Consumidor de Defesa

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A economia do mundo vai mal, especialmente no setor de Defesa. As maiores indústrias militares são de países desenvolvidos, e estão puxando o freio com seus maiores compradores deixando de gastar em armas pra pensar em coisas mais frugais como conter o desemprego. Não deixa de ser um negócio bilionário, mas a tendência é a retração. Por isso destoa nesse cenário a ascensão da Embraer, que vai contra tudo nessa tendência, e diz um pouco de como está esse mercado atualmente. 

Ontem, por exemplo, confirmou-se a vitória da empresa e sua parceira norte-americana para um contrato de venda de aviões de treinamento para a força aérea dos EUA. Já tinha vencido em 2011, mas o processo foi embargado pela concorrente e acabou minguando. O negócio não é apenas um feito incrível, com a entrada no mercado da maior potência militar do planeta, mas garante 430 milhões de dólares no caixa e é mais um sucesso de uma menina dos olhos da empresa, o Super Tucano, em operação da Colômbia à Indonésia. 

A tendência é a melhora, especialmente com a expectativa de vendas do KC-390, aeronave de transporte médio, que deve sair ano que vem e já tem entre prováveis compradores Colômbia e República Tcheca. A maior parte dos clientes desse setor são justamente países onde os gastos militares não tiveram muita redução. A Embraer, inclusive, teria compras infladas pelo próprio governo brasileiro, mas tem um mercado potencial na América do Sul e na Ásia. Ironicamente, a melhora nesse ranking dos fornecedores de armas não acompanha a venda de aeronaves civis, que tem mais abrangência (leia-se, mais clientes que hoje estão em crise) e impacto na renda da empresa (que teve prejuízo em 2011). 

Disso tudo fica a percepção de que bem ou mal as indústrias de defesa sempre têm um porto seguro. Seus maiores compradores são os Estados, e teoricamente nunca vai faltar comprador. O interessante disso é ver que, mesmo em tempo de crise, especialmente na Europa, outras regiões do mundo, especialmente os países periféricos, continuam com os gastos militares a todo vapor. Necessidade ou displicência? A questão é ver até onde aguentam manter esse ritmo.


Categorias: Brasil, Defesa, Economia, Estados Unidos, Paz, Segurança


Comprometamo-nos!

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Pessoas que marcam o cenário internacional constroem suas trajetórias todos os dias. Através de suas obras, decisões e posicionamentos, delineiam o curso da história e reavivam a esperança de melhoras e mudanças positivas. Em um dado momento, porém, estas pessoas inevitavelmente nos deixam, perpetuando-se na forma de seus legados.

E ontem foi a exemplar trajetória de Stéphane Hessel que se eternizou, levando-nos a realizar merecidas homenagens póstumas. Após sobreviver aos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, este franco-alemão iniciou sua carreira diplomática, fortemente marcada pela defesa dos direitos humanos e de causas humanitárias. Um marco importante foi sua participação na elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, contribuindo, a partir daí, durante toda sua vida para o avanço dos direitos humanos pelo mundo.

Já ao final de sua vida, talvez uma de suas mais importantes contribuições tenha ainda ocorrido: seu livro “Indignai-vos!” (2010) foi um chamado à resistência dos jovens, uma forte crítica para que se indignem contra a situação atual de forte dominação do capital e das altas finanças econômicas. Este livro (disponível aqui), com cerca de quatro milhões de exemplares vendidos pelo mundo afora, foi a inspiração dos movimentos mundiais contra as injustiças sociais e econômicas, tal como os “Indignados” espanhóis.

Mais importante ainda que a indignação, seu chamado ao comprometimento dos jovens representa um esforço que deve ser perpetuado por todos nós, cada qual em seu contexto e através de seus instrumentos. Indignados e inspirados pela trajetória deste pensador, comprometamo-nos, pois, em busca de também fazermos a diferença em nossos próprios entornos sociais. 


