quadro exato para a compreensão das injustiças sociais ligadas à cultura brasileira.

O hospital, que abrigou milhares de pessoas durante o século XX, foi responsável pela morte de pelo menos 60 mil pessoas, número que representa apenas os 15 anos em que documentos oficiais e pesquisas foram capazes de contabilizar os mortos. As peculiaridades da instituição impressionam. Era uma população formada por mais de 200 mil pessoas, nas quais 70% delas não apresentando nenhum quadro de problemas mentais. Eram sim desafetos políticos de senhores poderosos, prostitutas, mulheres engravidadas fora do casamento, supostos criminosos e pessoas afetadas pela pobreza extrema.  

O hospital psiquiátrico de Barbacena foi verdadeiramente um cárcere travestido de instituição médica, utilizado como ferramenta para o cumprimento de desejos pessoais e políticos de pessoas poderosas, e do desejo de limpeza étnica e social por parte da sociedade de Minas Gerais e dos estados vizinhos. 

Dentro do cárcere, a maioria experimentava a morte e a indigência. Enquanto viviam tal brutalidade, o hospital de Barbacena gozava de enorme prestígio entre políticos, autoridades policiais e homens de grande respeito e poder aquisitivo, os grandes utilizadores dos “serviços” prestados pelo hospital. Os que não participavam diretamente do absurdo, mas podiam protestar contra o que ocorria, também nunca ousaram contestar a forma como eram tratados os pacientes. 

O hospício que fabricou o “Holocausto brasileiro” em nenhum momento esteve isolado do mundo, muito menos as suas atividades permaneceram escondidas nas sombras. Durante seu funcionamento, bebês foram retirados das mães internadas e adotados por outras famílias, com o conhecimento de autoridades e de diretores de Barbacena. Corpos foram vendidos à faculdades de Medicina, instituições de prestígio. Pessoas sumiam, trens cheios de novos presos chegavam todos os dias, sem que parentes e amigos contestassem os sumiços, autoridades ou moradores da cidade buscassem informações sobre as causas de tantas internações.

O caso de Barbacena é de um exemplo quase cristalino da injustiça social em que aos poucos se constituiu a pior característica do Brasil. O poder exacerbado para alguns, baseado nas raízes nacionais do coronelismo e do triste contraste entre sujeitos cheios de poder e miseráveis sem direitos, foram os responsáveis por esse episódio. 

Barbacena é a identidade primitiva para compreendermos como hoje em dia ainda temos tanto descaso pelos Direitos Humanos no país, junto a um abuso de autoridade constante, ambos legitimados pela maioria da população. Os pacientes, por serem “loucos” ou criminosos, pouco mereciam de consideração e respeito. Para outros, a miséria do hospício se transformava na única forma possível de vida que pudesse ser ofertada a “esse tipo de gente”.  Por fim, a exagerada crença nas autoridades, agindo como criminosas, forjavam os 70¨% de internações ilegais pela instituição e o descaso total à vida. 

As milhares de pessoas falecidas, que ainda viveram um final de vida em que estavam presos, nus, sem alimento e sem água potável, é uma atrocidade genuinamente brasileira. Como deixamos acontecer? Simplesmente não sabíamos, não desconfiávamos e não nos importávamos. Um tripé que em muito ajuda a esclarecer como coisas do tipo podem ocorrer em outros países, pergunta que muitas vezes não encontramos quando falamos de um realidade exterior. 

Quantos casos como esse existiram e ainda existem no Brasil? Quantas são as vítimas totais? Até qual ponto a cultura e a estrutura social  foram responsáveis para que tais fatos fossem legitimados, esquecidos e não punidos, algumas vezes até mesmo apoiados? Nesse momento conseguimos perceber o quão fácil é para uma cultura legitimar o que para nós, quando estamos distantes, se torna abominável. Por que o abominável de cada sociedade não reside mais nas sombras do que na claridade do dia-a-dia. 

 As 60 mil almas perdidas nesse triste episódio brasileiro só podem servir como um fato positivo nos dias atuais: a compreensão de como um sistema e uma ordem social se estruturam para legitimar situações absurdas e atentados contra seu próprio povo, sejam elas motivadas por causas econômicas, religiosas ou de poder. Cabe a nós evitarmos que o pior de uma sociedade se levante.

