Facelobby

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Mark Zuckerberg, o bilionário fundador do Facebook, está disposto a aventurar-se na política. Há no seleto clube dos bilionários uma tendência a buscar formas de interagir com os problemas da sociedade, seja por meio de organizações não governamentais, fundações ou mesmo doações para causas sociais. Bons exemplos disto são as fundações criadas por empresas privadas, assim como a que mantêm Bill Gates e sua esposa. O criador do Facebook, contudo, parece ter horizontes distintos em mente.  

Vale lembrar que o lobby é uma atividade legalizada e regulamentada nos Estados Unidos. Logo, não haveria nada de obscuro na intenção de Zuckerberg. Sua ideia é criar uma organização sem fins lucrativos com o objetivo de influenciar uma série de questões legislativas. A gama de temas iria desde reforma migratória até educação. Para isto, já teriam sido recrutados figurões do partido republicano e do partido democrata. Por outro lado, o financiamento seria realizado por executivos do setor tecnológico.  

O Facebook já investe no lobbypolítico. Em 2012, gastou quase US$ 4 milhões. Outros gigantes da tecnologia, como o Google, também fazem investimentos significativos (US$ 9,38 milhões em 2012) para influenciar temas de seu interesse que estejam em discussão. A nova organização impulsada quer levantar US$ 50 milhões e já teria uma boa parte do montante assegurado. Faz sentido a união, uma vez que as empresas do setor seguramente têm interesses convergentes e juntas terão uma voz importante em questões legislativas nos Estados Unidos.  

Na agenda, logo de início, entrará a questão dos vistos para estrangeiros de alta qualificação. Afinal, não faz realmente sentido formar pessoas em universidades prestigiadas (muitas vezes até com bolsa de estudos) e depois mandá-las de volta para seus respectivos países de origem. Melhor permitir que empreendam ou colaborem com empresas em território norte-americano. Este é um tema que já esteve em pauta antes. O presidente Obama havia manifestado sua preocupação pouco tempo atrás, defendendo a permanência de estrangeiros bem qualificados no país.  

Sem a inocência de achar que o grupo de pressão (na linguagem comum o tal lobby) a formar-se terá intenções meramente filantrópicas, há pelo menos a certeza de poder acompanhar as atividades desenvolvidas. A lei que regulamenta o lobby nos Estados Unidos, originalmente de 1945, exige a divulgação de relatórios periódicos. De qualquer forma, melhor confiar desconfiando, especialmente caso entrem em temas como: cibersegurança, privacidade e publicidade. Aí coincidem o modelo de negócio (de onde sai o $$) de muitas destas empresas e a experiência oferecida para seus usuários.  

Imagem: fonte


Categorias: Estados Unidos


Imagem da Semana

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Na última quarta-feira, dia 27, um trecho de aproximadamente vinte metros da “East Side Gallery” do Muro de Berlim foi removido em função de um projeto imobiliário da cidade que visa à construção de imóveis de luxo. Mesmo com inúmeros protestos contrários dizendo que a Alemanha estaria “vendendo sua própria história”, não houve resistência no local, pois mais de 250 policiais estavam lá para manter a dita segurança. 

O Muro de Berlim é a principal atração turística do país e, obviamente, da própria capital. Construído ainda em 1961, tornou-se símbolo tanto do colapso quanto da Guerra Fria, propriamente dita. Ruiu em 1989, ano que pôs fim ao conflito bipolar entre Estados Unidos e União Soviética e marcou a reunificação alemã. 

Trata-se da retirada de uma pequena parte do muro, mas nada justifica sua remoção. Até porque é considerado um dos maiores emblemas da história contemporânea. De uma maneira ou de outra, todos perdem com isso. Lamentável. 

Fonte: foto e informações disponíveis aqui.


Parceria – ENERI 2013

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Caríssimos leitores,

Esse post especial traz uma mensagem muito importante…

A Página Internacional selou a parceria com o XVIII Encontro Nacional de Estudantes de Relações Internacionais (ENERI – ESPM 2013), a ser realizado em São Paulo entre os dias 17 e 20 de Abril. Estamos muito felizes de dar apoio a um evento acadêmico dessa magnitude e gostaríamos de convidar todos vocês, leitores, a participar do evento. 

