Crise de credibilidade

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Aquele papo de poder brando (ou direto) da mídia não é novidade para ninguém. Desde a revolução Francesa que esse veículo informa, influencia, oculta e manifesta informações da população. Para muitos, a mídia seria o quarto poder. Aquele que Montesquieu não considerou para efeitos do controle do Estado, mas que estaria ali, sempre presente. Mas a mídia só é capaz de influenciar e formar opiniões quando goza de credibilidade pela sociedade (ou parte dela). A confiança dos leitores é uma das mais importantes moedas de troca em uma sociedade democrática. 

Quando a credibilidade de um desses veículos formadores de opinião é balançada, dependendo do país que falarmos, a pode coisa ficar feia. E como vamos falar do Reino Unido… 

No ano passado, o tabloide News of the World (NOFTW) passou por uma dessas complicadas situações e acabou fechado. À época vieram a público, pelo periódico The Guardian (ideologicamente oposto ao NOTW), denúncias do uso de escutas ilegais e grampos de telefones de celebridades e pessoas importantes (clique aqui para mais sobre isso no blog). O jornal funcionava desde 1891, era parte do grande grupo de mídia, News Corporation, do magnata da mídia, Rupert Murdoch, e, mesmo assim, não foi poupado por seu escândalo. 

Mas a roda da vida gira de maneira irônica, e logo, aquele que se viu arruinado, pode ver um de seus  competidores seguir pelo mesmo caminho. E foi a vez da BBC. Também um dos mais tradicionais veículos de mídia do Reino Unido entrou em uma crise severa recentemente, após uma sucessão de eventos infortuitos que começaram coma  divulgação de que um dos seus apresentadores mais icônicos, Jimmy Savile, praticou pedofilia quando vivo. A notícia saiu em dezembro de 2011 e somente em outubro desse ano que a situação começou a piorar. Em outubro, um canal privado divulgou um programa com declarações de vítimas de Saville quando crianças e até David Cameron pressionou a emissora. 

A BBC complicou-se de vez quando o programa Newsnight divulgou falsas acusações de pedofilia contra um “importante político da era Thatcher” sem maiores especificações e, após especulações sobre quem esse político seria se espalharem na internet, as supostas vítimas vão ao ar e dizem ter se enganado. A omissão sobre o caso Saville  custou o  cargo do editor do programa Newsnight, e a falsa acusação, o cargo da diretora e do vice-diretor de jornalismo, e a substituição do novo diretor da emissora. Ainda houve o básico salário equivalente a R$ 1,5 milhões pagos ao diretor que ficou apenas 54 dias no cargo. Atitude que levou a críticas diretas até mesmo de David Cameron.

Segundo a Folha de S. Paulo, no dia 13 desse mês, a  uma agência reguladora de comunicações do Reino Unido mostrava que a BBC era a emissora com o maior nível de confiança do público. Essa sequência de tropeços pode derrubar essa credibilidade, tão cara à BBC, e pode custar também seu status de empresa pública. Murdoch já tem iniciado sua campanha contra a BBC, via twitter, e tem uma boa oportunidade de fazer crescer a influência de seus outros jornais.

Se no Reino Unido já há precedentes de caminhos nefastos das grandes empresas de mídia que tem sua credibilidade afetada, tudo indica que os tempos não são bons para a BBC. Todavia, diferentemente do NOTW, a BBC é uma dos maiores e mais populares veículos midiáticos do país e conta com canais de TV, jornais e notícias online. Cabe saber se isso será suficiente para abafar sua crise de credibilidade, se   ela ainda permanecerá sendo uma empresa pública e se conseguirá desviar-se desses problemas para manter sua reputação. Aguardem os próximos capítulos. 


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O "Hollandismo"

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“A história mostra em toda parte que, quando partidos ou políticos de esquerda travam contato com a realidade, através de cargos políticos, tendem a abandonar sua utopia ‘doutrinária’ e a moverem-se para a direita, normalmente mantendo seus rótulos de esquerda e, desta forma, aumentando a confusão da terminologia política”. 