Recentemente, a publicação do livro “O Holocausto brasileiro” foi o primeiro grande passo para a recuperação da memória do que houve em nosso país durante a existência de tais “instituições psiquiátricas”. O conhecimento desse tema é crucial ao brasileiro. Afinal, relembrar o passado é a ferramente para compreender e modificar o presente.  E infelizmente, parte desse passado nunca será totalmente varrido de nossa sociedade, por que as sociedades reproduzem Mário Quintana com a verdade da célebre frase: “o passado não reconhece o seu lugar. Está sempre presente”.

Para interessados, a apresentação do livro “O Holocausto brasileiro” – (clique aqui). 


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Uma Sombra a Cada Oito

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Quando uma pessoa é questionada sobre quais são os cinco ou dez maiores problemas existentes no mundo, ela provavelmente não vacile em responder a fome como um deles. Entre os problemas globais, a solução para fome só seria tão popular do que a o estabelecimento da Paz Mundial, tanto no discurso de concursos de beleza quanto nas discussões política. Também distante do nosso imaginário e da mídia, que o torna popular, o problema da fome continua a ser uma das maiores tragédias humanas.

Desde 1992 a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) tem realizado, entre muitos outros projetos, a confecção de relatórios anuais que mapeiam a fome no mundo. Em todos esses 21 anos de dados a humanidade tem apresentado uma evolução continua rumo ao fim do problema no futuro. Mesmo assim ainda temos um total de 896 milhões de famintos atualmente, um número enorme, mesmo sendo 17% menor do que era indicado nos anos 90 do século passado.

A evolução da diminuição da fome tem sido causada principalmente pela América Latina e a Ásia. Nesses continentes, a evolução econômica dos países emergentes, junto a uma crescente diminuição da desigualdade, tem feito com que obtivessem os melhores resultados de melhoria de vida para a população faminta. Se o Mundo todo estivesse no mesmo ritmo desses países, o número de famintos no mundo poderia ter recuado até 50% nos últimos 20 anos, índice muito maior do que foi visto.

Mas por que a fome, mesmo cultivando uma grande preocupação mundial, tem se apresentado um adversário difícil de ser vencido? Talvez essa questão possa ser respondida com o caso da África Subsaariana, o local no mundo mais atingido pela fome. Expor causas que justifiquem a realidade de pobreza e fome nesse continente não caberiam em uma coleção de livros, quanto mais em uma postagem. Mas podemos pegar alguns aspectos atuais do continente para entender por que este permanece nessa situação.

Na África, não só temos o maior número de famintos como a maior desaceleração na diminuição de pessoas que saem dessa situação anualmente. Tal cristalização da fome, em contrapartida a rápida melhora do quadro em outros locais do mundo, tem alarmado a todos. Nem mesmo os países emergentes da África parecem ter força para anular a fome. O simples movimento de crescimento econômico não é suficiente no continente. 

A incapacidade da economia para solucionar o problema por si só é facilmente explicável. No caso de países como o Congo Belga, a riqueza é compartilhada apenas por uma minoria da elite nacional e magnatas estrangeiros. Já na Nigéria, a situação é bastante exemplar. Sua capital Abuja, fabricada exclusivamente para a elite política e econômica do país, ostenta grandes obras de infraestrutura e uma riqueza quase inigualável entre as capitais africanas. No entanto, os interiores do país continuam afundados na miséria e fome.

Diante desse cenário, até mesmo o aumento da produção agrícola, o maior desenvolvimento da história da África, e consequentemente da oferta de alimento, não tem sido suficiente. A FAO considerava esse fator como crucial a uma menor quantidade de famintos. Infelizmente, os resultados ficaram distantes do esperado. Isso pode ter ocorrido graças a grande concentração do desenvolvimento, restrito apenas às capitais e áreas urbanas.

A verdade é que a África expõe uma dura realidade: no mundo a desigualdade na divisão de recursos e de alimento é tão grande, que mesmo em um planeta que produz mais do que o suficiente para a alimentação diária de toda a população, quase 1 bilhão de pessoas passam fome. 

