O sonho do Estado próprio

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Conquistar por seus próprios meios um espaço físico individual, reconhecido socialmente pelos demais, é um sonho que quase todas as pessoas esperam poder realizar durante a vida. Já no plano internacional, o sonho do “Estado próprio” é perseguido pela Palestina há décadas. Um capítulo importante dessa saga foi escrito ontem, com o reconhecimento histórico da Palestina como “Estado observador não membro” da Organização das Nações Unidas (ONU).

Ainda que a importância deste acontecimento seja muito mais simbólica que prática (entenda melhor aqui), trata-se de uma vitória política sem precedentes – e a partir da qual frutos futuros podem ser esperados no que se refere à resolução do complexo jogo de interesses partilhados/disputados por Palestina e Israel no Oriente Médio. Com uma nova onda de hostilidades que se iniciou há poucas semanas e vem chamando diariamente a atenção internacional à questão devido ao grande número de vítimas inocentes (principalmente palestinas), o assunto não poderia ser mais urgente.

Desta forma, a Palestina deixa de ser representada na ONU apenas pela entidade Organização para Libertação da Palestina (OLP) e alcança, pelo menos no âmbito desta organização, o almejado status de “Estado”. Ainda que apenas observador e sem direito a voto, sua responsabilidade aumenta, bem como a possibilidade de seu envolvimento com as agências internacionais da ONU. Sem dúvidas trata-se de uma vitória política para Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP).

Com a oposição dos Estados Unidos, sempre aliados de Israel (…), e apenas outros 8 países, esta elevação de status na ONU foi festejada no Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino, exatamente 29 de novembro. Em retaliação a esta conquista palestina, contudo, Israel anunciou imediatamente a construção de mais 3.000 moradias para judeus nas disputadas zonas de Jerusalém Oriental e da Cisjordânia… considerados ilegais pela ONU e condenados pela comunidade internacional, estes assentamentos constituem um claro obstáculo à busca pela paz na região, demonstrando a dificuldade de um diálogo aberto com o lado israelense. 

Na longa busca deste sonho palestino por um Estado próprio, muitas vidas inocentes já foram sacrificadas (tanto na Palestina quanto em Israel). A cada dia se faz (mais) necessário nutrir a esperança de que a delimitação de fronteiras na região e uma solução pacífica ao embate são, além de desejadas, realmente possíveis. E a conquista histórica deste espaço ampliado da Palestina na ONU, mesmo que como “observador não membro”, demonstra um pequeno grande passo nesta direção… 


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O retorno dos Faraós?

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Os faraós são figuras emblemáticas do antigo Egito. Eram reis tidos como divindades cujos poderes eram ilimitados e inquestionáveis. Personagens importantes desse período da história, ainda pairam sobre o imaginário popular pelos filmes fantasmagóricos e programas sobre múmias ou por seus legados para essas sociedades. 

Mas há quem tema o retorno dos Faraós. Apesar de ser difícil que algum deles levante de seus sarcófagos, é fácil pensar que alguém almeje os poderes que eles tinham. E é justamente por isso que o Egito tem passado desde a última quinta-feira. Após o atual presidente, Muhamed Mursi, ter tido um papel importante na retomada do diálogo entre Israel e Palestina, parece que tentou usar um pouco desse capital político dentro de seu país para atingir a qualidade de um faraó moderno. 

No dia 22, publicou um “senhor” decreto. Sem muitos rodeios, seu texto dizia que ninguém poderia questionar decretos baixados pelo presidente. O judiciário perdia poder e o presidente tornava-se a autoridade absoluta, como que um novo Faraó. A justificativa para isso era acelerar o processo constitucional do país. Desde a queda de Mubarak que o país tem patinado sobre golpes brancos e disputas entre grupos opositores, seja por medidas do antigo Conselho Superior das Forças Armadas, seja por medidas do próprio presidente. E, em meio a esse fogo cruzado, o Congresso já havia sido fechado e a Assembleia Constituinte revogada anteriormente (para mais sobre isso no blog clique aqui, aqui e aqui). 

A medida causou um grande bafafá no país e dividiu opiniões. Os opositores, que já temiam pela influência religiosa da Irmandade Muçulmana sobre Mursi, ocuparam a Praça Tahir para protestar em favor do Estado laico e da democracia. Outros opunham-se por recear o surgimento de um “Mubarak de barba”, pois Mursi é só o sexto presidente egípicio em 72 anos de independência do país e, como o atual governante, o ditador deposto também havia entrado no poder pela via legal. 