Edward Carr – Vinte Anos de Crise (1919-1939) 

Após seis meses de governo, o presidente francês François Hollande deu origem a mais um novo “ismo” nos dizeres políticos e econômicos internacionais: o “Hollandismo”. O que se observa até o presente momento é a realização de uma série de medidas para tentar colocar ordem na casa dos franceses e, consequentemente, mas em menor escala, na própria Europa. Com o ápice da crise financeira em 2008 e as incongruências governamentais de seu antecessor, Nicolas Sarkozy, o atual presidente subiu ao pódio com um discurso reformador. 

Dívida, desemprego, perda de competitividade e déficit de crescimento foram os principais temas que preocupavam os franceses. Assim, qual seria a solução para todos estes problemas? Ninguém sabia ao certo, mas o discurso dito esquerdista de Hollande agradou a muitos. Já o chamavam de social-democrata, fazendo uma alusão à social-democracia alemã criada no século XIX, a qual tinha como preceito uma base marxista, acreditando que através de princípios democráticos se atingiria um governo socialista per se

Com o passar dos anos, esta ideologia ou forma de governo, como quiserem, foi ganhando novos contornos e adquiriu uma vertente norte-americana. Por sua vez, esta se baseou no velho conhecido Estado de bem-estar social, aglutinando o modelo capitalista com uma atuação estatal intensa nas vias políticas e econômicas de fato. Bem verdade, o “Hollandismo” parece seguir esta via, mas mesclando a velha cunha da esquerda. 

Ademais, o presidente também apela para o discurso nacionalista francês. Em alguns dos seus pronunciamentos, levantou palavras como “Estamos na França […] devemos fazer nação”. Se for para mudar, mudemos, mas sem deixar nossas bases antigas. Hollande quis unir o tradicional ao moderno, veio para mudar algo um tanto quanto imutável. Um semestre de governo ainda é pouco para apreciar mudanças significativas. 

Exemplo principal desta questão é a própria União Europeia. Vítima de ceticismo crescente após as sucessivas crises econômicas e do Euro, Sarkozy e Angela Merkel, chanceler alemã, eram o ponto de apoio de todo bloco. Hollande, para o bem ou para o mal, pareceu quebrar esta lógica e o diálogo com a vizinha Alemanha encontrou novas nuances. Em tempos de insatisfação popular, nada restou ao presidente a não ser pedir mais paciência aos franceses

O discurso de mudança sempre agrada a população quando há crise interna, isto é uma verdade incontestável. Por si só, a oratória de Hollande foi convincente, pois nada melhor do que um novo fôlego para alguém que precisa correr constantemente. É assim na França e é assim na Europa. Entretanto, sua ideologia mostrou-se (em partes) divergente da realidade até o presente momento. Denunciou veementemente as políticas de austeridade, mas as aplicou em menor grau nos últimos meses. 

Outra vez, conforme Hollande disse, vamos esperar pelos próximos anos de seu governo para não tirar conclusões precipitadas. No mais, as palavras de Edward Carr no começo do texto são um possível resumo do que vem a ser o “Hollandismo”, passada a febre inicial do novo governo.


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O peso dos imigrantes.

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Obama está re-eleito, e vamos ter bastante o que falar dele nos próximos 4 anos. O homem mais poderoso do mundo está cheio de problemas pra resolver – a maioria no campo interno, especialmente a cambaleante economia dos EUA que está à beira de um abismo fiscal (corte de gastos e elevação de impostos programada para o começo de 2013). Fora, o presidente que ganhou um Nobel da Paz sem fazer nada (e em cujo mandato mais se matou gente com drones violando espaço aéreo estrangeiro e todo tipo de direito internacional) tem que lidar com a crise na Síria (onde não pode fazer muita coisa mas tem muito a perder num eventual transbordamento) e as provocações usuais do Irã. Isso pra ficar no que mais dá notícia, por que existem temas menores que passam até despercebidos, e um deles afeta os dois lados da política norte-americana, podendo influenciar até mesmo nas próximas eleições, que é a questão da imigração.

