O risco não compensa…

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Quando ouvimos as longas e, por vezes, cansativas palestras sobre citações e plágio no início da universidade, muitas vezes nos perguntamos o motivo da insistência dos professores e funcionários a este respeito, pois “não copiar” o trabalho alheio parece ser um conceito muito claro a ser compreendido. Acontece que não.

Denúncias de plágios cometidos por políticos de alto escalão (frequentemente em suas teses de doutorado) costumam fazer alarde em meio à opinião pública pela gravidade da situação, prejudicando a imagem de governos e derrubando nomes fortes de suas posições.

Hoje a Universidade de Dusseldorf anunciou que a Ministra da Educação (!) da Alemanha será obrigada a renunciar a seu título de doutorado devido a plágio. Ela nega e afirma que não deverá deixar o cargo, mas a polêmica repercute negativamente para todo o governo Merkel. Aliás, no ano passado outro ministro alemão renunciou ao cargo após denúncias similares – o então Ministro da Defesa foi, à época, acusado de plágio também em seu doutorado pela Universidade de Bayreuth…

Na Hungria, uma polêmica nacional no ano passado levou à renúncia do presidente do país após pressão devido à sua acusação de plágio no doutorado de duas décadas atrás (!). Também o Vice-primeiro-ministro húngaro foi acusado de plágio pela Universidade Eotvos Lorand pouco tempo depois.

Para finalizar a lista de personalidades políticas nesta situação, também o Primeiro-Ministro da Romênia foi acusado de ter quase metade de sua tese “duplicada” em 2012, além do caso do então Ministro da Educação e da Ciência no país.

Com esta enorme lista de casos (conhecidos) pelo mundo afora, envolvendo a imagem nacional e internacional dos países, a questão do plágio assume uma proporção muito maior do que se poderia jamais imaginar [interessante artigo a respeito aqui]. Dada a importância da originalidade na pesquisa científica para o seu desenvolvimento contínuo, a conclusão é que o risco – absolutamente – não compensa. 


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Vendendo o peixe

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O programa nuclear do Irã é aquela incógnita. Alega que é civil, mas tem jeito de ser militar. Nessa discussão com suas idas e vindas, é sempre uma boa notícia quando uma das partes (o Irã ou o grupo de países que tenta negociar a suspensão do programa) resolve voltar às negociações. E nessa semana a boa novidade foi o fato de os EUA e o Irã terem se mostrado abertos a discussões diretas sobre o tema. Claro que isso se seguiu da usual desconfiança e troca de farpas, com os EUA dizendo que a negociação seria possível apenas com representantes “sérios”, enquanto Teerã acusa Washington de não cumprir seus compromissos. 

Já disse isso aqui em algumas postagens anteriores, e por mais que se critique a possível interferência internacional, o caso do Irã é chato porque eles mesmos costumam complicar as coisas. Entram em negociações pra em seguida fazer testes que praticamente anulam suas boas intenções. E a última semana não foi exceção, ainda mais com o aniversário da revolução de 79. 

Na segunda-feira o país anunciou que mandou um macaco para o espaço num foguete e trouxe de volta com vida. A informação, como tudo que vem de fonte estatal, é meio contestável, mas se for verdade, palmas pra Teerã (que mesmo com sanções tem um programa espacial que funciona, enquanto nós… bom, deixa pra lá). O problema é que o mesmo mecanismo que lança um macaco em órbita pode ser usado num míssil balístico, e nesse caso viola as sanções da ONU.

Pra coroar a semana, na sexta-feira o próprio Ahmadinejad participou do anúncio do lançamento de um caça made in Iran” supostamente de quinta geração (invisível ao radar, etc.). É no mínimo suspeito, com um design cheio de falhas e que parece copiado dos modelos norte-americanos, falta de aviônica (apesar de ter algo muito parecido com um moderníssimo toca-fitas de automóvel no painel) e que se parece muito mais com uma maquete. O vídeo de divulgação mostra um avião ao longe que possivelmente é uma miniatura controlada por rádio. Mas não deixa de ser o anúncio de que o Irã estaria entrando num clube seleto, em que estão apenas os EUA, Rússia/Índia e China, e apesar de ser para “defesa”, teria obviamente as características de uma arma ofensiva. 