O maior dos protestos deu-se ontem. Estima-se que haviam mais de 200.000 pessoas na praça. Houve violência, confrontos com a polícia e pelo menos 100 pessoas feridas no Cairo. As preocupações não são sem fundamento. Contudo, por outro lado, a justificativa de Mursi, de neutralizar temporariamente todos os poderes para acelerar os objetivos da revolução (a Constituição), também tem. Mesmo porque já havia indicativos de que o judiciário planejava barrar o atual Assembleia Constituinte. Mursi também utilizou-se desse “decreto dos decretos” para além de neutralizar o legislativo, indicar nomes que lhe apetecessem. Os juízes que estavam no poder, a despeito de não declararem, muitos acreditavam que ainda tinham certas lealdades a Mubarak e ao Conselho Superior das Forças Armadas. 

Bom, precisa-se aguardar até o fim da semana para sabermos se de fato os trabalhos da Assembleia Constituinte foram adiantados ou se tudo isso se trata do retorno de um novo faraó. Entretanto, pode-se ver que o processo recente do Egito dá uma lição de como a excepcionalidade tem sido usada indiscriminadamente na construção da democracia pós revolução. Primeiro, com a tomada do poder das Forças Armadas, a demora para se realizar as eleições e as dissoluções do parlamento e tentativa de limitar o poder do presidente. Depois, do próprio Mursi, de tentar neutralizar o judiciário para obter resultados políticos positivos. Espera-se que na infância da democracia egípcia, essa excepcionalidade não se torne normalidade…

[Para mais sobre: 1, 2, 3, 4, 5, 6 ]


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África em prantos

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O mundo está um pouco mais aliviado (ou menos preocupado) com o cessar-fogo entre Israel e o Hamas na faixa de Gaza. Pontos para o Egito, ou melhor, pro presidente Mohamed Mursi, que costurou essa frágil negociação e está se consolidando como um articulador regional mesmo que se mostrando cada vez mais um ditador (em versão light). Crianças voltam às escolas, foguetes param de zumbir pelos ares e o Oriente Médio parece (até o momento) escapa de mais uma guerra inútil. Tudo em paz, não? Digam isso pra África. Se um único conflito no Oriente Médio seria um desastre, na África está sobrando guerra. 

Vamos fazer uma contagem rápida. No Oriente Médio teríamos muito mais gente se envolvendo caso o conflito fosse às vias de fato, mas no fim das contas teríamos apenas um Estado envolvido no problema inicial, com Israel versus um grupo militar. Na África? Temos por cima guerras entre dois Estados (coisa meio démodé no resto do mundo) entre Quênia e Somália, Sudão e Sudão do Sul, além de problemas na Nigéria, Mali e Congo. Sem contar os agregados, como Ruanda, já temos 7 países em estado e guerra. Isso sem contar os que ainda se “recuperam” de ondas de violências anteriores, como a Costa do Marfim e a Libéria (onde as coisas ainda estão complicadas). Alguém viu cobertura disso no jornal? 

Na Nigéria o problema é religioso e cultural, com choques de grupos extremistas contra a influência ocidental. No Congo, rebeldes com apoio de Ruanda conquistaram uma cidade importante e prometem destruir o presidente. No Mali, países africanos enviaram uma força conjunta pra retomar o norte do país, que foi tomado pela Al-Qaeda (isso mesmo…) e virou um mini-Afeganistão nos moldes da época do Taleban. Mas o pior de tudo são os conflitos entre Estados. O Quênia está mandando tropas para caçar terroristas dentro da Somália (que respondem com atentados), e os ataques na fronteira entre o Sudão e seu vizinho do sul são constantes. 

Isso tudo já é uma mostra de como a situação é complicada nessas, e mostram cada um do seu jeito as vulnerabilidades dos países africanos. O caso do Congo mostra o cinismo do Ocidente, que em geral faz vista grossa a regimes aliados que causam distúrbios – Ruanda está armando os rebeldes e ainda assim permanece recebendo auxílio militar de países como EUA e Inglaterra. O caso do Quênia mostra como a falência de um Estado (no caso, a Somália) torna o país um oásis para grupos armados e criminosos. No Mali, a expansão da Guerra ao Terror e seus piores resultados, com o fortalecimento de grupos antes inexpressivos e sua migração para países mais fracos, onde podem prosperar. E o mais trágico, com certeza, o da guerra interminável no Sudão, cuja separação foi considerada um caso e sucesso e uma esperança de paz na região, mas que por causa do excremento do diabo, vulgo petróleo, e a cobiça que gera na elites dos respectivos países, fez com que não houvesse progresso com relação à paz. 

