Imagem da Semana

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Nos dias que antecederam o feriado internacional do Dia do Trabalho, a imagem da semana vem de uma fábrica no Paquistão. Um jovem operário de 13 anos descansa durante o seu intervalo, deitado em uma bacia de metal. A fotografia faz parte de um arquivo montado por organizações de trabalhadores do país, que pretendem fazer uma série de manifestações no Primeiro de Maio.

A exposição da foto na semana anterior a data que marca a luta pelos direitos dos trabalhadores abre espaço para uma reflexão. Não só no Paquistão seguem existindo trabalhos análogos a escravidão que desrespeitam totalmente a vida, a saúde e a sobrevivência de milhões de pessoas. Mesmo sendo um absurdo de amplo conhecimento no mundo, o problema está longe de ser solucionado. Mais do que isso, um mercado inteiro de produtos vendidos no ocidente, mesmo em países com rigorosas leis trabalhistas, dependem e utilizam esse tipo de trabalho regularmente diante dos nossos olhos, como a indústria têxtil e a de joias. Até quando o Dia do Trabalho servirá em alguma regiões como momento de protesto e luta por condições e direitos tão básicos?


Boston Massacre

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A exatas duas semanas ocorria o mais recente evento de violência denominada pelas autoridades americanas como terrorismo. Ao que tudo indica, dois jovens tchetchenos aparentemente inseridos na cultura e sociedade ocidental, decidiram explodir uma bomba caseira dentro de uma mochila deixada próximo a linha de chegada da maratona de Boston, uma das mais importantes do mundo. Três pessoas morreram e centenas ficaram feridas.

Desde aquele momento foi iniciada uma caçada aos responsáveis pelo ataque, colocando à prova a competência da polícia americana em defender o país de terroristas. O desdobramento das investigações levou a dois suspeitos, logo perseguidos cinematograficamente pelo FBI, levando a morte de  um deles e a prisão do outro. A transmissão ao vivo da caçada aos suspeitos bateu recordes de audiência nos Estados Unidos e se transformou em assunto recorrente dos noticiários brasileiros, só competindo com as entrevistas dramáticas às vítimas sobreviventes e aos parentes dos mortos, que tentavam humanizar o espetáculo do cenário de guerra em Boston, cena muito mais recorrente na ficção de jogos eletrônicos e filmes de Hollywood.

Os motivos que levaram a explosão na maratona, que não seria a única pelo arsenal encontrado na casa dos jovens e pelo interrogatório a que foi submetido o sobrevivente, continuam obscuros. A tentativa de ligá-los a grupos terroristas, que foi desde vasculhar mensagens de redes sociais em que se diziam a favor da separação da Tchetchenia da Rússia até o desespero de trazerem parentes  dos acusados dos mais longínquos lugares a fim de que confessassem o que não se provou, foi totalmente ineficaz. Talvez a violência tenha sido causada apenas pela não inserção na sociedade, como defenderam alguns psicólogos às pressas para a imprensa, ou motivada por alguma psicopatia. Alguns experts no assunto, como que constatando o óbvio deixado em um primeiro momento de lado, defenderam que talvez esse tenha sido um caso de violência interna sem ligação a ideais políticos, e que talvez a sociedade americana, e todas as sociedades que copiam a sua forma de vida, sejam violentas. 

A ação individual de um louco munido de armas estaria longe de ser a primeira ocorrida em um país que desde a década de 80 não passa um ano sequer sem viver um massacre fabricado pelos chamados “assassinos em massa”, “serial killers” e outros tipos de criminosos. E os americanos vivem essa realidade intensamente, acompanhando os noticiários e perseguições aos suspeitos, assistindo filmes, séries fictícias e reais sobre cada caso recente. Há canais em que a grade de programação inteira é dedicada a esses notórios assassinos. Na verdade, não existe nada que a televisão ensine mais aos seus expectadores do que como funciona a sua violência, o seu modo de matar, a sua vida, as suas vítimas e o seu final. Talvez sejam os únicos a competirem com as celebridades em destaque e conhecimento popular.   

