segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Conversando com a teoria

Que entre o Neorrealismo!

No último post tratamos da primeira obra de Kenneth Waltz. Dissemos que ela estabelecia as bases para uma atualização de um realismo que lentamente caminhava pelo pântano do descrédito. Essas bases viriam a sustentar uma nova versão da teoria realista, publicada mais de 20 anos depois, no livro “Teoria da Política Internacional” (do inglês, “Theory of International Politics”), cujo objetivo era ser mais científica e fundamentada que as demais.

Ao averiguar que a base científica das teorias de política internacional até o momento era fraca, Waltz definiu um caminho para que se obtenha uma teoria satisfatória e buscou trazer um modelo que seguisse essa cientificidade. Para tanto, o primeiro passo seria necessário desenvolver uma construção intelectual que parta da identificação de um domínio estudado como isolado dos demais. A partir daí, grosso modo, seria preciso deixar de lado todas as outras questões que não são centrais para a teoria, estabelecer algumas relações entre os elementos que se selecionou e exercer a criatividade para criar um modelo ideal.

Para entendermos em termos concretos, vamos à própria política internacional. Sabe-se que na realidade, a política, a economia, a cultura e a história são elementos inseparáveis. Todavia, para o autor, uma teoria da política internacional de grande potencial explicativo seria aquela capaz de identificar a excentricidade, a diferença ou a característica determinante dessa área. E o cerne, o fator que caracterizaria e possibilitaria pensar o sistema da política internacional como um todo, seria a “estrutura política”.

Esse é o conceito-chave do neorrealismo waltziano, também conhecido como realismo estrutural. Mas o que seria essa tal estrutura? Bom, é um conceito não-concreto que se baseia em dois elementos, a distribuição de capacidades entre as unidades e um princípio ordenador. Pensemos no mercado como analogia. Primeiro, as pessoas ao interagirem comercialmente, o criaram. Logo menos, não tinham mais controle sobre ele, passando a sofrer influências e pressões dele emergentes. Para outra analogia poderíamos pensar em uma estrutura metálica de uma construção. Ela fornece as bases e, paralelamente, impede que as paredes, o teto e os cômodos saiam do lugar; em outras palavras, exerce uma “constrição”.

Assim funciona a estrutura na política internacional. Em um ambiente de anarquia (princípio ordenador), as interações entre os Estados (unidades do sistema), com capacidades diferentes (poderio econômico e militar) vivem sob uma estrutura que atua como uma espécie de força que limita e constringe a ação das unidades no plano internacional. Por que o Brasil tem tanta dificuldade de consolidar sua candidatura ao Conselho de Segurança da ONU? Por que a reforma dos organismos internacionais é tão difícil? A estrutura talvez ofereça uma interessante resposta para essas perguntas.

Esse conceito seria definido por esses dois elementos centrais, o princípio ordenador, no caso a anarquia, e a distribuição de capacidades, que gera uma força limitante na atuação dos Estados. Se a tal distribuição de capacidades for alterada, o sistema pode até mudar de característica (um exemplo é o fim da Guerra Fria, deixando de ser bipolar para ser unipolar), mas a estrutura continuará existindo, em todo o seu esplendor, constringindo e limitando a atuação dos países no plano internacional. Bom, como já se pode ver por outras obras do autor, o nível do sistema internacional é muito valorizado por ele para analisar a política. Waltz introduz o mundo ao neorrealismo e abre novas portas para formas de análise, garantindo força e vitalidade para o realismo. Até a próxima semana!

[Para uma interessante entrevista com Waltz sobre sua teoria, clique aqui]

domingo, 29 de janeiro de 2012

O pior cego...


... é o que não quer ver, e no caso da ONU a coisa tá feia. A situação de repressão na Síria está atingindo níveis alarmantes, com mais de 60 mortes somente nesse fim de semana. Enquanto isso, os baluartes da democracia continuam a pressionar o Irã por conta de seu programa nucelar, com sanções econômicas e aqueles divertidos jogos de guerra no mar da Arábia.

São dois os problemas aqui. O primeiro é de ordem prática. Se dá muita importância ao Irã, mas quem está endurecendo as negociações são os próprios países ocidentais. Muita gente da região, inclusive de Israel, acha uma péssima ideia que haja um ataque militar ao Irã (o que parece se encaminhar cada vez mais, e isso numa semana crítica, com visita de inspetores da AIEA...). Ao mesmo tempo, uma bomba relógio que é essa crise na Síria (que afeta, em teoria, todos os países vizinhos e pode por muito mais a perder para Israel que o caso do Irã) vira um tema secundário de notas de telejornal.

Isso leva ao segundo problema – interesses. Quando falamos em atuação do Conselho de Segurança da ONU, nesses dois casos temos uma divisão de interesses nos cinco permanentes, com EUA, Reino Unido e França de um lado do ringue contra China e Rússia. No caso do Irã até que os dois últimos cederam um pouco e o Irã está meio que sem sua blindagem no Conselho. Mas, no caso da Síria, principalmente a Rússia defende com unhas e dentes que não haja a brecha para a possibilidade de intervenção, e vai vetar qualquer resolução nesse sentido. No discurso, a defesa do não-intervencionismo é muito bonita, mas na prática o que temos é um grande comprador de armamento e recursos energéticos sendo defendido pelo seu “patrono”. Nada mais pragmático, a não ser quando vemos que, do jeito que as coisas estão ruins, suspenderam hoje mesmo a missão de observadores da Liga Árabe (entendida como um último esforço de negociação pra acabar com os massacres), e moralmente parece inaceitável essa posição da Rússia.

Não é que a ONU não se pronuncie ou se posicione contra isso. O que escandaliza é ver como um interesse específico atravanca um processo todo, e como a organização fica de mãos atadas. Não é que eu esteja defendendo a intervenção (mesmo por que isso também tem seus interesses...), mas ao mesmo tempo a inação é uma coisa incômoda. Esse dilema entre o seguir as regras do jogo deixando o sangue jorrar ou derrubar a mesa e terminar com a catástrofe humanitária foi o mote de toda a discussão da intervenção na Líbia ano passado. E é claro que se a resposta fosse fácil não estaríamos discutindo isso até agora...

sábado, 28 de janeiro de 2012

O lugar mais radical e interessante na Terra?


Há cerca de uma semana, me deparei com um artigo interessante. O seu título: Poderia ser o Equador o lugar mais radical e excitante da Terra? Segundo a autora, uma correspondente do jornal britânico “The Guardian”, alguns elementos recentes deste país indicam um novo paradigma para o desenvolvimento. Muito do que foi construído através da vontade política do governo teve de subjugar condições econômicas incertas. Ainda assim emergiu um novo modelo.

Muito do que é comentado no artigo remete a temas já tratados aqui no blog, entre eles cabe ressaltar: a instabilidade política, os problemas econômicos que levaram a dolarização e a forte desigualdade social. Além disso, um outro fator (relegado pela autora) teve grande influência no Equador de hoje. Refiro-me à corrupção, dando ensejo a cenas tragicômicas, como ousadas tentativas de fuga do país ou mesmo ex-presidentes acionando a Corte Interamericana dos Direitos Humanos contra seu próprio país. Nem mesmo a Junta de Salvação Nacional, constituída em 2000 com participação militar, foi capaz de efetivamente salvar o país.

O martírio, pelo menos o político, parece ter terminado. O governo atual é o mais estável dos últimos tempos, fundado em uma nova constituição e com índices de aprovação acima dos 70%. Muitas são as críticas ao presidente Correa, internas e, por vezes, externas. Contudo, é inegável que houve uma melhora sensível em diferentes aspectos. No artigo em questão são citados fatores que promoveram melhoras, como o aumento das receitas advindas da extração de petróleo e dos impostos para empresas privadas, assim como a expansão dos gastos públicos. Podemos ainda destacar os investimentos sociais (que dobraram) e a diversificação dos parceiros comerciais. Como conclusão, a autora toma o exemplo equatoriano como inspiração, uma vez que, para ela, o resto do mundo poderia aprender muito com este experimento em curso no país.