São regiões do mundo em que o medo faz parte da vida de milhões de membros de etnias ou religiões minoritárias, o estupro faz parte do cotidiano de mulheres e meninas, e os soldados, muitas vezes meninos, são treinados para odiar a “outra parte” desde cedo e tem uma expectativa de vida que não chega aos 30 anos. Não existe uma “solução” para isso nem a longo prazo. A não ser ignorar ou fingir que não existem. E essa parece ser a solução dada pela mídia e governos ocidentais.


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Post do Leitor

Post do leitor – Bruno Theodoro Luciano

[Pessoal, mais uma vez apresentamos um post do leitor. Desta vez a colaboração é de Bruno Theodoro Luciano, graduado e mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Em uma interessante análise, ele fala como determinados países europeus observam a crise do Euro e, consequentemente, o próprio desenvolvimento da integração regional. Caso queira contribuir com a Página Internacional também, envie seu texto para [email protected]. Aproveitem a leitura!]

Respostas à crise europeia: mais ou menos integração? 

As reações dos países e dos grupos sociais europeus, em decorrência dos efeitos da crise econômica que tem assolado o continente nos últimos anos, têm apresentado naturezas das mais diversas. Enquanto países governados por grupos euro-céticos e setores populares afetados diretamente pelas medidas de austeridades vêm adotando uma percepção negativa quanto às atitudes e instituições supranacionais, os países líderes do bloco têm assumido uma posição favorável à ampliação das competências europeias, tal qual a construção de uma união fiscal, como instrumento de solução para a crise da zona do euro. 

A insatisfação popular em relação aos altos níveis de desemprego e às medidas de austeridade tomadas pelos governos dos países mediterrâneos, como Portugal e Espanha, tomou proporções transnacionais, com a organização de paralisações conjuntas dos trabalhadores desses países. As greves e manifestações nesses Estados representam dura crítica à política de cortes de gastos e de redução de salários dos governos ibéricos em busca de maior equilíbrio nas contas públicas. 

Em países de tradições euro-céticas, como o Reino Unido, a primeira resposta quanto às conseqüências da crise é um apelo por menos integração, por afastamento do país das decisões conjuntas dos Estados que atualmente utilizam o euro como moeda oficial. A crise europeia não deixa de ser uma oportunidade para os partidos contrários ao aumento de integração, como o Partido Conservador, demandarem uma reavaliação da postura britânica como membro do bloco europeu. Uma saída britânica da UE, no entanto, é impensável na atualidade, já que 50% do comércio desse país é feito com seus parceiros europeus

Em recente discurso no Parlamento Europeu, a primeira-ministra alemã Angela Merkel ressaltou a necessidade futura de federalização da integração europeia, como forma de se alcançar uma solução para a crise no velho continente. O aprofundamento da Europa, para a líder alemã, torna-se condição essencial para resolução da crise dentro dos países da zona do euro, mesmo que traga a necessidade de uma nova revisão dos Tratados Europeus em vigor. 

Enquanto determinados grupos e partidos entendem que a crise dos países da zona do euro é decorrente da alta ambição na constituição de uma moeda europeia comum, outros setores veem a culpa da crise, na realidade, na falta de ambição em tornar a moeda europeia mais forte, sem o respaldo de uma união fiscal e política. Ou seja, as respostas quanto a um mesmo problema podem ser totalmente contrárias, com base na ideologia e na visão que determinados grupos possuem acerca da integração. Do mesmo modo que é difícil encontrar representantes de partidos de tradição euro-cética favoráveis à manutenção da moeda europeia na atual conjuntura, é impossível visualizar representantes das instituições europeias apoiando o fim da zona do euro. 

Os rumos da integração europeia estão nas mãos dos grupos que estiverem no poder de Estados-chave para a Europa, ou seja, Alemanha e França. Enquanto a liderança política desses países for favorável à manutenção ou ao aprofundamento do bloco, não há razões para se pensar em um mundo sem uma Europa unida.


