Aniversário, Top Blog e Nova Coluna

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Caríssimos leitores, 

O post de hoje é especial. Não somente por não ser como os demais, mas também porque representa um momento de muita alegria e celebração para a Página Internacional que gostaríamos de compartilhar com todos vocês. Primeiro, gostaríamos de comemorar o aniversário de quatro anos do blog. 

O blog foi criado em 2009, pelo colaborador Alcir Cândido. À época, ainda não tínhamos muitos colaboradores (inclusive esse que escreve essa mensagem não estava no rol dos escritores) e o Alcir dava seus pulos para manter as atualizações diárias de qualidade. Os meses foram passando e o blog foi crescendo e sendo bem recebido pelo público. Vieram novos colaboradores, premiações e até nosso livro.

Agora, em 2013, completamos nosso humilde aniversário de 4 anos. Um período até que breve quando comparado ao tempo de existência de muitos blogs por aí. Mas, com toda certeza, é um tempo no qual a Página Internacional foi se condensando nesse espaço de debate que vocês bem conhecem. Por isso, acreditamos que devemos tudo o que já obtemos até o momento a todos vocês, nossos queridos leitores. Não fossem suas visitas diárias, os comentários, os posts do leitor, e os votos nos inúmeros concursos que participamos, não poderíamos falar de 4 anos de uma bela história. 

Falando em votos, recentemente recebemos o resultado de nossa colocação no Prêmio Top Blog 2012. A Página Internacional conquistou também o segundo lugar no Júri Popular na categoria de Política. O evento foi realizado no último dia 26, em São Paulo, mas, não eram anunciadas as colocações de todos os blogs, apenas dos vencedores. Mais uma vez, devemos muito a vocês. Mesmo porque, o Júri Popular é baseado totalmente no volume de votos dos eleitores! 

Colaboradores Álvaro Panazzolo e Raphael Lima na cerimônia do Top Blog em São Paulo

Aproveitando esse momento festivo, para anunciar o retorno de uma das mais antigas colunas desse blog, a “Imagem da Semana”. Em 2009, publicávamos uma imagem que marcou os acontecimentos da semana, mas, aos poucos esse hábito foi se perdendo. Agora o retomamos com força total a partir do nosso próximo post! 

 Mais uma vez, obrigado a todos!! 

Equipe Página Internacional


Categorias: Post Especial


Volta ao mundo em 80 dias

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Julio Verne que me perdoe mas hoje a volta ao mundo que interessa não é a de Phileas Fogg. Muito menos de alguém com a vida fácil e rotineira desse típico personagem inglês. A viagem que chama atenção é a da famosa blogueira e ativista política cubana, Yoani Sanchéz, que, após 20 tentativas, e praticamente 7 anos depois, finalmente conseguiu deixar o país para um tour pelo mundo. 

Convites de interessados em entrevistas, filmes e palestras não faltaram. Faltava mesmo era boa vontade do regime castrista de deixar uma das maiores dissidentes políticas do país sair zanzando por aí. A última autorização de saída negada foi em 2012 quando o cineasta brasileiro Dado Galvão convidou Yoani para a estreia do documentário “Conexão Cuba Honduras”, que contava com entrevistas e participações da blogueira. Até o visto brasileiro já se tinha, e, aos 45 do segundo tempo, ela foi impedida novamente de sair. 

Essa atual viagem somente foi autorizada em virtude da reforma imigratória que, no início de fevereiro “facilitou”, digo, diminuiu um pouco a grande complicação burocrática, para se deixar o país. Exigências como a de uma carta-convite e do pagamento da autorização de saída foram abolidas, apesar de o governo poder manter seu veto a quem lhe interessar. Mas, a despeito das inúmeras dificuldades (muitos, incluída a própria blogueira, apontaram que ainda há muitas barreiras proibitivas), Yoani conseguiu. 