Inscrevam-se pelo site: http://eneri.espm.br/ 

Gostaríamos também de avisar que as inscrições de trabalhos acadêmicos foram postergadas até segunda-feira, dia 01/04! Caso seja de interesse apresentar trabalho no evento, corram que ainda há tempo hábil! E a grande novidade é que os melhores trabalhos do evento serão  postados na Página Internacional, na forma adaptada de um post!

Participem!

[A Página Internacional aproveita para destacar que somos abertos à divulgação de eventos em qualquer área correlata às Relações Internacionais. Acreditamos que o contato entre estudantes de diversas áreas é muito relevante para que possamos crescer como uma comunidade de interessados nos temas internacionais. Para dúvidas, posts, parcerias ou qualquer outro tema que acharem relevante, enviem um e-mail para [email protected]]. 


Categorias: Post Especial


BRICS: além da ficção?

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Nesta semana, em Durban, na África do Sul, foi realizada a V Cúpula dos BRICS. Intitulada “BRICS e África: Parceria para o Desenvolvimento, Integração e Industrialização”, debateu-se desde a promoção do desenvolvimento inclusivo e sustentável até contribuições para a paz e a segurança internacionais. Merece destaque, no contexto de crise europeia e de estagnação da economia mundial, a iniciativa de se criar um banco dos BRICS para financiar obras de infraestrutura nesses países. 

Isso significa que o acrônimo, já que não é propriamente um bloco ou organização, está avançando institucionalmente? Não. Por enquanto, os números impressionam. O PIB combinado dos BRICS atingiu 15 trilhões de dólares em 2012, o que representa a 21% do PIB mundial (em valores nominais), e o comércio entre seus países alcançou 282 bilhões de dólares no ano passado (em 2002, esse montante era de aproximadamente 27 bilhões de dólares). 

Qualquer análise de relações internacionais, hoje, leva em consideração a projeção mundial dos BRICS. Estudos prospectivos, como os do National Intelligence Council, tratam da emersão de um arranjo multipolar global, com os Estados Unidos menos dominantes e a ascensão, sobretudo, de China, Rússia e Índia, em que as instituições e estruturas tenderão a se adaptar à nova configuração geopolítica. Nesse sentido, melhorar a coordenação entre os países dos BRICS é questão chave para o futuro. 

Mas é também um ponto problemático. E, aqui, peço licença ao leitor para me intrometer no texto. Com base na experiência pessoal, pois fiz parte da delegação do Brasil em uma das reuniões preparatórias para a atual cúpula – III Reunião de Altos Representantes Responsáveis pela Segurança Nacional dos BRICS, 10 e 11 de janeiro de 2013, Nova Délhi –, penso que os BRICS ainda são uma ficção, uma narrativa imaginária sobre uma realidade (ainda) inexistente. Parafraseando o historiador britânico E. H. Carr, os interesses espreitam os bastidores da política internacional: o que realmente se quer nunca é dito explicitamente. 

A reforma das instituições de governança global (ONU, FMI, Banco Mundial, etc.) é traço marcante dos discursos dos BRICS. Na reunião de que participei, ouvi, com entusiasmo e em tom uníssono, de todos os representantes a necessidade e urgência de se realizar essa reforma. À noite, durante o jantar, disse a diplomatas sul-africanos e indianos que, enquanto Rússia e China não declararem apoio à inclusão de Brasil, Índia e África do Sul no Conselho de Segurança da ONU, persistirá a abstração discursiva. 

E por que não o fazem? Por razões históricas e circunstanciais, sob a ótica inextricável da luta pelo poder. China e Rússia disputam a mesma zona de influência, seja na eurásia, seja na África. China e Índia permanecem sobre a sombra do conflito fronteiriço pelo Tibete do Sul. Dois exemplos para ilustrar essa situação: os altos postos diplomáticos, na Índia, são ocupados por especialistas em China e, em diversos fóruns ou reuniões mundiais, é preciso negociar separadamente com chineses e indianos, como no caso da Conferência da União Internacional das Telecomunicações que ocorreu no ano passado, em Dubai, nos Emirados Árabes. Além disso, à medida que a população dos dois países superar a pobreza, haverá maior pressão sobre recursos hídricos, energéticos e alimentícios, tanto interna quanto externamente, e a rivalidade sino-indiana poderá agravar-se. 

