quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Conversando com a Teoria


Nas últimas semanas, falamos de Neorrealismo e muita teoria. Por mais que a ideia seja simplificar, é muito mais fácil de entender quando pensamos em um caso concreto, e o Neorrealismo não foge à regra. Um exemplo muito ilustrativo dessa teoria e que está bastante fresco na memória de todos é o caso da intervenção na Líbia.

Recapitulando, o regime de Muamar Kadafi/Ghadafi/Gandalfi começou a enfrentar protestos estimulados pelos levantes nos países da região. Como todo regime opressor, mandou tanques e aviões atacarem os protestos e logo aquilo tomou a forma de uma guerra civil prolongada. A ONU, atendendo aos apelos da comunidade internacional, autorizou uma intervenção com zona de exclusão aérea e possibilidade de ataques para proteger a população civil. Tudo muito bonito, e o resto é história - Kadafi caiu (e foi linchado na primeira oportunidade), o Conselho Nacional de Transição está tentando evitar que a Líbia e torne uma nova Iugoslávia (aliás, o provável destino da Síria) e a coisa vai de mal a pior por aqueles lados.

E o Neorrealismo com isso? É claro que o foco é na ação das potências ocidentais, que protagonizaram os ataques aéreos e deram uma mãozinha aos grupos de oposição na Líbia. Vamos pensar nas duas "condições" no Neorrealismo, a estrutura e a distribuição de capacidades. Para um analista dessa vertente, o caso da Líbia é bastante claro. Vejam que os principais interessados na remoção de Kadafi do poder eram os países europeus... que poucos meses antes eram seus aliados; mas por quê isso? O regime de Kadafi oferecia vantagens a suas empresas, especialmente de petróleo. Nesse sentido, havia uma distribuição clara de recursos de poder, estável. Porém, com os protestos e a reação de Kadafi, países como França e Inglaterra se viram na situação de rever a posição quanto ao regime líbio - não pegaria bem ficar a favor de um governo que massacra civis manifestantes, e seria proveitoso garantir desde já o acesso aos grupos de poder emergentes quando viesse a iminente queda de Kadafi. Nada mais pragmático. Por outro lado, Kadafi já desconfiava do apoio dos europeus e ameaçava suas empresas - mas sem cogitar qualquer reação contra empresas russas ou chinesas. Basta ver o resultado da votação da resolução do Conselho de Segurança que aprovou a intervenção: os países que se abstiveram foram os que não tinham nada a perder com a situação (ou até ganhavam), como China, Rússia, Brasil e Índia.

Havia uma estrutura, que limitava as ações (o sistema ONU), mas que não impediu que se aprovasse por meios legais (apesar da justificativa ser meio controversa...) a ação orquestrada pelos países interessados para que mantivessem sua distribuição de poder. Alterações nas condições do sistema levaram os países interessados a agir para se acomodarem em uma nova realidade. O resultado dessa intervenção, para França e amigos, foi a continuidade do acesso a recursos estratégicos e a manutenção de uma ordem de poder regional que lhes seja conveniente. Aliás, lembra muito a "criação de condições" do Neorrealismo ofensivo, não? Pois é, nada nesse mundo é mera coincidência...

Essa é uma análise muito superficial (que nem mexe nos temas mais espinhosos desse caso), mas que mostra como o Neorrealismo pode servir para entender fatos contemporâneos. Na próxima semana, vamos lidar com um caso que já analisamos e contrapor ao que já vimos com o Neo-liberalismo. Até lá!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Post do Leitor - Tiago Pedro Vales

[Pessoal, hoje apresentamos um post escrito por Tiago Pedro Vales, mestre pelo programa de pós-graduação em História da UNESP, acerca da crise na União Europeia. O texto se torna ainda mais interessante pelo fato de o autor atualmente residir em Lisboa e, portanto, está vivenciando a crise de perto. Lembrando que todos podem participar da Página Internacional, basta enviar textos para contato@paginainternacional.com.br

Crise...

A crise econômica do velho continente tem ocupado boa parte dos noticiários mundo afora. Mais do que isso, tem deixado muita gente preocupada. Os Estados tem se esforçado para encontrar uma solução mas, no entanto, é difícil atender a todos os interesses, principalmente quando se fala em um bloco de países como a União Europeia, que guarda dentro de si discrepâncias enormes quando se trata de desenvolvimento econômico. 

De um lado está a todo-poderosa Alemanha (PIB atual de US$ 3,3 tri), atualmente a quarta economia do mundo e, por outro, uma série de países que, mesmo somados, tem economias pouco expressivas, como Portugal (US$ 228 bi), Grécia (US$ 301 bi) e Romênia (US$ 161 bi) que dividem um mesmo banco central. Este tem o desafio de formular políticas monetárias que sejam viáveis desde a Finlândia ao Algarve. Tarefa bastante ingrata, é verdade, e que, segundo alguns, é a causa da crise. 

Não é só entre ricos e pobres que se dividem os interesses na União Europeia. Dentro do “alto clero” (Alemanha, França e Reino Unido) há interesses divergentes que por vezes impedem a aplicação de medidas que evitariam ou solucionariam crises como a atual. Ainda assim, a União Europeia serve de exemplo de integração regional e desenvolvimento econômico a todos os blocos que assim pretendem ser. 

Há muitas críticas acerca dos planos de recuperação em Portugal e Grécia, principalmente. Por conta das condições e reformas exigidas em troca de ajuda financeira, os países tiveram de cortar drasticamente seus investimentos em todas as áreas. Suspenderam direitos, cortaram salários, aumentaram impostos, despediram funcionários públicos, entre outras medidas que, ao menos por enquanto, não tiveram o resultado esperado. Em Portugal, nove meses depois dos acordos com a troika (Banco Central Europeu + Comissão Europeia + FMI) pariu-se uma taxa de desemprego que está chegando aos 20%, ou 35% entre os jovens (20 a 25 anos). A expectativa é que essa taxa aumente ao menos até meados de 2012. 

A crise europeia, no entanto, é diferente das crises do passado no Brasil e América Latina. Há tempos que os europeus, de forma geral, superaram alguns problemas sociais que ainda estão presentes no cotidiano brasileiro. Pelo menos por enquanto, a crise ainda não corroeu a boa qualidade de vida que os Estados europeus conseguem oferecer aos seus cidadãos. Por enquanto não há índices inflacionários tão altos, ou seja, não há inflação como houve e há na América Latina (ou pelo menos o Banco Central Europeu não a quer, mesmo que for para resolver a crise), há desemprego, mas também há alternativas (mesmo que sejam a migração para países da União Europeia menos afetados pela crise ou ainda em direção a países emergentes). De fato, o primeiro-ministro português, Passos Coelho, encorajou seus cidadãos a migrarem. Há portugueses pedindo emprego em call centers brasileiros. O consumo de bens não duráveis tem caído, um efeito colateral esperado, já que se tem, ao menos em Portugal, aumentado os impostos e cortados os salários. Mesmo assim, não há um mal social generalizado e sim dificuldades. 

Não se pode, no entanto, minimizar alguns casos extremos. Por exemplo, portugueses estão “rifando” a própria casa para poder sobreviver. Espanhóis estão migrando ilegalmente às suas antigas colônias em busca de oportunidades. Mais chocante ainda, casais gregos estão doando os próprios filhos porque não têm como sustentá-los. Mas isso, por enquanto, são casos extremos. Façamos votos que não se torne a regra.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Falsas esperanças



Enquanto isso, nas arábias, um vento de esperança sopra quando se noticiam novas constituições para países afetados pela onda de protestos de 2011...ou será que não?

No Iêmen, essa esperança veio a reboque da notícia oficial da saída de cena do presidente Abdullah Saleh. Pra quem não lembra, o Iêmen foi um dos países árabes onde ocorreram alguns dos protestos mais inflamados (e repressão das mais duras) durante 2011. Saleh foi um caso bem atípico - não largava o osso, mas ao mesmo tempo dava alguma margem de manobra para a oposição, dizendo que se o povo queria mudanças, que o fizesse pelas urnas. Com 30 anos de experiência no poder, ele sabe o que faz, e sai do poder de forma pacífica, terminando seu mandato, e deixando o abacaxi para Abdo Rabbo Mansour Hadi, seu vice, que deve dar um jeito de convocar eleições gerais e mudar a Constituição nos próximos dois anos, segundo um plano de transição do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Escapando ileso (e deixando um dos seus no poder), ponto pra Saleh.