E com a ação desses assassinos também se constrói o ódio. O lobby pela pena de morte, recente em nosso país e feito pelo noticiário policial recheado de sangue, é mera cópia do modelo de televisão americano. Nesses programas, o lado humano do incidente estava por todos os lados, à vista ou escondido pelas câmeras. Poderia ser visto no desespero e medo dos habitantes de Boston, retirados por uma ampla força policial que checava de casa em casa o paradeiro do suspeito. E nas sombras pelo desdobramento do espetáculo, com a morte de Sunil Tripathi, confundido por meio de um perfil do twitter como um dos homens que apareciam no site do FBI como responsáveis pela explosão. O jovem foi encontrado morto três dias após o incidente, provavelmente assassinado por alguém que buscava vingança, ou ter se suicidado pela culpa atribuída a ele e as constantes ameaças. A histeria causada pelo sensacionalismo e o circo montado em cima do atentado, já um evento grandioso e trágico por si só, chegava ao ápice de ocasionar uma cena de (in)justiça com as próprias mãos ou de pré-julgamentos, dignas da barbárie total, no contrastante ambiente do país mais desenvolvido do mundo. A violência é fortemente propagada por todos os lados.

Mas a morte de um inocente não aplacou a festa. A comemoração nas ruas de Boston poderiam ser vistas como um alívio ou até mesmo uma demonstração de patriotismo dos americanos, felizes com o resultado final da caçada. No entanto, também não podemos deixar de considerar todo o deslumbramento com que essa sociedade trata a violência, desde os cinemas e os seriados de TV a recordes de compras de armas. Os maiores defensores da democracia americana  para a população estavam mais uma vez lá, fardados. Por meio da bala e a algema anularam o medo. Mas como poderiam evitar que outro louco logo surja, mandando pelos ares expectadores de uma maratona, ou um shopping center, ou uma praça? 

A foto acima é de uma camiseta promocional da Nike, com os dizeres “Boston massacre” (massacre de Boston, em português), em analogia a um jogo de futebol americano realizado na cidade. A linguagem da violência transportada a outras áreas da vida, principalmente ao esporte, não é mera coincidência e sim parte de um processo continuo da transformação dela em bela e banal. A maior parte do tempo isso passa desapercebido por todos nós, como algo bastante comum. Mas nem sempre isso ocorreu. Na verdade, as analogias a violência são bastante recentes, desde a década de 70 para ser mais exato. Anteriormente a isso, se você se direcionasse a outra pessoa e afirmasse que no dia anterior havia ocorrido “um massacre” no jogo de seu time, certamente deixaria a outra pessoa em pânico. Excitação pela violência, achar legal a vida de um assassino ou as mortes em uma guerra seria uma impossibilidade ainda maior. Mas todos nós assistimos isso, e na maior parte do tempo gostamos.  

De onde vem o gosto pela violência, desde quando ela se transformou em algo tão atraente? Evidentemente, não quero cometer o erro de culpar o cinema e a TV pela violência, mas ao contrário, utilizá-lo como um espelho do que nos interessa ou que somos levados a nos interessar, de como vivemos. E vivemos tempos de exposição, em que todo acontecimento se torna um evento midiático, uma história de cinema. A retirada das camisetas das lojas foi um dos raros dias em que os americanos não acharam graça nos filmes de ação. Nada também que a transmissão da CNN a perseguição dos suspeitos não pôde mudar. E se depois de algumas horas descobrissem que aqueles jovens suspeitos eram inocentes? A emoção a frente da TV teria sido válida, as filmagens fechadas nos carros de guerra de última tecnologia e nos soldados teriam valido, enfim, para o atraente espetáculo da violência teria sido mais um dia de contentamento para os seus criadores e o seu público sempre cativo. 


Categorias: Cultura, Estados Unidos, Polêmica


Há um ano...

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Vale a pena relembrar três assuntos principais que foram tratados no blog há um ano…

O primeiro deles é o que já foi chamado pela imprensa espanhola de “a maior disputa argentino-espanhola desde a Independência” (!). Trata-se do caso envolvendo o projeto de lei que expropriou 51% das ações da estatal petrolífera YPF, controladas pela gigante espanhola Repsol (reveja o post aqui). O assunto teve aceitação considerável no plano interno, mas diplomaticamente ainda causa polêmica, com um diálogo que parece ter tido novidades no último mês (quase um ano depois do incidente em si!). Com receio de que esse posicionamento de Cristina se estenda a outras empresas espanholas, o assunto ainda se mostra sensível entre os dois países.

A Espanha, aliás, foi assunto do blog na mesma semana por outro motivo (reveja aqui): o registro dos maiores índices nacionais de desemprego dos últimos vinte anos no país. Ao invés de melhorar, infelizmente a situação atinge novos recordes negativos, superando a máxima do último ano: pela primeira vez, mais de 6 milhões de espanhóis em meio à população economicamente ativa estão em busca de trabalho. Com altos índices de recessão e poucas perspectivas de mudança no curto prazo, o país parece ainda não ter muito o que comemorar no feriado da próxima quarta-feira.

Por fim, a constatação de que, pela primeira vez na história, segundo estudos especializados, havia mais mexicanos voltando para casa do que indo para os Estados Unidos foi assunto também no blog há um ano (confira novamente aqui). Trata-se de um assunto interessante e cujas perspectivas foram apresentadas de forma bastante interessante no post.

Texto atemporal, vale a pena ainda reler aqui uma excelente contribuição feita para a nossa coluna “Conversando com a Teoria”, em que o “Terceiro Grande Debate” (sobre “como estudar” as Relações Internacionais) é introduzido – com a apresentação de elementos de novas teorias na área (tais como a Teoria Crítica, do Construtivismo, do Pós-Modernismo ou da Teoria Normativa). A este propósito, não deixe de conferir os demais textos dessa coluna teórica (disponíveis aqui), trata-se de um importante material de consulta para os interessados em estudos em Relações Internacionais.

Postando e relembrando, esse é o objetivo do “Há um ano…” na Página Internacional! 


Categorias: Há um ano...


Disputando a liderança…

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Brasil x México. Não, não estamos falando da última final olímpica no futebol masculino, em que nossos vizinhos mexicanos levaram a melhor. A disputa agora é em outro campo: trata-se da batalha pela liderança da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Fato é que a OMC se tornou conhecida há anos pelas dificuldades nas negociações da Rodada Doha – a qual começou em 2001, mas se encontra travada desde então especialmente devido às políticas protecionistas de Estados Unidos, Índia e China, que dificultam qualquer tipo de consenso (leia mais aqui e aqui). Aliás, consenso é palavra-chave pra essa organização, já que a não-aceitação por parte de qualquer um de seus 159 países-membros impede que qualquer medida seja adotada.

Por consenso também funciona, portanto, a eleição do Diretor-Geral da organização. Eleição que é feita a portas fechadas e em estilo gradual (como um “paredão”, em que os candidatos são eliminados aos poucos, ao final de três rodadas). Nove candidatos iniciaram a disputa, cinco seguiram bem cotados para a segunda rodada (inclusive aquela que poderia ser a primeira mulher a ocupar o cargo, a indonésia Mari Pangestu) e dois permanecem no páreo até o final de maio.

São eles: o mexicano Hermínio Blanco e o brasileiro Roberto Azevêdo. Ou seja, a vitória já é latino-americana (fato inédito!), o que representa (ou reforça) a importância que a região está assumindo no cenário das organizações internacionais – desde que a OMC foi criada, em 1995, é a primeira vez que dois candidatos de uma mesma região disputam este cargo entre si na fase final.

A um mês do final das eleições, as perspectivas ainda se apresentam bastante incertas. Em termos de orientação econômica, o mexicano parece agradar mais àqueles de pensamento liberal (no caso os EUA e os países desenvolvidos em geral), enquanto o nosso Embaixador possui uma visão mais desenvolvimentista, menos crente na liberalização do comércio como solução (a qual agrada principalmente o BRICS, os países africanos e emergentes).

Em intensa campanha pelo mundo afora, Roberto Azevêdo encontra-se bem avaliado para se tornar o primeiro brasileiro a assumir um cargo de tamanha importância em organizações internacionais. Cargo que representa por si só um desafio, já que as negociações não andam há anos e as decisões na OMC são tomadas por consenso, o que reduz a margem de manobra de seu Diretor-Geral.

Contudo, apostando no potencial de negociação de Azevêdo – Representante Permanente do Brasil na OMC em Genebra desde 2008 e extremamente habilidoso como diplomata – a conquista deste cargo representaria um marco importante para a política externa do país, a qual alça voos antes nunca imaginados. Carregado de responsabilidades, é claro, como qualquer cargo de liderança, o posto de Diretor-Geral do maior foro internacional de negociações comerciais vislumbra, efetivamente, a possibilidade de uma liderança brasileira. A ver durante as próximas semanas se nesta nova disputa com os mexicanos, em outros campos, a “vitória” será verde e amarela… 

 


Categorias: Américas, Brasil, Organizações Internacionais


Briga de Gigantes

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Fonte: CBN

Teoria é teoria. Prática é prática. Mas todo mundo sabe que uma não existe e nem vive sem a outra. Pois bem, na Constituição Brasileira promulgada em 1988, especificamente no artigo 2º, lê-se assim: “São poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”. [grifo meu] Com a normatividade sempre presente, é claro, torna-se uma leitura bonita, mas esta semana nosso país presencia uma questão um tanto quanto oposta a tal regra. 

Me aventuro brevemente na área do Direito. O episódio citado acima vem sendo vinculado na mídia com a PEC 33, ou seja, a Proposta de Emenda Constitucional de número 33 concebida em 2011 pelo Deputado Nazareno Fonteles (PT/PI). Nos dizeres jurídicos, a PEC é um instrumento do denominado Poder Constituinte Reformador ou propriamente dito para “emendar ou atualizar” a Constituição Federal. Pois bem, e o que há na 33 que causa tanta inquietação entre o Legislativo, cujo corpo máximo é o Congresso Nacional (formado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal), e o Judiciário, cujo órgão superior é o Supremo Tribunal Federal. Vamos a ela: 

“Altera a quantidade mínima de votos de membros de tribunais para declaração de inconstitucionalidade de leis; condiciona o efeito vinculante de súmulas aprovadas pelo Supremo Tribunal Federal à aprovação pelo Poder Legislativo e submete ao Congresso Nacional a decisão sobre a inconstitucionalidade de Emendas à Constituição”.

No fritar dos ovos isso quer dizer o seguinte: ações do STF passarão pelo crivo do Congresso Nacional, inclusive nos tópicos sobre controle de constitucionalidade, o qual sempre fora objeto final de responsabilidade do poder judiciário. Embora a PEC tenha sido criada em 2011, foi no último dia 24 de Abril que a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados aprovou o parecer. Os próprios Ministros do STF, dentre eles o presidente Joaquim Barbosa, já declararam posição contrária ao texto com suposto teor de abalo à democracia.

Especialistas chegaram a citar que tal proposta de emenda é inconstitucional em si, pois fere uma das cláusulas pétreas da Constituição, seja ela a separação entre os três poderes citada no artigo 2º e transcrita no começo do presente texto. Além disso, esta PEC poderia ser objeto contrário ao que está escrito no artigo 60, parágrafo quarto, seja ele [grifo meu]:

§ 4º – Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: 

I – a forma federativa de Estado; 

II – o voto direto, secreto, universal e periódico; 

III – a separação dos Poderes; 

IV – os direitos e garantias individuais. 

Mesmo tendo sido aprovada, ainda restam outros trâmites burocráticos que começarão com a formação de uma comissão da Câmara para analisar a proposta. Falta chão para ocorrer mudança de fato. O que ocorreu até agora é parte de uma longa novela da Federação Brasileira: troca de farpas entre poderes. Talvez o diferente agora seja somente o Executivo estar fora do campo de batalha. 

Levando em consideração os últimos episódios da nossa política interna, nos resta acreditar que o Judiciário, na figura central do Supremo Tribunal Federal, é a instituição que goza de maior prestígio popular e que condensa o maior respeito pela Constituição. Pensando assim, a PEC 33 é fruto de um Legislativo em crise, mas que utiliza do argumento de “criar leis” como instrumento de manobra para aumentar sua capacidade frente aos outros poderes. 

Vale ressaltar que, ainda em 2011, foi iniciada a PEC 5, a qual teve parecer favorável no ano passado e propôs justamente a isonomia entre os três poderes. Comparando ambas as propostas, é paradoxal. E, se há algo que parece errado, é hora de ver o belíssimo texto da nossa Constituição e tentar aproximá-lo da prática. A crise institucional está aí e tomara que não se alastre. Certamente teremos novidades nos próximos dias.


