Há um ano...

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Há um ano… esse quadro do blog que nos faz retomar as temáticas discutidas neste mesmo espaço há aproximados 365 dias, forçando-nos a reconhecer que muito do que se passa em termos de Relações Internacionais precisa de muito mais de um ano para revelar alterações profundas. Em relação a alguns assuntos, talvez mesmo décadas sejam necessárias.

E os ataques terroristas aos Estados Unidos certamente entram na lista desses “assuntos eternos”. Há um ano discutíamos o decênio deste acontecimento marcante, a partir de um viés econômico e também a partir de uma ótima reflexão em perspectiva histórica. Um ano depois, vemo-nos diante de discussões semelhantes, com a diferença (importantíssima!) de que estamos em meio às movimentadas eleições norte-americanas, com Obama sendo desafiado por um audacioso Romney.

A importante conquista do voto e da elegibilidade feminina nas eleições municipais da Arábia Saudita, a partir do ano de 2015, também foi discutida no blog. Entretanto, este fato ainda representa apenas uma pequena conquista feminina em meio a um país tão tradicionalmente machista. A polêmica recente relativa a um grupo centenas de nigerianas que foram deportadas deste país por terem chegado desacompanhadas de homens em uma peregrinação nos mostra que o desafio da luta pelos direitos das mulheres ainda é constante (e enorme) na Arábia Saudita.

O sempre polêmico Berlusconi (o qual já chegou a declarar que “em suas horas vagas era primeiro-ministro”) também constava entre os posts do blog há um ano, sendo que sua capacidade de se envolver em escândalos – e as consequências disto – foram discutidas aqui. Mesmo não ocupando mais seu antigo cargo, Berlusconi não deixa de gerar controvérsias igualmente. Ao sugerir esta semana que uma das saídas para a superação da crise econômica seria que a Alemanha abandonasse a zona do euro, o ex-primeiro-ministro italiano ainda faz jus ao seu histórico polêmico mesmo nos dias de hoje…

Pois é… e seguimos sempre relembrando e revivendo o que se passa pelo mundo aqui na nossa Página Internacional!


Categorias: Há um ano...


O Google e as eleições

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Durante esta semana fomos surpreendidos pela prisão de um diretor do Google no Brasil. Não exatamente o presente que a empresa esperava para o seu 14º aniversário, data comemorada no dia 27 de setembro. Os motivos da controvérsia foram vídeos postados em um site de compartilhamento, os quais foram considerados ofensivos por um dos candidatos à prefeitura de Campo Grande (MS). O Tribunal Regional Eleitoral do Mato Grosso do Sul acatou o pedido do candidato e ordenou que o Google retirasse os vídeos em questão do ar. A empresa recusou-se a fazê-lo, pedindo um debate amplo sobre a questão. A querela culminou na prisão de Fábio Coelho, diretor geral do Google no Brasil, por desobediência.

Agora, imagine uma situação. Você se torna responsável por opiniões, nos mais diversos formatos e medidas. Estas serão publicadas livremente e caberá a você discipliná-las. Mas como? Você estabelecerá uma série de regulamentos, indicando as formas de interação que serão consideradas adequadas para exprimir pensamentos. Assim, você garantirá o amplo direito a liberdade de expressão e a construção de um verdadeiro debate. Seguramente alguns excederão estes direitos, pendendo para ofensas e calúnias. Tais comportamentos, marcadamente individuais ou circunscritos a pequenos grupos, não representam a totalidade. Portanto, não deveriam prejudicar ou diminuir o debate.

Na prática, o relato do parágrafo anterior é um retrato da função que exerce o Google, assim como diversos serviços da internet. Cabe as estas organizações oferecer espaços para discussões, não como agentes e sim como mediadores tecnológicos. As ferramentas colocadas à disposição dos cidadãos permitem divulgar, no período eleitoral, as propostas e as críticas a candidatos. Desta forma, foram concebidos para facilitar a nossa vida. O mandado de prisão contra Fábio Coelho foi expedido durante o período de apreciação do recurso movido pela empresa junto à Justiça Eleitoral. Foram poucas horas, logo o diretor foi liberado. Ficou, contudo, uma mensagem intimidatória clara. O público-alvo, por outro lado, não ficou claro. Quem foi o autor do vídeo julgado como impróprio? Foi este tal de Fábio? Foi o Google?