E o primeiro país que decidiu encaminhar-se foi o Brasil. Após uma breve escala no Panamá chegou hoje a Salvador. Foi recebida calorosamente por alguns e em meio a protestos por outros. O mais interessante foi sua reação frente aos protestos que acusavam de estar ligada à CIA e à espionagem estadunidense. Disse que gostaria muito que em seu país as pessoas pudessem se manifestar livremente e sem serem punidas, e que era um banho de pluralidade e democracia. Uma frase imponente que destaca bem o tema que vai levantar nos próximos meses: a liberdade de expressão. 

Com esse acontecimento histórico, posso levantar alguns pontos e hipóteses interessantes sobre os dias que virão. 

A vinda de Yoani é sim um interessante reflexo de um regime que lentamente vai se abrindo e que é sempre teve “dificuldades” de lidar com a dissidência política. As reformas anunciadas por Raúl Castro, incluída a imigratória, apontam para uma mudança gradual na qual o caráter é um distensão sem que se perca o controle político em muitos aspectos. Ao mesmo tempo, quando autorizou a saída da blogueira, o governo deveria já ter em mente o aumento da pressão e exposição que Cuba terá nos noticiários nos próximos dias. 

Pressões externas nunca foram o problema para o país que desde o anos 1960 está excluído da maior parte dos organismos internacionais e ainda sofre sanções de diversos países. Mas, por outro lado, deixar Yoani zanzando por aí talvez seja um sinal estratégico de inflexão na postura externa. O tempo dirá melhor se algumas dessas hipóteses de fato se confirmam ou se é tudo mera especulação provinda de um ato impensado. 

Em sua volta ao mundo, nos próximos 80 dias, Yoani vai trazer o tema da liberdade de expressão e dos direitos humanos de volta ao centro da pauta. O governo cubano terá que dar seus pulos frente a qualquer aumento de pressão, algo que nunca foi um problema. E o Tio Sam se deleitará com esses temas na agenda internacional. Entre protestos e abraços, com certeza, serão 80 dias intensos.


Categorias: Américas, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Polêmica, Política e Política Externa


Há um ano...

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O tempo continua passando rápido. Rápido até demais e, por isso, a Página Internacional sempre procura retomar o que foi importante há cerca de um ano. Voltemos, então, aos meados de Fevereiro de 2012. 

Em um post intitulado “Elefantes na sala”, Raphael mostrava que o elefante era a crise financeira e a sala a União Europeia tendo como possível móvel de canto a Grécia. Este processo ainda não teve fim e nos dias de hoje o país continua com uma política de recuperação de seus índices econômicos. Desde Outubro do ano passado mais de 20 mil gregos perderam suas ocupações e a taxa de desemprego chegou aos 36% entre os jovens (25-34 anos). Falta chão ainda, mas a União Europeia tem se mostrado consistente em promover mudanças. Já não há mais um “medo” de haver um retrocesso vertiginoso na integração. 

Escrevi outro texto sobre a crise na Síria e os reflexos da Primavera Árabe (veja em “Alguém quer damascos?”) Existem uma certeza e uma dúvida sobre isso. Primeiro, é fato que os acontecimentos na Síria tomaram proporções catastróficas. Assad, o qual possui estudos em Direitos Humanos (sim, é verdade!), não abre mão do poder. Do outro lado, a primavera já virou inverno, verão e outono. Não sabemos quais são e quais serão seus resultados a curto prazo. É só olhar o que vem acontecendo no Egito, por exemplo. 

Uma excelente análise sobre ensino superior e universidades foi publicada pelo Luís Felipe em “Estudar ou não estudar?”. Carreira profissional, custos de vida, falta de oportunidades, mercado rigidamente concorrido e assim por diante são algumas facetas da vida de todos nós. Bem escreveu que “o diploma sozinho não garante um futuro seguro”. Falando nisso, a Ministra da Educação da Alemanha pediu demissão semana passada após perder seu título de doutorado. Motivo? Acusação de plágio! Ironias do destino, seu pseudo-diploma resultou em adiamento da aposentadoria.

