Quando um não fala…

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Durante esta semana dois fatos me chamaram a atenção. Primeiro: é Furacão Sandy pra todo lado. Abria a seção dita “Internacional” em sites de jornais – a exemplo de Estadão, Le Monde, New York Times, The Economist, El Pais – e sempre havia uma notícia sobre o ciclone. Nada contra, realmente é um fenômeno de consequências muitas vezes irremediáveis, mas isso me remeteu ao segundo ponto. Este, por sua vez, tomou forma quando vi somente no Facebook algumas notícias sobre os casos dos índios Guaranis Kaiowás no Mato Grosso do Sul e do referendo para aprovação de uma nova constituição na Islândia. 

Novamente afirmo, nada contra o Sandy, até porque ele deve, sim, estar presente nos noticiários em qualquer tipo de mídia (inclusive aqui na Página Internacional no post logo abaixo). Contudo, o meu principal argumento vem do segundo fato levantado: no Brasil, a grande mídia oculta acontecimentos importantes. Normalmente quando se abre a página “Internacional” dos jornais tem-se um “arrepio” por parte de qualquer estudante da área. Talvez por um simples motivo: aquilo é tudo, menos internacional no sentido mais puro da palavra. 

Tudo bem o NYT falar repetidamente do furacão, mas por que o Estadão coloca uma notícia sobre ele e deixa em segundo plano a questão dos índios Guaranis Kaiowás? Sinceramente, não dá pra entender. Nem vou falar das mídias televisivas, porque, em sua grande maioria, são horríveis e porque eu também não acompanho estes noticiários. Notadamente, são canais mais conservadores (alguns liberais) e, por mais óbvio que seja, defendem seus pontos de vista. Todavia, fazer isso por omissão e não por contraposição de fatos é ignorância pura! 

E a principal questão é que as pessoas se interessam pelos outros fenômenos. O maior exemplo disso foi o já citado Facebook. Normalmente usado para bisbilhotar vida alheia ou colocar “n” fotos tiradas com um “IPAD geração 50”, a plataforma online tem um caráter valorativo gigantesco, inclusive para tocar nestes pontos mencionados no presente texto. Foi assim com a questão dos índios que se tornou “viral” e, em menor número, com o referendo realizado na Islândia para aprovação de uma nova constituição elaborada por dirigentes escolhidos pelo e para o povo em sua totalidade. Pude observar esta movimentação repetidamente esta semana na rede social. 

Agora, se você não sabe o que está acontecendo no Mato Grosso do Sul e/ou com os cidadãos islandeses, fique atento. No caso das notícias internacionais, além do Estadão e da Folha que são os mais circulados, leia Diplomatique Brasil, Carta Capital e até a Veja. Sim, até a Veja, porque, para criticar, é preciso ler. O mais importante é ler o máximo de canais possível, independentemente de posição ideológica. O nosso verdadeiro problema internacional, guardadas suas devidas proporções, não é o Sandy, mas sim o descaso com os índios. Afinal, nada mais interno que seja internacional e vice-versa.


Categorias: Brasil, Mídia


Sandy passando e causando

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Começamos o texto de hoje com um pouco de cultura inútil. Você sabe por que tempestades e furacões atlânticos costumam receber nomes nos EUA? Seria para facilitar a divulgação de avisos para a mídia e a população, em uma lista que se repete a cada seis anos. A exceção são os nomes de furacões que resultaram em tragédias. Então, nada de Andrews ou Katrinas no futuro. A bola da vez é o furacão Sandy, que pela repercussão pode muito bem ser um candidato a essa lista ingrata de nomes “aposentados”. 

Se formos pensar, furacões e outros tipos de cataclismos são alguns dos poucos eventos realmente internacionais. Não são localizados como deslizamentos ou incêndios, e literalmente “viajam” por um monte de lugares diferentes causando transtorno e destruição. A grande sensação do Sandy é que seu trajeto está muito atípico, saindo do roteiro “comum” passando pelo corredor entre Flórida e Louisiana, e com projeção de ir parar lá pros lados de Nova Iorque. Isso está causando um alvoroço tremendo. Cortes de energia estão previstos (podendo chegar a uma semana no pior dos casos), avisos de enchente e evacuação por toda costa leste, e centenas de vôos cancelados por todo o país – afetando inclusive os internacionais. 