Resta saber, qual a direção da revolução cidadã? O aumento da arrecadação pública possibilitou a expansão de programas e políticas que visam o bem-estar da população. São iniciativas que interministeriais baseadas em objetivos claros. Um ponto segue indefinido. Haverá uma continuidade democrática no Equador? Caso Rafael Correa projete sua permanência no poder por vários mandatos consecutivos, tal como Chávez na Venezuela, certamente fortalecerá as vozes que afirmam haver um plano de poder pessoal em andamento. Uma decisão errada, neste sentido, pode ameaçar o conquistado até agora e devolver o país para aquele cenário de instabilidade. Quem sabe Correa não encontre um sucessor tão ou mais aprovado que ele mesmo. Dilma, sucessora de Lula, parece ser um exemplo a ser considerado.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Massacre de Pinheirinho

"Massacre de Pinheirinho". Apesar de o Brasil usualmente não ser conhecido como um país conflituoso, este é o nome com o qual está adquirindo repercussão nacional e internacional o complexo incidente envolvendo os moradores da ocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos/SP. Com ampla cobertura da mídia, novas (e chocantes) imagens são divulgadas a cada dia mostrando uma verdadeira situação de guerra entre os moradores e a polícia, marcada por forte desrespeito aos Direitos Humanos. (Completo artigo para o entendimento dos detalhes da situação pode ser encontrado aqui.)

O Pinheirinho corresponde a um terreno equivalente a três vezes a área total do Vaticano (e, portanto, com altíssimo valor imobiliário), pertencendo ao polêmico empresário Naji Nahas, o qual protagonizou diversos escândalos financeiros desde a década de 1980 e possui um montante gigantesco de dívidas acumuladas.

Ocupado há quase uma década, o caso alcançou a mídia nacional (e internacional!) nos últimos dias devido aos esforços para a desocupação do terreno que tramitaram em âmbitos judiciais estaduais e federais. Apesar de negada em instâncias federais, a ordem de desocupação foi autorizada pelo juizado do estado de São Paulo, com a justificativa de que o proprietário tem o direito de reaver seu imóvel.

O detalhe é que esse "imóvel" não envolvia apenas um bem físico, mas a vida de cerca de 6 mil moradores que há anos batalham também pela legalização da área. Abusos em relação ao comportamento da polícia, informações enviesadas sobre mortos e feridos, interesses particulares, poderosas redes de influência política: todos estes elementos vêm à tona e tornam impossível uma análise do caso em termos simplistas, apenas como um processo de reintegração de posse qualquer.

Segundo Cláudio Acioly, coordenador do programa da ONU para o Direito à Habitação, remoções forçadas "criam mais problemas (que soluções) para a sociedade". De fato. A lista de abusos cometidos desde o início desta remoção forçada é imensa, e o caso adquire cada vez mais repercussão. Uma carta de Apelo Urgente e Declaração Pública foi encaminhada para a Missão Permanente do Brasil em Genebra, e um dossiê a ser entregue ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e à Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) está sendo preparado por responsáveis para apurar as denúncias de violações cometidas no caso do "Massacre de Pinheirinho".

Este emblemático caso reflete, na verdade, uma situação muito mais ampla relacionada ao direito à moradia no Brasil: segundo informações oficiais, o déficit habitacional no país é de mais de 5 milhões de moradias, em sua grande parte no estado de São Paulo (!). A deficiência no combate a este tipo de situação de vulnerabilidade demonstra como o Brasil ainda precisa se desenvolver internamente para alcançar o almejado patamar de "potência internacional", não apenas em termos econômicos... o Pinheirinho que o diga.

[Um breve documentário a respeito do tema foi produzido pelos moradores e veiculado na internet, disponível aqui.]

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Post do leitor - Laura Pimentel Barbosa

[Hoje apresentamos mais um post do leitor que nos foi enviado por Laura Pimentel Barbosa, recém-formada em Relações Internacionais pela UNESP - Campus Franca. Nesta oportunidade, ela discute um tema bastante atual, a respeito da internet e sua relação com o desenvolvimento econômico e social, sugerindo uma interessante reflexão a respeito. Vale a pena conferir! Agradecemos a participação dos leitores e os convidamos a construírem sempre conosco o conteúdo da Página Internacional! Boa leitura!]

Criatividade em rede

Quaisquer que sejam as antinomias que
se apresentem entre as visões da história
que emergem em uma sociedade, o
processo de mudança social que chamamos
desenvolvimento adquire certa nitidez quando o
relacionamos com a idéia de criatividade.
Celso Furtado

Nos últimos dias assistimos ao aprofundamento do debate a respeito das regulamentações contra a pirataria na Internet propostas pelo Congresso estadunidense. As indústrias fonográficas e cinematográficas têm interesse na aprovação da SOPA (Stop Online Piracy Act) e PIPA (Protect IP Act), porque vêem o sistema de funcionamento da Internet, abalizado no compartilhamento descentralizado de informações, um risco aos lucros fundamentados nos direitos de propriedade intelectual, tão caros ao nosso sistema econômico. É importante lembrar que no Brasil também tivemos um caso semelhante, embora infelizmente a visibilidade tenha sido bem menor, como foi o caso da Lei Azeredo.

Apesar de ser possível apreender diversos temas a partir desse debate, achei que seria pertinente colocar em discussão a relação entre o caráter da Internet e os novos rumos para a cidadania e para o desenvolvimento econômico e social.

Para tanto, faço uma breve introdução aos princípios da Internet. Durante os anos 60 e 70 houve um debate acirrado a respeito de quais deveriam ser os padrões que regeriam a rede, em razão da forte influência dos setores acadêmicos com ideais libertários na sua criação, os padrões mais simples, ou seja, com menos regulamentação tanto no processo de geração do conteúdo quanto no de compartilhamento, acabaram por se tornar os princípios da rede*.

A informação é condição necessária aos investimentos internacionais, e os padrões abertos facilitam a inovação e a criação de novas ferramentas para que se tornem mais sofisticados os modelos de desenvolvimento, tornando a pluralidade cultural e informacional cada vez mais valorizadas no sistema econômico internacional. A SOPA e a PIPA são propostas oriundas de um sistema econômico que não parece ter acompanhado as demandas do desenvolvimento tecnológico e científico que ele próprio incentivou.

Nesse sentido, os convido a fazer um paralelo entre a cidadania e como ela pode se beneficiar através de um recurso tão importante como o é a Internet. Yonchai Benkler** afirma que as relações no ecossistema digital, baseadas na colaboração e em uma infra-estrutura orientada a serviços públicos ou bens comuns, pode ampliar a voz dos cidadãos. E esses bens comuns não necessariamente obedecem aos padrões de propriedade, ou seja, às relações tradicionais do mercado, que por sua vez são fundamentadas na apropriação e na restrição.

A justificativa de proteção às patentes pela SOPA e PIPA pode resultar em mais do que a restrição ao acesso à informação, cultura e conhecimento, pode ser um freio à inovação e criatividade que vem impulsionando planos para o desenvolvimento econômico de países em desenvolvimento e subdesenvolvidos.

Por fim, gostaria de colocar como reflexão a questão da apropriação social da tecnologia da informação e comunicação, que pode ser sim um risco ao sistema econômico e produtivo como o conhecemos, mas talvez seja uma oportunidade para um novo modelo econômico, mais plural e cooperativo, que encontre caminhos para a superação das desigualdades que a apropriação e a acumulação ajudaram a criar...

* GETSCHKO, Demi. Algumas características inatas da Internet. Publicação do Comitê Gestor da Internet do Brasil, ano 1, 2009, ed. 1. p. 42-43.
** AMADEU, Sérgio. Cidadania e redes digitais. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2010. p. 22-25.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Post do Leitor - Cairo Junqueira

[Pessoal, abaixo está um interessante texto sobre o aniversário de São Paulo e algumas reflexões sobre a cidade, proposta pelo nosso leitor, Cairo Junqueira. Lembrando a todos os leitores que gostariam de postar na Página Internacional, basta que nos enviem textos para o e-mail contato@paginainternacional.com.br. Aproveitem a leitura!]

