Mercado virtual, discussões reais

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A matéria é antiga, mas começou a repercutir pra valer essa semana. Um projeto em tramitação no congresso brasileiro legisla sobre um tema polêmico, pois obrigaria empresas de distribuição de mídia digital a se instalarem em território brasileiro para poderem oferecer seus serviços. Assim, “lojas” on-line como o famigerado serviço Steam (que tanto estrago causa nos bolsos de milhões de jovens quando faz suas promoções) teriam que ter servidores e toda a estrutura de distribuição no Brasil, dando assim suporte aos consumidores e, consequentemente, estando sujeitas a tributação. 

O tema é polêmico e arde no ouvido da maioria dos consumidores de plantão. Boa parte dessa mídia digital são jogos, mas podem ser músicas e tantos outros serviços oferecidos na legalidade pela internet, e quem já mexeu alguma vez na vida com importação sabe das colossais taxas de importação brasileiras (algo em torno de 60%). Quem é crítico logo ressalta o aspecto protecionista de um projeto desses, que seria apenas mais um meio de arrumar dinheiro fácil para o Estado e, bem, o consumidor que se lasque. Por outro lado, um aspecto positivo seria justamente o fato de dar suporte em caso de problemas (muito comuns) nessa terra sem lei que é o e-commerce. 

São esses dois lados da moeda que trazem as discussões interessantes que o tema levanta. O primeiro é a questão do protecionismo. Faz tempo que uma reforma tributária é necessária, mas deve demorar muito para sair. E isso afetaria as taxas de importação, que OMC à parte, servem para resguardar alguns setores e acabam afetando outros que não têm muito a ver. O exemplo do mercado de jogos é bem ilustrativo – não existe um mercado nacional forte, e os grandes lançamentos e sistemas vêm de fora. Isso está mudando gradualmente, mas a dependência desse setor do mercado externo ainda vai longe. Como justificar a taxação? Proteção à “indústria de jogos” nascente? O consumidor deve pagar a mais por algo que não é oferecido naturalmente no mercado interno? Por outro lado, existe também a questão do custo de oportunidade, já que a tributação é meio que uma compensação pelo dinheiro que está sendo mandado embora do país, e a defesa desse mecanismo em grande parte se baseia nisso. 

No meio dessa discussão, fica o consumidor, que é o protagonista da segunda questão. E-commerce é legal e prático, mas toca num problema importante que é a jurisdição nacional. Temos um código de proteção do consumidor avançado e que, apesar dos pesares, na teoria protege o consumidor em quase todas as situações, mas nada pode fazer quando falamos em transações internacionais. Coisas mais triviais como garantias, reembolsos ou devoluções podem se tornar um pesadelo. No caso de distribuição de mídia digital, esse problema é menos comum, mas ainda assim existe. O problema é definir como funciona o serviço, já que não se troca mercadorias físicas, apenas… dados. Eis a raiz do problema, e que vai muito além do comércio. Num mundo interligado por redes, onde começa e termina o território ou jurisdição de um Estado? Como taxar um serviço consumido no Brasil mas que é oferecido por um meio físico que se encontra no exterior? E nem tocamos nas questões que andam chamando a atenção nesse ambiente “virtual”, como a liberdade de expressão e a vigilância governamental.

Enquanto isso, a polêmica matéria está parada desde março (e pode ser que não passe, seja pelo aspecto técnico da discussão, seja devido a alguns problemas de constitucionalidade e pelo teor vago do seu objeto), mas traz discussões que não devem ser esquecidas quando pensamos em uma economia do século XXI. A integração de redes traz esses desafios ao próprio conceito de Estado, e é um jogo que os governantes vão ter que aprender a jogar e dar um jeito de resolver cedo ou tarde.


Categorias: Brasil, Economia, Mídia, Polêmica, Política e Política Externa


Vicio na humanidade

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A curiosidade é mais importante do que o conhecimento.