Índia e Rússia também se envolvem em um jogo delicado, em que ambos tentam conter e contrabalancear o poder chinês e, ao mesmo tempo, o do outro. Na área de defesa, o governo indiano evita a dependência de produtos militares russos promovendo, adicionalmente, acordos com Estados Unidos e Europa. Brasil e China são fortes competidores e travam disputas nas áreas financeira e comercial, particularmente no chamado entorno estratégico brasileiro, envolvendo a América do Sul e a África. Há, ainda, iniciativas unilaterais, como a proposta de resolução russa encaminhada à Assembleia Geral da ONU para regulamentar o espaço cibernético, que não contam, necessariamente, com o apoio integral dos BRICS – o Brasil é contrário. 

Os BRICS devem seguir, em curto e médio prazos, como um acrônimo e ponto. Ele representa um agregado de características similares e de diferenças silenciosas, ao qual se acrescentam os interesses velados. Os ganhos são muito mais comerciais do que políticos, e os problemas de institucionalização e de falta de coordenação de alto nível permanecem como um entrave para avançar em sua consolidação. Por isso, a ficção dos BRICS é, na verdade, sua realidade: muita imaginação, pouca ação.

[Postagem do colaborador Giovanni Okado]


Categorias: África, Ásia e Oceania, Brasil, Economia, Política e Política Externa


Nas mãos dela…

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O conceito de segurança costuma – tradicionalmente – estar vinculado ao imaginário do mundo masculino, cercado por clichês e desafios nunca antes enfrentados por mulheres. Contudo – gradual, mas continuamente –, o empoderamento feminino tem se mostrado uma constante dos nossos tempos.

Mulheres alcançando direitos, reivindicando espaços e conquistando responsabilidades nas mais diversas esferas, com os mais diversos tipos de atividades. Hoje, pela primeira vez na história, uma mulher assumiu a direção do Serviço Secreto dos Estados Unidos.

Julia Pierson, agente com ampla e reconhecida experiência profissional, já entrou hoje para a história de seu país. Nas mãos dela encontra-se, em primeira e em última instância, a proteção do presidente Obama, do vice-presidente Biden e de suas famílias. 

Cargo alcançado por meio de nomeação direta da parte de Obama, fato é que o gênero não mais representa um obstáculo em si mesmo para que as mulheres se insiram cada vez mais em universos antes exclusivamente masculinos, em especial no que se refere à política e às relações internacionais.

Com 30 anos de experiência, a responsabilidade de Julia será ainda de restaurar a imagem de “integridade” da instituição, manchada pelo grande escândalo de prostituição dos agentes na Colômbia ocorrido no ano passado por ocasião da ida de Obama à Cúpula das Américas.

Forte e determinada, a imagem desta que hoje já é oficialmente a titular do posto máximo traz consigo uma tendência crescente de inserção feminina em horizontes talvez nunca antes imaginados no cenário internacional. Em nossas mãos, a responsabilidade de transformar pouco a pouco os padrões de uma sociedade, tornando-a cada vez mais igualitária em todos os sentidos possíveis. 


Categorias: Estados Unidos


O respeito e as diferenças

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Esse post é apenas uma reflexão sobre diferenças culturais e religiosas e os ideais que nomeamos como igualitários e formadores de uma tolerância para vivermos em paz em um mundo plural. 

Coreia do Norte, Islamismo e a Direita americana. Marcos Feliciano ou Bolsonaro. Nas discussões tanto da política nacional como da internacional, figuras como essas sempre aparecem cumprindo os mais múltiplos papéis. Com suas diferenças, em uma característica se parecem: são os personagens que desafiam as ideias mais comuns do que se prega no ocidente como caminho para um futuro melhor.

