Águas turbulentas

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Com os olhos voltados (e não sem razão) para os protestos da comunidade islâmica ao redor do mundo contra o desastrado filme caseiro feito nos EUA que ofende a meio mundo (ou algo como um quarto dele), fica em segundo plano uma outra onda de protestos, um pouco menos violenta, mas que ocorre numa escala enorme e pode sim desembocar em algo mais sério. Quem presta atenção ao noticiário vai perceber que está havendo uma grande agitação na China, e parece que as relações entre o Império do Meio e o Japão estão azedando de vez. 

Quando falamos no extremo Oriente, a disputa política e histórica não se restringe a China e Japão. As Coréias, Indonésia, e tantos outros países se envolvem em uma disputa histórica sobre territórios e reparações, com o passado de guerras e massacres que ocorreram por lá. Revanchismo é a palavra de ordem, e mesmo um punhado de pedras no meio do oceano como as ilhas Senkaku/Diaoyu gera uma discussão danada. O causo é que o Japão está com essas ilhotas, perto de Okinawa (ao sul da China, perto de Taiwan), e a China alega que são suas. O Japão “alugava” três dessas ilhas de uma família, e agora comprou oficialmente por alguns bilhões de ienes, o que gerou revoltas e protestos na China contra esse “ultraje” à soberania chinesa. Pra ver como a coisa tá feia, até mesmo Taiwan reclama soberania sobre o arquipélago. 

Vez ou outra os países mandam navios pra região, e o problema é quando eles se encontram, justamente o que acontece agora, com China e Japão querendo mostrar quem tem soberania sobre as ilhas. Isso quando não são ativistas malucos (de ambos os lados) invadindo as ilhas e protestando com suas bandeiras. O resultado disso? Multidões nas ruas (o que é MUITO quando pensamos em China), depredação, ataques a carros de montadoras japonesas (até com relatos de motoristas agredidos gravemente) e mesmo o fechamento de fábricas no continente. A tensão é muito grande, e mesmo com a possibilidade de confronto sendo remota, não deixa de ser descartada. Se tem algo que pode servir de estopim para conflito, é justamente essa questão da soberania. 

Tem uma racionalidade nisso tudo? Os governos se estapeiam por conta disso há anos, mas por que a população urbana chinesa está tão interessada na posse de umas ilhotas, sem qualquer valor estratégico (fora indícios vagos de reservas de petróleo e gás nas redondezas) e desertas desde a década de 1940? Como falei lá em cima, é um misto de revanchismo histórico a uma mentalidade de “não esquecer”. Livros escolares (tanto no Japão quanto na China) contam a história de massacres e ocupações ao seu modo, vilanizando ou suavizando o papel de cada país e trazendo pras novas gerações os traumas do passado. Não é uma questão de quem está certo ou errado, mas de como é percebido o “outro” – e a vontade (ou não) de deixar o passado, recente ou distante, para trás. A China e o Japão ensaiam aproximações há alguns anos, inclusive no campo militar. Há visitas diplomáticas e de alto escalão, anúncio de Livro Branco de Defesa (um documento que, explicando de modo bem simplista, mostra as intenções de cada país no setor de Defesa e serve geralmente para “acalmar” os vizinhos), entre outras coisas. Mas, basta um evento aparentemente despropositado (e pequeno) como esse para que as coisas voltem à estaca zero, e até mesmo retrocedam. 

Não é impossível superar rivalidades históricas – pensem em Alemanha e França (que tiveram um passado tão ruim quanto, ou pior, que China e Japão). Mas parece que esses casos, com desejo de integração e benefícios comuns, são exceção no mundo moderno. As rixas são potencializadas pela capacidade de mobilização que a internet e outros meios propiciam, e no fim das contas, ninguém vai dar o braço a torcer. Fica a pergunta: a crise vai se escalando até o ponto sem retorno ou a diplomacia consegue esfriar as coisas até que a discussão volte à pauta sazonal? De todo modo, continua a ser notícia de rodapé com as embaixadas dos EUA nas manchetes.