Albert Einstein

Confesso que todas as vezes que vou a um local como aquelas livrarias mais livres, que disponibilizam sofás para leitura dos títulos à venda, perco bastante tempo. Tenho vicio em procurar livros nas estantes da minha área. Não clássicos, obras premiadas ou grandes pesquisas. Mas muitas vezes títulos de jornalistas, curiosos ou até mesmo obras ideológicas, descompromissadas, por vezes colocadas lá apenas por falta de cuidado do encarregado pela arrumação.

A maioria desses livros é evidentemente mal escrita, amadora. Levam consigo a marca de serem para leigos. Muitos parecem feitos por leigos também. O mais curioso são os nomes, capazes de chamar a atenção de quem nunca se interessou pelo assunto. “As cem maiores guerras”, “O livro das guerras”, “Os segredos de Hitler”, “Fofocas sobre a Guerra Mundial” são alguns dos títulos. Outros vão mais longe, prometem coisas como “Um breve resumo sobre a História da Humanidade”.

Na última vez que fui a uma livraria, me deparei com um livro curioso, chamado “O grande livro das coisas horríveis”. E dentro dele supostamente estavam as 100 maiores atrocidades vividas pela humanidade. No formato de pequenos resumos ao estilo Wikipédia, o autor citava conflitos que no seu ponto de vista faziam parte do grupo seleto. O texto, como o próprio título e o tema esclarecem, não tinha caráter cientifico. Ao contrário, em certo momento o autor até se deu ao trabalho de criar um ranking dos fatos, colocando cada catástrofe em uma posição, como um concurso de misses, ao estilo americano de se fazer uma espécie de “livro dos recordes”.

Entre as mais terríveis atrocidades, a Segunda Guerra Mundial foi eleita a grande vencedora. Confesso que me interessei mais pelo ranking do que pelas páginas escritas. Mas fiquei curioso pelo autor e fui pesquisá-lo na internet. Descobri que há um site criado por ele com talvez a maior base de dados dos conflitos em volta da terra, tanto antigos como atuais. (Clique aqui para conhecer parte do trabalho) A sua pesquisa, não cientifica, mas mesmo assim estatisticamente extensa, contribuiu para a citação de informações do site em 200 publicações, algumas entre as obras dos maiores autores sobre disputas de todos os tipos, interessantes às Relações internacionais e Ciências Sociais.

Fato é que o livro, embora muito fraco, realçou em mim alguns sentimentos primários que me fizeram viciar nos temas sociais. A História dos países, dos conflitos, das sociedades humanas. Ao lê-lo, percebi que por vezes falta essa motivação. Todos que visitam essa página ou outras da internet sobre política, notícias, Diplomacia, Defesa, se interessam por temas humanos. A grande parte da minha vida acadêmica se deu também buscando compreender mudanças nos comportamentos, dadas por acontecimentos como a Revolução Industrial e a Revolução Comportamental da sociedade. Momentos históricos que em seus caminhos também trilharam um verdadeiro campo de mortes, de pragas e doenças, como retratava o livro sobre atrocidades. Mas para mim, até aquele momento a chama inicial havia cessado, restava somente a análise estatística.

Nas pesquisas sobre os conflitos na terra percebi o retorno do interesse. A compreensão sobre os motivos daquilo se tornaram mais do que necessárias, viciantes. Não buscamos apenas a informação, mas sim a compreensão do que está além do comum. E nos deparamos com temas como Armas Biológicas na Síria, massacres de homens bomba no Iraque, problemas próximos a nós no Brasil. Nos sentimos mal, mas prosseguimos, acreditamos, trabalhamos, nos informamos mais. 


Engraçado pensar os motivos para seguirmos determinado curso, determinada área ou procurar determinada informação na rede. O caminho do conhecimento sobre temas humano é sem volta, vira vicio. Nos deparamos com novos conhecimentos, desconstruímos a nós mesmos completamente. Certa vez uma professora minha fez uma longa entrevista com o que seria sua classe no semestre, perguntando a todos os motivos de se fazer Ciências Sociais. Segundo ela ninguém faz por acaso, todos tem um motivo, uma inquietação. Quando a inquietação é maior que a curiosidade, nasce o sociólogo, o internacionalista, o bem informado.