Talvez isto leve muitas empresas a adotarem novos procedimentos. Em caso de requisições da justiça, podem passar a bloquear os conteúdos preventivamente, por mais que discordem da ordem. Os períodos eleitorais são propícios para questões deste tipo. Quem perde com isto? Todos nós, aqueles que desejam mais informação e buscam debates na grande rede. Então, para que pensar na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e desta tal liberdade de expressão? Estes foram os argumentos utilizados pelo Google. A questão poderia ser mais simples. Nossos parlamentares não parecem preocupados com nada disto. Caso estivessem, teriam avançado com o Marco Civil da Internet, justamente a ferramenta que nos permitiria clarificar as responsabilidades dos atores envolvidos no ambiente online. Enquanto isto, a incerteza nos leva ao que antes era impensável. Mais prisões à vista? 


Categorias: Polêmica


Ameaça silenciosa (ou silenciada?)

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A China: esse gigante econômico e político que vem desafiando, cada vez mais intensamente, a supremacia ocidental nas relações internacionais. Um país ainda envolto em muita obscuridade, onde muito do que acontece internamente não recebe atenção internacional, e vice-versa. A questão do tráfico de crianças chinesas pode certamente entrar nesta análise.

Questão delicada, a qual constitui hoje uma das maiores ameaças silenciosas (ou silenciadas?) aos cidadãos comuns deste gigante país oriental. As cifras são incertas em relação à quantidade de crianças vítimas deste tráfico humano: diz-se que o número pode oscilar entre 10 mil e várias dezenas de milhares (!) por ano. E, ao contrário do que seria esperado, o problema só parece aumentar…

Segundo os dados oficiais do governo (confiáveis?), em 2011 foram encontrados mais de 8 mil crianças traficadas. Recentemente, o governo também anunciou a prisão de mais de 800 pessoas acusadas de tráfico de crianças. Ainda, uma proposta governamental para restringir as regras no processo de adoção de crianças (mais aqui) foi apresentada com o mesmo intuito de combater essa onda de tráfico humano.

Entretanto, segundo informe sobre tráfico humano deste ano publicado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, a China não cumpre totalmente os requisitos mínimos para a eliminação do tráfico humano, tampouco dando provas de que esforços neste sentido estão sendo empreendidos.

Fato é que a gravidade do problema ainda é clara. O governo apenas divulga dados oficiais com números de crianças resgatadas (e não sequestradas), e as organizações internacionais em geral tampouco têm se mobilizado para exigir detalhes a respeito de um tema assim tão delicado envolvendo a poderosa China. Daí se percebe que esta ameaça considerada como “silenciosa”, na verdade também tem sido “silenciada” por todos os que teriam condições de oferecer maior atenção ao tema.

As principais razões para o tráfico de crianças na China podem ser elencadas como as seguintes: para se vender a famílias que não têm filhos; para casamentos arranjados; para prostituição; e para o trabalho forçado. A polêmica política de um filho por casal existente nesse populoso país também pode ser considerada um fator impulsionador para o chamado “negócio com bebês”, os quais são “comercializados” mesmo internacionalmente.

Segundo a imprensa chinesa, o preço (!!!) estimado de uma menina varia de 3.700 a 6.200 euros, enquanto um menino custa em torno de 8.700 a 10.000 euros. Estimar o preço de uma vida humana parece parte de um próspero negócio chinês, em que a crueldade de se tirar uma inocente criança de sua rotina para inseri-la neste tráfico, bem como o eterno sofrimento dos pais, não são elementos considerados.

A esperança de encontrar estas crianças perdidas certamente não deixa de existir durante toda a vida dos pais. Contudo, a realidade mostra que, cada vez mais, este gravíssimo problema vem sendo silenciado por todas as instâncias que efetivamente poderiam contribuir para esse processo… 


Categorias: Ásia e Oceania, Polêmica


O discurso de Dilma na AGNU

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Na última terça-feira, a presidente (ou presidenta) Dilma Rousseff abriu pela segunda vez a Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), desta vez em seu 67º número. Desde 1947 há a tradição do Brasil ser o primeiro orador a discursar e assim vem sendo, cabendo ao presidente tal posto. Logo no início de sua fala, Dilma pontuou novamente ser uma voz feminina a abrir a AGNU, fato que evidencia uma busca por igualdade de direitos e oportunidades, bem como a ausência de discriminação e violência na questão de gênero. 

