Post Especial: A hora e a vez do general Santos Cruz

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[Nas últimas semanas, o noticiário relatou com entusiasmo a eleição do embaixador Roberto Azevêdo para a chefia da OMC. Outra importante nomeação de um brasileiro passa pela mídia com menos alarde, mas podemos dizer que seja tão significativa quanto. Nessa postagem muito especial, o colaborador Giovanni Okado conta um pouco de sua experiência pessoal com o General Santos Cruz, designado pelas Nações Unidas para comandar a inédita brigada de intervenção da força militar da ONU no Congo. Aproveitem essa esclarecedora e surpreendente leitura, sobre homem tão singular a quem foi confiada uma missão tão importante.]



“I’m ready!”. Com essas palavras, o general Santos Cruz colocou-se à disposição, logo na primeira sondagem, no início do mês de abril, para comandar as tropas da MONUSCO. 

Nesse dia, estávamos almoçando juntos. De repente, o telefone tocou. Era o tenente-general Babacar Gaye, do Senegal, Assessor Militar do Escritório de Assuntos Militares do Departamento de Operações de Paz das Nações Unidas e Force Commander da MONUSCO entre fevereiro de 2005 e julho de 2010. A proposta estava lançada. Restavam os acertos políticos na ONU, e entre ela e os governos africanos e brasileiro.

Dia 24 de abril de 2013, chegou a carta da organização para o governo brasileiro, oficializando a proposta. No documento, foram ressaltados atributos do chefe militar: “muito dinâmico, capaz e bem respeitado, com vasta experiência, incluindo sua atuação exitosa como Force Commander da MINUSTAH de janeiro de 2007 a abril de 2009.”. Pouco menos de um mês depois, dia 17 de maio, veio o anúncio do Secretário-Geral das Nações Unidas, nomeando-o como novo comandante da força militar da MONUSCO. 

Este é um motivo de grande orgulho para todos os brasileiros. É, também, um exemplo de vida para cada um de nós. Se é verdade a célebre frase machadiana – e ela certamente o é – de que os melhores amores nascem de um minuto, então, temos muito a aprender com ele. O amor dele à pátria, à profissão, ao próximo e, sobretudo, à paz demonstra que o instante desafiador é o mais belo. E o mais duradouro. 

A fala desse combatente é ríspida, o rosto, severo. Mas o tratamento é sempre humilde, simples, educado e equilibrado, jamais superior ou inferior. É uma mistura de quem diz “tem que ser violento na ação, depois que ela acabou, termina a violência” e ao mesmo tempo fala “desde que eu me conheço por gente, sou um cara apaixonado”. Por trás da incansável farda, o guerreiro cavalheiresco, uma pessoa com quem a convivência rende boas histórias, e estas se tornam um tesouro raro. 

Tenho a sorte de ter convivido com essa personalidade ímpar. Minha admiração por ele é imensa. Ainda na graduação, durante minhas primeiras pesquisas e estudos sobre temas de segurança e defesa, deparei com o seu nome. Era o “cara” que pacificou o Haiti. Era a pessoa que estava presente nas notícias e nos relatórios que eu lia, quem eu me perguntava se um dia teria a oportunidade de conhecer. 

Conheci. Para minha surpresa, no mestrado, encontrei com ele sentado na sala de aula, na condição de aluno. Durante um semestre, fizemos uma disciplina juntos. Pudemos debater, conversar, ele e eu e com a classe toda. Eu, assim como a maioria dos alunos, mais teórico; ele, mais prático. Às vezes, o general era criticado por apresentar ideias que decorriam de sua vivência, a exemplo de frases como “para muita gente, na África, democracia é ter uma luz acesa em casa”, mas não deixava de revelar, ainda que sem o dito conhecimento que se exige no meio acadêmico, a sensatez que escapa à teoria.

Àquela época, mal esperava eu que o destino nos colocaria novamente próximos. Desta vez, no trabalho: ele, coordenando a Assessoria de Defesa da Secretaria de Assuntos Estratégicos, eu, como assessor técnico. Essa relação durou pouco, é bem verdade, foram apenas dois meses. Mas, recordando Vinícius de Moraes, foi eterna em sua duração. Uma experiência notável, que me permitiu evoluir, seja no aspecto profissional, seja no aspecto humano. 