Mas para outros especialistas a culpa da falta de evolução do combate á fome na áfrica não diz respeito apenas a desigualdade. Os grandes índices de natalidade deram nova voz a teorias Neomalthusianas, que afirmam por meio de uma simples conta entre o alimento disponível e superpopulação, que a não redução da fome é originada pela falta de controle de natalidade.

Para eles, os africanos teriam que ter menos filhos. No entanto, a própria evolução da agricultura, que abriu uma nova oferta alimentar, e os altos índices de mortalidade da população, alavancada por males como a própria fome e a AIDS, tem jogado por terra essa teoria. Há menos pessoas, mais alimentos, e o problema persiste. A questão parece ser mais de falta de acesso ao alimento do que propriamente de escassez. Caímos então em uma complexa relação de cause e consequência causada pelo tipo de organização política e de desigualdade histórica na África, um problema social dos mais complexos existentes.

Abaixo, um vídeo bastante didático para a compreensão do mapa atual da fome e a questão da produção de alimentos versus a desigual distribuição: 

 

Na virada do século XXI, a Cúpula Mundial sobre a Alimentação definiu que o número de famintos no mundo em 2015 deveria ser de 498 milhões de pessoas, o que representaria uma diminuição de 60% no número de famintos desde que a FAO iniciou o seu projeto de relatórios anuais sobre a fome, em 1992. No entanto, faltando apenas 2 anos para o tempo limite da meta, ainda estamos com um número total de 846 milhões de pessoas famintas, quase o dobro do esperado. Ainda pior, tivemos uma baixa diminuição nos índices, em média apenas 20 milhões de pessoas por ano, o que leva a crer que estamos desacelerando na solução do problema.

A grande evolução econômica dos emergentes da América Latina e Ásia foi o grande combustível da evolução para um mundo sem fome. No entanto, nesses países o número de famintos é cada vezes mais baixo, os impossibilitando de prosseguiram como a grande vanguarda de combata a fome. Em contrapartida, a África Subsaariana, depois de anos de recuperação, parece se chocar contra os muros que  a impedem a um desenvolvimento mais veloz. A atenção estará voltada para a solução desse mal nesse local específico nos próximos anos.

Sintomaticamente, a ONU define a fome como “o maior problema solucionável da humanidade”. Enquanto tivermos pessoas vivendo nessas condições, teremos uma sombra permanente a nos rondar. Atualmente, há ainda muitas delas, uma em cada oito pessoas. Tomara que a situação em que vivem e as soluções para ela não sejam tragadas também por essa sombria escuridão.

 


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Fala muito!

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A crítica sempre esteve ligada, de certo modo, ao anonimato. O medo de rejeição, e principalmente o temor de represálias leva os insatisfeitos desde muito tempo atrás a se exporem ocultando sua identidade. Se a crítica é aceita pela coletividade, passa a fazer parte desse fenômeno de massa – se não, não causa mal algum ao autor. Mas e se for descoberto? 

Esse fenômeno é potencializado hoje, já que a vida em rede já faz parte da vida política contemporânea. Redes sociais, fóruns de discussão e redes de telecomunicações têm um impacto formidável na opinião pública. A eficiência disso, é claro, depende de quem está envolvido, e de muitos outros fatores. Basta lembrar da “revolução” de julho no Brasil, que saiu do Facebook para durar umas… duas semanas, e desaparecer quase que por completo, mostrando apenas resquícios desse ativismo em protestos pontuais (apesar de recorrentes). 

Isso tudo vem da atividade em grupo, mas resta algum papel para o indivíduo? A noção de uma “massa” vem justamente do fato de que se faz parte de uma coletividade, com interesses que estão acima dos pessoais, e a noção do anonimato é fundamental em alguns casos. É interessante notar como o anonimato volta a ter importância nesse contexto, já que é um ambiente propício a essa condição. 

 Em um caso recente, um funcionário da Casa Branca foi demitido por manter uma conta anônima em que espinafrava membros do governo. Descoberto, foi demitido e lhe resta a infâmia. Enquanto isso, no Brasil, contas “fakes” (falsas, com pessoas imitando personalidades) fazem sucesso, e uma delas imita a presidente Dilma por meio de uma sátira bem-humorada, sendo que o humorista criador da conta até já esteve em conversa pessoalmente com a “vítima”. Descoberto, não foi arrasado, e sim premiado pelo uso “inteligente” das redes sociais. 