E, claro, também era tempo de Carnaval há um ano! É ritmo de festaaa… Falava-se na projeção internacional do Brasil pós-Lula e pró-Dilma. Hoje só se fala no feriadão prolongado do Senado e da Câmara dos Deputados (veja aqui).

Mas agora o ano começa de verdade! Já tem até ovo de páscoa nos supermercados.


Categorias: Há um ano...


Ainda é Carnaval

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Um fato quase me passou despercebido nesta passagem de ano.

Um dos pilares democráticos do país, o Legislativo, iniciou seu período de descanso, com merecimento duvidoso, sem aprovar o Orçamento para o ano seguinte. Claro, o impasse é justificável na visão deles devido à uma decisão do STF. Gerou-se, desta forma, uma dificuldade de ação para o Executivo.

Além disto, como se não bastasse, o Congresso ainda deixou de finalizar a lei com os novos parâmetros para o Fundo de Participação dos Estados (FPE). Com o mecanismo vencido no final de 2012, criou-se um vácuo em termos de ordenamento jurídico. Assim, surgiu outra ameaça: a de não conseguir abastecer os estados com recursos.

Tudo bem. Após mais de um mês, os trabalhos foram reabertos em 4 de fevereiro. As duas casas legislativas têm novos presidentes. O eleito no Senado enfrentou uma petição colaborativa contra sua eleição e atualmente já existe outra, em moldes similares, pelo seu impeachment. Nada mal. Entre suas primeiras ações, o presidente de uma delas adotou 10 dias de recesso parlamentar pré e pós-Carnaval. No dia 16, doze dias corridos do início dos trabalhos em 2013, o Congresso já estava vazio.

Apesar da longa introdução, não foi a atuação do Legislativo brasileiro que quase me passou despercebida. Porém, foi uma atuação também ligada ao Legislativo, somada a esforços do Executivo, desta vez nos Estados Unidos. As negociações sobre o abismo fiscal seguiram dia 31 de dezembro, sendo finalizadas no primeiro dia de 2013. Foi uma solução paliativa, sim. Contudo, evitou-se o desastre que teria lugar com o aumento de impostos e corte em programas do governo. Chamou-me a atenção por envolver tantas reuniões, entrevistas, discursos de líderes em plena véspera de ano novo. Surpreendeu-me.

Naquele momento foi tudo. Hoje, com olhar retrospectivo, irrita-me lembrar a nossa situação, menos extrema, e comparar a atuação de ambos os Legislativos. O nosso, tratando questões depois de recessos emendados e o deles trabalhando no ano novo. Sem entrar naqueles argumentos repetidos tantas vezes em vão, isto me leva a outra memória. Uma vez, o ex-presidente Lula afirmou que nós, o povo brasileiro, havíamos nos cansado de sermos tratado como um cão vira-lata e que queríamos autoestima. Será que somente dizer isto basta ou é necessário mostrar instituições que corroborem este anseio?

A baixa produtividade, os 55 dias de férias, os recessos, as verbas indenizatórias, entre tantos outros temas. Isto talvez ajude a projetar uma imagem contraditória a nossas ambições, não? Antes eu não tivesse percebido nada disto. Afinal, para alguns ainda é carnaval e o ano só começa depois dele mesmo.  

Para um pouco da recente repercussão internacional: 1,2,3

Imagem: fonte


Categorias: Brasil


Você conhece Ordos?

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Avenidas vazias na cidade de Ordos, na China.

Fonte: Time.com


Não, não. Não é algum lugar da Terra Média d’O Senhor dos Anéis. Muito menos o nome de um dos sete reinos de “Game of Thrones”. Até hoje eu nem sabia da existência de Ordos. Sim, é uma cidade e ela não é mera ficção. Ordos está localizada na Mongólia interior, ou seja, na China. Começou a ser construída em 2003 e foi projetada para abrigar mais de um milhão de habitantes. Hoje, em 2013, comporta apenas trinta mil pessoas. É uma cidade fantasma! 