Categorias: Brasil


O nó congolês

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O leitor que percorreu o noticiário ontem certamente se deparou com a notícia do brasileiro convidado, pela ONU, para exercer o posto de Force Commander da maior missão de paz da organização, a MONUSCO. Trata-se do general Santos Cruz, cujo histórico fala por si mesmo. E como anda a República Democrática do Congo (RDC), futuro destino do chefe militar brasileiro? 

O país é um caos completo faz tempo. Desde os idos de 1994, quando a massa de refugiados de Ruanda importou o conflito hutus x tutsis pro antigo Zaire, a guerra escalou, trouxe junto quase toda a vizinhança, incluindo Angola, Uganda e Zimbábue, e resultou na invasão que derrubou o presidente Mobuto, em 1997, criando a RDC. Claro que o conflito (dentro e fora) não acabou e em 1999 a ONU mandou sua missão de paz original (MONUC) para garantir o cessar-fogo e checar o desarmamento dos dois lados do conflito. Em 2010 a missão mudou de nome, virando a atual MONUSCO, com a função de agregar “estabilização” a suas funções. 

O pulo do gato acontece esse ano, com a resolução 2098, que cria uma inédita brigada de intervenção, com a finalidade de agir em defesa dos cidadãos e autorizada a neutralizar de modo ativo grupos armados. Serão 3 batalhões de infantaria, um de artilharia e um de operações especiais e reconhecimento, composto na maioria por soldados de países africanos. Desse modo, a missão de paz do Congo vai se tornar a maior da ONU, ultrapassando a do Sudão, assim que os 3.000 homens da brigada de intervenção forem para lá. Também continuará sendo a 2ª mais custosa, perdendo apenas para o Sudão. Seja pela presença da ONU cada vez mais “sofisticada”, seja pela gradual influência dos vizinhos no conflito (e haja vizinhos), vê-se que a situação no Congo é desesperadora. 

A própria criação dessa brigada contrasta com o mandato da missão original. Em 2010, a ideia era garantir segurança de pessoal e dos direitos da população. Hoje, a ONU parece reconhecer que a coisa está fugindo do controle (só agora?) e o caso do Congo está complicado o suficiente para exigir uma inédita ação pela força. Qual o problema aqui – o modelo de missão anterior que não funcionou, a situação do país que não colabora, interesses mais obscuros ou uma mistura de tudo isso? 

Aproveitando o comentário feito sobre a postagem de ontem, a pergunta inevitável é: até que ponto a RDC é soberana? Marcado por um duopólio irregular do emprego da força, divido entre facções rebeldes – com destaque para o M23 – e as Forças Armadas que não cumprem, de cara, o requisito mínimo para se tratado como Estado. Há um anacronismo: os soldados cometem as mesmas violações de direitos humanos, notadamente o estupro, que os rebeldes. Assim, como é possível acreditar no governo congolês? Como se sentir seguro e acreditar que o Estado zela pelos direitos de seus cidadãos? 

Não podemos deixar de considerar a influência de fora, especialmente de Ruanda, que financia o M23. O problema nunca vai ser resolvido se deixarem de lidar com essa interferência externa. Mas analistas de relações internacionais não perderiam seu tempo e, apressadamente, lançariam seus conceitos: o Congo é um “estado falido”, deve-se adotar a “reconstrução do estado” (nation building). Tomadores de decisão de todo o mundo, no conforto de seus escritórios, evocariam a tal da “responsabilidade de proteger”. Tudo isso constitui uma assemblagem acadêmico-conceitual para conferir eufemismos a algo simples, já dito por Krasner: a soberania, em essência, se tornou uma hipocrisia organizada. Desde a era vestfaliana, acentuando-se no século XX, a soberania foi violada, seja pela força, seja pela diplomacia, mas, ainda assim, prevalece como um princípio constitutivo das relações internacionais, ajustando-se a cada caso. Talvez o Congo seja o caso mais extremo dessa realidade, com um Estado à mercê de interesses diretos e indiretos de fora e resultando em um conflito permanente. 