Nenhuma manhã começava sem uma reunião em sua sala. As cadeiras se aglutinavam em torno de sua mesa. Entre muito papo, muito debate sobre o noticiário e muitos relatos de uma longa carreira militar, as tarefas eram distribuídas. Ao longo do dia, ele entrava em nossa sala, perguntava sobre o que estávamos fazendo e logo estávamos novamente papeando. Se havia, a subordinação do empregado ao chefe era pouco percebida; prevalecia a colaboração e o respeito aos seus “subordinados”, a quem ele se referia como “muito bons e inteligentes”.

Quanto aos relatos, entre tantos que não chegam à mídia, marcou-me uma história triste, mas de superação. Em uma escola caindo aos pedaços no Haiti, havia uma menina com as pernas presas aos escombros, que precisaria ser amputada não fosse a valentia de uma médica do Exército Brasileiro, apoiada pelo general Santos Cruz. Bem embaixo do edifício, em um local de acesso remoto e onde o menor barulho poderia derrubar toda a estrutura que sobrou da escola, entraram o chefe militar e a equipe de resgate para socorrer essa menina. Hoje, ela anda normalmente. 

Nunca vi o general se vangloriando de seus feitos, vários deles heroicos. Só o via se vangloriando de seus cavalos, de como eles tinham saltado bem, a cada dia que chegava à SAE/PR, depois de tê-los treinado. O entusiasmo era nítido em sua voz. Assim como presenciei esse entusiasmo quando estávamos no Rio de Janeiro, em missão, e passamos pelo Pão-de-Açúcar. Repetidas vezes, ouvi ele dizer “isso aqui é maravilhoso!”. Próximo a aterrisagem na capital federal, novamente escutei sua voz entusiástica: “Giovanni, ó Brasília, ‘vem’ ver!”. Naquele momento, compreendi que, independente de sua posição e de suas realizações, não há vanglória maior nem melhor do que ser apaixonado pela vida.

Em pequenas atitudes, o general facilmente conquista a simpatia de qualquer um. O homem que esteve presente no jantar de comemoração do meu aniversário é o mesmo que era tratado como um “rei” pelas tropas jordanianas da MINUSTAH. Exatamente o mesmo sujeito, sem pompa ou soberba. Aquele que, no último dia 23, reuniu amigos e familiares em seu jantar de despedida e deixava transparecer alegria e empolgação, consciente de que sua missão no Congo, embora hercúlea, não é irrealizável. 

Trabalhar com o general foi, para mim, uma honra que não poderia imaginar nem conseguiria descrever. Mais do que trabalhar, conviver. Nesta semana, ele embarcou para Nova Iorque e, exatamente no dia de seu aniversário, 2 de junho, partirá para o Congo. Fico agora, assim como milhões de brasileiros, africanos e pessoas de todo o mundo, na torcida pelo seu sucesso. Que essa nova esperança, de sangue verde e amarelo e de bem com a vida, floresça naquele solo tão manchado por guerras, frustrações, violência e desamor. 

Boa sorte, general Santos Cruz! Força, muita força!


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O perigo que vem de fora

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Vamos continuar o tema da postagem do último sábado, sobre a crise na Síria. Mas, dessa vez, o foco vão ser os fatores externos que determinam os rumos do conflito. Todo mundo sabe que o problema todo começou com a violência de Assad contra os protestos e coisa degringolou com a formação de grupos armados de oposição. Mas parece que todo mundo ao redor tem seu interesse por lá. 

Quem está do lado de quem? Grosso modo, do lado de Assad, temos a Rússia, China, Irã, Iraque e Líbano. A oposição tem apoio formal de Grã Bretanha, França, Qatar, Arábia Saudita, além dos EUA (apesar de meio indecisos). Temos o Líbano, que tem várias partes interessadas. E claro, Israel, que não quer nada com os rebeldes e prefere encarar a Síria de frente. 