São paulo. 458 anos e outros números


Durante meu período como coordenador do Setor Governamental da ORBE, a Empresa Júnior de Relações Internacionais da UNESP/Franca, recebi em mãos uma publicação intitulada “Discover a Green City – A guide to one of the world’s largest cities” que tratava sobre as iniciativas locais para a inserção internacional da capital paulista. Para tanto, achei interessante pegar alguns dados da publicação e esquematizar um pequeno texto em comemoração à data mencionada no título.

São Paulo festejou seu 458º aniversário como a maior cidade brasileira e a sétima maior do mundo, com uma população na casa dos 11 milhões e 200 mil. Possuindo um Produto Interno Bruto (PIB) estimado em 388 bilhões de dólares, também está no ranking das dez cidades mais ricas, lideradas por Tóquio, Nova Iorque e Los Angeles, respectivamente.

A cada três eventos realizados no nosso país, dois acontecem em São Paulo. Ela é a 24ª no ranking mundial de cidades por eventos de negócios internacionais e recebe cerca de um milhão e 600 mil turistas estrangeiros todo ano. Ainda assim, detém a maior frota de helicópteros e a maior rede de iluminação pública mundiais. Na Avenida Paulista, em horário de pico, passam cerca de 4 mil carros e pouco mais de 200 ônibus.

A capital é um exemplo clássico de cidade-global: tem uma completa rede de empresas que prestam serviços especializados e que dinamizam suas estruturas internacionalmente. Embora em número reduzido, comparado com outras cidades brasileiras, participa ativamente de redes de cidades, as quais são um meio de organização e coordenação descentralizada destes atores para fortalecerem suas atividades internacionais. Exemplos são a Rede Metrópolis e a Rede Mercocidades, aquela composta por cidades com mais de um milhão de habitantes e esta representante da estratégia mais usada no Cone Sul para a inserção externa de atores subnacionais.

Articula-se, também, através dos Fóruns de Secretários e Gestores Municipais de Relações Internacionais (FONARI) e possui uma Secretaria Municipal de Relações Internacionais (SMRI) desde 2001, responsável por projetar a cidade mundialmente e estabelecer contatos e convênios com os mais variados atores internacionais. Entretanto, inúmeras vezes, fica à mercê da burocracia pública e, com as mudanças de governo, acaba por retardar as iniciativas que vão ao encontro dos fatos mencionados acima. Inúmeros são os comentários benéficos sobre a gestão da Marta Suplicy no que tange à “internacionalização paulistana”, mas isto mudou com as diretrizes dos prefeitos mais recentes.

O que está em pauta, atualmente, é a promoção da capital como “cidade verde”. Sediou a reunião do C40 (Climate Leadership Group) no ano passado e tem buscado observar o que fazem outras cidades para o aumento da sustentabilidade ambiental. Amsterdã, na Holanda, é pioneira no uso da bicicleta como transporte diário e para o trabalho; Johannesburgo, na África do Sul, tem corredores de ônibus com baixo nível de poluição; São Francisco, nos Estados Unidos, destina apenas 20% do lixo para aterros sanitários; e os exemplos não param por aí...

Baseando-se na máxima liberal, no campo das Relações Internacionais, de que os ambientes interno e externo são inseparáveis, ainda faltam ajustes para ratificar, de fato, a inserção internacional de São Paulo. É óbvio que a capital enfrenta problemas de transporte, de infraestrutura e de urbanismo. Mas é gratificante ver como a maior cidade do país se firmou nos últimos anos, sendo um dos cartões postais brasileiros.

O enfoque, agora, é a Copa do Mundo e a possível realização da EXPO em 2020, considerada o terceiro maior evento mundial em termos econômicos. Com uma área de 1.500 km², densidade demográfica de 7,4 mil habitantes/km² e um orçamento municipal de cerca de 28 bilhões de reais; São Paulo, composta por 5 regiões, 31 subprefeituras, 96 distritos e 58 zonas eleitorais, tem muito a crescer e muito a ensinar para o restante das cidades brasileiras. Mesmo com seus pontos negativos, a capital paulista é um espelho dos brasileiros, tanto nacional, quanto internacionalmente.

Parabéns, São Paulo!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Há um ano...

Há um ano tanto o blog quanto o mundo andavam bem agitados. O início de 2011 foi marcado por conflitos, tensões e algumas mudanças, que variaram muito, desde revoltas populares nos países árabes – a nossa já bem conhecida “Primavera Árabe” – até atentados contra aeroportos e o início do governo da primeira Presidenta do Brasil. Bom, vamos revisitar um pouco daquilo que foi tratado.

Na semana do dia 25/01, tivemos uma sequência de textos bem interessantes. Primeiro, o Álvaro apontava a decisão da nossa presidenta Dilma de postergar ainda mais a decisão sobre a compra dos caças para a FAB (clique aqui para relembrar). De projeto FX para FX-2 e de decisão de comprar os caças franceses para “reavaliação de todas as propostas”. Esse foi o pé em que a coisa toda estava logo no início de 2011. Vale a pena retomar porque mesmo um ano depois, esse tal pé não caminhou muito.

O segundo texto dessa semana foi publicado pelo Giovanni e tratava das diversas crises que agitavam o início de 2011. A primeira delas foi a queda de Ben-Ali, ditador tunisiano, o primeiro ditador caído da “Primavera Árabe”. No mesmo momento, a população do Egito já se organizava na praça Tahir pedindo a saída de Hosni Mubarak. Outra interessante crise ocorrida foi a de uma bomba que explodiu dentro do aeroporto russo de Domedovo, causando grandes discussões sobre os separatistas da região do Cáucaso. Todos esses temas foram muito bem abordados por ele nesse interessante texto (clique aqui para conferir).

Um terceiro texto que revelava outra tensão de 2011, de minha autoria, tratava da crise política na Costa do Marfim (clique aqui para conferir). O então presidente, Laurent Gbagbo, não queria ceder o cargo para seu sucessor democraticamente eleito Alassane Ouattara. Alguns meses após esse texto, em abril de 2011, a crise culminou na captura de Gbago por forças milicianas, com apoio de forças francesas (essa dúvida sobre se a atuação francesa foi direta ou não gerou até um pequeno bafafá internacional). Já em dezembro do ano passado o ex-presidente marfinense foi levado para o Tribunal Penal Internacional acusado de crimes contra a humanidade, realizados durante esse período de crise.

Bom, há um ano o mundo andava bem agitado. Presidenta no Brasil, tensões e conflitos no mundo árabe e atentados terroristas na Rússia. Algumas dessas questões podemos ver os desdobramentos, enquanto para outras, a ausência de um “resultado concreto” revela a permanência desses temas na agenda dos países. É isso aí, pessoal, postando e relembrando!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A sopa esfria


Lembram daquele tema polêmico da internet na semana passada? E não, não é a menina que estava no Canadá. O mundo ficou em polvorosa com o protesto em massa contra a aprovação das leis de regulação da internet que circulavam no congresso dos EUA. Circulavam, no pretérito, por que a coisa azedou e foi pra gaveta. E saibam que tem tudo a ver com a eleição presidencial de lá.

Vamos por partes. Os projetos de lei da SOPA (Ato de Proteção contra Pirataria) e PIPA (Ato de Proteção de IP) já foram tratados aqui no blog, e basicamente querem impor restrições maiores e facilitar o trabalho das autoridades para a proteção de propriedade intelectual na rede. Muito bom, se não fosse a abrangência da coisa (que pode, por exemplo, tirar sites inteiros do ar caso um único usuário coloque conteúdo “ilegal”), e o fato de que normas e tratados que já existem, como o DMCA. E, na semana passada, um foi reservado para um protesto em massa (com sites auto-censurando suas informações, ou mesmo saindo do ar por um dia) e envio de petições ao Congresso e Departamento de Estado dos EUA. Nos dias seguintes, a votação sai de pauta por tempo indeterminado, e a comemoração dos mobilizados é geral.

