Cadê as RI na África?

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Desde o primeiro momento, já gostaria de dizer que o post de hoje é mais um exercício de reflexão do que qualquer outro tipo de entendimento. Em algum momento da graduação, principalmente para estudantes de Relações Internacionais, ou até mesmo para pessoas que assistem simplesmente aos telejornais ou leem jornais de média qualidade, os temas relacionados à África (normalmente) ficam em segundo plano. 

Não quero dizer que ninguém se interessa pelo estudo político, social, econômico e cultural da África. Até porque o número de estudos brasileiros sobre o continente vem aumentando consideravelmente nos últimos anos. O meu ponto de vista reside no fato destes trabalhos sempre serem quantitativamente inferiores comparados com outras localizações. E ainda bem que qualitativamente isto é diferente. 

Eu, por exemplo, não estudo África. Interesso-me mais pela América do Sul e Europa. Não me perguntem o motivo, pois talvez não saberei responder o porquê de escolher estes universos de pesquisa. Creio que isto representa uma série de causas. Grade de disciplinas dos cursos, falta de know how de alguns professores sobre estes temas, desinteresse por parte dos alunos, falsa realidade apresentada por jornais baratos e por aí vai. 

Mas, então, cadê as RI na África? Quando falo “na África” quero dizer dentro do continente e como isso se transpassa para estudos fora dele. Li, recentemente, um texto que aborda esta questão e é intitulado “África: ensinando RI onde isso não deveria estar” (tradução própria). Vejamos alguns pontos fortes que confirmam a precariedade teórica desta área de estudos por lá. 

Primeiro, os trabalhos envolvendo as RI africanas surgiram em 1977 na Nigéria. Isto mesmo, 1977! Se nós consideramos as RI ocidentais como recentes, imagine aquelas então. Segundo, a falta de financiamento e a instabilidade política dificultam o desenvolvimento acadêmico. Há uma nítida diferença entre teoria e prática na África. Terceiro, as teorias clássicas (o Realismo, por exemplo) predominam nos países. É daqui que parte a questão: Como estudar as RI africanas sem uma abordagem multidisciplinar? Como falar de uma teoria que coloca o Estado enquanto ator unitário em um continente muitas vezes sem Estados considerados soberanos? 

Os três pontos mencionados se referem à realidade das relações internacionais dentro da África. Contudo, na minha opinião, isso tem influência direta para com os estudos “externos” que analisam o comportamento de alguns países ou até mesmo do continente como um todo. Se houvesse uma teoria de RI africana, com toda certeza pesquisadores de outras localidades se interessariam mais com aquela realidade local.

Conforme disse anteriormente, é uma cadeia de vícios. Pergunte para alguém: “Quer fazer um intercâmbio para algum país europeu ou para a África?” Nem preciso falar qual será a maioria das respostas. Veja, também, o que vem acontecendo no próprio Itamaraty. As embaixadas brasileiras e consulados em alguns países africanos estão com cargos vagos porque, assumindo tais vagas, os profissionais demoram mais tempo para progredir na carreira. 

E não estou “tacando pedra pra todo lado”. É uma culpa minha, inclusive, pois nunca me foquei em estudos internacionais africanos. Só acho que a carapuça serve para muita gente… Sumariamente, a África precisa de um novo fôlego interno para desenvolver as suas próprias Relações Internacionais! Como consequência, o interesse de outros acadêmicos irá crescer vertiginosamente. Para quem tem vontade em fazer pesquisa e não sabe ao certo o que estudar, tente a África! Para quem curte RI e ainda não entrou na graduação, tente desenvolver esta área. Tem campo de estudo e será de extrema importância para as RI daqui dez, vinte ou trinta anos.


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Os "novos" não-alinhados

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Iniciou no último domingo a 16a edição da Conferência dos Países Não-Alinhados que, desta vez, tem como sede o Irã. Mas espere um minuto. Não-alinhados? A quem? Essa lógica de aliança não tinha ruído com a queda do muro de Berlim? Bom, o fim da Guerra Fria trouxe sim o fim da tensão entre duas grandes superpotências com influências ideológicas, políticas e militares mundo afora. Todavia, a derrocada da União Soviética não significou o fim de muitas conferências, cúpulas, instituições e alianças que emergiram como resultado específico das pressões decorrentes dessa disputa. O principal exemplo atual é a grande coleguinha dos países dos países do Oriente Médio, a OTAN, que, fundada com o intuito de conter o avanço do comunismo sobre a Europa Ocidental, ainda tem tentado achar seu lugar nesse cenário internacional. 