A ideia aqui é bem clara – pouco importa se o macaco voltou vivo (isso se chegou a ir pro espaço), ou se esse blefe que chamam de avião funciona (pra ser justo, pode realmente ser apenas uma maquete/mock-up do modelo, mas é difícil, considerando o perrengue econômico daquele país, que simplesmente não tem dinheiro pra fazer um avião dessa linha). Ahmadinejad quer mostrar seus brinquedos para o mundo, que olhem para o Irã com respeito (ou temor?), e nisso tem sucesso. No jogo de palavras, as intenções de Teerã ficam um pouco conflitantes, com a divulgação de um programa nuclear pacífico contrastando com os testes e ameaças. É demonstração de força, naquela linha de “a melhor defesa é o ataque”. A ideia parece ser que pareça robusto nas negociações, buscando ser um interlocutor de igual para igual com os EUA e amigos, e faz todo sentido – o problema é que até agora isso nunca deu sinais de ter funcionado. Resta o alívio para a estabilidade regional de que, por enquanto, se fica apenas na propaganda e no discurso mesmo.


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Há um ano...

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A virada de janeiro para fevereiro de 2012 foi bastante agitada. Duas postagens em pouco mais de uma semana tratavam do mesmo tema, a crise da Síria. A primeira, sobre como ainda era uma questão secundária no noticiário internacional, enquanto se dava muita atenção ao Irã, possivelmente sem necessidade. A segunda, mais contundente, falava de como China e Rússia vetaram a atuação do CS da ONU para lidar com os massacres no país. Em ambos se via as questões da soberania, da não-intervenção, e dos ouvidos moucos e vista grossa das potências a temas importantes quando havia interesse econômico na jogada. Esses dois países ainda bloqueariam muitas outras tentativas de condenação aos massacres de Assad naquele ano, mas gradualmente mudam seu discurso enquanto sobe a contagem de corpos. Mas, na prática, está tudo estagnado e até hoje temos notícias de como o país está sendo, literalmente, destruído

No comecinho de fevereiro, tínhamos uma postagem sobre a presidente Dilma, sua visita a Cuba e um pouco do perfil de sua política externa. Após dois anos de mandato, dá pra ver claramente que o perfil de Dilma lá fora é bem menos “espetaculoso” que o de Lula, evitando o personalismo e algumas alianças meio estranhas (lembram do “nosso amigo e irmão Kadaffi”?). Vemos uma diplomacia com mais pé no chão e menos disposta a aventuras (mesmo por que as condições pra isso parecem ter se perdido). Se essa ponderação toda vai dar certo, só vamos saber lá pra 2014, mas o perfil é bem diferente de Lula nessa aspecto, isso não podemos negar. 

Por fim, no dia 06 de fevereiro, uma postagem breve sobre a queda de governos na Europa, fulminados pela crise econômica. A situação ainda está mal na Europa, e algumas previsões (como a saída de cena de Sarkozy) se concretizaram, mas poderia estar pior. Na melhor das hipóteses, temos o risco de uma quebra geral evitado, mas não impedindo que países como Portugal estejam retraindo e invertendo padrões de imigração do século XIX. E Europa ainda tem muito caminho pela frente, e muitos governantes ainda vão rodar nessa brincadeira. Isso aí pessoal, postando e relembrando!


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O adeus de Hillary Clinton

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Apesar de algumas desilusões, a eleição de Obama em 2008 representou a possibilidade dos Estados Unidos buscarem uma espécie de reconciliação com a sociedade internacional. A imagem da superpotência foi deteriorando-se com o passar do governo Bush (filho). Em grande medida, coube a secretária de Estado devolver aquela aura de aceitação que outrora marcara a influência norte-americana.

Será impossível negar que ela tentou. Nos seus quatro anos no cargo, visitou 112 países e participou de 1700 reuniões com líderes mundiais. Sem conquistas notáveis, muito menos atuações que merecerão menção em revisões históricas, Clinton manteve posturas firmes em questões envolvendo China e Irã. Ao contrário de seu marido, não centrou esforços no processo de paz no Oriente Médio.

Este período cauteloso, sem novidades retóricas ou políticas, pode ser atribuído à visão estabelecida pelo presidente Obama. De um discurso abrangente, que clamava os Estados Unidos como a nação indispensável, passou-se a uma abordagem focada em objetivos específicos e adotou-se o princípio da divisão de responsabilidades. De início, reconheceu a impossibilidade de seguir com ambições excessivas.