“Você tem desconforto do que?”, perguntava. Injustiças do sistema econômico? Talvez a fome, a pobreza, ou a falta de educação. As desigualdades de gênero, a falta de voz dos excluídos, a história cortada dos refugiados. O tabuleiro da diplomacia e das guerras. Algo que o tocou. O nosso interesse é vivo. Quebra os muros de casa, da cidade, do modo de enxergar a vida. Logo estamos em meio a complexidade da humanidade, apaixonante mesmo que por vezes feia.

Como no caso da ativista africana que denunciou o uso de mulheres aidéticas como Armas Biológicas em seu continente. Nos últimos anos, muitos saíram ao mundo denunciando esse tipo de prática. A AIDS e a sua proliferação servem como armas eficientes de guerra nesses locais. A cultura de estupro, muito disseminada pelos vencedores das guerra sobre os civis, então se volta contra o agressor, enfraquecendo exércitos e virando batalhas. Por fim, independente dos vencedores, a guerra mostra o flagelo da humanidade. E quanto há para se entender, para se propor, para melhorar? Talvez apenas para se conhecer, e somos nós que que tomamos conhecimento.

Às vezes temos acesso à informação e lemos apenas os fatos ou os números. Em outras vezes, refazemos as nossas motivações e interesse, no renascimento do vicio pelo conhecimento humano e do ser humano. Aí é quando os números se convertem em compreensão. Temos sorte em em fazer parte de um grupo em que se compartilham e se discutem esses problemas e informações.


Categorias: Conflitos


Imagem da Semana

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A imagem da semana na verdade são várias. Fazem parte da comemoração de 60 anos de armísticio entre a Coreia do Norte e sua vizinha do sul. Como não poderia deixar de ser, o regime de King Jong-Un não poupou gastos ou esforços para montar um desfile pomposo de suas Forças Armadas.

A Coreia do Norte é atualmente conhecido como o país mais fechado do mundo politicamente. Também parece ser talvez o mais famoso, senão o único resquício dos grandes regimes do século XX, das ditaduras firmadas sobre a imagem dos grandes líderes adorados pelo “culto à personalidade”. É uma mistura do que restou do antigo comunismo Asiático e dos regimes Fascistas. Abaixo, uma imagem dos expectadores com punhos cerrados, lembrando os velhos desfiles do Nazismo, enquanto um mar de soldados marcham pela praça central. 

O regime também bastante pobre. Por mais de uma vez já necessitou de socorro internacional. Dentro de seu território, há denúncias de que faltam produtos básicos à população, que sofre até de carência alimentar. Mesmo assim e por isso, a maioria da população norte coreana faz parte das Forças Armadas, reconhecida como o maior contingente de soldados no mundo e praticamente a única ocupação possível no país. 

Abaixo, deixo um vídeo com algumas imagens retiradas do desfile. Marcam uma cena daquele tipo de beleza que assusta, nos faz sentir um misto de emoções. Ao mesmo tempo em que sabemos ao que está submetido o povo norte coreano, como qualquer outro povo à sombra de uma ditadura como essa, contemplamos a grandeza do espetáculo proporcionado pelo seu exército. Imagens ambíguas, que mesmo assim não deixam de ser fantásticas.


Há um ano...

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…o tom era de festa, com a abertura dos jogos olímpicos de Londres, mas trazia notícias que hoje não têm nada de animadoras. 