Qual o rolo de tudo isso? Bom, começamos com o Hezbollah libanês, que está do lado do governo sírio. É considerado grupo terrorista por EUA e Israel, e pode vir a ser por Inglaterra e França. Isso já justificaria o apoio dos europeus aos rebeldes. Mas boa parte dos mesmos rebeldes são grupos sunitas radicais – muitas vezes financiados pelos países do Conselho de Cooperação do Golfo, chefiado pela Arábia Saudita e que de uma organização que não servia pra quase nada virou um importante ator na região após a fracassada “primavera árabe”. Pior, o grupo de oposição sírio não é nada homogêneo, e inclui mesmo organizações ligadas a grupos extremistas como a Al Qaeda. Para os europeus e norte-americanos, armar esses grupos é dar um tiro no pé, um pouco como o que foi feito no Afeganistão nos anos 80 – olha no que deu. É por essa lógica que a Rússia trabalha, pensando que dos males, o menor – manter Assad é a punica garantia de que não vá surgir um conflito longo pelo poder, instabilizando a região, ou pior, a ascensão de grupos radicais. E nem falamos de Israel, que está literalmente em pé de guerra com a Síria por conta de escaramuças na fronteira. 

O resultado disso tudo? A Rússia e o Irã vendem armas para o governo sírio. Países ocidentais e do Golfo armam os rebeldes de um modo ou de outro. A articulação para a tal conferência Genebra II (que pretende juntar representantes das duas partes) parece fadada ao fracasso: a Rússia não vê com bons olhos o armamento dos rebeldes; estes não querem participar sem que Assad renuncie. No meio de tudo, os dois lados estão usando todos os meios disponíveis e temos relatos de armas químicas, com vantagem para o governo. Nenhum dos lados vai ceder. Com isso, parece que a saída por meio da intervenção direta é o caminho menos desejável, mas ironicamente parece o que mais poderia dar certo no momento, pois serviria para remover a causa do conflito (Assad) e ao mesmo tempo daria maior controle sobre a sucessão (para evitar o surgimento de um Estado radical). Mas isso se Israel não for para o ataque antes. 

As possibilidades são inúmeras, assim como as consequências. A guerra na Síria é civil, mas tudo que decorre dela tem impacto regional. O caos decorrente vai ser generalizado por aqueles lados, e vai ter seus efeitos muito além, de Washington a Moscou. Não seria nada inesperado caso venha a se tornar algo maior.


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Dia Internacional dos Peacekeepers

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Manter a paz. Há décadas, quem um dia tivesse imaginado que essa tarefa – que é naturalmente de todos – seria ainda objeto de uma profissão exclusiva certamente visualizou um cenário internacional complexo, em que cooperação e risco à soberania para a restauração da paz se separam por uma linha às vezes tênue, nem sempre muito visível.

Hoje, 29 de maio, é o Dia Internacional dos Peacekeepeers – ou Trabalhadores das Forças de Paz. Uma data instituída pela ONU em 2002 para homenagear aqueles que trabalham dentro do sistema onusiano de manutenção da paz, em missões nas mais diversas partes do mundo e com desafios por vezes tão grandes que podem lhes custar suas próprias vidas. Desde a primeira missão de Peacekeeping (1948, na Palestina), cerca de 3000 mortes de “capacetes azuis” (como são conhecidos, devido à sua identificação pelos capacetes da ONU) foram registradas. O dia de hoje é, portanto, um tributo a estes indivíduos.

Homenageá-los é muito importante, reconhecendo os esforços individuais de atenuação de situações de instabilidade devido a conflitos – situações em que se falar de paz nem sempre é evidente. Esses indivíduos estão, contudo, inseridos em um sistema que frequentemente é muito mais complexo do que seus esforços particulares. Instaurar uma missão para manter a paz é uma prática que só se torna possível a partir do consentimento do Estado afetado, uma vez que as forças da ONU são (ou devem ser) absolutamente imparciais, mas as dificuldades neste processo são muitas vezes inevitáveis.

Torna-se difícil avaliar o histórico de operações sem mencionar as dificuldades e falhas com graves consequências humanas ocorridas neste histórico, especialmente durante a década de 1990. Em relação à proteção de civis, essa década foi marcada por uma “trilogia funesta” – composta pelos casos da Somália, de Ruanda e da Bósnia – a qual traumatizou a comunidade internacional e evidenciou as dificuldades neste processo e, por vezes, a impotência dos Peacekeepers diante de certas circunstâncias.