Obama teve um apoio enorme dos hispânicos nas eleições. O que surpreende, por que não apenas fracassou em tocar a reforma das leis de imigração (promessa do primeiro mandato), como nunca na história desse país se deportou tanta gente – mais de um milhão de pessoas em 4 anos, com o recorde anual de quase 400 mil em 2011. Mas como malandro é malandro, em junho suspenderam as deportações para imigrantes que chegaram crianças e moraram pelo menos 5 anos ininterruptamente, o que anistiou quase 1 milhão de pessoas e deu no que deu semana passada. Agora os partidos dos EUA tentam negociar o avanço da reforma dessa legislação, e Obama está com a faca e o queijo na mão para dar um jeito na regularização dos quase 12 milhões de ilegais, na maioria hispânicos. 

Existem, na verdade, 3 fatores para que essa reforma seja viável agora. Primeiro, as reformas influenciam muito mais os ilegais que já estão nos EUA (e fazem parte da vida política de lá) – para os que vêm de fora, deve continuar a vida dura e a dificultação da entrada. Segundo, mesmo com as pressões no México, especialmente por causa da matança do narcotráfico, o número de imigrantes indo para os EUA tende a diminuir com a economia como está, e isso pode reduzir a tensão e pressões sobre os grupos que já estão no país. E terceiro, os partidos dividem congresso (maioria republicana) e senado (maioria democrata); Obama não vai chegar a lugar nenhum com oposição de uma das casas, e essa é uma chance interessante de orquestrar uma cooperação ou diálogo para depois entrar nos temas mais sensíveis. 

Ficou a lição: os partidos parecem ter compreendido que a questão da imigração não passa pela exclusão, e que ser anti-imigrante (como a ala radical dos Republicanos) causa muito dano eleitoral. Isso traz um pouco a questão de que o próprio país foi construído por imigrantes (indígenas à parte), e essa imagem de “herança migratória” parece estar ganhando força nessa discussão. Obama deve ficar atento a isso tudo e reavaliar o draconismo de suas políticas de imigração – boa parte dos republicanos que estão cotados para 2016 são jovens, libertários e em sintonia com o voto hispânico. E o resultado das políticas que estão sendo discutidas agora vai definir quem essa parcela enorme de potenciais eleitores vai apoiar.


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Há um ano...

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Há um ano a Página Internacional publicava um post do leitor, Tauã Carvalho, Da Democratização das Relações Internacionais. Um texto de crítica aos argumentos de que vivemos em um momento particular no cenário internacional, no qual há maior acesso e capacidade de influência dos países menores nas R.I. Para ele, não há democracia alguma. Pode até ter mais participação dos países periféricos e dos menos poderosos, mas, no fim das contas, quem bate o martelo, quem influencia mais ainda é aquele seleto condomínio das potências. Vale a pena revisitar o texto, pois mesmo um ano depois, essa discussão ainda é muito atual. 

Bom, na mesma semana tivemos outros posts sobre eventos marcantes do final de 2011. O primeiro, da Bianca, tratou da morte de “Alfredo Cano”, aquele que ocupava o cargo mais alto na direção das FARC. Ela colocou que a “Operação Odisseia”, que acarretou a morte de Cano, foi uma mistura de boa elaboração com sorte e que de forma alguma representaria o fim do conflito na Colômbia. Na opinião dela, o adequado seria repensar as políticas colombianas frente aos grupos paramilitares. Bom, de fato operações como essa não resolveriam o problema. Hoje, o que pode ser o indício de um bom resultado de novas opções políticas são as negociações de paz entre as partes. Iniciadas no segundo semestre desse ano, fora do território da Colômbia, podem indicar a possibilidade de uma trégua. Talvez por maior disposição do governo, das FARC ou dos dois em conversar, pelo desgaste do conflito ou por novas circunstâncias políticas. Ainda é preciso esperar pra ver onde tudo isso vai dar… 