No post de ontem do blog, fomos apresentados a ideia criada de um mundo sem conflitos, fabricado no que seria o último pós guerra da história. Verdade ou não essa ideia, ainda mais após as diversas batalhas e massacres que estiveram envolvidos os maiores defensores de que vivemos em um mundo de paz, como os EUA, sempre houveram os antagonistas à Ordem estabelecida, nos dois sentidos da palavra. Mas não somente no conflito entre países que se espalham ideias totalizadores, de inserção, e seus críticos. 

As diferenças culturais, por exemplo, atravessam todos os comportamentos do ser humano individual ou de grupos específicos, menores que a população de países e seus governos. Assim, se formam as mais diferentes práticas e visões de mundo, muitas delas apenas importantes para a maioria como fato curioso. Mas como sentimos as diferenças quando elas vão contra aqueles comportamentos que incontestavelmente vemos como ideais? A maior parte do tempo isso se passa desapercebido, até que nos deparamos com alguma ação que achamos bizarra. 

Nessa semana tivemos dois exemplos disso. O primeiro, um estupro coletivo na Índia contra uma turista. Tudo ainda observado pelo marido impotente.É certo que na Índia o estupro é considerado crime, mas se torna um fato bastante comum em um país extremamente dominado pela vontade dos homens. Um exemplo disso é também o costume bastante comum no país de casamentos arranjados entre homens e crianças de apenas oito anos de idade. Em outro momento da semana, soubemos do apedrejamento de um homossexual condenado na Somália,  legitimado pela lei do país como punição ao crime de se manter relações com o mesmo sexo. Diante disso, como deve se comportar a população ocidental esclarecida, as organizações e os governos defensores da igualdade e ditos contrários ao preconceito? 

Durante pelo menos a primeira metade do século XX, a ideia de que os valores deveriam ser impostos foi bastante comum. As críticas a intervenção, ao imperialismo e ao ocidentalismo fizeram com que surgisse um outro grupo: os defensores da autonomia de cada cultura. Até que ponto podemos influir em outra cultura? Para esse grupo em basicamente nada. Todas as mudanças de posturas e revoluções deveriam ser feitas pela própria população. Como se cada qual fosse dono do seu nariz.

O grande exemplo está entre as feministas do não envolvimento em relação aos outros. As mulheres lutam pelas mesmas bandeiras no mundo como se fossem um grupo só, ou cada grupo de mulheres, dependendo da cultura, da cor ou do extrato social devem lutar pelas suas próprias melhorias? Essa discussão chega ao seu limite de radicalismo ao vermos a questão da mulher em culturas que, por exemplo, exigem a cirurgia do clitóris na infância, para que a mulher não tenha nenhum prazer sexual durante a vida. Parte das feministas defenderam que um país assim deveria ser “liberto” de tais ideias. Outras, já enxergaram que parte do papel da mulher nessa sociedade é o de sofrer essa cirurgia, e que se retirassem delas essa marca, elas seriam completamente engolidas pela cultura, párias, seres sem identidade. Entretanto, Bolsonaro também não defendeu a continuação do papel tradicional da mulher como algo bom a sua felicidade? O que desejamos e defendemos para os nossos equivale aos outros?

Quando o que achamos errado ocorre em nossa sociedade ficamos indignados. Quando ocorre em outras, qual deve ser nossa reação? Até qual ponto podemos nos posicionar a realidade de outros povos? Em certo ponto, existe algum novo valor que deve ser universal?

Uma das premissas constantes do discurso do deputado federal Bolsonaro, o maior acusado de homofobia no Brasil, é a “liberdade de expressão” a que  estamos sujeitos como desculpas ao seu ódio. Portanto, devemos “engolir” tudo o que o congressista fala como aceitável pela sua premissa ou devemos e podemos contestar suas ideias e opiniões? Até qual ponto medimos uma liberdade pela outra? E assim, até qual ponto medimos que uma cultura diferente é apenas destoante, contrastante da nossa e que deve ser aceita pelo discurso de pluralidade, ou deve ser negada por não se enquadrar a valores que por tanto tempo lutamos?  Contudo, é muito mais fácil quando nos deparamos com informações sobre as meninas islâmicas aceitarem que naquela cultura aquelas são as suas crenças, e não criticar como sendo esses costumes uma afronta aos direitos das mulheres. O mesmo poderia ser pensado a respeito de Marcos Feliciano e os evangélicos conservadores que se colocam totalmente contra aos direitos homossexuais? Ou o ocidente perdeu a cultura, somos agora superiores próximos à sociedade perfeita, e devemos ser pacientes com as superstição e crenças de massa? 