Há relatos sobre a existência de algumas dezenas de cidades abandonas por diversos motivos. Pripyat, na Ucrânia, tornou-se inabitada em virtude da explosão nuclear de Chernobyl e Craco, na Itália, foi desabitada em 1975 em razão de um intenso terremoto que abalou toda estrutura física da mesma. Há ainda outros exemplos de lugarejos tomados pelo tempo, principalmente por causas econômicas. Mercados escassos de mineração, fim de reservas fósseis e assim por diante acabaram por desabitar cidades inteiras. Mas Ordos é diferente. 

E por que? Porque ela é uma cidade moderna e bem planejada. Em matéria publicada na revista Carta Capital da semana passada (ano XVIII, número 735), a colunista Janaína Silveira diz que lá há museu, biblioteca, montadora de carros, aeroporto, centro de exibições… Apenas com a visualização de algumas fotos é possível observar a grandiosidade do projeto. Distritos vazios, avenidas sem movimento e monumentos com cavalos (símbolos da cultura mongol) em praças desocupadas podem ser vistos no site do jornal “Time”.

Ao contrário das outras cidades fantasmas, Ordos nem chegou a ter uma população numerosa. Todavia, o motivo da sua construção é bem fundamentado: a região é rica em carvão, petróleo e gás. Sozinha possui 150 bilhões de toneladas de carvão mineral, um sexto de todas as reservas chinesas. E é este o principal motivo de ter trazido esta notícia ao blog. Com esta onda em prol do desenvolvimento de energias sustentáveis e renováveis, não seria um “tiro no escuro” dos chineses? As perspectivas variam bastante, alguns acreditam que sim, mas outros preveem um futuro de bonança para a cidade. 

Em Pequim, os reflexos da poluição são sempre visíveis. Pessoas estão andando com máscaras nas ruas em dias nos quais é impossível até observar os grandes prédios cobertos por uma densa camada de fumaça. Os níveis de poluentes na capital foram considerados perigosos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Grande parte da pujança econômica chinesa e do seu elevado crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) advém das amplas indústrias e do uso irrestrito de combustíveis fósseis.

Juntando-se a isso, Ordos também é exemplo da bolha imobiliária do país. Interessante, não? Olhando a foto acima, daria um bom cenário para as gravações do “The Walking Dead”.


Categorias: Ásia e Oceania, Economia, Meio Ambiente


Queda de braço

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Estava pronto para começar meu post sobre toda a situação do teste nuclear da Coréia do Norte quando uma notícia me chamou a atenção. E não teve jeito. Pyongyang terá que esperar. Porque a bola da vez é a nova disputa judicial da Apple. Sim, a gigante estadunidense está tendo problemas no mercado brasileiro. 

Infelizmente as reclamações do preço do iPhone não são o problema por aqui. Mesmo porque não chegam a impedir o brasileiro de classe média-alta de adquirir esse tão sonhado smartphone. Também não se cogita proibir a venda do iPhone no Brasil e não há nenhuma reclamação severa sobre o produto que pudesse impedi-lo de circular por ai. Então qual é o tal problema da Apple no país? 

O entrave é de registro. Acontece que, nas terras brasileiras, alguém teve a brilhante ideia de nomear um telefone de iphone bem antes da Apple. A Gradiente, famosa empresa brasileira de eletroeletrônicos, entrou com um pedido de registro exclusivo do nome no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) no início dos anos 2000, que lhe foi concedido “logo” em 2008. Já a Apple somente tentou registrar a marca no Brasil em 2007, quando lançou o primeiro aparelho com esse nome. 