Afinal, qual a influência desses protestos? Foram milhões de pessoas assinando petições e milhares de sites protestando. Mas assim como a mobilização da primavera árabe (alguém lembra?), essa influência “popular” pode ser um pouco enganadora. Vejam pelo lado da política: Obama está desgastado e precisando de financiamento pra sua campanha. Isso vai ser providenciado por muitos grupos econômicos mais à direita, como a indústria da mídia. E esse é o ponto – o que corre por aí é que a pressão pela votação dessas leis foi lobby da RIAA e outras organizações em troca de apoio na próxima eleição. Milhões de inconformados protestam contra a arbitrariedade e em defesa da liberdade de expressão. O que os republicanos fazem? Tiram o corpo fora e deixam de apoiar a votação. Dito e feito – dos 18 que abandonaram o projeto, a maioria é republicana; indo mais longe, os pré-candidatos do partido são unânimes ao ir contra o projeto nos (divertidíssimos) debates televisivos. Uma ironia, já que o cara que propôs isso tudo é do partido do elefante. Essa manobra de deixar a SOPA/PIPA de lado teria sido muito mais de interesse eleitoral dos republicanos do que uma resposta aos protestos (muito oportunos, na verdade...).

Em tempo, o fechamento de sites de compartilhamento de arquivos (outra coisa que rendeu um bafafá enorme e que está gerando um efeito cascata nessa semana), em um primeiro momento, não tem nada a ver com SOPA, PIPA, ou o que for. Todas as prisões e encerramento de atividades foram baseadas em legislação vigente (coisa que aquelas duas ainda não são), e pegaram gente envolvida com crimes graves, mas isso é coisa que vai ficar para os tribunais. Agora, o fato é que não deixa de ser muita coincidência que tenha ocorrido na mesma semana dos protestos – e vemos aí um pouco da pressão dos grupos midiáticos...

sábado, 21 de janeiro de 2012

Dois problemas, nenhuma solução


Uma vez me falaram que a Nigéria era uma das potências africanas. Abuja, segundo os mesmos, era uma capital pulsante e dinâmica, talvez um dos principais indícios de um continente em rota ascendente. Há números para corroborar esta visão, o seu PIB cresceu 8,4% em 2010, 7% em 2009 e 6% 2008. Contudo, nem tudo fica ao alcance da visão sob a ótica meramente numérica. O crescimento econômico, como em outros incontáveis casos, não se transformou em melhorias sociais significativas, muito pelo contrário. A corrente de desigualdade, pobreza extrema e marginalização só aumentou, em proporção maior que a dos índices da economia.

Na verdade, apesar da ressalva anterior, os números vão voltar para tentar nos ajudar a entender o cenário. Para o Banco Mundial, 80% da riqueza gerada pelo petróleo no país fica nas mãos de 1% de sua população, quadro ainda mais grave quando lembramos que as exportações do combustível representam 40% do PIB nigeriano. A situação é ainda mais crítica no norte do país, predominantemente povoado por muçulmanos. Não houve transição, mas uma ruptura de modelo econômico, o baseada no petróleo substituindo o pautado na agricultura e manufatura, culminando no encerramento de atividades industriais tradicionais. Este quadro é ainda mais intenso no norte.

Muitos governos passaram e pouco mudou, ao menos não para melhor. As refinarias da Nigéria quase não funcionam, deixando o país na constrangedora situação de ter de importar quase a totalidade do combustível refinado que consume, apesar de ser o maior exportador africano de petróleo. Somam-se a isso os subsídios que mantêm o preço do combustível acessível para sua população. Na prática, não surpreende que a receita gerada não resulte em grandes benefícios sociais. Ao mesmo tempo, um seleto grupo enriquece com este contraditório comércio. Goodluck Jonathan, presidente da Nigéria, assumiu o posto pensando em modificar este quadro. O primeiro passo foi dado: os subsídios supracitados foram extintos, o que economizaria ao erário cerca de sete bilhões de dólares por ano. Nada mal, não?

Tudo mal. Afinal, este era o único benefício percebido pela população por viver em país rico em petróleo. Uma série de protestos, greves e manifestações obrigou o governo a mudar o que havia determinado. A sua agenda de reforma, iniciada há menos de um ano, sofreu um golpe duro, na medida em que o fim dos subsídios não durou mais de oito dias. Mesmo assim, antes este fosse o único problema de Jonathan. Desde 2009, espraiaram-se e intensificam-se confrontos entre o grupo Boko Haram e a polícia. As atividades terroristas da organização expandiram-se, atingindo a capital Abuja e manchando as comemorações do último natal. Dois ataques recentes ganharam maior atenção, o primeiro na sede da polícia e o segundo no escritório das Nações Unidas no país.

Enquanto isso, o governo endurece sua mão repressora, tanto no confronto com manifestantes contrários ao fim dos subsídios, quanto no combate ao Boko Haram. Tal fato fica evidente no orçamento para 2012, no qual 20% dos gastos estão reservados para a segurança e defesa. O problema não parece ser religioso, uma vez que grupos terroristas não representam os islâmicos como um todo. Por outro lado, o radicalismo ganha terreno frente a uma população carente de serviços e oportunidades. Neste sentido, focar na segurança tende a acirrar as disputas e intensificar a insatisfação popular. Tudo indica que aquela economia planejada com o corte dos subsídios seria menor que os novos gastos para conter a expansão da violência. Para piorar, os Estados Unidos crêem que o Boko Haram possa estar colaborando com o Al-Qaeda e o Al-Shabab. A Nigéria, no final das contas, ainda não é aquela potência que parecia (e poderia) ser. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Dez anos bastam

"Dez anos bastam": estes foram os dizeres de manifestantes que formaram uma cadeia humana em Washington essa semana para protestar contra a manutenção da prisão de Guantánamo, que existe há (quase exatos) dez anos na base naval dos Estados Unidos em Cuba (foto).

Instalada em meio ao fulgor da "guerra contra o terrorismo" após os atentados de 2001, a prisão é constantemente alvo de fortes críticas exatamente por desrespeitar Direitos Humanos básicos. Centenas de presos já passaram por Guantánamo e os quase duzentos que permanecem ainda hoje se enquadram entre os seguintes perfis principais: são acusados de crimes de guerra e aguardam julgamento; são considerados "perigosos" (pelo governo estadunidense), mas não podem ser acusados por falta de provas; ou, finalmente, não possuem nenhuma acusação (!), mas são impedidos de partir pela instabilidade de seus países.

Parece inacreditável conceber atualmente situações como tal, mas Guantánamo é um claro exemplo das contradições globais que ainda hoje frequentemente visualizamos. A busca pela igualdade é constante, mas o acesso aos recursos disponíveis é extremamente limitado. A ânsia por promover a "justiça" (?) é crescente, mas os meios utilizados para este fim são absolutamente criticáveis...

Constatar a ineficácia do presidente Obama em fechar Guantánamo (promessa cujo "prazo expirou" já há dois anos) significa constatar uma realidade na qual a teoria e prática permanecem em âmbitos muito distintos (e distantes!). A pressão tem sido feita por diversas entidades humanitárias e organismos governamentais, mas é ainda incerta a perspectiva para o real cumprimento desta nobre promessa.

Enquanto isso, mantém-se uma realidade perversa para os prisioneiros (em sua boa parte possíveis inocentes – veja post antigo no blog a esse respeito aqui) e para a comunidade internacional, que convive com um tácito sentimento de "impunidade" em relação às controversas políticas antiterroristas estadunidenses.

Em se tratando de Guantánamo, pode-se dizer que dez anos – efetivamente – bastam ou são até demais, não?

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Viajando

Ahmadinejad fez um tour pela América Latina na semana passada. E não, ele não estava de férias. Foi um “turismo” diferente, conhecido no jargão da diplomacia como “giro diplomático”. Pela quinta vez, o presidente iraniano vem ao “novo mundo” e, dessa vez, sem parada no Brasil. Visitou a Venezuela, a Nicarágua, Cuba e o Equador. Todos eles países que, no plano discursivo, colocam-se contra a política externa estadunidense.

Evidente que qualquer visita do polêmico Ahmadinejad já agrega interesse, mas, essa, em específico, destaca-se pelo contexto no qual está inserida. Contexto esse no qual a pressão internacional sobre o Irã nunca foi tão grande. O seleto condomínio das grandes potências tem ampliado consideravelmente as sanções internacionais contra o país com o intuito de impedir a ampliação de seu programa nuclear que julgam ser para fins bélicos. Os países da União Europeia adotaram mais medidas coordenadamente, os Estados Unidos unilateralmente e ainda acirrou-se a pressão para que outros países façam mais.