Como de costume, manteve uma postura crítica e severa quanto às políticas monetárias e fiscais ortodoxas realizadas por potências mais desenvolvidas. Em suas palavras, os países emergentes vêm perdendo mercado devido à valorização artificial de suas moedas. No mais, seguiu acobertando a defesa comercial de tais países, a qual não é protecionismo e está regulamentada nas diretrizes da Organização Mundial do Comércio (OMC). No que toca a este tema, finalizou com o que seria a solução para a crise financeira: um maior vínculo entre Estados e organizações internacionais, com destaque para G20, Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI). 

Também, é claro, não poderia faltar a menção da política interna formulada por seu governo aqui no Brasil. Enalteceu as política sociais inovadoras, o consumo de massa e o combate à pobreza. Reafirmou, com convicção, dizendo: “Meu país tem feito sua parte!”. Posteriormente, passou para a complexidade do Oriente Médio e do Norte da África. Sobre a Síria, em específico, aderiu ao discurso diplomático e de mediação entre ONU e Liga Árabe, repudiando totalmente o conflito armado. Ainda assim, foi contra a onda de preconceito em relação aos islâmicos em países ocidentais. Interessante observar que somente neste momento ela foi aplaudida pelas autoridades presentes. 

Reiterou sua fala de 2011 quanto à urgência de reconhecer o Estado Palestino como membro das Nações Unidas. Sobre esta organização, disse que o impasse do Conselho de Segurança é um dos maiores problemas das relações internacionais contemporâneas, sendo necessária a sua reforma. Novamente, não poderiam ficar de fora os debates sobre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável, merecendo ênfase em sua fala a presença do multilateralismo na Rio+20. 

Sobre as relações com países vizinhos, salientou a ação do Brasil em fomentar o ambiente democrático, de paz e justiça social na região e na integração sul-americana e caribenha. Justificou a querela com o Paraguai com a seguinte frase: “Integração e Democracia são princípios inseparáveis”. Por fim, mencionou Cuba como exemplo clássico de um país que necessita de apoio e cooperação internacionais. Criticou o embargo econômico e defendeu seu fim. Elogiou as Olímpiadas de Londres e já falou do papel a desempenhar na Copa do Mundo e nas Olímpiadas em território nacional nos próximos anos. Nas últimas expressões, repreendeu a intervenção através do uso da força e ratificou a existência de uma ordem multipolar. 

Como todo discurso dito “diplomático”, ele tem seu caráter normativo e ponderado. Todavia, nos serve para trazer ao debate e resumir uma série de acontecimentos importantes das relações internacionais que ainda não teve um fim em si mesma. Já temos as bases para as cenas de um próximo capítulo, ou melhor, de um próximo discurso.


Categorias: Brasil, Organizações Internacionais


Falta de comunicação

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Em mais um capítulo da guerra argentina entre Kirchner e o Clarín, o governo dá um golpe duro no grupo midiático com a pressão para a aplicação definitiva da lei de mídia de 2009, e a direção do conglomerado pede tempo para poder implementar essas mudanças até o começo de dezembro, a deadline da exigência. 

Vamos por partes. Ninguém é santo nessa história, como eu sempre digo quando tratamos de mídia e imprensa. Conglomerados midiáticos são sim grupos que representam interesses políticos e econômicos, em maior ou menor grau, e a imprensa independente é um mito. E nesse quesito, o grupo Clarín beira a um absurdo, com mais de 200 canais de televisão sobre seu controle – e que deverão ser quase todos vendidos segundo a tal lei, que permite que apenas uma emissora de TV por praça para cada empresa de mídia argentina. Pesa ainda o histórico, do grupo que era colaborador da ditadura e aquele processo sobre as acusações rumpeltintskianas de seus diretores terem tomado crianças de desaparecidas políticas. 

Porém, e o outro lado? O Clarín é o único grupo que realmente faz oposição ao governo. Bem ou mal, estão no direito deles, afinal, é da pluralidade que vive a democracia. E a fragmentação da rede de canais de televisão não vai ter nada de democrática – o que não fechar vai ser comprado por preços irrisórios (e muito provavelmente por aliados do governo). 