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Post do Leitor

Post do Leitor – Fernanda Ferreira Chan

[Hoje temos uma postagem especial, de autoria de Fernanda Ferreira Chan, graduanda em Relações Internacionais pela Faculdade Anglo-Americano, de Foz do Iguaçu-PR, e membro do Grupo de Pesquisa em Organizações Internacionais. O Grupo é coordenado pelo nosso colega, prof. Ms. Danillo Alarcon, mestre em Relações Internacionais pela UnB, que nos indicou essa interessante leitura sobre a questão do orçamento da OEA. Lembramos que caso se interesse em ter um texto publicado pelo blog, basta entrar em contato com a equipe pelo e-mail: [email protected]. Boa leitura!

A OEA e seu papel em tempos de crise

Fundada em 1948 com a assinatura da Carta da OEA em Bogotá na Colômbia, e colocada em vigor em dezembro de 1951, a OEA trabalha na busca de “uma ordem de paz e de justiça, para promover sua solidariedade, intensificar sua colaboração e defender sua soberania, sua integridade territorial e sua independência”, tal qual o 1º artigo de sua Carta postula. Apesar de congregar 35 Estados independentes das Américas, como Estados Unidos, Brasil, Argentina, Chile, entre outros, a OEA atualmente passa por problemas financeiros, e isso sem sombra de dúvida balança sua atuação a favor da democracia, direitos humanos, segurança e desenvolvimento, pilares de sua criação. 

No dia 15 de novembro deste ano a OEA aprovou um orçamento reduzido para 2013; o deste ano foi de 85 milhões, e no ano que vem será de 83,9 milhões, valor reconhecido por diversos países como “de emergência”. Países membros veem a verba como insuficiente para honrar todos os encargos da OEA; a embaixadora do Equador, María Isabel Salvador, por exemplo, deixou claro que esse orçamento reduzido é “mais ou menos coerente, em meio a uma crise financeira”. Em meio a essa crise, os 34 membros da OEA reconheceram a necessidade de repensar prioridades e economizar no uso da verba, mas ainda assim restringindo-se aos objetivos básicos do órgão (promoção da democracia, segurança, dos direitos humanos e do desenvolvimento). 

A discussão fica por conta da pergunta: é possível a organização continuar com seus projetos com essa redução? Como o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza menciona: “A grande questão é se isso que é feito, que é importante e necessário, está de acordo com as missões da OEA, ou cabe a outros órgãos”. 

Por exemplo, o site de notícias Opera Mundi publicou no dia 5 de novembro deste ano, uma pesquisa da OEA que indicava que mais de 50 milhões de pessoas não tinham documentos na América Latina, pois 10% dos recém-nascidos não eram registrados. A pesquisa da organização utilizou meios financeiros para chegar a esses dados, inclusive antes dessa pesquisa, a OEA já trabalhava na diminuição dessa porcentagem, através do Programa de Universalização da Identidade Civil nas América (PUICA). 

Essas faltas de registro ocorrem significativamente em países como Peru, Equador, Costa Rica, Honduras, Guatemala e Colômbia, países estes que são mais vulneráveis financeiramente, deixando claro que o fator pobreza está paralelamente ligado ao não registro civil. Como se sabe, o registro civil não só garante a existência do individuo no país, como dá acesso a serviços, direitos, inclusive da participação civil, politica, e econômica do país. O PUICA utiliza uma serie de estratégias para atingir a universalidade dos registros, como o fornecimento de certidões de nascimento em hospitais, reconstrução de documentos perdidos ou destruídos, campanhas móveis de registro e conscientização em zonas vulneráveis e fronteiriças, análises de subregistro e cooperação regional e internacional, além de agir na segurança dos dados. Essas estratégias precisam totalmente de suporte financeiro, as equipes da OEA que trabalham neste projeto, precisam manter seus orçamentos, para que não haja uma interrupção dessas ações que asseguram o reconhecimento do direito da identidade civil das pessoas. 

É possível que essa redução para 2013 anunciada semana passada, vá afetar milhões de recém-nascidos latino-americanos, estes não vão ter mais o suporte completo fornecido até o ano de 2012 através do programa PUICA. Se com um determinado orçamento ela criou e fez a manutenção desses projetos, esse orçamento se possível não deve ser alterado, mas com base na crise financeira atual, a OEA não fez nada mais que o coerente, afinal não fez uma redução brusca assim acredito, então talvez consiga repensar seus meios de ação, sem alterar seus princípios a favor da democracia, direitos humanos, segurança e desenvolvimento.