Vê-se que depende muito de contexto, é claro, e do uso que é dado a cada ferramenta, mas nem mesmo o anonimato serve de blindagem, já que pode ser revertido a qualquer momento nessa nuvem de informação.


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A (Des)Igualdade Econômica entre Gêneros

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Regularmente, o Fórum Econômico Mundial cumpre um papel importante para a compreensão da desigualdade de gênero. O Relatório Global de Desigualdade entre Gêneros (Global Gender Gap) é um dos maiores termômetros das desigualdades econômicas persistentes entre homens e mulheres de 135 nações diferentes.

 

Ferramenta importante para pesquisadores qualificados, o relatório também pode servir como uma consistente base para o entendimento da situação atual de desigualdade de gênero para interessados no tema. Os seus resultados, embora anuais, retratam parte e do desenvolvimento dos direitos da mulher e sua inserção no mercado de trabalho no século XX.

 

Como exemplo, podemos ver que os países melhores classificados, com a menor presença de desigualdades, são os escandinavos. Nesses locais, as leis jurídicas que garantiram a igualdade civil e politica entre homens e mulheres datam do início do século passado. A Suécia, por exemplo, tem em sua Constituição a igualdade entre sexos desde 1905. A Islândia é o maior exemplo de sociedade igualitária desse tipo, sendo o único país do mundo em que o índice registra uma igualdade completa entre homens e mulheres.

 

Entre os bons exemplo de construção de uma sociedade mais justa estão os mercados mais desenvolvidos do mundo. Segundo especialistas, países com maior desenvolvimento econômico aparentaram ter o maior desenvolvimento rumo à igualdade. Os economistas dizem que a procura pelas melhores mentes,  independente de particularidades preconceituosas, é o combustível dessa evolução nesses locais.

 

Entretanto, o resultado do último relatório não é tão otimista. A diminuição da desigualdade desacelerou nos últimos anos. Em cinco anos, houve apenas uma evolução de 10% na redução da desigualdade mundial. Enquanto isso, ao redor do mundo a diferença entre homens e mulheres ainda beira a casa dos 60%.

 

No Brasil, a desigualdade sofreu uma grande diminuição em menos de dois anos. O país saltou 20 posições no ranking, passando a ser a nação número 62 em igualdade de gênero, entre 135 países. Tudo isso garantido pela inserção de diversas mulheres em cargos de poder no governo Federal desde a eleição de uma presidente mulher.

 

Mas devemos ficar alertas ao comemorarmos alguns números. Se a nova política formação de ministérios inciada por Dilma tem o poder de indicar um certo empoderamento feminino no país, ele também mostra a fragilidade das medições utilizadas pelo Fórum e a sua metodologia. Afinal, a desigualdade de gêneros não pode ser apenas medida por fatores econômicos e a conjuntura politica de um país.

 

A formação e os costumes de uma sociedade devem também pesar para esse tipo de análise. O nosso país é campeão mundial em exploração sexual e prostituição infantil. Infelizmente, esse tipo de crime contra a mulher, muitas vezes respaldado pela sociedade, não entram nesse cálculo. Metodologias estritamente economicistas por vezes impedem a visão de algumas más práticas sociais, tais como o machismo elevado ou a cultura do estupro, presente em diversas nações.

 

Mesmo assim, não podemos deixar de pontuar que há situações ainda muito piores que a brasileira, em que a mulher ainda se encontra fora da educação formal, do mercado de trabalho e muitas vezes da vida pública e da política. Em outros locais, como o Marrocos, pode sofrer uma dupla punição em um país em que o homem é livre para ter relações sexuais com qualquer mulher, muitas vezes á força, enquanto elas podem ser condenadas à morte por sexo fora do casamento, mesmo em casos de estupro.