Enquanto isso, do outro lado, o Irã deu claros sinais que o aumento de sanções seria um tiro que sairia pela culatra (o Japão, por exemplo, já tem mostrado os limites das sanções). Ahmadinejad buscou mostrar que os grandes prejudicados com a redução de seu comércio seriam as próprias potências ocidentais quando especulou-se sobre um possível fechamento do estreito de ormuz, principal rota de transporte de petróleo mundial. A despeito de a diplomacia iraniana afirmar que o país jamais teve a intenção de impedir a rota de petróleo, é interessante notar como esse xadrez de sanções internacionais funciona em um mundo tão interligado. Basta que se concentre em apenas um objetivo que logo se pode ver cercado e em xeque.

Em um contexto de grandes pressões, além de tentar se defender delas como pode, nada mais natural do que o Irã buscar fortalecer os laços com os países que possuem uma perspectiva ideológica semelhante. E, da mesma forma, a facilidade que o Ahmadinejad tem de se aproximar da América Latina pode significar que, politicamente, o Tio Sam tem visto sua influência diminuir na região (para um artigo sobre isso, clique aqui). Já a não vinda para o Brasil dá indícios que a postura da Dilma é bem diferente da de Lula em se tratando de Irã e Ahmadinejad não se sente confortável de tratar de alguns assuntos com o governo brasileiro mais (não há tensões, anda apenas diferente...).

Como disse antes, uma viagem do presidente iraniano à América Latina sempre chama a atenção. Dado o contexto, essa muito mais. Não foi a primeira vez que ouvimos de sanções e de visitas do governo do Irã, nem será. Enquanto o Ahmadinejad e o Tio Sam tiverem com que barganhar, essa novela irá longe...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Post do Leitor - Cairo Junqueira

[O leitor Cairo Junqueira mais uma vez nos brinda com um interessante texto. Desta vez escreve sobre a política externa brasileira para 2012 e as relações com Cuba. Vale a pena a leitura! Aproveitamos a oportunidade para lembrar que todos podem postar na Página Internacional, basta que enviem seus textos para contato @paginainternacional.com.br]

Brasil e Cuba: o retrato do multilateralismo
Nem bem o ano começou e a agenda diplomática brasileira já iniciou seus trabalhos envolvendo a futura ida da presidente (ou presidenta, como quiserem) Dilma Rousseff a Cuba. O Ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, esteve em Havana nos dias 16 e 17 deste mês e conversou com o Chanceler Bruno Rodríguez sobre os caminhos das relações bilaterais dos países no ano que se segue.

Desconheço os acordos e as histórias existentes entre o Brasil e os cubanos, mas meu enfoque neste post é outro: o multilateralismo brasileiro na prática. Em meio ao cenário internacional atual, com os rumores das eleições norte-americanas, a tensão existente na política externa norte-coreana e a tímida comemoração dos dez anos do euro, nosso país mantém seu enfoque e reafirma seus ideais.

Isso não quer dizer que estamos nos desvinculando ou colocando em segundo plano estes aspectos citados acima, muito pelo contrário. O principal ponto é justamente verificar como o Brasil continua com a sua postura de multilateralidade bastante nítida nestas reuniões em Cuba, uma vez que é um país ímpar nas relações internacionais, seja devido ao seu sistema político interno, à sua estrutura social e urbana ou até mesmo à sua posição geográfica e diplomática.

As intenções do Itamaraty para com o país são visíveis: relacionamento bilateral, integração regional, cooperação técnica internacional e infraestrutura. São temas centrais da nossa política externa, bem como do nosso papel emergente. O estágio contemporâneo do multilateralismo brasileiro mescla a reciprocidade entre países hegemônicos e em desenvolvimento, sem deixar de lado aqueles considerados “terceiro mundistas”.

O aspecto plural de nossas relações exteriores é mais benéfico que a bipolaridade e representa a autodeterminação nacional. Começar 2012 com a visita a Cuba não é algo escolhido aleatoriamente. Para mim representa, e muito, o novo contexto internacional e o novo papel que o Brasil vem desempenhando na política mundial. Parece que nosso país quer dizer o seguinte: “estamos de olho em tudo e em todos”.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Conversando com a teoria

Uma introdução ao Neorrealismo

Hoje vamos retomar nosso exercício de conversar com a teoria. Para relembrar, nos últimos textos, discutimos o contexto histórico das décadas de 1960 e 1970 como extremamente propícios para o desenvolvimento de novas teorias, depois tratamos do neoliberalismo e chegamos a um estudo de caso. Nesse contexto, observamos que o mundo mudava e, paralelamente, a capacidade explicativa das teorias até então também. Isso levou a uma busca pelo novo. Teorias que satisfizessem o rigor científico e fossem igualmente mais modernas para explicar o mundo.

Como o idealismo, nosso famigerado realismo também estava desgastado. Apesar disso, o princípio básico de busca pela segurança parecia ser mais válido do que nunca, principalmente nas décadas de 1950 e 1960. A corrida armamentista entre Estados Unidos e a União Soviética estava a todo vapor, dando origem ao termo MAD, do inglês “louco”, que também seria a sigla para mútua destruição assegurada (Mutually Assured Destruction). O mundo caminhava para uma tensão nuclear e a segurança era um tema que não podia ser descartado.

Todavia, a corrente teórica não apresentava respostas satisfatórias para esse problema. Eis que, em 1959, um senhor da Columbia University, Kennteh N. Waltz ao publicar sua tese de doutorado, O homem, o Estado e a Guerra, desenvolveu as primeiras vigas para que se levantasse um novo e mais resistente arranha-céu realista. Sua ideia é simples, porém capaz de fortalecer as bases de pensamento do Realismo. Para se alcançar a paz é preciso compreender a guerra. Para compreender a guerra, é preciso olhar para suas causas. E, estudando o todo da ciência política, ele pode perceber que os autores até então haviam buscado explicar as causas desse fenômeno por meio de três níveis de análise ou, como ele denominou, imagens.

Na primeira dessas imagens, as guerras ocorriam em conseqüência da natureza e do comportamento do homem. Os homens seriam seres extremamente egoístas, movidos por seus próprios interesses apenas e isso levaria aos conflitos. As outras causas poderiam ser consideradas como secundárias. Grosso modo, o egoísmo e auto-interesse geraria os conflitos. Na segunda imagem, os conflitos seriam resultado da organização dos Estados. E, portanto, para que se possam alterar as possibilidades de guerra seria preciso mudar tais organizações. Os dois exemplos mais interessantes de autores que consideravam essa explicação são Karl Marx e Hans Morgenthau (sim, aquele do realismo clássico! Se quiserem saber mais, clique aqui!).

A terceira e última imagem seria aquela que, na opinião do autor, seria a principal causa das guerras: a anarquia internacional, em outras palavras, a guerra seria resultado da ausência de qualquer organização para controlar os Estados. Esse foi o ponto de partida para sua teoria (que será abordada no próximo texto), considerada uma teoria sistêmica, analisando todo o sistema de Estados.

Para facilitar, pensemos em algo mais prático. Em se tratando de cinema, sempre teremos boas histórias e outros com histórias não tão desenvolvidas. E quais fatores seriam definidores na trama? Bom, teríamos que ter um roteiro interessante e instigante aliado a uma boa direção. Isso, nos olhos de Waltz, poderia ser a terceira imagem, aquela que definiria a principal causa de uma trama boa. A primeira e a segunda imagens poderiam ser fatores importantes, como fotografia e o elenco, mas que não são determinantes para uma boa trama.

Em suma, ao fazer uma análise de como os autores tratavam da guerra até o momento, Waltz já preparou o terreno para uma teoria que tratasse do sistema internacional e não somente da psicologia do homem ou da organização do Estado. Para o autor os elementos das demais imagens seriam importantes, mas o papel definidor dos conflitos, o que recebe o caráter de protagonista na hierarquia das causas das guerras deveria ser ser dado à anarquia. Seu texto iniciou a renovação do Realismo que, ao final da década de 1980, recebeu um tratamento teórico detalhado em outra obra sua. Mas, deixemos isso para a próxima semana. Até lá!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A Rússia, caindo?