Outro post que marcou alguns tipos de “mortes políticas” foi o do Álvaro. A crise na União Europeia começava então a derrubar seus primeiros líderes e se alguns não haviam se dado conta ainda, começou-se a ver que a situação era séria. Além de Portugal, dois países tiveram seus líderes deixando o poder naquela semana. Na Grécia, George Papandreou, e na Itália, nosso sempre polêmico, Silvio Berlusconi. No texto, o Álvaro colocou algumas perguntas interessantes que servem de reflexões. Será que os líderes pensaram em, de alguma forma, chamar para si a responsabilidade da crise e deixar os próximos líderes com uma bomba um pouco menor? Ou talvez apenas respondiam às pressões que se voltavam sobre seus Estados? Ao final do post, ainda é mostrado o caminho inverso que a Islândia tomou quando enfrentou uma crise semelhante, deixou os grandes bancos quebrarem e manteve o contribuinte isento e suas contas em dia. Mesmo guardadas as devidas proporções, essa reflexão e lição é válida para a Europa. 

Para fechar a semana, tivemos um dos textos mais polêmicos e visitados do blog. Em seu texto, Israel X Irã: o problema não é nuclear, Giovanni colocou o programa nuclear iraniano em perspectiva histórica, mostrando que as rivalidades entre os judeus e os persas vão muito além do momento atual. Coloca que há rivalidades antigas desses dois países que caminham lado a lado com interesses territoriais de Israel, “desígnios de grande potência” por parte dos Estados Unidos, da França e do Reino Unido e busca de maior espaço de atuação no cenário internacional por parte do Irã. Ainda hoje a questão do programa nuclear iraniano se arrasta pela agenda internacional e compreender um pouco da origem de toda essa tensão é extremamente relevante (clique aqui para rever). 

Bom, pessoal, é isso aí! Postando e relembrando!

[Para o post número 2 da série “O mundo em lotação” também dessa mesma semana, clique aqui]


Categorias: Há um ano...


Camel Racing!

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Já ouviu comentários sobre as corridas de camelo? Tem ideia do que seja isso? Sabe onde este esporte é extremamente popular? Se a resposta for afirmativa ou não, dê uma breve olhada neste vídeo (aqui), o qual mostra partes de uma corrida na cidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos (EAU). É um fenômeno um tanto quanto recente e bastante característico dos países do Golfo Pérsico, dentre eles Arábia Saudita, Qatar, Bahrein, Kuwait e os próprios EAU. 

A princípio é um pouco estranho, pois denota traços culturais distintos e característicos da região do Oriente Médio. Conhecemos bem o futebol no Brasil, o futebol americano nos Estados Unidos e até mesmo o rugby na Nova Zelândia. Mas…corridas de camelos? Não! Assim, o vídeo em questão colocado no parágrafo anterior serve para ilustrar como se dá esta manifestação que retrata, também, os jogos de poderes e lideranças nesses países. 

Primeiro, a corrida é cultural. Com as consequentes descobertas e os “boom” do petróleo nas últimas décadas, o camelo deixou de ser instrumento de trabalho e foi substituído por carros modernos. Ao lado das pistas, os instrutores e tratadores dos animais os acompanham com seus Toyota, Mercedes-Benz e assim por diante. Consequentemente, os camelos passaram a ter outra utilidade principal: o esporte. 

Segundo, a corrida é instrumento de poder. Nos EAU, em específico, criou-se em 1992 a “Camel Racing Association”, que conta com grande apoio financeiro das principais famílias do país. Quando passadas na televisão, os locutores “endeusam” os seus principais líderes – os sheikhs – para reafirmarem seus sucessos de política de governo. Com as corridas, os Estados são personificados nos sheikhs. Se o camelo de determinada liderança é o vencedor, isso mostra que o legado cultural ainda está sendo defendido na região e eles ganham prestígio popular. 