No dia 26, justamente o da abertura, a postagem comentava sobre a ocorrência de fatos marcantes durante eventos esportivos. Aqui no Brasil não foi diferente nesse ano, mas de um modo inesperado – a vitória da seleção do país no torneio de futebol realizado em junho foi ofuscada pela onda de protestos em busca de melhoria de condições de vida no país e, em boa parte, contra os gastos desmedidos para a Copa do Mundo do ano que vem. É um marco do rompimento da tradicional inação política de uma geração (ou mais…) pós-regime militar, como há muito tempo não se via, e a tendência é que seja ainda mais agitado em 2014.

No dia 28, o assunto era um pouco mais pesado, com a questão do governo turco e as violações de direitos humanos na Síria. Mais que defender interesses humanitários, a Turquia de então estava envolvida com instabilidades internas que seriam pioradas por um fluxo indesejado de refugiados. Hoje, a situação fica cada vez pior, com as revoltas contra o crescente autoritarismo do primeiro-ministro Erdogan, cada vez mais afastado do progressismo do inicio de seu mandato, e violência contra os manifestantes. O bom e velho “em casa de ferreiro, espeto é de pau”.

Para fechar, no dia 31, o assunto quente era a entrada da Venezuela no Mercosul, finalmente, graças à suspensão do Paraguai e que era vista como uma vitória pelos governos do bloco. Mais que uma decisão de cunho econômico, o ingresso de Caracas teve um peso político, e parece ser confirmado na situação atual. Comparado com uma iniciativa bem mais ambiciosa como a Aliança do Pacífico, o Mercosul de hoje, abrigando países em crise econômica e com seus laços comerciais cada vez mais estremecidos por iniciativas individuais, se parece muito mais com um grupo de compadres que mal e mal mexe com discussão política. O Paraguai já foi chamado de volta, mas não quer mais. O tempo dirá se o grupo terá a capacidade de ajudar seus membros a sair do buraco, ou se ruma de vez para o fracasso com relação a seus objetivos originais. 

E vamos que vamos pessoal, postando e relembrando…


Categorias: Há um ano...


Post Especial – Bertha Becker (1930-2013)

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Esta semana, quando preparava meu post, encontrei por acaso a notícia do falecimento desta grande geógrafa brasileira. Um dos jornais mais importantes de São Paulo reservou 5 linhas, em edição online, para apresentar a notícia. Estas 5 linhas passam longe de fazer justiça ao legado deixado por Bertha Becker.  

A Amazônia foi seu foco de interesse desde a década de 1970. Tratava-se de estudar uma região, que na época já despertava grandes expectativas e preocupações. Lembro que durante meu trabalho de conclusão de curso sobre a Amazônia, deparei-me com um autor que dizia que esta fronteira (mesmo que em território brasileiro) era a versão brasileira de “Destino Manifesto”

Entre as notas de homenagem a esta “cientista da Amazônia”, como ficou conhecida, muitas falam de suas qualidades que iam muito além dos trabalhos acadêmicos, o simples entender este tesouro nacional. Becker desempenhava o papel político, sem trabalhar diretamente para o governo, de forma a debater políticas públicas e combinar o conhecimento científico com sua aplicação à realidade.  

Lembro de ouvir que ler Bertha Becker era importante para compreender os rumos da Amazônia, mais ainda para escrever um trabalho tendo como temática a região. Isto iria desde livros mais antigos, como “Geopolítica da Amazônia” (1982), até seu mais recente “A urbe amazônica” (2013). Ainda em 2013, participou da concepção do “I Simpósio – Relações entre Ciência e Políticas Públicas para o Desenvolvimento da Amazônia”.


Entre os pontos destacados de seu trabalho, chamou-me atenção em especial seu foco no qualitativo, ao invés do quantitativo. Afastou-se, portanto, de um movimento que acompanhou sua vida na Geografia: a expansão de estudos por modelos e fórmulas lógicas expressas por índices estatísticos, que considerava o homem como uma das variáveis existentes, o que para a autora significava destituí-los de expressão social ou histórica.  

As energias de Becker, sobretudo voltadas à Amazônia, centraram-se nos atributos humanos, culturais e econômicos. De fato, existem elementos que não se contam por hectares.   