Mesmo com tentativas no sentido contrário, o terrorismo segue como prioridade na agenda de assuntos internacionais. O ataque à embaixada americana na Líbia, sem contar o evento de ontem na Turquia, pressionou Clinton a apresentar seus argumentos perante os senadores e a própria sociedade. É difícil apontar o pico da atuação da secretária de Estado, mas o ataque em Benghazi lidera a escolha para o pior momento. 

Mudanças climáticas, países emergentes, não proliferação nuclear, Cuba, América Latina, China, Irã, paz no Oriente Médio, primavera árabe, Iraque, Afeganistão. São temas a perder de vista. É virtualmente impossível ser indispensável em tantos assuntos ao mesmo tempo. Talvez a principal conquista da ex-secretária de Estado seja justamente ter mantido a moderação, não cometendo gafes diplomáticas e não desgastando a imagem do país, já tão maltratada em decisões anteriores.

O sucesso não foi retumbante, mas suficiente para deixá-la credenciada a postular-se novamente a corrida presidencial. Uma opção que ela fez questão de não descartar, apesar de não confirmar. Neste caso, terá que lidar com o papel proeminente que Biden, o vice-presidente, ganhou no segundo mandato de Obama. Mesmo o sucessor de Clinton, junto com o governo, terá muito mais campo para explorar e assumir bandeiras da campanha de 2008. Será difícil esse adeus de Hillary virar um até logo. 

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Corrupção…"a la española"

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Anotações da contabilidade feita por tesoureiros do Partido Popular da Espanha entre 1990-2009.

Fonte: El País.com

Desta vez não estamos falando da “Pátria amada, Brasil”. Não por falta de oportunidade. Afinal, hoje mesmo ocorreram novas eleições para a presidência do Senado e o candidato favorito era nada mais nada menos que Renan Calheiros. Ele “só” foi denunciado ao Superior Tribunal Federal (STF) por falsidade ideológica, peculato e uso de documentos falsos. Está rolando até uma campanha no site “avaaz.org” intitulada “Ficha Limpa no Senado: Renan não” para bloquear a suposta candidatura do dito cujo. “Renão” não deu certo e acabo de saber que ele é o novo presidente do Senado. 

Já começo a escrever sobre o Brasil e este nem é o ponto principal do texto. Quando vejo já da um parágrafo. Poderia dar um livro de 500 páginas, pois fontes e acusações não faltam. Mas, falemos de Espanha. Sim, aquele país europeu, membro da União Europeia que, segundo dados da revista Carta Capital publicada semana passada (ano XVIII, n. 733) está com uma taxa de desemprego entre estrangeiros de 36,5% e entre cidadãos do país de 24%. É muita coisa e mais informações podem ser obtidas aqui.

Como disse em textos passados, é tudo culpa do euro. A união monetária tornou-se o pior dos males de uma Europa destruída e arrasada economicamente. Assim, nada melhor do que culpar problemas domésticos com fontes ditas supranacionais. Sim, o euro teve seus erros e agora os países estão pagando o preço, literalmente, por isso. Mas o que quero dizer é o seguinte: quando encontramos problemas internacionais, esquecemos alguns de ordem interna. 

Hoje veio à tona um grande caso de corrupção entre os espanhóis: Luis Bárcenas, ex-tesoureiro do Partido Popular (PP) foi acusado de ser o principal articulista no repasse de comissões ilegais de empreiteiras a líderes do partido. Até o atual primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, está envolvido no caso e a oposição pediu a retirada imediata do mesmo de seu cargo e a convocação de eleições antecipadas. Houve, inclusive, levantes populares anticorrupção, mas a polícia conteve as manifestações que rumavam à sede do PP. 

Pela grande movimentação que vi no jornal espanhol “El País”, trata-se de uma reviravolta na política da Espanha. Faltam algumas provas, são só acusações. Entretanto, são acusações severas, documentadas e articuladas. De acordo com este mesmo jornal, são repasses de empresários diretamente ligados e contratados pelo governo. É a velha conhecida “cooperação” público-privada. O caixa do ex-tesoureiro chegou em quase 1 milhão de euros. Parece pouco, mas para a massa desempregada não soa nada bem. 

PS: Pois bem, escrevi este texto enquanto saiu o resultado da eleição de Renan Calheiros no Senado. Comecei falando do Brasil sem pensar no resultado que veio a calhar. Servindo para o caso espanhol também, deixo uma frase do Barão de Itararé: “O político brasileiro é um sujeito que vive às claras, aproveitando as gemas e sem desprezar as cascas”.


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