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Há um ano...

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Setembro de 2011 foi um mês muito importante para a Página Internacional. Um mês especial e de especiais. Na semana que se passou há um ano, o blog celebrava e questionava. Celebrava a publicação de nosso livro e seu lançamento na XV Bienal do Livro do Rio de Janeiro (clique aqui e aqui para relembrar). Momento muito importante para toda equipe e para todos que nos acompanham, representou a conquista da Página Internacional do Prêmio BlogBooks. 

Questionava o aniversário de dez anos do fatídico 11/09. À época, o blog havia realizado um conjunto de postagens especiais para discutir o tema. Textos atemporais que valem a pena serem revisitados. A postagem do Giovanni abriu o debate e trouxe indagações sobre mudanças no mundo, declínio no poderio dos Estados Unidos, emergência de uma suposta nova ordem internacional e, acima de tudo, convidou à colaboração de todos os leitores e interessados no tema. 

Seguindo com as postagens especiais, um leitor do blog publicou um texto sobre o tema. Em “Dez anos de uma ‘não-era’”, Danillo Alarcon argumentou que alguns dos interesses dos Estados Unidos não eram compatíveis com a ética internacional. Apontou alguns efeitos positivos para o Afeganistão e para o Iraque, e negativos para a política externa estadunidense, com o potencial de negociação reduzido com países opositores à ordem vigente. 

O Álvaro também colaborou. Em um post interessante apontou alguns efeitos positivos (mesmo que efêmeros) do 11/09. No campo do comércio internacional, o clima de otimismo tornou a Rodada Doha possível (mas não concluída). A sensação geral era de cooperação e solidariedade com os países que sofreram atentados e até mudanças estranhas nas relações de Rússia, China e Paquistão com os EUA. Da mesma questionou o porquê da solidariedade a grandes desastres naturais parecia ser bem mais duradoura e indagou se a resposta violenta não se faria perder um pouco a credibilidade. Mas nem só de 11/09 viveu o blog há um ano.

A Bianca postou um texto sobre o caso interessante da marca de roupas Lacoste pedir para a polícia da Noruega evitar que o atirador Behring Breivik usasse roupas da grife quando fosse julgado e exposto à mídia. Um evento que levantou perguntas sobre a “sociedade do consumo”, momento no qual a palavra “consumir” deixou de ser apenas uma ação concreta, e passou a representar também outras de caráter mais simbólico. 

Um ano trouxe conquistas importantes, reflexões e muitos questionamentos para o blog. O especial sobre o 11/09 ficou no ano passado, mas o convite às perguntas e discussão continua aberto até hoje. É isso aí, pessoal, postando e relembrando!


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O perigo mora ao lado?

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É fato que as relações internacionais contemporâneas não são idênticas às dos séculos passados. E os motivos são os mais variados: aumento do fluxo financeiro internacional, emergência de novos atores com poder de decisão, reformulação da centralidade política do Estado, inclusão de novos temas nas discussões internacionais (meio ambiente, cultura, direitos humanos, tecnologia, etc.), aproximação entre cada um de nós enquanto indivíduos com a política externa, dentre outros casos. Mas uma importante característica das chamadas política realista, geopolítica clássica ou até mesmo do tradicionalismo ainda aparece com uma importância ímpar para nossa área de estudos: estou falando das fronteiras físicas entre diferentes países e/ou regiões. 

Torna-se muito interessante observar esta questão. Vê-se, cada dia mais e mais, um debate dizendo que há um novo modelo de gestão fronteiriça e um novo olhar dos Estados para com a relação entre países vizinhos. É óbvio constatar uma mudança de paradigmas envolvendo as fronteiras. Fluxos migratórios, trocas comerciais, permeabilização das relações em virtude de acordos bilaterais ou blocos regionais, impacto direto nos atores locais (na maioria das vezes cidades ou estados federados) são realidades que não podem ser esquecidas. 