Como expectadores nos tornamos impotentes e prudentes diante de um fato desses, e chegamos a admitir que esse costume das mulheres islâmicas é um habito cultural, o que seria impensável se essa mesma violação dos direitos de uma mulher acontecesse nas nossas fronteiras culturais. O que esquecemos é que até pouco tempo atrás tínhamos costumes que hoje consideramos repugnantes. A discussão entre a existência de valores universais para esses pontos é um posicionamento que deve recair em nossa geração, e seremos nós que teremos que tomar alguma posição, quanto a aceitá-las ou negá-las totalmente. Tanto no discurso da câmara, a pensamentos de uma religião ou as práticas de outros povos. Lembrando que essa discussão não tem significado de intervenção ou de contestação de uma cultura inteira, mas sim das ideias que defendem cada uma dessas, isoladamente. Façamos uma reflexão!


Categorias: Américas, Assistência Humanitária, Conflitos, Cultura, Defesa, Direitos Humanos, Polêmica, Política e Política Externa


Alheia à ordem

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Era uma vez um mundo. Um mundo que havia sofrido tanto com horrores de guerras que decidiu mudar. Optou por tornar-se um lugar onde as fronteiras existiam apenas formalmente e os princípios do direito internacional, do desarmamento e da paz regeriam a todos. Um lugar sem problemas aparentes, mas que, caso houvesse alguma tensão internacional, logo viria a mão amiga de uma organização apátrida e apartidária, as Nações Unidas, para resolvê-la. Assim, todos viveriam felizes para sempre em uma comunidade internacional regida pela força do direito e dos valores da humanidade. 

Um cenário muito bonito, de fato. Mas logo veríamos que haveria de ser construído e motivado por alguém, alguma grande potência internacional, em um esforço conjugado do restrito condomínio dos poderosos. Que, do ideal, dos princípios morais e valores criados, também surgiriam mais conflitos, difíceis de se justificar plenamente dentro dessas normas. Como resultado surgiriam países isolados que não aceitariam as mudanças no cenário; sendo, portanto, produtos rejeitados desses mesmos princípios. E nosso mundo perfeito rui, trazendo-nos de volta à realidade do mundo em que vivemos. 

Dos muitos exemplos de que temos por aí desse tipo de produto, a Coreia do Norte é o mais latente. Aquele mais escancarado. Uma ditadura, que se diz comunista, isolada do mundo, questionando a ordem liberal criada pelos EUA (e consentida por todos os demais), e vivendo presa nos tempos de uma guerra que viu seus últimos tiros há praticamente 60 anos. Não soaria tão estranho e incompreensível os testes nucleares e de mísseis e nem mesmo a cultura bélica do país. Como disse em outro post, eles são a mais comum forma de afronta à moral e aos bons costumes internacionais. É difícil ser determinista a ponto de dizer que tudo o que acontece lá foi resultado da ação do Tio Sam e da Guerra Fria. Mas dá para falar que esses dois eventos tiveram uma influência na construção do que a Coreia do Norte é hoje.  

Anteriormente, sob a tutela da União Soviética, era muito mais simples para o país manter um programa nuclear (muito embora se tenha confirmação da cooperação nuclear entre a URSS e a Coreia do Norte durante a Guerra Fria). Foi somente a queda do muro de Berlim e a volta à pauta do debate sobre desarmamento e não-proliferação para além das grandes potências que mostrariam o quão isolada o país de fato estava. A Rússia e a China, antigos aliados do bloco comunista, ainda defenderam a “auto-determinação” da Coreia do Norte e aceitaram os questionamentos do país na ONU. Até um certo limite. 

O resultado de cada movimento fora do aceitável pela ordem seria as sanções lentamente aprovadas no Conselho de Segurança e aquelas particulares de cada potência. A população passaria a sofrer com a falta de alimentos e abastecimento, e o governo vociferaria contra as potências, intensificando seu espírito belicoso em um ciclo quase sem fim. Assim, as cartas do isolamento foram dadas. 