Por fim, as corridas dos camelos são o retrato da tradição (cultural, religiosa) e da modernidade no Oriente Médio, em específico no Golfo. Sabe qual o prêmio ao dono do camelo vencedor? Um troféu, uma espada de ouro e um modelo de última geração da Mercedes-Benz. A espada simboliza os ancestrais e o carro é o reflexo da difusão tecnológica. Desde sociedades baseadas na economia petrolífera até no poderio dos famosos sheikhs, o esporte retrata a unificação nacional.

Pode parecer exótico, mas é só tomar como exemplo quaisquer outras manifestações esportivas a nível global. No Golfo Pérsico, a corrida de camelos é um dos principais sinais dos novos tempos. Tempos estes que são marcados por liberalizações econômicas e, ao mesmo tempo, fortes traços nacionalistas.


Categorias: Cultura, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Entre o 8N e o 7D

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Não, esse post não trata de um daqueles problemas matemáticos e exercícios de lógica de vestibular. Mas trata de um problema político com bastantes elementos envolvidos. 8N e 7D não são variáveis matemáticas, mas variáveis políticas, referências a duas datas importantes para o país, que mostram a situação complexa que nossos hermanos argentinos estão vivendo. 

O primeiro, referente a ontem, 8 de novembro, o dia de um grande protesto/ panelaço em todo território nacional. Organizado principalmente pelas redes sociais, o movimento incentivou as pessoas a saírem às ruas para protestar contra a situação atual. As críticas eram diversas. Insatisfação com a segurança pública, inflação, rumores de um futuro projeto de “re-re-eleição” de Cristina Kirchner, liberdade de imprensa e etc. 

De um lado, tinha-se os veículos do grupo Clarín (uma espécie de grupo Globo argentino) e o prefeito de Buenos Aires, de oposição, apontando o evento como o maior protesto da população desde o período de redemocratização no início dos anos 1980, e demonstrando a insatisfação com Kirchner. De outro, o governo minimizando a importância do panelaço e vinculando-o à Sociedade Ruralista, ao prefeito portenho e à oposição. 

Mas o que marcou mesmo o movimento foi a pluralidade, em termos de motivações das pessoas (clique aqui para uma reportagem interessante do La Nación sobre isso), e a baixa identificação com os partidos. Nem todos queriam o fim do governo Kirchner e aos que queriam não havia unidade. Muitos apenas protestavam por uma situação melhor. Da mesma forma, os que compareceram também fazem parte daquele grande grupo de 46% dos que votaram contra Kirchner nas últimas eleições. Parte de uma classe média insatisfeita com o conjunto das políticas do governo e que acabaram virando a base do capital político do grupo Clarín e da oposição. 

E o que isso tem a ver com o tal 7D? 

O 7 de dezembro é outra variável delicada nessa equação política complicada. Esse é o dia do ultimato. O fim do prazo para que o grupo Clarín se adeque à “Ley dos Medios” (aqui para ela na íntegra), que muda a regulamentação dos serviços audiovisuais do país. Em outras palavras, que limita o volume de controle que as empresas podem ter sobre os meios de comunicação. O governo basicamente dividiu o campo audiovisual em 3. Uma parte para o setor privado, outra para meios educativos e das comunidades e a terceira para o governo. Já publicada em 2009, ela teve problemas para entrar em vigor porque o Clarín bateu os pés. Agora não tem mais jeito e o grupo tem que vender parte de seus 240 sistemas de TV a cabo, 19 rádios AM, FM e 4 canais de TV aberta, ou o governo irá leiloá-los. 

Não é novidade para ninguém que Kirchner e o Clarín não se misturam. Ora, se esse grupo tem usado o 8N para tentar mostrar que o governo está enfraquecido, 7D de Cristina também é uma forma de enfraquecer politicamente o grupo opositor e abrir espaço para maior influência do governo nessa área. Sem entrar em juízos de valor específicos, a medida tem efeitos políticos para o jogo de poder nacional. E, da mesma forma, o 8N pode trazer um capital político para um grupo anti-Kirchner futuramente. 

Mas, aí que mora outro problema. Como a própria presidente colocou em seu primeiro discurso após os protestos, a oposição está desarticulada e não é capaz de apresentar um projeto de governo para bater de frente com o oficialista.

