O vice-debate

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Uma guerra de gerações, um conflito claro entre pontos de vista fundamentalmente opostos? Certamente. Mais do que isto, foi um debate divertido. O embate teve tons acalorados, pouco fugindo do tradicional embate entre democratas e republicanos. A principal questão levantada após o debate foi a postura do vice-presidente, que a todo o momento interrompia seu oponente e zombava de seus comentários. Pois bem, foi justamente a postura de Biden que possibilitou um debate tão interessante, apesar dos encontros entre candidatos a vice-presidente terem tido pouca importância ao longo da história das eleições nos Estados Unidos.

Ambos declaram vitória, com certa razão. Afinal, Biden e Ryan fizeram o que esperavam fazer. Pelo lado democrata, fazia-se necessário demonstrar mais energia na defesa de suas escolhas como governo e na proposição de uma agenda para os próximos quatro anos. Biden seguiu o plano com maestria, contrastando com o Obama do primeiro debate presidencial. Já Ryan precisava mostrar se é ou não uma alternativa viável e se possui a experiência necessária para assumir um posto de grande relevância. Assim como seu rival, o republicano cumpriu seu papel, demonstrando segurança e não arrefecendo diante da agressividade de Biden.

Todos os principais assuntosforam tratados, desde temas da política interna, como crescimento econômico, criação de empregos, sistema de saúde e corte de impostos; até temas da política externa, como Irã e Líbia. De certa forma, muito do que foi discutido representou uma repetição das tradicionais discordâncias entre os dois partidos. Mais do mesmo. Por um lado, Ryan alarmava sobre as escolhas de Obama, as quais, segundo ele, haviam tornado o mundo mais caótico e eles (norte-americanos) menos seguros. Biden, por outro, afirmava que Ryan ajudara a cortar 300 milhões do orçamento de defesa das embaixadas e consulados, rebatendo críticas contra a ação do governo no episódio do ataque à representação diplomática norte-americana na Líbia.

O ponto alto de Ryan foi um ataque direto à Biden: “as palavras nem sempre saem da sua boca da forma correta”, em referência as recorrentes gafes do vice de Obama. Além disto, na política internacional, o republicano criticou duramente a forma que o tema Irã vem sendo tratado. Já o ponto alto de Biden foi: “vocês (republicanos) colocaram duas guerras no cartão de crédito e ofereceram 1 trilhão de dólares em corte de impostos para os mais ricos. Eu estava no Congresso, votei contra. E agora, de repente,  estes caras estão preocupados com a dívida que eles mesmos criaram”.

Definitivamente foi um belo aquecimento para o próximo debate entre Obama e Romney. As posições em termos de política exterior, sistema de saúde, crescimento econômico e impostos seguem em direções opostas. Foi o primeiro e último debate entre os candidatos à vice-presidência, a corrida seguirá na mão dos protagonistas. Os democratas e republicanos terão novas oportunidades de discutir seus programas de governo, a próxima será na semana que vem. A candidatura republicana cresceu após o primeiro debate entre os presidenciáveis, Biden tratou de colocar fim a queda através de uma postura mais enérgica. Ryan não comprometeu e demonstrou ter segurança. E agora Obama e Romney?


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E o prêmio vai para…

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…a União Europeia! Sim, o Prêmio Nobel da Paz edição 2012 foi concedido hoje para a União Europeia. A mesma União Europeia que tem aparecido quase que diariamente nas manchetes internacionais devido a grandes dificuldades internas, hoje figura de forma comemorativa nas mesmas manchetes, com grande repercussão no mundo inteiro.

Para justificar a escolha do vencedor, o comitê norueguês responsável pelo prêmio ressaltou a importância desse bloco regional para a consecução da paz no continente durante as últimas várias décadas pós-Segunda Grande Guerra.

Encarada como “incentivo à superação” por alguns ou “brincadeira de mau gosto” por outros, fato é que a escolha do bloco europeu pra esse prêmio tão renomado internacionalmente não poderia ter acontecido em momento mais delicado. 

Momento em que a União sofre grandes dificuldades de aceitação e legitimidade, em meio a uma crise econômica que chega a apresentar riscos à própria manutenção do euro, diante das incertezas por parte do mercado financeiro. Os cortes aos benefícios sociais e direitos trabalhistas tornam certas medidas impopulares, e são ainda notáveis as dificuldades entre os países-membros que, apesar de constituírem um mesmo bloco, sofrem de formas distintas as consequências da crise.

Reconhecer o papel histórico relevante da União Europeia nos últimos tempos é válido e reforça a importância dos blocos multilaterais para a construção do diálogo entre os Estados. Contudo, dedicar um Prêmio Nobel da Paz ao bloco em um momento de tantos questionamentos e dificuldades parece ser fruto de uma estratégia notadamente política.

Visto como uma surpresa pelos grandes líderes regionais, o fato de o prêmio ser, de certa forma, “oferecido” pela Noruega (país que recusou mais de uma vez a entrada no bloco), não deixa ainda de representar mais uma ironia a ser considerada.

Dado o alto valor em dinheiro que o prêmio concede aos escolhidos para a nomeação, Lech Walesa, ex-presidente da Polônia e Prêmio Nobel da Paz de 1983, ao concordar com a relevância da União para as transformações recentes europeias, reconhece, contudo, o custo financeiro existente para este fim. Bem diferente de muitos casos de ativismo pessoal pelo mundo… 


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Aos 17 minutos do primeiro tempo…

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Quem assistiu ao clássico do futebol espanhol? Sim, no último dia sete de Outubro, em pleno jogo entre Real Madrid e Barcelona, o qual terminou empatado em 2×2, ocorreu um episódio de chamar a atenção de qualquer observador que está mais preocupado com outras questões além dos famosos gols de Cristiano Rolando e Messi. Estou falando da manifestação protagonizada pela torcida do Barcelona, que dá nome à capital da comunidade autônoma espanhola de Catalunha. (Quem não viu, pode ver aqui). 

Aos dezessete minutos e catorze segundos do primeiro tempo, quase cem mil vozes entoaram um grito de independência! Por que neste exato minuto e exatos segundos? Foi uma referência ao ano de 1714, quando os catalães foram derrotados e dizimados pelas tropas do Reino da Espanha na Guerra de Sucessão. Acompanhando as recentes crises econômicas, bem como os altos índices de desemprego que chegaram à casa dos 25% para os espanhóis, este tipo de manifestação separatista começou a ganhar um peso nunca antes imaginado na Europa. 

A Catalunha, juntamente com o País Basco (que é país somente no nome), são os dois exemplos espanhóis de aversão ao poder central do Estado. Catalães e bascos não se sentem representados pelo governo espanhol e não têm identidade para com o mesmo. Muito além disso, representam um debate contemporâneo que põe em cheque a figura do Estado, o qual, teoricamente, deveria prover os requisitos básicos aos seus cidadãos. Num momento em que a capacidade do Estado em controlar seus territórios é declinada e a volatilidade do mercado financeiro foge do seu caráter centralizador, está sendo comum ver este tipo de “reviravolta” nas mais variadas partes do mundo. 

Isso acontece em Quebec, a maior província canadense, em partes na região autônoma de Hong Kong e por aí vai. Mas, em sua maioria, os principais casos são europeus, especificamente dentro da União Europeia. Mesmo estando limitados pela Espanha, Catalunha e País Basco possuem fortes relações econômicas e cooperativas com o país vizinho, a França. Flandres, ao norte da Bélgica, pode concluir tratados com terceiros países, obter representação diplomática para além de suas fronteiras e participar da agenda de política exterior belga. Escócia, parte do Reino Unido e “vítima” dos interesses ingleses, tem um escritório executivo em Bruxelas, atua com uma Agência de Desenvolvimento em mais de quinze países e participa formalmente do Comitê das Regiões, instituição do bloco europeu que conta com a participação de organizações políticas locais (cidades, regiões, etc.). 

Assim, Catalunha, País Basco, Flandres e Escócia são a ponta de um iceberg que está, progressivamente, descongelando. O grito dos catalães no jogo entre Real Madrid e Barcelona pode parecer algo pontual, mas não é. É reflexo da crise estatal e do processo de integração da União Europeia. Novos atores entram em cena, inclusive aqueles denominados de “subnacionais”, ou seja, aqueles que estão dentro do Estado, seja uma comunidade autônoma, região, província, cidade, etc.

Os gritos clamando por independência são reflexos das novas relações internacionais. De uma simples competição de futebol a um câmbio político de grandes proporções, tudo é possível. Fiquemos atentos aos próximos lances das partidas.


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Protegendo?

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Onde está o limiar entre ações protecionistas, entendidas como práticas corrosivas ao mercado internacional, daquelas medidas bem-vindas às indústrias? Infelizmente, não existe resposta muito objetiva. Esse tipo de discussão sempre incorrerá em perspectivas diferentes partindo das visões divergentes dos países. Mas, no cenário internacional atual, mantendo-se dentro de um conjunto aceitável de regras da OMC, pode-se tentar barganhar pela legitimidade de um argumento. 

E a União Europeia não tem se poupado para obter esse recurso. O mais recente caso foi a ameaça de protestar na OMC contra a nova política automotiva do Brasil, o “Inova-Auto”, publicado na semana passada. Basicamente, o bloco critica o governo brasileiro de tomar uma medida de caráter protecionista e diz que vai tentar buscar legitimidade de sua posição na OMC. 

Ora, mas será que é protecionismo mesmo? 

Bom, antes de tentar responder à pergunta, vamos a algumas características dessa nova política. No contexto de crise econômica internacional e de diversas críticas a um suposto processo de desindustrialização do Brasil, para que as empresas automobilísticas tenham um desconto de 30% no valor do IPI (imposto sobre produtos industrializados), é preciso que elas tenham uma fábrica no país. Caso não o tenham, há um valor limitado de carros importados com o desconto no imposto. Da mesma forma, as empresas precisam cumprir alguns requisitos no uso de energia, como aumentar em 12% a eficiência dos motores, e manter um certo volume de peças nacionalizadas. Ainda há descontos extras no IPI para aqueles que também forem capazes de investir na redução do uso de combustíveis. 

Resumidamente, esse novo regime automotivo brasileiro representa uma tentativa do governo de incentivar investimentos em tecnologias e inovação na indústria automobilística instalada no país, aproximar-se do cumprimento de metas de redução de gases de efeito estufa e ainda exigir produtos de maior qualidade para o consumidor. 

Agora, voltando para nossa pergunta, podemos dizer que a medida é protecionista? Em termos absolutos, não tem como negar que a medida tem “um que” de protecionismo. Entretanto, em termos relativos, não. Ora, é sim uma forma de proteger o mercado contra os importados, pois a necessidade de ter uma fábrica no país e de cumprir com as exigências técnicas é um fator limitante. Por outro lado, mais que protecionismo, é uma demanda por maior qualidade dos automóveis vendidos por aqui e de busca por movimentar o mercado nacional. Isso porque, ao se exigir peças nacionais, mexe-se também em inúmeras outras indústrias que podem gerar empregos. 

Bom, sem entrar no mérito dos economistas sobre se a política vai produzir efeitos sobre preços e volume de empregos, pode-se ver que nesse sistema econômico liberal construído após a II Guerra Mundial, ser taxado de protecionista é ser alvo de descrédito. Mesmo tendo sido a União Europeia indicada como campeã de protecionismo nos últimos tempos, criticar políticas que fazem empresas importantes saírem de suas zonas de conforto é sempre mais conveniente do que adaptar-se. E, no fim das contas, o discurso de crítica ao protecionismo representa apenas uma forma de proteger suas próprias medidas protecionistas.

[Para mais: 1, 2, 3]


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As chaves para um futuro?

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Olha ele aí de novo. Vamos falar de Hugo Chávez até 2019, pelo menos. Se vai ser bem ou mal, depende do presidente venezuelano (apesar de, pessoalmente, achar que nenhum governante, por mais santo que fosse, devesse passar tanto tempo no poder em qualquer lugar). Mas, sobre as eleições desse final de semana, vencidas pelo atual presidente, acredito que o resultado geral tenha sido positivo, por diversas razões, sendo que pela primeira vez temos um pleito sem acusações graves de fraudes. 

A Venezuela empregou um sistema “turbinado” de votação com urnas eletrônicas touchscreen e com biometria somada à impressão dos votos, de fazer inveja ao brasileiro. Nada de pancadaria ou revoltas pós-eleições, o que sempre é um bom sinal. Além disso, a vitória confortável de Chávez (54% dos votos) não impediu que houvesse uma votação expressiva no candidato da oposição, Henrique Capriles (com 44%), mostrando que Chávez não é tão unânime e que a oposição pode ter aprendido sua lição após o boicote de 2005. Não vamos entrar no mérito de dizer se um dos lados está certo ou não (mesmo por que seria uma discussão sem fim), mas é importante que haja uma oposição com um mínimo de força, em qualquer sistema democrático, e isso faltava na Venezuela há algum tempo. 

A grande questão agora é ver o que rola nos próximos anos. Chávez anuncia que vai aprofundar seu projeto bolivariano, o que pode significar de aprofundar as relações com os aliados da América Latina a nacionalizar parte de setores da economia como bancos ou saúde. Por um lado, por mais que haja questionamentos sobre o modo como suas reformas são aplicadas, se estão surtindo algum efeito positivo na população venezuelana, quanto melhor. 

O problema é que o modelo tem prazo de validade. Chávez depende demais da produção de petróleo para ter dinheiro em caixa, e bastou uma ondulação no passado para que houvesse problemas de abastecimento interno como alimentos e energia (ironicamente). Esse modelo depende de presença estatal ostensiva, e vai ter que enfrentar o teste de fogo das variações de preço internacionais nesse contexto de crise, e a popularidade de Chávez deve ser posta à prova de modo mais efetivo nesse mandato (considerando que poderia ter acontecido já nesse último, mas sua luta contra o câncer, louvável, certamente teve um efeito positivo para sua imagem). 

O aumento da oposição nas eleições de ontem mostram que há uma dissidência. Se acontecer essa insatisfação, ou mesmo uma crise mais grave, seja econômica ou de abastecimento, qual vai ser a reação? E tudo isso interessa demais ao Brasil, seja pela estabilidade regional, seja pela presença da Venezuela no Mercosul agora. A certeza é que vamos ter sobre o que falar até 2019.


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Há um ano...

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Fazemos nossa atividade semanal de recordar e viver o que se passava há um ano, com algumas postagens que dizem muito sobre o mundo de hoje. 

No dia 03, comentávamos sobre a morte do clérigo Anwar al-Awaki, no Iêmen, um cidadão norte-americano que trabalhava para a Al-Quaeda e cujo despacho foi comemorado pelos EUA como uma vitória na guerra contra o Terror. O problema é o modo como isso aconteceu – morto por um drone das forças armadas, em território estrangeiro. A discussão vale até hoje, sob vários aspectos. A questão do limite “judicial” (ou até que ponto um Estado pode deixar de considerar um cidadão como tal e passa a encará-lo como um inimigo, ou ameaça existencial, a ponto de matá-lo sem julgamento ou coisa parecida) vale quando pensamos em como os EUA agem nessa luta. Há histórias escabrosas de como o FBI se infiltra em organizações e arquiteta ataques terroristas dentro do próprio país. Não seria isso fabricar um inimigo do Estado? Se não por essa discussão, a postagem é atual hoje quando pensamos em como o Iêmen ainda é uma base para o terrorismo na região (ainda mais com as instabilidades pós-“Primavera Árabe”) e como os drones parecem ser mesmo o futuro da aviação de combate. 

Três dias depois, comentávamos sobre a política externa do governo atual. Até hoje, existem muitas dúvidas sobre como seria esse caráter da política externa de Dilma, e esse era o tom da postagem, com a dúvida sobre o modo como essa política dava continuidade às anteriores ou tinha pinceladas particulares de sua mandatária. Hoje, quando vemos o discurso do Brasil na AG da ONU, se percebe de um modo cada vez mais claro como os temas acabam parecendo os mesmos de sempre. Ao mesmo tempo em que trazem temas importantes à pauta, a política externa atual do Brasil parece beber demais da fonte do governo anterior, e ouso dizer até mesmo que na prática se encontra inalterada. 

Por fim, no dia 07, comentávamos sobre a participação da cantora Shakira em uma comissão do governo dos EUA – uma jogada óbvia de Obama para atrair a simpatia do eleitorado latino. E isso remete, claro, ao ano eleitoral, que promete surpresas. Obama tem popularidade relativa, mas parece que terá um páreo duro contra Mitt Romney, o que chega até a ser surpreendente. As análises do último debate apontam que Romney teve mais sucesso que Obama, uma surpresa vindo do candidato que causa vergonha alheia pela falta de desenvoltura que apresenta em cena. A possibilidade de uma vitória republicana faz com que o mundo preste atenção nas possibilidades que pode acarretar, e deixa Obama em uma situação delicada com a busca pelo voto não apenas dos latinos, mas da camada média que penou em seu governo. 

E vamos que vamos, postando e relembrando pessoal…


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Post do Leitor

Post do leitor – William Soares Gonçalves

[Hoje temos o prazer de publicar no blog um post do leitor diferente. Este texto nos foi enviado por William Soares Gonçalves, dedicado aluno do final do ciclo do Ensino Fundamental na Escola Estadual Profª. Zeicy Apparecida Nogueira Baptista, em Taboão da Serra/SP. Neste texto, William nos apresenta sua visão sobre uma lei nacional envolvendo os caminhoneiros. Vale a pena conferir sua análise! Boa leitura!] 

Gigantes do asfalto

 

Muito se tem falado sobre a nova lei imposta pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran) ao governo, que obriga caminhoneiros a fazerem paradas de descanso pelo menos de 11 horas em um período de 24 horas. Esta nova lei gerou muita discórdia na classe dos caminhoneiros, pois como eles poderiam fazer paradas em lugares que nem sempre se tem hotéis ou postos de gasolinas, para que os motoristas pudessem cumprir sua jornada de descanso?

Os caminhoneiros estão pedindo mais estrutura nas estradas que eles possam cumprir a lei em segurança. Por outro lado, uma das polêmicas geradas pela nova lei é a questão do tempo de entrega de fretes que os companheiros da estrada devem cumprir. Muitos fretes que os caminhoneiros fazem têm que serem entregues no tempo certo, que é imposto pelas transportadoras. Essas cargas são chamadas de cargas perecíveis, ou seja, produtos que podem ser estragados facilmente.

É ai nesta corrida contra o tempo que acontece a criação da lei. Os motoristas são subordinados a viajarem no menor tempo possível, cortando estradão dia e noite, e é assim que o perigo chega. Rodando noites e noites, o cansaço bate, e junto com ele o sono, que muitos caminhoneiros tentam driblar, usando drogas como o “rebite”, que é um estimulante para que os motoristas possam ficar horas e horas acordados. Mas quando o sono bate de verdade, não tem “rebite” que dê jeito, e aí é que acontecem as tragédias nas estradas envolvendo os caminhoneiros que são noticiadas em telejornais.

Devido às altas estatísticas envolvendo acidentes com caminhoneiros, a lei do descanso foi criada. Mas está lei também foi criada para preservar a vida dos irmãos da estrada. O que seria de nós sem os caminhoneiros? São eles que nem sempre têm o valor merecido, que carregam a economia do país nas costas, transportando o arroz e o feijão para as nossas mesas, deixando suas famílias em casa para cumprirem seus deveres e às vezes, ou muitas vezes, não tendo a valorização de seus trabalhos por nossa parte.

Então fica a reflexão, para que possamos valorizar mais essa classe de trabalhadores que passam horas e horas na “boleia” do caminhão para sustentar nossa sobrevivência, e sustentar principalmente suas famílias. Fica uma simples pergunta: você passaria dias longe de sua família para levar o pão e o leite para outra? O caminhoneiro passa. 


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À sombra da guerra

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Certa feita disseram que os países viviam à sombra da guerra. O contexto era de tensão bipolar e a guerra era tida como improvável, mas a paz, impossível. O mundo então caminhava perdido nesse complexo meio termo. O tempo passou e essas palavras não soam menos verdadeiras atualmente. A guerra talvez tenha mudado um pouco de caráter, e um conflito generalizado não seja mais esperado entre potências. Todavia, essa sombra ainda nos acompanhou século XXI a dentro. 

A questão é que recentemente as palavras desse autor, Raymond Aron, fazem-se mais atuais do que nunca. Os conflitos internos na Síria tem despertado inquietações no vizinho, que, pela primeira vez em anos, fala de guerra. Na última quarta-feira, um morteiro sírio ultrapassou as fronteiras com a Turquia e matou cinco civis no país. A situação levou o Parlamento turco a aprovar uma moção considerando a possibilidade de guerra com a Síria, caso fosse necessário. 

A partir daí as tensões começaram a escalar. A Turquia realizou uma incursão militar no norte da Síria para desencorajar que algo do tipo acontecesse novamente. Como fosse uma ironia do destino, hoje um novo morteiro ultrapassou as fronteiras; desta vez, sem vítimas mortais. Foi o suficiente para que a Turquia bombardeasse a parte síria da fronteira e começasse a enrijecer o discurso sobre a guerra. O premiê Recep Tayyip Erdogan chegou a declarar que o governo turco pode estar bem próximo de um conflito. 

Há de se convir que Turquia e a Síria não são lá os vizinhos mais amáveis. Historicamente, esses dois países já não se dão bem desde a Segunda Guerra Mundial, quando a Turquia absorveu o território de Hatay, reivindicado pela Síria. E, ao final dos anos 1990, esses países quase entraram em guerra direta devido a essa disputa territorial. 

Findado o contencioso, essas disputas ainda permanecem no imaginário dos governantes. A despeito de ter sido sob as gestões de Erdogan e Bashar Al-Assad que se reduziram as tensões, bastou que o conflito interno eclodisse na Síria para que as rivalidades despertassem mais uma vez. Outro elemento importante é a questão do grande volume de refugiados sírios na Turquia. Estima-se que tenha ultrapassado a marca das 200 mil pessoas e o governo já tem apontado para a falta de espaço para esse número de pessoas. 

Por mais que a população refugiada não tenha diretamente a ver com os objetivos do governo sirio, a existência do conflito interno no país vizinho tem afetado diretamente os assuntos internos da Turquia, reduzindo também sua tolerância. Mesmo porque esse não é o primeiro morteiro a ultrapassar o território sírio e eventos como esse já ocorreram; mas, até então, nenhum deles tinha causado mortes. 

A guerra se avizinha no horizonte desses vizinhos. A pressão sobre Síria ocorre em um momento no qual Assad não poderia desviar suas atenções para adversários para fora de suas fronteiras. O governo sírio já desculpou-se internacionalmente e apontou que não tomará ações que levem à guerra (pediu que se mantivesse a luta há no mínimo 10 km da fronteira). Todavia, há quem diga que, tanto no amor quanto na guerra, vale tudo. Será que os rebeldes usarão dessas tensões em seu favor para tentar virar o jogo? É preciso aguardar os próximos dias para que se assista aos capítulos subsequentes. Enquanto isso, Turquia e Síria ficarão à sombra da guerra.


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Sempre é tempo de eleição

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Nos Estados Unidos, Obama e Romney fizeram o primeiro debate antes das eleições presidenciais que ocorrerá no próximo mês de Novembro. Na Venezuela, o atual presidente Hugo Chavez encontra, pela primeira vez, um rival de peso, o opositor Henrique Capriles, na disputa por votos. E, no Brasil, teremos novamente processos eleitorais municipais para ver quais prefeitos e vereadores continuarão ou entrarão na política nacional. 

Ontem mesmo ocorreu, na Universidade de Denver, no Colorado, o encontro entre presidenciáveis norte-americanos (a íntegra está disponível aqui). Para quem esperava novidades, nada disso aconteceu. As trocas de farpas e acusações foram, em sua maioria, a respeito da economia interna do país. De um lado, Romney atacava o adversário dizendo que a crise de 2008 ainda não fora resolvida e justificava sua postura republicana defendendo a mínima intervenção do Estado nas questões econômicas. Já Obama, protegia-se, claro, e parece que se saiu melhor. Mesmo com as prévias, o atual presidente lidera as pesquisas. O mais interessante, em momento pontual do debate, foi Obama dizer que já acabou com a guerra no Iraque e fará isso com o Afeganistão. Se for, tem que fazer isso logo, porque os EUA já tiveram imensos prejuízos com ambos os conflitos. 

Chavez se encontra em uma disputa nunca antes vista durante seus últimos catorze anos de governo. Neste caso, como também já se esperava, a querela parece ser mais ideológica. De um lado, o atual presidente foca-se em suas reformas sociais realizadas ao longo dos últimos mandatos. De outro, o opositor Capriles diz que manterá esta postura, mas com um discurso mais neoliberal. Especialistas dizem que a população não está preocupada com as ideias (sejam elas bolivarianas ou liberais), ou seja, querem inclusão social e ponto. Na última edição do periódico “Le Monde Diplomatique” há uma reportagem intitulada “Um chavismo sem Chavez é possível?” (foto), ou seja, novas dúvidas começam a surgir a respeito do legado do atual governante. A eleição dos próximos dias, com toda certeza, será decisiva! 

 

Por fim, no Brasil, não tem muito o que falar. A Ficha Limpa (ou Suja, como quiserem) continua muito bonita na teoria, mas na prática não funciona. As eleições municipais são vitais para o bom funcionamento da federação, mas tudo continua a mesma coisa. Candidatos com nomes hilários, corrupção pra lá e pra cá, adesivos estampados em carros e por aí vai. Só resta esperar e advertir para a importância de quem vai votar. No site “DivulgaCand” do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) encontra-se a lista dos candidatos registrados em todos municípios brasileiros. Entre e veja as propostas!


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Diálogo internacional

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Os últimos dois dias estão sendo marcados pela ASPA, a Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da América do Sul e Países Árabes, que acontece no Peru em sua terceira edição. Com o (sempre válido) objetivo de aprofundar os laços políticos e econômicos entre os países-membros, o encontro está sendo pautado por discussões principalmente em relação aos temas de protecionismo econômico e da busca pela paz no conflito sírio.

Considerando que o tom é sempre cooperativo em eventos deste porte, a ASPA representa mais um grupo de discussões e concertação internacional. Idealizado pelo Brasil (!) em 2003, os promissores membros deste grupo reunidos representam hoje uma população de aproximados 750 milhões de habitantes e um PIB de US$ 5,4 trilhões.

Com a expectativa de assinarem a “Declaração de Lima” ao final dos debates, as críticas mais contundentes expressadas nos discursos dos presidentes presentes, especialmente da presidenta Dilma, são relativas ao “protecionismo disfarçado” dos países desenvolvidos no combate à crise. No contexto do bloco, o intercâmbio comercial entre as duas regiões (América do Sul e Países Árabes) foi ampliado em mais de 100% nos últimos cinco anos, o que demonstra um impulso à cooperação sul-sul.

No dia também em que um estudo prospectivo da Cepal (a Comissão Econômica para América Latina e Caribe das Nações Unidas) demonstra níveis de crescimento não tão animadores para o Brasil este ano, em relação aos demais vizinhos latinos, o tema parece ser de delicada importância.

Para além da esfera econômica, a Síria, é claro, está sendo o centro das atenções do encontro. Como intervir para conter a violência? Como alcançar o diálogo? Como criar as condições para a paz? Perguntas essenciais que permeiam todos os discursos políticos, sem que ainda seja visualizada qualquer solução prática. Sendo a primeira reunião do grupo após a “primavera árabe”, o tema é sensível a todos os seus membros, apresentando muito mais perguntas que respostas efetivas.

De encontro em encontro, de declaração em declaração, de decisão em decisão, as relações internacionais vão sendo construídas diariamente. Talvez seja difícil prever as consequências práticas de eventos diplomáticos como a ASPA, mas mais difícil ainda, com certeza, seria prezar pela cooperação internacional sem a existência de espaços assim. A ver quais serão os pontos reforçados na Declaração de Lima, mantendo-se a (sempre existente) expectativa de que as (boas) intenções no papel possam ser convertidas em decisões práticas em um futuro próximo. 


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