Entretanto, minha questão toca no tema do “até quando os ‘problemas’ ou embates causados por laços de fronteira não serão resolvidos?” ou melhor “será que isso tem solução?”. Veja, por exemplo, o caso das duas Coreias. Lá, realmente, o negócio ferve. Tem monitoramento, cerca elétrica, arame farpado e tudo mais. A Zona Desmilitarizada da Coreia (ZDC) é uma questão única, mas vital ao debate. Neste mesmo patamar, podemos citar a relação entre Israel e Palestina, um embate histórico para ver quem fica com determinado território e quem deve reconhecer a segunda como um verdadeiro Estado. 

Nem o pessoal lá do norte escapa. Por muito tempo a Europa Oriental foi considerada um “problema sem solução” para a União Europeia. Incluir ou não no processo de integração? Parece que isso já foi resolvido de maneira satisfatória, todavia, quando falamos da Turquia… E, claro, o exemplo crasso entre Estados Unidos e México não poderia deixar de ser mencionado aqui. Põe guarda, cerca e cachorro, mas o fluxo migratório continua. Vem diminuindo, mas continua com certa relevância. 

Por fim, supostamente, falemos de Brasil! A fronteira amazônica e a “Tríplice Fronteira” envolvendo Argentina e Paraguai são os casos emblemáticos. Até que ponto existe omissão do nosso país para com a Amazônia? Não sei, só sei que lá embaixo o problema está mais atual. Sem contar a omissão diplomática no episódio Itaipu, estão dizendo que há até ação terrorista por lá. De maneira realista, falam de contrabando, narcóticos, armas e coisas deste tipo passando diariamente pela fronteira tripla. 

A abordagem do presente texto reside no fato de pensarmos até que ponto as fronteiras físicas realmente perderam aquela visão realista de ser. Ou há o defensor e estadista afirmando que isto é uma questão estratégica somente para o poder central ou existe aquele confirmando os novos rumos das relações internacionais apontados no início do texto. Não estou falando de mocinhos e vilões, ninguém está certo ou errado, o que falta é uma maior articulação entre ambos os lados. Quanto mais atores envolvidos, mais frutífero fica o debate e há mais possibilidade de se chegar a resultados satisfatórios. É necessário o diálogo entre o Estado em si e até aquele cara que mora ao lado do “estrangeiro” e cruza a fronteira com apenas alguns passos.


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Algumas lições da inocência

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A inocência dos muçulmanos. Título do curta metragem que satirizou o profeta islâmico Maomé. Basicamente, um condensado de ódio, intolerância, radicalismo e pré-conceitos (clique aqui para conferir), supostamente elaborado por judeus e cristãos coptas. Em um mundo interconectado pela internet e pelas redes sociais, não tardou para que o vídeo manifestasse-se nos computadores dos países muçulmanos com uma dita tradução para o árabe, despertando um ímpeto de vingança entre o Oriente e o Ocidente, leia-se, entre segmentos das populações de países com forte influência muçulmana e dos Estados Unidos. 

Resultado: mais ódio e vingança. Extremismos. As baixas multiplicaram-se na mesma velocidade que o vídeo espalhou-se. Um diplomata, Christopher Stevens, e três funcionários da embaixada estadunidense na Líbia pós-Kadafi, mortos (clique aqui para ver a embaixada pós-ataques). Protestos em todo o mundo árabe. Do Egito, grande centro do mundo árabe, para Sudão, Iêmen, Líbano, Paquistão, Irã. E a lista amplia-se (aqui para um mapa deles). Muitas das manifestações foram extremamente violentas. Há até quem diga que, no caso líbio, a segunda onda de protestos teve origem de grupos pró-Kadafi que buscaram demonstrar a instabilidade de novo regime. A coisa foi tão feia que a Google teve que bloquear o vídeo nesses países e lidar com o pedido do governo estadunidense de removê-lo da internet permanentemente. 

Ora, existem algumas lições que pode-se tirar desse curioso evento. Vou citar quatro de muitas outras que podemos tirar. 

A primeira, como nos mostrou Clovis Rossi em seu recente artigo, é que “misturar Deus (qualquer deus) ou seus profetas com política é receita certa para o horror”. Em outras palavras, os extremismos geram radicalismos que, por sua vez, só existem (ou se manifestam) pelas oposições. A partir do momento que não se tem um outro lado, um antagonista, aquele que quer influenciar, o extremo desaparece. Por isso, o vídeo é uma clara provocação aos radicais islâmicos para que radicalizem também, e possam ser fonte de mais crítica e o ciclo de vingança e radicalismo continuar, sem fim. Da mesma forma, os protestos violentos são provocações aos Estados Unidos, para que radicalizem, e possam ser fonte de mais críticas entre grupos extremos muçulmanos (como também coloca Stephen Walt). 

A segunda é o reforço da ideia de que a dita Primavera Árabe não foi o florescer da democracia nos moldes ocidentais nem mesmo o nascimento de governos aliados aos Estados Unidos. Foi somente a oposição às ditaduras. A instabilidade da Líbia pós-Kadafi e a posição de crítica moderada sobre os protestos do novo governo egípcio ajudam a pensar nesse ponto. Obama mesmo já disse que o novo Egito “não é nem aliado e nem inimigo dos EUA”. A dificuldade do Tio Sam em lidar com a região sempre foi grande. Agora, com novos governos muçulmanos emergindo, com os quais não se pode garantir que haja “alianças”, a coisa pode ficar ainda mais complicada. 

A terceira é que qualquer excesso pode se tornar capital político para opositores. No caso, vemos Mitt Romney se esbanjando com declarações sobre o quanto Obama não foi assertivo ao lidar com algo que ameaça os “valores americanos”. Existem muito mais lições do que essas míseras três. 

Mas, de toda forma, é importante lembrar que extremismos existem de ambos os lados e que não necessariamente representam a opinião do conjunto da sociedade. Como outro exemplo, não tem como esquecermos da figura ímpar de Terry Jones, (clique aqui para mais no blog), que, há quase exatos um ano, quis instituir o dia de queimar o Corão(e já declarou apoio ao filme). 

Se a “inocência” dos muçulmanos foi o filme, a “inocência” dos americanos foi o resultado. Não há inocentes de fato e nem posições que podem ser generalizadas como de toda a sociedade nessa história. As lições dela vem do radical escondido sob o manto da inocência e da intolerância. O que há é um ciclo de extremismos, sem fim, com um intuito claro de gerar efeitos políticos.

[Para mais clique aqui e aqui]


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11 anos depois do 11/09

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11 anos se passaram desde o fatídico 11 de setembro de 2001, a data que ficou eternizada na memória internacional como o dia em que o grande império estadunidense se viu abalado por uma ameaça até então desconhecida, o terrorismo. Ano após ano, homenagens às vítimas são feitas e a tragédia é relembrada, assim como são relembradas todas as suas consequências que marcaram a política internacional desta última década.

No dia de hoje, Obama (re)afirmou que as vítimas destes atentados nunca serão esquecidas. De fato, eterno deve ser o respeito à dor dos familiares daqueles que morreram sem saber que se tornariam parte de um momento assim histórico (infelizmente). Entretanto, um sábio pensamento de Benjamim Franklin pode nos proporcionar uma válida reflexão: “O esquecimento mata as injúrias. A vingança multiplica-as”…

Talvez seja tempo de esquecer um pouco. O que não significa desmerecer o acontecimento ou defender posições extremistas – de quaisquer que sejam os lados. Apenas esquecer, deixar um pouco de lado, olhar com outros olhos. E, forçosamente ou não, parece que este tem sido o tom para boa parte dos cidadãos dos Estados Unidos neste momento.

Diante do fenômeno da crise financeira e dos elevados índices de desemprego que têm assolado a população nos últimos tempos, a ameaça terrorista assume papel secundário no presente ano de eleições estadunidenses. A economia e o trabalho têm se mostrado aspectos muito mais sensíveis aos eleitores, evidenciando uma mudança de perspectiva – a qual não poderia nem ser imaginada há alguns poucos anos atrás.