Essa é provavelmente a maior conseqüência internacional desse furacão, mas tem outra bem mais sutil. Estamos a dias da eleição presidencial dos EUA (que na verdade já começou, já que por lá existe a opção de antecipar o voto, coisa de primeiro mundo), e isso tudo está afetando a reta final de campanha dos candidatos. A coisa parece pesar mais para Obama – ele e Romney tiveram que alterar seus planos e deixar de visitar estados estratégicos, cancelando comícios e tudo mais, mas como presidente atual, o povo espera que tenha uma atitude com relação à tragédia, se acontecer. É só lembrar da falta de ação do Bush filho fez na época do Katrina pra pensar em como isso pode ter um impacto real no resultado das eleições… 

Fica a expectativa da passagem do furacão que na verdade está perdendo força e muito provavelmente virando uma tempestade forte. O interessante disso tudo é que os danos, até o momento, são muito mais potenciais que reais, e a perda de vidas deve ser mínima, se ocorrer. Isso, pelo menos, na passagem pelo continente. Por que o Sandy já passou pelo Caribe e levou mais de 60 pessoas junto, sendo que onde a coisa foi pior (mais destruição e mortes), como desgraça pouca é bobagem, foi no Haiti. Mas claro que isso não dá notícia como nos EUA.


Categorias: Américas, Estados Unidos, Meio Ambiente, Política e Política Externa


Há um ano...

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Relembrando postagens antigas, há um ano o blog estava agitado com diferentes temáticas.

Em relação à tão comentada Primavera Árabe, um marco importante acabava de acontecer: a captura e morte de Muammar Kaddafi (confira o post aqui). Transformado em feriado na Líbia, a importância desse dia é inegável, mas também inegável é o fato de que mesmo após um ano de sua chamada “libertação total”, dificuldades enormes ainda assolam o povo líbio. Entende-se hoje que, mesmo com o fim oficial das hostilidades no país, conflitos entre comunidades se tornaram frequentes, devido à forte presença de grupos armados que não se encontram efetivamente sob o controle do Estado. Mesmo que comemorada em Benghazi e Trípoli, a Líbia ainda enfrenta muitos desafios na formação de seu novo governo e na reconstrução social do país.

Dois posts há um ano discutiam também a questão dos países emergentes no cenário internacional. Seja o Brasil – com a primeira viagem oficial de Dilma à África (reveja o post aqui) – ou a China – com suas contribuições elevadíssimas a uma Europa em crise (post aqui), a verdade é que a temática de uma possível “colonização às avessas” chama a atenção internacional. Este ano o debate continua em pauta, sendo que foi inclusive iniciado há duas semanas um processo oficial para que dois assentos europeus na Diretoria Executiva do Fundo Monetário Internacional (FMI) sejam cedidos a países emergentes. Interessante, não? Certamente trata-se de um assunto que estará em pauta por muitos anos ainda no blog…

Por fim, há quase exatos 365 dias foi anunciada a cessação definitiva das atividades do ETA (“Euskara ta askatasuna” ou “Pátria Basca e Liberdade”), grupo separatista basco (reveja o post aqui). Após quase 50 anos de atividades e atos violentos (mais de 800 mortes), esse anúncio pode ser considerado um marco importante para a história da Espanha. Entretanto, um ano se passou e, apesar de nenhum ato terrorista ter sido cometido, a organização ainda não anunciou sua dissolução efetiva, nem tampouco entregou suas armas – elementos essenciais e continuamente exigidos pelas forças políticas espanholas. Com a renovada força dos partidos nacionalistas no País Basco nas eleições regionais deste mês, o debate sobre a independência basca parece não estar, de fato, 100% encerrado.

Relembrando, revivendo e redescobrindo o cenário internacional, de ano em ano seguimos com os posts na nossa Página Internacional! 

Condannato!

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Condenado. Este é o mais novo status de Berlusconi, que ilustrou as grandes manchetes internacionais nestes últimos dois dias. Dentre os seus muitos processos judiciais (no total já foram 33!), o polêmico ex-primeiro-ministro italiano foi hoje pela primeira vez condenado à prisão, devido às fraudes fiscais em relação a direitos televisivos de filmes (caso Mediaset, veja mais aqui.)