Notas: 1, 2, 3, 4


Categorias: Post Especial


O que dizer da Alemanha?

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Fonte: dw.de

Em meio a um cenário crítico e cético da economia na Europa, mais especificamente na União Europeia, parece haver uma “luz no fim do túnel”. Parece, pois talvez não seja uma saída para um continente mergulhado em crises financeiras, altas taxas de desemprego, estagnação econômica e resgates de euros provenientes dos fundos estruturais do bloco regional. 

Particularmente, sou um entusiasta da União Europeia e já escrevi sobre isso aqui na Página Internacional. Mas, quando o assunto é a moeda única e as crises provenientes do mesmo, temos que ter o pé no chão e ver que faltam muitos passos para a Europa voltar àquela pujança econômica de tempos atrás. Pois bem, agora em Julho, em contrapartida e inesperadamente, a economia do Euro voltou a crescer em virtude de uma alta no chamado Índice de Gerentes de Compra (PMI, em inglês), que avalia o setor privado dos países. Pode-se dizer que a confiança está voltando de maneira lenta e gradual por aquelas bandas. 

Talvez bem lenta e bem gradual, sendo franco. Todavia, o que chama a atenção é o papel de um ator que, desde 2008 com o início das turbulências na economia global, vem “levando a Europa nas costas”. E aqui está ele: a Alemanha. O país colocou o Reino Unido e a França como atores importantes, mas coadjuvantes, na recuperação desde a crise. Aglutinando confiança empresarial, crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e apoio da população ao atual governo de Angela Merkel, a qual vem liderando as pesquisas para a próxima eleição em Setembro, os alemães estão na dianteira econômica da União Europeia. 

Em reportagem especial da “The Economist” publicada pela Revista Carta Capital da última semana (ano XVIII, n. 758) e intitulada “A relutante potência hegemônica europeia” é abordado de maneira completa o que fora dito nos parágrafos anteriores. Nela há um paradoxo: mesmo com a sua força econômica, a Alemanha parece não seguir corretamente (ou querer e desejar) a liderança do bloco. O motivo? Economia forte, mas desconhecimento da história do país, mais uma vez assombrado pelos anos do Nazismo, população majoritariamente idosa e uma concentração de renda alta. 

De acordo com dados do “Pew Research Center”, a Alemanha é o país com maior número de opiniões favoráveis sobre a União Europeia e o Euro, ultrapassando Itália, Espanha, Reino Unido, Grécia e França. Mais do que isso, os alemães, cerca de 55%, acreditam que a economia interna foi fortalecida pela integração. Dados da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI) apresentam as menores taxas de desemprego e os maiores balanços orçamentários e de conta corrente proveniente aos alemães, ultrapassando, inclusive, os Estados Unidos. 

Então, o que dizer da Alemanha? Tem muitos pontos positivos, e outros extremamente negativos, sejam eles padrão de vida estagnado, riqueza assimétrica, poupança com dividendos negativos. A julgar pela reportagem em questão e as notícias recentes divulgadas nas mais diversas mídias, o crescimento econômico alemão tende a continuar nos próximos anos. Alguns problemas internos de características históricas, culturais e, obviamente, financeiras, acabam por atrasar sua suposta liderança na região. Não se sabe ao certo se Reino Unido e França, as outras duas maiores economias da Europa, caíram de produção e isso ajudou na valorização dos alemães ou se estes últimos tiveram méritos próprios para tanto. O que se tem total certeza, até o presente momento, é que, para uma Europa crescer, é necessário o fermento alemão.


Categorias: Economia, Europa


Vermelho de vergonha

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Caro leitor, se acha que a corrupção é ruim por aqui no Brasil… bom, digamos que não seja exclusividade nossa. Nos últimos anos, a China foi invejada pelo crescimento econômico e pujança, mas isso veio acompanhado de um legado bastante nefasto, que é como uma consequência indesejada dessa máquina que impulsiona o desenvolvimento de lá. 