Se seguirmos a filosofia de Franklin, ao esquecer podemos provocar o efeito pretendido pela vingança, liquidando as injúrias pela falta de importância que lhes conferimos. Talvez essa lógica não possa ser assim tão facilmente aplicada ao complexo cenário das relações internacionais, dadas as intricadas consequências derivadas do posicionamento de cada ator – especialmente quando se trata dos irmãos do norte.

Contudo, esta década parece estar sendo marcada por novos desafios, mesmo no que se refere ao gigante estadunidense. Esquecer ou, talvez melhor, reavaliar se torna uma necessidade, diante da qual a realidade se vê. Quantos 11 anos ainda serão necessários para que o 11/09 seja “esquecido”, no sentido mais respeitoso que se possa conferir ao termo, ainda é difícil prever, mas que durante esses 11 anos passados muitas coisas mudaram, ah, disso ninguém duvida.


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Quem quer dinheiroooo?

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Ano de eleição presidencial nos EUA é sempre a mesma coisa: os candidatos enfrentam pelo menos três disputas ao longo do processo todo, cada uma extenuante e que movimenta milhões de doletas. Primeiro são as convenções regionais para escolher o candidato do partido, e depois a eleição presidencial em si. Mas tem aquela que acontece paralelamente às outras duas, e a que mais impressiona, a corrida pelo financiamento de campanha. 

Deu no jornal: Obama gastou em um mês mais do que Reagan e Carter juntos na disputa de 1980 (isso em época de Guerra Fria e loucuras orçamentárias). Esse ano os gastos totais de eleições nos EUA podem chegar a quase 10 bilhões de dólares (tem país com PIB menor que isso), e a corrida pra ver quem ganha mais está dando mais notícia que a eleição em si. 

Isso acontece por causa do modelo norte-americano de eleições, uma democracia direta (mas meio indireta) em que o voto não é obrigatório. Os candidatos têm que efetivamente ir atrás dos eleitores, na marra, e haja publicidade, com TV, internet, rádio e aquelas pessoas que ficam com placas gigantes nas esquinas. 

O grande problema disso é, assim como no Brasil, a “troca de gentilezas” que acontece entre os setores que financiam a campanha e os partidos. Esse “patrocínio” acaba tendo um custo político para o vencedor mais pra frente, e emperra muitos processos e reformas. Ainda mais nos EUA, onde o lobby é legalizado e tudo mais. Essa é uma das razões pela qual, pessoalmente, defendo o voto obrigatório, mas não estamos aqui pra discutir isso (pelo menos, não agora). A questão é que a campanha em si está fazendo muito mais barulho que a eleição. Para ter uma idéia, apenas na semana passada Obama foi oficialmente apresentado como candidato, mas há quanto tempo já se fala de financiamento… 

E, no fim das contas, não tem muito o que comentar sobre a campanha mesmo. Obama vai se focar no que deu certo, no que conseguiu fazer (e tripudiando os problemas deixados pelo Bush ao mesmo tempo), como tirar as tropas do Iraque, matar o inimigo número um da América, e seu xodó, o plano de saúde universal. Seu adversário, Romney, vai se focar em todo o resto, especialmente onde dói mais, no bolso, atacando o desemprego, impostos e a fragilidade de Obama ao enfrentar a crise. Aliás, é uma perspectiva tenebrosa essa, já que Obama fica no passado e Romney cutucando (de uma maneira até lamentavelmente baixa por conta da neurótica propaganda republicana) os problemas, enquanto nenhum dos dois parece trazer propostas sólidas para os problemas reais e para o futuro.

Não dá pra saber ainda quem vai ganhar, mas o cenário não é nada bom, e não apenas para os EUA – pensem em como cada um poderia lidar com a questão da Síria, por exemplo. Nessa incógnita que virou a eleição dos EUA, ela em si se tornou uma meta, e não apenas a presidência. E o “desvirtuamento” de valores resultante faz com que o financiamento se torne a bola da vez, e um mal necessário.