Com a Agenda da Paz escrita pelo então Secretário-Geral da ONU Boutros Ghali em 1992, pela primeira vez a menção sobre o papel da ONU nestas operações foi apresentada. A recente (e bastante debatida) noção de “Responsabilidade de Proteger” aparece na discussão e a avaliação sobre o uso da força nestas operações com certeza pode ser tema de análise muito mais aprofundada.

Vários elementos tornam essa reflexão certamente muito ampla para um simples post. Mas vale relembrar que vivemos um momento internacional inédito em que o general brasileiro Carlos Alberto dos Santos Cruz foi convidado para a árdua tarefa de liderar a missão de paz na República Democrática do Congo (a segunda maior missão em atividade atualmente).

Restaurar a credibilidade no trabalho de Peacekeeping da ONU no país diante de fortes hostilidades por parte dos rebeldes certamente exigirá muita competência e particular liderança, demonstrando que a profissão de manter a paz existe, sim, e merece o nosso respeito e a nossa homenagem neste dia a ela dedicada. 


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Imagem da Semana

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Fonte: lemonde.fr


Falar que o conflito na Síria, o qual vem completando dois anos, está sempre presente nos noticiários não é novidade. Entretanto, nesta semana chamou a atenção uma reportagem realizada pelo jornal francês “Le Monde”, na qual o fotógrafo Laurent Van der Stockt presenciou ataques de armas químicas das tropas de Al-Assad contra os rebeldes. 

O principal problema na utilização de gases nos combates, além de ser extremamente proibido, é que em Damasco vários civis se deslocaram até os hospitais com fortes dores de cabeça, náusea e inchaço nos olhos. Parece ser o famoso gás sarín, substância tóxica que afeta o sistema nervoso. Autoridades internacionais, dentre elas as Nações Unidas e a União Europeia, estão investigando os casos para confirmar a veracidade das informações. 

Se imagens valem mais do que palavras, o vídeo (com legendas em inglês) do “Le Monde” comprova a guerra química.


Saúde para todos?

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A saúde é um direito universal, gratuito e garantido pelo Estado. Pelo menos é o que garante a Constituição brasileira em um dos seus artigos mais importantes. Durante mais de duas décadas o Brasil tem perseguido essa realidade, a maior parte das vezes bem distante de cumprir o que determina a legislação máxima no país. A saúde pública existe, o que não existe é a mínima qualidade no atendimento.

A falta de qualidade não é mera crítica ou exposição de uma situação distante do ideal. Na verdade, é uma denúncia de total desrespeito ao ser humano. Não são raras denúncias de situações desumanas contra quem mais precisa das garantias básicas oferecidas pelo Estado. Ao contrário do que um ideal tão bonito como a universalização, o Sistema de Saúde aparece quase sempre como maior problema do país nas pesquisas com a população. Suas aparições nas discussões e na imprensa vem sempre seguidas por denúncia de corrupção, da falta de serviços e de condições vexatórias de atendimento. 

As belas palavras da Constituição são substituídas pela descrença total de que um modelo assim possa funcionar em um país tão problemático. Há não muito tempo atrás, até mesmo um secretário próximo ao Ministro da Saúde haveria dito as seguintes palavras a revista Piauí: “A saúde pública é igual ao papai noel, todas achamos fantástico mas na verdade não acreditamos.”

Ocorre que entre os muitos problemas da saúde surgiram denúncias que dão conta de que além da falta de verbas e de vontade política, a qualidade do atendimento ainda sofre com a falta de responsabilidade dos profissionais da área, já escassos. Em mais de um caso nas periferias ocorreram mortes de pacientes que buscaram ajuda em hospitais e postos de saúde e não a encontraram por estes estarem sob a responsabilidade de profissionais que faltaram aos seus plantões. Mais do que isso, ficou conhecido o costume de determinados médicos da rede pública em burlarem a escala de trabalho, modificando horários de entrada e saída do serviço.