 

Vídeo que mostra como se reforça a visão de inimigo e da guerra no país…


E a Coreia do Norte tornou-se “o estranho”. Essa condição levou o país a um caminho muito particular.  Mesmo depois da Guerra Fria, continuou a se focar na construção de um inimigo externo. Levou isso às últimas consequências. Assustou o mundo quando denunciou ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear em 2003 e é bem sucedida em passar aos norte-coreanos a ideia de que a guerra está cada dia mais próxima. Assim, o belicismo tornou-se o recurso para unir a população e impedi-la de opor ao regime. Ele só diminui quando a coisa aperta economicamente.

Um recurso que o governo usa bastante. Praticamente a cada década os líderes fazem questão de confirmar a posição do país de excluído e a soar os sinos da guerra, contra a Coreia do Sul e os Estados Unidos. Foi assim em 1994, em 2003, em 2009. Não poderia ser diferente em 2012 e 2013. É um ciclo vicioso. Apesar de previsível e compreensível, as ações da Coreia do Norte não deixam de assustar as potências. Porque quando o assunto é armas nucleares, nunca se sabe se o tal ciclo pode se romper e passar para o conflito…


Todas essas condições históricas parecem ter dado pouca escolha política à Coreia do Norte. Ou ela abandona completamente o regime ou continua nesse ciclo vicioso, de belicismo e pressão econômica. Por essas e outras que assim vive, e sobrevive, a Coreia do Norte: alheia à ordem internacional.

[Para uma interessante análise sobre a ameaça do discurso norte-coreano, clique aqui. Para mais sobre a crise atual: 1, 2, 3, 4, 5]


Categorias: Américas, Ásia e Oceania, Polêmica, Política e Política Externa


Há um ano...

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Relembrando os assuntos tratados há um ano no blog, percebemos como similaridades permeiam o histórico das relações internacionais nesse período de tempo – por vezes muitos anos são necessários para que determinados assuntos se esgotem ou, por algum motivo, deixem de cativar a atenção da mídia. Israel com certeza ainda não está nessa lista, sendo assunto recorrente nos mais diversos quesitos. Há um ano, apresentávamos no blog o rompimento de Israel com o Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra.

Esse ano, Israel-Palestina foi assunto recorrente da última sessão do Conselho de Direitos Humanos (encerrada semana passada), com várias resoluções sobre os Territórios Palestinos Ocupados sendo discutidas e, finalmente, aprovadas com o único voto contrário sendo manifestado pelos Estados Unidos. Assunto delicado, o qual ainda deverá render muitas análises no blog…

Há um ano, falávamos ainda sobre a polêmica envolvendo o posicionamento oficial de neutralidade da Igreja Católica diante das violações aos direitos humanos ocorridas na Segunda Grande Guerra. Neste âmbito, acabamos de vivenciar um momento de transição importante para a Igreja, com um novo Papa sendo eleito. Revela-se com ele a esperança de renovação dentro dos padrões ainda conservadores da Igreja, por meio de uma liderança que enfrente os novos desafios de uma sociedade em constante movimento.

Dois posts atemporais ainda merecem ser revistos: na coluna “Conversando com a Teoria” tivemos uma ótima contribuição de um leitor que trata sobre a teoria do sistema-mundo e seus autores. E uma interessante análise sobre os benefícios da cooperação internacional, especialmente técnica, foi apresentada no blog, com especial enfoque aos esforços brasileiros neste sentido – vale a pena rever. Seguimos postando e relembrando! 


Categorias: Há um ano...


Uma boa semana

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Existe esperança no Oriente Médio? Apesar da matança de sempre na Síria e de problemas no Líbano, essa semana teve umas boas surpresas, todas relacionadas à Turquia, aquele que é considerado por muitos como o mais importante ator regional por estar ligado a quase todas as crises de lá. 