 


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Há um ano...

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Há um ano, assim como hoje, boa parte da discussão na Página Internacional se focava no Oriente Médio – mas não na Síria, que ainda era apenas um país cheio de protestos violentos, e não em uma guerra civil; a bola da vez era a Líbia (se bem que seria mais “norte da África”, mas enfim). Meio que num clima de ressaca, após a intervenção de países europeus, Kadaffi entocado em algum buraco (e com razão, como descobriu alguns meses depois), o destino do país estava nas mãos dos revolucionários. 

Hoje, com Kadaffi sendo apenas mais um nome escrito com sangue nas páginas da história, e a situação controlada pelo conselho de transição, a Líbia já passou até por eleições parlamentares (coisa que nem se sonhava no começo de 2011), mas isso não significa que as coisas estejam totalmente pacificadas. A perseguição a ex-aliados de Kadaffi é algo comum (o bom e velho revanchismo que infecta toda e qualquer revolução), com atentados e assassinatos (o mais recente foi um carro-bomba que estourou matando um ex-oficial de segurança do antigo regime), a instabilidade política é visível, e existe um risco muito grande de sectarismo religioso. Grupos islâmicos como a Irmandade Muçulmana, e mesmo radicais, como os salafitas, não obtiveram muitas cadeiras no congresso (quando conseguiram) e estão enveredando pelo caminho da panfletagem e mesmo da ação direta (como a derrubada de bibliotecas). Num ambiente instável, todos sabem que é um pulo para que protestos e desavenças virem algo maior, especialmente quando falamos de religião. 

Enquanto isso, relembrávamos os dez anos dos atentados de 11 de setembro. Não há muito o que se comentar disso – é um daqueles eventos cruciais da história humana, e seus efeitos ainda estão se desenrolando. Mas é interessante notar como a memória continua viva – inclusive com a aproximação das eleições presidenciais dos EUA. Se Obama está enfrentando muitos problemas em casa, com a dificuldade em cumprir promessas de campanha e a economia dos EUA esfriando, um de seus maiores trunfos está ligado a essa data funesta, pois foi ele o presidente que pegou o bandidão responsável. Foram os SEALs que fuzilaram o barbudo indefeso, mas é Obama que entra pra história como o presidente que pegou Osama Bin-Laden – e isso vale muito para os norte-americanos. 

Por fim, uma comemoração muito especial para o blog: anunciávamos o lançamento oficial do livro, que ocorreu no dia 11 daquele mês. É uma etapa importante de nossa história particular, e nunca é demais agradecer aos leitores e amigos que tornaram essa conquista possível. Para quem não viu, ou quer relembrar, confira aqui a postagem especial do lançamento!

E vamos que vamos pessoal, postando e relembrando…


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O velho e o novo

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Estampam capas e notícias de jornais nesta semana a grande tentativa de se estabelecer (outra vez) um acordo de paz entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Este tema já passou várias vezes aqui na Página Internacional, inclusive meu primeiro texto como colaborador “oficial” foi justamente sobre a questão das FARC e a governabilidade colombiana (veja aqui e aqui alguns debates). Todavia, o que dizem ser novidade neste novo processo de negociações é o apoio da comunidade internacional e da própria sociedade civil. 

Há controvérsias… Por comunidade internacional quero dizer as Nações Unidas, a União Europeia e alguns países que amparam a causa, como Estados Unidos, Brasil, Cuba, Chile, Venezuela e Noruega. Até aqui está tudo certo, afinal, para algum país publicar uma nota de apoio contra o movimento das FARC é relativamente fácil. O problema encontra-se no segundo ponto e eu, novamente, retomo esta questão. Confesso que achei engraçado quando li uma notícia na internet dizendo que “A negociação de paz entre as Farc e o governo da Colômbia conta com apoio da sociedade civil […]”. Quem lê vai pensar que o diálogo entre o governo e a população é excelente e existe uma constante participação civil nestas questões, mas não é assim. 

O que acontece de fato, e aqui vai novamente uma crítica para a grande mídia de massa, é parecer que todos os problemas colombianos residem nas FARC. Se, num passe de mágica, as FARC desaparecessem, pronto, a Colômbia seria “o país” para se viver e morar. É óbvio que vários problemas são decorrentes da atuação da guerrilha no país, mas quero dizer que nem tudo é culpa dos revolucionários. Se existem forças insurgentes em determinado território, onde estava o papel do Estado para combater este levante? 

Será a terceira tentativa para por fim aos conflitos. A primeira aconteceu na década de 1980 quando ainda existia o grupo M-19. Depois, no final dos anos 1990, o presidente Pastrana tentou criar uma zona desmilitarizada, contudo acabou não tendo sucesso nas negociações com as FARC. E, agora, tem-se o terceiro processo de negociações que se dará na Noruega e, posteriormente, em Cuba. Está aí algo realmente novo para se acabar com um “velho problema”: uma suposta mediação internacional. 

Isso é válido? Com toda certeza! As FARC realmente complicam o cotidiano colombiano? Sim! O apoio internacional é sinal dos novos tempos e pode vir a ter sucesso? Claramente! A sociedade civil está participando realmente deste processo? Não e não! Não se enganem em achar que as FARC são as “únicas pedras no sapato” do governo. Existem diversos outros problemas, dentre eles a falta de governabilidade democrática que prevê justamente um maior diálogo entre Estado e população, que tolhem o eterno futuro pacífico da Colômbia. Combater estes grupos faz parte do desenvolvimento das negociações, entretanto ainda falta observarmos o outro lado da moeda. É uma carência, e muito, nas notícias vinculadas na mídia também. 

PS: O governo colombiano divulgou notas dizendo que o país tornou-se a segunda maior economia sul-americana. Para mim, é mais falta de mérito da própria Argentina (antiga vice-colocada) do que aptidão da Colômbia. Nada mau para manter a postura contra as FARC e começar a olhar com mais nitidez a outros problemas sociais.


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Polêmica ianomâmi

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A polêmica da vez envolve a população indígena ianomâmi e um suposto massacre ocorrido em território venezuelano por parte de garimpeiros brasileiros. “Suposto” porque até o presente momento a denúncia parece ser insistentemente negada por parte de representantes políticos da Venezuela – o próprio Hugo Chávez já se pronunciou a respeito. Tal suposição, apesar de ainda envolta em incertezas, reacende evidentemente a temática da proteção indígena, assunto especialmente sensível aos países amazônicos.

A denúncia em questão foi levantada pela Promotoria Superior de Porto Ayacucho e por integrantes da HOY (Horonami Organização Ianomâmi), de acordo com relatos de três índios sobreviventes. O massacre teria acontecido, na verdade, no início de julho (tendo sido denunciado apenas essa semana devido ao isolamento da região), na comunidade de Irotatheri, localidade fronteiriça entre Brasil e Venezuela.

De acordo com as denúncias, os responsáveis seriam garimpeiros brasileiros, os quais são acusados pelos ianomâmis desde 2009 de atos de violência e poluição na região. O número de vítimas é incerto – assim como o massacre em si –, mas já foi estimado pela imprensa venezuelana em cerca de 80 mortos.

O peculiar desta situação toda é que o próprio governo venezuelano nega veementemente a ocorrência deste massacre, enquanto o governo brasileiro também desconhece detalhes e solicita esclarecimentos. Nebulosa, a temática envolve uma série de interesses regionai$ e Chávez é acusado por Organizações Não-Governamentais de “silenciar a questão” sem apurar devidamente os fatos.

A construção de uma agenda regional indígena especialmente voltada à proteção dos povos isolados é um tema atual em pauta nas discussões regionais por parte da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, organismo intergovernamental cuja Secretaria Permanente foi criada em Brasília no ano de 2002 em meio ao (eterno) desafio comum de promoção de ações conjuntas no que tange à Amazônia e todas as suas riquezas naturais, sociais e culturais. Trata-se de um assunto sempre recente e polêmico, em meio aos interesses econômicos que assolam a maior floresta do mundo e, por consequência, as populações indígenas locais.

Há quase 20 anos, 16 índios ianomâmis foram comprovadamente assassinados no lado amazônico brasileiro também por garimpeiros no episódio que ficou conhecido como “Massacre de Haximú”, demonstrando que a possibilidade de que a presente denúncia seja verídica é (infelizmente) real.

Sem declarar culpados antecipadamente, investigar de forma adequada os fatos antes de declarar qualquer veredicto é o mínimo que podemos esperar, em respeito a uma das mais importantes etnias indígenas amazônicas que (sobre)vive em pleno século XXI. Esquecer (ou, literalmente, enterrar) tradições locais que antecederam o próprio povoamento colonial parece ser uma triste consequência do jogo de poder político-econômico em que a Amazônia se vê envolta em nossos tempos. 


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Eleições e desafios

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No tradicional tema das segundas-feiras, hoje falamos das eleições, agora em Angola. Nesse fim de semana, o país passou pela primeira eleição presidencial após a guerra civil de 2002, e apenas a terceira desde a independência de Portugal em 1975. Talvez o mais interessante de tudo isso é que pela primeira vez (que me lembre) vamos falar de uma eleição que transcorreu… numa total normalidade? 

Pois é, nada da carga simbólica como as eleições no Iraque e no Sudão, ou o clima de marmelada como na Rússia, ou a tensão como as do Egito. Existem denúncias de problemas (como eleitores cadastrados mas sem o nome nas listas) e a oposição reclamando da credibilidade do pleito. Mas, até o momento, os observadores internacionais disseram que tudo transcorreu bem, a eleição foi legítima e pelo jeito o atual presidente José Eduardo dos Santos foi reeleito com mais de 70% dos votos. Claro que isso não veio de um modo fácil. 

Lembrando um pouco de história, Santos é presidente há mais de 30 anos, e encarou a guerra civil que durou de 1975 a 2002, entre o seu partido, o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), e a Unita (União para Independência Total de Angola). O interessante de Angola é que, após o fim da guerra, os dois lados enveredaram para a política, abandonando as armas (na medida do possível) de uma maneira muito mais efetiva que, por exemplo, no Sudão ou no Congo. Em meio a crises no continente, Angola é um paraíso de estabilidade, com uma economia que crescia a passos largos (média de 17% entre 2002 e 2008) e é um dos maiores produtores de petróleo da África. E muito disso certamente se deve à estabilidade política – principalmente, talvez, à morte de Jonas Savimbi, o líder da Unita, o que finalmente possibilitou o acordo de paz entre as partes. 

Nem tudo são flores, é claro. Alguns observadores internacionais questionam a possibilidade de haver eleições realmente livres no país, e que a presença “onipresente” do governante afeta a percepção de fora. Há ainda denúncias de repressão e irregularidades no pleito, além da constatação de que o crescimento econômico é desigual. Isso é claro – o país freqüenta rankings nada louváveis de pobreza da população e de corrupção. Talvez o maior problema seja, ainda, a dependência do petróleo, que deixa a economia angolana à mercê das cotações internacionais e alvo de interesses estrangeiros, como os da China e até mesmo do Brasil. Um censo será realizado ano que vem (o primeiro desde 1970), e aí será possível avaliar de um modo mais objetivo quais as verdadeiras condições sócio-econômicas da população. 

A situação de Angola mostra essa necessidade de manter um crescimento sustentado após anos de crise. Para continuar florescendo essa condição econômica favorável (e, quem sabe, para haver a redistribuição dessas vantagens para a sociedade como um todo), estabilidade política é essencial. E nesse quesito, por mais que haja problemas, o país parece estar mostrando uma importante solidez, com uma nova geração superando finalmente o estigma da guerra, e focando na disputa – mas apenas política.


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