Nessa semana, o ex-dirigente do Partido Comunista, Bo Xilai, foi formalmente indiciado por acusações de corrupção. Não foi pouca coisa – trata-se do maior escândalo de poder no país nas últimas décadas. Bo era não apenas um político relativamente novo, na mais alta esfera do poder chinês, e que mandava na maior cidade do país, mas também o rival direto de ninguém menos que o ex-primeiro ministro Wen Jiabao (que teve papel predominante na sua queda). Trocando em miúdos, um assessor de Bo se envolveu numa tentativa de asilo nos EUA no ano passado que acabou parando em uma investigação sobre o assassinato de um empresário norte-americano. Descobriu-se que a mentora havia sido a mulher de Bo, que já foi até condenada à morte pelo crime (mas teve a pena comutada para prisão perpétua), e a investigação foi parar em Bo e seus esquemas de abuso de poder e subornos. 

O que resulta de tudo isso? Primeiro, um potencial sucessor a cargos mais importantes sai de cena (literalmente, não é visto em público há mais de um ano) e deixa um cenário mais previsível quando houver um novo ciclo presidencial na China. Segundo, e mais sério, o risco econômico que essas denúncias podem acarretar. Por exemplo, temos uma grande empresa farmacêutica que foi pega em um esquema de propinas a oficiais e autoridades chinesas. Imediatamente a matriz tenta controlar os danos e chega até mesmo a se afastar da filial chinesa problemática. Pode dar lucro por lá, mas deixa uma imagem muito ruim fora do país. Mesmo a denúncia de Bo foi um choque para os mercados. 

O problema é que a corrupção praticamente faz parte da estrutura de poder na China (o país está ranqueado numa posição bastante ruim em índices de percepção de corrupção) e empresas que vão para lá levam isso em conta, pois resultam em gastos “por fora”. E isso em um país que precisa de taxas de crescimento anormais e começa a sofrer, com a necessidade de estímulos cada vez mais constantes, é um sinal bastante desanimador. 

Mas e a corrupção em si? A grande crítica à condenação de Bo é que se ele caiu em desgraça, quanto pior não fizeram aqueles que impulsionaram sua carreira. Quando serão pegos? Ou melhor, serão pegos? É possível enquadrar padrões morais ocidentais nessa sociedade de padrão único que é a chinesa atual? O fato é que os próprios dirigentes ficaram constrangidos pela denúncia, e devemos lembrar que política ainda se vale muito de prestígio. Por mais que haja restrições à expressão na China, as denúncias tiveram seu impacto na mídia, e uma população com níveis de vida cada vez melhores vão cobrar por bons serviços – e bons políticos, de um modo ou de outro. Este é apenas mais um desafio para o enorme quebra-cabeças que ainda é o futuro do Império do Meio.


Categorias: Ásia e Oceania, Economia, Política e Política Externa


It’s a boy!

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It’s a boy. Este foi o anúncio ontem estampado em letras colossais em um dos mais altos edifícios de telecomunicações de Londres, ilustrado em todas as manchetes inglesas, comentado e festejado pela sociedade britânica como o acontecimento do ano. E hoje descobrimos que ele se chama George. George Alexander Louis, o terceiro na linha de sucessão ao trono e o mais novo integrante da tradicional família real britânica.

Entender o furor que novidades relativas à monarquia ainda causam no Reino Unido já foi assunto extremamente comentado à época do casamento do Príncipe William com Kate Middleton, em 2011, e o nascimento deste novo herdeiro apenas nos faz relembrar argumentos já conhecidos.

A monarquia, em verdade, representa parte da identidade nacional britânica, caracterizando-se por ter sido um regime político estável, poucas vezes desafiado (alguns se lembrarão das aulas de história sobre a Revolução Inglesa) e que ainda hoje inspira muita confiança na maior parte da sociedade.

O simbolismo retratado pela Casa Real, seu glamour e tudo que a envolve ainda representa muito para os ingleses, mesmo em pleno ano de 2013. A principal crítica talvez seja relativa aos gastos reais – estimados em cerca de 98 milhões de reais por ano – mas que ainda assim não constituem argumento suficiente para questionar o poder real no país, ainda reconhecido pela maioria como apropriado para o século XXI.

A “plebeia que se tornou princesa”, tal como muitos se referem a Kate Middleton, tem certamente ainda contribuído para aproximar a realeza do cidadão comum, que se vê ali representado e que se rejubila com o nascimento do bebê real.

Depois de protagonizarem o “casamento do século”, ainda ouviremos notícias sobre o filho de William e Kate por muito tempo, na certeza de que a monarquia se vê fortalecida e, ao mesmo tempo, renovada na geração do neto de Lady Di. Os desafios que esta forma de governo enfrentará quando o pequeno George estiver em idade e condições de assumir o trono talvez ainda sejam difíceis de serem previstos, mas fica já a certeza de que seu nascimento por si só representa o fortalecimento do regime no país – e (por que não?) do país perante o mundo que acompanha de perto, e com grande interesse, todos os passos reais. 


Categorias: Europa, Mídia, Política e Política Externa


Imagem da Semana

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Fonte: time.com


Sim, todo mundo está falando da viagem do Papa Francisco ao Brasil. Depois de um voo de aproximadamente 12 horas, chegou ontem à tarde no Rio de Janeiro e foi recepcionado pela Presidente Dilma Rousseff. Já andou pelas ruas, foi ovacionado inúmeras vezes e terá uma agenda cheia durante a semana em virtude da Jornada Mundial da Juventude (JMJ). 

Ontem mesmo o Victor publicou seu texto aqui na Página Internacional sobre o “Papa América”. E, hoje, o “Imagem da Semana” não poderia deixar de registrar um acontecimento de tamanha importância, pois, mesmo em meio às críticas constantes aos gastos públicos com a vinda de uma liderança religiosa, temos que ter em mente que Francisco também é chefe de Estado da Santa Sé, a qual possui personalidade jurídica internacional. 

Pois bem, indo direto ao assunto, a imagem em questão é a capa da última edição da revista “Time” (v. 182, n. 5). Olhando rapidamente, não há nada de estranho. Mas, assim como já circula na internet, em razão da letra “M” do nome do periódico, o Papa Francisco aparece com chifres. Em outras edições isso já ocorreu com personalidades famosas, dentre elas Barack Obama e Bill Clinton.

Entretanto, a conspiração muda quando se fala do Papa e já explodem as críticas à revista que colocou “chifrinhos” em uma das maiores autoridades contemporênas. Deve ser pura coincidência, só que, mesmo assim, nada retira o mérito de ter a capa da “Time” no nosso “Imagem da Semana”.

Habemus Papam!


Papa América

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Essa semana o Papa Francisco visita o Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, realizada no Rio de Janeiro. Com ele, também milhões de fieis vindos de todo o país e da América Latina, representando uma reunião continental de católicos em torno da figura de seu maior líder. 

Mas a visita do novo Papa não é importante apenas para os crentes dessa religião espalhados pela América do Sul. Fora dos festejos, passeios em carro aberto e encontros com multidões nas ruas, ela representa uma tentativa de reafirmação da Igreja no continente. 

A igreja Católica representa na América Latina uma forte força em todos os aspectos. Basta analisar que poucos anos atrás ela própria se posicionava dentro de regimes e governos como uma das autoridades máximas de poder no continente, principalmente no Chile, Brasil, Argentina e Colômbia. Influência e status que marcaram a sua presença para o bem e para o mal nesses territórios, dependendo da direção política que o leitor defenda.

O próprio Papa não pôde escapar desse passado envolvido em governos e disputas de poder. Acusado de participar da ditadura militar argentina, chegou ao patamar máximo da Igreja como inimigo da presidente de seu país, Cristina Kirchner. Após sua posse, ambos se apressaram em demonstrar certa afeição e amizade, mesmo que com alguns sobressaltos. Uma demonstração política bastante clara de aproximação, necessária ao Papa, que tem como objetivo a América latina, e a Cristina, presidente de um país de eleitorado e pensamento católico.

A reaproximação dos inimigos é um claro exemplo de como a Igreja é importante para a América e vice-versa. No campo político, o impacto do catolicismo é claro. Além de religião da maioria da população, é também mais presente entre as elites econômicas e intelectuais. Vide o caso brasileiro e as novas pesquisas sobre as religiões no país levando-se em conta as classes sociais. Assim, valores e ideias que guiam o catolicismo podem influenciar as decisões políticas dos países, tanto pelo apoio da massa populacional quanto por ser a religião dos principais líderes e autoridades nacionais.

De maneira bastante curiosa, são os próprios jovens católicos os principais alvos da visita do Papa. E também são eles os mais contrários a maioria de dogmas que a Igreja defende. Aborto, casamento gay e a legislação. Cada vez mais as opiniões religiosas sobre esses assuntos e a postura dos indivíduos diante do tema parecem se distanciar. Sem a combinação entre vontade da Igreja e vontade das pessoas, o catolicismo viu sua força e influência dentro do continente minguarem.

A influência católica não pôde passar ilesa as mudanças de governos na América do Sul. Mais recentemente, sobretudo no Brasil, não pôde se sustentar frente ao crescimento de outros grupos como os evangélicos, tomando grande parte da sua população de fieis com um discurso mais popular. É evidente que há uma pregação contrária a outras religiões arraigada na igreja evangélica, defensores de suas próprias ideias e do seu novo nicho de crentes. Tantos interesses não deixaram de causar incertezas quanto ao sucesso da viagem papal.

Mesmo surgindo como alternativa ao catolicismo e muitas vezes com exposição de ideias contrárias e acusatórias, os evangélicos não parecem dispostos a protestar contra o Papa. A confusão das ruas pode afetar a visita? Difícil acreditar. O movimento se espatifou. Quando ainda existia levava consigo uma onda de revolta exclusiva aos políticos. Evidente que no meio da diversidade de grupos, haviam militantes radicalmente contrários à Igreja, principalmente pelo seu posicionamento em relação ao casamento homossexual e ao aborto. 

Os contrários ao Papa ainda capitalizavam outros descontentes com o mar de denúncias em que se pôs a Igreja depois do Vatileaks, foco de revolta generalizada. Como toda instituição ou Estado poderoso, por vezes o Papa sempre surge como grande simbolo de todos os desmandos da humanidade. Obama, a espionagem e as trapalhadas nos documentos sigilosos americanos jogaram por terra a fabricação da imagem do Papa como alvo da vez. Esse papel agora pode novamente ser representado pelo bom e velho EUA. O próprio Papa refutou qualquer possibilidade de revolta ou manifestação, anunciando passeios em carro aberto.

A visita então parece perfeita às necessidades da Igreja. Ela poderá se utilizar de um excelente ambiente, de uma multidão de seguidores e do apoio da propaganda das maiores mídias do continente (os grandes jornais e tevês também tem como donos fieis católicos, demonstrando mais uma vez a importância da influência da Igreja nos grupos da elite latina), que transmitirão a visita como um grande evento. O catolicismo recuperará a influência e iniciará o seu futuro de recuperação pela América? Difícil responder.

Interessante notar como a visita de um líder religioso pode abrir espaço para discussões quanto a política e a relação e posicionamento de países. O Objetivo do Papa argentino foi bem traçado pela imprensa latina: resguardar o futuro da Igreja. Resta saber se em meio ao jogo político de sua presença e aos festejos dos jovens fieis, se os seus esforços serão satisfatórios. 


Categorias: Américas, Brasil, Política e Política Externa