Nesse começo de semana em que os desastres navais da Itália e da Coreia ocupam as manchetes, com o afundamento de um navio de cruzeiro que vitimou até o momento seis pessoas, e a explosão de um navio tanque em que morreram cinco tripulantes (que está atraindo menos atenção por que não houve relato de vazamento, felizmente, mas se formos pensar é um caso bem mais sério), vamos falar é da Rússia, do desastre que não ocorreu (e sobre o qual comentei ontem), a queda da sonda russa Phobos-Grunt, e como isso nos mostra o estado de coisas no Kremlin.

Explicando rapidamente, essa era uma sonda que ia para uma das luas de Marte (Fobos) para trazer de volta material do solo para pesquisa. Seria a grande retomada do programa espacial russo, que ano passado completou os 50 anos da viagem histórica de Yuri Gagarin, o primeiro cosmonauta. Claro que não houve muito o que celebrar, já que todos as missões “comemorativas” tiveram problemas, e o mais grave foi o dessa sonda, que teve um defeito grave no lançamento, em novembro, e perdeu o rumo, ficando à deriva na órbita terrestre até cair de volta. O grande perigo era o fato de ser uma sonda ainda completa, com combustível nuclear e tudo mais, o que poderia representar uma calamidade se caísse em áreas povoadas, o que deixou a mídia em polvorosa. Felizmente parece que já caiu no Pacífico, o lixão dos programas espaciais, e estamos a salvo desse bombardeio nuclear.

Claro que, para a Rússia, o estrago já foi feito, e demonstra como as coisas andam mal por lá. Um programa espacial depende de muitos detalhes, em que o mínimo erro pode por a operação toda, e milhões de dólares, a perder – e quando uma sonda que devia ir pra Marte não sai nem da órbita da Terra, coisa boa não é.

No fundo, isso tem muito a ver com a crise política, que já comentamos aqui e aqui, parece avançar, com a expectativa de uma reforma política (que já deu seus primeiros passos com a retomada da eleição direta regional de governadores) e que enfraquece o governo. Um país com falta de coesão interna não consegue se sustentar para fora. E esse é o grande drama da dupla Putin-Medvedev, que ainda tem essa aspiração de trazer a Rússia, assento permanente do Conselho de Segurança à parte, de volta ao seu status de potência mundial – mas já começa a faltar apoio interno. Não é questão de falta de dinheiro (que o diga a produção de gás natural do país), mas sim como ele é aplicado. Iniciativas como as missões do programa espacial entram nesse contexto, muito mais de prestígio que científico, e quando uma missão desse naipe fracassa, faltou incentivo em algum setor, de pessoal aos equipamentos.

Outro caso que mostra isso é o do setor de defesa: a Rússia sempre teve material de primeira, e mesmo hoje em dia está desenvolvendo, por exemplo, aviões de combate de última geração. A diferença, é que hoje estão dependendo de parceria com países como Índia e China pra fazer isso, enquanto o equipamento efetivo de suas forças armadas é bastante antigo. Pra ter uma ideia, vejam essas fotos de aviões russos sendo escoltados (já que têm a mania de invadir o espaço aéreo de países europeus e dos EUA mesmo após o fim da Guerra Fria) pra ter uma noção de há quanto tempo esses Tupolev estão operando.

Diz uma piada recorrente que os aviões russos vão voar até que estejam desmontando. Isso é sinal de falta (ou mau uso...) de recursos para esse tipo de setor, o que é uma coisa muito grave para um país que quer voltar a ser protagonista do cenário internacional. E a queda da sonda Phobos é sintomática disso tudo, em que a Rússia quer ter esse dinamismo ao mesmo tempo em que enfrenta desafios no terreno político, a exemplo da corrupção e da insatisfação política com os rumos que anda tomando.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Há um ano


E vamos que vamos, à nossa reflexão rotineira sobre o passado em que vemos como o mundo mudou (ou não...) ao longo de um ano.

Há exatamente um ano, o tema era o conceito de responsabilidade social e como isso estava sendo incorporado à filosofia de empresas. Iia inclusive contra o senso comum (de que seria aplicada de modo seletivo, apenas quando era conveniente), já que o momento de crise demonstrava justamente o contrário, em que a manutenção dessas políticas implicava em sustentabilidade em longo prazo. É bem interessante ver como nos últimos anos tantas empresas começaram a adotar slogans e marketing se vinculando ao lado "do bem", responsável. De repente, é como se todos, de bancos a empresas de salgadinhos, começassem a se importar com impacto ambiental e social de sua atividade. Não digo que não seja legítimo, mas será que não estamos chegando a um ponto em que isso está se tornando uma mera estratégia de promoção de imagem, que acaba esvaziando o sentido original? Quais desses que alegam isso estão realmente preocupados com a situação e implantando projetos que valham a pena...?

No dia 17, o tema era o recorrente drama das tragédias causadas pela fúria da natureza, e como isso tinha seus impactos de acordo com o desenvolvimento de cada região afetada. Claro que 2011 foi um ano particularmente ruim nesse departamento, e ao longo do ano todo, mas parece que a natureza deu uma aliviada nesse começo de 2012. Fora o que acontece no Brasil nas últimas semanas, com as chuvas e tudo mais, não estamos tão mal (apesar do fato de ser um drama anunciado, e de como nos escandalizamos com o desvio e mau uso de recursos que podia evitar muito disso...). Ainda assim, não temos muito o que comemorar um ano depois, já que permanece a tragédia da ignorância humana. Tivemos essa semana mesmo a quase tragédia da queda de uma sonda russa inutilizada que estava deixando a mídia em polvorosa (mas já caiu no mar), além de muitos outros desastres humanitários como a fome sem fim na Somália, ou a fratura do Sudão. Isso sem contar o esfarelamento do que entendemos como Estado na Síria. Ou a tragédia das negociações (ou a falta delas...) com o Irã. E esses, todos causados pela razão humana, são muito piores que qualquer enchente ou terremoto, por que têm a capacidade de se espalhar assim como seus efeitos...

Por fim, no dia 18, um post do leitor comentava sobre o tema das redes sociais e a personalidade controvertida de Mark Zuckerberg, criador do Facebook da rede mais famosa (e rentável) da atualidade. Um ano depois, talvez a lição que fique sobre o tema, além de Mark estar bem mais endinheirado, seja a mesma da postagem sobre responsabilidade social - nesse intervalo, cresceram a popularidade e a importância dadas a esse tipo de rede, como um local de divertimento, socialização, e por que não, de negócios; ainda assim, será que esse tipo de rede tem essa importância toda? Seu potencial de inserção é plenamente utilizado? Ou é uma integração "ilusória"? Até que ponto o que se passa lá dentro é algo realmente construtivo? Ou a participação em massa em protestos e reclamações se esvazia por ser um ambiente virtual?

Enfim, é isso aí pessoal, postando e relembrando!

sábado, 14 de janeiro de 2012

Na estrada com Obama


Enquanto as primárias do partido republicano continuam, Obama segue com suas tarefas e desafios como presidente. Contudo, não se engane. A Casa Branca certamente divide as atenções com um certo centro de operações em Chicago, sua cidade natal. É lá que se monta uma campanha maior, mais inteligente e surpreendente, ao menos é o que promete a equipe que trabalha pela reeleição de Obama.

Em 2008, tudo foi diferente, considerando o papel de azarão que lhe fora incumbido no início da campanha. Agora, não se trabalha projetando vitórias por etapas (primária por primária, culminando nas eleições), mas com o pensamento voltado unicamente para a linha de chegada.  Apesar de indícios que apontam uma jornada árdua, como a taxa de desemprego e o baixo crescimento da economia, há também bons presságios. Somente em uma semana de dezembro, a equipe de Obama organizou 57 treinamentos para líderes locais que trabalharão na campanha (George W. Bush, em 2004, organizou 52 durante janeiro em diferentes estados do país), isso somente em Iowa. 