Sua condenação inicial de 4 anos foi reduzida em algumas horas a apenas 1 ano, devido a uma lei italiana de anistia. E, na verdade, a probabilidade de que Berlusconi seja realmente preso é baixa, considerando os trâmites judiciais de apelação que já estão sendo efetuados por seus advogados. O ex-primeiro-ministro chegou mesmo a declarar que o julgamento foi intolerável, sugerindo que “com juízes como estes este país se torna bárbaro e insuportável, deixa de ser uma democracia” (!).

Apesar da baixa probabilidade de vermos uma foto de Berlusconi efetivamente atrás das grades em um futuro próximo, é clara a importância desse julgamento para a história política italiana e internacional. Após anos de investigações, finalmente uma decisão final foi apresentada, mobilizando a população italiana e agitando o cenário político internacional.

Tendo passado 17 anos no poder, Berlusconi foi protagonista de diversas mudanças na política italiana, tornando-a bastante personalizada. Em meio às graves consequências da crise econômica no país, renunciou ao seu cargo no final do ano passado – deixando ao seu sucessor o enorme desafio de reerguer a Itália em uma União Europeia já bastante enfraquecida.

A questão, pois, envolvendo a condenação de Berlusconi pode ser considerada um marco simbólico principalmente para a população do país, revertendo pela primeira vez um paradigma tácito de impunidade. Condenado, os italianos podem finalmente acreditar que um líder – mesmo que seja Berlusconi – não goza de liberdade incondicional em sua vida pública e privada…


Categorias: Europa, Mídia, Polêmica


Conversando com a Teoria

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Governando a governança? 


Pois bem, no último domingo retomamos o Conversando com a Teoria (?) com uma postagem bem ampla para lembrar o que já havíamos trabalhado nesta série e instigar o debate para as próximas postagens. No final do texto (que pode ser encontrado aqui), falei o seguinte: “É tudo junto e misturado, uma verdadeira governança”. Por que? Porque o conceito de governança nos dá uma ideia de pluralidade, multilateralidade, junção entre partes distintas e assim em diante. Tal nomenclatura é utilizada em várias áreas e profissões. Existe a governança em tecnologia da informação (TI), governança corporativa e/ou empresarial, mas, é claro, trataremos desde conceito para as Relações Internacionais. Comecemos do princípio! 

A expressão “governance” surgiu a partir de várias publicações do Banco Mundial com o intuito principal de aprofundar o conhecimento do ordenamento interno dos Estados. Em 1992, foi produzido o artigo “Governance and Development”, no qual o conceito correspondeu ao exercício de autoridade, controle, poder e administração de governo. Tem-se, aqui, uma das possíveis definições de governança, muitas vezes sintetizada com a noção de governo ou do ato de governar por parte do Estado. Logo, pode-se dizer que o fazer político do governo central aumenta sua capacidade de governança. Para ficar mais fácil de entender, vejamos o caso da Colômbia e das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (FARC). Se há maior diálogo entre ambas as partes, diminuição do número de combates, aumento do bem estar populacional, diz-se, de passagem, que o governo colombiano está aumentando sua governança interna. 

De maneira similar, mas com nuances distintas, a governança também é muitas vezes entendida como (ou confundida com) governabilidade. Esta última é muito mais ligada com o campo político interno do Estado. Por exemplo, no Brasil, é possível observar um maior grau de governabilidade democrática quando existe um alto nível de diálogo entre tomadores de decisão e sociedade civil. Neste meio, a governança assume uma posição similar à chamada “accountability” vertical, ou seja, à prestação de contas por partes dos governantes aos seus governados. Lembremos os princípios constitucionais da Administração Pública Brasileira: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Obedecidas tais regras, pode-se dizer que existe maior índice de governança e/ou governabilidade democrática em nosso país. 

Mesmo assim, os conceitos de governança não se restringem ao aspecto estatal, muito menos ao seu funcionamento eficaz. De acordo com James Rousenau, em seu livro intitulado “Governança sem governo: ordem e transformação na política mundial”, governança é um fenômeno mais amplo que governo. Aquela corresponde a atividades apoiadas com objetivos comuns que não dependem do poder de polícia para serem aceitas, enquanto este compreende atividades formais com poder de polícia e políticas instituídas. Ademais, governança é mais abrangente que governo nesta concepção, pois abarca tanto instituições governamentais quanto outras não-governamentais. 

Para ilustrar o último parágrafo, vejamos o que significa a governança global para o teórico David Held. Desde já é importante salientar que a governança global não implica na criação de um governo mundial! Ela caracteriza uma nova política internacional com tomada de decisões multilaterais e no alto grau de integração entre os Estados. Ou seja, faz alusão à redefinição dos poderes e das capacidades estatais e leva em consideração um jogo de forças que abrange inúmeros atores. Assim, a Organização das Nações Unidas (ONU), mormente pela sua Assembleia Geral, pode ser considerada um exemplo empírico de governança global, pois leva ao debate o maior número possível de interessados em determinada causa. 

Cresce o número de temáticas e de dimensões-chave (economia, tecnologia, comunicação, direito). Depois, a permeabilidade das fronteiras estatais aumenta inversamente proporcional à capacidade do Estado em gerar instrumentos eficazes para responder a demanda da sociedade. Assim, ascende a necessidade de se cooperar e criar instituições capazes de sustentar estas forças (organizações internacionais, direito internacional, diplomacia multilateral). Destarte, cria-se um sistema de governança global interdependente e bastante instável, por mais incrível que pareça. Como assim? E a ONU não demonstra isso? Seus órgãos não são extremamente variados e com pesos políticos diferentes? Comparar Assembleia Geral e Conselho de Segurança incita a instabilidade, com toda certeza! 

Para não me alongar muito, apenas digo que o tema não se esgota aqui. Todavia, foram passadas três possíveis definições para o termo “governança”: ato de governar, governabilidade e governança global. Diferentemente das teorias, não existe um grupo seleto de acadêmicos que trabalham com tal conceito. É muita gente mesmo! Nos encontramos no próximo texto com mais abordagens temático-conceituais!


Categorias: Conversando com a Teoria


As histórias da história

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Faz algum tempo assisti um filme muito bom, chamado Ip Man (que no Brasil saiu como “O grande mestre”). Mais do que um excelente filme de kung-fu (que conta a história do mestre de Bruce Lee), é uma visão crua daquele período conturbado do final dos anos 30, quando o Japão invadiu parte da China até o final da Segunda Guerra. Nesse filme chinês, a visão dos japoneses não podia ser pior: são cruéis e trazem miséria e sofrimento. Quando pensamos do outro lado, em filmes japoneses os chineses são tacanhos ou traiçoeiros. A questão é que nenhum dos lados admite sua parcela de culpa em problemas do passado, e ao mesmo tempo não deixam de mostrar o “outro lado” com a pior imagem possível. Falamos disso inclusive há algumas semanas aqui no blog quando comentávamos sobre a questão das ilhas em disputa no mar da China. 

E o que isso tem a ver com História? Bom, é a questão da parcialidade. Não é simplesmente tratar de revisionismo, como reconhecer os erros do passado ou pensar de um modo diferente, mas como o entendimento dos fatos é muito influenciado pela percepção de cada pessoa. E não são apenas eventos, mas também pessoas que entram nessa brincadeira. Vejam só o caso da morte do Hobsbawm, coisa recente. A polarização das reações foi impressionante, só havia praticamente dois tipos de comentários: os que endeusavam o autor como um dos maiores (se não o maior) pensadores do século XX, e os que festejavam a partida de mais um marxista maquiador de totalitarismos. Ao pensarmos na bibliografia de alguém, temos que pesar fatores como o contato, e o modo como foi reproduzida sua história particular. Ignorar as contribuições de um grande autor é tão lamentável quanto fazer vista grossa aos seus deslizes históricos – sendo que o “julgamento” sobre a vida de Hobsbawm acabou se confundindo com o de sua obra. Não estamos falando de buscar um meio-termo ou ficar em cima do muro, mas o fato é que objetividade é uma coisa complicada, e o ser humano tende a escolher “um lado”. É isso, inclusive, que os pensadores da Teoria Crítica defendem, que seria impossível “produzir” conhecimento sem subjetividade, mas isso é discussão pra outra hora. 