O mesmo ocorreu com o movimento dos países não-alinhados. Na Conferência de Bandung, em 1955 – o primeiro encontro internacional que trazia uma agenda enfocada nos problemas dos países subdesenvolvidos (principalmente asiáticos e africanos), na oposição ao colonialismo e racismo e destacava as dificuldades da influência das grandes potencias sobre eles – foram instaurados princípios fundamentais para a criação do movimento no início dos anos 1960. A criação do grupo dos não-alinhados ocorreu somente em 1961, na Conferência de Belgrado, com o objetivo de não tomar lados na disputa geopolítica e militar das grandes potencias (apesar de muitos membros terem sidos defensores efetivos de um dos lados). O movimento surgiu justamente no momento de maiores tensões entre o Tio Sam e a URSS estavam atingindo o primeiro pico.

Certo, mas o que faz um “novo” não-alinhado, em um período que não há alianças claras? Se antes a posição era de defesa da agenda dos subdesenvolvidos e em desenvolvimento no contexto de tensões, hoje, ainda tem buscado uma agenda, até certo ponto, semelhante. Com 120 membros e 17 observadores, o grupo ainda defende uma agenda pró-desenvolvimento, entretanto, diferentemente do período anterior, ainda estão buscando uma agenda que una a todos. 

Ora, se essas conferências tem tido dificuldades com seus temas e tem passado um pouco despercebido pela comunidade internacional, parece que, desta vez, já há algo diferente. Mesmo antes de seu início, já houve polêmica e discussões. A começar pela inusitada lista de convidados do presidente do Irã, Mammoud Ahmadinejad. Além das delegações esperadas (que incluia o ditador sírio, Bashar Al-Assad) foram convidados o secretário-geral da ONU, Ban-Ki-Moon (que logo confirmou presença), e o primeiro-ministro do governo do Hamas em Gaza, Ismail Haniyeh. Somente esses dois convites já despertaram irritação dos Estados Unidos e da Autoridade Nacional Palestina (ANP). O Tio Sam argumentando que a ONU (ironicamente) estaria deslegitimando o direito internacional e o presidente da ANP, Mammoud Abbas, ameaçando boicotar o evento. Acabou que o representante do Hamas desistiu de ir e toda a poeira baixou um pouco. 

O encontro ainda prosseguirá até sexta e não se tem muitas informações sobre ele, mas já podemos levantar alguns elementos que chamam a atenção. Se não há tanta coesão no bloco como antes, o simples fato de conter 55% da população do mundo já é significativo. É aí que entra o oportunista Ahamdnejad, tentando outra via para legitimar seu programa nuclear. Uma estranha indicação foi ter convidado, e logo depois desconvidado, os membros da conferência e da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para uma visitinha “surpresa” às suas instalações nucleares. Há ainda oportunidades comerciais importantes para o Irã, pela presença da Índia e do Paquistão (seus principais compradores de petróleo), para fortalecer seus laços e abrandar a severidade das sanções do Tio Sam.

A outra questão é o caráter da Conferência. Anteriormente, buscava-se o não-alinhamento aos grupos ideológicos e agora, a despeito da agenda dos países em desenvolvimento, não há fator que una todos os membros. Entretanto, como disse antes,  simplesmente por ser um fórum com esse grande número de países em desenvolvimento pode gerar bons frutos, agendas e novos laços comerciais no futuro.  Nessa ocasião, ironicamente, em um grande fórum no Irã e sem a presença dos EUA, a crise Síria parece será um dos focos de debate.

Um movimento que parece anacrônico nessa semana ganha os holofotes do mundo. A presença de Assad, a nova política externa do Egito (que pela primeira vez em anos terá um presidente visitando o Irã), o oportunismo de Ahmadnejad, uma agenda em construção, a polêmica antes de iniciar e a presença do máximo representante da ONU e outras formas para discutir velhos problemas demonstram que o movimento é hoje um caldeirão de novas e velhas ideias. Por essas e outras que o mundo deve voltar seus olhos para os “novos”não-alinhados.

[Para mais, clique aqui, aqui e aqui]


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Fugir, para onde?

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Lembram do noticiário do Iraque no começo dos anos 2000? Era comum ler manchetes sobre massacres, atentados e dezenas (até centenas) de mortos por dia. E nesse início de década, esse papel é da Síria. Principalmente desde o final do ano passado, o leitor regular deve estar se acostumando com essas notícias de mortes causadas pela repressão (e, é claro, pelos revoltosos) no confronto atual mais sangrento fora da África (por que lá as coisas estão bem piores, é só lembrar do Congo ou da Somália). Mas, se a guerra do Iraque alterou bastante a geografia do poder na região, a da Síria é o elemento para o desastre completo. 

A causa disso tem um nome: refugiados. Não que eles sejam um problema em si (longe disso), mas o seu deslocamento é o que gera reações nos países vizinhos, e aqui mora o problema. Em uma região com governos instáveis ou população dividida, qualquer “desnível” na proporção de certa etnia ou grupo religioso é suficiente pra começar o caos. Até o momento, estima-se que quase 200 mil pessoas já fugiram do país, a maioria para a Turquia. O problema é que o governo turco já está gastando demais com os refugiados (o que nunca é bem visto pela população local) e já não tem mais espaço para acomodá-los. É o mesmo problema que a Jordânia enfrenta, mas numa escala ainda maior, sendo um país menor e com menos recursos, mas que proporcionalmente recebe muito mais refugiados. 