Um país dilacerado pela guerra há quase 20 anos, que sofre com interferência estrangeira (do comércio de mercado de minerais preciosos à presença física de tropas), conflitos étnicos compartilhados com quase todos os vizinhos, onde o estupro é uma vergonhosa realidade cotidiana – empregado como uma arma de guerra e de opressão – e no qual a ONU finalmente parece tomar uma atitude mais dura, que pode representar tanto um novo paradigma de atuação quanto a possível falência do sistema. Esse é o novo desafio do general Santos Cruz, e uma nova, e talvez definitiva, esperança para aquela nação sofrida.


Categorias: África, Assistência Humanitária, Defesa, Direitos Humanos, Organizações Internacionais, Paz, Política e Política Externa, Segurança


Inseguranças do presente e operações de paz

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[Em meio às notícias que agitam o noticiário das missões de paz no dia de hoje, uma contribuição singular do membro Giovanni Okado, sobre esse tema que ainda vai render muita discussão nas próximas semanas. Confiram!]

O mundo está mais inseguro, é inegável. A violência do século XXI, conforme constatação do Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 2011, intitulado “Conflito, segurança e desenvolvimento” e elaborado pelo Banco Mundial, não se encaixa nos moldes do século XX – muito menos dos anteriores. As guerras interestatais e civis diminuíram nos últimos 25 anos, embora, paradoxalmente, a insegurança tenha aumentado: um bilhão e meio de pessoas vivem em áreas afetadas por fragilidade, conflitos ou violência criminal organizada, em larga escala. Os dados do Uppsala Conflict Data Program reforçam essa situação: entre 2001 e 2010, houve 69 conflitos armados, 221 conflitos não estatais e 127 atores impondo uma violência unilateral. 

Muitos países ou áreas subnacionais, como demonstrado no relatório mencionado, enfrentam ciclos repetidos de violência, governança insuficiente e instabilidade. A estimativa é que 90% das guerras civis da última década ocorreram em países que já haviam sofrido uma guerra civil nos últimos 30 anos. O custo médio desse tipo de guerra equivale a mais de 30 anos do crescimento do PIB de um país em desenvolvimento de tamanho médio. 

Os laços entre segurança e desenvolvimento são cada vez mais inextrincáveis. Hoje, são os indivíduos, e não as nações, que fenecem com o conflito e a violência. Ainda citando dados do relatório, a probabilidade de populações nos Estados frágeis ou afetados por conflitos estarem subnutridas é mais de duas vezes maior do que as pessoas em outros países em desenvolvimento. Igualmente, as probabilidades das primeiras de enviarem seus filhos à escola, de verem seus filhos morrerem antes dos 5 anos e de carecerem de água potável são, respectivamente, três, duas e duas vezes menor do que das últimas. 

Não há dúvidas de que o ambiente para a promoção da paz e segurança internacionais está mais complexo. Uma das maneiras, já adotada há 65 anos, que a comunidade internacional acordou para lidar com isso foi o estabelecimento de operações de paz. No total, já se estabeleceram 67 operações e, atualmente, há 15 em andamento. 

Toda operação de paz deve seguir três (controversos) princípios: consentimento das partes, imparcialidade e uso da força apenas para a autodefesa ou cumprimento do mandato. Se, de início, concebia-se essas operações apenas para manter a paz e segurança, agora, elas também se destinam a facilitar o processo político, proteção de civis, assistência ao desarmamento, desmobilização e reintegração dos combatentes, apoio às eleições, proteção e promoção dos direitos humanos e auxílio ao reestabelecimento da governança.  

À primeira vista, as operações de paz se apresentam como um dos remédios para curar a insegurança contemporânea. Mas alguns, com razão, podem argumentar: essas operações não violam a soberania de países onde elas ocorrem? A resposta que vem à mente, de pronto, é: esses países, ainda que soberanos de direito, seriam soberanos de fato? 

Esse é um dos dilemas que a comunidade internacional terá que confrontar quando debater a continuidade das operações de paz. Até o momento, elas têm demonstrado, sobretudo, relativa eficiência para ajudar governos em dificuldade e prover serviços a populações em situação de risco. Concomitantemente, a solidariedade internacional aumentou: dificilmente alguém permanece impassível diante de violações sistemáticas dos direitos humanos. E, é claro, aumentaram os interesses. A reconstrução dos países, sob a retórica humanitária, gera prestígio e lucro. 

Em um mundo cujo traço marcante é a insegurança, as operações de paz devem permanecer como um importante instrumento para promoção da segurança e, complementarmente, do desenvolvimento. Entretanto, além de sofrer questionamentos quanto à sua implantação, elas enfrentarão a concorrência de outras ações (mais intervencionistas), como contempladas nas estratégias dos Estados Unidos e da OTAN ou como observado na atuação da França no Mali. 

Um ponto emblemático nas operações de paz foi a adoção da Resolução 2098, em 28 de março deste ano. Ela aprovou a criação de uma “brigada de intervenção” no âmbito da missão de paz no Congo, a MONUSCO, país que, em grande medida, enquadra-se nas problemáticas levantadas pelo relatório do Banco Mundial. Isso pode dar início a uma nova fase. Uma fase que levará em conta o antigo provérbio latino “se queres a paz, prepara-te para a guerra”, quando for o caso, combinado com ampla assistência humanitária. E que fase. Resta saber se ela será a regra ou a exceção.


Categorias: Defesa, Paz, Post Especial, Segurança


Imagem da Semana

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Fonte: foxnews.com

A imagem desta semana é triste. Trata-se de uma menina de cinco anos sendo observada por médicos após ficar dois dias presa em um pequeno quarto em Nova Deli, na Índia. 

O motivo? Fora estuprada e torturada por um homem de 24 anos. O estupro é um dos crimes mais comuns contra mulheres indianas, sendo que a ONU tratou os casos como “problemas nacionais”. Felizmente vem ocorrendo uma série de comoções e protestos nacionais contrários à incompetência e corrupção. Afinal, em algumas ocorrências de estupro, a polícia local não faz nada e não toma nenhuma providência. Os indianos gritam por mudança…


Colorando

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Para manter a tradição das segundas-feiras, hoje falamos, novamente, de eleições. Na semana passada, o tema foi o pleito venezuelano, com um interessante post do leitor. Nesta, o Paraguai foi a bola da vez.  

Em certa medida, as eleições seguidas nesses dois países vieram a calhar para nossas análises, palpites e fofocas políticas sobre América do Sul. Afinal, antes do “golpe de cavalheiros” que, em menos de 24 horas, e com um mínimo direito de autodefesa, tirou Fernando Lugo do governo, a grande tensão mercosulina era entre os dois países. De um lado, o congresso paraguaio, último parlamento do Mercosul que restava para aprovar a proposta de entrada da Venezuela ao bloco, opunha-se veementemente. De outro, o falecido Hugo Chávez, com seu tom de discurso político sempre polêmico, também não plantava boas sementes e expectativas para os buscavam colher apenas estabilidade e tranquilidade. 

Ora, mas será que o pleito paraguaio, no contexto da morte de Chávez e da eleição de Maduro, poderia alterar esse cenário? 

Comecemos do começo. Do plano interno e das eleições. A vitória do empresário Horacio Cartes é bem representativa para o Paraguai. Primeiro, significa o retorno do Partido Colorado, que governou o país por seis décadas. Segundo, porque fecha o ciclo do capítulo de Fernando Lugo da história recente da presidência paraguaia, como aquele que deixou um legado social interessante, mas não o que a população esperava; e o que sofreu o “golpe de cavalheiros” de seu vice, Federico Franco e do congresso paraguaio. Cartes obteve um total de 45,8%, seguido do candidato, Efraín Alegre, do Partido Liberal, com um total de 36,9% dos votos, de Mario Ferreira, da Aliança Nacional, e de Aníbel Carrilo, da Frente Guaçu (partido de Lugo), com, respectivamente, 5,96% e 3,43%. Vale notar que, os “cavalheiros” do Partido Liberal e do congresso conseguiram boicotar a exposição midiática do candidato de Lugo que não foi convidado para os debates presidenciais. 

Assim, nesse cenário pós-golpe que Cartes reergueu a hegemonia do Partido Colorado. Uma espécie de mudança para uma velha continuidade…Tenta agora desvincular sua figura do governo do ditador Alfredo Stroessner (1958-1988) e das irregularidades que praticou durante o período. O perfil empresarial de Cartes também agrada os brasiguaios, em geral, donos de terras e agricultores que conseguiram ir para o Paraguai durante a ditadura no país. Esse pode ser um fator que ajude na estabilidade com esse grupo, algo Lugo não conseguiu no massacre tido como justificativa para seu impeachment. 

No plano externo, parece que há um potencial de mudança. Primeiro porque o Brasil já tomou a dianteira (que logo vai lhe render críticas de setores da imprensa paraguaia, como já ocorreu em editoriais do jornal ABC Color) e condicionou o retorno do Paraguai ao Mercosul à aceitação da Venezuela como membro pleno. Não se sabe se é juridicamente possível uma postura dessa, pois parece que o Brasil está querendo dizer que é o chefe do clubinho do mercosulino, mas o discurso diplomático é esse. 

Por outro lado, já com a legitimidade  do Uruguai e da Argentina, provinda dos observadores da Unasul, Parlasul e OEA, Cartes aproveitou para dar indicativos de que se diferenciará de Franco na atuação externa. A morte de Chávez e a eleição de Maduro podem ajudar o novo presidente paraguaio na pressão do congresso; pois, diferentemente do Brasil, no Paraguai, o Executivo tem muito menos força do que o Legislativo. Então, convencer e negociar com o parlamento em temas polêmicos é algo essencial pra quem quer governar. Ainda, como já mostrei em outro post, a adesão da Venezuela um parceiro comercial, um novo país com mais oportunidades, e não com um governo específico, algo que poderia, de certa forma, ser benéfico para o Paraguai. 

Bom, qualquer resposta que buscássemos dar agora seria provisória ou mero exercício de reflexão. Por isso, aproveito para convidar a todos a refletir sobre essas mudanças de governo na região, pois, apesar de termos possibilidades de mudanças, as continuidades ainda falam alto. E, assim, enquanto o Paraguai, mais uma vez, volta-se para o Colorado, o Mercosul aguarda, esperando que nada dê errado…


Categorias: Américas, Política e Política Externa


Há um ano...

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Fonte: uct-fetranspor.com.br


Estávamos em tempos de eleição também. Na França, Sarkozy apresentava índices históricos de insatisfação popular. Nos Estados Unidos, Obama travava uma intensa batalha na disputa por votos com o republicano Mitt Romney. Como já era esperado e fora descrito naquele texto, Francois Holland tornou-se o novo presidente francês e o já conhecido Obama manteve seu posto.

Atualmente, os pleitos ocorrem no Paraguai e na Itália. No primeiro país, busca-se pragmatizar o diálogo democrático para que o mesmo volte a ocupar sua cadeira tanto no Mercosul quanto na Unasul, haja vista que os paraguaios foram expulsos após a polêmica saída do então presidente Lugo. Já na Itália, Giorgio Napolitano, de 87 anos, tornou-se o novo presidente após polêmicas parciais e recontagens sucessivas de votos. Muitos problemas internos para um mandato de sete anos de uma pessoa em idade já avançada…é isso que dizem os especialistas e, claro, os céticos opositores. 

Voltando ao assunto, o Luís Felipe escreveu um post um tanto quanto interessante, o qual se remetia, também, às eleições norte-americanas. Foi em “Esconda seu cachorro” que soubemos da estratégia republicana em acusar Obama de “comedor de cachorros” divulgando um vídeo no qual ele diz ter experimentado a iguaria na Indonésia ainda quando era criança (de 6 a 10 anos). Hilário… 

No dia 22 de Abril de 2012, a Bianca finalizava a excelente série sobre a Guerra da Bósnia. Vale a pena ler na íntegra! Além, é claro, dos textos da nossa coluna “Conversando com a Teoria” que foram escritos naquele período. 

Finalmente, não poderíamos deixar de comentar o texto do Álvaro sobre a conturbada relação entre Sudão e Sudão do Sul. A polêmica de um ano atrás continua, mas o país ao sul voltou a exportar o petróleo depois de 15 meses de paralisação. Para países ditos ricos ou pobres, as divergências econômicas ficam de lado quando o assunto é o ouro negro. 

Até semana que vem com mais lembranças da Página Internacional!


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