 

Os indicadores de desigualdade econômica apontam para um mundo menos desigual no futuro, mesmo que essa mudança esteja desacelerando. Ainda mostram que as primeiras sociedades estão chegando a igualdade plena, antes presente apenas nos sonhos de alguns. Entretanto, devemos esperar que, como o Fórum Econômico já o fez, organizações de estudos sociais insiram em suas pautas a realização de pesquisas tão completas quanto é a da situação de desigualdade econômica de gênero,  além da economia somente, mas também de ordem jurídica e social.

 

Infelizmente, o espaço possível de uma postagem não seria suficiente para cobrir todos os dados formados por esse estudo tão interessante. Aos que se interessarem mais profundamente pelo assunto, segue o estudo completo e a classificação dos países de acordo com a igualdade de gênero presentes em cada um.

 

Estudo completo: The Global Gender Gap Report. (Clique no nome da pesquisa).

 

Classificação geral das nações: Ranking de igualdade de Gêneros.  (Clique no nome do ranking).

 


Categorias: Cultura, Economia


Imagem da Semana

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A imagem da semana não poderia retratar um tema tão importante para nós quanto o primeiro leilão de um campo de petróleo no pré-sal em nosso país. O leilão, bastante polêmico, não poderia deixar de vivenciar momentos de tensão. Ontem, o governo Federal e do Rio de Janeiro praticamente sitiaram o local onde ocorreria o evento, com ajuda do exército. Nada mais preventivo, com a de inúmeros grupos contrários à a privatização da produção do petróleo.

A imagem acima é o cordão de isolamento, formado até mesmo na areia da praia, evitando a aproximação de manifestantes. No entanto, ontem o número de protestantes não justificou a força deslocada pelo governo. Eram poucos, quase insuficientes para retratar a guerra jurídica dos últimos dias entre governo e oposicionistas ao leilão. Foram 25 liminares ao todo, todas derrubadas. 

O resultado final do leilão foi de sucesso, estabelecendo a estatal brasileira Petrobras como a grande vencedora do consórcio, que conta ainda com as gigantes Shell e Total, e as chinesas CNPC e CNOOC. Uma vitória e tanto para os planos do governo Federal, ainda mais na tempestade em que o processo se transformou.

Entre políticos e analistas, há burburinhos indicando que o resultado estava definido há tempos, quadro se é realçado pela desistência em massa de empresas e a vitória tranquila da proposta da Petrobras. No entanto, outros afirmaram que a vitória de tal consórcio foi a melhor das possibilidades. A nós brasileiros, agora resta torcemos e cobrarmos  para que a exploração dessa riqueza traga benefícios ao país.


Visão 2020

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Quando se fala sobre Ruanda, inevitavelmente a primeira lembrança que nos vem à tona é a do genocídio ocorrido no país em 1994, o qual marcou tristemente a década pela brutalidade dos atos cometidos de uma luta étnica que beira o inexplicável, o inenarrável.

Às vésperas de completarmos 20 anos desse triste marco histórico, a verdade é que Ruanda busca se reerguer e alcançar o desenvolvimento nacional para ser lembrada de outra forma, recriando a história de um povo que luta para crescer e arquivar em um passado (cada vez mais) distante a violência e o desgaste causado pelo genocídio.

No ano 2000, o governo lançou o projeto “Visão 2020”, cuja principal meta é viabilizar a transformação do país em uma economia baseada em tecnologia, espelhando-se no exemplo asiático de Cingapura. O projeto “Um laptop por criança” inclui-se neste contexto, iniciado há cinco anos pelo governo com o apoio de Organizações Não-Governamentais, e impactando hoje aproximadas 400 escolas do país (foto). Aproximar a tecnologia ao processo de aprendizado infantil é uma meta ousada, mas que certamente renderá frutos para muito além de 2020.

Visualizar a forma como esse processo está alcançando Ruanda reflete claramente os benefícios e as facilidades da era das telecomunicações em que as ferramentas existentes podem (e devem) ser utilizadas para beneficiar as sociedades.

Para uma sociedade ainda predominantemente rural, o processo começa na base. Avaliar o impacto das novas tecnologias e pensar em como “urbanizar” o país de forma sustentável, aliando esse processo ao esperado crescimento econômico e à melhora nas condições sociais da população é um objetivo amplo, mas de extrema importância e que os ruandeses almejam atingir gradualmente.