Mas a coisa fica séria mesmo é no Líbano. Primeiro, por que os refugiados estão sendo alocados na região da fronteira com a Síria, que não uma área das mais seguras. Segundo, o fervor político já atingiu a capital, Beirute, que está enfrentando conflitos isolados nos últimos tempos. E terceiro, o Líbano é um país essencialmente dividido. Alauitas, cristãos, sunitas, pró ou contra Assad, tem pra todo gosto. A chegada dos refugiados seria apenas uma faísca estourando um barril de pólvora. Chegou ao ponto de que a guerra da Síria já se espalhou pro Líbano, e não estourou apenas por que, ironicamente, é o Hezbollah (a força irregular que consegue lutar em pé de igualdade com o exército mais bem treinado do mundo, o de Israel) que, sendo  muito superior a todas as demais facções, faz com que os outros deixem de agir. Por enquanto. 

A coisa está tão feia que tem refugiados sírios fugindo até para o Iraque, de todos os lugares! Quando o Iraque está mais seguro que seu país, tem algo MUITO errado. E isso sem pensarmos nas consequências indiretas, como a mudança do poder regional, alianças, e o papel de Israel nisso tudo. Se os protestos no Oriente Médio começaram cheios de esperança em 2011, fica cada vez mais a sombra da tragédia sobre os seus resultados.


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Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 10]

[Encerra-se, hoje, a série “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Desde já, a equipe da Página Internacional gostaria de agradecer imensamente sua contribuição, que aumentou bastante o leque de temas trabalhados no blog. Este décimo post analisa algumas consequências de “políticas desajustadas pelo mundo”. Aproveitem a leitura!] 

Jogos Vorazes: verdade ou desafio? 

Nem todo conluio é vão, em natureza e fins. Verdade ou desafio? 

Na ficção, sempre que há a incomoda presença das irmãs repressão e opressão, levantes se tornam peças no tabuleiro de jogos tão vorazes. É assim em Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932), em Fahrenheit 451 (Ray Brandbuy, 1953), Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (George Orwell, 1948), Battle Royale (Koushun Takami, 1999) e, no mais recente, The Hunger Games (Suzanne Collins, 2008). Ora, se a arte imita a vida e vice-versa, não seria exagerado afirmar que estamos a viver num momento em que iniciativas políticas “desajustadas” ainda teimam em dar as caras e que, para tanto, surgem respostas inusitadas. Embora nem sempre assim sejam compreendidas algumas lembram curiosas e intrigantes conspirações – termo que compreendo mais como uma “vontade coletiva em prol do avesso” e menos (muito menos) no sentido daquelas teorias desconfiadas – em que canetas BIC são rastreadores da NASA, Paul McCartney não é o Beatle original e Elvis não morreu… [1]

Descrevo, a seguir, três delas. 

Há pouco tivemos o caso Pussy Riot, banda punk feminista que ao sustentar uma narrativa anti-Putin teve parte de suas integrantes presa. Houve comoção internacional por conta da severidade com a qual o caso teria sido tratado, mas também por tornar evidentes equívocos e destemperos do atual governo russo. [2] Composta por anônimas, as artistas mascaradas teceriam críticas à gestão do Kremlin por meio de letras e apresentações clandestinas, como aquela que tentou colorir a Catedral de Cristo Salvador. Esta última resultaria na prisão e na recente condenação das dissidentes por vandalismo. Simbolicamente, a “oração punk”, cuja duração seria de menos do que um minuto, bastou para que a ousadia das jovens pusesse abaixo as máscaras de um Estado conservador, no qual os limites entre religião e política são confusos e, portanto, questionáveis. 

Por falar em movimento anônimo e mascarado… Quantos já ouviram falar na ideia Anonymous

Desde 2003-2004, esta se trata de uma emblemática representante do chamado “hacktivismo”. Dizem as más línguas que, em realidade, seria uma forma contemporânea de terrorismo. Os caras, entretanto, se autodefinem como uma “ideia de mudança” [3] voltada a lutar contra as injustiças do mundo. Para o bem ou para o mal, a Anonymous disseminou a ideologia hacker ao mesmo tempo em que passou a colecionar intervenções memoráveis ao longo de seu histórico (Avenge Assange e Occupy Wall Street estão no pacote). Apesar de ser característico aos integrantes se utilizarem da face estilizada de Guy Fawkes, a mesma de V for Vendetta (V de Vingança, 2006), como elemento identificador do ciberativismo, a figura acabou se tornando ícone “pop”. Ressalto, contudo, que a busca incessante por liberdade – e, então, justiça – mesmo que em meio ao caos que provocam, parece ser o ponto nodal da missão desta legião de anônimos