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Post Especial


Post do Leitor

Post do leitor – William Soares Gonçalves

[O leitor William Soares Gonçalves, da Escola Estadual Profª. Zeicy Apparecida Nogueira Baptista, em Taboão da Serra/SP, participa hoje mais uma vez do blog com um novo post sobre a temática do tráfico. Este assunto já foi apresentado no blog em dois ótimos e recentes posts do leitor (do Victor Uchôa e da Tamiris Batista) e hoje é reforçada em mais essa reflexão. Boa leitura a todos!]

 
 
 
 
 
 
 

A mais pura verdade

Estou mais uma vez escrevendo para o blog, falando um pouco sobre os diversos tipos de tráficos que existem na nossa sociedade nos dias de hoje. Infelizmente esta prática criminosa vem ganhando forças em suas diversas formas de praticidade, o que deixa claro que, quando falamos em tráfico não estamos apenas falando em tráficos de drogas, o qual é bastante noticiado em telejornais.

A prática do tráfico de drogas é, sim, uma das principais que geram “fonte de renda” e também a mais conhecida. O que a maioria das pessoas não sabe é que não existe apenas o tráfico de drogas, mas também os tráficos de pessoas, animais, órgãos, flores, plantas, dentre outros.

O tráfico de pessoas é um assunto muito sério, e que tem alcançado maior repercussão com a exibição atual de uma novela que retrata principalmente este drama (leia mais aqui e aqui). Muitas das pessoas traficadas trabalham como “escravas”, sofrendo exploração – muitas vezes sexual para as mulheres – e demonstrando a gravidade da situação. Estas pessoas, muitas vezes levadas para o exterior, são frequentemente indivíduos que não possuem condições financeiras adequadas e recebem falsas ofertas de empregos para o exterior. Lá chegando, descobrem que o sonho pode virar o pesadelo…

Nesse tipo de tráfico fica a dica: se receber uma proposta de emprego para o exterior, tenha cuidado se precavendo e se prevenindo para evitar armadilhas. Já sobre o tráfico de drogas, devemos nos conscientizar que esse caminho gera muitas desilusões e problemas sociais. Se tiver suspeita de tráficos de animais, órgãos, pessoas dentre outros, denuncie para que os envolvidos sejam responsabilizados.

Links úteis:

 

[1] Disque-Denúncia – Tráfico de Pessoas;

 

[2] Disque-Denúncia – Tráfico de Mulheres;

 

[3] Disque-Denúncia – Tráfico de Animais Silvestres. 


Categorias: Brasil, Post do leitor


Imagem da Semana

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E o centro das atenções no último domingo foi o Oscar. Assim, a “Imagem da Semana” não poderia ser diferente. Só que não estamos falando do tombo na escada da atriz Jennifer Lawrence. Veja abaixo: 

Fonte: AFP/Getty/Fars (theguardian.co.uk)

À esquerda, tem-se a imagem original, na qual Michelle Obama, primeira-dama norte-americana, apresenta o prêmio de melhor filme, cujo vencedor foi “Argos”. À direita, tem-se a imagem mostrada pela mídia iraniana. Lá as mulheres só podem aparecer na TV com o hijab, um tipo de véu islâmico que cobre cabelo, braços e pernas. Considerada manobra política por muitos, a aparição de Michelle foi tomada como segredo de Estado. Ninguém sabia de nada e o Irã aproveitou para tomar a frente nos noticiários outra vez.


Post do Leitor

Post do Leitor – Victor Uchôa

[O leitor e graduando em Ciências Sociais, Victor Uchôa, nos brindou com mais um excelente texto sobre fraudes no meio científico. Dissertações de mestrado, teses de doutorado, artigos emuitas outras produções falsas são o tema desse excelente post. Lembrando a todos que é possível postar na Página Internacional! Basta enviar um texto para [email protected]! Boa leitura!]

O Preço da Ciência

A renúncia da ministra da educação alemã, Annete Schavan, foi o capítulo final de mais uma história envolvendo política e fraudes em pesquisas. A denúncia de plágio de uma figura do alto escalão do governo alemão pegou de surpresa a comunidade científica internacional. Mas a verdade é que os escândalos envolvendo essa comunidade estão se tornando cada vez menos chocantes, dada à quantidade de casos descobertos. 

No Brasil, país um tanto famoso pelo tipo de comportamento a que carinhosamente apelidamos de “jeitinho”, as fraudes científicas e curriculares para a obtenção de vantagens são bastante comuns. No passado recente, até mesmo a então provável futura presidente da República, Dilma Roussef, teve de admitir erros em seu histórico acadêmico, que apontava dois títulos de pós-graduação nunca adquiridos. O currículo do atual ministro da educação, Aloísio Mercadante, sofreu do mesmo engano. Em outro escândalo ainda maior, grande parte da alta cúpula da USP esteve envolvida em denúncias de plágio, alteração de dados, de notas e de todo o possível. 

Problemas com fraudes científicas muitas vezes são mais prejudiciais do que os casos que levam alguma obtenção de vantagem pessoal. Afinal, pesquisas por muitas vezes definem políticas públicas, leis e posicionamentos de grupos de poder, a respeito de diversos temas. As pesquisas sobre o aquecimento global são um grande exemplo. Determinados resultados de pesquisadores, depois de alterados, aumentaram o status do problema de negativo a catastrófico, com verdadeiras projeções apocalípticas para a humanidade em um curto período de tempo. Com isso, doações a grupos envolvidos no tema dispararam, o que fez crescer a descrença nas boas intenções de algumas ONGs e no crédito de alguns cientistas que davam embasamento aos seus discursos. 

Evidentemente, não só entre os ecologistas se escondem os pesquisadores que abraçam as ideias e o dinheiro de determinados grupos enquanto apresentam seus resultados. Talvez esteja na exploração dos campos de areia betuminosa, no Canadá, o caso de enganação científica mais nociva ao planeta atualmente. Com a apresentação de relatórios nebulosos e a omissão de alguns dados, alguns cientistas tiveram papel determinante na vitória das empresas interessadas na exploração da matéria-prima, a despeito da catástrofe ecológica que essa ação pode acarretar. A areia betuminosa, segundo alguns resultados científicos, consegue ser cerca de três vezes mais tóxica e nociva ao meio ambiente do que qualquer outro tipo de produto para combustíveis. 

A utilização política da ciência, inclusive com mentiras, não é nenhuma novidade do século XXI. A Medicina e a Anatomia já foram utilizadas para a comprovação da superioridade de raças, a defesa da eugenia e do papel da mulher como apenas reprodutora e mantenedora do lar, entre outros absurdos. Realizava-se a medição do crânio, algumas partes do corpo, inventavam tantas outras observações, e ali estava a prova. A antropologia é outra ciência de um passado para ser esquecido. O seu nascimento serviu exclusivamente a legitimação de que os europeus dominassem povos primitivos, segundo alguns pensadores “incapazes de cuidarem de si próprios”. 

O aumento das denúncias de fraude assusta. Ainda mais em tempos em que o alcance da ciência e da tecnologia é tamanho, que ações de ambas podem influenciar decisivamente aspectos a vida na Terra, para o bem ou para o mal. O prejuízo de fraudes em pesquisas que servem ao interesse de grupos egoístas pode ser muito maior do que a alteração de quem vai permanecer ministrando cursos em sala de aula, ou que vai obter um cargo na direção da instituição, quem irá trabalhar em um ministério ou ser o próprio ministro.


Categorias: Polêmica, Post do leitor


Há um ano...

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Há um ano, o blog estava movimentado por temas bastante diferentes entre si…

Primeiramente, em ritmo de Carnaval, a homenagem da escola de samba paulista “Gaviões da Fiel” ao ex-presidente Lula recebeu nossa atenção (reveja aqui). Após um ano, Lula continua estampando capas de revistas e artigos de jornais, porém principalmente devido às denúncias em relação ao mensalão que voltaram à tona nos últimos meses e foram acompanhadas de perto pela sociedade brasileira. O procurador responsável pela investigação de seu caso foi escolhido esta semana, mas suas atividades ainda não possuem prazo de finalização, devido à grande quantidade de material a ser avaliado para levar (ou não) a uma condenação. Será? Resta-nos aguardar.

Também nesta época durante o último ano, a Líbia celebrava as eleições municipais como uma conquista histórica – novidade para o povo líbio, após 40 anos (reveja aqui)! Agora já estamos comemorando o segundo aniversário das revoltas sociais que derrubaram Kadhaffi em 2011. Clima de tensão ainda permanece no país, mas a luta pela descentralização do poder e pela justiça social ainda é grande e parte de um longo processo.

Já nos Estados Unidos, enquanto há um ano avaliávamos que a corrida eleitoral seguia indefinida, hoje Obama luta no momento contra a questão dos cortes automáticos de gastos no país, enfrentando desafios em um segundo mandato durante o qual se aguarda o cumprimento de muitas de suas promessas.

Ainda, uma interessante reflexão sobre o estudo e os investimentos em educação superior no Brasil e no mundo em tempos de crise econômica foi um post dessa época que merece ser relido, mantendo ainda sua atualidade após um ano.

Por fim, há pouco mais de um ano anunciávamos a entrada de Cairo Junqueira como colaborador do blog, reforçando a equipe e contribuindo amplamente para a qualidade dos textos publicados por aqui!

É isso, pessoal, postando e relembrando na nossa Página Internacional! 

 


Categorias: Há um ano...


Carnes, ovos e tomates

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Protesto contra o governo na cidade de Sofia, na Bulgária

Fonte: Retirado de vídeo disponível em pt.euronews.com


A questão da carne de cavalo comercializada em lasanhas à bolonhesa virou polêmica pelo mundo na última semana. Cogita-se que pelo menos quinze países europeus tenham encontrado traços desta carne não declarada em pratos congelados. O problema não é ser de cavalo, até porque existe mercado pra isso e, por exemplo, o Brasil foi o 12º maior exportação de carne de equídeos (cavalo, jumento e mula) no ano passado. Entretanto, a discussão gira em torno da substituição de uma carne por outra sem aviso prévio e direto ao consumidor. 

E agora isso está sendo descoberto em países do leste europeu. Romênia e Bulgária entraram nesta lista ontem mesmo. É ruim para o mercado internacional e principalmente para dois atores: União Europeia e Brasil. O bloco regional, um dos maiores importadores de carne bovina, está encontrando resistência de consumo. Nosso país, o segundo maior exportador de carne bovina do mundo, poderá encontrar dificuldades comerciais no curto prazo. 

Mas, e os outros ingredientes? Então, voltando à Bulgária, ontem o seu parlamento aceitou o pedido de renúncia do primeiro-ministro conservador, Boiko Borisov. Em razão das medidas de austeridade econômica e do aumento das tarifas de energia, a população ficou revoltada, foi às ruas e protestou veementemente contra o governo. A expressividade foi tamanha que parece ser o maior protesto nos últimos quinze anos. Na capital, Sofia, jogaram ovos e tomates nos prédios governamentais. 

Borisov disse, no dia da renúncia, as seguintes palavras: “The people gave us power, and today we are returning it […]”. Democracia? Talvez sim, talvez não. O que o povo quer é o básico: nova constituição, diminuição dos custos parlamentares, envolvimento civil na política e assim por diante. Nem mesmo a oposição socialista esperava a saída do ministro, mas, às vezes, parece pura manobra política. 

Com carne, ovo e tomate, lá na Bulgária, a princípio, parece que as coisas não terminam em pizza. Isso porque o país é o mais pobre da Europa com salário médio de 350 euros. Mas a batata na Europa continua assando, seja na economia, mais aliviada, ou na política, mais agitada ultimamente.