E acabam aqui as boas (mal e mal) notícias. Na Síria, a situação piora, com dezenas de mortes por dia. A semana passada foi agitada, com mortes de repórteres estrangeiros e um arremedo de referendo constitucional que aconteceu no fim de semana. É uma proposta de nova Constituição pra inglês ver, o tipo de jogada política que tem a intenção de mostrar boa-vontade mas deixa os opositores estupefatos (já que o presidente Assad não respeita muito a que já está em vigor...) nem impressiona os países ocidentais. O que importa, no fim das contas, é a possibilidade da impunidade, já que China e Rússia ainda blindam a Síria, e pelo jeito por muito tempo. Putin é o franco favorito para as eleições de março e muito provavelmente vai endossar o discurso de censura às críticas dos países ocidentais quando voltar ao poder.

O discurso diplomático oculta aquilo que todo mundo já sabe, o interesse econômico e de exportação, especialmente de armas. Oras, se até a Turquia, um país que engrossa o coro dos que criticam Assad e oficialmente embarga o envio de armas pra Síria, deixa escapar um ou outro carregamento em nome de relações comerciais, quanto mais a Rússia, maior provedor de armamento do regime de Damasco. O duro é ver o argumento de Putin - em vez de ir por um lado mais elegante, como a defesa da autodeterminação e da não-interferência (linha que foi seguida pelo Brasil, por exemplo), o foco é em como a Rússia perdeu mercado na região com os protestos, dando a entender que interesses ocultos de mercado financiam os rebeldes. Eu não duvido de nada. Mas esse tipo de retórica não faz nada mais que incentivar a repressão (já que não vai dar em nada a pressão "de fora"...) que já contabiliza mais de 7200 mortes. Pontos pra Assad. Muitos.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Há um ano...

E cá estamos, um ano depois, relembrando os textos e assuntos que foram postados no blog e que eram pauta na mídia nacional e internacional. Seguimos com nosso exercício de memórias! Há um ano, a “Primavera Árabe” ocupava as manchetes e era tema recorrente no blog. 

Tanto a Bianca quanto o Luiz Felipe postaram textos que abordavam a mesma questão, mas de maneiras muito distintas. Primeiramente, no dia 23, no texto “Pão e Circo”, questionou-se a forma que alguns dos ditadores e monarcas tentavam driblar as demandas da população oferecendo garantias que notadamente trariam benefícios sociais, mas cujos conteúdos não se relacionavam com aquilo o povo buscava. Arábia Saudita e Bahrein, eram claros exemplos nos quais oferecia-se algumas benesses aqui enquanto reprimia-se e massacrava-se acolá. 

Já o Luiz Felipe nos apresentou um texto que embora abordasse também a "Primavera Árabe", tinha um foco bem diferente (confira aqui). Se, até aquele momento, o bafafá todo no Oriente Médio tinha algum vencedor, esse, com certeza, estaria na América Latina. Ou melhor, seria uma figura muito bem conhecida por nós cuja imagem é facilmente ligada a complicações e discursos inflamados: Hugo Chávez. Bom, o post nos mostra como as revoltas árabes estavam causando que os preços do petróleo alavancassem e, a Venezuela, por ser a grande produtora de petróleo que é, buscava aproveitar-se dessa maré de sorte. Apesar de o país encontrar-se em períodos de elevada inflação, crises energéticas e recessão econômica, a alta do petróleo aparecia como uma interessante margem de manobra que poderia ser aproveitada para driblar o discurso dos opositores. 

Outro texto digno de nota, postado durante essa semana, foi escrito pelo Giovanni (clique aqui para conferir). Abordar a temática do desenvolvimento nacional é algo sempre muito atual e que, mesmo um ano depois, traz interessantes questionamentos. Ele nos coloca reflexões sobre em que vias o Brasil tem andado quando o assunto é desenvolvimento e para onde esse caminho poderá nos levar, opondo os ganhos e previsões positivas no campo econômico aos índices nada instigantes do lado social. 

Um ano depois vemos como há temáticas que permanecem muito atuais enquanto outras, como a Primavera Árabe, tem, supostamente, perdido o seu encanto de novidade e o seu brilho de outrora. Todavia, também vemos que as lutas e mudanças são um processo bem mais lento do que se imagina e com consequências para partes que seria difícil vislumbrar. 

É isso aí, pessoal, postando e relembrando! 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O clube dos sem candidatos


A corrida eleitoral norte-americana segue indefinida, talvez mais do que nunca. Pelo lado republicano, tivemos alguns favoritos, outras ascensões meteóricas (quase sempre acompanhadas de uma decadência tão ou mais rápida) e, mais recentemente, um quadro descrito pelo governador do estado de Vermont, Peter Shumlin, como deprimente. De fato, surgiu nesta semana uma perspectiva ainda mais sombria. As primárias do partido podem chegar ao fim com um vencedor, mas sem candidato à presidência do país.

Quem assiste a um (dos inúmeros) debates entre os republicanos, no mínimo, se diverte. Entre as discussões propostas estão temas importantes como saúde, economia e política externa. Contudo, as abordagens que predominam são prioritariamente pouco construtivas. No último encontro, Santorum insistiu que o Obama Care foi baseado em um plano de gestão da saúde pública criado e implementado por Romney em Massachusetts. Por seu lado, Romney destacava os votos do então senador Santorum, que para ele contradiziam seus ideários conservadores ao apoiar alguns projetos de democratas.

Não, o concordar em discordar não virou o lema destas primárias. Eles fazem questão em concordar no óbvio, como na questão do controle das fronteiras dos Estados Unidos com o México. Em outros momentos se juntam para criticar o Obama Care e prometem revogá-lo logo no primeiro dia de governo. Nos demais tópicos, um vira lobo do outro. Ao destacar o pior dos outros, um candidato pensa que destacará seu melhor. Esta tática funciona em parte, a julgar pelo sobe e desce das pesquisas. No entanto, tomando os efeitos cumulativos de tanta exposição negativa, fica clara uma tendência: o enfraquecimento da candidatura republicana nas eleições gerais.

Talvez o elemento mais trágico do atual contexto é a possibilidade do vencedor das primárias, historicamente garantido como candidato do partido contra os democratas, sair tão fragilizado da disputa que não tenha legitimidade suficiente para representar os que o elegeram. Outros rumores dão conta da pressão sobre outras eminentes figuras republicanas para que entrem na disputa, ainda que tardiamente. Antes tarde do que nunca. Ao passo que vamos, nem Romney conseguirá angariar apoio suficiente para enfrentar Obama. Contando com o histórico recente, nada está descartado, nem mesmo uma mudança radical do quadro e a consolidação de um candidato inconteste para o partido, apesar de tudo.

Neste contexto, destaca-se ainda o deserto eleitoral americano, no qual “a pequena fração de americanos que está tentando escolher o candidato republicano é velha, branca, uniformemente cristã e não representativa do país em geral”. Ou seja, os pré-candidatos estão projetando uma imagem baseada somente em uma porção pequena do eleitorado total. Mais do que isso, estão destruindo as campanhas uns dos outros por este pequeno grupo que não dá conta de congregar o “clube” inteiro. No mesmo país, de acordo com Paul Krugman: “... as regiões nas quais os programas do governo representam a maior parcela dos rendimentos pessoais são precisamente aquelas que estão elegendo esses severos conservadores...”.

Vai entender. O único feliz, ao menos com grande parte de tudo isso, é Obama. Afinal, cada dia mais sua campanha se fortalece enquanto os republicanos esquadrinham os detalhes mais sórdidos de seus candidatos e expõem suas mais diversas fraquezas.  

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Amigos da Síria

Segundo um pensamento atribuído a Aristóteles, "ter muitos amigos é não ter nenhum". No dia em que se reuniram na Tunísia os "Amigos da Síria" – grupo de países formado para discutir a situação do país e pedir a cessão da violência contra o povo – vale a reflexão acerca da aplicabilidade (ou não) dessa frase neste cenário particular.