Além da falta com suas responsabilidades cometida por alguns médicos, ficou notório a falta de profissionais em periferias e cidades do interior, sobretudo das regiões norte e nordeste. Falta não pelo sucateamento da infraestrutura, não pela falta de dinheiro para se pagar novos profissionais, mas sim pela ausência de médicos com vontade de trabalhar nesses locais, mesmo com garantias de salários melhores do que os encontrados nas cidades grandes e capitais. 

Defendendo solucionar essa situação, o Ministro da Saúde afirmou que o Brasil faria uma tentativa de buscar profissionais de Cuba dispostos a trabalharem em hospitais de periferia e cidades do interior. Mais tarde, afirmaria que o país fechou um acordo internacional para trazer médicos em massa da Espanha e de Portugal dispostos a trabalhar nos mesmos locais.

O Conselho Nacional de Medicina, que até então não havia se pronunciado a respeito da polêmica falta de interesse dos profissionais em trabalharem nesses locais, foi fortemente contrário a movimentação do governo, chamando a medida de temerária e desrespeitosa. Entre os argumentos dos médios brasileiros, estava o de que não se tinha provas suficientes da qualidade dos profissionais trazidos de outros países e se o conhecimento técnico dos mesmos estaria de acordo com os padrões nacionais. Na verdade, a palavra do Conselho causa determinado temor, pois se não se sabe se os profissionais que vem para o país tem costumes piores do os já vistos, como de faltar em seus plantões e deixar seus pacientes a beira da morte ou quase nunca preferir atender a população carente, então não saberíamos quais são essas práticas ainda piores do que a realidade atual. 

Em contrapartida as fortes críticas do Conselho de Medicina, seguiram ataques fortes a toda condição médica no Brasil. Houve quem chamasse o Conselho de corporativista e defensor de um monopólio dominado por um número limitadíssimo de profissionais. Esse só seria o ponto máximo de uma realidade construída desde o elitismo da carreira, da dificuldade de se cursar uma universidade de medicina, da formação de poucos profissionais que quase sempre fazem parte da casta das pessoas mais rica do país, dos melhores alunos possíveis, dos moradores das cidades mais desenvolvidas etc. 

Tudo parece levar a que quase todos os profissionais de medicina preferissem carreiras como profissionais liberais, donos de consultórios, de clínicas e hospitais particulares que privilegiassem o status e o lado financeiro. Não por culpa dos médicos, mas sim de uma conjuntura construída para corroborar toda a realidade brasileira, menos a universalização da saúde. Ocorre o mesmo com as profissões que envolvem o ensino e a educação.  Com o agravante de que por serem poucos os médicos, não sobrariam muitos dispostos a trabalharem por salários pequenos e longe dos grandes hospitais públicos dos centros urbanos, de boas universidades etc. 

Se analisarmos a medicina no país como elitista chegaremos logo a uma contestação péssima: é impossível pensarmos em saúde universal e para todos se até mesmo na formação dos profissionais não existem cursos, estudantes e médicos suficientes. E não tão cedo haverão. Além disso, não existe vontade nem do governo, nem da mentalidade dos profissionais da área em universalizar o sistema. E o elitismo a esse respeito fica mais evidente ao pensarmos no próprio acordo fechado pelo Ministério da Saúde. Afinal, deixando de lado toda a polêmica em torno do caso, podemos chegar na seguinte questão. Como se encontram profissionais de países europeus, como Espanha e Portugal, dispostos a trabalharem em locais periféricos do Brasil em que sobrem vagas pela falta de interessados em pegá-las? Aparentemente está mais fácil encontrar médicos para periferia dentro dos países desenvolvidos do que no universo de médicos brasileiros. 


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Há um ano...

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Voltando ao tempo, há praticamente um ano, a nossa coluna “Conversando com a Teoria” tratava sobre a teoria construtivista das Relações Internacionais. Vale a pena clicar aqui e recordar um pouco da abordagem de Alexander Wendt, principalmente sobre a noção de a anarquia internacional ser algo construído e não uma estrutura em si, conforme afirmavam os neorrealistas.

