Conversando com a Teoria

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Post do Leitor

[Dando continuidade a nossa análise, hoje teremos um post especial e riquíssimo, de autoria de nosso colega Bruno Hendler, mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e bolsista CAPES, no qual ele abordará a teoria do sistema-mundo e seus autores. Aproveitem!] 

Sistema-mundo e as relações internacionais 

Sistema-mundo moderno de 1500-1775 (BRAUDEL, F. Civilização material, economia e capitalismo. Séculos XV-XVIII: O tempo do mundo. São Paulo, Martins Fontes, 1996. p. 18-19)

A perspectiva teórica dos sistemas-mundo surge com a publicação do livro “The World-System Analysis” de Immanuel Wallerstein, como uma crítica à centralidade do Estado nas ciências sociais. Sua origem está ligada ao surgimento da economia política internacional nos anos 70 e aos questionamentos da época sobre os rumos do sistema internacional frente à crise hegemônica dos EUA durante a Guerra do Vietnã e o fim do padrão ouro-dólar. Assim, autores da teoria da estabilidade hegemônica como Gilpin e Kindleberger, da interdependência complexa como Nye e Keohane e o próprio sistema-mundo de Wallerstein apontavam respostas diferentes para perguntas parecidas. Vamos ficar com o último e ver mais a fundo as bases do sistema-mundo para entender suas respostas. 

Em primeiro lugar, o método de análise dos sistemas-mundo evita o uso de conceitos abstratos para depois buscar exemplos históricos que os comprovem ou refutem. Wallerstein utiliza o método da “comparação incorporada”, ou seja, seus conceitos são construídos à medida que avança na análise da história. Para ele, o sistema social que existe hoje surgiu no fim da Idade Média na Europa Ocidental e se expandiu pelo mundo todo como a soma de um sistema de unidades políticas competitivas e uma divisão internacional do trabalho que supera as fronteiras políticas e funciona sob a lógica do capitalismo. 

Teríamos dois tabuleiros no sistema-mundo moderno, que se afetam mutuamente: a esfera do capitalismo, onde os agentes empresariais buscam lucro e riqueza com aplicações econômicas; e a esfera do sistema interestatal, onde os Estados aplicam recursos de violência em busca de poder. É importante ressaltar que nas duas esferas há uma hierarquia que define o papel dos agentes e faz o sistema oscilar entre a ordem e a anarquia. 

No tabuleiro do capitalismo, também chamado de economia-mundo capitalista, existe uma polarização de riqueza, não apenas entre classes, mas principalmente entre regiões do sistema. Wallerstein se aproxima dos teóricos da dependência ao verificar uma hierarquia na divisão internacional do trabalho entre regiões ou Estados centrais (que se ocupam de tarefas que exigem maior qualificação, aplicação de tecnologia de ponta, agregação de valor a mercadorias e maior acumulação de riqueza) e regiões ou Estados periféricos (que apresentam baixa rentabilidade marginal e transferem para as regiões centrais grande parte do seu excedente de riqueza). Porém, Wallerstein vai mais longe e ainda identifica regiões ou Estados semi-periféricos, onde há uma proporção equilibrada entre atividades que acumulam e transferem valor. 

O tabuleiro do sistema interestatal também tem suas assimetrias, que dependem não apenas dos recursos de poder entre os Estados, mas da função que ocupam na economia-mundo capitalista. Assim, Giovanni Arrighi, outro expoente, percebe ciclos entre governança e caos de acordo com potências hegemônicas. A governança decorre da capacidade da hegemonia em garantir a ordem no tabuleiro político (por meio da hierarquia de poder) e a rigidez no tabuleiro capitalista para manter-se no centro; e o caos sistêmico substitui a governança no momento em que surgem Estados capazes de enfrentar militarmente o poder hegemônico e/ou concorrer e ultrapassá-lo na vanguarda do capitalismo. Em outras palavras, a ascensão e queda de potências. Assim ocorreu com o declínio da hegemonia holandesa frente à ascensão da Inglaterra e da França; e o declínio da hegemonia inglesa frente à ascensão da Alemanha e dos Estados Unidos.

Com isso, a grande interrogação que fica é sobre os rumos do sistema-mundo diante das sucessivas crises nas últimas décadas. Wallerstein sugere o “fim do mundo como o conhecemos”, uma verdadeira ruptura com o padrão histórico do sistema-mundo moderno; já Arrighi sugere uma fissão das capacidades sistêmicas: um novo ciclo econômico estaria surgindo na Ásia, puxado pela China, enquanto que a hierarquia no tabuleiro de poder continuaria a favor dos Estados Unidos por um bom tempo. Façam suas apostas!


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O toque do novo Midas

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A internet é uma ferramenta fantástica. É capaz de reduzir distâncias, derrubar fronteiras e fornecer informação com uma velocidade impressionante. E, com a mesma força, pode ainda separar mais as pessoas, ampliar muros e substituir o conhecimento pela informação rápida. Como uma nova versão do rei Midas que, ao invés de transformar em ouro tudo o que toca, pode abrir um universo de novas possibilidades a tudo que entra na rede, enquanto também pode provocar a raiz da própria ruína. 

Um interessante exemplo da força desse nosso novo Midas, foi o vídeo produzido pela ONG (clique aqui para conferir) “Invisible Children” que gerou o maior bafafá (virou até matéria do Fantástico). Motivações muito nobres, disseminadas em uma velocidade impressionante e que, da mesma forma, traziam uma visão simples de uma situação extremamente complexa. Se você está lendo esse post hoje, quase duas semanas depois da divulgação do “viral”, provavelmente você já ouviu falar ou até mesmo chorou assistindo-o. 

O vídeo retrata a situação das crianças soldados em Uganda, utilizadas pelo líder da LRA (Exército de Resistência do Senhor), dos abusos do líder do movimento, Joseph Kony e das violações de direitos humanos. Para tentar solucionar o problema, urge todos que assistiram a participar da campanha para tornar Kony famoso e até mesmo contribuir com recursos para a organização. O objetivo seria pressionar os governantes para incluir os problemas de Uganda em sua agenda política e urgi-los a agir. 

A divulgação representa outro exemplo do ciclo “humanitari-ático” que a Bianca citou em seu último post. Da comoção, partir-se-ia para a ação. Mas, logo o nosso Midas virtual sente a frustração de suas habilidades. Se a comoção foi grande, a crítica também veio com a mesma força. As discussões sobre doações logo deram lugar a tentativas da organização de se justificar frente às denúncias de falta de auditoria dos gastos da ONG (clique aqui e aqui para ler as respostas da Invisble Children) e até mesmo de ações públicas, diga-se de passagem, bem estranhas, de um dos diretores e editor do vídeo, Jason Russell. 

Bom, mas será que tornar Kony famoso é o suficiente? 

Alguns afirmam que não. Dentre eles, parte da população que desaprovou o vídeo por ele não ter sido capaz de enfatizar alguns dos mais recentes e importantes problemas do país. Por exemplo, desde 2006 que Kony não se encontra mais em Uganda e a LRA migra entre o Sudão, Sudão do Sul, Congo e outros países da região. Então empreender esforços para capturá-lo seria tão importante quanto atentar para outros problemas mais essenciais do país, como o altíssimo nível de corrupção e as violações de direitos humanos empreendidas pelo próprio governo de Yoweri Museveni (que já caminha para seu 26º ano)? Será que empreendimentos militares seriam interessantes ou causariam as mesmas discussões que existem hoje a respeito da Síria? 

É tão difícil ditar o melhor caminho, quanto é fácil simplesmente atribuir juízo de valor às ações da “Invisible Children”. Como na história do rei Midas, ele precisou começar tocar as coisas para perceber as reais dificuldades de viver daquela forma. E com o campo da internet e das ONGs talvez funcione da mesma forma. Pelas críticas e diálogo, o novo Midas possa estar encontrando a sua água, aquilo que trará novos caminhos para ação e revelará os problemas dos anteriores.

[Para alguns artigos interessantes sobre o tema clique aqui, aqui]


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Mas de novo??

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Como coincidência pouca é bobagem, pela segunda semana seguida vamos falar de um atirador maluco. Mas agora, em vez de um militar americano estressado fuzilando aldeões afegãos, temos um maluco francês matando quatro pessoas em uma escola judaica em Toulouse, e que pelo visto está envolvido em ataques similares na semana passada. Isso não é novidade aqui no blog, como mostra o caso daquele norueguês doido do ano passado. O problema é que dessa vez não se sabe nada sobre o atirador, que ainda está à solta, e sabe-se lá com qual alvo em mente agora. 

No caso da semana passada, tínhamos um militar sob stress, o que não justifica o que fez, mas serve de explicação (minimamente). Agora, um caso como o dessa manhã, em que não se sabe nada sobre o criminoso (e mesmo seus alvos foram bem variados, supondo que tenha sido o mesmo atirador, diga-se de passagem), o único fio condutor que podemos pensar pra chegar a alguma conclusão, fora a probabilidade lamentável de crimes de ódio, é a questão de porte de armas. Isso foi levantado no massacre da escola de Realengo, do atirador na Noruega, e em tantos outros casos assim nos EUA. Se um militar, alguém que tem porte de armas, faz algo assim, é uma fatalidade. Mas, um cidadão comum, que obtém essa arma legalmente ou não… poderia ter sido evitado? Um controle mais efetivo (ou proibição mesmo) poderiam ter salvado essas vidas? Fica a dúvida. 

Ironicamente, um relatório do SIPRI (Stockholm Inernational Peace Research Institute) lançado hoje também mostrou que aumentou o comércio de armas pelo mundo nos últimos cinco anos, puxado por países asiáticos e pela “Primavera Árabe”. Muito disso é inflacionado por compras de coisas mais caras como tanques e aviões, mas é claro que isso inclui armas leves. E são dessas armas adquiridas legalmente que vêm os desvios, o tráfico e a aquisição de armas ilegais, que muitas vezes são aproveitadas nesse tipo de crime. Repito, ainda é preciso investigar pra entender os motivos, saber quem fez e estabelecer qualquer tipo de relação do que aconteceu na França com essa questão de armas ilegais… mas dá o que pensar, e não deixa de ser um prognóstico muito ruim. Se não por conta de possíveis atiradores malucos, pelas quadrilhas, milícias e forças militares que venham a usar essas armas – e causar a morte de muito mais que 3 crianças e um professor. 

Enquanto isso, a França, assim como a Bélgica na semana passada, fica de luto pelas crianças inocentes.


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Um novo capítulo de uma obscura história

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Talvez um dos capítulos mais perversos da história possa ser ligeiramente retificado. A Igreja Católica, baseada no Vaticano, escolheu um posicionamento oficial de neutralidade frente às inúmeras violações ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial. Tal escolha desencadeou uma série de críticas, na medida em que a instituição era uma das únicas capazes de fazer-se ouvir naquele contexto. Contudo, não o fez.

Em censo realizado em 1925, descobriu-se que a população católica na Alemanha chegava a 21 milhões, cerca de um terço da população do país. Apesar do regime nazista, a princípio, parecer tolerar a autonomia das organizações religiosas católicas, logo ficou evidente que estas só manteriam certa liberdade caso se alinhassem aos objetivos traçados pelos nazistas. Um acordo entre as partes consubstanciou a coexistência entre a prática da fé católica e o governo sob o comando nazista.

Apesar da divulgação de uma encíclica, uma espécie de carta elaborada pelo Vaticano, lida em todas as igrejas da Alemanha em 1937, poucas foram as manifestações oficiais em referência ao que ocorria no período. A encíclica destacou o cerceamento da liberdade e as inúmeras prisões nos quatro anos anteriores. Foi uma crítica aberta ao regime, a qual ensejou diversas represálias e perseguições. O documento representou um contraponto à concordata, uma ação perspicaz e coordenada para criticar a ação de Hitler na Alemanha.

Para historiadores, a morte do Papa Pio XI possibilitou o abrandamento da posição do Vaticano. O documento escrito pelo sumo pontífice no seu leito de morte, conhecido com “a encíclica escondida de Pio XI”, poderia trazer novos elementos para corroborar a tese de que a política de confrontação teria sido sustentada. Seu sucessor Pio XII, por outro lado, poucos indícios têm a seu favor. Para a história, ficou marcado com uma figura omissa frente às violações e conivente com o rumo política traçado por regimes totalitários daqueles tempos.

Por enquanto, a Igreja Católicaainda silenciou diante das atrocidades nazistas. Como opção própria, escolheu preservar-se como instituição através de um acordo formal com Hitler. Não fica claro se a posterior encíclica contrária ao regime representa de fato uma resposta moral (pautada nas violações em si) ou política (baseada nas violações ao estabelecido na concordata). No entanto, o silêncio de Pio XII ainda segue inexplicável. A abertura de novos documentos no Vaticano podem nos ajudar a emendar a história ou simplesmente fortalecer as teses atuais. 


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Ciclo "humanitari-ático"

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“Efeito CNN” é o nome dado a um fenômeno tipicamente moderno nas Relações Internacionais: com o avanço das telecomunicações nos últimos anos, considera-se que a exposição de um acontecimento na mídia tem o poder de provocar respostas massivas dos diversos atores – especialmente os Estados – a eventos globais. Esta exposição midiática faz com que (direta ou indiretamente), os atores se sintam pressionados a “mostrar serviço”, especialmente em relação a questões humanitárias.

No dia de hoje, George Clooney foi o principal responsável por trazer à tona a (complexa) questão sudanesa, ao ser preso após um protesto com demais ativistas em frente à embaixada do Sudão em Washington. Com os dizeres “Sudão: Pare com as armas de fome em massa”, os manifestantes chamaram a atenção para a atual crise humanitária envolvendo o Sudão do Sul.

O Sudão do Sul, país criado em julho do ano passado (tema já abordado no blog aqui e aqui), enfrenta uma situação delicada em termos de refugiados devido aos conflitos entre o Exército Sudanês e o Movimento para a Libertação do Povo do Sudão do Norte na região que faz fronteira com o Sudão – especialmente nos estados de Kordofão do Sul e Nilo Azul. O número de refugiados no Sudão do Sul chega a 100 mil e as condições mínimas para o oferecimento de auxílio humanitário não são evidentes…

Segundo a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), os desafios logísticos para chegar aos refugiados são imensos, principalmente agora com a proximidade da estação de chuvas na região. Garantir o acesso aos serviços básicos (água, alimentos, etc.) é a prioridade.

Diante deste contexto de crise generalizada na região, o esforço hollywoodiano de George Clooney visa atrair a atenção da mídia, o que não basta por si só, mas que constitui uma etapa importante em termos de mobilização de recursos e esforços diplomáticos para atividades humanitárias. O “Efeito CNN”, apesar de por vezes contestado no sentido de estar atrelado aos próprios interesses da indústria de comunicação em geral, costuma se provar “eficiente” em termos práticos.

A lógica é, basicamente, a seguinte: quando eu vejo, eu me comovo. Quando eu me comovo, eu me mobilizo pessoalmente e faço pressão para que os demais se mobilizem. Se há mobilização da opinião pública, há a tendência de articulação política e de financiamento para o desenvolvimento de projetos. Se há articulação para fins de resolução de conflitos e se os projetos são financiados e colocados em prática, há a esperança de mudança ou, pelo menos, de alívio temporário de uma situação de crise.

Desta forma se cria uma espécie de relação que liga – cada vez mais – as atividades humanitárias à influência midiática, em um complexo ciclo “humanitari-ático” em meio ao qual o caso do Sudão/Sudão do Sul se mostra apenas como mais um exemplo dentre os muitos vivenciados no contexto internacional recente…


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Um minuto de silêncio

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Um breve registro aqui no blog sobre uma triste situação que chocou a Bélgica essa semana e mobilizou o país no dia de hoje.

Na última terça-feira, um acidente de ônibus na Suíça vitimou 28 belgas, dentre os quais 22 crianças, que voltavam de uma excursão escolar. Ainda sem causa determinada, esse desastre provocou comoção nacional em virtude de suas trágicas consequências. Hoje o dia foi declarado como de luto nacional e às 11h da manhã foi feito um minuto de silêncio por toda a população – inclusive nas universidades.

A todos os afetados, nosso respeito e nossas condolências registrados neste espaço.


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First!

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Após o saldo de aproximadamente 19 milhões de mortos na Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 1914 e 1918, viu-se que era necessário acabar com este cenário e caminhar para um contexto em que era imperioso combater crimes de guerra. Mesmo assim, como é do conhecimento da maioria, em 1939 tomou forma outro conflito de proporções gigantescas: a Segunda Guerra Mundial. Com cerca de 60 milhões de mortos, era fato que novamente algo deveria ser feito para por fim ao aumento da proporção bélica de destruição. Foi neste cenário, em 1945, que surgiu a Organização das Nações Unidas (ONU), a qual colocou logo no início do primeiro capítulo de sua “Carta” o objetivo de manter a paz e a segurança internacionais, bem como desenvolver relações amistosas entre as nações. 

Mas, infelizmente, várias ocasiões mostraram o contrário. Crimes de genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade ocorreram em números pequenos, contudo, o suficiente para causar preocupação e provocar mudanças. Foi assim em Camboja, Bósnia, Kosovo, Ruanda e Darfur, lugares em que a limpeza étnica, o ataque à população civil ou o intenso massacre fizeram parte de suas histórias recentes. 

Em 2002 surgiu uma esperança, foi criada a primeira corte penal permanente de Direito Internacional: o Tribunal Penal Internacional (TPI). Mesmo não fazendo parte dos órgãos especiais principais da ONU, conhecidos como “main bodies”, o TPI logo ganhou reconhecimento e estabilidade. Cresceram as restrições ao uso da força e valorizou-se o Direito Humanitário, parecendo que fora indispensável todo o século XX de guerras mundiais e conflitos internos para tal constatação. 

Agora, em 2012, o ano entra para a história com o primeiro veredito de julgamento dado pelo TPI. O congolês Lubanga Dyilo (foto) foi considerado culpado por recrutar crianças menores de 15 anos para lutar em conflitos étnicos no Congo. Sua pena ainda não foi estabelecida, talvez tenha que cumprir 30 anos de prisão ou, até mesmo, ter decretada a prisão perpétua. A juíza Sylvia Steiner, a única brasileira que faz parte da corte, afirmou: “Um tribunal forte, embora não resolva o problema do crime, manda a mensagem de que os criminosos vão ser punidos”

É algo a ser comemorado, mas muitas dúvidas ainda são colocadas quando se fala da legitimidade da corte. Somente 120 países ratificaram seu estatuto e este número poderia ser maior. Circula atualmente, na internet, um vídeo sobre Joseph Kony, acusado de crimes contra a humanidade em Uganda. Independentemente da veracidade das informações, quem julga indivíduos, e não Estados, é o próprio TPI. Com a grande repercussão do “viral” nas mídias sociais, quem sabe Kony será o segundo da lista.


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Conversando com a Teoria

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Nas últimas postagens, falamos principalmente do que chamamos de debate “Neo x Neo”, contrapondo as vertentes contemporâneas do Liberalismo e do Realismo. Mas, não faltou alguma coisa? Quando o Giovanni introduziu o tema do debate “novo“, com esse processo de renovação de teorias, uma terceira vertente nos foi apresentada, e a partir de agora vamos mergulhar no chamado neomarxismo. E, assim como as outras vertentes ampliaram e aprofundaram a área de estudo anteriormente proposta, o neomarxismo tem algumas diferenças importantes com relação ao Marxismo clássico. 

Não precisamos nem entrar nos méritos de que haja “os” marxismos, e essa diversidade se reflete na ampla gama de estudos que podem ser considerados neomarxistas. A coisa é tão ampla que há alguns analistas que colocam essa vertente junto com teóricos construtivistas e críticos num mesmo saco, denominando essas escolas de “radicais”. Mas vamos ficar com a divisão usual, em que o neomarxismo herda uma visão de mundo preocupada com relações de dominação e desigualdades, mas de um jeito diferente da teorização original. 

Quando falamos em estudos neomarxistas, a origem está em autores como Luckács e Gramsci (aliás, é curioso pensar que, tecnicamente, o neomarxismo está no páreo há mais tempo que Neo-realismo ou Neoliberalismo…). Sua importância para o neomarxismo está em possuírem uma origem esquerdista, mas abandonando a rigidez e a base eminentemente econômica do marxismo clássico para ampliar a abrangência de suas análises. O foco econômico das relações de dominação não deixa de existir, mas é suplantado por uma série de estruturas externas, além da luta de classes, como condições e processos históricos, relações de distribuição de poder e novas divisões entre os atores envolvidos. 

Esse tipo de pensamento, muito ligado a questões de emancipação e superação de desigualdades, encontrou terreno fértil para prosperar no período após a 2ª Guerra Mundial, e talvez seja o que mais tenha representado aquele espírito de transformação de valores e dificuldades que o mundo enfrentava no momento. Disso advieram suas variantes mais famosas, a teoria do Sistema-Mundo de Wallerstein e a Teoria da Dependência, por muitos considerada uma autêntica teoria de Relações Internacionais sul-americana (ou melhor, que não seja anglo-saxônica). Há quem considere o leninismo como um neomarxismo precoce, ou estudos como o de Robert Cox, um crítico, mas vamos ficar com os exemplos mais famosos. 

Graças à sua variedade, o neomarxismo pôde ser trabalhado pelas mais diferentes vertentes, do radicalismo contra-cultural à teologia cristã, agregando valores e diferentes perspectivas, o que faz com que consiga sobreviver e se adaptar aos novos tempos tão bem como (ou até melhor) do que suas contrapartes “Neo”. Especialmente no momento contemporâneo, em que se acirram polarizações econômicas e muitas das antigas ordens de poder estão sendo invertidas ou abaladas, esses estudos surgem com força para oferecer um entendimento sobre as dificuldades que são postas em jogo. 

Nas próximas semanas, vamos mostrar alguns de seus autores mais importantes e trabalhar suas idéias. Até lá!


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Uma receita para os "brasiguaios"

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Hoje daremos uma receita que, se seguida à risca, é capaz de resultar em um “delicioso” contencioso fronteiriço. O primeiro passo é pegar um grande tema polêmico em qualquer lugar do mundo. Para nosso caso, vamos escolher a questão agrária. Logo após, é preciso adicionar dois países vizinhos com um histórico de conflitos. Aqueça os dois países com uma pitada de concentração de terras e agronegócio. Não se esqueça de incentivar a imigração com mais oportunidades ao agronegócio, ampliar ainda mais a má distribuição de terras e dedicar uma grande parcela significativa do PIB de um dos países aos produtos primários. Deixe repousar durante algumas décadas, salpique algumas medidas que impeçam a compra de terras por estrangeiros e uma proposta de reforma agrária. Sirva gelado, mas lembre-se que o sabor será sempre quente. 

Apesar de muito pertinente para muitos países, essa breve e jocosa analogia gastronômica, refere-se a um caso muito específico, o do Brasil e Paraguai. Há muito, a questão agrária e os “brasiguaios” tem sido um tema recorrente nas relações bilaterais entre os dois países. Na década de 1960, quando o Paraguai era controlado pela ditadura de Alfredo Stroessner, viveu-se um período de incentivo à imigração pela possibilidade de compras de terras por estrangeiros. Foi aí que começou a história dos “brasiguaios”, brasileiros que adquiriram essas terras no Paraguai a um preço relativamente baixo. 

Uma parcela relativamente alta do PIB paraguaio depende do agronegócio (aproximadamente 20%), mais especificamente da produção de soja. Há quem diga que é responsável por quase 80% dessa produção. Dito isto, já dá pra imaginar o bafafá que existe entre os “carpeiros” (os sem-terras paraguaios) e os produtores rurais. Mais ainda com os “brasiguaios”. Questões como a rivalidade histórica entre os dois países, as diferenças étnicas e os sentimentos de nacionalismo paraguaio são alguns ingredientes que tornam essa receita um contencioso binacional. 

Como dissemos em nosso “como fazer”, basta que se salpique uma nova legislação que proíba a compra de terras por estrangeiros, realizada em 2005, e uma nova de reforma, em 2009, para que a situação se inflame ainda mais. E, como se não bastasse essa mistura toda, o polêmico e religioso presidente paraguaio, Fernando Lugo, resolver demarcar todas as terras para prosseguir com seu projeto de reforma e ver se há alguma irregularidade. Isso foi o estopim recente para que os “carpeiros” ocupassem as terras dos “brasiguaios” e desenrolasse uma grande confusão nas últimas semanas. 

O acirramento dessa questão tem provocado uma reação nos parlamentares brasileiros. Todavia, a diplomacia brasileira ainda não se manifestou publicamente sobre o problema. Esse é um tema que, como mostramos na receita, não se resolve unilateralmente. Envolve história, xenofobia, problemas internos do Paraguai e muitos outros fatores. Talvez a diplomacia do Brasil tenha andado em cascas de ovos e está com medo de espatifar a casca dos assuntos internos do vizinho. Em contrapartida, talvez fosse interessante, se é que o governo já não tem feito isso às escuras, uma maior negociação mais acirrada entre os dois lados. Uma pressãozinha do Brasil não faria mal a ninguém. Mas aí vem à tona de novo as ambições de nova inserção no mundo e a necessidade de apoio regional… Enfim, a questão ainda é bem complexa. E em uma receita com ingredientes desse tipo, somente mudando os ingredientes para se obter um resultado diferente.

P.S.: Confiram aqui sobre um suposto possível plano militar do Brasil para intervir no Parguai revelado pelo Wikileaks.


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Trigger Happy

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Apesar do que os noticiários mostram, o ser humano não teria uma inclinação natural à violência – ou, ao menos, a matar semelhantes a sangue-frio. Estudos interessantes mostram como, nas duas guerras mundiais, a maior parte das mortes ocorridas no front foram causadas por estilhaços de granadas ou por morteiros. Muitos soldados que saíam com os rifles em mãos simplesmente não conseguiam atirar em outros seres humanos. Os que conseguiam, era após muito tempo de farda ou aqueles que se chamam “natural born killers”, pessoas comuns que não têm essa dificuldade, beirando a sociopatia, mas sem serem consideradas anormais. 

O que isso tem a ver com política internacional? Bom, nesse fim de semana um sargento dos EUA acordou cedo, se dirigiu a uma aldeia no Afeganistão e chacinou 16 civis inocentes. A suspeita é de que tenha sofrido um colapso nervoso ou estivesse embriagado. A primeira opção parece mais plausível – pra quem está chocado com a notícia, saiba que no Vietnã rolava coisa muito pior.

Dessa história, tiramos duas coisas. Em primeiro lugar, esse tipo de ocorrência de “feliz ao gatilho” (expressão que vem do inglês e que se refere literalmente à pessoa que atira sem se preocupar muito com os alvos) faz pensar em como a própria situação do militar é uma coisa aterradora. Quando um homem se alista no exército ou é convocado para a guerra, todo o processo de treinamento serve pra que ele esqueça as convenções da vida em sociedade e se torne uma pessoa capaz de matar uma outra pessoa. A morte, aquilo que é repreendido e proibido na sua vida como civil, é em última instância o seu objetivo (seja para proteger o país ou sua própria vida) na carreira militar. E, quando se pensa que o soldado do outro lado é muito provavelmente alguém na mesma situação, não é de se admirar que haja tantos casos de stress pós-traumático, ou de como um conflito prolongado e tenso como no Afeganistão mexa com os nervos dos soldados. 

Segundo, as conseqüências dessa tragédia. Os EUA não estão com retirada programada do Afeganistão tão cedo (dizem até 2014, no mínimo), e essas mortes deram ao Taleban (ou o que sobra dele) um grande fôlego para incitar o ódio aos “invasores”. Além disso, é até complicado qualificar isso como crime de guerra, de modo que muitos afegãos do lado do governo (aliados dos EUA, tecnicamente) querem que o sargento seja levado a julgamento popular pelas leis de lá. Mesmo com os pedidos de desculpas oficiais, Obama está com (mais um) abacaxi nas mãos e tensões por todos os lados complicam a estadia dos EUA no Afeganistão (e aumentam o clamor por sua saída).


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