No curto prazo, o plano visa à promoção da estabilidade econômica e à redução da dependência de ajuda externa; no médio prazo, espera-se transformar a economia agrária em uma economia baseada em conhecimento (“knowledge-based economy”); e, por fim, para o longo prazo o objetivo é de apoiar uma classe média produtiva, incentivando o empreendedorismo. [Confira a íntegra do plano aqui.]

Os desafios são muitos e existem não apenas em Ruanda, mas em todo o continente africano, com cada país vivendo momentos distintos de desenvolvimento social, com maior ou menor dependência de ajuda externa nos dias atuais. Fato é que o programa em questão representa uma estratégia interessante do governo ruandês, inspirado por uma visão estratégica de longo prazo, possibilitando que Ruanda se destaque nas manchetes internacionais por razões muito distintas daquelas dos idos de 1994 que nunca deveriam ter ocorrido… 


Categorias: África, Assistência Humanitária, Direitos Humanos


Uma deportação controversa

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Um dos temas internacionais que mais desafia o senso comum é a imigração. De pronto, infere-se que são os mais pobres que escolhem este caminho com maior frequência, em especial seguindo a rota sul-norte. Na realidade, segundo dados das Nações Unidas, somos surpreendidos pela prevalência de migrações dentro dos territórios nacionais, assim como os movimentos inter-regionais, e não dos países menos para os mais desenvolvidos.  

Mais surpreendidos ainda somos quando, no exemplo do caso de mexicanos migrando para os Estados Unidos, percebemos um aumento diretamente proporcional da imigração em relação à renda. A pobreza, neste sentido, apresenta outra face perversa: a imobilização. A baixa qualificação e renda são fatores impeditivos para a mobilidade. 

Mesmo no caso de conflitos, principais fontes de mobilidade compulsória, observa-se que o fluxo de refugiados de áreas como Síria, Afeganistão, Iraque e Somália tende a se concentram em países vizinhos ou na própria região. Em sentido contrário, a população de maior nível educacional encontra melhores oportunidades. Outro elemento importante do debate é uma Europa, cujo processo de transição demográfica foi concluído e que deve precisar, no futuro não distante, de um fluxo imigratório para sustentar seu crescimento econômico. 

Nesta semana, um caso muito ilustrativo ocorreu na França. Uma jovem de origem cigana, Leonarda Dibrani, foi surpreendida por uma ligação durante uma excursão escolar. Tratava-se de um oficial da polícia francesa. Sua família, naquela manhã, ia ser deportada para o Kosovo e faltava encontrar a filha. Ao encontra-la no ônibus da excursão, a polícia deteve a menina na frente dos colegas e a deportou em sequência.

 

De volta ao Kosovo, a jovem deu uma entrevista para uma rádio francesa expressando seu desejo de retornar à França com sua família. Na nova pátria, sua família não tem casa e a menina não pode frequentar a escola por não falar o idioma local. A deportação despertou uma onda de protestos contra o procedimento virulento para retirar a família de solo francês.  

Neste sábado, o presidente francês, François Hollande, ofereceu à menina o retorno ao país, sob a condição de retornar sozinha. Este processo coincide com uma promessa de maior firmeza do Ministério do Interior, o ministro Manuel Valls declarou há duas semanas que os ciganos instalados na França estavam destinados a retornar para a Bulgária.   

A população cigana é alvo frequente, não só na França. O aspecto nebuloso no caso da família cigana é que se cumpria o aspecto fundamental, qual seja, a incorporação ao país receptor. Leonarda frequentava a escola e falava fluentemente francês. O não aceitar aspectos culturais e educacionais franceses talvez seja a principal crítica contra os imigrantes. No caso em questão, fez-se valer um regulamento interno em prejuízo a direitos fundamentais.  

Quantas outras situações como esta não devem ocorrer mundo afora? Para muitos governos continua mais fácil alimentar o senso comum sobre imigrantes, fazer doações para refugiados (mas estabelecer cotas para recebe-los) e buscar meios legais de deportar populações indesejadas. Sorte que muitos não concordam, no caso de Leonarda muitos estudantes, que desejam vê-la trocar o banco da praça no Kosovo pelo banco escolar na França.  


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