Há algumas semanas fiz uma postagem que tocou em tema semelhante, com o que acontece no Equador: o presidente Rafael Correa passou uma lei de comunicação que visa retirar o monopólio da comunicação de umas poucas empresas que dominam o setor, e redistribuir em cotas de um terço (para o Estado, grupos privados e comunitários, respectivamente). Porém, isso está sendo feito de uma maneira tão desigual que está prevalecendo a presença de concessões para redes estatais, e somado à retirada forçada de cena de redes opositoras, o monopólio não está sumindo, mas apenas mudando de lado. 

Na Argentina, a coisa parece ainda mais grave – a lei de 2009 não redistribui as cotas de participação, mas sim reduz a presença de grupos privados, liberando a presença nacional de sinal apenas para emissoras estatais ou ligadas à Igreja Católica. O significado não poderia ser mais claro. A lei foi feita sob medida para o estrangulamento do grupo opositor. É parte de estratégia antiga da família Kirchner, às turras com o Clarín desde o começo do mandato do falecido Nestor, e depois de passar pelos fronts econômico e jurídico, ironicamente achou o ringue ideal na própria casa do adversário, que é a mídia – tudo isso enquanto Cristina, com seu tom de discurso farsesco, busca aumentar a popularidade do governo, principalmente com setores conservadores. Acaba sendo bastante irônico também que, mesmo com essa popularidade, muito provavelmente Kirchner não consiga ser reeleita – pesquisas revelam que um terceiro mandato dela seria rejeitado por 2/3 dos eleitores… 

O que fica disso tudo? Vale ressaltar: democratização de mídia é algo louvável (e que deveria servir de modelo em qualquer lugar do mundo). Mas tirar um grupo do controle e colocar outro, ainda mais estatal, é tão ruim quanto tolerar o monopólio privado – democratização é ampliação, não restrição. E do modo como está acontecendo no Equador e na Argentina, com a supressão das vozes dissidentes, é lamentável.


Categorias: Américas, Mídia, Polêmica, Política e Política Externa


A guerra sem glória

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O tema da moralidade, justiça e de ética para as guerras tem caminhado lado a lado com esses eventos na história. Não é de hoje que se discute isso e parece que a questão quase nunca vai perder sua polêmica e originalidade. Para muitos, como o famoso autor Michael Walzer, o limiar entre o argumento moral e o de interesse é muito tênue. Daí toda a dificuldade de se discutir questões subjetivas como ética e intenções nesses conflitos. 

A guerra do Afeganistão, por exemplo, foi muito discutida em seu aspecto moral. Aproveitou da fragilidade da população no contexto da tragédia do 11/09 para empreender uma missão estratégica em um país de importância geopolítica no Oriente Médio, contra um inimigo sem face, difícil de ser detectado e derrotado. Atualmente esse mesmo discurso parece desaparecer nos anos finais da guerra. Não há glória ao povo estadunidense, os soldados questionam a resiliência do Taliban e da Al Qaeda (clique aqui para um artigo sobre isso) e nem mesmo a população parece acreditar mais na causa. Aquela obrigação moral parecia se sustentar apenas em um contexto específico. 

Após 11 anos, o discurso desmorona e das palavras faz-se o silêncio. A disseminação do ódio contra os Estados Unidos nos países muçulmanos coloca-se como algo que reforça a perda de popularidade da guerra. Parece que, cada vez mais, aumenta o número de pessoas, tanto entre a população civil, quanto entre os militares que não entende mais essa guerra como necessária. A OTAN já havia refeito sua estratégia para suspender sua atuação no país e, agora, Obama retirou os 33 mil contingentes adicionais que enviou em 2010. Imaginava-se que, como foi na morte de Bin Laden, essa redução de soldados na região iria poder ser transformada em capital político para o “Obaminha paz e amor”. Bom, não foi dessa vez. Nem o presidente, nem o general responsável pelas tropas no país e nem mesmo o presidente afegão, Hamid Karzai, fizeram o anúncio. O comunicado emitido pelo secretário de Defesa, Leon Panetta, enquanto viaja à Nova Zelândia. Não que ele não seja uma autoridade importante, mas substituiu-se a possibilidade de se obter um capital político interessante, por um anúncio burocrático em low profile. 

Isso demonstra duas coisas. A primeira, como já dissemos, que o argumento moral dessa guerra já está dissolvido e o que resta é uma espécie de novo Vietnã. Com a diferença de que não há tantas mortes de americanos e nem vitória do outro lado; apenas sua não-derrota, que, para os grupos terroristas, já significa um duro golpe político ao Tio Sam. A segunda é que, não sem razão, o governo Obama e a OTAN estão morrendo de medo das reações dos países com grandes concentrações de muçulmanos. E essa onda de violência também escancara o estado frágil que essa guerra se encontra hoje, pois os ganhos de manter as tropas por lá, com a intensificação dos protestos antiamericanos no Afeganistão (e mundo afora) e de atentados contra militares na região, não parece exceder os custos. 

O argumento que sustenta essa guerra já se foi. O que resta é a luta de soldados que não compreendem a tamanha resiliência do inimigo e de governantes que não parecem querer comentar muito sobre o que tem se passado por lá. Em uma guerra sem glória, aceitar a derrota seria aceitar a limitação da política externa americana na região, algo que, certamente Obama não gostaria de fazer. Assim a guerra arrasta-se.



Categorias: Defesa, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Segurança


Há um ano...

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Além dos debates envolvendo o fatídico 11/09, tivemos questões importantes sendo abordadas aqui no blog em Setembro de 2011 e, com destaque para três textos, vamos recapitular brevemente a seguir. 

Não poderíamos deixar de mencionar o texto escrito pela leitora Tamiris Hilário, no qual são apresentadas possíveis conexões existentes entre o mundo da arte e o mundo político, econômico e social. Sendo a arte intrínseca à sociedade, ela poderia mudar o mundo! Este foi, talvez, o texto que a inspirou para escrever a série “Ideias que transcendem fronteiras”, composta por dez textos que se estenderam de Maio até Agosto do presente ano. Vale a pena clicar aqui e relembrar todos os debates colocados em pauta, até mesmo transcendendo as Relações Internacionais para outros caminhos. 

Em outro momento, Luís Felipe abordou a tão questionada crise na União Europeia. Já se discutia, então, a preocupação existente com a Grécia, Portugal, Espanha e assim por diante. Mais do que isso, abordava-se uma suposta estagnação no processo de integração regional europeu, colocando dúvidas quanto ao futuro de uma “Europa sem fronteiras”. O debate continua mais do que atual, alocando Alemanha e França em uma corda bamba sem fim, sendo salvadores e, ao mesmo tempo, culpados pela “tensão do euro”. 

Por fim, o Raphael abordou o tema dos combustíveis, indagando se estaria surgindo uma nova geopolítica energética no planeta. Ele fez, supostamente, uma previsão de futuro e uma nova análise também cairia nesta miríade. O que se tem hoje, diferentemente do passado, é a tentativa de se estabelecer fontes alternativas de energia. Ainda tem bastante petróleo para ser explorado, mas ele não é infinito. As energias solar e eólica, bem como o caso central dos carros movidos à energia elétrica já mostraram e continuam demandando uma nova ordem que se segue a este respeito. 

Abordagens do passado que continuam com uma atualidade sem tamanho. Por isso é bom relembrar e relembrar.


Categorias: Há um ano...


A educação em 2012

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As políticas públicas de um país são base para comparar seus resultados em determinado período histórico. Porém, olhar para indicadores nacionais somente não basta. Assim, cresce o interesse por estudos conduzidos por organizações internacionais que ofereçam um parâmetro para entender o posicionamento do país em relação aos demais. Para a educação não é diferente. A OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) conduz estudosquantitativos para todos os níveis educacionais. Os indicadores obtidos e as conclusões apresentadas ajudam a construir e revisar as políticas adotadas, pautadas essencialmente no desempenho passado.

No último estudo Um olhar sobre a educação, a porcentagem de jovens que concluiu o ensino terciário é moderadamente superior à geração de nossos pais. Destaca-se, neste sentido, o avanço de países como: Coréia do Sul, Japão, França e Irlanda. Os países da OCDE, na faixa etária de 25-34 anos, aproximaram-se dos 40% de conclusão dos estudos superiores. A geração de 55-64 anos tem um índice pouco superior a 20%. Os países do G-20, considerando a mesma comparação, avançaram menos. Com relação aos estudos secundários, ultrapassamos a marca de 80% da população com diploma nos 25 países da OCDE com melhores resultados.

Em direção oposta, surgem alguns países. Tanto os Estados Unidos quanto Israel, por exemplo, não avançaram, apesar de continuarem com resultados melhores que a média. O Brasil novamente aparece como destaque negativo, ultrapassando a barreira dos 10% para a conclusão do ensino superior, 3 vezes menor que o resultado médio dos países do G-20. Pior que o Brasil, entre os emergentes, somente a China. É curioso notar que os países em crise, especialmente Espanha e Irlanda, mais que dobraram seus resultados para os estudos terciários. Um país que enfrenta 51,5% de jovens desempregados, como a Espanha, aliado a queda da evasão escolar, tende a ver o problema se intensificar. 

Há aí um paradoxo. Não seria a educação o principal indicador do capital humano de um país? De certa forma, os resultados educacionais indicam as habilidades e o potencial existentes em uma determinada população, não? O PISA, assim como o “Um olhar sobre a educação”, fornece importantes ferramentas para entender a eficácia das políticas adotadas e para definir prioridades. Como explicar então países que têm bons índices educacionais e economias em crise? Apesar da dúvida, ainda existe uma certeza: melhor investir em educação do que deixar de fazê-lo. Mantidas as tendências atuais, a população brasileira com diploma universitário seguirá crescendo em nível inferior aos países da OCDE, nosso índice próximo de 50% para a educação secundária tampouco constrói um cenário favorável no curto prazo.

A educação, em tal contexto, pode ainda criar outro problema. Jovens buscam a educação superior como forma de atender a demanda do mercado por profissionais com melhor capacitação e formação, ao passo em que os formados de alguns países enfrentam dificuldades para se colocar no mercado. No Brasil é diferente, a carência de profissionais acaba formando um quadro favorável para os que concluem o ensino superior. Mais do que isto, faltam profissionais. Desta forma, quem vai sustentar o crescimento dos emergentes? Justamente os que sustentaram o crescimento global na última crise são aqueles que precisam incrementar a capacitação de seus jovens. Falta de um lado do globo enquanto sobra de outro. Resta saber se o “novo mundo” vai sustentarseu crescimento por intermédio do “velho mundo”, ou se resolverá desigualdades e desequilíbrios internos para crescer de forma sustentada.  


Categorias: Post Especial


O retrato da intolerância

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Muitos devem estar pensando que falarei da onda de atentados e protestos no Oriente Médio e no norte da África em decorrência do vídeo “Innocence of Muslins” feito pelo “egípcio-norte-americano” Basseley Nakoula (foto) no qual ele satiriza a figura de Maomé. Minha resposta é afirmativa: sim! Mas quando digo retrato da intolerância, asseguro ser uma postura adotada pela própria cultura ocidental em relação, neste caso, à religião islâmica e não o contrário. 

E esta questão vem de longa data, não começou semana passada. Ainda em 2005, o jornal dinamarquês “Jyllands-Posten” publicou uma seção de cartoons depredando a figura do profeta. Causando uma série de reviravoltas, as caricaturas se espalharam por jornais europeus, as embaixadas dinamarquesa e norueguesa em Damasco foram incendiadas, jovens fizeram protestos para que seus países parassem de utilizar este tipo de veiculação na mídia e por aí vai. Passado cerca de seis meses, o periódico pediu desculpas publicamente e tudo parecia estar resolvido. Até agora… 

Daí me vem um cara e faz um vídeo, o que, a meu ver, é mais impactante que qualquer caricatura/desenho, sobre esta mesma questão. E a própria mídia vem com aquele discurso de que os islâmicos são os radicais, os islâmicos são os que não respeitam a liberdade de imprensa…Por favor, não sejamos hipócritas. Veiculam somente a morte do embaixador dos EUA na Líbia, a onda de protestos nas embaixadas norte-americanas no Irã e no Paquistão e a proteção militar feita pelo governo francês em sua embaixada em Beirute. E por que ninguém fala do imenso erro em fazer um vídeo desses? 

O que parece não entrar na cabeça do dito “pensamento ocidental” é como se dá a estrutura social naquelas regiões em decorrência do próprio Islamismo. Os muçulmanos têm a política, economia, sociedade, jurisdição e código penal baseados exclusivamente no Alcorão, o livro sagrado do Islã. Quando acontece um episódio envolvendo caricaturas e/ou vídeos colocando em xeque a ‘veracidade’ de Maomé, para eles, é a mesma coisa que desmerecer toda uma civilização, toda relação social e religiosa que os conectam. Em sentido figurado, quem joga a bomba é a política externa da Dinamarca, dos EUA e assim por diante. E ela, literalmente, explode! 

Ontem, um jornal francês voltou a fazer a mesma política: publicar caricaturas de Maomé. Tudo bem que o discurso reside na velha questão da liberdade de imprensa e na tentativa de se colocar o Islamismo no rol do conservadorismo extremo religioso. O governo da França foi contra e está preocupado com suas embaixadas no Oriente Médio, parecendo que tudo isto virou um efeito “bola de neve”. Cenas para um próximo capítulo de algo que, com toda certeza, poderia ser evitado. 

Alguém já viu alguma caricatura ou algum vídeo feito pelos muçulmanos para satirizarem as religiões ocidentais? Se sim, me mandem, por favor. Porque, até agora, nós mesmos somos os mais intolerantes.


Categorias: Conflitos, Mídia, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Refugiando-se

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Refúgio. Assunto delicado para todas as partes envolvidas: países de origem (já que a questão nunca pode ser analisada isoladamente, trata-se de uma consequência de problemas muito maiores); países de destino (dependendo do fluxo de refugiados em questão, há o risco de limitações por parte desses países temendo por sua própria segurança); comunidade internacional (por meio de suas diversas organizações, notadamente a ONU, a mediação tenta ser feita, mas sempre sujeita à disposição dos Estados); e, principalmente, os refugiados e solicitantes de refúgio em si (pessoas mais afetadas por toda a situação – aqueles que sofrem em suas próprias vidas as consequências de todas as dificuldades que envolvem as demais partes mencionadas).

Nesta segunda-feira, tive a oportunidade de participar da 1ª Oficina Paulista de Jornalismo sobre Proteção Internacional de Refugiados, realizada em São Paulo pela Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). O tema, já discutido em posts recentes no blog (aqui e aqui), está constantemente em pauta na agenda das Relações Internacionais, devido aos sempre existentes conflitos que atentam contra a vida e o bem-estar dos indivíduos, seja em termos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opinião política.

Os sírios, hoje, já somam mais de 250 mil refugiados (registrados apenas nas estatísticas oficiais – número possivelmente muito diferente da realidade!) em meio a um conflito sem previsão próxima de desfecho. Considerando que os países vizinhos são sempre os destinos mais visados pelos que fogem de quaisquer perseguições, mais de 80 mil sírios são os refugiados reconhecidos pelo governo da Turquia. Número próximo à situação da Jordânia, onde já se encontram mais de 77 mil sírios (com 30 mil à espera do reconhecimento de refúgio); ainda há aproximados 60 mil no Líbano (com mais de 15 mil à espera) e quase 20 mil no Iraque (com cerca de 2 mil à espera).

O Brasil, país tão distante geograficamente (e até politicamente!) da revolução síria recebeu, por sua vez, 60 refugiados desde o começo dos conflitos – refugiados que enfrentam logo de início o grande desafio do idioma para se integrarem à sociedade e desempenharem suas atividades mais básicas. Uma rede de apoio (mais aqui) foi criada para acolher essa população que, ainda que pequena, enfrenta dificuldades imensas em nosso país.

Neste evento em São Paulo, o depoimento de um refugiado sírio que vivenciou o início dos conflitos com sua família na cidade de Homs deixou todos os participantes ainda mais estarrecidos diante da violência relatada por uma pessoa comum, vítima (como tantos outros) de ataques desvelados de um governo contra seus próprios cidadãos. Cada uma das milhões de vítimas desse conflito certamente teriam histórias similares a relatar, denunciando as consequências práticas da incapacidade política de resolver a questão.

Refugiando-se, as pessoas buscam condições mínimas para seguirem suas vidas quando estas se encontram sob as mais diversas ameaças. Refugiand0-se, os indivíduos esperam receber a proteção que, tal como no caso atual da Síria, lhes foi (ou está sendo) negada por aqueles cujo objetivo principal deveria ser zelar por ela… 


Categorias: Assistência Humanitária, Brasil, Conflitos, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico