A invasão misteriosa

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Naqueles grandes filmes e romances policiais sempre há, no enredo, um crime misterioso. Todos eles começam quase que da mesma forma. Alguém morre. Um policial, detetive ou um interessado qualquer é envolvido de alguma forma na história. Começa-se, então, a buscar o tal assassino. A partir desse ponto que esses enredos podem mudar, sem que se altere esse esqueleto inicial. 

Mas e se, hipoteticamente, tivéssemos uma situação na qual se sabe claramente quem cometeu o crime, contudo, o alvo não é de conhecimento de ninguém. E, para piorar, uns juram de pés juntos que quem morreu foi Beltrano e outros confirmam que foi Fulano. Em um romance policial esse enredo talvez ficasse um pouco estranho. Contudo, para o Oriente Médio, é mais do que suficiente para gerar nosso mais novo bafafá internacional. 

Como comecei dizendo, não se sabe ao certo o que foi o alvo. Apenas que ontem houve um bombardeio de aviões israelenses em território sírio. O governo de Israel manteve aquela postura de sempre depois cometer alguma violação em território alheio. Silêncio. Agências de notícias dos Estados Unidos apontaram que, quase na fronteira com o Líbano, um carregamentos de mísseis antiaéreos de fabricação russa, os SA-17, foi alvo desses aviões. Já o governo sírio afirmou que as tais aeronaves voaram baixinho, abaixo do alcance dos radares, e destruíram um centro de pesquisa militar a 15km de Damasco. 

As condições nas quais o ataque ocorreu já são suficientes para render uma história interessante. Agora, adicionada essa completa divergência de informações, temos material para um best-seller. A situação toda é difícil de averiguar, principalmente, pela falta de detalhes do que tem ocorrido dentro da Síria, pelos locais que os supostos eventos ocorreram e pelo total silêncio de Israel. 

Olhando mais de perto o ocorrido, independentemente de qual das versões seja confirmada, houve aí uma clara violação de soberania da Síria. E, em caso de guerra civil ou não, invadir o espaço aéreo de um país e bombardear uma área qualquer (por mais ínfima que seja) sem o crivo da ONU é intervenção em assuntos internos. Basta lembrar de todo o problema que ocorreu na invasão do território equatoriano pelo exército colombiano para buscar o número 1 das FARCs em 2008 e das bombas e mísseis sírios que ultrapassaram a fronteira com a Turquia durante esse conflito atual (para mais, clique aqui). 

Uma violação que parece ter sido muito bem pensada por Israel, em caso de o alvo ter sido o carregamento de mísseis. Puro cálculo de estratégia e poder. Como o governo teme que o Hizbollah recebesse armamentos antiaéreos e conteste seu poderio de sua Força Aérea, destruir o carregamento enquanto ainda é transportado para o Líbano é a melhor forma de cortar o mal pela raiz. Isso porque, uma vez chegado no país vizinho, essas armas desapareceriam em estoques e túneis subterrâneos, podendo jamais serem localizadas novamente. 

Enquanto isso, do lado sírio, outro movimento foi muito bem pensado. O tal centro de pesquisa militar destruído foi, segundo a agência de comunicação do governo sírio, também alvo dos rebeldes, também conhecidos como CNFROS. Todavia, eles não tiveram sucesso em ocupá-la. Uma bela forma de ligar a atuação de Israel à Coalização para as Forças da Revolução e a Oposição Síria (CNFROS). 

A complexidade desse quase-romance policial cresceu ainda mais quando o Irã também anunciou que Israel poderia sofrer retaliações. O inimigo mortal do governo israelense aliado ao Hizbollah e a Síria de fato poderiam oferecer riscos. Mas no cenário atual, qualquer retaliação, por mais que não possa ser descartada, pode ser mais custosa que benéfica. 

A situação é complexa e, de certa forma, um retrato do funcionamento das relações internacionais no Oriente Médio. Uma região onde ainda a disputa pelo poder militar e o receio do crescimento do poder do outro são o imperativo. E que as forças armadas ainda ditam as regras.

[Para mais: 1, 2, 3, 4, 5]


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Névoa cinzenta

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As palavras poluição e China – frequentemente vistas na mesma frase – têm ilustrado as manchetes internacionais nos últimos dias. Os níveis altíssimos de poluição em Pequim voltaram a assustar, obrigando empresas aéreas a cancelarem voos e moradores a ficarem em casa para se protegerem da impressionante névoa cinzenta…

Para se ter uma ideia, o tamanho das partículas do ar estava 20 vezes superior ao recomendado pela Organização Mundial de Saúde para um período de 24 horas… com uma visibilidade de apenas 200 metros nas ruas, o pacote do governo com medidas para conter a poluição atmosférica (prometido há duas semanas) se faz mais do que urgente.

Com taxas de câncer de pulmão crescendo assustadoramente no decorrer da última década e os atuais níveis alarmantes de poluição, o governo tem até aconselhado a população a reduzir as atividades realizadas ao ar livre (!).

Acontece que a situação vivenciada atualmente pela China não é nova, e crises parecidas já ocorreram nos Estados Unidos (1948), na Bélgica (1930) e na cidade de Londres (1952). Daí foi criado o termo “smog das palavras inglesas para fumaça (smoke) e neblina (fog). Nestas oportunidades, as crises contribuíram para a criação de medidas contra a poluição, muitas vezes consequência direta do processo de industrialização acelerada.

Se quiser, a superpotência chinesa certamente tem condições de enfrentar o problema que pode mesmo representar um obstáculo ao crescimento econômico do país. Sendo o segundo maior emissor de gases de efeito-estufa no mundo, a redução das emissões de dióxido de carbono depende de muita vontade política para que compromissos ambientais sejam assumidos. Enquanto isso não acontece, tem até chinês vendendo ar puro em lata contra a poluição… qual sabor você preferiria: “Taiwan pós-industrial” ou “Tibete fresco”? […]


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E com que cara ficam?

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Hoje, todo mundo sabe que o pobre diabo na foto é um homem entubado de um vídeo de 2008. Mas na semana passada, por uma meia hora, o jornal mais conceituado da Espanha fez acreditar que essa fosse a figura do presidente venezuelano, Hugo Chávez, supostamente nas últimas. O jornal descobriu o erro e em minutos removeu do ar a página com a foto e recolheu os jornais impressos. Tarde demais pra conter a revolta na Venezuela e o constrangimento desse engano.

A grande questão aqui é a velocidade da notícia na atualidade. Blogs têm atualizações diárias (isso quando não são feitas de hora em hora). Jornais incentivam o envio de conteúdo dos leitores para cobrir notícias em tempo real (como podemos ver no exemplo triste dos diversos depoimentos sobre a tragédia ocorrida no RS). E a internet permite essa agilização do processo da notícia, mas ao mesmo tempo coloca em risco a qualidade da mesma. 

Um exemplo famoso disso foi quando o bin Laden morreu – poucas horas depois do vazamento da notícia (que nem estava confirmada) surgiu na internet uma suposta foto do defunto. Descobriu-se depois que era apenas uma edição feita por uns gaiatos na internet, mas que vazou e acabou parando em vários sites de notícias e agências respeitadas por vários dias. Até se descobrir a montagem grosseira, já era tarde. 

Manipulação de imagem não é coisa nova – pensem na história da foto dos soldados americanos erguendo a bandeira em Iwo Jima (que até virou filme) ou aquela famosa e premiada foto do menino sudanês  desmaiado com um abutre à espreita (que pode ter sido tirada de um ângulo que manipula a perspectiva da imagem). O problema aqui é a qualidade das fontes. Não deve ter havido má fé do El País, e sim de quem repassou o furo, que parece ser um jornalista italiano que já tem sua fama de falsário. Além do mais, por mais que algum veículo seja crítico de um regime, plantar notícias falsas desse tipo seria um suicídio na era da informação atual, em que essas falcatruas não duram muito. Se foi isso mesmo, o que vimos foi um serviço muito do malfeito.

Intencional ou não, o incidente diplomático que isso causou é suficiente pra servir de lição aos editoriais mundo afora, ainda pode render um processo contra o jornal espanhol, e até serviu de deixa para a Cristina K soltar o verbo contra o Clarín. 

A certeza é que esse mercado de boataria existe pela desinformação que é o caso do tratamento de Chavez, que é um mistério completo fora as desencontradas informações oficiais. Não se sabe de nada, e o tom da notícia varia se a fonte é de quem quer ver o comandante a sete palmos ou de quem quer vê-lo nos palanques por mais alguns anos. A julgar pelo histórico de longevos líderes esquerdistas, Chavez já deve estar num quarto de Havana e rindo de tudo isso.


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Dia de Luto

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Hoje procurava um poema. Palavras belas que pudessem servir de conforto para todas as mais de 230 que faleceram e às outras tantas que se encontram nos hospitais após o desastre de Santa Maria. Procurei-o sem cessar. Mas infelizmente nenhuma palavra parecia suficiente para reconfortar a perda de tanta gente. Tudo é vazio e as informações rapidamente passam de tragédia para sensacionalismo e oportunismo. 

Por isso hoje escrevo com pesar e dificuldade. 

Cada palavra carrega o peso do luto de todos os brasileiros. Um luto que não vai passar de hoje para amanhã ou de amanhã para depois. Pois as marcas já estão gravadas no tempo. Agora caberá a nós, brasileiros, ignorá-las, ou transformar o luto em luta para que todas essas almas não tenham se perdido em vão. A Página Internacional deixa registrada suas condolências a todas as famílias que perderam entes queridos e declara seu luto por todos os hospitalizados e falecidos. 

Mas se você quer fazer algo, há algumas formas de ajudar. Abaixo algumas delas: 

– A Defesa Civil do Rio Grande do Sul está em busca de voluntários (51 3210-4219); 

– A Empresa Planalto está disponibilizando passagens de graça para médicos, enfermeiros e profissionais de saúde que possam ir até a cidade para ajudar; 

– A Defensoria Pública do Estado abriu um plantão para ajudar no translado de corpos 

– O Hospital de Santa Maria está recebendo doações de sangue que podem ser realizadas em quaisquer unidades de Hemocentros do Rio Grande do Sul. 

– Há ainda a página no Facebook, “Somos Santa Maria” que tem organizado um sistema de hospedagem solidária para as famílias que perderam entes queridos e não são do Rio Grande do Sul; – Para mais clique aqui, aqui e aqui

Encerro dizendo que não encontrei um poema bom o suficiente. Mas encontrei uma ideia, de um texto de Mario Quintana. Ele nos diz em “Data e Dedicatória” para jamais datarmos um poema, pois ele jamais pertence ao tempo. Ele pertenceria somente àqueles que o leem, hoje ou em tempos distantes. Da mesma forma, a tragédia de Santa Maria não deve jamais pertencer ao tempo e muito menos deve ser dedicada. O que deve é servir de lição para que muitas dessas vidas não tenham sido em vão, desperdiçadas.


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Há um ano...

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Há um ano, a Nigéria era assunto aqui no blog. O ótimo desempenho econômico recente (PIB de 8,4% em 2010) era comparado às escassas condições sociais, com níveis altíssimos de desigualdade e pobreza extrema. A esta situação, se somam os confrontos internos entre o grupo islâmico separatista Boko Haram e a polícia no norte do país, os quais são vistos como grande ameaça à segurança nacional.

Na última semana, 23 pessoas foram vítimas fatais de mais um ataque no país, somando-se aos milhares de afetados nos últimos três anos. Demonstrando a continuidade da situação, poucos avanços foram percebidos no último ano e são tampouco esperados, infelizmente, durante os próximos meses.

Um post comemorativo em homenagem ao aniversário da cidade de São Paulo que vale a pena ser relido também foi publicado há um ano no blog. Um ano a mais se soma à história desta que é uma das maiores cidades do mundo, repleta de oportunidades, mas ainda de desafios a superar.

Um interessante post do leitor gerou ainda reflexão no blog há um ano, discutindo a questão da internet e sua relação com o desenvolvimento econômico e social (reveja aqui).

Por fim, uma triste situação assolava os moradores do acampamento sem-teto do Pinheirinho, em São José dos Campos/SP. Há um ano, o terreno sediou uma verdadeira guerra entre os moradores e a polícia, marcada por forte desrespeito aos Direitos Humanos e apresentada aqui no blog. A violenta desocupação do Pinheirinho completou um ano essa semana, mas a prefeitura de São José ainda não tem prazo para a construção de moradias aos desabrigados, prometida à época da reintegração de posse. Quantos anos mais serão necessários para que isso aconteça?

Postando e relembrando na Página Internacional, este é o Há um ano… 


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Um ano novo, um novo líder?

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2013 será um ano relativamente tranquilo na América Latina, ao menos no campo eleitoral. Enquanto a região garante um crescimento econômico superior aos países desenvolvidos, teremos apenas três eleições presidenciais. No Chile, Michelle Bachelet enfrenta a aliança governista, representada por Laurence Goldborne ou Andrés Allamand, para tentar suceder Piñera, uma vez que o país não prevê a possibilidade de reeleição. Ao passo em que no Paraguai, o partido conservador Colorado tenta retornar ao poder. Por fim, voltamos nossas atenções para o Equador, onde o atual presidente Rafael Correa tenta um segundo mandato.

Na Venezuela não haverá um processo eleitoral, porém a situação continuará delicada com o desenrolar do desenvolvimento médico de Chávez, reeleito em 2012. Esta indefinição, mesmo com a indicação de Maduro com seu sucessor natural, deixa órfão o ideário impulsado sob a alcunha de socialismo do século XXI. Por sorte dos adeptos desta visão de mundo, este vazio é temporário. Tanto existe a possibilidade de um retorno triunfal de Chávez a seu posto de presidente e artífice de um desenvolvimento latino-americano distinto, quanto poderá emergir uma nova liderança.

Afinal, quem poderia ser esta figura alternativa? As características principais: a utilização da receita advinda da exploração de recursos naturais para incrementar os gastos sociais, a aprovação de uma nova Carta Constitucional, críticas ferozes da mídia e uma tentativa de golpe (autodeclarada em um dos casos, vale dizer).  Na ausência de Chávez, a peça-chave para a manutenção do movimento à revolução bolivariana é Rafael Correa. O mandatário equatoriano participa das eleições de fevereiro como favorito absoluto, tanto que pesquisas eleitorais indicam a sua reeleição no primeiro turno.

O cenário político equatoriano não deixa dúvidas do sucesso da fórmula adotada pelo partido Alianza País, representado pelo atual governo. A sua Revolução Cidadã resultou na aprovação de 82% da população da gestão e a credibilidade de sua principal figura atingiu 72%. Para completar, segue a cruzada contra os meios de comunicação, que, na visão governista, prestam um desserviço à sociedade. Em 2012, o presidente Correa conseguiu aprovar uma cláusula na Lei Eleitoral que impede jornalistas e veículos de apoiar diretamente ou indiretamente qualquer candidato. A limitação, em tese, afeta o próprio presidente. Contudo, seguirá a possibilidade da publicidade de projetos e programas governamentais, além de obras públicas. Este mecanismo não valerá para a eleição de 2013, somente para a próxima. 

Somado a tudo isto, cabe ressaltar um último fator. A luta latino-americana, desde seus primórdios, caracteriza-se em parte por uma forte oposição entre o poder econômico e os anseios populares. Por vezes a atenção voltou-se para os agentes econômicos externos, por vezes focou-se nos grandes grupos nacionais. De todas as formas, esta dicotomia ajudou a confirmar as bandeiras políticas que corroboram líderes como Correa. Eis que, como em um filme com final feliz, apresentam-se como seus principais adversários na eleição presidencial um ex-presidentede um dos maiores bancos do país (Banco de Guayaquil) e um ex-presidente da República que foi deposto após maciças demonstrações populares. Para completar, há um multimilionário na disputa.

Nada melhor para Correa, que continuará a brilhar. Ainda mais quando deverá contar com o apoio de dois terços do Congresso.  

Para relembrar outros posts sobre o Equador 12345678

Foto: fonte


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Davos, Brasília e Santiago

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Fonte: Ed Ferreira/Estadão


Quem está na moda é a União Europeia. Depois da crise econômica, o bloco econômico está tentando “viver às próprias custas”. Uma reforma econômica aqui e outra ali já faz parte do cotidiano das dignas grandes economias, com destaque para a Alemanha. 

Falando nela, a chanceler alemã, Angela Merkel, fez um discurso no Fórum Econômico Mundial (WEF, em inglês), que está acontecendo no balneário de Davos, na Suíça, falando justamente sobre medidas para se salvaguardar a moeda comum. Só se cogita no euro. É euro pra cá e euro pra lá. Mas outras questões ficam esquecidas. Como acabar com o gritante desemprego que chegou, por exemplo, na casa dos 25% na Espanha? Como evitar medidas de austeridade tão criticadas, mas postas em execução por vários governos, incluindo a França? Além da economia, como evitar o déficit democrático do bloco? É por estas e outras que o primeiro-ministro inglês, David Cameron, ameaçou uma possível saída futura do Reino Unido do bloco. Isso porque nem está na zona monetária… 

Ontem mesmo ocorreu a VI Cúpula Brasil-União Europeia, na cidade de Brasília. Dilma se encontrou com os presidentes do Conselho Europeu, Van Rompuy, e da Comissão Europeia, Durão Barroso (foto). Obviamente a reunião tangenciou os pontos de cooperação bilateral, planos de ação e comunhão de interesses de ambas as partes. Entretanto, conforme vi na declaração conjunta divulgada no site da Delegação da UE no Brasil, teve muito “blá, blá, blá diplomático” também. Além do compromisso de uma exitosa conclusão da Rodada Doha (o que é difícil…) e da exaltação do documento “O Futuro que Queremos” proveniente do Rio+20 (o que foi um fracasso…), reafirmaram o compromisso em levar a paz para o Oriente Médio (o que é colocado em questão, mormente pelas posturas nucleares do Irã…). 

E saiu neste encontro a discussão sobre a realização da I Cúpula CELAC-UE, a ser realizada nos próximos dois dias em Santiago, no Chile. Criada em 2010, a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) procurou, no cerne da sua institucionalização, fomentar o multilateralismo na região sem a intervenção dos Estados Unidos e Canadá. O propósito desta primeira reunião é importante: promover alianças para o desenvolvimento sustentável e a qualidade ambiental/energética. Aqui sim temos progressos visíveis, os quais colocam no centro do debate os regionalismos americanos. Os objetivos serão ratificar o plano de ação feito em 2010 pelas lideranças e avançar na adoção de uma declaração em conjunto. Como será o debate inicial, trará bons frutos. 

É a UE saindo do buraco. Mesmo com controvérsias, está melhor hoje do que ontem. Votos para que continue assim.


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Afronta aos bons costumes internacionais

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A Coreia do Norte atacou de novo. Não, não houve nenhum ataque a um território concreto. Já basta a Guerra da Coreia que jamais teve um fim oficial decretado. O que houve foi outro claro atentado à moral e aos bons costumes das relações internacionais. Uma provocação à ordem estabelecida, à liderança dos Estados Unidos e, consequentemente, ao regime de não-proliferação nuclear. 

Ontem o país anunciou que fará outro teste nuclear em breve e defendeu que continuará com o lançamento de foguetes e mísseis de longo alcance. A declaração publicada pela agência estatal KCNA não veio do nada. Coincidência ou não, ocorreu dois dias após a resolução do Conselho de Segurança sobre novas sanções econômicas contra o país, no último dia 22. A resolução foi referente ao bafafá de 12 de dezembro do ano passado, quando a Coreia do Norte fez um teste de lançamento de foguete apontado pela Coreia do Sul e pelos Estados Unidos como um míssil balístico disfarçado, e não um meio de colocar satélites em órbita. 

E tão cedo quanto as declarações foram proferidas, seus efeitos já foram sentidos. Os Estados Unidos reagiram. Medo e disposição foram as palavras mais ouvidas. Medo das ogivas nucleares e de testes de mísseis balísticos bem sucedidos; pois, como já anunciou Kim-Jong-un, o Tio Sam seria o alvo principal. Disposição em agir com todas as medidas cabíveis. Nem mesmo uma invasão foi descartada. 

Isso nos faz pensar. Refletir que no mundo atual é muito difícil bater de frente com uma superpotência militar como os Estados Unidos, apoiada no sistema ONU. Por mais injusto que o regime de não-proliferação nuclear seja (pois o TNP garante que os países que já tem a bomba não precisem se livrar dela, enquanto que os que jamais tiveram não podem tê-la) aqueles que não aderiram a ele sofrem pressões constantes da ONU. Para conseguir afrontar essa superpotência, nem que seja com uns latidos um pouco mais altos, parece que se precisa de alguns pré-requisitos. Ter uma capacidade militar capaz de assustar o Tio Sam e sua trupe, ou seja, uma bomba nuclear e/ou armas químico-biológicas. Ser um regime fechado e isolado politicamente o suficiente para não se deixar influenciar demais por sanções do Conselho de Segurança e de órgãos regionais. 

A Coreia do Norte possui ambas as características. Acima de tudo, o governo norte-coreano fez questão de concentrar todas as forças em ameaçar diretamente os Estados Unidos. Uma situação intrigante, que remonta um pouco o caso do programa nuclear do Irã. Sanções econômicas no geral surtem pouco efeito. O isolamento político do país permite certa blindagem contra elas. A menos que toquem no calcanhar de Aquiles do país, no caso, o fornecimento de alimentos. 

Mas qual o objetivo internacional principal dessa política externa caótica? É difícil dizer. Minha aposta ainda é a do início do texto. Afrontar a falsa moral e os bons costumes internacionais, a ordem injusta estabelecida. Para tanto, o país buscaria afetar a balança de poder militar da Ásia e no mundo, tornando-se outro no seleto grupo de países com ampla capacidade nuclear e de mísseis balísticos. Agora se o país está perto ou não e se é apenas um cachorro que late demais e não morde é outro ponto complicado. Na dúvida, os EUA se preparam.


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Sai ou não sai?

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E o Primeiro-Ministro inglês lança mais uma polêmica sobre uma fragilizada União Europeia… em declaração proferida no dia de hoje, David Cameron apresentou uma sutil (?) ameaça relativa à saída do Reino Unido do bloco caso este não seja reformado e as relações com seu país renegociadas.

Com o anúncio da possibilidade de um futuro referendo para consulta popular sobre a manutenção do país no bloco europeu (com data indefinida, mas possivelmente entre 2015 e 2017), Cameron traz à tona o risco da saída inglesa da lista dos 27 Estados-parte da União. Segundo alguns, na verdade Cameron já está em ritmo de campanha para sua continuação no mandato de 2015 até 2019, visto que, segundo pesquisas, aproximadamente 40% da população preferiria o Reino Unido fora da UE.

A questão é saber se o Reino Unido precisa da União Europeia tanto quanto esta precisa do país. A representatividade inglesa – dado seu peso militar, político e econômico no cenário internacional – é inegável, mas até que ponto esta liderança seria mantida fora do grupo europeu?

Tudo bem que o Reino Unido já não faz parte do Espaço Schengen, mantendo sua própria moeda e uma certa independência da (atualmente não tão estável) “euro-zona”. Entretanto, em uma época em que o multilateralismo se mostra cada vez mais importante para a melhor consecução dos objetivos individuais, bem como para o fortalecimento do próprio sistema internacional, uma ameaça deste nível parece ser muito mais retórica que efetivamente prática, provocando polêmica para que a sua própria participação seja mais valorizada (e não o contrário).

Muitos interesses estão em jogo nesta questão, inclusive do próprio Cameron, então em meio à incerteza lançada hoje a única certeza talvez seja que as relações internacionais são (re)construídas constantemente com base em laços de confiança e jogos de poder, nas mais diferentes esferas… 


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Et tu, Brute?

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A imagem é fortíssima, e já diz tudo. Nesse fim de semana, numa conferência ao vivo, o líder de um partido turco da Bulgária (parece confuso, mas é isso mesmo) sofreu um atentado, e só escapou por que a arma travou. Sorte grande ou milagre para Ahmed Dogan, azar do pretenso atirador, que levou uma bela surra dos presentes e foi preso. 

Assassinatos políticos não são expediente novo – estão aí desde sempre, como atestou o pobre Júlio César a seu afilhado Brutus na versão imortalizada de Shakespeare (versão aliás bem mais interessante que a da vida real, em que morreu sem dizer nada esfaqueado por umas 20 pessoas). E só de pensar nos casos como o do Arquiduque Ferdinando, ou de John Kennedy (aliás, presidentes americanos tem essa tendência terrível de serem baleados) vemos que ainda está na moda, apesar de ser um estilo meio século XX ainda.

O interessante disso é que na maioria das vezes, o autor dos disparos (ou facadas, ou seja lá o que for) nem chega perto de cumprir seu objetivo, ou apenas piora a situação. John Wilkes Booth matou Lincoln por que era contra a libertação dos escravos (entre outras coisas). Deu tão certo que o Obama é presidente hoje. Gavrilo Princip estourou a I Guerra Mundial quando matou o Arquiduque Francisco Ferdinando em nome do nacionalismo sérvio, e apesar de não ser a única causa, acabou sendo um dos responsáveis por deixar seu povo em guerra por mais de 80 anos. E isso pra não dizer os inúmeros planos que não falharam, como a Operação Valquíria ou as folclóricas e desastradas tentativas da CIA de se livrar do Fidel Castro. Acho que a única exceção a essa regra até hoje foi a morte do Yitzhak Rabin, que realmente foi um sucesso total pro atirador (e a desgraça do processo de paz com os palestinos). 

Desse jeito, o assassinato acaba tendo muito mais uma função simbólica ou de amedrontamento (que mesmo assim pode não funcionar). No fim das contas, acaba se tornando apenas um crime comum, originado em problemas psiquiátricos ou perversidade mesmo. Parece ser o caso – a Bulgária é um país com grande população muçulmana e turca (uma espécie de “santuário” de tolerância numa Europa cada vez menos amistosa), então seria de se esperar que fosse um assassinato de protesto contra imigrantes ou coisa do tipo… até descobrir que o atirador é de etnia turca. Vai entender.


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