Além disso, a arrecadação de fundos também está a todo vapor. Até agora, foram quase 200 milhões de dólares, quatro vezes mais do que Romney levantou em 2011. A projeção da equipe de Obama é bater a marca de 1 bilhão de dólares até novembro. Neste contexto, destacam-se as doações de valores reduzidos (até 200 dólares), que correspondem a quase 50% do total. Com tanto dinheiro na conta, já foram contratadas mais de 200 pessoas para trabalhar exclusivamente pela reeleição. Mesmo com os elementos negativos considerados, a vantagem de Obama é solidificar desde já seu posicionamento frente aos republicanos.

A idéia principal será focar o debate no futuro, ao invés do passado doloroso recente; e procurar explorar os caminhos alternativos que os oposicionistas poderiam propor frente aos desafios atuais. Será que vem aí essa tal campanha ainda mais revolucionária que a de 2008? Romney segue como favorito no campo republicano, ameaçando Obama nas pesquisas de um hipotético confronto entre eles. Desta vez, parece que a eleição penderá mais aceitar do que adotar uma plataforma. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O Haiti é aqui?

"Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui." [...]

Os versos acima, eternizados por Caetano Veloso no início da década de 1990, refletem uma implícita crítica social e uma literal discussão que tem se destacado nas últimas semanas. Dois anos após o terremoto que devastou o país, constata-se a maior imigração haitiana para o Brasil desde o século XX. Desta forma, o assunto entra na pauta nacional e causa diversas reações.

O fato é que o terremoto que atingiu especialmente Porto Príncipe, a capital haitiana, há dois anos foi a "cereja" de um "bolo" que nunca encontrou o "ponto certo" – como nossas avós diriam (veja interessante post antigo no blog à época do terremoto aqui). A catástrofe natural que assolou o país foi de um nível de destruição tão alto que talvez só não seja superado pelo nível de incapacidade estrutural (notadamente do governo) em lidar com a situação que se seguiu.

Incapacidade que, segundo o atual governo – cujo mandato se iniciou em maio do ano passado –, foi herdada de governos anteriores. A afirmação não é falsa (pelo contrário!), mas é notável como tal herança parece multiplicar-se ao invés de desfazer-se com seus sucessores, assombrando um sofrido país e provocando inquietudes diversas.

Dada uma situação ainda em ruínas no país, a imigração tem sido considerada a única saída para muitos nacionais. E o equivalente ao tradicional "sonho americano" para os haitianos é, apesar do complicado acesso geográfico, o "sonho brasileiro". Com a entrada recente (e em sua maior parte irregular) de aproximadamente 4 mil haitianos no Brasil, o assunto merece, sem dúvida, atenção especial.

Cidades amazônicas, especialmente Tabatinga (Amazonas, foto inicial do post) e Brasiléia (Acre), têm concentrado os imigrantes haitianos que chegam com a esperança de recomeçarem suas vidas em um país do qual a ideia de crescimento parece ser indissociável no momento. A noção de que esse crescimento acelerado é paradoxalmente acompanhado de desigualdades internas ainda extremas não parece indispor os haitianos a essa busca por uma recomeço em terras tupiniquins. O Haiti é aqui?

A concessão de vistos humanitários tem ocorrido aos haitianos que chegam, mas o governo anunciou ontem uma restrição a esse número mensal de vistos, almejando controlar o fluxo de imigração. Medida polêmica, já que a não aceitação do visto pode acarretar em deportação para o Haiti, onde a missão de reestabelecimento da paz da ONU (MINUSTAH) ainda é liderada pelo próprio Brasil. O Haiti é aqui?

A preocupação é complexa e envolve os âmbitos humanitário, político e mesmo econômico, devendo constituir pauta importante da viagem diplomática de Dilma ao Haiti, programada para o começo de fevereiro. As consequências da imigração irregular demonstram que muito ainda deve ser feito no Haiti para que os cidadãos não mais se sintam tentados pelas propostas de coiotes de ilegalmente entrar no Brasil, muitas vezes sob condições desumanas. E, é claro, muito ainda deve ser feito no Brasil para que possamos, efetivamente, afirmar que não, o Haiti não é aqui...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O som da globalização


Quando vi um chinelo "Havaianas" no chão do hostel onde fiquei na Argentina, com uma bandeira do Brasil nas "tiras", logo pensei: deve ter um brasileiro aqui. Para minha surpresa, as Havaianas pertenciam a um israelense, que mal sabia que o desenho ali era a bandeira do Brasil. 

Aliás, sobre as Havaianas, vale a pena relembrar (ou para os mais jovens até mesmo saber, pois muita gente ainda não sabe) o que era esse produto há uns 15 anos atrás... Para os quiserem, leiam aqui uma matéria interessante. Para se ter uma idéia de como o produto era visto, o antigo slogan era: "não deforma, não solta as tiras e não tem cheiro".

Mas o que mais impressiona (fui ao Uruguai e estou no Chile e o mesmo se repete, e como repete...) é o tal do Michel Teló. Depois de ser comparado com Carmem Miranda e Justin Bieber, a Forbes chamou o brasileiro de fenômeno. "Você já ouviu falar de Michel Teló? Então ouvirá!" diz a revista. Ele já é o mais vendido em muitos países no mundo.

E a música já tem versões em vários idiomas. Clique aqui e descobra como se diz "Ai se eu te pego" em várias línguas.

Contudo, não é só de Michel Teló que vive a globalização. É estranho ir a outro país e ouvir sua língua o tempo todo e encontrar nos supermercados as mesmas marcas e produtos que se encontram no Brasil. Por mais longe que se vá, sempre se encontrará um chocolate Nestlé, uma Heineken ou Budweiser para beber.

Sinceramente, não sei explicar o fenômeno (neste caso não o Teló), que é estudado por diversos pesquisadores sem que se chegue a um consenso sobre o que é, afinal, a globalização. A Rede Globo de televisão, há alguns anos, tentou explicar através do pagode e a nossa colaboradora internacional Bianca Fadel nos escreveu um excelente post sobre o assunto que vale a pena reler.


O fato é que, entre as diversas facetas dessa globalização, surgiu o Michel Teló, que se espalhou viralmente pelo mundo em tempo recorde e é ouvido pelos brasileiros, argentinos, eslovacos, japoneses...

Não temos nenhum prêmio Nobel, mas temos Michel Teló. Quem não tem cão, caça com Teló. Fazer o que, né? Isso é globalização!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

"Ocidentalizando" a China?

Ao que parece, Obama nem sempre se interessa por tudo que Jintao tem a dizer...

Quem diria que reality shows e filmes estadunidenses poderiam ser considerados como nocivos? Quem diria que interessar por fofocas de um “Big Brother” de vez em quando, emocionar-se com as surpresas da competição de cantores como “American Idol” ou mesmo impressionar-se com o realismo e qualidade dos efeitos gráficos de “Avatar” estaria diminuindo o nível de “cultura” da população?

Bom, na verdade, alguns até diriam isso por aqui, mas nada a ponto de o governo criar barreiras e impedimentos de acesso a essas mídias de massa. Enquanto no Brasil vemos a expansão desses programas e filmes, na China, não é bem assim que a banda toca. Não é novidade para ninguém que o governo do partido Comunista exerce censura sobre as mídias. Todavia, o controle atual não parece satisfazer o presidente, Hu Jintao, que em artigo para a revista comunista, Seeking the truth, afirmou que deve haver mais esforços para evitar a “ocidentalização” do país.

As medidas que seguiram ao artigo, no início do ano, bloquearam cerca de 2/3 dos programas de canais fechados chineses, que se pareciam demais com seus similares ocidentais, e incentivam a produção de filmes e programas que fortaleçam a matriz cultural chinesa. O que significa que não vai mais se ver nenhum “Ídolos” chinês por aí!

A ideia é simples e segue uma mesma fórmula que lembra aquela da Revolução Cultural das décadas de 1960 e 1970. Suprimir toda manifestação que tenha origem ocidental e incentivar a produção nacional da indústria cultural, mais enfocada em temas que fortaleçam o “ideal socialista” do governo. O problema é que hoje as dificuldades para um controle mais estrito parecem ser maiores.