Em outro momento, em “Brasil: qual é o teu negócio?”, o tema da vez era o Código Florestal, o qual completou um ano no último sábado e teve como intuito principal regulamentar as propriedades rurais nacionais. O documento veio numa época importante, pois em Junho de 2012 foi realizada a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, mais conhecida como Rio+20. Como muitos sabem, seus resultados não foram muito satisfatórios, embora autoridades “vangloriem” até hoje o que fora debatido. 

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) voltaram aos noticiários e fora objeto de análise em “Liberdade Privada”. Os sequestros continuavam a ser uma das ações mais criticadas do grupo. Desde então, com destaque para o último semestre, a organização vem mantendo um diálogo mais ativo com o governo central, resultando em diversos acordos e uma relativa estabilização interna. 

Ademais, nos fins de Maio do ano passado começava a pequena série de postagens intitulada “Para…o que?”. No primeiro texto acerca da paradiplomacia, seja ela a inserção internacional dos chamados atores subnacionais (cidades, estados, municípios, províncias, regiões, etc.), fora abordado o mundo pós-Guerra Fria e a reformulação da figura dos Estados-nação. 

É isso! Até breve com mais postagens antigas.


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Síria: o regime recupera terreno

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O conflito na Síria se arrasta há mais de dois anos, mas o presidente Bachar Al-Assad segue na sua poltrona. Nos últimos meses, frente a escalada da violência reportada, parecia crescer a chance de alguma forma de intervenção. França e Reino Unido defenderam abertamente armar os rebeldes, ao passo em que os Estados Unidos estabelecerem sua linha vermelha. Por outro lado, Rússia e China bloqueiam resoluções contrárias ao mandatário na ONU. 

O momentum parecia favorecer os rebeldes. Contudo, após o incidente de canibalismo e, especialmente, da afirmação de uma investigadora das Nações Unidas sobre evidências da utilização de armas químicas por rebeldes, o cenário embaralhou-se. A afirmação logo foi negada por outros investigadores, mas preocupou, justamente por se tratar da tal linha vermelha ou a “game changer” do Obama.   

Na semana passada, em entrevista ao jornal Clarín, o líder do regime defendeu a sua ofensiva militar e negou a estimativa de vítimas (mais 70.000 para a ONU). Reafirmou ainda sua intenção de resistir e até mesmo apresentar-se nas próximas eleições do país. Além disso, o jornal Le Monde indicou nesta semana um avanço das forças oficiais, que teriam se rearmado e se aproximavam de reconquistar uma cidade estratégica na fronteira com o Líbano.  

Os russos, apesar de proporem uma conferência para discutirem a crise, seguem sendo o principal fornecedor de armas para Assad. O Irã também tem auxiliado na tarefa. Sem contar o Hezbollah do Líbano, que combate junto ao exército do governo. A estratégia de garantir o controle em regiões estratégicas do país, ainda segundo o veículo francês, levou a recentes massacres em três vilarejos sunitas.  

Neste mar de sangue, o apoio internacional e os avanços rebeldes parecem arrefecer. O primeiro parece relegado à conferência internacional negociada por EUA e Rússia, enquanto o segundo grupo parece perder-se na fragmentação – incapaz até de gerenciar a ajuda humanitária nas áreas que controla. De ação internacional contrária ao regime, somente a atuação solo de Israel mesmo.  

Uma intervenção que parecia acercar-se do iminente, pode ter sumido do mapa. Segue o conflito e a tragédia humanitária.   

Imagem: fonte


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Polemizando a Segurança

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Fonte: pragmatismopolitico.com.br


Outrora já havia escrito um texto (veja aqui) que tratava brevemente sobre a questão dos drones. Para quem não conhece, os drones são aeronaves de combate não tripuladas e foram utilizadas pela primeira vez na década de 1980 no conflito Irã-Iraque. Desde então, por inúmeros motivos, dentre os quais se podem citar uma nova visão do que seria uma ameaça internacional, a representatividade da transferência desse tipo de tecnologia dos Estados Unidos para seus aliados e o fato de se estar combatendo um “inimigo invisível”, a prática de se usar este tipo de armamento vem causando inúmeros debates em tudo que envolve Segurança Internacional. 