Mas até então não se falava disso. A Gradiente passava por uma barra pesada desde 2006 e só conseguiu voltar ao mercado de fato em 2012. E quando lançou seu novo iphone em dezembro de 2012, a polêmica começou. É interessante que o INPI não pode proibir a venda do iPhone da Apple no Brasil. Só quem poderia fazê-lo seria o judiciário, que duvido que tomaria uma postura dessas (porque quase todos os representantes desse poder devem com um desses no bolso…). Toda essa queda de braço gira em torno daquilo que as grandes empresas mais querem: monopólio. No caso, a Apple quer o monopólio sobre esse nome mundo afora. E o interessante é que, no Brasil, houve 4 entradas de registro para o nome iphone antes de 2008 no INPI, e, por mais incrível que pareça, nenhum deles foi da Apple. O monopólio foi, então, garantido à Gradiente. 

Por isso, a Grande Maçã quer derrubar esses nomes um a um. O argumento que levantou contra a Gradiente foi o fato de a empresa não ter lançado nenhum produto com o nome iphone desde que conseguiu o registro. Portanto, para eles, em 4 anos, essa exclusividade já teria caducado. Caberá à Gradiente mostrar nos próximos meses que vendeu iphones ou apresentar algum argumento mais contundente nessa queda de braço. 

O que parece ficar de lição nesse duelo é o apetite insaciável de megaempresas na busca de “exclusividade” e o a oportunidade que uma empresa que retorna lentamente ao mercado viu no nome iphone e em uma possível briga judicial com a Apple. Porque, convenhamos, a Gradiente já imaginava um entrave desses. Essa foi uma excelente oportunidade para se lançar ao mercado novamente, e, acima de tudo, de ser mais lembrada pelos consumidores, se fizesse as jogadas corretas. O vídeo que divulgou na internet explicando o tal Gradiente Iphone parece resumir bem essa tentativa. Resta saber se o poder de megaempresa da Apple é capaz de derrubar seu monopólio sobre o nome e se bater de frente com a Grande Maçã foi uma estratégia de marketing bem sucedida.

[Não é a primeira vez que a Apple tem que enfrentar registros com o nome iphone por ai. Clique aqui para conferir outro interessante]


Categorias: Brasil, Mídia, Polêmica


Carne de cavalo?

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Já que não foi assunto da segunda-feira, de hoje não pode passar no blog um breve comentário sobre a polêmica questão da carne de cavalo mascarada de carne bovina que está ilustrando as manchetes de toda a Europa nestes dias.

A situação ilustra de forma notável as relações comerciais internacionais e a forma como os problemas locais hoje podem alcançar imediatas proporções globais. Resumo (dos primeiros atos?) desta ópera europeia: escândalo no Reino Unido; cavalos desaparecidos na Irlanda; reclamações com empresas de comidas congeladas na França; matadouros detectados na Romênia, país fornecedor de carne; investigações, processos e acusações em todo o continente; e reunião extraordinária de emergência da União Europeia marcada para esta tarde na Bélgica.

Ufa! A extensão deste problema ainda não está 100% clara e a cadeia alimentícia de consequências é complexa. Na verdade, o escândalo começou em janeiro com problemas detectados em relação à carne de hambúrgueres no Reino Unido e na Irlanda. Na última semana, contudo, testes realizados em comidas congeladas provenientes da França reativaram a polêmica ao demonstrarem que o recheio de carne dita “bovina” de lasanhas congeladas poderia ser até totalmente composto, na verdade, por carne equina.

As investigações judiciais em relação à proveniência da carne e as rotulagens dos produtos estão ocorrendo e as medidas/sanções a nível europeu estão sendo discutidas agora em Bruxelas. Trata-se certamente de um grave problema internacional, o qual demanda mobilização de todas as partes para descobrir as fraudes, avaliar as proporções exatas do problema, e evitar ainda que toda a produção de carne europeia seja afetada, o que pode gerar graves consequências a uma Europa já economicamente pouco estável nestes últimos tempos… 


Categorias: Economia, Europa, Polêmica


Ciao, Bento

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Segunda-feira é um dia complicado, por que sempre pode aparecer uma surpresa. Estava preparado para fazer uma postagem sobre o escândalo frigorífico da carne equina na Europa quando do nada vem a notícia que o abatido papa Bento XVI vai renunciar no fim do mês. 