E claro que isso afeta as relações internacionais. Na verdade, é uma via de mão dupla. Vamos voltar pro caso de China e Japão: essas rusgas históricas estão aí há anos, e não vão ter solução tão cedo (isso SE forem ter). Um monte de fatores determina a visão de cada lado, e é preciso uma mudança muito impactante para que algum deles reveja sua posição. A certeza é que a história influencia as ações dos agentes, e suas ações influenciam o “fazer” da história. Imaginem isso em escala mundial, com todos os eventos que afetam esse nosso mundo interligado. Qual vai ser a versão dos fatos atuais que ficará para o futuro? Nesse cabo-de-guerra, quem vai estar “certo”?


Categorias: Ásia e Oceania, Cultura, Polêmica


Conversando com a Teoria

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E voltamos hoje com a mais interessante série de postagens realizada pela Página Internacional: o Conversando com a Teoria! Desde Maio do presente ano não fizemos outro texto que envolvesse as teorias de Relações Internacionais, propriamente ditas. Mas, por que teorias? Não podemos falar em conceitos, temas, visões, conceitualizações de Relações Internacionais? É este o motivo principal do título acima vir com um ponto de interrogação ao seu final. 

É um pouco confuso, entretanto vamos ligar os pontos. As Relações Internacionais, enquanto disciplina, são muito recentes, tendo como marco inicial os meandros da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Mesmo assim, somente com o segundo conflito mundial (1939-1945) elas se consolidaram. Daí veio a Guerra Fria, a qual terminou, de fato, apenas em 1991 com a queda da União Soviética. Foi durante este período que o Realismo ganhou destaque e concretizou-se como a principal tradição teórica desta área. (Veja aqui a postagem da Bianca sobre Realismo) 

Durante estes acontecimentos, foram surgindo os famosos debates teóricos das Relações Internacionais. Vieram o primeiro, segundo e, por fim, terceiro debates para se ter uma visão didática da disciplina. Eles não foram regulares, não aconteceram linearmente e, de certa forma, até hoje não tiveram um fim em si. Ademais, o que se enfatiza é o fato de se caracterizarem pelo embate de ideias e, obviamente, teorias. (Veja aqui a postagem do Giovanni sobre os debates em RI) 

E assim “se digladiavam” Liberalismo, Realismo, Tradicionalismo, Behaviorismo, Idealismo, Neorealismo, Neoliberalismo e por aí vai… ISMOS e mais ISMOS! São necessários ainda nos dias de hoje? De acordo com Stephen Walt, um importante professor e pesquisador da área, existem três abordagens dominantes nas Relações Internacionais: a realista (leva em consideração a distribuição de poder entre os Estados), a liberal (tem enfoque nas transições e expansões democráticas, bem como num Sistema Internacional mais descentralizado e institucionalizado) e a construtivista (também denominada de “idealista” tendo como ponto central as mudanças nas normas internacionais envolvendo desde soberania estatal até Direitos Humanos). Por fim, este mesmo autor diz o seguinte: todas as teorias revelam as falhas políticas mundiais e são imprescindíveis para os internacionalistas! Mas elas são perfeitas? 

A resposta é não! Outros expoentes como Ngaire Woods nem consideram estas escolas como teorias, mas sim como perspectivas. Para ela, o problema das teorias são as rotulações. Ou uma coisa é realista ou liberal! Ou uma coisa é tradicional ou construtivista! É assim que fazemos inúmeras vezes, não tem como escapar. Os ISMOS são essenciais para as Relações Internacionais, todavia possuem falhas e incitam a criação de “cegos teóricos”. 

Por conseguinte, cabe a pergunta: por que não pensar em algo mais pontual e “simples”? Por que não utilizarmos conceitos ao invés de teorias? Aqui no Brasil, o Professor Emérito Amado Luiz Cervo defende esta ideia de maneira ímpar. Inclusive seus pensamentos estão condensados no seu texto intitulado “Conceitos em Relações Internacionais”. A leitura vale a pena e uma parte da conclusão merece ser transcrita aqui: “Contribuir para o fim das teorias de relações internacionais e para sua substituição por conceitos aplicados às relações internacionais propõe-se como caminho para transição do sistema internacional posto a serviço de interesses […]” (p. 24). 