Primeiro, após décadas de atividade, o PKK (grupo curdo que pratica atos violentos como atentados e sequestros em retaliação a repressão cultural e pela formação de um Estado próprio) parece dar sinais de abertura à negociação, em carta direta do seu fundador ao governo turco. Sinais de reconciliação, como soltura de reféns e flexibilização de proibições estão aparecendo. Segundo, após intermediação do Mr. Obama, Israel finalmente pediu desculpas pelo absurdo do ataque à flotilha humanitária de 2010 e parece estar em vias de reatar relações com seu maior aliado na região até aquele dia fatídico. 

Isso é muito importante pelo papel da Turquia. O país está envolvido em problemas, com ocupação no Chipre (fazendo por lá basicamente o que Israel faz na Cisjordânia), grande influência na questão da Síria (apoiando grupos mais radicais e fazendo vista grossa a outros) e até essa semana pesava o seu mau tratamento aos curdos e o rompimento com Israel. A situação curda ainda não tem solução em curto prazo, mas a possibilidade de negociação é um alento para os dois lados. E retomando o diálogo com Israel, a Turquia também volta à cena como melhor negociadora para a solução da crise palestina, como estava fazendo antes de 2010. 

Nos últimos anos, parecia que a ação da Turquia estava tendendo à radicalização. Com esses pequenos passos, se vê que ainda é um aliado necessário para os países ocidentais, e a importância do país como um polo de estabilidade regional.


Categorias: Conflitos, Defesa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Segurança


A Ilha de Lost

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No destaque, a Ilha de Chipre. Fonte: GoogleMaps

Até semana passada muito pouco se comentava sobre uma pequena ilha situada no Mar Mediterrâneo logo ao sul da Turquia. Além disso, quase ninguém sabe que tal ilha também faz parte da União Europeia e da Zona do Euro. Evidentemente, estou falando de Chipre, país que talvez venha a ser o primeiro a deixar a moeda única e a declarar falência econômica em meio a mais de sessenta anos de integração no continente, tendo como marcos iniciais os anos da década de 1950, nos quais o Tratado de Roma deu inicio à Comunidade Econômica Europeia (CEE). 

A Crise do Euro já é sabida há tempos. Mas ninguém esperava uma mudança de planos nesta altura do campeonato. Espanha, Portugal, Itália, Grécia e outros países já haviam testemunhado dias difíceis com altas taxas de desemprego e falta de prosperidade econômica. A maré baixou, mas veio outra tormenta, uma tormenta cipriota. Neste momento tanto o Eurogrupo quanto o Banco Central Europeu (BCE) estão pressionando os líderes do país a adotarem uma medida econômica para amenizar o pedido de 10 bilhões de euros dos cofres europeus.

O grande problema é dual. Primeiro, quem perde com isso é a população do Chipre, pois os credores do país (Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e BCE) só darão o resgate financeiro apresentado no parágrafo acima caso Nicósia, capital e maior cidade cipriota, contribua com 7 bilhões de euros, dos quais grande parcela proveria de taxação sobre depósitos bancários. Resumo da questão: o contribuinte teria uma parcela razoável de seus depósitos tomada por impostos. E, segundo, era muito conhecido, mas pouco divulgado que Chipre é um verdadeiro paraíso fiscal! O país gira em torno de depósitos financeiros externos e a Rússia detém 40% deste montante. Para quem esperava uma ajuda dos russos, nada foi feito.

Banco do Chipre. Fonte: zerohedge.com

Bancos foram fechados e vários protestos foram realizados em frente ao Parlamento do Chipre. O Banco Popular, por exemplo, possuía rumores de que viria à falência e fecharia dentro de poucas horas. Já imaginou o desespero dos correntistas? Soa como algo surreal. Pois bem, agora a “Ilha de Lost” já é bastante conhecida. De um lado, resta acreditar que os governos estejam realmente preocupados não somente com o rumo da integração econômica, mas também com o bem-estar da população cipriota. Do outro, isso é mais um desafio para a União Europeia. Ela tem que mostrar a que veio e chegar a um resultado plausível o mais rápido possível para uma economia que representa apenas 0,2% de toda receita do bloco

PS: Na matéria da Revista Época-Negócios intitulada “O que está acontecendo no Chipre?” tem-se um resumo de fácil compreensão para entender a frágil situação econômica do país. Após Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda, ele é o quinto a pedir ajuda financeira à UE.


Categorias: Economia, Europa