Sobre conversas telefônicas e mudanças

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Vivemos momentos históricos para as relações internacionais contemporâneas. Vários acontecimentos recentes têm impressionado porque, apesar de constituírem polêmicas antigas, poucos imaginavam o rumo que estes temas tomaram nos últimos dias.

Destacadamente, assunto já tratado aqui no blog, vimos a presidenta brasileira questionar a hegemonia estadunidense diante das revelações de espionagem em níveis altíssimos e “adiar” uma visita de Estado ao presidente Obama, mesmo após contato telefônico deste para tentar esclarecer a situação.

um outro contato telefônico de Obama trouxe esperança de renovação em relações bilaterais tensas há décadas. Trata-se da relação Estados Unidos-Irã. Com a chegada do novo presidente iraniano Hassan Rouhani, já comentávamos no blog a impressão de que se visualizava uma porta inédita de diálogo entre Teerã e a Casa Branca a respeito do sensível debate nuclear.

Durante a Assembleia Geral da ONU em Nova York, percebeu-se já um tom mais amigável entre os líderes, apesar de as posições manterem-se ainda bem marcadas, e o telefonema de 15 minutos ocorrido na última sexta-feira fechou a semana trazendo um novo ar às relações entre os dois países.

Depois de 34 anos, os líderes de Estados Unidos e Irã conversaram diretamente. Momento histórico. É claro que não se pode esperar que três décadas de tensão se resolvam em três dias, mas tampouco pode ser menosprezada a importância desta conversa.

Subordinado ao líder supremo do regime islâmico, o aiatolá Ali Khamenei, Rouhani já se destaca na chefia do governo pela autonomia e disposição em quebrar o estigma de líder inacessível ao diálogo com o Ocidente.

Este posicionamento, contudo, ainda possui receptividade diversa no próprio Irã. Aclamado pelos jovens e por aqueles que acreditam na via do diálogo, Rouhani é ao mesmo tempo hostilizado por aqueles que se recusam em aceitar a “submissão” ao Ocidente, representado notadamente pelo gigante norte-americano.

Ousado, Rouhani já se configura como um líder que merece destaque. A possibilidade de uma nova era de diálogo entre Estados Unidos e Irã reacende uma esperança há muito perdida. Apenas com os resultados efetivos das negociações é que poderemos avaliar o real impacto desta conversa telefônica, mas que ela por si só já representa um avanço, isso não se pode negar. 


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Vivemos na pré-história?

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O presidente uruguaio, José “Pepe” Mujica, discursa na abertura da

 68ª Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU)


Não posso deixar de comentar sobre a Abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) que ocorreu no último dia 24 de Setembro. O Álvaro já o fez em seu texto “O poder do discurso”. Mas não se configura em repetição nos debruçarmos novamente nesse aspecto. Discursos públicos com toda certeza refletem as relações de poder entre as pessoas e, especificamente na ONU, entre os Estados nacionais. 

Obviamente, muito se falou sobre o discurso da presidente Dilma Rousseff. Atacou a espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA, em inglês) dos Estados Unidos. Criticou a falta de resposta do governo de Barack Obama. E defendeu a criação de um marco regulatório de dados sobre as informações que circulam na rede mundial de computadores (internet). Os pronunciamentos do próprio Obama e do presidente iraniano, Hassan Rouhani, também foram impactantes no sentido de procurarem fomentar o diálogo entre as partes. Mas as falas do líder norte-americano basearam-se no de sempre: problemas com o terrorismo e com a segurança nacional de seu país. De necessário, e mesmo sendo criticado por isso, as palavras sobre a situação desastrosa na Síria soaram de forma razoável e deveriam mesmo ser mencionadas. 

De forma mais “secundária”, sem os holofotes da grande mídia nacional e internacional, outro discurso chamou a atenção na abertura da AGNU. Estou me referindo a José “Pepe” Mujica, presidente uruguaio. Foi um pronunciamento eloquente, ávido, perspicaz e, porque não dizer, moralista. Moralista no sentido de “puxar a orelha” de muitos governantes que estavam ali presentes, principalmente dos líderes das maiores economias e do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU). 

Mujica fez um discurso que, nos dizeres das Relações Internacionais, pode-se denominar “do sul para o sul”. Citou como recurso identitário a América Latina, nome que não tem um sentido único, mas que nesse contexto remeteu-se, nos dizeres do presidente, aos “compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos pampas, nas depressões” da região. 