Tal como já abordado em posts anteriores no blog (aqui e aqui), a situação de protestos populares na Síria tem se prolongado e atinge níveis alarmantes de violência e destruição, especialmente em meio à população civil. Hoje, a Cruz Vermelha foi (finalmente) autorizada a agir na cidade de Homs, a terceira maior do país, que sofre há aproximadamente 20 dias com brutais ofensivas do governo.

Ainda no dia de hoje, a conferência internacional "Amigos da Síria", organizada pela Liga Árabe, reuniu na cidade de Túnis os principais líderes mundiais em uma tentativa diplomática de proposição de medidas em apoio ao povo sírio, contra a repressão governamental.

De fato, esta iniciativa deve se restringir ao âmbito diplomático, com medidas de pressão e propostas paliativas de ajuda humanitária, especialmente porque entre a lista de "amigos do povo sírio", certamente não se encontram Rússia e China – importantes atores no jogo internacional. O caso é que, pautados em interesses nacionais, estes dois países têm deixado claro seu apoio ao governo sírio, vetando as resoluções do Conselho de Segurança relativas à renúncia de Bashar-al-Assad (veja post a respeito aqui).

A "amizade" (talvez não em sua mais pura versão, por assim dizer) constitui um elemento estratégico nas relações internacionais. Boas relações bi e multilaterais significam certamente bons frutos políticos e econômicos, em diversas perspectivas. No caso do apoio à causa popular síria, contudo, as relações amistosas em questão extrapolam a esfera puramente interestatal, envolvendo um embate direto entre os interesses – e os aliados – do governo e do povo, diante ainda de uma urgência humanitária em grandes proporções.

Isto posto, talvez a citação aristotélica (?) possa/deva ser adaptada na análise deste caso. Para o povo sírio, ter muitos amigos (mais de 70 países participaram da conferência de hoje!) não significa necessariamente não ter nenhum, já que a pressão internacional é valiosa para promover mudanças estruturais. Entretanto, ter muitos amigos dentre os quais não se encontram todas as potências detentoras do veto onusiano pode, sim, gerar inconvenientes e dificultar o sucesso de qualquer operação...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Lula é pop e samba!


Acabou o carnaval 2012 no Brasil, mas a figura de “bom garoto” do ex-presidente parece estar longe de chegar ao fim. Quando ainda estava em seu mandato, era fácil ler notícias do Lula nas páginas sobre política, economia e, evidentemente, assuntos internacionais que envolviam a política externa brasileira. Entretanto, desde que a presidente Dilma assumiu o posto, tornou-se mais habitual ver o rosto do petista nas seções de personalidades e famosos.

Como é do conhecimento da grande maioria, Lula foi o tema principal do enredo da escola de samba “Gaviões da Fiel”, intitulado Verás que o filho fiel não foge à luta – Lula o retrato de uma nação. Por motivos de saúde envolvendo seu tratamento contra o câncer, ele não marcou presença, mas a ex-primeira-dama, Marisa, o representou no penúltimo desfile em São Paulo.

Pois bem, e o que isso nos revela? Logo que vi toda movimentação da imprensa, seja na televisão, na internet e até mesmo no rádio, me lembrei de como a figura pessoal do Lula ajudou bastante na imagem de seu governo. É evidente que este é apenas um aspecto de um conjunto de fatores que influenciaram seu cargo presidencial, mas é o intuito de análise neste post.

Lula é, em partes, o retrato do que Max Weber, considerado um dos fundadores da Sociologia, denomina poder ou dominação carismática, na qual “a autoridade é suportada graças a uma devoção afetiva por parte dos dominados”. Esta caracterização abarca desde heróis, líderes autoritários e profetas até demagogos e políticos, sendo que o ex-presidente se situa neste último patamar. Diferentemente das outras tipologias de dominação (veja aqui), a carismática age sobre princípios pessoais e se baseia no carisma e na virtude do líder.

Houve e ainda há, com Lula, a ideia de uma devoção afetiva e de uma oratória ímpar. Basta voltarmos no tempo e recapitularmos o que Getúlio Vargas representou para a população da época, era “o pai dos pobres e a mãe dos ricos”. O debate se estenderia com os emblemáticos John Kennedy e Mahatma Gandhi, por exemplo, que se enquadram nesta perspectiva. No caso brasileiro, a personificação realizada no desfile da “Gaviões da Fiel” na última semana, no qual a bateria representou Lula enquanto operário, é o retrato da admiração e da identidade nacional.

Ainda mereceriam apreciação a relação cultural do Brasil com o carnaval e o próprio futebol...mas o que ficou bem claro foi a recuperação da importância social que Lula possui. Existem rumores recentes colocando-o como o ideal presidente do Banco Mundial em virtude de sua gestão competente, do prestígio alcançado com países ricos e, com certeza, do seu carisma mencionado anteriormente.

Será que Lula volta agora ou só nas próximas eleições? Talvez seja cedo para afirmar alguma coisa, mas ele ainda estampará muitas capas de revistas e artigos de jornais.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Festa histórica

Não, o título do post não se refere ao Carnaval brasileiro e a toda a magia e simbolismo que o envolvem (provocando, por vezes, reações lastimáveis em meio à alegria das festividades). A festa histórica em questão é a festa dos eleitores líbios que finalmente – após 40 anos – se veem diante da possibilidade de escolherem seus representantes municipais.

Em Misrata, cidade-símbolo da resistência anti-Kadhafi, o dia foi de feriado nacional, sendo que elevado contingente da população participou do processo eleitoral. Em junho, o novo Parlamento da Líbia será escolhido e, pouco a pouco, espera-se que o país alcance sua estabilidade política. Um ano depois das revoluções que alteraram completamente o cenário geopolítico do Oriente Médio, a Líbia espera consolidar seu novo sistema político com a (antes impensável) participação popular.

De fato, eleições bem planejadas e, consequentemente, bem-sucedidas, promovem o fortalecimento das instituições democráticas; assim como o (sempre almejado) desenvolvimento de um país. Em termos de transformação do conflito e reconstrução social, a estabilidade de um sistema político baseado na legítima escolha da população representa um fator essencial à análise.

Garantir a boa realização destas eleições municipais e, principalmente, assegurar as condições para as eleições de junho serão interessantes indicadores para avaliar as características de uma Líbia pós-Revolução e sem Kadhafi. Apenas o tempo poderá dizer se a festa dos eleitores líbios de hoje pode, efetivamente, entrar para a História como um marco no desenvolvimento da democracia no país.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

É ritmo de festaaa...


Post rápido de feriadão. Nessa segunda-feira de carnaval, parece que apenas no Brasil se tem o que comemorar. A economia vai relativamente bem e o governo é reconhecido internacionalmente pela “limpeza” que vem promovendo nos ministérios (e pelo modo como está cada vez mais criando uma identidade própria, saindo da sombra dos governos Lula) e já há quem defenda a volta do Brasil pra ajudar a resolver o problema nuclear do Irã.

Já no mundo desenvolvido a coisa não anda tão bem. A coisa ficou feia no final do ano passado para boa parte dos países desenvolvidos, que tiveram retração no seu crescimento per capita. Vejam que não é uma situação tão ruim – há indícios de estabilização, e um crescimento pequeno ainda é um crescimento (aliás, isso é meio que uma norma pra países desenvolvidos, que já não têm muito onde crescer). Não chega a ser uma recessão (em que a economia encolhe, como deve acontecer na Itália, pra não falar da Grécia), e cada vez mais parece distante um quadro de depressão (quando a recessão sai do controle e mantém uma crise generalizada por muito tempo, estagnando a economia do mundo) que muitos analistas mais pessimistas previam.

Ainda assim, expectativas positivas não são garantias, e com os problemas específicos de cada país/região (como a crise deflacionária do Japão, o ciclo eleitoral dos EUA e o resgate à Grécia na UE), o sinal amarelo está aceso por aquelas bandas. Mas vamos deixar pra avaliar isso quando o carnaval desocupar as manchetes, certo?

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Estudar ou não estudar?