O cenário argentino é complexo. A inflação disparou e está sendo maquiada. Vive-se sob uma política de compra de dólares altamente restrita. Sob o discurso de democratização da mídia existe a busca de limitar um monopólio e fortalecer o governo. E sob os protestos gerais contra o governo tornam-se capital político para uma suposta oposição sem projeto e um grupo de mídia antigoverno. Ao final das contas, com esse número enorme de variáveis, entre o 8N e o 7D parece existir mesmo uma equação matemática muito complexa de desvendar…

[Para mais, 1 e 2


Categorias: Américas, Polêmica, Política e Política Externa


Mudanças e continuidades

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Na mesma semana, as duas maiores economias do mundo estão politicamente agitadas com eleições presidenciais. Cada qual a seu modo, ambas determinam o curso político dos próximos anos e exercem influência sobre as relações internacionais em geral.

De um lado, vemos abertamente que o fenômeno Obama (o qual enfrentou mais dificuldades do que esperava) conseguiu se reeleger sob o logo “Forward” (algo como “Seguindo em frente”). O apelo aos cidadãos para irem às urnas, já que o voto é facultativo por lá, foi enorme e o resultado acirrado mostra que cada voto conta, especialmente em um sistema eleitoral tão complexo como o estadunidense (entenda melhor aqui).

Por outro lado, vemos (ou melhor, não vemos) o processo eleitoral chinês começando. A cada 10 anos (e não 4, como nos EUA), e sob sigilo total, o poder político é transferido na China durante um congresso fechado do Partido Comunista. Xi Jinping é o nome que deverá assumir o poder. Em um processo eleitoral sobre o qual pouco se sabe, Jinping (sobre o qual tampouco se sabe muito em termos de posicionamento político) parece ser o nome com mais provável aceitação.

Obama reassume o poder com a promessa de continuidade, mas também de renovação. Em meio a uma crise econômica da qual aos poucos a superpotência norte-americana está se recuperando, é latente a busca pela unidade política em um país com profundas diferenças ideológicas (vide toda a luta política entre republicanos e democratas durante as campanhas presidenciais) para a aprovação de futuras medidas de âmbito nacional.

Enquanto isso, em uma China que cresce economicamente a uma taxa de impressionantes 10% ao ano, o desafio maior é o combate às desigualdades sociais (150 milhões de chineses ainda vivem com menos de 1 dólar por dia). A situação de marginalização dos mais de 200 milhões de migrantes que saíram nos últimos anos do campo para trabalhar nas cidades também é clara, além das sempre mencionadas deficiências em termos de direitos humanos no país.

Acompanhar o processo eleitoral da China e dos Estados Unidos significa também acompanhar o impacto que a eleições de seus candidatos exerce sobre as relações internacionais. Em um mundo cada vez mais interligado, é maior do que nunca a responsabilidade dos líderes que assumem os desafios nacionais e internacionais dessas duas superpotências, tão diversos e ao mesmo tempo tão similares entre si. 


Categorias: Ásia e Oceania, Estados Unidos, Política e Política Externa


Nada de novo na Síria

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Nunca falta o que se falar da Síria. Muito provavelmente por que essa é uma guerra que não vai terminar tão cedo – há pouco tempo, por exemplo, nem conseguiram manter um frágil cessar-fogo por conta de um feriado islâmico. E boa parte disso por culpa da desorganização dos rebeldes contra o governo de Bashar al-Assad, que sem unidade fragmentam a luta e se enfraquecem. Nessa semana, aliás, a oposição está se reunindo em Doha pra ver se consegue dar um jeito nisso. Muito improvável, diga-se de passagem, e o futuro do conflito parece cada vez mais prolongado. 