Esperem, renunciar? Sim, eles podem, apesar desse expediente não ser usado desde 1415. Na era moderna, os papas sempre encerraram o pontificado com seu falecimento. Bento XVI, ou Joseph Ratzinger, que foi o primeiro papa alemão desde o século XI, deixa assim a sua “marca” para os livros de curiosidades, assim como seu antecessor João Paulo II foi o primeiro papa não italiano em séculos. 

Mas… e daí? A única coisa que se especula é que a saída tenha a ver com sua idade avançada. Muito stress pra pouca saúde. Lembramos que a Igreja Católica passa por um momento delicado atualmente. Ao mesmo tempo em que cresce em regiões da África e da América Latina, perde fieis em rincões tradicionais como o Brasil e a Europa. Sem o carisma do antecessor, tentou inovar, como a sua famosa conta do Twitter. Mas no fim das contas, o papado de Bento XVI é marcado por problemas, com a tentativa de disciplinar a atuação da Igreja, com punições mais acentuadas a denúncias de abusos, mas ao mesmo tempo sem que parassem de estourar escândalos e continuando com uma postura rígida acerca de temas mais sensíveis como aborto e casamento homossexual. 

Nesse sentido, a saída dele tem muita importância. Muita gente vai estar interessada no que o novo pontífice vai falar, católicos ou não. Vale lembrar que ainda é uma das maiores igrejas do mundo, e a única das “grandes” com uma liderança única significativa, que mesmo sem poder na prática, interfere potencialmente nos valores de uma parcela gigantesca da humanidade. A dúvida é se o novo papa vai ter uma postura mais “liberal” ou continuar o processo conservador de Ratzinger, nesse desafio de balancear o discurso e agradar a gregos e troianos. É tentador trazer pro debate coisas como as profecias de São Malaquias ou especular novos candidatos, mas por enquanto o jeito é esperar a fumaça branca no Vaticano.


Categorias: Cultura, Europa


Futebol na África: o melhor e o pior do continente

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Algo que sempre me fascinou foi buscar vínculos entre esportes e relações internacionais. Na maioria das vezes, este exercício exige um tanto de imaginação e outro tanto de adaptação. As intersecções são sombrias na maioria das vezes, apesar da influência de fatores políticas em diversos eventos esportivos. Podemos tomar como exemplo a rivalidade nas Olimpíadas durante a Guerra Fria ou mesmo a tentativa de capitalizar nas conquistas esportivas por governos totalitários. Pode-se inclusive pensar o futebol como um mecanismo de soft-power brasileiro.

Neste fim de semana, chega ao fim a maior competição de futebol entre nações da África. Na final estão Nigéria e Burkina Faso. Apesar das dificuldades já apontadas, o futebol africano é um excelente campo para obter um pouco do melhor e do pior deste continente fascinante. Afinal, quando é que temos a oportunidade de ouvir falar de Burkina Faso? Dentro de campo, os esportistas africanos mostram talento, fato corroborado pelos que jogam nas maiores ligas do mundo. Fora dele, no campo político-social, ressurgem questionamentos antigos.

Algumas histórias são marcadas pela superação, como a Zâmbia (campeã de 2010) que homenageou sua maior geração de futebolistas, vitimada por um acidente aéreo, na véspera da partida final. Outras histórias, no entanto, demonstram um pouco do que o continente ainda tem de pior, como no ataque à seleção de Togo antes da competição também de 2010.  Além disto, em outro exemplo negativo, o torneio deste ano foi obrigado a uma mudança de última hora da sede, a impossibilitada Líbia deu lugar à África do Sul.