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Conversando com a Teoria

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As redes e as Relações Internacionais! 



Prosseguimos com o nosso Conversando com a Teoria (?) e, desta vez, falaremos um pouco sobre um conceito extremamente amplo e difuso. Bem verdade, as redes podem ser tomadas como reflexos da globalização, a qual redefiniu o modo de troca, difusão ou ramificação da informação ao redor do mundo. Para ficar mais fácil de compreender este processo, vale conceitualizá-lo e dar uma maior ênfase nos exemplos. 

Uma rede configura-se como uma postura organizacional entre pessoas, grupos, empresas ou cidades que divulgam entre si várias experiências exitosas e informações. Ela caracteriza uma junção entre determinadas partes cujos objetivos são convergentes. Organiza-se horizontalmente, ou seja, pressupõe uma divisão de responsabilidade entre os membros, opondo-se a uma organização vertical e hierárquica. 

Como dito no primeiro parágrafo, as redes mais recentes ganharam forma com a intensificação dos processos globalizantes e a constante interdependência mútua entre os países. Em grande medida, devido à dinamização econômica ao redor do mundo, as informações tornaram-se rápidas e versáteis, fazendo com que circulasse uma alta gama de dados entre diferentes partes do mundo em questão de segundos. E é mais ou menos assim que funciona a internet. 

De acordo com Mauricio Fronzaglia, o qual escreveu diversos textos sobre redes em comunhão com outros autores, a internet é o grande exemplo de rede atual. Mesmo aderindo a esta nomenclatura posteriormente, ela foi criada em 1969 pela sucursal norte-americana “Advanced Research and Projects Agency” (ARPA) e consistia num projeto de conexão entre computadores dos seus centros de pesquisa. Somente na década de noventa surgiu o “World Wide Web”, mais conhecido como WWW, e, assim, a internet figurou-se como uma verdadeira rede global. 

Como segundo exemplo, mencionam-se as redes de empresas. Aquisição de capital, contato entre revendedores, pesquisas com clientes em potencial, alianças estratégicas e várias outras características deram forma ao modo de atuação das empresas transnacionais ou grandes corporações multinacionais (GCMs). Basta observarmos algumas delas como Microsoft, Apple, Nike, Nestlé, Ambev e ver como se articulam verdadeiramente através de nós: um lugar para produção, outro para armazenamento, mais um para distribuição e assim por diante. Todo o processo é uma rede organizada! 

Mudando o foco, tem-se outro exemplo muito conhecido por todos: a Al-Qaeda. Criada nos fins dos anos oitenta, a organização terrorista se transformou em uma rede transnacional capaz de atuar em qualquer parte do mundo. Osama bin Laden acabou por adquirir a liderança do grupo e fez do mesmo uma articulação extremamente complexa com financiamento externo, ajuda governamental, apoio de populações muçulmanas, etc. A Al-Qaeda está, literalmente, em todo lugar! Ela possui as chamadas “células” desde o Sudão até os Estados Unidos, do Paquistão à Arábia Saudita, do Afeganistão ao Reino Unido. Seu poder de destruição é visível e ela pode, por meio desta articulação em rede, atacar qualquer localidade. 

Há também, de modo bem específico para as Relações Internacionais, as chamadas redes de cidades. De maneira bem sucinta, são organizações entre cidades que envolvem, acima de tudo, cooperação descentralizada. É do conhecimento de todos que existem cidades modernas e grandes conglomerados urbanos, todavia também há municípios minúsculos, os quais não possuem capacidade para atuarem internacionalmente de maneira solitária. Dentre outras coisas, é para isso que serve uma rede de cidade: fomentar as chamadas “best practises” entre os membros e fortalecer o nível local nas políticas mundiais.

Além do mais, existem redes de pesquisa, até mesmo de indivíduos e as tão conhecidas redes sociais. Entretanto, os casos aqui citados retratam em grande medida a nomenclatura mais moderna das redes. Já foi dito que, embora se tenha uma conceitualização principal, as redes configuram-se de maneiras diversas e sobre os mais variados temas. Internet, empresas, terrorismo, cidades e assim por diante, cada uma à sua maneira, são fenômenos recentes e também caracterizam as Relações Internacionais.


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O jogo dos blocos

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Não, o título do post não se faz alusão aos coloridos blocos de Tetris que marcaram certamente a infância de muitos que estão lendo este post. Os blocos a que me refiro são na verdade os grupos multilaterais criados por Estados com objetivos comuns que, assim como em um jogo de Tetris, procuram se complementar entre si em busca de vantagens comuns, formando o complexo quebra-cabeça das relações internacionais.