De bolha em bolha, a economia segue seu rumo. Passamos, por exemplo, pela bolha da internet e mais recentemente a do mercado imobiliário norte-americano. Estudar talvez seja uma premissa inquestionável, toda família preza pela educação de seus filhos como forma de garantir um futuro seguro. Contudo, será que alguns pagam em excesso por um título universitário? Ou pior, será que o investimento em uma universidade vale a pena?

O Brasil vive um cenário positivo, com uma economia em crescimento e a melhoria dos indicadores sociais. Nosso modelo para a educação superior, parte público e parte privado, também apresenta tendência similar. O número de cursos, universidades e fontes definanciamento aumentaram nos últimos anos, possibilitando que o sonho de muitas famílias fosse realizado. Em outros países, como os Estados Unidos e o Reino Unido, o ensino superior tem custo para o estudante. A diferença básica é quem paga a conta, algumas vezes é o governo e outras o próprio estudante.

Pensando o modelo norte-americano, Peter Thiel, um dos fundadores da PayPal, enxerga a educação superior como a próxima possível bolha a estourar nos Estados Unidos. Como em outros casos, trata-se de um investimento pensando para garantir maior segurança no futuro. Na medida em que nem todos conseguirão entrar em escolas de elite (as da chamada Ivy League), Thiel defende que um modelo baseado no empreendedorismo deveria predominar sobre o atual focado no ensino superior. Afinal, mesmo os formados em escola de elite, poderão se deparar com índices de desemprego preocupantes e podem terminar forçados a aceitar posições abaixo de suas reais capacidades. Empreendedores em potencial podem ser perdidos no processo.

Por outro lado, quais são as funções do mercado de trabalho que realmente requerem uma formação universitária? Na prática, muitos diplomas universitários não garantirão uma excelente oferta de trabalho logo após a formatura. Para os que pagam pelos estudos, a situação será ainda mais dramática, ficará uma frustração por não encontrar um posição a seu agrado somada à dívida adquirida na universidade. A necessidade de planejamento é evidente, como quando se compra um bem, as oportunidades existem, mas estarão limitadas. O diploma sozinho não garante um futuro seguro. Ainda que o ensino superior resulte em incremento de renda, não é em si um bilhete de ouro como muitos pensam.

E agora? Este foi o modelo que aprendemos a amar. Famílias investiram por anos na educação de seus filhos para nada? Em realidade, haverá a necessidade de adaptação das expectativas anteriores, não se trata de eliminar por completo o construído até agora. Mais que isso, deve-se ampliar a gama de oportunidades e o entendimento em relação ao mercado de trabalho, para que assim todos possam tomar decisões embasadas na realidade (não mais no sonho de um diploma). Cabe prioritariamente àqueles que investem na educação decidirem pautados em expectativas reais de seu retorno. No Brasil surfamos uma onda diferente, próxima talvez do pleno emprego, porém nos resta avaliar que futuro queremos para nossa educação superior, especialmente caso enfrentemos um cenário econômico menos favorável.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Mais uma vez, Malvinas.

A disputa pelas Malvinas já chegou até as barras de endereço dos sites de notícias ingleses...

As Malvinas são argentinas. As Malvinas não são argentinas. Essas são duas frases que temos ouvido muito nos últimos trinta anos. Normalmente, uma muito próxima da outra e proferidas por pólos opostos. Ainda hoje, essas ilhas são um tema importantíssimo na política do país. Pode-se dizer que, em certa medida, foram determinantes para o fim da ditadura militar. No início dos anos 70 já se desenvolvia um pequeno processo entre os políticos para uma transição para a democracia mais controlada pelos militares. Mas a guerra, a última tentativa do regime se segurar acabou mexendo muito com o moral da população e levando a quebra de todo apoio.

O regime militar acabou. A guerra das Malvinas também. A questão, todavia, perdura. Por quê? Será que de fato Cristina Kirchner e a trupe de sua diplomacia têm alguma esperança de que o governo britânico irá abdicar às ilhas? Se entendem isso ou não, é difícil dizer. Mas que acreditam na importância do tema para o país e para seus eleitores, não há dúvida alguma. É um daqueles temas, como educação no Brasil, que todo político tem a obrigação de tratar. E, por isso, nunca passa despercebido.

Próximo do aniversário de 30 anos da guerra, estamos vendo uma tensão diplomática entre a Grã-Bretanha e a Argentina. Observa-se um lado falando, o outro retrucando e, pela primeira vez, a ONU dizendo que vai mediar. Sim, isso mesmo. É a primeira vez que um governo argentino aceita a mediação das Nações Unidas para tentar atingir um acordo nesse tema. Essa tensão toda se intensificou quando Kirchner acusou a Grã-Bretanha de militarização da região, pois houve um exercício militar que chegou a envolver até mesmo o príncipe William. Depois, na Assembleia da ONU, a Argentina até mesmo acusou os ingleses de terem armas nucleares na região. Cameron e sua diplomacia negavam tudo e ainda complementavam que não há acordo sobre a soberania das Malvinas.

Todavia, o aceite de uma atuação da ONU na questão pode apontar para uma mudança de postura. Como já disse, é a primeira vez, em trinta anos, que isso ocorre. Por outro lado, é difícil vislumbrar no curto prazo uma resolução da disputa, já que ambos os lados colocam-se de maneira pouco flexível e, para os ingleses, não existe negociação. Da mesma forma, pode até ser que os argentinos estejam buscando alguém mais forte para legitimarem sua posição, nesse caso, a ONU. Além do que a atuação do órgão em tensões desse tipo nem sempre atingiu bons resultados na história, mas já é interessante o passar de “apontar os dedos” para uma possível negociação (note-se que, por enquanto, só dos argentinos). O mais interessante é notar a postura dos moradores da região das Malvinas, os kelpers. De origem inglesa, quase não há quem se identifique com a Argentina e, para eles, também não há o que negociar. Preocupam-se com os ganhos econômicos e agora temem um isolacionismo que possa vir do apoio do Mercosul à causa argentina (tema já tratado no blog anteriormente, confira aqui).

A raíz histórica da disputa das Malvinas já vem do século XIX. Há quem diga que os ingleses estiveram lá primeiro, há quem defenda que os argentinos estavam lá antes e há também os que dizem que a Inglaterra rompeu tratados internacionais para ocupar a região (clique aqui para ver essas posturas interessantes). Seja lá quem está correto de verdade, até que essa dita mediação da ONU ocorra, continuaremos a ouvir muito as frases “Malvinas são argentinas!” e “as Malvinas não são argentinas!”.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Alguém quer damascos?


Uma onda de protestos, mortes e insatisfação social tomou conta da Síria, país árabe situado na chamada “Ásia ocidental”, desde março de 2011 e, de lá pra cá, sua capital, Damasco, começou a retratar uma série de implicações características do atual cenário internacional. Se meses atrás o centro das atenções era a Grécia e/ou o Egito, sem dúvidas a Síria tomou seus postos nos noticiários.

De uma maneira ou de outra, vejamos quais são as implicações causadas por conflitos internos nas relações internacionais, utilizando, para tanto, o caso sírio. Este é bastante singular e central, pois coloca em questão diversos pontos que devem ser debatidos e indagados:

a) Oriente Médio: continua a se mostrar como uma das regiões, ou talvez a principal região, mais conflituosas do mundo. De um lado estão Irã, Síria, Rússia e China. De outro aparecem Israel e Estados Unidos. Nem preciso me estender no debate, é digno de contraste e oposição;

b) Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU): Rússia e China vetaram a resolução contrária ao presidente sírio, Bashar al-Assad, e colocaram mais dúvidas ainda sobre a política dos “cinco grandes” da organização. É claro que ambos os países seguiram suas linhas de política externa, mas a pergunta que voltou com total força foi: “Já passou da hora de haver uma mudança nos membros permanentes e no modo de resolução de litígios do CSNU, não?”;

c) Liga Árabe: antes da Primavera pouco se falava nesta organização. Ela vem demonstrando o quão importante é a atuação de vários países por meio de um órgão único que leva ao debate os ideais envolvidos. A liga mostra-se contrária ao governo sírio e vem dialogando constantemente com as Nações Unidas;

d) Democracia: a Síria simboliza, do mesmo modo que o Egito, a força dos movimentos favoráveis à democracia, mas também evidencia a complexidade de se chegar, de fato, a um “governo do povo”. Parece que ainda existirá um longo caminho para isso, porque este regime representa muito mais do que reivindicações sociais;

e) Sanções: não se sabe ao certo se os bloqueios comerciais e a suspensão de exportações colocarão fim à problemática interna do país. Tais ações são mais recorrentes por parte dos Estados Unidos, o qual, em tempos passados, utilizou-as contra os iranianos, norte-coreanos e os próprios sírios. Mês passado, foi a vez da União Europeia aprovar sanções ao governo de Assad, mas, mesmo assim, Bruxelas, sede da Comissão e do Conselho europeus, aposta na via diplomática e no diálogo para pôr fim a esta questão.

Estas são apenas algumas constatações que podem ser pensadas em meio à repercussão causada, ultimamente, pela Primavera Árabe. É interessante observar, através deste viés, como uma desordem interna pode servir de base para se analisar inúmeras problemáticas internacionais. Com certeza alguém quer Túnis, Cairo, Trípoli e Damasco. A região interessa a todos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Elefantes na sala


Nos dizeres populares, quanto se quer falar que há um problema enorme pelo qual passamos despercebidos, diz-se que há elefantes na sala. Algo tão grande que não teria como não se reparar, mas por razões quaisquer que sejam, impede-se de vê-lo ou simplesmente o ignora. Pensando sobre isso que li um recente editorial para a Folha de S. Paulo no qual Clovis Rossi disse que a Grécia tem vivido sobre uma ditadura. O país estaria sob um governo central composto pelo FMI, pela União Europeia e pelo Banco Central Europeu que estaria limitando a escolha da população. A cada dia esses “ditadores” forçariam a Grécia a adotar mais medidas que envolviam cortes de gastos (como ocorreu na essa semana), já que não lhe apresentam nenhuma outra solução. Papandreou caiu e logo veio esse “governo central” para substituí-lo por um tecnocrata de sua escolha, Lucas Papademos, sem que houvesse sequer eleições diretas.  

Será que de fato a Grécia estaria vivendo sob essa ditadura? Bom, ditadura é sempre um termo muito forte para se usar. Mas, por outro lado, é um termo interessante, pois revela a indignação e busca chocar. Talvez, o que a Grécia, ou melhor, a União Europeia, tenha vivido é com elefantes na sala. Elefantes tão grandes que somente pela “doutrina absoluta do mercado”, da austeridade, do corte de gastos é que os países poderiam passar despercebidos. Basta lembrar as opções quase nulas que os organismos internacionais forneceram para o Brasil na década de 1980 e 1990 e para os países latino-americanos em suas inflações desenfreadas no mesmo período. 

Há muito louvamos a União Europeia como o maior exemplo da integração regional, aquele que atingiu o último estágio, o do Mercado Comum com moeda única. Todavia, é difícil ver em que medida os países do bloco estão dispostos a agir coletivamente e aceitar os custos das crises pelas quais o bloco passa. Paul Krugman mostrou que de fato a Grécia passou por uma gastança pública sem limites. Com os demais “porcalhões”, nossos PIIGS (Portugal, Espanha, Irlanda e Itália), houve uma gastança aliada a problemas estruturais grandes (clique aqui para conferir). Há também os efeitos da crise financeira mundial (clique aqui para um artigo interessante sobre o assunto) que tem ainda complicado mais o conjunto europeu, sem que haja uma ação conjunta de fato. Os elefantes na sala seriam os problemas que emergiriam da falta de ação conjunta do bloco. 

A Alemanha, a maior economia europeia, é o maior exemplo desse posicionamento. Quer, como todos, utilizar-se da melhor forma possível dos benefícios que a união político-econômica proporciona, mas não parece disposta a aceitar os problemas conjuntos insistindo apenas no corte de gastos dos demais. É um bloco que não age sempre como bloco. Pode-se dizer que há entre os alemães uma espécie de nacionalismo econômico que tem levado a uma visão (tanto na mídia europeia quanto no plano político) sempre pela austeridade, culpando os “gastadores” pela crise e louvando a austeridade, quando há muitos outros problemas por trás. 

Há uma ditadura? Talvez não, pois de fato não restam opções agora para a Grécia. Há, contudo, uma lição. Se a Europa continuar a viver com seus elefantes na sala, ignorando a ação conjunta e limitando as perdas aos países que considera os focos de crise, o bloco poderá não se sustentar. Os elefantes vão começar a se mexer e aí a coisa pode complicar ainda mais...

[Para mais, clique aqui, aqui e aqui]

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Os homens da bomba


Atacar uma embaixada é uma das coisas mais baixas que se pode fazer quando pensamos em Direito Internacional. Afinal, imunidade diplomática é tradição que vem lá do início da formação do Estado moderno, em que os governantes precisavam começar a criar laços de confianças sem que seus emissários voltassem cheios de flechas nas costas (quando voltavam). Isso vale até hoje e não é definido por nenhuma regulamentação específica, mas um costume. Isso por mais estranho que seja - eu e mais dois colaboradores desse mesmo blog lembramos bem da vez em que um carro de placa azul passou a um palmo de nós atravessando uma avenida (e sem se preocupar muito com o resultado, pelo visto).

E eis que as embaixadas de Israel na Índia e na Geórgia foram alvo de bombas (apesar de só uma ter explodido). Como sempre acontece aquele déjà vu, pra variar o Irã está envolvido. Israel acusa o Irã de ter patrocinado os ataques. O Irã rebate... dizendo que foi Israel. Eu não duvido de nada - ainda sustento aquela minha teoria da conspiração de que Israel soltou presos do Hamas pra que voltassem a atacar e justificar uma ação mais dura. Ao mesmo tempo, o Irã já tem precedentes com aquele vandalismo na embaixada do Reino Unido. Mas seja quem for que ordenou isso escolheu uns capangas bem atrapalhados. A ação até pareceu coisa de filme de James Bond (com suspeitos grudando um "dispositivo magnético" com a bomba em um dos casos), mas o fato de uma bomba ter sido desarmada e de no outro terem visto claramente quem as colocou significa que os terroristas foram bastante descuidados... ou queriam ser vistos? Como nesse tipo de ataque o que pesa mais é a repercussão que o dano em si, acho que poder causar esse tipo de especulação já pode ser considerado um sucesso pra eles.

Aliás, esse negócio de atacar missão diplomática não está dando certo faz algum tempo - basta lembrar aquela história do ataque planejado ao embaixador saudita dos EUA em que tentaram contratar traficantes mexicanos pra executar o serviço e acabaram encontrando um agente do FBI disfarçado (e no fim das contas o caso caiu no esquecimento...). Ou aquela história meio mal-contada dos ataques a embaixadas na Síria (que assim como o caso das embaixadas de Israel, não se sabe ainda quem foi, seja vândalos ou forças do governo, que instigou isso). Mas parece que esses últimos anos deram início a uma tendência nada saudável na relação entre alguns países.

No fim das contas, os panos quentes entram em cena, e a intenção provavelmente é chantagear ou intimidar o outro lado. A não ser que seja uma matança muito escandalosa ou em escala suficiente pra causar uma guerra, quem está envolvido não vai correr o risco de perder um dos meios mais eficientes (e, muitas vezes, derradeiro) de negociar com os demais Estados, e o dano fica mesmo pra quem acaba vitimado por esses atentados. Nesse jogo, perde quem não tem nada a ver com isso.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Há um ano...

Há um ano, o assunto mais comentado no blog (e na mídia em geral) era a ascensão da "Primavera Árabe", especialmente na Tunísia e no Egito. O dia 11 de fevereiro se tornou um marco internacional com a queda de Mubarak, responsável por décadas de ditadura egípcia, e com o sucesso dos movimentos populares de contestação no país. Um ar de esperança dominava o ambiente internacional e amplas eram as expectativas de renovação.

Neste ano que se passou, contudo, a euforia tem cedido lugar à frustração dos cidadãos, na medida em que a queda de Mubarak não proporcionou também a (esperada) queda dos dois pilares de seu regime: a forte repressão do Estado e o sistema econômico injusto, segundo uma professora de Ciências Políticas na Universidade Americana do Cairo. A data foi comemorada esse ano como um "aniversário sem revolução", enquanto a forte corrupção e os conflitos políticos assolam o país em meio à (já não tão eufórica) esperança popular por mudanças.

Um ano atrás, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) também lançava seu conhecido relatório Food Outlook, no qual uma grave crise alimentar era anunciada para 2011. De fato, as (tristes) expectativas se cumpriram e o último ano foi marcado por uma situação alarmante no Chifre da África, especialmente na Somália. Devido às secas prolongadas, a crise de fome tem afetado mais de 11 milhões de pessoas nessa região, desafiando as iniciativas das Organizações Internacionais e Não-Governamentais. No início deste mês, foi anunciado pela ONU o fim do "estado de fome" na Somália, mas um terço da população ainda necessita de ajuda urgente e contínua da comunidade internacional.

Enquanto em 2011 nesta época comentávamos ainda sobre as expectativas em relação ao encontro diplomático de Dilma Rousseff com Barack Obama e o reforço das relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos, há poucos dias comentamos aqui no blog sobre outra viagem diplomática da presidente. Neste ano de 2012, a presidente foi a Cuba, demonstrando a diversificação diplomática do governo e o reforço para a construção de uma agenda cada vez mais multilateral. Novo ano, novas perspectivas?

Por fim, um último importante fato comparativo entre 2011 e 2012 merece atenção: o Conselho de Segurança da ONU e seu polêmico e persistente sistema de veto. Há um ano, os Estados Unidos assumiram seu apoio a Israel e vetaram – contra o posicionamento geral – o projeto de resolução que condenava a política israelense de construção de assentamentos nos territórios palestinos ocupados. Neste ano, mais uma vez o veto foi utilizado em situação polêmica – e também contra o posicionamento geral, especialmente estadunidense – só que desta vez por China e Rússia. Aliadas da Síria, estas potências demonstraram-se, por sua vez, contrárias à resolução que indicava a necessidade de renúncia de Bashar al-Assad.

Ambos os vetos foram justificados como "ingerência nos afazeres internos", mas ambas as situações demonstram claramente que este argumento só é acionado quando se encontra em consonância com os interesses envolvidos. Situação previsível, apesar de demonstrar uma das mais claras fraquezas de nosso sistema internacional contemporâneo. Passa ano, entra ano e, afinal, existem coisas que parecem não mudar nunca...

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Congelando

Enquanto o Brasil vive o auge do verão, com sol e calor às vésperas do Carnaval, no Velho Continente a situação é absolutamente contrária. Um dos mais rigorosos invernos dos últimos tempos é vivido na Europa este ano e as consequências práticas deste fato alcançam níveis alarmantes.

"Morrer de frio" deixou de ser uma expressão retórica para se tornar uma preocupante realidade neste inverno europeu. Mais de 600 mortes (!) já foram registradas em toda a Europa (especialmente na Ucrânia) devido às nevascas desde meados de janeiro. E este número continua aumentando exponencialmente a cada dia, já que é enorme a quantidade de pessoas em situação vulnerável – notadamente os moradores de rua – e as medidas sociais de urgência para protegê-las avança em ritmo mais lento que a queda de temperatura...

Além do grande desafio social, ainda existem consequências econômicas importantes advindas do frio extremo: vias marítimas, rodoviárias e ferroviárias se tornam intransitáveis; safras agrícolas apodrecem antes de chegarem a seus destinos; cidades e até mesmo países (caso da Sérvia) são isolados, etc. [Na foto, vê-se uma pessoa passeando com seus cachorros sobre o Rio Danúbio, um dos mais importantes canais europeus – totalmente congelado!] Muitas vezes, estas consequências ultrapassam o nível local e alcançam os âmbitos nacional e internacional, influenciando o comportamento dos demais atores devido a características naturais imprevisíveis e/ou incontornáveis.

Diante desta situação de "estado de emergência" decretada em vários países, estudos concluem que a intensidade deste inverno está diretamente relacionada à evolução do aquecimento global. Compreender em que medida a diminuição do gelo no Ártico influencia o frio europeu parece ser um grande desafio para geólogos e especialistas nesta área. Compreender de que forma a comunidade internacional vai se preparar daqui pra frente para enfrentar esta situação e buscar alternativas à sua intensificação é tarefa para todos nós.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

As FARC, a Colômbia e um problema sem fim...

[Pessoal, este é o primeiro post oficial do nosso novo colaborador, Cairo Junqueira! Porém, por motivos técnicos, hoje postaremos em seu lugar. Confiram esse polêmico debate!]


Tensas relações, falta de diálogo e inquietação social são velhas preocupações vividas pelos colombianos em relação às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Embora a grande mídia não tenha divulgado muitas notícias recentes sobre estes fatos, o grupo continua agindo constantemente no território e coloca em questão a eficiência das políticas adotadas pelos últimos governos acerca da segurança nacional.

Num primeiro momento, é importante dizer que a Colômbia é, e sempre foi, um país de contrastes. Durante as últimas décadas, tem apresentado os maiores índices de violência da região sul-americana, mas detém forte estabilidade econômica e política, haja vista que é a quarta economia da América Latina, estando atrás somente do Brasil, da Argentina e do México, e possui dois grandes partidos políticos que dominam o cenário nacional: o Liberal e o Conservador.

As FARC surgiram na década de 1960, mais precisamente em 1964, período em que também nasceram outras organizações contrárias à Frente Nacional (FN), a qual representava a alternância de poder dos dois partidos mencionados acima. Além das FARC, o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o M-19 tinham como objetivo a oposição ao Estado colombiano. Posteriormente, a década de 1980 representou a mais convulsionada do país devido à irrupção do narcotráfico e, a partir de 1990, uma série de medidas governamentais tentou colocar fim ao chamado “caos social” colombiano.

Os presidentes César Gaviria (1990-1994) e Ernesto Pizano (1994-1998) apostaram na resolução pacífica com as guerrilhas, mas fracassaram. Consequentemente, começaram a surgir as organizações paramilitares, as quais são associações civis, armadas e sem vínculo com as forças militares nacionais. Com Andrés Pastrana (1998-2002), a experiência de desmilitarização também falhou e coube ao seu sucessor, Álvaro Uribe (2002-2010), a tentativa de minimizar os problemas do país.

Mesmo assim, no governo de Pastrana foi colocado em prática o Plano Colômbia, componente exclusivo para a luta contra o narcotráfico e os grupos armados. Baseando-se em inversão social, desenvolvimento alternativo e fortalecimento militar, o governo tinha como objetivo reduzir a produção de cocaína no país, mesmo que, para isso, precisasse fortemente do auxílio norte-americano. Para alguns especialistas, o plano fracassou na luta contra as drogas, contudo obteve sucesso no combate às forças contrainsurgentes.

Somente na década de 2000, com Uribe, entrou em cena a “segurança democrática”, uma politica central de governo para tentar recuperar o controle territorial, debilitar os grupos irregulares e assegurar o controle de liberdades à população. Sumariamente, caracterizou-se como uma medida para fortalecer e aumentar a presença do Estado em todo o território nacional.

Foi este o legado deixado ao atual presidente, Juan Manuel Santos, como tentativa de dar maior suporte ao tão mencionado, nas Relações Internacionais, monopólio legítimo da força do Estado. Os desafios de Santos para com a Colômbia são inúmeros: resolução do conflito armado, consolidação do Estado de Direito, estabelecimento de uma maior conexão entre o governo central e os governos regionais, reavaliação das medidas antidrogas etc.

O cerne da questão é que as demandas colombianas, no que tange à ação de forças “antigovernamentais”, com destaque para as FARC, estão sendo resolvidas de forma parcial. O problema sem fim que mencionei no título vai muito além de medidas estatais para combater grupos revolucionários e paramilitares. A “segurança democrática” leva em consideração, também, uma maior participação popular e um maior diálogo entre esta e o governo. É isso que falta na Colômbia, mas deixemos para um futuro (talvez) não muito distante.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Post especial - Boas-vindas!

"Sonho que se sonha só
É só um sonho que se sonha só
Mas sonho que se sonha junto é realidade"
[...]

Estes versos da canção "Prelúdio", de Raul Seixas, de certa forma traduzem o histórico da Página Internacional: um "sonho" que começou em 2009 pela iniciativa do Alcir Candido e que, de lá pra cá, tem se tornado cada vez mais "realidade" a partir de um constante e prazeroso trabalho em equipe.

Hoje, é com muita satisfação que neste post especial anunciamos a chegada do mais novo membro da Equipe Página Internacional! Nosso colega Cairo Junqueira, a partir dessa semana, se junta ao grupo para nos brindar com suas ótimas análises, que temos certeza que em muito enriquecerão o conteúdo do blog.

Assim como os demais membros, Cairo é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP) - Campus Franca, e neste ano de 2012 ingressa no curso de Mestrado também em Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB). Cairo tem se mostrado bastante prestativo e auxiliado o blog com entusiasmo, enviando postagens muito pertinentes como leitor. A partir de agora, semanalmente nos proporcionará a leitura de seus textos como colaborador.

Neste post especial, damos as boas-vindas ao Cairo, agradecendo por seu interesse e desejando sucesso nessa nova etapa. Aproveitamos para agradecer ainda a todos os leitores que nos prestigiam e enviam seus textos para colaborar com este espaço. Juntos, esperamos seguir transformando nosso sonho em realidade diariamente!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Um jogo sem tempo

Nos jogos de futebol nem tudo é decidido no primeiro tempo. Para que isso aconteça é preciso que se esteja muito bem no jogo e que o adversário não tenha tanta reação. De maneira semelhante parece estar funcionando o jogo da transição para a democracia no Egito. Para que se tivesse obtido sucesso logo nos primeiros movimentos, seria preciso uma vontade muito grande de todos envolvidos (nisso também falo dos que tem cargos no governo). O que não ocorreu.

Ora, essa comparação com futebol poderia parecer banal para qualquer outro caso, mas, considerando que para o povo egípcio, esse esporte parece estar junto deles na “primavera egípcia”, é válido. Na tarde de 01 de fevereiro, o jogo entre dois times locais teve quatro gols, quase 74 mortos, 1000 feridos e foi marcado pelos dribles da polícia, que evitou ao máximo intervir nos momentos da tensão. Esse triste evento foi também alvo de suspeitas. A inação da polícia não pode ter sido orientada pelo governo para mostrar que tudo andava muito instável?

Qualquer que seja a resposta que o povo encontrou, para um país que já se encontra em situação de incerteza sobre o futuro da democracia, a mínima dúvida sobre a integridade de um governo de transição já é capaz de alavancar mais protestos. E de fato ocorreu. O jogo foi um marco. Um triste marco para a história do esporte egípcio, mas, um marco que garantiu novo fôlego para os protestos da população, encontrando nas torcidas organizadas, o mais novo aliado.

Mas em qual tempo o jogo da democracia egípcia se encontra? Teríamos um empate ou a população já estaria perdendo depois dos lances de perigo que as respostas violentas da Junta Militar representaram? Bom, o cronograma adotado, diga-se de passagem, arbitrariamente, pelo governo está sendo seguido. O processo eleitoral do legislativo já vem sendo conduzido desde dezembro do passado e vai até o final de fevereiro. O registro dos candidatos para presidente também está marcado para o início de março e as eleições somente para junho.

Todavia, não é esse o cronograma que a população quer. Mesmo porque, em 11 de fevereiro, fará exatamente um ano que Mubarak deixou o poder. E para essa data, a festividade marcada foi uma greve geral pelas eleições presidenciais. A promessa do governo é responder a esses eventos à altura, mantendo a fórmula anterior. E, ainda, há alguns casos, como o julgamento judicial de 43 ONGs no país pró-democracia no país, dentre elas 19 estadunidenses, (justificando-se que estão sendo beneficiadas por governos e organizações estrangeiras para realizar atividades ilegais, para mais sobre as ONGs, clique aqui e aqui), que levantam mais suspeitas de que o governo está querendo passar uma imagem de instabilidade para segurar-se no poder.

Não se pode dizer em que altura do jogo da democracia o Egito está. Em alguns momentos a população tem aquele gostinho de gol marcado. Logo depois já sentem o dissabor de um gol do adversário ao final do segundo tempo. A população tem jogado como se estivesse com pressa, na prorrogação. Já o governo, parece querer segurar o resultado, após um gol no início do jogo. Nesse jogo sem tempo, com cada time com uma percepção diferente do relógio, quem sai perdendo é o Egito todo.

[É bacana lembrar o complexo e longo processo eleitoral do Egito, no qual cada votação é dividida por região em um sistema de eleições misto e complexo. Clique aqui para um interessante quadro explicativo sobre ele.]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Conversando com a Teoria

Damos continuidade à nossa conversa com a teoria falando “dos” Neorrealismos... Mas como assim? Afinal, quando falamos de Neorrealismo logo se pensa em Waltz – e foi dele que tratamos até agora; nada mais justo, considerando que foi o primeiro a articular essas ideias. Porém, vida de estudante de Relações Internacionais não é fácil, e mesmo um ramo de pensamento relativamente coeso como esse tem montes de subdivisões.

Bom, pra se ter uma ideia, para ficarmos apenas na divisão “histórica”, temos a divisão entre Neorrealismo e Realismo Neoclássico: enquanto o primeiro busca apenas determinar conseqüências da atuação dos Estados no sistema, o segundo entra no aspecto do comportamento e razões dos mesmos (assim como no Realismo “original”). Ou seja, grosso modo é mais ou menos como um conflito entre conseqüências e motivações, com as teorias analisando os mesmos fenômenos mas com objetivos diferentes.

Por outro lado, temos a divisão, essa mais conhecida, entre os Realismos Ofensivo e Defensivo. E vejam só: essas divisões (para ficar apenas nas mais conhecidas e simplificar), não se anulam, e sim se sobrepõem, formando na verdade um quadro analítico bastante complexo.

Robert Jervis

O Defensivo é o tradicional, que tem origem em Waltz (e sua tradição do balanço do poderes) e Robert Jervis, com suas teorizações acerca do dilema de segurança (brevemente, quando um Estado busca sua segurança gera insegurança para os demais Estados). O nome diz tudo – a sobrevivência do Estado vem da capacidade de lidar com a divisão de poder na estrutura internacional e se impor.

Entre os Defensivos se destaca Stephen Walt, um Neoclássico, que defende a teoria do Balanço de Ameaças, separando os termos “poder” e “ameaça” como elementos distintos na condução da política internacional: apenas quando uma soma de fatores de certo Estado como força bruta, proximidade geográfica, capacidades e intenções se mostrar como uma ameaça, é que outro Estado vai tentar crescer pra balancear aquele que ameaça.

Já a vertente ofensiva, apesar de ter ficado famosa com John Mearsheimer, tem origem na teoria hegemônica vista em Robert Gilpin (aquele da economia), em que a estabilidade viria de um Estado hegemônico no sistema. Assim como o ramo defensivo adota as idéias de Waltz, o ofensivo parte da hegemonia de Gilpin, mas indo pelo lado de que não basta para o Estado se adaptar à divisão de poder da estrutura, mas sim “criar” condições ideais.

John Mearsheimer

O mais famoso dessa leva, Mearsheimer, por exemplo, seria um Neorrealista Ofensivo – sua teorização da política de grandes potências evoca uma posição de destaque para os EUA, mesmo que apenas como um hegemon regional. Mas não se enganem com o título! Ser ofensivo não significa necessariamente ser favorável à guerra. Mearsheimer é um dos grandes críticos da condução da guerra no Afeganistão e do modo como Israel lida com os Palestinos; ao mesmo tempo, considera um erro a aproximação econômica com a China (que seria estar municiando um futuro inimigo). No caso, ser “ofensivo” seria apenas se tornar “menos amistoso”...

Muito confuso? Não é tão ruim quanto parece – o Neoliberalismo consegue ser ainda pior quando falamos em ramificações. É claro que essa análise varia de autor para autor – há quem considere, por exemplo, Barry Buzan (um autor mais ligado à Escola Inglesa) e Samuel Huntington (aquele do “choque de civilizações”) autores neorrealistas. Rotulações à parte, o que importa é que para esses autores o Estado ainda é o ator principal, e a distribuição de poderes no sistema sempre leva à consideração, para o bem ou para o mal, do conflito.

Um artigo interessante sobre o tema (e com uns quadros bastante explicativos) pode ser visto aqui. Até a próxima!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A próxima vítima


Caiu mais um ministro. Mas não, não estamos falando do Brasil – a Página é “Internacional”, oras. Na tempestade europeia, é a vez do Primeiro-Minstro da Romênia dar adeus ao governo e se juntar a um seleto grupo de governantes que foi devidamente defenestrado por causa da crise.

O nome da vez é Emil Boc, conservador, que renunciou, além das acusações de autoritarismo junto com o presidente Traian Basescu, pela rejeição popular a medidas de austeridade econômica. O roteiro é bem parecido com o de muitos outros países europeus: na Irlanda, Reino Unido, Portugal, Espanha, Holanda e Dinamarca, foi por meio do voto, enquanto na Itália e na Grécia a coisa foi mais dramática, com renúncia dos líderes pra evitar o pior. Em todos os casos, “crise econômica” era o denominador comum. E persistindo a crise, outros mais podem cair.

Seria interessante fazer esse exercício de previsão. Quem seria o próximo? Começando por Alemanha e França, os mais pujantes, a chance é muito maior para o segundo país. A Alemanha continua firme e forte enquanto a França tem um governo desgastado e que carrega o peso de decisões ruins e escândalos de monsieur Sarkozy – não cai, mas tampouco será reeleito.

Mais para o leste, os países parecem, nesse momento, estar com preocupações mais urgentes, como a onda de frio que já matou mais de 300 pessoas. Isso não impede, por exemplo, que na República Checa haja uma controvérsia que rachou o governo – o país não faz parte da zona do Euro, mas precisa acatar medidas de austeridade para, em alguma hora, aderir à moeda comum. Não é uma queda iminente, mas a luz amarela está acesa.

E nem mesmo nos países onde a coisa parecia resolvida (em termos de queda de governo, claro...) as coisas vão bem. Na Grécia, o governo que entrou há três meses já estoura prazos de negociação e pode cair por causa desse impasse na redução de gastos. Se der errado, (já se fala em algo mais drástico como uma moratória), vai levar meia Europa junto. Mesmo na Islândia, que já mencionei aqui como um caso exemplar de como lidar com a crise, o presidente vai renunciar depois de 16 anos por conta de um impasse na negociação de dívida com bancos holandeses e britânicos.

A grande ironia de tudo isso é que a salvação deve vir de fora. A China tem muito interesse em uma Europa estável, como seu principal mercado de exportação. A Alemanha já fez sua parte, cortejando Beijing para aumentar sua parcela de ajuda nos fundos de resgate europeus, e parece que nas negociações multilaterais a China é a única que deve ter força (leia-se, grana) suficiente para evitar essa matança em série de gabinetes.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Licença para matar com impunidade?

"Licença para matar com impunidade" foi como o Conselho Nacional Sírio (representante dos grupos de oposição) caracterizou o veto de China e Rússia ontem contra a proposta do Conselho de Segurança das Nações Unidas em relação à crise Síria. A resolução se baseava no apoio ao plano de paz da Liga Árabe, indicando a necessidade de renúncia de Bashar al-Assad, atual presidente sírio.

A China e, especialmente, a Rússia possuem fortes laços geopolíticos e econômicos com o governo da Síria, e já haviam declarado publicamente a recusa contra qualquer resolução que visasse uma "mudança de regime". O bom e velho debate entre soberania e intervenção humanitária volta à tona na análise do caso sírio... [Veja recente post no blog a este respeito aqui.]

Até que ponto conflitos com grandes perdas humanas podem ser aceitos pela comunidade internacional como "assuntos internos", sem que qualquer intervenção seja arquitetada? Mas até que ponto os interesses de uma intervenção deste tipo são estritamente humanitários? Por que existem crises que parecem ser simplesmente esquecidas pela comunidade internacional, na medida em que não se encontram relacionadas a nenhum interesse estratégico paralelo? [O clássico caso de Ruanda em 1994 ainda é o melhor exemplo desta última afirmação.]

A situação da Síria vem se tornando cada vez mais caótica desde meados de março do ano passado, quando as manifestações contra o governo começaram, inspiradas pelo sucesso da "Primavera Árabe" no Egito e na Tunísia. Em meio aos conflitos entre os grupos armados e as forças repressivas governamentais, milhares de civis foram (ou estão sendo) mortos, e centenas de milhares indiretamente afetados.


O histórico da crise que está prestes a completar um ano impressiona não apenas por seus números e características, mas também pela visível ineficácia dos mecanismos multilaterais existentes em resolver a questão. [Entenda os aspectos básicos da crise por meio deste texto.]

Com o veto deste sábado na ONU, o assunto continua sem perspectiva de resolução prática a curto prazo e alternativas de resposta da comunidade internacional devem ser repensadas, rediscutidas, reapresentadas... uma importante questão levantada em meio às discussões desta semana no Conselho de Segurança a respeito da Síria foi a seguinte: "Quantos civis inocentes ainda vão morrer antes que este país esteja pronto para seguir em frente?". Boa pergunta.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Falar ou não falar? Eis a questão...

Nos últimos dias foi realizada a primeira grande viagem internacional de Dilma em 2012. Desta vez, a presidente deu o ar da graça em Havana, a capital cubana. Como já tratado aqui no blog, esse encontro representou uma mostra da diversificação diplomática do governo e um reforço para agenda multilateral brasileira. Da mesma forma, possibilitou largos investimentos subsidiados em infra-estrutura no país e linhas de crédito brasileiras.

Todavia, não foi esse o tom da avaliação da mídia e dos dissidentes sobre a visita. Muitos dos jornais e revistas destacaram uma questão que sempre emerge quando o assunto é Cuba. E os direitos humanos? Nada diferente do que se imaginava ocorreu. Do que se sabe, a comitiva de Dilma não saiu da reunião com Raúl Castro mencionando publicamente as violações de direitos humanos ou mesmo tratando da morte de um dissidente cubano vinculada à sua greve de fome.

Mas e aí, falar ou não falar de direitos humanos no país? Eis a questão! Bom, sendo essa uma questão tão delicada e polêmica, sabe-se que o Itamaraty entende que esse não é o ponto principal de negociação desta vez. Talvez porque se tema que uma postura ideológica (aqui falo em termos de política externa, uma postura ideológica, de alinhamento por ideais, ou pragmática, de negociações com todos) nos remeta aos distantes tempos de Guerra Fria e impeça o procedimento de negociações que garantam capital político e, mais adiante, um status concreto de líder regional.

E se falássemos? Bom, ao que me parece, tudo depende de como poderia ser falado. No momento atual, de negociações bilionárias para a reconstrução do porto de Mariel, financiada pelo BNDES, talvez não fosse mesmo apropriada uma declaração pública no país. Todavia, um editorial da Folha de S. Paulo no último dia 28, indicou uma possibilidade interessante. Uma breve e singela menção antes de embarcar poderia não ser de todo ruim. O problema, como já disse, são os interesses e ambições da diplomacia brasileira. A ambição política de potência global com o apoio da América Latina e os interesses econômicos regionais podem estar atando as mãos do governo.

Apesar de toda essa discussão, já temos uma mudança. A concessão do visto de turista para a blogueira cubana Yoani Sánchez (o primeiro passo para que Cuba libere sua saída do país) já ocorreu. Essa já é a quinta vez que a blogueira pede visto brasileiro e, alguns poucos dias antes da viagem a Cuba, o Itamaraty concedeu a autorização.

Pode ser que haja mais coisas entre o céu e a diplomacia do que imaginam que sonha nossas vãs suposições ou a diplomacia brasileira está dando seu recado nas entrelinhas. Atualmente é difícil romperem-se posturas internacionais da noite para o dia dentro de um mesmo partido no poder. Já uma mudança gradual, parece ser bem possível. E a concessão do visto à cubana pode ser a indicação de que o Itamaraty não esteja ignorando os críticos do regime cubano, mas que apenas não está preparado para movimentos bruscos. Talvez essa seja “a breve declaração antes de embarcar...”.