Na verdade, o que podemos pensar para o futuro? Acabou de se confirmar o que todo mundo já sabia: a Rússia vende armas para a Síria por conta de acordos da época da URSS. A justificativa é a de ajudar a proteger a Síria de ameaças externas – leia-se, EUA e amigos – e não de tomar parte de um dos lados. E por que a Síria estaria se sentindo ameaçada de intervenção? Justamente por usar essas armas contra os opositores. O ciclo se fecha e vai depender bastante do resultado das eleições nos EUA. Tem ainda o problema do conflito se espalhar, uma possibilidade cada vez mais real. A situação mais crítica é na Turquia, que já anda às turras com a Síria por conta dos refugiados e escaramuças na fronteira, e ainda mais com os problemas de atentados internos por conta do PKK (um grupo terrorista curdo), falta pouco para a coisa estourar. O Líbano seria a segunda pior opção, mas as rachaduras internas e o apoio da França parecem que vão esfriar essa possibilidade. 

Mas talvez o mais preocupante seja a notícia de que a fronteira de Israel estaria sendo visitada por tanques sírios. Pra quem não se lembra, Israel ficou com um território ao sul da Síria após a Guerra dos Seis Dias de 1967, e nesse fim de semana tanques sírios apareceram nessa zona desmilitarizada. Nada grave, mas traz duas perspectivas preocupantes. A primeira, de que “dê a louca” em alguma das facções de oposição (nunca se sabe o que se passa na cabeça de grupos tão variados), ou que Assad jogue por terra as negociações por causa da guerra civil e até resolva disputar novamente a posse da região. Trazer Israel pro samba significa a segunda preocupação, pois o país ainda está em guerra com a Síria, tecnicamente, e a negociação da posse das colinas é uma das barganhas de Israel para afastar a Síria de Irã e grupos hostis como o Hezbollah. Esse pessoal todo envolvido no conflito transforma um barril de pólvora numa bomba de napalm. E a depender do resultado das eleições dos EUA (ou não), isso traz o Tio Sam pra parada. E junto  acabarão vindo China e Rússia do outro lado. Imaginem só. 

O fato é que a oposição só vai negociar quando Assad sair, e isso não vai ocorrer tão cedo. Os lados vão continuar conversando por meio das balas, e o killscore desse jogo macabro batendo novos recordes, na casa de 36 mil mortos até o momento. Isso só na Síria – imaginem se a coisa se espalhar.


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Há um ano...

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O momento que se vivia na exata semana que se passou há um ano foi de extrema importância para todos os países do mundo. A população mundial atingia a impressionante marca de 7 bilhões de pessoas e a Página Internacional não tinha como se furtar de tecer algumas palavras sobre o tema. Essa tarefa foi assumida pelo Giovanni, em seu texto “Um mundo em lotação: entre a escassez e a omissão”.  

A despeito de ter sido escrito há mais de um ano e de a população mundial já estar na marca dos quase 7,05 bilhões (a previsão é que se chegue a 7,1 bi em julho de 2013), os questionamentos e informações colocados no texto não perderam sua atualidade. Como o crescimento da população liga-se com o desenvolvimento humano? A escassez é um efeito político ou inevitável? Esses são só alguns, dos muitos questionamentos que foram colocados no post que marcou o início de uma série sobre um mundo com 7 bilhões de pessoas. 

Na mesma semana, eu postei um texto tratando de um tema bem diferente. Ao passo que a crise do Euro se expandia, a Alemanha não manifestava seu interesse em pagar a conta da gastança desvairada de seus companheiros de bloco e a Grécia não conseguia chegar a consensos políticos sobre o problema; o parlamento europeu mostrou ter também outra preocupação. Essa era o risco de os países da zona do Euro estarem se entregando de mãos atadas para os credores emergentes, principalmente a China. Tudo isso foi apontado no post “Dragão Vermelho sobre o velho mundo” (clique aqui para reler).

Enquanto isso, no Quiguistão, a crise parecia ser substituída por algum tipo de esperança. O país, que já foi tema de recorrentes postagens aqui no blog, conseguia eleger um novo presidente, Almazvek Atambayev. Esse foi o tema do post, “Quirguistão: novos capítulos”, do Luiz Felipe (clique aqui para conferir). O texto tratou das dificuldades políticas históricas do país e ainda apontou para um pouco de esperança, mesmo com um novo premiê eleito já com denúncias de irregularidades nas eleições. 