Categorias: Economia, Europa


From Russia with love

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Ontem, teve grande repercussão no noticiário a visita a Brasília do primeiro-ministro Medvedev da Rússia. Se falou de muita coisa, de rodada Doha e eleição da OMC ao embargo russo de carne bovina de estados brasileiros (que aliás, continua). Mas o que chamou a atenção mesmo é que vamos comprar equipamento de defesa antiaérea (aqueles famosos SAM) deles. 

É interessante como hoje o Brasil parece diversificar (outro jeito de dizer “atirar pra todos os lados”) os fornecedores militares. Há alguns anos a expectativa era de uma aproximação cada vez maior com a França nesse setor, mas parece que era muito mais um negócio de compadres entre Lula e Sarkozy – sem os dois na parada, o principal negócio (o F-X2, de compra de caças) esfriou e não parece mais favorável a Paris. Ao mesmo tempo, nos aproximamos da Rússia, comprando helicópteros e outros equipamentos. Quando se falava em reaparelhar o Brasil e defender de “potenciais” ameaças sul-americanas, um dos pontos que os mais exaltados sempre levantavam era que deveríamos evitar ter o mesmo fornecedor dos vizinhos pra evitar que alguém de fora tivesse o poder de decidir os rumos de um eventual conflito por essas bandas. No fim das contas a possibilidade de conflito é bem remota, e as ameaças de verdade ainda são combatíveis de um jeito mais simples, como reforço de patrulha nas fronteiras e tudo mais. 

E certamente o Brasil não parece inclinado a depender de um único fornecedor, ainda mais com os planos de Defesa em longo prazo que temos desde a END de 2008. A aproximação com a Rússia é uma boa, ainda mais em um setor que ainda está mal das pernas que é o da defesa do espaço aéreo. A Índia está se dando muito bem fazendo o mesmo, e Medvedev até comentou que a tal transferência de tecnologia pode acontecer se o Brasil pagar o suficiente. Mais direto impossível, mas do discurso pra prática existe um abismo, e do lado de cá não estamos mais em 2008 e a montanha de dinheiro que parecia disponível na época parece cada vez mais uma miragem. 

A aproximação bilateral é vantajosa para os dois países, em muitos sentidos, mas tem muito chão pela frente pra que haja uma eventual cooperação militar. Se nessa brincadeira conseguirmos negociar a suspensão do embargo da carne, já vai estar ótimo.


Categorias: Brasil, Defesa, Economia, Europa, Paz, Segurança


Post do Leitor

Post do Leitor – Victor Uchôa

[O leitor Victor Uchôa, graduando em Ciências Sociais pela Unicamp, nos brindou com um excelente texto sobre a cruel, porém real, realidade do tráfico internacional de pessoas. Lembrando a todos que  quiserem ter seus posts aqui no blog que basta enviar um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]


Humanos de segunda classe

A atual novela “Salve Jorge” trouxe à tona pela primeira vez ao grande público o problema do tráfico de pessoas no Brasil. Assim, o assunto se transformou em uma espécie de moda das discussões cotidianas. Entretanto, a necessidade de adequação da trama ao gosto do público fez com que ela fosse ineficaz em demonstrar a dimensão do problema, tanto em quantidade de pessoas exploradas, quanto as reais condições em que vivem. Esse crime é tratado pela ONU como o mais hediondo praticado pela humanidade. 

Em nosso país são movimentados aproximadamente 32 bilhões de dólares ao ano com essa atividade, sendo o mais rentável dos crimes, superando em muito o tráfico de drogas. No mundo, é o terceiro negócio que envolve maior movimentação financeira, também chegando a envolver cerca de 2,4 milhões de pessoas exploradas por ano. Mesmo assim, o assunto seguiu longe dos noticiários nacionais, que deram maior atenção a praticamente todos os outros tipos de ações criminosas, a despeito da dimensão desse problema. Essa falta de interesse da imprensa é facilmente explicável. 

O trafico internacional de pessoas envolve basicamente a exploração de crianças e mulheres, que são forçadas por meio da violência e da fraude a se mudarem de seus países, na esperança de uma oportunidade. Diferentemente das personagens principais da ficção, a falta de direitos e de cidadania é iniciada na própria terra natal. Muitos dos refugiados e imigrantes de países periféricos não possuem a documentação que garante os direitos civis em seus próprios países. A exclusão tem rosto de dupla cidadania. No caso brasileiro, a maioria dos casos ocorre com mulheres, negras e de baixa renda, o que é comumente reconhecido na sociologia como uma espécie de santíssima trindade da vulnerabilidade. 

A insignificância dos explorados explica uma questão que pode surgir. Como uma teia criminosa tão ampla e tão óbvia se mantém com certa tranquilidade, permanecendo ilesa a justiça dos países e dos holofotes da mídia? A resposta é simples. Refugiados e imigrantes pobres de países periféricos são facilmente tratados como pessoas sem importância, tanto pelas autoridades dos países em que foram retirados, quanto dos que se tornaram seu destino final. Eles praticamente não existem. Assim, a grande maioria dos casos é completamente desconhecida, não tratados pela imprensa, enquanto os casos noticiados são as raridades que fogem a regra de exploração dos seres humanos em piores condições possíveis. O número de casos expostos é bastante reduzido. O tráfico de pessoas consegue ser o mais rentável dos crimes, enquanto tem rosto de problema pouco prolifero. 

O sucesso na exploração de pessoas em péssimas condições econômicas e jurídicas não tem como seu único exemplo o tráfico de pessoas. O mesmo pode ser visto no Brasil em um caso que em muito se parece a esses crimes, como os bolivianos que participam de trabalhos análogos a escravidão em fábricas de tecidos, ou com a prostituição infantil, que em sua maioria envolve crianças em situação de extrema pobreza. Recentemente, nosso próprio STF livrou uma dezena de acusados de estuprarem uma criança de 12 anos, por esta supostamente se prostituir. A justiça brasileira pode achar plausível que uma pessoa nessa idade possa tomar decisões autônomas de sua vida, e que a relação sexual com um adulto seja feita com consentimento. 

Claro, desde que essa criança seja parte das pessoas sem rosto ou dignidade. Pesquisas financiadas pelo escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) atestaram que um dos principais motivos para a facilidade da manutenção desses esquemas criminosos é da falta de importância dada ao tema pela sociedade civil. Afinal, grande parte da população acredita que foram essas mulheres culpadas pelo seu mal, ora por ganância, ora por pura vontade de servir como prostitutas. 

Outra ideia comum é a de que tais pessoas estejam em melhores condições sofrendo exploração do que anteriormente, vivendo como miseráveis em seus países. Uma tragédia justifica a outra. A falta de direitos outorgada por viverem em um país como imigrantes ilegais é por fim legitimada pelo discurso de criminalização da vítima, ato bastante comum no Brasil, sobretudo quando os crimes são sexuais e contra mulheres. Não à toa o nosso país é campeão mundial em pessoas exploradas. E Assim, o ato mais hediondo do mundo e o terceiro mais rentável fecha sua área de proteção graças à falta de interesse da sociedade dos países envolvidos sobre quem são tais explorados. Afinal, quem daria grande importância aos males de humanos de segunda classe?


Categorias: Brasil, Mídia, Post do leitor


Imagem da Semana

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E a Página Internacional faz renascer uma coluna histórica do blog. A partir de hoje, semanalmente publicaremos uma imagem que marcou a semana com uma breve legenda. O objetivo é deixarmos registrado fotos icônicas, cômicas, irônicas, tristes, alegres; enfim, fotos importantes para a semana.

E pra começar…

…nada mais marcante do que o meteoro que caiu na Rússia na semana passada e gerou o maior bafafá pelo mundo. 

Mais impressionante ainda é a lembrança nada pequena que deixou no território russo: 

É isso aí, pessoal! Até semana que vem para mais registros fotográficos das relações internacionais!