Seu pronunciamento foi liberal, humanista e crítico. Liberal no sentido político, mas totalmente avesso ao neoliberalismo de mercado. Humanista por tentar resgatar o que há muito estamos perdendo: o sentido de cidadão, o “ser civilizatório”. Crítico, porque serve para mim, para você e quaisquer pessoas. Para autores como Francis Fukuyama, o qual ficou globalmente conhecido por decretar o fim da história, aparece uma nova dúvida a partir das palavras de Mujica. Fim da história? Como, se ainda vivemos na pré-história? 

Ah sim, para o filósofo e economista nipo-estadunidente, a Democracia Liberal seria o último estágio da evolução social da humanidade. Meia-verdade. Falta chão para termos democracias liberais de fato e não de presidenciáveis alheios às visões de quem realmente precisa de recursos. Voltando ao Mujica, ele diz que vivemos em tempos de turbulência econômica e de guerras, daí decorre a nossa atual pré-história. Em suas palavras: “No mais profundo de nosso coração, existe um enorme anseio de ajudar para que o homem saia da pré-história. Eu defino que o homem, enquanto viver em clima de guerra, está na pré-história, apesar dos muitos artefatos que possa construir.” 

Mujica é exaltado e, de maneira inversa, veementemente alvo de críticas enquanto líder uruguaio. Acredito que não devemos colocá-lo em um pedestal e ovacioná-lo toda hora. Todavia, não podemos deixar de notar seu espírito futurístico e, mais importante ainda, humano que muito faz falta a outros governantes. Cabe a cada um interpretar sua exposição durante a AGNU. Para mim, foi meio que um “tapa na cara” para dizer “Acorda, cara. Tem muita coisa acontecendo por aí”. 

Para terminar o texto com palavras bonitas, copio outro trecho do discurso de Mujica: “A verdade é que cultivamos arcaísmos feudais, cortesias consentidas, fazemos diferenciações hierárquicas que, no fundo, amassam o que têm de melhor as repúblicas: que ninguém é mais que ninguém. O jogo desse e de outros fatores nos retém na pré-história. E, hoje, é impossível renunciar à guerra quando a política fracassa. Assim, se estrangula a economia, esbanjamos recursos”.

PS: O discurso completo de José Mujica está disponível em vídeo aqui e escrito aqui.


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Divulgação – IX UNSP (GEPESOI/UNESP-Franca)

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Prezado leitor 

Estão abertas as inscrições para o IX United Nations Model of São Paulo (UNSP), o maior e mais tradicional modelo de simulação das Nações Unidas do estado. O tema central do evento deste ano é “Subdesenvolvimento e crises humanitárias: uma perspectiva internacional” e as discussões serão realizadas entre 28 de Outubro e 02 de Novembro na cidade de Franca, interior de São Paulo, a qual abriga um dos cursos de Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista (UNESP).

O modelo encontra-se em sua nona edição e é anualmente organizado pelo Grupo de Estudos, Pesquisa e Simulação de Organizações Internacionais (GEPESOI) da UNESP/Franca. Na presente edição haverá debates em três comitês, além da Assembleia Geral, sejam eles: Conselho de Segurança das Nações Unidas (UNSC), Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC) e Organização Internacional para Migrações (OIM). 

Mais informações sobre o próprio GEPESOI, o histórico do UNSP, os comitês citados acima e a política de inscrições podem ser encontradas no site oficial do grupo: www.gepesoi.com 

Há também a página web, a qual está disponível em: www.facebook.com/gepesoi.unespfranca

Participe! 

[A Página Internacional aproveita para destacar que somos abertos à divulgação de eventos em qualquer área correlata às Relações Internacionais. Acreditamos que o contato entre estudantes de diversas áreas é muito relevante para que possamos crescer como uma comunidade de interessados nos temas internacionais. Para dúvidas, posts, parcerias ou qualquer outro tema que acharem relevante, enviem um e-mail para [email protected]].


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O poder do discurso

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Ontem começou a Assembleia Geral das Nações Unidas. A data não é ao acaso – as reuniões ordinárias sempre começam em setembro, todo ano. Antes da reunião em si, os países podem fazer um discurso inicial, e aqui tem existe outra tradição interessante – a de que o Brasil sempre é o primeiro a fazê-lo. 

Esses discursos, mais do que apresentarem a “posição” do país, são um momento importante e simbólico. Quem não se lembra de Kadafi rasgando a carta da ONU? Ou Chavez falando do cheiro de enxofre após o discurso do Bush filho? Além dos momentos mais pitorescos, é claro que outros são mais impactantes, inclusive o que começou essa tradição de o Brasil inaugurar as sessões: logo na segunda reunião da AG (que foi extraordinária), em 1947, aquela que definiu a formação do Estado de Israel, o representante brasileiro Osvaldo Aranha foi um dos responsáveis pela defesa (e sucesso) da proposta, e como o primeiro orador inaugurou essa tradição. 

Recentemente, o Brasil vem sendo representado pelo seu chefe de Estado, e o discurso acaba tendo uma importância relativa para entender aspectos de sua política externa. Lula por exemplo teve seu grande momento internacional quando trouxe o tema da pobreza para o debate na AG. Mesmo Dilma já tinha feito algo parecido quando trouxe o debate da “Responsabilidade ao Proteger”, que estava em voga na época por causa da invasão da Líbia, e que hoje está meio esquecido, mas teria tudo para ser a bola da vez com a questão da Síria.

Com isso chegamos ao discurso de ontem. Dilma fez o que se esperava: reclamou da espionagem dos EUA, condenou isso como violação do Direito Internacional e propôs uma regulamentação para a atividade no “cyber espaço” para que não seja usado como arma de guerra. A discussão é polêmica, a rede é uma terra de ninguém, mas se temos convenções até para tornar o espaço sideral uma área sem conflitos, por que não? Não é despropositado, e se vai render alguma coisa em longo prazo, é difícil saber, mas o discurso tem um peso e entra pra história pessoal da presidente, além de ter tido um grande destaque na imprensa internacional. 

Mas talvez os discursos mais interessantes (e esperados) tenham sido dos EUA e do Irã. A perspectiva de uma negociação é bem plausível agora, já que o novo presidente, Hassan Rouhani, parece bem mais flexível que Ahmadinejad. O momento seria de cautela, mas há uma expectativa positiva. Por outro lado, o discurso dos EUA é mais pessimista, com um Obama abatido e com inimigos por todos os lados, e a imagem de um país indeciso quanto a seu papel de potência. As críticas recentes de Putin a essa “excepcionalidade” parecem coadunar com a “crise de identidade” dos EUA, que quer manter sua posição no mundo mas não sabe exatamente como.

O fundamental disso tudo é que os atores principais parecem não mudar. Lideranças pontuais ou novidades (como o egípcio Morsy, que no ano passado era a vedete da AG e hoje nem se sabe onde está preso) surgem todo ano, mas no fim das contas o peso maior recai sobre os países mais tradicionais. E o Brasil, bem ou mal, faz parte desse grupo.


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Imagem da Semana

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O que parecia enredo de filme do Bruce Willis (apesar de o cenário ser um dos clássicos de filmes de mortos-vivos) virou realidade no Quênia: um shopping de luxo é atacado por terroristas e logo forças do governo entram em confronto com os invasores para defender e libertar os reféns. O problema é que, diferentemente do cinema, a vida real nem sempre reserva finais felizes, e temos até o momento um saldo de 240 vítimas, sendo pelo menos 72 mortes. A imagem de um homem empunhando um rifle dentro de um shopping center, trazendo o combate para um dos poucos espaços públicos (apesar de, diga-se de passagem, serem nichos de elites em qualquer lugar do planeta) onde as populações se sentem mais à vontade (ou menos em perigo) na modernidade é um sinal irônico de como os terroristas, mesmo aparentemente derrotados, conseguiram alcançar seu objetivo de causar impacto com sua ação violenta.


Merkel outra vez

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Nesse final de semana ocorreram as eleições legislativas da Alemanha. Evento obviamente mais do que importante para a Europa, tendo em vista a dimensão econômica do país e a sua estabilidade ímpar diante das incertezas da crise europeia.

Os resultados mostraram uma grande estabilidade também quanto ao quadro político nacional.  Angela Merkel não esteve nem por um instante ameaçada de perder as eleições. A vitória dela e de seu partido, a terceira seguida, é o simbolo máximo da continuidade que desejou o povo alemão. Para levarmos em conta mais do que analisar quem venceu, todo o restante do cenário também faz jus a essa conclusão.

O partido social-democrata, a oposição direta ao seu governo, ficou em segundo lugar novamente. A única vitória da oposição foi de não dar ao partido de Merkel a maioria das cadeiras do Parlamento. De qualquer modo, mais uma derrota deverá ligar o sinal vermelho para a social democracia europeia. Suas ideias, a muito tempo dadas como superadas por muitos economistas e cientistas políticos, agora parecem não ter forças também nas urnas. A Noruega, que passou os últimos outo anos sob um governo social democrata, nesse ano também derrotado nas urnas, é a prova máxima da diminuição de influência que vivem esses partidos.

Mas não só a social democracia parece ser menos empolgante. No caso alemão, o partido liberal, apoiador de Merkel, não alcançou ao menos 5% dos votos, o que o tirou pela primeira vez desde 1990 de qualquer representação. Mais ideológico do que o partido de Merkel, e mesmo assim defensor das mesmas ideias, mostra à primeira ministra e ao seu partido que o sucesso nas urnas em próximos pleitos dependerá mais da saúde econômica do país do que da politica em si. É a vitória do resultado econômico sobre o debate ideológico, fenômeno muito visto no mundo, inclusive no Brasil.

Outro resultado importante é do Partido Verde Alemão, talvez o mais organizado e forte do mundo, que amargou mais uma diminuição de eleitores. Parece queimar a língua de especialistas que diziam que haveria cada vez uma maior preocupação de jovens com a ecologia e a sustentabilidade. Agora, esse assunto parece perder espaço para as preocupações com a economia, o emprego, a saúde e educação.

Finalmente, a Alemanha parece blindada a ascensão de partidos radicais, os ditos cantões da politica europeia. Se em muitos outros países eles prosperam, na Alemanha não conseguem nem o mínimo para terem representantes no parlamento, como é o caso do partido de esquerda Die Linke e do anti-euro AFD. Isso é mais uma pista que o crescimento de tais partidos exigem uma certa crise econômica e instabilidade politica, das quais a Alemanha parece mais distante.

Diante do cenário de estabilidade alemã, ainda não faltaram casos curiosos. Houveram muitos momentos bizarros durante a disputa, como o casos de racismo. Felizmente, a boa notícia é a eleição de dois representantes negros, pela primeira vez na história. Vale lembrar que durante as eleições, houveram algumas manifestações racistas, como o caso da empresa Ferrero, que usava em seus comerciais o slogan infame “a Alemanha vota branco”.

E assim, aparentemente sem grandes mudanças, segue a maior economia da Europa. Merkel igualará ao fim do mandato a mesma quantidade de tempo no poder de Margareth Tchatcher, talvez a líder mais próxima para se ter alguma comparação. Resta saber, ao fim de mandato tão longo, os benefícios e prejuízos trazidos ao povo alemão por essa continuidade por tão duradoura de um cenário, um partido e uma pessoa no poder.


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Luto e tensão no Quênia

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A notícia que abalou o final de semana vem da África, mais especificamente do Quênia – e está diretamente relacionada à Somália. O ataque ao shopping Westgate em Nairóbi, na capital do Quênia, já deixou, segundo a Cruz Vermelha local, 68 mortos e 175 feridos, sendo que ainda há reféns e os autores do ataque permanecem no local.

Ainda é muito cedo para qualquer análise a respeito da situação, mas a autoria do ataque já foi assumida pela milícia radical islâmica somali Al-Shabaab, a qual justifica o feito em represália contra a participação do Quênia na Missão de Paz das Nações Unidas na Somália.

A referida participação corresponde a 4 mil soldados quenianos que se encontram no sul da Somália desde 2011, envolvidos em esforços internacionais na busca pela estabilidade em um país que enfrenta violentas disputas pelo poder político desde 1991, com a queda do governo de Siad Barre. Neste ano de 2011, contudo, a saída dos militantes islamitas do grupo Al-Shabaab, vinculado à Al-Qaeda, da capital Mogadíscio deu novos ares de esperança à reconstrução do país.

Vale relembrar, contudo, que a insistente intervenção da ONU na Somália é considerada um dos grandes fracassos da organização em sua história, denotando a complexidade da situação no país e a falta de preparo da comunidade internacional em lidar com este desafio. [Interessante artigo sobre as intervenções na Somália aqui.] O tema da legitimidade do uso da força vem à tona em meio a um debate que talvez nunca se esgote.

Este ataque premeditado pelo grupo Al-Shabaab no Quênia só demonstra o quanto ainda há a ser realizado em termos de diálogo para que a mais nova missão da ONU no país, estabelecida em maio deste ano (Missão de Assistência das Nações Unidas na Somália – UNSOM), venha efetivamente a cumprir sua missão de facilitadora e auxiliar o atual governo federal interino a harmonizar os interesses nacionais em busca da paz – no país e na região.

Aliás, é tristemente irônico que um ataque deste porte tenha ocorrido no Quênia justamente no Dia Internacional da Paz, celebrado pela ONU em 21 de setembro desde 1981. Percebemos, infelizmente, que a distância entre as declarações e a prática com frequência é muito maior de que se espera ou do que se possa porventura imaginar…


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Brasil e Argentina: amizade nas ruínas da rivalidade

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Atualmente, trata-se de um dos nossos relacionamentos bilaterais mais importantes. A Argentina é a 3º maior parceira comercial do Brasil, atrás somente de China e Estados Unidos. Em termos políticos, há uma importância talvez ainda maior. Contudo, a tônica que marcou historicamente as escolhas de ambos os países, desde o século XIX, teve como sombra importante a rivalidade com o vizinho. Em determinados momentos, a tensão foi além da habitual brincadeira relativa a uma inimizade mais teórica que propriamente prática.   

Durante o século XIX, em um cenário de consolidação nacional na bacia do Prata, consolidou-se uma ambígua relação que prevaleceu até meados de 1980. Naquela época, argentinos e brasileiros empreendiam estratégias com o objetivo de consolidar uma hegemonia sobre o Uruguai (antiga província Cisplatina, que conquistou sua independência em relação ao Brasil durante o Primeiro Império). Deste período, ficou conhecida a oposição brasileira a Rosas, líder da então província de Buenos Aires.   

Poucos anos depois, em um curioso desdobramento, consolidaram uma aliança militar contra o Paraguai. Logo, contudo, voltariam a escolher lados opostos. Trazendo o debate para tempos contemporâneos, a década de 1970 foi marcada pela discordância sobre projetos hidroelétricos. O Brasil queria construir Itaipu (em parceria com o Paraguai), enquanto a Argentina temia que o aproveitamento do rio Paraná pelos brasileiros prejudicasse a instalação da usina hidroelétrica de Corpus em seu território. Naquela época, apresentar ambos os países como sócios, em qualquer aspecto, seria uma proposta ousada.  

Em 1979, a resolução da questão do aproveitamento energético, firmada por Brasil, Argentina e Paraguai, marca um momento de inflexão. Logo no ano seguinte, brasileiros e argentinos assinariam um acordo sobre usos pacíficos da energia nuclear. Estes primeiros passos não representaram uma guinada para a cooperação, mas um período de estabilidade que possibilitou o fortalecimento de uma parceria até então impensada. As respectivas transições democráticas ensejam novas condições de aproximação, possibilitando negociações que levaram à constituição de um tratado de integração bilateral e, posteriormente, sua expansão para a configuração do Mercosul.  

Durante a década de 1990, novos mecanismos foram criados para fomentar o diálogo e consolidar uma parceria estratégica. A relação tampouco esteve livre de crises conjunturais, mas nunca mais se aproximou da rivalidade de outrora. A recente sintonia no âmbito bilateral em termos de agenda social aprofundou temas relacionados ao combate a mazelas no Mercosul e a abriu novas frentes de cooperação. Os críticos podem apontar para discordâncias quanto à liderança regional, às negociações multilaterais de comércio, entre outras. Os fatos, no entanto, corroboram que estas crises pontuais não afetaram a estabilidade estrutural do relacionamento bilateral.  

Não fosse assim, como poderiam existir projetos para construção de um reator nuclear e um satélite de observação conjuntos? Além da importância comercial, especialmente com o advento do Mercosul, rompeu-se o padrão anterior ao consolidar parcerias em setores abrangentes. Há, por exemplo, projetos nas áreas de defesa, de energia, de pagamentos em moeda local e de mobilidade estudantil. A rota da integração imobiliza a margem de manobra dos governos para reconduzir os países a uma rivalidade extremada. Nada mais resta do que tratar de manter diálogos de alto nível e estabelecer uma concertação para discordâncias. Consolidado o subcontinente como área de paz e livre de armas nucleares, ambos puderam se concentrar no que realmente interessa para seus povos.  


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Imagem da Semana

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Às vésperas das eleições parlamentares alemãs, a imagem da semana não poderia ser diferente. Angela Merkel tenta manter a maioria no Parlamento para que seu partido continue na liderança da maior economia da União Europeia em um contexto conturbado para o continente que se reflete na opinião pública alemã. Os principais temas de preocupação dos eleitores são a crise da zona do euro, o desemprego e as políticas sociais. (Entenda melhor o sistema eleitoral alemão aqui.)

Na disputa, de um lado o Partido Cristão Democrata (CDU), de Merkel; de outro, o Partido Social Democrata (SPD), oposicionista. Mas nem tudo é tão simples por lá. Partidos fictícios (cartaz da foto acima, em Berlim), campanhas ultradireitistas e até brasileiro naturalizado alemão candidato a deputado movimentam os embates. Resta apenas aguardar o resultado neste domingo para avaliar seu impacto nacional, regional e internacional. 


Política Externa – o Retorno?

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Pois é, o cenário internacional anda agitado, mas pela primeira vez em muitos anos um causo de política externa está agitando o noticiário nacional e envolvendo os brios do próprio Brasil. Vale lembrar que política externa até vira notícia no Brasil, mas rende muito pouco em termos de eleições, então tanto a população como boa parte do governo não dão muita importância ao que o Brasil faz lá fora. Quando dá, são as trapalhadas como o rolo com o programa nuclear iraniano ou as expropriações de empresas brasileiras.

Mas eis que os EUA cometeram o maior erro que um espião pode cometer – se deixar ser pego no ato – e de repente o tema “internacional” ficou quente de novo no Brasil. Espionagem, guerra e prostituição existem desde que o mundo é mundo (e geralmente estão interligadas, diga-se de passagem), mas nos tempos modernos, em que a moralidade da opinião pública massacra o pragmatismo dos Estados, o Brasil não poderia deixar sem resposta essa afronta a sua soberania no que é considerado até mesmo um ato de hostilidade contra um “país amigo”. Pela primeira vez em muito tempo se vê uma reação de ultraje da opinião pública nacional por causa de algo lá de fora. 

Quem ganha com isso, e chegamos ao centro da discussão aqui, é a presidente Dilma. Ao cancelar a reunião que estava marcada com Obama, assim como Putin fez há algumas semanas, dá a entender que se coloca como uma interlocutora que busca respeito. Não havia muita opção quanto ao que fazer – se deixasse o assunto esfriar, seria fraqueza; uma reação mais dura, exagero. No mínimo ela consegue melhorar sua imagem interna, mas o fato é que a situação se mostrou bem oportuna para que Dilma dê um fôlego a sua política externa. 

São vários fatores que colaboram para isso – a remoção do ministro da pasta, Antonio Patriota, que dá novos ares ao Itamaraty; a possibilidade de o Brasil ter um papel relevante na crise da Síria (seja pelo fato de a Rússia ser um interlocutor próximo, seja após se descobrir que um funcionário brasileiro da ONU poderia ter evitado toda essa crise anos atrás se não fosse… pelos EUA, sempre eles!), e a revelação da espionagem em massa dos EUA que foi a deixa para Dilma (voltar a) atuar. 

Vale ressaltar que sua política externa ficou meio acanhada em comparação à dos antecessores. Dilma recuou em alguns temas que eram peça-chave para Lula, e reduziu seu próprio papel (a chamada “diplomacia presidencial”, de caráter personalista, que era muito forte tanto em FHC quanto Lula). A grande exibição de Dilma até agora foi a proposição do conceito de “responsabilidade ao proteger”, uma releitura da “responsabilidade de proteger” que a ONU emprega (ou deveria empregar…) em casos como o da Síria, mas que perdeu impacto e não foi tão aclamada quanto, por exemplo, a inclusão do tema da miséria no debate internacional feita pelo Lula. 

Digamos que o Brasil não abriu mão de algumas pretensões, mas prefere “deixar pra mais tarde”. É cedo pra tirar conclusões, mas o cenário de agora apresenta uma chance boa de Dilma tentar uma política mais arrojada, atuando pontualmente em alguns setores para demarcar a posição brasileira, mas sem o espetáculo dos anos Lula. O tempo irá dizer se essa cautela de Dilma, agora forçada à ação, vai render frutos, mas a chance para a mudança – e, quem sabe, deixar sua marca na história da política externa que não seja o apagado debate sobre a “responsabilidade ao proteger” – está na mesa.


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