É difícil negar que muitos programas e filmes transmitem o tal “american way of life”, como coloca Clovis Rossi, em um interessante artigo à Folha de S. Paulo do dia 5 de janeiro. E para além do estilo de vida, eu também acrescentaria que, particularmente os filmes, transmitem uma ideia implícita de nações amigas e inimigas, já que insistem em incluir referências à Rússia e, ao mais novo queridinho do cinema, o Irã. Essas menções, por mais sutis que sejam, causam um efeito significativo no imaginário da população.

Ao mesmo tempo, parece complicado resistir a essa indústria cultural. A China está a caminho de tornar-se a maior economia do mundo e os jovens do país estão conseguindo driblar os bloqueios impostos à internet. Os valores ocidentais tem de fato crescido no país. Afinal, vivemos uma era de grande conexão, de globalização que, para todos os efeitos, aparece para bem e para mal.

Um cenário como esse leva a um paradoxo de difícil resposta e difícil previsão. Até que ponto a maior economia do mundo conseguirá continuar resistindo à cultura ocidental? Não gosto de futurologia, mas podemos levantar duas hipóteses, diga-se de passagem, completamente opostas, sobre o ciclo que a China está seguindo. A primeira seria o crescimento virtuoso, em grande medida possibilitado por um governo restrito, continuar garantindo o sufocamento da cultura ocidental no país, já que, ao passo que todos estão cada vez mais dependentes da terra do meio, poucos e poucas vezes se arriscam a questionar o regime. A segunda se daria justamente de forma oposta. Por a China estar adquirindo uma posição econômica cada vez mais importante, não conseguiria seguir por muito tempo com esse projeto de grande censura aos programas de entretenimento ocidentais, já que há necessidade de ampliar seus canais de conexão com o e ganhar mais prestígio internacional.

Bom, apesar de ser difícil enxergar para além dessa neblina da indústria cultural chinesa, temos uma certeza: não veremos nenhum Big Brother chinês nos próximos meses!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

País dividido...


Como o Raphael comentou na postagem da semana passada, há cerca de um ano um dos temas que mais despertava atenção para discutirmos era a criação do Sudão do Sul. Dito e feito, em 2011 surgiu o mais novo Estado africano, mas com menos de um ano de existência já parece ter batido um recorde nada invejável.

Lembram da Síria? Sim, aquele país em que o ditador não liga a mínima para a presença de observadores da Liga Árabe (que já não está servindo de muita coisa faz algum tempo, mas não deixa de ser legítima), enquanto seu serviço secreto paga para gangues armadas chacinarem a população revoltada e mantém prisões subterrâneas onde sabe-se lá o quê é feito com os opositores amordaçados. Pois bem, a ONU reconhece que mais de 5 mil pessoas morreram lá por conta dos conflitos, ao longo de mais de 10 meses, desde o ano passado.

Bem, no Sudão, conseguiram chegar perto dessa marca, 3 mil mortos, e com mais de 50 mil refugiados junto, mas em apenas uma semana de conflito. Oficialmente, a extensão dos danos, assim como o número exato de mortos, não são claros, mas têm origem em tensões étnicas e conflitos tribais. É um Estado sendo posto à prova e falhando miseravelmente... Teria sido muito prematura essa mudança de governo? Ou já era algo de se esperar? Falta o apoio internacional? Sequestro de mulheres e crianças se somam a fome e miséria em um cenário de crise humanitária desesperadora. Enquanto isso, as coisas não são melhores no Sudão original - tudo indica que o país esteja rumando para mais uma guerra civil, com opositores clamando por uma derrubada pacífica e rápida do longevo Omar al-Bashir (algo bem difícil de se esperar de um ditador que tem no seu currículo o genocídio de Darfur e não vai largar o osso tão cedo após mais de 20 anos no poder...), e escaramuças periódicas com o vizinho do sul. E isso pra não entrarmos na questão de Darfur, que ainda rende muitas mortes e conflitos incessantes (o último, devido à morte de um líder rebelde).

Prestem atenção – vendo de maneira superficial, temos 3 focos diferentes de conflitos e crises humanitárias, em uma região que era um único país há pouco mais de um ano! O que tiramos disso tudo? Bem, primeiramente, vemos que o tempo passa, o tempo voa, e nada muda naquela região da África subsaariana – seja na Somália ou no Sudão, expectativa de melhora em curto prazo é praticamente zero. Fome, miséria e falta de governança, com governos corruptos e/ou incapazes somados à ignorância internacional, parecem ser algo endêmico e que gera conflito.

Enquanto isso, a criação do Sudão do Sul, em que se esperava haver a possibilidade de finalmente conter a guerra civil que existia há décadas, serviu apenas para reduzir a escala do conflito e limitar seus participantes - sem que se diminuíssem a crueza dos combates e o sofrimento humanitário. Por fim, uma ligação curiosa e irônica entre os casos da Síria e do Sudão - o chefe da criticada e, até o momento, pouco efetiva missão de observadores é um aliado de al-Bashir e procurado pelo TPI por ser um dos criadores das milícias "janjaweed". Com essa experiência, não é de se espantar que a missão de observadores não esteja dando muitos frutos...

sábado, 7 de janeiro de 2012

Que vença o melhor


Ou não. Definir quem será o melhor candidato, aquele que represente a base republicana, não é tarefa fácil. Em outro artigo, já havia tratado do sistema eleitoral norte-americano, o qual apresenta peculiaridades interessantes e enseja debates intensos dentro dos partidos majoritários nos Estados Unidos. A longa e árdua jornada, que começou oficialmente nesta terça-feira, culminará na convenção do partido republicano em agosto. Somente então, o candidato será oficialmente anunciado pelo partido e embarcará em uma nova disputa contra o atual presidente Barack Obama.

No caso republicano, o cenário que se afigura é o de um presidente cambaleante ante o nível de desemprego alto e sua popularidade baixa. Nenhum presidente, exceto Ronald Reagan, foi eleito com um índice de desemprego superior a 6% (Obama enfrenta 9,1%). Desta forma, haveria uma oportunidade de retomada do poder pelos republicanos. O termo “haveria” é proposital, uma vez que a vantagem depende da união da oposição em torno de uma candidatura. Até o momento não parece existir tal preceito.

De um lado, figura Mitt Romney, tido com um conservador moderado; de outro, aparecem Rick Perry, Rick Santorum, Newt Gringrich e Ron Paul, que se colocam junto à base republicana mais conservadora. No caso de vitória do primeiro, existe a possibilidade de enfraquecimento do partido junto aos mais apegados a ideários defendidos, por exemplo, pelo Tea Party. Considerando uma vitória do segundo grupo, há a possibilidade de rejeição dos mais moderados e mesmo dos independentes. Romney é conservador, ainda que para alguns não o suficiente, aparentando ser o que possui as melhores credenciais para enfrentar Obama.

Contudo, a corrida norte-americana pela Casa Branca reserva surpresas. Há seis meses, Romney liderava as pesquisas, há três meses foi a vez de Rick Perry assumir a ponta, logo depois veio Herman Cain seguido por Newt Gringrich, para finalmente Romney voltar a liderar. Tudo pode mudar, talvez agora com as disputas estado por estado o cenário comece a se solidificar. Na primária de Iowa, que abriu a disputa republicana, Romney venceu Santorum por oito votos (ambos com 25% do total), seguido por Paul com 21,3%, Gringrich com 13% e Perry com 10,3%. Desistentes vão ficando pelo caminho, tal qual Bachman, Cain e Huckabee, enquanto a disputa começa a se circunscrever a poucos.

Obama, mesmo negando, já está em campanha. Como se estivesse em uma pole position, esperando alguém se posicionar do seu lado para a largada. A vantagem pode não ser numérica, relembrando os últimos dados relativos àeconomia e projeções para a eleição, mas resta tempo para Obama limpar seu lado da pista e torcer para que as primárias republicanas causem avarias ao oponente. Tudo pode mudar já na primeira curva. O atual presidente, que tem alguma vantagem, necessitará alinhar seu discurso a conquistas (essencialmente na economia e no combate ao desemprego). O “change, we believe in” e o ser diferente do tradicional de Washington, parte da plataforma adotada em 2008, foram suplantados por dados reais. Resta esperar o combatente escolhido para enfrentá-lo. Que vença o melhor?