Enquanto a Nigéria, finalista no futebol, aproxima-se do posto de maior economia continental e sua ministra de finanças prevê a chegada de nações africanas ao rol dos países em desenvolvimento; as divisões internas, o choque de visões pós-primavera árabe e o avanço do radicalismo ainda apontam para outras necessidades. À medida que melhore sua produtividade, aumente o fluxo de investimentos estrangeiros, intensifique avanços estruturais; a África verá questões mais fundamentais voltarem à pauta mais um vez. Nem a emergente Nigéria escapa de problemas internos, sob a bandeira do Boko Haram.

Neste ano houve ainda uma última coincidência. O Mali, assolado por uma grave crise, disputa na tarde deste sábado o terceiro lugar na Copa das Nações Africanas. Quem sabe o recente bom presságio esportivo, não fortaleça o desejo de o país reencontrar um pouco de estabilidade. Caso torne-se uma distração, características de outras interações futebol-política, poderemos ver mais do que há de pior no continente. O futebol ainda é um pano de fundo interessante, com indícios de grandeza do continente. Torçamos pelo melhor. 


Categorias: África


Um crime nada perfeito

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Depois do Egito, da Síria, chegou a vez da Tunísia mostrar que a queda de grandes ditadores e a consecutiva transição democrática não é algo simples e romanceado como o Tio Sam advoga mundo afora. Democracia não se vende e nem mesmo se força em um país, mas sim é construída de acordo com os valores e as demandas da sociedade daquele país. E esse processo nem sempre é simples e fácil. Pelo contrário, na maioria das vezes, é doloroso e cheio de idas e vindas. 

Essa introdução não poderia significar outra coisa que não o aumento das complicações internas na Tunísia. Isso mesmo, mais problemas. Novas idas e vindas. O país já não se encontra em um cenário de grade estabilidade desde o final do ano passado. Apesar de a queda do ditador Ben Ali forçar mudanças na sociedade e no sistema político (que passou de apenas três partidos para um multipartidarismo de quase cem partidos!), nenhuma delas significou que a população atingiu um nível de satisfação aceitável. Pelo contrário, o cenário ainda é tenso. O fato de o governo não conseguir lidar com o problema do desemprego, daquela tal assembleia constituinte estar travada há mais de dois anos e das manifestações estarem sendo reprimidas com excessiva violência, são alguns exemplos de como andam as coisas por lá. 

Não bastasse a multiplicação dos protestos pela situação política e econômica, que já são complicadores por si só, um novo ingrediente foi adicionado a essa mistura. O principal líder da oposição laica, representante do Partido dos Patriotas Democratas Unificados (PPDU) e da recém criada Frente Popular pelos Objetivos da Revolução, Shokri Beladi, foi assassinado no dia 06 à porta de sua casa. 

Beladi vinha aumentando o tom de suas críticas contra o governo, principalmente, pelas iniciativas radicais dos grupos salafistas e dos políticos que participaram da RCD (ex-partido de Ben Ali), e, consequentemente, de seu apoio ao partido governista, o Ennahda. O assassinato foi suficiente para deslanchar um efeito dominó. A oposição gritou, uma parcela significativa da população saiu às ruas em protesto e o primeiro-ministro, Hamadi Jebali, decretou a dissolução total do parlamento e a convocação de um gabinete de técnicos para tentar apaziguar o país. Tudo aponta para um crime político. Mesmo porque bastou Beladi acirrar suas críticas ao governo que poucos dias depois já estava morto. 

Agora, se teve algum partido governista envolvido, se foram grupos salafistas ou mesmo se visava-se incriminar alguém, não é sabido ainda. O que se sabe é que o crime desencadeou uma instabilidade política de grandes proporções na Tunísia. Novos protestos estão correndo as ruas e o próprio partido do primeiro-ministro se negou a aceitar a dissolução do parlamento. Tudo está progredindo rapidamente e os próximos dias serão cruciais. Mas o que é mesmo interessante dessa história toda é que se crime político buscava silenciar a voz da oposição laica acabou por despertar a voz de muitos outros que antes encontravam-se calados. 


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa