O chavismo adoece

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Polêmicas envolvendo Hugo Chávez parecem nunca cessar. De preocupações externas com o autoritarismo, passando pelas tentativas de ressuscitar a figura de Simón Bolívar e suas “missões bolivarianas”, até as opiniões inflamadas contra os “líderes ianques”, o presidente fez sua fama. O chavismo tornou-se na Venezuela uma ideologia de grande empatia para a população de média e baixa renda, capitalizando sua popularidade nessas camadas com seus programas sociais. 

No poder desde 1998, o presidente conseguiu a reeleição em 2006 e agora, novamente, em 2012. Em 10 de janeiro irá tomar posse para um mandato que seguirá até 2019. Mas nem mesmo os líderes mais populares vivem para sempre. E, a nova polêmica de Chávez não vem de suas ações, mas sim com sua saúde. 

Após ter diagnosticado um câncer em junho de 2011 (clique aqui para a cronologia dos fatos), poucas informações sobre o tema corriam por aí, e a imprensa especulava. Questionava se não buscava capital político para eleições, se ia ter capacidade de governar doente, qual era o grau da doença e etc. Depois diversos tratamentos em Cuba, em outubro do mesmo ano, ele se disse curado. Conquistou 54,32% dos votos válidos em disputa com o governador de Miranda e opositor, Henrique Caprilles, no mesmo ano, e tudo parecia caminhar normalmente para ele e seu partido, o PSUV. Até que o final desse mês voltou a piorar e retornou ao país de Raúl Castro para mais um tratamento. 

Agora, quando anunciou que iria novamente para Cuba, a situação pareceu mudar de figura. Diferentemente das demais vezes, anunciou que seu vice-presidente e chanceler, Nicolás Maduro (para mais sobre ele, aqui), assumiria o “alto comando político do país” e fez questão de, uma breve passagem por Caracas, para anunciá-lo publicamente. Ora, por que fazer algo do gênero se não se teme estar incapaz de continuar governando? Essa é a principal indagação da imprensa e da população venezuelana. 

Primeiro porque na Venezuela, mesmo no exterior, o presidente ainda mantém-se com suas obrigações de governo. Segundo que, de acordo com o artigo 233 da constituição de 1999, em caso de incapacidade de governar por motivos de saúde permanentes antes dos quatro primeiros anos de mandato, deverá ser convocada uma nova eleição em até 30 dias (aqui para ler o documento). O que significa que, em caso de deterioração da situação, ou de falecimento, o presidente precisará de um sucessor político credível e aceitado como homem do povo. 

A incerteza parece ser grande, pois tanto Maduro quanto o ministro da Comunicação já anunciaram que a situação é delicada. No site do ministério é possível ver um vídeo com um anúncio de alguns detalhes da situação de saúde de Chávez. Da mesma forma, Maduro também anunciou que o país deveria se preparar para novos “cenários complexos”. 

A maior pergunta que tem emergido na mídia é se o chavismo seria capaz de sobreviver à ausência de Chávez (aqui para artigo da BBC sobre isso). Seria possível tornar Chávez um mártir em benefício do partido ou sua figura centralizadora e personalista dependeria somente de sua imagem? Clovis Rossi tenta esboçar se há esse caminho em dois artigos (aqui e aqui), defendendo que o chavismo como se conhece agora sofrerá o constante risco da fragmentação. Por outro lado, apesar da dividida oposição buscar um caminho de unidade com Caprilles (afinal 44% dos votos contra Chávez não podem ser desprezados), há um risco de esse candidato não obter sua reeleição para o governo de Miranda e demonstrar-se incapaz de unir a oposição. Ou seja, as projeções são de governo e oposição digladiando-se para  ver quem se mantem mais unido. 

Apesar dos cenários que se possam traçar, a busca da figura de Maduro representa a tentativa de dar mais fôlego e vitalidade a um partido que sempre esteve muito centralizado na imagem do líder bolivariano. Independentemente de o presidente melhorar ou não, o cenário revela preocupações de sucessão de um PSUV pós-Chávez que, como o líder bolivariano, parece também ter adoecido.

[Para mais: 1, 2, 3, 4]


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Realidade cruel

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Tráfico de pessoas. Em pleno século XXI, uma cruel realidade que recebe muito menos atenção do que deveria, se considerado o nível de sua gravidade. O relatório sobre o tema divulgado ontem pelo Organismo das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) referente ao período de 2007 a 2010 traz informações alarmantes: apenas em 2010, uma quantidade aproximada de 12 milhões de pessoas foram vítimas de trabalho forçado, exploração sexual e outras formas de tráfico humano. Segundo o relatório, 27% das vítimas durante este período foram crianças e 55% mulheres. [Confira aqui a íntegra do relatório “Global Report on Trafficking in Persons 2012”.]

A perversa ideia de indivíduos como produtos, tal como sugere a imagem no início do post, ainda faz parte da realidade internacional, apesar de ser um assunto constantemente negligenciado pela sociedade, como se tivesse se encerrado há séculos com a proibição do comércio negreiro. Fato é que a compra e venda de indivíduos ainda ocorre com intensidade elevada nos dias de hoje, especialmente em meio aos mais vulneráveis (mulheres e crianças).

Perceber, a partir dos resultados publicados neste relatório, que a incidência do tráfico para trabalho forçado duplicou em relação aos últimos quatro anos analisados demonstra uma incapacidade internacional de combater esse fenômeno que se intensifica com o passar do tempo, ao invés de ser eliminado.

Segundo as informações oficiais, a quantidade de crianças traficadas varia consideravelmente em cada região do mundo, passando de 16% na Europa e Ásia Central para 27% nas Américas; 39% no Sul e Leste Asiático; e elevados 68% no Oriente Médio e na África. Com uma amplitude de 132 países, a impunidade ainda é, contudo, um traço comum, ressaltando-se as grandes dificuldades de investigação e condenação por este crime.

Em termos realistas, o fator econômico ainda explica o motivo de permanência desta situação: segundo a Organização Mundial do Trabalho, cerca de 32 bilhões de dólares (!) são movimentados anualmente devido ao contrabando humano – valor que é superado apenas pelo tráfico de drogas.

Compreender o contexto atual de tráfico humano faz parte do processo de conscientização sobre a gravidade do problema. Contudo, esperar uma “resposta enérgica” das autoridades, como sugere o diretor do UNODC, para o combate efetivo deste tipo de crime parece ser um desafio muito mais difícil do que se possa imaginar…

 


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Reflexos da Primavera

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Fonte: aljazeera.com

Durante os últimos dias, o Egito voltou a ocupar as principais manchetes dos jornais. Algumas mortes e centenas de feridos foram o resultado de várias manifestações realizadas na cidade do Cairo em virtude da futura promulgação de uma nova Constituição Egípcia, a qual está marcada para acontecer nos próximos dias 15 e 22 deste mês. O que se sabe, até o presente momento, é que estamos presenciando a pior crise política do presidente Mohammed Morsi desde sua eleição em Junho. 

Tanto o processo constitucional quanto os novos protestos que tomam as ruas, mesmo possuindo nuances distintas em comparação com as manifestações ocorridas em 2011, são reflexos diretos da Primavera Árabe no Egito. Isso porque de um lado estão a Irmandade Muçulmana e os salafistas (apoiadores do presidente) e de outro os opositores “liberais”. A eleição de Morsi, bem como o ganho de poder por parte da Irmandade e da chamada “Crescente Salafista” foram algumas das consequências de todas as manifestações anteriores vistas na Praça Tahrir. 

Nos bastidores deste palco estão dois temas muito conhecidos: religião e democracia. Ainda nas prévias das eleições, o debate entre islâmicos ortodoxos e liberais já era visível. Grupos como a Irmandade Muçulmana Egípcia acabaram ganhando uma nova roupagem “pós-Primavera”, mesmo tendo um discurso mais conservador e totalmente baseado na máxima de que o Islam is the solution. Como a população queria uma mudança política e, consequentemente, social, uma maneira de barrar os governos ditatoriais era consolidar o levante de novas organizações. 

Ademais, a tão contestada democratização ainda está em pauta no país. Quando falamos em Oriente Médio e países árabes, o Egito (em conjunto com a Tunísia) foi um dos países que mais sentiu os reflexos práticos da Primavera. Entretanto, mesmo lá ainda é um pouco contestada a ideia de existir um processo mais democrático e participativo. A atual oposição de Morsi fala justamente que a nova Constituição é manobra política para manter os poderes da Irmandade. 

A Primavera Árabe é um processo muito recente e ainda não sabemos quais são e serão seus resultados práticos. Mudanças acontecem e, com toda certeza, permanecerão no curto e longo prazos. No Egito, Morsi precisará muito mais do que a saída de Hosni Mubarak para se legitimar no poder. E isso levará um tempo considerável.


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Em boca fechada não entra mosca

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O Reino Unido deu o que falar na última semana. A terra da Rainha foi palco de dois eventos que acabaram tendo sua repercussão internacional, já que os protagonistas eram de fora, e em ambos os casos teve gente que perdeu a chance de ficar calada. 

O mais trágico, com certeza, foi o caso do trote de uma rádio australiana passado para o hospital onde estava em tratamento a duquesa Kate Middleton, e que (ao que tudo indica) motivou o suicídio da enfermeira que atendeu a ligação e acreditou nos radialistas que fingiam ser membros da família real pedindo informações. Uma brincadeira inofensiva? Sim, mas como a doença era grave e coloca em risco o futuro herdeiro da Coroa, o “vazamento” de informações pode ser um problema terrível numa terra onde o noticiário é movido a fofoca. Sem contar a perda de credibilidade do hospital, o que deve ter motivado essa atitude extrema da enfermeira. O fato é que trotes e pegadinhas são as formas mais simplórias (e antigas) de fazer “humor”. Até que ponto é válido se aproveitar da boa-fé ou da reação de estranhos, sem seu consentimento, pra fazer audiência? Esse caso mostra que tem que se pensar nas conseqüências, e apesar de o programa até ter sido retirado do ar, as palavras que saem da boca não voltam mais. 

Mas o que mais repercutiu por aqui foi uma análise da revista britânica “The Economist” (confira aqui), em que o autor faz uma crítica aos problemas que o Brasil está enfrentando para manter o crescimento (e possivelmente para garantir um segundo mandato para Dilma). Relativamente despretensioso, o texto causou furor por, lá no final, o autor considerar que Dilma devesse demitir a equipe econômica para dar um novo rumo ao Brasil. Uma leitura atenta mostra que essa sugestão aparece muito mais uma hipótese de “teste” de pragmatismo da presidente do que um conselho propriamente dito. O texto é até razoável nas suas críticas. Mas o que pegou mesmo foi a mídia divulgando apressadamente que a maior revista de economia do mundo pediu a cabeça do nosso Ministro da Fazenda. 

Deu no que deu. A página da reportagem está entulhada de comentários dos mais questionáveis de brasileiros, dos mais variados espectros políticos (nada muito diferente da praga que se vê nas redes sociais todo dia). Os editoriais dos jornais brasileiros ficaram furiosos. Até a presidente se dignou a comentar sobre o assunto, e isso acabou fortalecendo Mantega no cargo. 

Esse é um baita exemplo de caso em que todo mundo perdeu a chance de mostrar que calar é ouro. O jornalista do Economist poderia ter tido algum cuidado com a escolha das palavras, mas no fim das contas é o que menos tem culpa nisso, já que é o seu trabalho ser instigante, e a liberdade de imprensa está aí pra isso. Os defensores/detratores mais exaltados do governo fazem um desserviço ao país com alguns comentários escabrosos que andam aparecendo por lá. A grande mídia nacional fez o pior de tudo ao focar suas manchetes num trecho de duas linhas de uma reportagem que nem se propunha a causar essa repercussão (e ignorando completamente o resto da crítica do autor, essa sim que renderia uma discussão interessante). E até mesmo a presidente perdeu a chance de sair com elegância dessa saia justa, ainda mais por de quebra alfinetar os países europeus com essa resposta. Se realmente uma revista estrangeira não tem influência nas decisões do governo, sequer deveria se dignar a responder sobre esse assunto (e, pelas suas palavras, dar a impressão de que a coisa seria diferente caso fosse uma revista nacional…). 

Haja mosca.


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Há um ano...

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…a Página Internacional anunciava uma novidade para a América Latina e Caribe. A criação de um novo organismo internacional desses países, a Celac (Cúpula para os Países da América Latina e Caribe). O órgão foi recebido com otimismo e ceticismo por muitos, e representava, para muitos desses países, a oportunidade de se ter uma espécie de OEA sem os Estados Unidos. Nesse texto (clique aqui para relembrar), a Bianca discutiu se a Celac era esse instrumento de libertação ou apenas uma nova organização sem função prática.

Na mesma semana, discutiu-se um outro capítulo do famigerado programa nuclear iraniano. Desta vez, a reação de parte da população do Irã aos bloqueios de transações financeiras e contas bancarias iranianas no Reino Unido. Essa reação causou um furdunço e violações da embaixada britânica no país. O Álvaro tratou dessa questão no texto Imunidade, no qual abordou a possível inação do governo de Ahmadnejad e a falta de preservação da imunidade diplomática no caso. 

Também um ano atrás, o Brasil preocupava-se com divisões. Questão que levou o Pará a realizar um plebiscito que propunha a criação de dois outros estados retirados de seu território, Tapajós e Carajás. Hoje sabe-se que a população do estado negou a proposta, pois 66,08% foi contra Tapajós e 66,60% contra Carajás. Sobre esse tema, o Luiz Felipe apontou, no dia do plebiscito, quais eram os argumentos pró e contra e quais eram as consequências disso para as cidades da região norte. Vale a pena reler para relembrar esse importante capítulo da história brasileira.

A Bianca também trouxe um tema extremamente delicado: as amplas mortes de inocentes na Colômbia, resultado do conflito entre as Farcs, grupos paramilitares e o governo. Em seu texto, Impunidade, aborda o conflito colombiano e como inúmeros inocentes acabam como dano residual de uma luta que demonstra incapacidade do Estado de lidar com as guerrilhas de esquerda e as ações inconsequentes de financiar grupos paramilitares para cobrir o trabalho que não é feito pela polícia. 

É isso aí, pessoal, postando e relembrando!


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104 anos de um sopro eterno

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Se a vida é um sopro, fato é que algumas pessoas têm o poder de deixar marcas infindáveis, seja pela genialidade de suas obras, pela importância de suas ações ou pela simplicidade em sua grandeza. E a personalidade que nos deixou ontem certamente fez com que esse sopro de vida centenária se tornasse eterno.

Oscar Niemeyer, o “pai” de Brasília, um arquiteto que deixou sua marca registrada na idealização e construção do coração político do país, além de conferir beleza e funcionalidade a tantas outras cidades brasileiras – o complexo da Pampulha, em Belo Horizonte; o Parque do Ibirapuera e o Memorial da América Latina, em São Paulo; e o Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, são apenas algumas das grandes obras de seu legado no Brasil. Pelo mundo afora, seu nome também consta na autoria de grandes projetos, tais como a sede da ONU em Nova York ou a Sede do Partido Comunista Francês em Paris, por exemplo. [Confira a lista de suas obras e projetos pelo mundo aqui.]

Acreditando politicamente no comunismo durante toda sua vida, o que lhe rendeu anos de exílio em tempos passados, suas obras buscaram sempre contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, rompendo com as convenções por meio de suas curvas e de sua originalidade.

Conferir dinamismo ao concreto – elementos à primeira vista absolutamente paradoxais – foi o que consagrou este carioca como mestre, sendo celebrado pela admiração de cada indivíduo que se depara com suas obras, assim como pelos tantos prêmios internacionais recebidos, em que se destaque o Pritzker (1988), maior reconhecimento no mundo da arquitetura.

Sem Niemeyer, um dos precursores da arquitetura moderna, hoje o mundo amanheceu mais triste, rendendo-lhe elogios póstumos através dos mais diversos meios de comunicação internacionais. Lamentar a morte de Niemeyer é inevitável, mas mais vale festejar o que foi sua vida, um exemplo de genialidade já imortalizado em cada uma de suas obras e realizações.

 “A vida é importante; a Arquitetura não é. 

Até é bom saber das coisas da cultura, da 

pintura, da arte. Mas não é essencial. 

Essencial é o bom comportamento 

do homem diante da vida.” 

Oscar Niemeyer

 


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E quais são as novidades?

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Estão para começar a Cúpula de Chefes de Estado do MERCOSUL e Estados Associados em comunhão com a XLIV Reunião do Conselho do Mercado Comum. Ambos os eventos ocorrerão aqui no Brasil, mais precisamente em Brasília, nos próximos dois dias da semana (06 e 07 de Dezembro). A Cúpula é, digamos assim, o evento central do bloco, o de mais alto nível e diálogo entre as lideranças da América do Sul circunscritas a este aparato regional. 

Pois então, tais encontros são realizados periodicamente e com uma frequência exata. Todavia, o que há de novo nestes próximos encontros? Muita coisa. Após a saída (ou pseudo-expulsão) do Paraguai e a entrada da Venezuela como membro permanente, algumas coisas mudaram na atual conjuntura. E, com toda certeza, refletirão no andar da carruagem destes países. Deste modo, podemos citar quatro assuntos principais que serão destaques nas discussões: a entrada da Bolívia como membro pleno do MERCOSUL; a possível adesão do Equador, também como membro permanente; a criação de uma verdadeira Área de Livre Comércio na América do Sul; e o estímulo às iniciativas privadas intra-bloco.

Quanto ao processo de adesão da Bolívia e do Equador, num futuro próximo eles se juntarão de fato ao MERCOSUL. O diálogo entre as partes já foi iniciado e o Brasil já deu apoio a estas iniciativas. Ainda durante a penúltima Cúpula realizada no Paraguai em 2011, o Ministro Antônio Patriota disse que todos estavam com grande interesse em caminhar com estas adesões, mas que seria um processo sem tempo delimitado para ter um final feliz. Após a entrada dos venezuelanos, talvez as inclusões caminhem rapidamente. Ainda mais com a suspensão dos paraguaios… 

Do outro lado, a efetiva criação de uma Área de Livre Comércio na América do Sul gera mais dúvidas. Colocaram o prazo para 2019, mas juntar todos os países, com exceção da Guiana e do Suriname, é algo bem complexo de se fazer. Mais importante ainda é debater se tal “futuro bloco” terá institucionalização necessária para articular fluxos comerciais de proporções continentais. A iniciativa é brilhante, claro, mas existem outros organismos regionais como o próprio MERCOSUL ou até mesmo a Comunidade Andina (CAN) que caminham aos trancos e barrancos. Continuar fortalecendo os blocos existentes ou estimular o nascimento de novos deve ser tratado e discutido com afinco na mesa de negociação. 

Estimular a iniciativa do empresariado é algo esperado no MERCOSUL. Articular projetos e ideias é extremamente necessário quando se fala no crescimento econômico público e privado. Ademais, ficam aqui algumas considerações sobre o que poderão vir a ser a Cúpula e a Reunião. Símbolo de crescente ceticismo, podemos afirmar que o MERCOSUL vestiu roupa nova nos últimos anos e está tentando expandir sua área de abrangência. Em termos econômicos e geoestratégicos, a entrada da Venezuela deve ser comemorada. Porém, em termos políticos e jurídicos, a saída do Paraguai pode ser contestada. Quando os alicerces econômicos estiverem prontos, passar-se-á para a via política e é aqui que o bloco regional necessitará de forças para se reerguer.


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Clássico das Américas

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Mas nada de amistosos caça-níqueis de futebol. Hoje vamos falar de Brasil e México. Na verdade, como o México pode dar umas lições para o nosso País. Deu no jornal: o México está se tornando o país do momento para investidores, e pior ainda, tomando o lugar do Brasil como queridinho de Wall Street. O encanto do mundo com o Brasil que se via nos últimos anos parece estar acabando. 

Após o sucesso em enfrentar a crise a partir de 2008 e ter mostrado um bom ritmo de crescimento, parece que cada vez mais vamos acabar empacando por causa de fatores internos. O sistema bancário é seguro e confiável para investimentos, o câmbio ajuda e a pirâmide etária está se estabilizando. Parece um oásis de estabilidade. O problema é que essas condições favoráveis têm suas contrapartes no risco-país. Burocracia, um sistema de produção altamente protecionista e ineficiente, infraestrutura problemática e questões sociais só pra ficar na ponta de cima do iceberg. É só ver o caso das obras para Copa do Mundo e Olimpíadas: boa parte do cronograma está atrasado para os dois eventos, muitas obras de infraestrutura prometidas (coisa que está no contrato dos eventos) não vão ser entregues no prazo (por fatores que vão de greves a incompetência) e os orçamentos estão estourando a cada dia. Com tempo de sobra para efetuar as obras, o Brasil passa a imagem de que não consegue cumprir com o acordo e fazer investimentos básicos no prazo. Mas pouco importa, imagina a festa, certo? 

Enquanto isso, o México, um país que está assolado por uma onda de violência que faz os ataques a policiais brasileiros das últimas semanas parecerem brincadeira, e que estava num caos eleitoral desde junho, consegue competir em pé de igualdade com a China no mercado dos EUA (podendo até superá-los em alguns anos) e está atraindo atenções (e investimentos). Como isso acontece? A resposta é um pouco do que falta ao Brasil – uma estrutura de produção moderna e integrada aos mercados mundiais. Produzir no México está na moda e dá certo, e o presidente eleito Peña Nieto já articula reformas importantes com a oposição para impulsionar ainda mais o desenvolvimento. 

Não estamos falando que o modelo mexicano é perfeito, e modismos são uma cilada. E nem temos espaço aqui para discutir todos os fatores envolvidos no “crescimento” de um país. Mas a euforia com o Brasil parece cada vez menos viável caso o país continue com esses problemas básicos e que causam muito impacto na produção, e podemos aprender lições com esse caso. Protecionismo demais, falta de inovação em setores importantes e excesso de confiança no setor primário (da soja ao petróleo) são uma aposta arriscada para crescimento contínuo, que depende de uma estrutura que não seja apenas atrativa aos investimentos, mas onde eles possam virar alguma coisa de fato. O sinal de alerta está ligado e o México mostra que, se o Brasil quiser manter esse crescimento, pelo menos com relação aos investimentos, vai ter que passar por muitas mudanças ainda.


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A ocasião faz a violência

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[Texto do colaborador Giovanni Okado]

A velha sabedoria machadiana já pregava que a ocasião não faz o ladrão. Ela faz o furto; o ladrão nasce feito. Não obstante o exagero do determinismo histórico, esse provérbio é aplicável à violência e suas causas no Brasil: a ocasião faz a violência; as causas nascem feitas. 

Se, em suas relações exteriores, o Brasil é um país pacífico,internamente, o cenário é violento. E muito! Entre 2004 e 2007, nos 62 conflitos armados existentes, morreram 208.349 pessoas; nesse mesmo período, no país, livre de disputas territoriais, movimentos emancipatórios, guerras civis, entre outros enfrentamentos, morreram 192.804 pessoas vítimas de homicídio. Não é por acaso que 62,4% da população brasileira tem muito medo de assassinato e 23,2% dela tem um pouco de medo.

Em se tratando da violência homicida, os dados impressionam e demonstram mudanças nem sempre perceptíveis. O senso comum é colocado à prova. De 2003 a 2010, o crescimento das taxas de homicídio foi negativo (- 1,4% aa). Mesmo que elas tenham se estagnado, o índice é elevado e preocupante: são 26,2 homicídios em 100 mil habitantes, acima dos 10, valor que já é considerado uma epidemia. E, pior, essa violência homicida exibe novos padrões. 

Hoje, os homicídios não se concentram nos principais estados e nas grandes cidades. Há uma década, Alagoas, Pará e Bahia ocupavam, respectivamente, o 11º, 21º e 23º lugar no ranking nacional das taxas de homicídio e passaram a ocupar, agora, o 1º, 3º e 7º lugar. São Paulo e Rio de Janeiro, no mesmo período, tiveram uma redução acentuada, respectivamente, de 63,2% e 42,9%, deixando a 4ª e 2ª posição para ocupar a 25ª e 17ª. Nesses dez anos, também, o interior, e não as capitais e regiões metropolitanas (RM), impulsionou o crescimento dos homicídios: o Brasil, como um todo, passou de 45.360 para 49.932 homicídios; as capitais e as RM, de 32.339 para 28.797; e o interior, de 13.021 para 21.135.

Os dados demonstram a ocorrência de dois processos simultâneos: a disseminação e a interiorização da violência. Nas décadas anteriores, os homicídios acompanharam o dinamismo econômico dos principais estados e metrópoles. Ao final do século XX, com a reestruturação da produção industrial brasileira, deslocando-se para outros estados e para o interior, houve a migração dos polos dinâmicos da violência. E, infelizmente, essas áreas apresentavam estruturas precárias ou incipientes de segurança, sem experiência histórica, que impediram o combate eficiente do problema. 

Que lições ficam? Primeiro, é preciso ponderar sobre a violência. A chamada “onda de violência” que atualmente se alastrou pelo país é, sim, drástica. Mas não deve ser superdimensionada, para evitar ações equivocadas e negligenciar o tratamento adequado da segurança pública como um todo, e não localizado. Segundo, as autoridades competentes na matéria devem permanecer sempre atentas à evolução da realidade político-econômica do país. Terceiro, é melhor prevenir do que remediar. Ao invés de se investir na construção de novos presídios, é preciso aumentar o investimento em policiamento e informação/inteligência policiais. De 2006 para 2011, essas rubricas diminuíram: os gastos com policiamento passaram de 17,13% para 8,16% das despesas realizadas com segurança pública, enquanto aqueles relativos à informação/inteligência foram de 1,95% para 0.66%. Outros problemas estruturais também poderiam ser debatidos, como as brechas na legislação e a coordenação entre as esferas federal, estadual e municipal. 

A ocasião, de fato, faz a violência. Há mudanças em seus padrões, mas suas causas são as mesmas. Uma hora ou outra, o descaso cobraria seu preço. E ele é alto! Por trás das estatísticas, estão pais sem filhos, filhos sem pais, maridos sem mulheres, mulheres sem maridos, jovens, adultos ou idosos… Não existe número que meça a dor que fica, muito menos os sonhos que partem. 

*Obs: os dados apresentados foram extraídos de três documentos – Mapa da Violência 2012. Novos Padrões da Violência Homicida no Brasil; Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2012; SIPS – Segurança Pública.


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O sonho do Estado próprio

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Conquistar por seus próprios meios um espaço físico individual, reconhecido socialmente pelos demais, é um sonho que quase todas as pessoas esperam poder realizar durante a vida. Já no plano internacional, o sonho do “Estado próprio” é perseguido pela Palestina há décadas. Um capítulo importante dessa saga foi escrito ontem, com o reconhecimento histórico da Palestina como “Estado observador não membro” da Organização das Nações Unidas (ONU).

Ainda que a importância deste acontecimento seja muito mais simbólica que prática (entenda melhor aqui), trata-se de uma vitória política sem precedentes – e a partir da qual frutos futuros podem ser esperados no que se refere à resolução do complexo jogo de interesses partilhados/disputados por Palestina e Israel no Oriente Médio. Com uma nova onda de hostilidades que se iniciou há poucas semanas e vem chamando diariamente a atenção internacional à questão devido ao grande número de vítimas inocentes (principalmente palestinas), o assunto não poderia ser mais urgente.

Desta forma, a Palestina deixa de ser representada na ONU apenas pela entidade Organização para Libertação da Palestina (OLP) e alcança, pelo menos no âmbito desta organização, o almejado status de “Estado”. Ainda que apenas observador e sem direito a voto, sua responsabilidade aumenta, bem como a possibilidade de seu envolvimento com as agências internacionais da ONU. Sem dúvidas trata-se de uma vitória política para Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP).

Com a oposição dos Estados Unidos, sempre aliados de Israel (…), e apenas outros 8 países, esta elevação de status na ONU foi festejada no Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino, exatamente 29 de novembro. Em retaliação a esta conquista palestina, contudo, Israel anunciou imediatamente a construção de mais 3.000 moradias para judeus nas disputadas zonas de Jerusalém Oriental e da Cisjordânia… considerados ilegais pela ONU e condenados pela comunidade internacional, estes assentamentos constituem um claro obstáculo à busca pela paz na região, demonstrando a dificuldade de um diálogo aberto com o lado israelense. 

Na longa busca deste sonho palestino por um Estado próprio, muitas vidas inocentes já foram sacrificadas (tanto na Palestina quanto em Israel). A cada dia se faz (mais) necessário nutrir a esperança de que a delimitação de fronteiras na região e uma solução pacífica ao embate são, além de desejadas, realmente possíveis. E a conquista histórica deste espaço ampliado da Palestina na ONU, mesmo que como “observador não membro”, demonstra um pequeno grande passo nesta direção… 


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