Por fim, mas não menos importante, o Alcir postou um interessantíssimo texto (aqui para reler) sobre a proposta do governo de ampliar em 30% o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) das montadoras de veículos, com a ideia de proteger a indústria nacional. Ele apontou com dados empíricos que aquilo que encarece os carros no Brasil não são os impostos, mas sim toda uma estrutura de oligopólio dominado por indústrias estrangeiras. Se o Brasil buscasse a tentar proteger esse mercado, teríamos um cenário muito parecido com aquele dos anos 1990, no qual a Elba era tido como um carrão no país, mas era uma carroça fora daqui. Apesar de a medida ter sido revogada pelo STF à época, vale a pena conferir o texto que ainda não perdeu sua atualidade, pois ainda vemos os abusivos preços de veículos em nosso país. 

É isso aí, pessoal, postando, relembrando e refletindo!


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Post do Leitor

Post do leitor – William Soares Gonçalves

[O nosso leitor William Soares Gonçalves, aluno do final do ciclo do Ensino Fundamental na Escola Estadual Profª. Zeicy Apparecida Nogueira Baptista, em Taboão da Serra/SP, enviou mais um interessante texto para a Página Internacional. Sua nova análise trata dos investimentos que estão sendo feitos para a Copa do Mundo de 2014. Tema complexo que, ao mesmo tempo em que envolve uma destacada dimensão internacional de prestígio perante os demais países, gera questionamentos inevitáveis quando são analisados os elevados gastos internos… Ótima leitura a todos! E aproveitamos para lembrar que para ter seu texto publicado no blog, basta entrar em contato com a equipe pelo e-mail: [email protected]]

A beleza custa caro 

A Copa do Mundo é, sem dúvida, um dos eventos esportivos mais bonitos e importantes do mundo, bem como uma grande fonte de renda para seu país-sede. A Copa do Mundo de 2014 irá acontecer no nosso querido Brasil, e é a partir disso que surge o tema deste texto.

Primeiramente, faço uma pergunta: o Brasil está mesmo preparado para sediar um evento de tamanha importância e que envolve praticamente o mundo inteiro? Fomos escolhidos para sediar a Copa no ano de 2007 e ainda falta muita coisa para ser feita. Isso inclui a melhoria da infraestrutura do país em aeroportos; meios de locomoção, tais como as estradas; e principalmente a melhoria da segurança para as pessoas que vierem assistir aos jogos.

Mas, infelizmente, o que mais preocupa não é só o bem-estar das pessoas que assistirão aos jogos, mas sim os gastos absurdos feitos nos investimentos para as construções e reformas de estádios. Não dá pra entender como são feitos tantos investimentos assim em um país em que ainda há tanta gente passando fome, morando nas ruas, com precariedade na segurança, na educação e em tantas outras coisas que merecem atenção especial das autoridades.

Quando o “Itaquerão”, a arena corinthiana, estiver pronto, os investimentos feitos ultrapassarão a quantia de meio bilhão de reais – eu digo meio bilhão! O pior de tudo é que 70% dessa quantia é patrocinada pela prefeitura de São Paulo, ou seja, esse dinheiro sai do bolso do trabalhador que acorda 5 horas da manhã para trabalhar e pagar seus impostos. Ao invés de ver esse dinheiro investido em áreas que lhe beneficiem como cidadão, não, o dinheiro dele e de muitos outros está sendo investido em construção de estádios…

E não apenas o Itaquerão está levando dinheiro público, mas sim uma média de 14 estádios pelo país. Nossa presidenta Dilma Rousseff fala de um investimento para a Copa do Mundo no valor de 33 bilhões de reais (!). Talvez fosse muito melhor se esse valor fosse investido diretamente na educação, na saúde, no transporte e em outras áreas que beneficiem os cidadãos. Todo esse investimento em estádios de futebol pode ser questionado, sabendo que tantas pessoas ainda passam fome e morrem em hospitais no nosso país… 


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