Por fim, embora saibamos que virais são suficientemente polêmicos a ponto de gerar desconfianças (vide KONY 2012), a terceira e última “maquinação” assim veio a nós: Israel Loves Iran, famigerada fonte de compartilhamentos nas redes sociais, soa como o mais novo “boicote” civil ao que pretendem os entes do sistema. Por meio de uma campanha virtual, o casal anônimo Ronny Edry e Michal Tamir se dispôs a propagar o amor e a tolerância como antídotos à eminência de conflito – a saber, Israel se sente ameaçado pelo programa nuclear iraniano e blá blá blá. O objetivo seria suprimir o discurso belicoso das partes e ceder espaço às mensagens de conscientização, fazendo com que o amor se apresente como elemento transformador. Aparentemente bem sucedida, a proposta do casal israelense teve a adesão não apenas do Irã, mas também de outros países pelo mundo. 

Que representam as iniciativas? O avesso, como enunciado ao inicio. Antes de serem conotadas como subversão – de natureza e em intensidades distintas –, sugiro que sejam compreendidas para além. Compreendidas como a reação voraz do humano. Simples, apenas, tão somente assim.

*

Ao propor este espaço objetivei olhar ao mundão, nossa morada e objeto de estudo, de forma transcendente. Reconheço que nem todos os temas abordados (eram) são passíveis de incorporação às Relações Internacionais enquanto disciplina. Diria, em realidade, que estariam para além. Para além da caixa de fósforos na qual foram transformadas as Relações Internacionais. Creio, contudo, na esperança. A mesma esperança que resta ao fundo da caixa de pandora. Aquela em que a aspereza do mundo não supera a delicadeza da vida. Verdade ou desafio? 

[1] Mais aqui e aqui.
[2] Entenda mais do contexto Russo por abordagens anteriores do Página Internacional aqui, aqui, aqui.
[3] Mais sobre o Anonymous aqui.


Categorias: Mídia, Post do leitor, Post Especial


Grécia, pra que te quero?

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Desde que a crise na zona do Euro começou a se alastrar, temos nos perguntado por qual caminho a União Europeia está a se enveredar. Estamos observando o bloco buscando uma saída, abandonando aqueles que mais precisam de sua ajuda ou apenas refletindo sobre a vida enquanto está em seu leito de morte? 

Tudo é ainda muito nebuloso. 

E a situação da Grécia é central nisso tudo. Porque a partir dela já podemos ter uma ideia do que poderá acontecer com países como Portugal, Espanha e Itália. 

Nos últimos meses o que temos observado foi o aumento das medidas de austeridade para a estabilização do déficit público do país. Se antes consideravam a expulsão do país da UE como absurda, agora isso já não é tão estranho. Da mesma forma que, se antes a toda poderosa Alemanha não estava querendo se envolver tanto, tivemos uma pequena mudança que, ao que indica o novo bafafá diplomático na região, não foi tão brusca. Entretanto história e os números não são animadores. No ano passado, o valor total do PIB do país era algo em torno de US$ 298,1 bilhões. Mesmo período que a economia teve um crescimento de -6,0%, após uma sequência de crescimentos negativos, de -3,5%, em 2010, e -2,6%, em 2009. 

Para se ter uma ideia de dimensão do buraco no qual a Grécia está, basta pensarmos na dívida pública do país que junto com a crise no setor imobiliário dos EUA tem um lugar conhecido como uma das causas de todo esse furdunço econômico. Historicamente, o país não tem bons precedentes quando se fala em gastança pública. Mesmo com famoso Pacto de Estabilidade Europeia (para mais aqui e aqui) que impõe o limite de 3% do PIB para o déficit público dos países membros, a Grécia já tinha ido além do permitido entre 2001 e 2006. Ficou bacana por dois anos até que, em 2009, com a crise, a coisa desandou de vez… E hoje a dívida pública do país atingiu a exorbitante cifra de 132% do PIB

Dá pra ver que a situação está complicada. Mas complicada também tem sido rigorosa a ajuda econômica fornecida pela “Troica”, o clubinho dos endinheirados credores (Banco Central Europeu, FMI e pela Comissão Europeia) que tem o poder de exigir o que quiser para emprestar dinheiro. Para receber a próxima parcela do empréstimo, o governo do país tem que enxugar o gasto público em 11,5 mil milhões de euros (5% do atual PIB), além de engordar os cofres do país entre 2013 e 2014. Dificuldade que levou o primeiro-ministro, Antonis Samaras, durante seu encontro hoje com a primeira-ministra alemã, Angela Merkel, a pedir alguns anos a mais para cumprir as exigências. Proposta que foi rechaçada de imediato, mas ainda trouxe expectativas sobre a Grécia manter-se no bloco. 

Esse episódio ainda demonstra que apesar da Alemanha ter sido um pouco mais flexível pela garantia do segundo pacote de ajuda, ainda não há desejo de aceitar os custos da crise em conjunto.  