Encontros multilaterais são sempre alvo de textos no blog (o mais recente refere-se à recém-realizada Cúpula Ibero-americana de Chefes de Estado e de Governo, leia aqui) e o fato é que a coordenação entre países com interesses comuns (políticos, econômicos, etc.) tende apenas a melhorar suas condições de competição em relação ao contexto internacional como um todo. E os países asiáticos entendem muito bem essa lógica.

Na reunião da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) que acontece essa semana, uma proposta parece ganhar forças: a criação do que seria o maior bloco econômico mundial (!), com a bagatela de 3,5 bilhões de consumidores. O possível novo bloco deverá se chamar Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP), incluindo os 10 países já membros da ASEAN, além do Japão, da Coréia do Sul, da Austrália, da Nova Zelândia, e dos gigantes Índia e China. Hoje esse grupo de países responde por um terço do comércio e da produção econômica do mundo inteiro.

Muitas discussões ainda deverão ser realizadas para que este bloco comercial se concretize efetivamente como tal, mas a perspectiva é de que isto ocorra já em 2015. Superar diferenças entre os países-membros em prol da criação de um bloco de tamanha importância parece ser uma estratégia comum neste grande jogo de interesses internacionais. O “encaixe perfeito entre as peças” é o objetivo sempre almejado, mas esta “perfeição” certamente não pode ser vista na realidade assim como no jogo. Com interesses e conjunturas específicas a cada momento histórico, as negociações multilaterais sempre reservam grandes incertezas e instigam o debate constante.

A propósito, estas negociações da RCEP acontecem ao mesmo tempo em que um diálogo para a criação do Acordo da Associação Transpacífico (TPP), outro projeto de área de livre comércio, mas desta vez entre os Estados Unidos e outros dez países (dentre os quais não se encontra o gigante chinês). Coincidência?

Cada qual em sua área de influência, o que se percebe é que os países avaliam constantemente a possibilidade de se aliar uns aos outros em busca de vantagens competitivas: esta é a tônica do jogo. 


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Nuvens sombrias em Gaza

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Não teria como ser outro assunto – a sombra da guerra se espalha no Oriente Médio, com a Síria em convulsões e Israel atirando para todos os lados, literalmente. A nova onda de ataques com foguetes a território israelense valeu uma resposta absolutamente desproporcional que assombra o mundo desde a última semana. Em última instância, Israel não estaria “errado” ao retaliar ataques contra seu território e tentar desarmar os arsenais do Hamas. Mas quando se compara o grau de destruição causado por cada ataque, é cada vez mais difícil justificar qualquer tipo de apoio. 

Por hoje, vamos focar nas relações regionais – mesmo por que poderíamos ficar o dia todo aqui discutindo sobre a viabilidade do Estado palestino (a solução que acabaria com esse rebu) e como os radicalismos de ambos os lados jogam terra sobre isso. A diferença dessa nova onda de violência com relação à ultima, de 2008, é o fato de que Israel está cada vez mais isolado. 

Culpa da Primavera Árabe, em partes. O Egito, antiga liderança (e que ajudava Israel) agora está muito mais para o lado dos palestinos e do Hamas (primo distante da Irmandade Muçulmana que agora manda por lá). Temos o Qatar e a Arábia Saudita tentando aumentar sua influência mas sob suspeita aos olhos dos árabes (que temem qualquer elite que venha do Golfo). E por último, e mais importante, temos a Turquia. O país azedou as relações com Israel desde o ataque à flotilha de ajuda humanitária e cada vez mais tenta se consolidar como a potência regional em uma parte do mundo que carece de liderança nesse momento. O potencial econômico e militar para isso a Turquia tem, mas faltam elementos culturais, e mesmo os atritos como a fronteira com a Síria. Aliás, esse é um dos principais fatores que pesam na possibilidade de um conflito regional… 

Mais do que as discussões sobre guerras assimétricas ou a natureza de um Estado contra entes não-estatais, fica a perplexidade por conta do excesso de força. Isso por que não faz sentido que Israel comece um conflito desse tipo agora – e parece ainda mais despropositado clamar que reduzirão a outra parte “à idade média”. Se um conflito no Irã parece pouco vantajoso por causa das dificuldades logísticas, quanto mais contra todo mundo ao redor e com a opinião pública mundial ficando contrária a essa violência. Ascensão de ultra-conservadores ao poder? Saber que terão apoio dos EUA e fazer o que der na telha? Conspirações? O mundo fica de olho no que vai resultar das possíveis negociações no Egito, e na possibilidade de um cessar-fogo que evite um massacre ainda maior – e tomara que deem certo, já que a chance de invasão caso as negociações fracassem é iminente.


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Há um ano...

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Há um ano comentávamos no blog a polêmica causada pela campanha “Unhate” da marca italiana Benetton, em que grandes líderes mundiais rivais foram apresentados aos beijos em um apelo de marketing à busca pela paz no cenário internacional (reveja o post aqui). Censurada por todos os protagonistas das fotos, a campanha sofreu vários processos judiciais pelo mundo afora e gerou imensa repercussão.

Seguindo o mesmo estilo polêmico, a campanha deste ano da marca intitula-se “Desempregado do ano”, em tempos de crise econômica na Europa e nos Estados Unidos (leia mais aqui). Problematizando temas políticos e econômicos em sua estratégia de publicidade, a marca se diferencia pela ousadia, ao provocar as mais diversas reações internacionais (que, positivas ou negativas, contribuem para a divulgação de seus produtos, é claro).

Um ano atrás o colaborador Giovanni Okado também nos brindava com uma interessante série sobre o crescimento da população mundial, já que acabávamos de alcançar a marca histórica de 7 bilhões de habitantes no globo (reveja os textos da série em sua sequência aqui: 1, 2, 3, 4, 5).

Os desafios e as consequências internacionais de um mundo em expansão são discutidas a todo momento, mas mereceram especial destaque neste momento do ano passado. Hoje, as discussões sobre a proximidade da marca de 200 milhões de habitantes no Brasil já começam a aparecer, e certamente ainda serão alvo de futuras análises aqui no blog…

Postando e relembrando, este é o propósito desta seção da nossa Página Internacional! 


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Mais Brasil na Espanha…

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E começou mais uma Cúpula Ibero-americana de Chefes de Estado e de Governo. A vigésima segunda da história, realizada em um momento internacional muito diferente de duas décadas atrás. Enquanto em 1991 se reuniam pela primeira vez os países ibero-americanos (América Latina + Espanha e Portugal) em um contexto de crescimento econômico europeu e endividamento latino, neste ano de 2012 os papéis se encontram consideravelmente invertidos. [Veja um breve histórico a respeito das cúpulas precedentes aqui.] 

A tônica do início deste encontro é clara: a América Latina é vista como uma “saída” para a crise que vivem Espanha e Portugal. As antigas metrópoles percebem atualmente nos emergentes países da América Latina, especialmente no Brasil, oportunidades de negócios que dependem de negociações bilaterais em que as ex-colônias estão em nítida vantagem comparativa. 

“Mais Brasil na Espanha… e mais Espanha no Brasil” é o que deseja Mariano Rajoy, o presidente do governo espanhol. De fato, nossa presidenta é a grande estrela da Cúpula que acontece entre hoje e amanhã em Cádiz, e uma agenda paralela de negociações diretas com a Espanha está também prevista. Sendo a Espanha o segundo maior investidor externo do Brasil, a expectativa de uma intensificação nas relações econômicas entre ambos é certamente uma prioridade espanhola pelo menos até 2016, com os grandes eventos esportivos. 

Mesmo com uma participação expressiva dos países ibero-americanos, as perspectivas de resultados multilaterais realmente significativos não são tão elevadas, com maior peso tácito para o diálogo bilateral. A importância deste encontro internacional parece residir, sobretudo, no fortalecimento dos laços entre países que partilham há séculos uma história comum, mas que têm vivido na contemporaneidade grandes altos e baixos econômicos os quais causam grande vulnerabilidade social – hoje notadamente na Espanha e em Portugal.

Visualizar um cenário internacional assim tão diferente do que jamais se poderia antes imaginar nos leva a refletir sobre como serão as coisas daqui a duas décadas, por exemplo. Previsões (das mais diversas) não faltam, mas tampouco são capazes de esgotar o assunto. A única certeza é que, hoje, na intensificação deste intercâmbio – com mais Brasil na Espanha e vice-versa, por exemplo – nós (como América Latina em geral) estamos em uma posição de barganha mais avantajada que nunca.


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