Me aventuro a escrever sobre isso, pois a Página Internacional não poderia deixar de destacar o que polemizou a semana nos mais variados cantos do mundo acerca desse tema. Primeiro, talvez o mais importante, o secretário de justiça dos Estados Unidos, Eric Holder, assumiu publicamente que drones mataram quatro cidadãos norte-americanos no Iêmen, país vizinho da Arábia Saudita localizado próximo ao Golfo Pérsico. Obviamente, os alvos tinham ligação direta com a organização terrorista Al-Qaeda, todavia dois mortos não faziam parte das estratégias dos ataques. Um adolescente de 16 anos fora vítima fatal. 

Mesmo assim, o presidente Barack Obama promoveu um discurso defendendo a legitimidade dos ataques realizados por drones. Em vídeo, mostrou que os Estados Unidos estão em guerra contra o terror e que a utilização de drones é parte da estratégia do país após os atentados de 11 de Setembro. Em suas palavras, afirmou que há pessoas matando norte-americanos e que eles devem detê-los. Ou seja, a frase “doing nothing is nothing on option” relembra muito os anos da Era de Bush Filho. 

Segundo, até o Irã embarcou nesta jornada. No início do mês apresentou o “Hamaseh”, o primeiro avião não tripulado do país. Autoridades disseram que ele será capaz de realizar operações para reconhecimento de território e até transporte de mísseis. Resta saber se não é mais um blefe do presidente Ahmadinejad. 

Drone da FAB. Fonte: Tahiane Stochero/G1

Terceiro, até aqui no Brasil os drones foram novidade. Pela primeira vez a Força Aérea Brasileira (FAB) e a Polícia Federal colocaram em operação três drones para monitorar as fronteiras com o Paraguai. O intuito é reprimir crimes e facilitar o deslocamento terrestre para combater o tráfico de entorpecentes. Algo bastante útil e que deve ser comemorado por estas bandas. 

Somente com os exemplos dos Estados Unidos, do Irã e do Brasil, vê-se que os drones têm inúmeras utilidades. Evidentemente, a primeira é a mais polêmica e continuará sendo muito criticada pelas Nações Unidas. Lutar contra um “inimigo invisível” e adentrar territórios soberanos são temas inquietos e de longa data nas relações internacionais. Mesmo de forma pequena e sem quase perceber, o governo brasileiro mostra o outro lado da moeda: o uso de drones para observação de fronteiras. 

Continuam existindo mais contras do que prós em relação aos drones. E, enquanto ocorreram mortes de civis, a polêmica não terá um fim. Dependerá das políticas exteriores de cada Estado. E, novamente, se derivar dos Estados Unidos e o seu eterno combate ao terrorismo, drones se multiplicarão entre seus aliados ressuscitando a ordem internacional do fim do século passado.


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O maior espetáculo da Terra

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Não deu nem dois meses e já temos mais notícias sobre terrorismo na mídia ocidental. Enquanto nos EUA mais um suspeito de envolvimento com os atentados na maratona de Boston era investigado e, segundo o FBI, acabou morto após atacar o agente que o interrogava, surgem notícias aterradoras da Inglaterra, em que um homem foi aparentemente decapitado na rua por dois agressores. 

A grande diferença? Bem todos se lembram do jogo de gato e rato que foi identificar os autores do atentado de Boston, com mobilização até na internet pra descobrir os possíveis culpados na multidão. Naquele caso, o anonimato jogava a favor dos agressores e da sensação de “terror” decorrente. Mas na Inglaterra? As informações são difusas, mas ao que se sabe os próprios agressores incentivaram as testemunhas a filmar a violência. O vídeo de um deles, com as mãos ensanguentadas e dizendo uma mensagem jihadista é curto, mas chocante. Pela violência do ataque, o fato da vítima ser um militar (que remete à participação do Reino Unido em intervenções mundo afora) e o impacto visual, não é difícil suspeitar de mais um caso de terrorismo “celular”, aquele em que não é uma organização, mas indivíduos que resolvem dar sua mensagem à força para o mundo.

Falamos disso no caso do ataque em Boston, mas dessa vez existe a novidade da exposição dos autores. Os suspeitos, que seriam de origem nigeriana, não se importaram em esconder a identidade, entraram em confronto com a polícia e foram baleados – as informações são desencontradas, mas podem ter morrido no tiroteio. Em poucas horas tivemos o ataque, a vítima, a repercussão e o desfecho. Hoje em dia, quando qualquer pessoa tem um celular na mão, a oportunidade para o terror não tem hora. Antigamente, quando as comunicações eram demoradas, o terrorismo era muito mais dirigido às figuras importantes (matar o presidente dos EUA, o arquiduque da Áustria, e por aí vai) pra causar impacto real. Hoje em dia não. Basta dois jovens com uma bomba cheia de pregos para matar 3 e mutilar dezenas num espetáculo de violência que choca o mundo em questão de minutos, pelas câmeras das próprias testemunhas. 

Ainda é possível questionar se esse ataque na Inglaterra foi mesmo terrorista, e podemos estar redondamente enganados. Mas tudo leva a crer que sim. A grande questão aqui é se estamos vendo uma nova era de terrorismo, em que a facilidade em conseguir conhecimento para causar destruição e o isolamento dos indivíduos gera novos terroristas sem a necessidade de uma organização própria. Basta um desequilíbrio emocional ou uma ideia fixa para que um cidadão comum se torne uma arma (e a sociedade moderna cria pessoas assim aos montes). Ou talvez uma era em que o impacto mais importante seja não pelo número de vítimas, mas pela brutalidade e impacto visual das mortes ou das consequências do ataque, que parecem ser a razão desses dois casos. O tempo dirá.


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A moratória do bem

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Em 2007, o presidente do Equador, Rafael Correa, surpreendeu ao anunciar a decisão de não explorar um campo de petróleo na região amazônica de seu país. Para isto, escolheu apresentá-la na Assembleia Geral das Nações Unidas, especialmente para lembrar que os benefícios ambientais do projeto teriam que ser ressarcidos de alguma forma pela comunidade internacional. Do discurso, nasceu a Iniciativa Yasuni-ITT.  

O parque nacional Yasuni, região da moratória petroleira estabelecida, já havia sido reconhecido por sua riqueza em biodiversidade pela Unesco, organismo da ONU. Contudo, a Amazônia equatoriana também já foi palco de importantes interesses das grandes empresas que exploram petróleo. Desta forma, tornou-se alvo de crescentes discussões da sociedade civil em torno da proteção de seu imenso inventário biológico, do avanço da poluição como resultado da extração de seus recursos, assim como do reconhecimento dos direitos das comunidades autóctones.  

A moratória do bem – em oposição àquela dos endividados – estimou uma compensação total de US$ 3,5 bilhões para ressarcir o país por preservar os recursos lá contidos e pela não emissão de gases do efeito estufa de sua produção estimada. O projeto foi bem recebido pela comunidade internacional, mas o projeto não chegou perto de levantar os US$ 350 milhões por ano que estabeleceu como objetivo. Desde então, o presidente Correa prolongou a moratória, mesmo com os parcos avanços, devido à queda do preço do petróleo.  

Uma outra questão importante é a gestão dos fundos levantados. Inicialmente, o governo equatoriano queria administrar sozinho os recursos. Para a comunidade internacional, o gerenciamento de fundos deveria recair no PNUD, vinculado as Nações Unidas. Por fim, chegou-se a um modelo misto, por meio de um comitê formado por representantes dos doadores internacionais, entidades governamentais do Equador e de sua sociedade civil. Os recursos seriam utilizados para transição energética do país, proteção da biodiversidade e o desenvolvimento de suas comunidades amazônicas.  

Até março de 2013, haviam sido arrecadados US$ 336 milhões. O presidente tem a expectativa que haja uma contribuição maior dos países que mais poluem e prometeu uma avaliação do projeto para junho. Apesar de responder a uma demanda interna em relação à proteção do meio-ambiente, trata-se ainda de uma plataforma política contra os grandes interesses empresarias que dominaram o país – retórica recorrente de Correa. Foi uma moratória unilateral, com apoio internacional, e que pode, da mesma forma que foi estabelecida, ser finalizada.  

O seu insucesso parece ser mais uma demonstração que cuidar dos próprios problemas suplanta, na maioria das vezes, iniciativas que visam o bem comum, mesmo quando impulsada por importantes organizações internacionais. Infelizmente.  


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