Sendo assim, tentarei realizar ao longo das próximas semanas um estudo sobre conceitos de Relações Internacionais, que vai, em partes, ao encontro do exposto no parágrafo a seguir. Diferente da visão de Cervo, meu ponto de vista não será fugir da “dominação intelectual” das teorias do norte. De maneira contrária, sairei apenas do campo teórico e passarei para o campo temático-conceitual. Esta foi tão só uma introdução para o que se seguirá nas próximas semanas. Por ora, basta dizer que existem uma nova literatura e uma nova agenda nas Relações Internacionais cujas bases se sustentam não mais em questões de segurança, defesa e diplomacia central. Hoje, tudo é econômico, cultural, tecnológico, jurídico… É tudo junto e misturado, uma verdadeira governança. E o que é isso? Fique atento ao próximo post da série e, se desejar, critique e ajude no debate.


Categorias: Conversando com a Teoria


Renovando?

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“O poder político nasce do cano da espingarda”. Proferida por Mao Tsé-Tung em outros tempos, essa frase não deixa de ser carregada de uma verdade que, em termos realistas, talvez nunca deixará completamente de existir. Contudo, o poder político deste século parece ser cada vez mais reforçado pela voz, pelo espaço multilateral e pelo diálogo, elementos que caracterizam o chamado soft power – constante e essencial às relações internacionais.

Neste contexto, as Nações Unidas – mesmo com todas as suas imperfeições e necessidades de reforma – ainda representa o espaço multilateral de maior relevância no mundo. E dentro dessa estrutura – ainda que arcaica em vários aspectos – o Conselho de Segurança (CS) ainda é o “coração” da ONU, a partir do qual todas as decisões mais importantes devem passar pela aprovação das cinco potências permanentes. [Mais sobre a estrutura do CS aqui.]

Além destes cinco membros permanentes que guardam a exclusividade do veto, a dez outros países é concedida a possibilidade de tornarem-se membros não-permanentes, com mandatos rotativos de dois anos de duração. Apesar de não terem o direito a veto, a voz e o voto são garantidos, exercendo um poder de influência considerável em relação às principais questões internacionais. Ontem foram eleitos cinco novos membros para este mandato rotativo durante os próximos dois anos (2013-14): Argentina, Austrália, Coreia do Sul, Luxemburgo e Ruanda foram os países escolhidos, de acordo com os candidatos de seus respectivos continentes.

Dentre esses cinco países, a escolha de Ruanda (apenas pela segunda vez na história) foi a mais polêmica, dada a situação delicada da região e o suposto apoio do país aos rebeldes no leste da República Democrática do Congo. A situação atual já dura meses e o papel ruandês na manutenção desta situação foi recentemente criticado pela própria ONU. Esforço diplomático ou incoerência? Talvez um misto das duas coisas…

Por mais que a estrutura onusiana enfrente críticas, uma verdadeira possibilidade de reforma ainda está longe de ser vislumbrada. Enquanto isso, participar ativamente (das instâncias que são acessíveis!) demonstra um fortalecimento do prestígio e da capacidade de articulação política dos países – elementos de um tipo de poder que, a cada dia mais, pode desafiar a lógica baseada no “cano da espingarda” em nossa sociedade internacional. 


Categorias: Organizações Internacionais


Debates calorosos

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Esta parece ser uma semana um tanto quanto atípica para se comentar aqui no blog. Soa um tanto quanto paradoxal, porque vivenciamos dias agitados, mas alguns resultados já são esperados antes de entrarem nas mesas de negociação. Digo isto, pois três destes “debates calorosos” já passaram alguma vez nas análises da Página Internacional, mas nunca é demais retomá-los. Assim, vamos aos casos: a briga presidencial nos Estados Unidos, a negociação entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e os nove vetos de Dilma no Código Florestal. 

Na última segunda-feira, o programa “Complicações”, vinculado ao UNIVESP TV, publicou em seu canal do Youtube uma entrevista com o Professor Tullo Vigevani, no qual ele trata sobre a política externa norte-americana e a sucessão do cargo presidencial. Logo no começo do vídeo, Tullo afirma que os EUA têm uma linha a seguir em sua política de Estado, sendo que não há muitas mudanças nas trocas de governo. Lembrando que, por política de Estado temos um pensamento mais a longo prazo e estrutural e, por política de governo, uma perspectiva mais a curto prazo e conjuntural. Ou seja, Obama e Romney ficam se atacando, fala-se de crise econômica doméstica, falta de posicionamento nos conflitos internacionais, mas no final tudo parece refletir na mesma coisa: um discurso muito ideal e uma prática extremamente realista dos governantes. 

Pois bem, mudando de foco, começam hoje no hotel Hurdalsjoen (foto) em Oslo, na Noruega, as rodadas de negociação entre o governo colombiano e as FARC. Já é um tema batido, entretanto é importante reiterar que o grupo revolucionário atua no país há mais de cinquenta anos opondo-se ao poder central e controlando carteis de drogas. Sentar-se à mesa, conversar (ou discutir e gritar) já é um recomeço evidente por se tratar de duas posições contrárias. Algo me diz que isso vai demorar um bom tempo, afinal, se perdura por mais de meio século, vão precisar de muita diplomacia para por fim ao conflito.

E, por fim, aqui Brasil a Dilma apresentou nove vetos ao Código Florestal publicados, hoje, no Diário Oficial. Isso não é minha área e não entendo muito destas questões, só que, desde o começo, esse código estava sendo tratado como uma piada. Com toda certeza, daqui pra frente a opinião do congresso vai ficar ainda mais dividida. Ao olhar dos ambientalistas, o código é marca indelével de retrocesso ambiental e clientelismo político. Já ao olhar dos tomadores de decisão, nada de muito diferente. Afinal, para eles, a opinião pública não vale muita coisa. Similarmente ao apontado quando falei dos presidenciáveis norte-americanos, aqui o discurso é “legal” e a prática real no sentido mais pejorativo do termo.


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Quem sair fecha a porta

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Quando falamos de política externa dos EUA na última década, todos estão cansados de dizer que eles tinham duas pedras de tropeço, as guerras do Iraque e do Afeganistão. Enquanto Obama já conseguiu se livrar da primeira (mal e mal e deixando um abacaxi que mais parece um porco-espinho pra trás), ainda restam promessas e uma trilha de cadáveres na segunda. Mas não devemos esquecer que essa é uma empreitada em que os EUA não estão sozinhos – o Reino Unido e diversos países europeus estão envolvidos nesse consórcio da OTAN,e essa semana está havendo uma importante novidade pro desfecho desse conflito. 

Ou, pelo menos, pra fim da participação britânica nessa guerra. Segundo o secretário de Defesa, o país deve retirar boa parte dos soldados até 2013 e possivelmente a retirada total até 2014. Mais do que impopularidade, parece ser uma questão de custos: assim como na maioria dos países que não são os EUA, quando o dinheiro falta a primeira coisa que o governo faz é apertar o cinto e cortar gastos de defesa. E o Reino Unido está num ambiente nada favorável a manter aventuras na Ásia Central custeadas pelo contribuinte. 

Mas pesa sim o fator “popular”. Na última semana fuzileiros britânicos foram acusados de matar um inocente em combate. Não chegou a ser como o caso do americano que massacrou dezenas de civis, mas mostra como as tropas já chegaram àquele ponto em que existe uma pressão psicológica sobre os indivíduos, e uma notícia dessas não pega nada bem na maliciosa imprensa inglesa. Não está ajudando nada um escândalo envolvendo tráfico de influência por parte de ex-oficiais, que estariam favorecendo empresas em concessões para as forças armadas violando a legislação inglesa. Isso estourou deixando o governo com mais uma dor de cabeça financeira e midiática. 

Mais do que os gastos financeiros e em vidas humanas, fica a sensação de perplexidade com relação ao desfecho desse conflito. Se os EUA e amigos deixarem o Afeganistão, do modo como está, não apenas não vão ter removido completamente o Taleban (ideia original disso tudo) como deixarão um ambiente regional altamente instável. A coisa transbordou e agora se fortaleceu o Taleban no vizinho Paquistão, e a situação, se não parece pior do que era em 2001, não parece melhor. Pra se ter uma ideia, uma menina de 14 anos, defensora dos direitos das mulheres, virou alvo oficial do Taleban (com nota e tudo mais) e sofreu um atentado. Baleada, em estado grave, está finalmente sendo transferida, ironicamente, para a Grã-Bretanha. A saída dos principais atores ocidentais desse conflito não vai ser o fim dos combates ou da instabilidade. O veredito final sobre essa guerra vai ser mais fácil de emitir no futuro, mas é aparente o fracasso.


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