Os cenários traçados mostram que a saída da Grécia pode ser catastrófica (veja o esquema) e abrir um precedente complicado para a manutenção do Euro. Há quem indique algumas possibilidades. Paul Krugman, por exemplo, apontou, em um texto recente, que elas envolvem à Alemanha aumentar sua inflação (para diminuir o custo dos empréstimos para os países com dificuldades) e um incentivo conjunto às exportações como forma de quitar as dívidas. Opções que tem pouca aceitação entre os alemães. 

Não dá pra dizer pra onde tudo isso vai, nem mesmo que caminho a UE vai tomar. Todavia, tem grande peso se o bloco (leia-se Alemanha e França) vai querer dar um passo além em seu caráter e buscar soluções mais conjuntas (para mais no blog, clique aqui e aqui), aceitando os custos disso. Crises são sempre tortuosos caminhos que podem trazer lições importantes. No caso, uma trilha que pode levar ao supranacional ou ao fim do bloco.


Categorias: Europa, Política e Política Externa


C’mon and join us!

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A Rússia finalmente ingressou de modo formal na Organização Mundial do Comércio (OMC). Por Rússia lê-se “mais produtos agrícolas e recursos naturais” que entrarão de maneira mais facilitada nos mercados internacionais. O fim das negociações que começaram em 1995, ano em que foi realizada em Genebra a primeira reunião do Grupo de Trabalho para discutir este tema, terminou provisoriamente no último mês de Julho, quando o presidente (sempre ele!) Vladimir Putin assinou o documento final de adesão aprovado por todos os membros da organização. 

Mas foi ontem mesmo, dia 22 de Agosto, que a Rússia tornou-se o 156º membro da OMC! Normalmente, quando falamos de organizações e instituições internacionais, temos certo ceticismo aparente. Se perguntarem sobre o “poder” das Nações Unidas (ONU) perante os Estados Unidos, por exemplo, vamos balançar a cabeça de modo duvidoso e talvez nunca tenhamos uma resposta coesa para esta questão. E assim vai também em relação à União Europeia. Até que ponto podemos afirmar que os europeus do bloco abrem mão dos interesses dos seus países em prol de todos? 

Talvez a única instituição que promove uma resposta mais simples seja a própria OMC. Digo isso porque ela é um exemplo de organização que deu certo e vem aumentando seu rol de ações mundialmente. Vale lembrar que ela substituiu o “General Agreement on Tariffs and Trade” (GATT) em 1995 após a Rodada Uruguai e desde então aumentou consideravelmente a pluralidade de temas debatidos nas reuniões. Como todo mundo sabe, a Rodada Doha, iniciada em 2001, ficou estagnada por um longo período, todavia isto não retira o mérito da OMC. Veja abaixo, com dados da própria OMC de 2005, as principais rodadas da organização: 

Pois bem, e o que muda com a adesão da Rússia? Conforme disse nas primeiras linhas do texto, o país apresenta sua balança comercial baseada nas exportações de produtos agrícolas e minérios. Tem a maior reserva de gás natural do mundo, a segunda de carvão mineral e a oitava de petróleo. Em virtude do tamanho do território, exporta grandes quantidades de madeira e energia elétrica e possui intensa atividade na agricultura e pecuária. É visível como isso afetará o comércio mundial e nem precisamos de maiores explicações. 

Entretanto, mais do que uma mudança na OMC, parece haver um forte câmbio econômico interno na Rússia. Ela teve que abrir mão de uma série de acordos bilaterais realizados na última década e também terá que rever suas tarifas aduaneiras de importação. A partir de ontem o país está obrigado a seguir as provisões da OMC e, em virtude disso, terá que aplicar uma tarifa de no máximo 7,8% para os produtos importados

A meu ver, entusiasmando a OMC, creio que a entrada da Rússia trará benefícios a todos os países membros. A União Europeia já está dando pulos de comemoração, porque os russos são um dos seus principais parceiros comerciais. Reflexo dos novos tempos de certo “multilateralismo” nas relações internacionais. Pensar nesta conjuntura há cerca de 20 anos, logo após a queda da União Soviética (URSS), era algo praticamente utópico. 

PS: Amanhã, 24 de Agosto, Vanuatu se tornará o próximo membro da OMC! É um estado insular da Melanésia, na Oceania, e depende bastante da Austrália e da Nova Zelândia. Seu território tem cerca de apenas 12 mil km². A Rússia, por curiosidade, é 1.400 vezes maior.


Categorias: Ásia e Oceania, Economia, Organizações Internacionais


O desafio do Mali

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No dia em que os holofotes se voltam para a Rússia, o gigante que faltava ser admitido na Organização Mundial do Comércio, vale a pena destacar um fato importante, mas talvez não tão destacado, do outro lado do globo. Um novo governo provisório foi formado no Mali, no norte da África.

Para entender a importância deste fato, é preciso dizer que o Mali, país africano que já foi considerado modelo de democracia para o continente, sofreu há exatos 5 meses um golpe militar que depôs o governo vigente, aumentando enormemente o nível de instabilidade política e territorial no país. [Veja o histórico dos principais acontecimentos desde o golpe aqui.]

A independência do norte do Mali – também conhecida como região de Azawad – é reivindicada pelo povo tuaregue por meio do Movimento Nacional de Libertação de Azawad, que luta por esta região do Saara há centenas de anos [leia mais a respeito aqui]. Paralelamente – e dada a fragilidade política – o grupo radical islâmico Ansar Dine, ligado à Al-Qaeda, reivindica poder e influência na área e no país. Polêmicas envolvendo o recrutamento de crianças nestes conflitos já vieram à tona, gerando preocupação internacional.

Estes dois grupos distintos lutam entre si, mas possuem como inimigo comum o governo central. E foi esta fragilidade que supostamente motivou o golpe militar – enfraquecendo, paradoxalmente, ainda mais a democracia no país. As consequências regionais e internacionais deste fato também devem ser remarcadas. [Entenda melhor o caso por meio dos artigos disponíveis aqui e aqui.]

Assim, a formação de um governo provisório no início da semana renova a esperança nacional pela volta de segurança e paz no país, evitando um conflito generalizado. O desafio do Mali é grande: restaurar a unidade política, lidar com as reivindicações territoriais e buscar a estabilidade no país são etapas de um longo e complexo processo. Para voltar a ser considerado modelo de democracia no futuro, o Mali ainda deve percorrer um longo caminho, cujos primeiros passos parecem, finalmente, estar sendo dados. Resta saber como serão os próximos… 


Categorias: África, Conflitos, Política e Política Externa


Olimpíadas de Londres: lições para o Brasil

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[Pouco mais de uma semana após o encerramento das Olímpiadas de Londres, o colaborador Giovanni Okado nos oferece uma interessante análise a respeito, com enfoque para as lições que ficam para o Brasil, próximo país-sede dos jogos. Vale a pena conferir!]

 

As Olimpíadas de Londres, belíssimas e históricas, acabaram. Suas lições para o Brasil, não. Mais do que a organização e a logística, os jogos olímpicos despertam em nós, brasileiros, uma questão essencial: que país queremos ser? Para responder essa pergunta, é preciso um amplo debate entre governo e sociedade. Todo governo é reflexo dos anseios e das inércias da sociedade.

Quando o cidadão quer algum bem, certamente haverá ações, boas ou ruins, para supri-lo. Quando o cidadão não se manifesta sobre um bem, os governantes adotarão medidas sem qualquer consentimento popular. No Brasil, o esporte é um bem que se enquadra em ambas as categorias e, ao mesmo tempo, em nenhuma delas. 

As Olimpíadas demonstram a baixa valorização do esporte no Brasil. Somos, é claro, um povo apaixonado, que torce, vibra, sofre e chora com cada vitória e derrota de nossos atletas. Mas somos, antes de tudo, um povo que pouco entende o sacrifício deles, as situações adversas a que se sujeitam no dia a dia, para se tornarem a esperança de uma nação ouvir o brado retumbante ecoar no mais alto lugar do pódio. E não adianta dizer que isso é problema apenas do governo, que não incentiva o esporte, é também um problema da sociedade, que cria mitos esportivos ingênuos – boa parte deles, produzidos e reproduzidos pela mídia.

De que adianta ganhar, finalmente, a primeira medalha de ouro no futebol se ela conta apenas como uma medalha de ouro na classificação geral? Por que ficar falando que o Brasil é o país do futebol, quando a nossa hegemonia esportiva se impôs no vôlei, de quadra e de praia, masculino e feminino? Por que não investirmos mais em esportes individuais, como o atletismo e as artes marciais, que garantem mais medalhas? O grande problema é que não pensamos no coletivo e reduzimos as Olimpíadas a emoções particulares, ainda irrealizadas.

Um país de 200 milhões de habitantes tem potencial para descobrir talentos, pessoas com dons inatos e características próprias para determinados esportes, como é o caso do maior medalhista olímpico, Michael Phelps. O esporte deve ser encarado como uma atividade profissional no Brasil. Do contrário, continuará revelando heróis, como Sarah Menezes, Arthura Zanetti, os irmãos Falcão, sobre os quais depositamos nossas expectativas e frustrações, e não atletas, cuja missão é competir para vencer.

O esporte afeta as dinâmicas das relações internacionais. Basta lembrar que a Guerra Fria jamais foi uma competição travada exclusivamente pelas armas e, nas Olimpíadas de Pequim, os Estados Unidos alteraram, internamente, os critérios de pontuação para se considerarem vencedores – recorda-se que a China obteve mais ouro e, na soma dos pontos, terminou em primeiro lugar. O esporte é uma oportunidade de demonstrar para o mundo o modelo de desenvolvimento socioeconômico adotado por qualquer país e avaliar os resultados desse modelo.

Nos últimos anos, o Brasil alinhou crescimento econômico com inclusão social. Chegou a ocupar a sexta posição no ranking das maiores economias mundiais e retirou da miséria cerca de 20 milhões de brasileiros. A pujança econômica e a melhoria social não condiz, entretanto, com o IDH do país (84º colocado no ranking), as altas taxas de violência e, por que não, a posição no quadro olimpíco de medalhas. País rico, como diz o mote do atual governo, é, sim país sem miséria, e o esporte é essencial para esse fim.

Por enquanto, as políticas sociais atuais, com destaque para o Bolsa Família, permitem ao cidadão vencer os liames da pobreza. É preciso incluir o esporte nessas políticas, pois não basta retirar as pessoas da pobreza sem lhes dar uma opção de vida. Isso incentivaria a formação de atletas, como profissionais, para representar nosso país nos principais eventos esportivos internacionais.

Os desafios para o Brasil parecem imensos e as Olimpíadas do Rio já estão aí. Em 2016, teremos uma oportunidade especial de mostrar ao mundo o nosso modelo desenvolvimento socioeconômico, que país somos e a que aspiramos. Desde já, entoa o título da obra de Stefan Zweig, “Brasil, país do futuro”, nas esperanças de que essa nação alcance seu destino. Pensar no esporte é uma das maneiras de concretizar essa visão, não como um projeto ufanista, mas como uma realidade concreta. 


Categorias: Brasil


Todos querem Assange

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E vamos falar de Julian Assange, o homem que tem uma vida que parece filme de James Bond nos últimos meses e que foi arrumar problemas justamente com o país do espião de Sua Majestade. Relembrando para aqueles que vivem embaixo de uma pedra, o fundador do falecido Wikileaks está com prisão decretada na Suécia e seria extraditado pela Inglaterra, mas fugiu e está entocado na embaixada do Equador há dois meses, e na semana passada finalmente o presidente Rafael Correa autorizou a concessão do asilo político, sob a alegação de que Assange está sofrendo perseguição política. 

Sempre achei muito divertidos esses casos em que países distantes encontram farpas pra trocarem – é meio que um modo de ver na prática como as relações internacionais funcionam na atualidade, com supressão das distâncias, países que não têm nada a ver na mesma notícia, e tudo mais. Mas o caso Assange fica complicado de entender por causa do “juridiquês” envolvido. O que causou mais comoção foi a ameaça da Inglaterra de invadir a embaixada e tirar Assange à força. Ora pois, a embaixada é inviolável, e blábláblá. Antes de tudo, temos de esclarecer que, ao contrário do que aparece na TV, a embaixada NÃO é território do outro país – é uma área em que o país “hospedeiro” concede privilégios especiais à delegação do estrangeiro, por tradição e costume internacional, e esperando que o mesmo ocorra do outro lado. Tecnicamente, o anfitrião pode fazer o que quiser caso se sinta ameaçado ou coisa parecida – vai ter que enfrentar a fúria da comunidade internacional, por causa do costume e tudo mais, mas em última instância está liberado. E existe precedente para isso na Inglaterra. 

E quanto à extradição? Assange diz que sofre perseguição política, mas a rigor a acusação contra ele é de um crime “comum” (abuso sexual). O medo dele é ser re-extraditado da Suécia para os EUA, onde aí sim a porca torce o rabo. E a Inglaterra e o Equador com isso? O asilo, nessas condições, é muito sutil e até mesmo forçado – por mais que se acredite que a acusação na Suécia seja uma fachada conveniente, é um processo legal e a Inglaterra cumpriu todo o processo de acordo com a lei internacional. Quem estaria errado nesse caso, é o Equador! Mesmo por que a motivação política é evidente, dos dois lados, diga-se de passagem, com a imprensa britânica cobrindo a crise para desviar um pouco a atenção dos problemas econômicos, e o presidente do Equador querendo aliviar sua barra com a mídia após um problema grave processando um jornal nesse ano. É bizarro ver Rafael Correa defendendo um homem que advoga a livre expressão e circulação de informações, mas hein, o mundo é sempre uma caixinha de surpresas. Deve ser para espezinhar os EUA.

Falando neles, vamos deixar as coisas mais complicadas. A acusação nos EUA é por crime de espionagem, vazamento de informações e outras coisas que põem em risco a vida de cidadãos norte-americanos, crime punível até mesmo com a morte. A ironia é que, se formos pensar bem, fora uma ou outra informação interessante (como a confirmação da existência de prisões secretas dos EUA, ou matanças no Afeganistão), tudo que a Wikileaks revelou foi fofoca de bastidores e coisas que todo mundo já sabia ou suspeitava. Não saiu nada de excepcional dos vazamentos, e no fim das coisas foi algo, se não inútil, de pouco efeito prático (apesar do efeito simbólico – é o tipo de evento que atesta contra, por exemplo, a diplomacia secreta, que tanto mal causou ao mundo no passado). E, tecnicamente, os EUA estão certíssimos, o rigor jurídico é implacável no caso do Assange. Mas, por outro lado, lei europeia evita que prisioneiros possam ser extraditados para países onde possam pegar pena de morte, então Assange poderia trocar sem problemas sua estadia prolongada na embaixada em Londres por uma prisão de regalias na Suécia caso consiga suas garantias. Ou não. 

O xis da questão é que Assange tem esse benefício da dúvida – todo o processo até o momento foi regular, mas no fim das contas há uma clara questão política por trás de sua prisão. Acusações fundamentadas ou não, temos aqui Estados que foram lesados lutando contra um homem que encabeçou um projeto de divulgação de informação nunca antes visto, e que de certo modo defende um direito universal. Apenas por esse mero detalhe, a decisão do Equador passa a ser justificável, e ficamos com o nó jurídico e diplomático que virou esse caso. 

Resumindo: os EUA estão com razão ao querer a cabeça de Assange; a Suécia tem uma acusação formal e embasada; e a Inglaterra fez tudo de acordo com o figurino. Por outro lado, Assange muito provavelmente está sendo perseguido e tem razão ao pedir asilo. É o tipo de caso em que não temos um “certo” ou um “errado”, mas que vai caber à história julgar o resultado.


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Mais uma semana

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E lá se foi mais uma semana. Estou falando da 10ª Semana de Relações Internacionais realizada por docentes e discentes dos cursos de Relações Internacionais da UNESP dos campi de Franca e Marília. Para quem não sabe, as duas universidades possuem este curso e, em conjunto, realizam uma série de debates, palestras, mesas redondas, mini-cursos e apresentações de trabalho uma vez por ano. Comemorando uma dezena de encontros, o evento foi lotado na UNESP/Franca, na qual todos os colaboradores do blog estudaram. Escrevo, desta vez, de maneira diferente e proponho mostrar a seguir alguns dos debates que observei durante a semana. É bastante válido para todos acompanhar um pouco do que está rolando no mundo acadêmico e creio que este é um dos objetivos da própria Página Internacional: difundir as ideias para além das universidades. 

Começo pelo título do evento: “A construção das relações internacionais no Brasil no início do século XXI”. Desde já é nítida qual foi finalidade desta Semana de RI, fomentar o debate sobre as assim chamadas “relações internacionais brasileiras”. Nada mais correto, uma vez que o grande protagonismo nacional mundo afora vem aflorando nos últimos anos. Na conferência de abertura houve a participação do Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, atual Alto-Representante Geral do MERCOSUL. Sua fala centrou-se no futuro da política externa brasileira (PEB), afirmando que a região da América do Sul, e não a África, a Ásia ou a Europa, será a chave-mestre nacional. Nosso país tenderá a fortalecer a cooperação regional, promover a integração e, é claro, alimentar o seu interesse nacional enquanto, como todos dizem, país ou potência emergente. 

Posteriormente, destaco a mesa redonda sobre “Cultura e Relações Internacionais”. Foram discutidos os mais diversos temas, deste a própria conceitualização do que é cultural, até teorias feministas e intervenções externas norte-americanas. Do que mais me marcou, ficam as ideias do Professor Estevão Chaves de Rezende Martins (da UnB), que afirmou com convicção sobre a falácia da Primavera Árabe. Para ele, o termo é mal empregado e reflete apenas um conceito utilizado por leigos para que seja noticiado nos telejornais. Sumariamente, seu pensamento condiz com o fato da região (Egito, Líbia, Síria, etc) ser extremamente heterogênea e ter um histórico bastante variado, fatos que culminam na impossibilidade de amontoar tudo em apenas duas palavras. Se fosse assim, já ocorreram verões, outonos e até invernos árabes. Mas quase ninguém tem conhecimento disso. 

Por fim, mudo o tema para defesa e segurança. Acompanhei os debates a respeito da criação da UNASUL e consequentemente do seu Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS). O que deve ficar claro para todo mundo é que a UNASUL não porá fim ao MERCOSUL, porque tem objetivos diferentes. Tão diferentes que, se este ficou sobrando nos aspectos econômicos, aquela tenta promover uma maior cooperação política na região, indo ao encontro, também, do citado CDS. De acordo com os professores Jorge Szeinfeld (da Universidade de La Plata – Argentina) e Héctor Saint-Pierre (da UNESP/Franca), falta articulação política na região e, especificamente sobre defesa, é exatamente isso que o conselho vem tentando articular. Como a organização é muito nova, resta esperar as cenas dos próximos capítulos que estão sendo pesquisadas por vários alunos. 

Estas foram algumas das temáticas que fizeram parte da 10ª Semana de RI da UNESP. Daria pra citar uma série de outras coisas, principalmente sobre os mini-cursos ministrados que versaram sobre governança, identidade brasileira, teorias de integração regional, políticas públicas, dentre outros. Quem sabe a cobertura de eventos torne-se algo mais constante aqui no blog. É interessante, sempre interessante, fazer este paralelo e dividir o espaço entre academia e o “bate-papo internacional” do dia-a-dia.


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