Luta azeda

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Boxe não é exatamente o esporte mais civilizado que existe, mas é uma das analogias a que se refere quando queremos falar de eleições. Existem regras na luta, e um certo charme no evento em geral. Porém, estamos chegando a um ponto em que as eleições estão virando um vale-tudo, mas sem a punição por golpes abaixo da cintura. Basta ver o lamaçal que está virando a eleição presidencial francesa, com o Kadafi voltando do túmulo pra aterrorizar Sarkozy, acusações baixas e uma nada saudável tendência à polarização entre extremas esquerda e direita que não vai dar em coisa boa qualquer que seja o resultado. 

Agora, e quando uma luta acaba, os pugilistas voltam pra casa mas um deles decide se vingar indo com alguns capangas e pegando o outro desprevenido no caminho de casa? A imagem é exagerada, mas meio que mostra o que está acontecendo na Ucrânia. Já tivemos a oportunidade de falar sobre Yulia Timoschenko por aqui – ela foi uma das protagonistas de uma revolução não-violenta em 2004, quando junto de Viktor Iuchenko desbancaram uma eleição fraudulenta e se tornaram primeira-ministra e presidente. O problema é que em 2010 eles já não eram tão amigos assim e viraram rivais no pleito daquele ano, em meio a denúncias de corrupção. O resultado foi a vitória de Viktor Ianukovitch, o mesmo que haviam derrubado em 2004, e o castigo veio a galope – no mesmo ano ela foi removida do cargo com uma moção de desconfiança do Parlamento, e foi aberto um processo por abuso de poder contra ela. Em outubro do ano passado ela foi condenada a 7 anos de prisão e a devolver o dinheiro que obteve por meio de sonegação. 

Esse é o problema atual. Timoschenko não é nenhuma santa, como oligarca do petróleo que é, mas analistas e observadores europeus dizem que o processo deveria ser revisto; segundo a Anistia Internacional, a prisão foi de cunho político – uma vingança tardia de Ianukovitch? Timoschenko é sua maior opositora, e diz que o judiciário está fabricando acusações. A imagem negativa do caso piorou na semana passada, quando soltaram imagens de Timoschenko com hematomas pelo corpo (teia sido espancada na prisão, quando tentaram levá-la à força para um hospital), e ela adotou a moda sul-americana, fazendo greve de fome. 

Isso vai render muitos problemas para o governo, que já enfrenta atentados à bomba (segundo os mais paranóicos uma tentativa do governo de distrair a mídia do caso da ex-primeira-ministra) e está prestes a sediar um evento esportivo de grade calibre, a Eurocopa (em parceria com a Polônia). Muitos líderes e ministros europeus já confirmam o boicote ao campeonato de futebol, e isso seria um golpe terrível ao prestígio do governo atual. Esse é apenas mais um round dessa luta pelo poder, que às vezes se traveste de eleição, com todas as conseqüências danosas em longo prazo…


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E às vésperas do Dia do Trabalho…

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…a Espanha registra os maiores índices nacionais de desemprego dos últimos vinte anos! Mesmo que novidades sobre a crise europeia não sejam mais tão “novidades” assim, os números espanhóis são alarmantes e ilustram uma triste realidade sem perspectivas de mudanças nos próximos tempos. 

Hoje foi divulgado um índice de aproximadamente 25% de desemprego na Espanha: quase 6 milhões de pessoas em meio à população economicamente ativa estão em busca de trabalho (estimativa do primeiro trimestre de 2012), sendo que grande parte deste número é composta por mulheres e jovens. O gráfico abaixo, do Instituto Nacional de Estatísticas da Espanha, retrata uma situação bastante complicada no contexto espanhol, com um forte quadro recessivo. 

Outra má notícia nesta sexta para os espanhóis foi ainda o rebaixamento da nota da dívida do país pela Standard and Poors – um dos principais indicadores econômicos reconhecidos internacionalmente e que determinam o grau de confiança para os investimentos externos em um país. Como consequência de todo este contexto de instabilidade e desemprego, a nota foi rebaixada para BBB+. De fato, a economia do país não anda nada bem e medidas de austeridade são implementadas – para insatisfação ainda maior da população, que vê os setores de educação e saúde prejudicados. 

O feriado de 01 de maio deste ano certamente não representa para a Espanha um dia tranquilo ou a ser comemorado. Uma série generalizada de protestos está sendo programada para este dia pelos sindicatos e trabalhadores espanhóis. O objetivo: criticar as reformas que vêm sendo adotadas pelo governo e exigir uma solução negociada da crise. A União Europeia mostra sua força e, ao mesmo tempo, fraqueza como bloco, no sentido de que – mesmo com as atuais enormes desigualdades internas face à crise – a política fiscal não é adaptada e cada país deve encontrar seus próprios meios de cumprir com as responsabilidades assumidas. Força porque, mesmo em meio à crise, o bloco busca manter sua estabilidade internacional. Fraqueza porque, para alcançar este objetivo, frequentemente a população dos países afetados é que sofre diretamente com as medidas de austeridade adotadas. 

E, finalmente, a Espanha volta às próprias origens do Dia do Trabalho – historicamente criado em homenagem às conquistas dos trabalhadores por meio de manifestações nos Estados Unidos em 1886 e em várias partes do mundo nesta mesma época. Quase 130 anos depois, mudam os atores e o contexto, mas persiste a necessidade de reivindicações por melhores condições de vida. 


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Eles estão voltando…

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Para o México! De acordo com estudo realizado pelo “Pew Hispanic Center”, há mais mexicanos voltando para casa do que indo para os Estados Unidos (EUA). É a primeira vez na história que isso acontece, configurando-se como a maior detenção de fluxo migratório do território norte-americano. De acordo com Paul Taylor, diretor do “Pew Center”, este movimento não é algo conjuntural, ou seja, temporal, mas sim algo bem mais importante: uma verdadeira mudança no eixo da relação de ambos os países. 

Nos últimos quarenta anos, nenhuma outra nação enviou mais imigrantes para os EUA do que o México. Segundo o estudo mencionado acima, cerca de 12 milhões de mexicanos já cruzaram a fronteira, sendo que praticamente metade entrou de maneira ilegal. Todavia, nos últimos cinco anos, esta tendência diminuiu consideravelmente e especialistas já falam em uma inversão na ordem de cruzamento da fronteira, conforme pode ser visto no quadro abaixo: 

Esta mudança de rumo migratório fica ainda mais evidente quando se observam os números ano a ano (de 1991 até 2010): 

Há duas explicações fundamentais para este comportamento. Primeiro, com certeza, o forte combate e a intensa patrulha fronteiriça proferida pelos EUA influenciaram este comportamento. É crescente o controle nesta área e o número de deportações para o México ainda tem valores expressivos. Segundo, os mexicanos diminuíram suas taxas de crescimento populacional e melhoraram seus índices econômicos internos. Convenhamos que, embora os EUA sempre fossem um “mercado aberto” para os imigrantes, na última década o mercado de trabalho lá não estava correspondendo positivamente, exemplificado pelas crescentes ondas de desemprego. 

É algo que ambos os governos devem “comemorar”. De certo modo, Samuel Huntington, famoso por criar a “Teoria do Choque das Civilizações”, ficaria feliz com esta notícia. Para ele, os mexicanos, principalmente com seus costumes hispânicos, são uma ameaça à integridade regional e política norte-americana. E é óbvio que os EUA sempre combateram esta presença, em sua vertente ilegal, no país. Por outro lado, este movimento induz a mudanças internas no México, não havendo mais uma diáspora no território pode ser sinal de melhoras nas políticas domésticas e maior controle estatal sobre elas. 

Mas ainda é cedo para ter argumentos concretos. Com um total de 40 milhões de imigrantes, um em cada três que vivem nos EUA é mexicano. A presença “latina” continua a ser forte e demandará longos estudos futuros do mesmo porte que este realizado pelo “Pew Center”. 

PS: Vários dados numéricos e os gráficos foram retirados do documento “Net Migration from Mexico Falls to Zero – and Perhaps Less” do “Pew Research Center” que pode ser obtivo aqui.


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Conversando com a Teoria

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Explicar ou Entender

Até o momento, descrevemos a evolução teórica em Relações Internacionais com base em três grandes correntes de pensamento. Do realismo ao neoxmarximo, podemos ver um fino e breve fio condutor que costura todas essas teorias juntas. Apesar de diferentes no conteúdo e nas visões de mundo, resumidamente, é no método que elas se aproximam. Em outras palavras, a maneira de se fazer teoria que, antes de tudo, aponta que é possível “explicar” a realidade internacional. Essa “explicação”, até certo ponto, seria objetiva, pois partiria da observação e de se verificar as hipóteses levantadas, as relações de causa-efeito, e assim, chegar-se-ia a um resultado lógico, racional. 

Bom, e é justamente aí que as coisas começaram a complicar. Ao final dos anos 1980, um pessoal começou a criticar a visão de mundo dessas principais correntes. Basicamente, alguns autores apontavam que nas Relações Internacionais, como qualquer ciência social, é difícil obter uma explicação válida que não esteja poluída por valores, princípios e quaisquer entendimentos daqueles que explicam. O que significa que seria possível “compreender” o mundo e não o “explicar”. Ora, em termos práticos, o que isso quer dizer? 

Uma vez já usamos a analogia de como elaborar uma teoria baseado no exemplo do pôr-do-sol. Talvez fosse interessante retomar esse ponto. Quando falamos de certo João que enuncia uma “teoria do entardecer” pela observação de que o sol se punha sempre entre as 18:45 e as 19:10, podemos dizer que ele olhava pela janela de sua casa, em sua cidade. Isso significa que sua teoria é baseada em sua realidade e, seria importante saber, onde no mundo era localizada essa janela da qual ele observava. Pois caso alguém que viva no Canadá ou na China queira utilizá-la, talvez possa ver que o sol se põe em horários diferentes e, portanto, a tal teoria do João não se aplicaria. 

E é, grosso modo, esse ponto que alguns autores da Teoria Crítica, do Construtivismo, do Pós-Modernismo ou da Teoria Normativa nos mostram. As teorias levam valores dos que a escrevem – por exemplo, do lugar onde vivem, da visão de mundo da sociedade – e há sempre outros envolvidos e fatores que são difíceis de se verificar somente pela observação. O subjetivo, aquilo que não é concreto, no nosso caso do João, aquilo além dos conceitos empiricamente verificáveis, ganha importância Esse é considerado, por muitos, o “Terceiro Grande Debate” das Relações Internacionais, no qual a pergunta do “como estudar” a disciplina vem à tona de novo (para mais sobre os debates, clique aqui). As duas correntes que lutam, sem necessariamente se oporem, seriam os Positivistas (marxistas, liberais e realistas) e os Pós-Positivistas (outras abordagens que consideram o subjetivo) ou Racionalistas e os Reflexivistas (como são chamados por alguns). 

Para o segundo grupo, é importante o “compreender” o “entender”, ao invés de ser capaz de “explicar” ou até “prever”. Essa crítica ao “rigor científico”  não representa também uma mudança total na forma de fazer teoria. Como alguns construtivistas fizeram, houve quem buscou um meio termo entre o positivismo e o pós-positivismo. Até hoje, essas duas formas de pensar coexistem e interagem (para bem e para mal), sem chegar a uma conclusão sobre se é melhor “explicar”, “entender” ou um pouco de cada.  Bom, pessoal, paremos por aqui para não complicar demais. Na próxima semana continuaremos um pouco com essas questões e introduziremos algumas dessas teorias! Até lá!


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Polemizando…

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E a Argentina polemiza outra vez. Não cansada das barreiras a produtos contra países do Mercosul ou mesmo de insistir reiteradamente no seu direito às Malvinas, o governo de Cristina Kirchner conseguiu sua nova controvérsia. A bola da vez foi anúncio do projeto de lei que expropriará 51% das ações da estatal petrolífera YPF. A notícia gerou problemas com a companhia espanhola Repsol, detentora do controle acionário da empresa e adicionou uma pitada de polêmica às relações do país com a Espanha. Todavia, no plano interno, foi muito bem recebida pela população (61% apoiou-a), até mesmo a figurinha carimbada do ex-presidente Menem, responsável pela privatização da empresa em 1999, entendeu que era pertinente. 

Nesse contexto de tensão com a Espanha, uma pergunta não quer calar. A tal expropriação é um direito do governo argentino ou foi um toque de populismo no caldeirão social argentino? Como deliberado pela ONU, todo país tem o direito de retomar o controle acionário de qualquer estatal, porquanto que pague a quantia referente às ações das empresas prejudicadas. E o valor demandado pela Repsol é de US$ 18 bilhões. Muito pouco provável que a Argentina pague a quantia equivalente. Como tem ocorrido por aí, em outros casos como esse, possivelmente o governo pode pagar o quanto bem entender, pode não pagar nada ou até mesmo entrar com um processo criminal contra a empresa para provar que a expropriação não é descabida. 

Outra questão que pende para o lado argentino é o fato de estarmos lidando com petróleo. Como muito bem apontou Keating (clique aqui para conferir seu artigo), o petróleo nunca foi apenas uma commodity, é, e sempre foi, um bem estratégico. Estratégico e definidor de interesse nacional. E o argumento que fundamentou o projeto de lei atual é justamente o da falta de investimento da Repsol no país por meio da repatriação, e não reinvestimento, da maior parte dos lucros. O que é extremamente plausível. Principalmente ao se considerar os dados que apontam para a redução das jazidas exploradas nos últimos dez anos (clique aqui). 

Agora, por outro lado, todos hão de convir que a Argentina já vem de uma crise energética de longa data. E a atuação do governo na área tem sido pífia. Manteve o supostamente temporário congelamento de preços do combustível bem como outras regulamentações da oferta do produto por quase dez anos. E uma expropriação desse porte está dentro da lógica política de Kirchner (é bom lembrar que a Argentina anda nacionalizando várias estatais privatizadas nos últimos anos, mas nada do tamanho e importância da YPF),  é uma injeção de soberania e nacionalismo, que pode levar para segundo plano a discussão sobre a importância de uma política energética mais eficaz. 

Bom, tentando responder a pergunta do início do post, parece que, nesse caso, temos um pouco dos dois.  Há um direito, um interesse ferido e uma balança que pende para a preferência por soluções de curto prazo em detrimento daquelas de caráter mais estrutural. Nacionalizar é direito da Argentina, todavia, teoricamente, dever-se-ia garantir as contrapartidas da Repsol. Os efeitos em termos de capital político são extremamente positivos para Cristina Kirchner, funcionando como outro fator que desperta a soberania e o nacionalismo argentino (sentimento que foi sempre bem instrumentalizado na história do país, basta ver a Guerra das Malvinas). Em termos de “capital político externo”, não se pode dizer o mesmo. O uso deliberado de protecionismos contra parceiros comerciais consagrados ou mesmo ações repentinas como essas para tapar buracos estruturais acarretam em descrédito internacional e dificultam os investimentos no país, principalmente no cenário de balança comercial negativa na área de energia e de escassez de dólares para pagar as importações. E, no final das contas, temos a Argentina, mais uma vez, polemizando…

[Para uma coletânea de artigos sobre o tema, clique aqui]


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E no Sudão – de novo…

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A tradição das postagens de segunda-feira é comentar sobre eleições, e podíamos discorrer bastante sobre o Sarkozy escondendo seu relógio e seu provável fracasso no segundo turno francês. Mas, como o mundo não pára, estamos com uma crise bastante grave acontecendo em outra parte do mundo. E não são os coreanos do sul e do norte exibindo mais e mais foguetes uns pros outros e se jurando de morte, mas a possibilidade de um conflito entre Estados bastante real. 

Nas últimas semanas, o Sudão e o Sudão do Sul trocaram farpas. O pomo da discórdia é uma região petrolífera na fronteira, Heglig, que está sob disputa: é do Sudão, mas o Sudão do Sul clama ter a posse. O resultado foi uma invasão meio malfadada, que rendeu um monte de bombardeios, a morte de mais de 1200 soldados e a retirada estratégica das tropas do sul. Não houve declaração formal de guerra, mas está se encaminhando pra começar o primeiro conflito entre Estados diferentes na África desde o final da década de 90 – e, salvo engano, um dos poucos dessa natureza que vai estar acontecendo no mundo. 

O grande problema não é a região de Heglig isoladamente – essa situação parece ter sido contornada, apesar do morticínio, já que os EUA e a ONU chegaram para fazer aquela pressão e pedir pro pessoal ir à mesa de negociação. Mesmo a China, que manda e desmanda por aqueles lados, não tem nada a ganhar com um conflito desses. O problema é o resto da fronteira. Ainda há inúmeros campos petrolíferos e cidades que podem virar objeto de disputa, e a possibilidade de um conflito generalizado (que, muito provavelmente pode se espalhar pra países vizinhos, seja pela participação direta – mandando tropas – seja indireta – recebendo refugiados, por exemplo) é muito grande. 

Temos um país criado recentemente, com um governo instável, e que está com o brio ferido por essa derrota. Por outro, um país que sofreu uma fratura territorial enorme, grande instabilidade interna, que corre o risco de perder áreas economicamente importantes, e com um histórico nada pacífico. Ao contrário das Coreias, que estão no discurso ainda, os Sudões já foram às vias de fato, e a possibilidade de conflito não é apenas enorme, como apenas uma questão de tempo para que ocorra de fato, infelizmente. Se as negociações vingarem e a coisa esfriar, vai ser uma surpresa muito grata. 

É triste ver como um caso bonito como o do Sudão do Sul (criado por referendo, uma autêntica demonstração de autodeterminação de um povo), que trazia tantas esperanças para resolver uma das crises humanitárias mais terríveis da história, esteja descambando para a guerra. Onde foi o erro, na delimitação das fronteiras? Era tão inevitável assim a possibilidade de conflito? Ou seria a mera presença do “excremento do diabo”, o petróleo, que a tudo corrompe? A esperança é a última que morre, mas no Sudão ela parece amordaçada.


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Bósnia, 20 anos depois: uma guerra inacabada? [Parte 3]

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[Este é o post que encerra a série sobre a Guerra da Bósnia aqui na Página Internacional. Para compreender a sequência, acesse os textos anteriores aqui e aqui.] 

A Bósnia é uma ideia…

 
 
 
 
 
 

O título do post remete à seguinte citação de Alija Izetbegovic, o primeiro presidente da Bósnia independente e importante articulador dos Acordos de Paz de 2005: “What we call Bosnia is not only a piece of Earth in the Balkans. For many of us, Bosnia is an idea. It is the belief that the people of different religions, nations and cultural traditions can live together”.

De fato, a Bósnia representa – ainda hoje – uma ideia, ou talvez mesmo um ideal. Um ideal de convivência e de respeito ao multiculturalismo, à multireligiosidade. Contudo, o final da guerra parece não ter sido acompanhado do começo de uma nova era em que todas as partes envolvidas se encontrem em busca desse ideal. Apesar da reconstrução física quase completa de Sarajevo (foto), os esforços de reconciliação e reconstrução pessoal ainda são essenciais. Por lá, hoje, a guerra não se vê, mas se sente… [Interessante testemunho em francês intitulado “Dans les esprits, la guerre n’est pas terminée” disponível aqui.] 

A fragilidade política interna entre a Federação Bósnia-Herzegovina e a República Sprska ainda existe no país, mas a apresentação de uma possível candidatura à entrada na União Europeia é um objetivo comum e, de certa forma, “unificador”. O governo promete mesmo apresentar sua candidatura ao ingresso ainda em junho deste ano… 

Entretanto, mesmo que o reforço à estabilidade e à prosperidade nos Bálcãs seja um dos objetivos do bloco – ao qual a Croácia ingressará no próximo ano e para o qual Macedônia, Sérvia, e Montenegro já postularam ingresso – a visão da Bósnia como país-membro ainda se encontra relativamente distante da realidade. Os desafios internos de luta contra o desemprego, a pobreza e o clientelismo político são ainda enormes e o próprio entendimento por parte da sociedade civil do significado de fazer parte da União Europeia tem que ser construído. 

Este clima nacional de “mudanças e permanências” demonstra, finalmente, a complexidade e as incertezas que envolvem o processo de desenvolvimento da Bósnia em um período pós-guerra ainda tão recente. Refletir sobre as perspectivas de um futuro próspero para este país tão rico em cultura e diversidade significa ter esperança de que as divergências sejam valorizadas (e não mais desprezadas) na busca por melhores condições de vida a todos os bósnios – sejam estes de origem sérvia, croata ou muçulmana. 

O ideal bósnio precisa, de fato, se converter em prática. 

[Duas indicações de filmes interessantes sobre o tema: o premiado e chocante “No man’s land” (realmente recomendado!) e o recente “In the land of blood and honey”, produzido por Angelina Jolie.] 


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Esconda o seu cachorro

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Quando você pensava já ter visto de tudo, um tema incomum aparece em uma agenda eleitoral. Não na de um país qualquer. Trata-se simplesmente de uma das pautas recentes das eleições dos Estados Unidos.

Mitt Romney, provável candidato republicano nas eleições presidenciais, e Barack Obama travam um debate curioso. Há cerca de três meses, surgiu a informação que Romney havia viajado de Boston até o Canadá com o cachorro da família dentro de sua casinha no teto do carro. O contra-ataque tardou, mas não falhou. Os republicanos trouxeram uma informação retirada de um livro de memórias de Obama, no qual o atual presidente afirma ter sido apresentado a uma culinária exótica quando criança, enquanto vivia na Indonésia. Entre os itens do cardápio, lá estava a carne de cachorro.

O debate tomou contornos sérios. Tudo a partir de uma provocação dos democratas, baseada em uma foto de Obama no carro oficial da Casa Branca junto a seu cachorro. A tentativa era traçar um contraste entre a forma do presidente de tratar o animal de estimação em relação à de Romney. Já os republicanos, tentam comparar o governador Romney viajando com o cachorro no teto do carro com a criança Barack Obama sendo apresentada a carne de cachorro. Lembrando que este hábito não é de todo incomum a parte da população da Indonésia. Desta forma, deu-se inicio a campanha “Cachorros contra Romney”. Porém, não foi somente esta. Há também a “Cachorros contra Obama” e a “Receitas com carne de cachorro do Obama”.

Isto tudo em meio a assuntos, digamos, mais importantes. Bom, mas quem se importa com a economia, a criação de empregos e a política externa. Pelo jeito é mais importante escolher um presidente que ame o melhor amigo do homem, ou não. Ao menos o novo tema nas eleições traz uma certa descontração. E aí, quem você escolheria? O que coloca o cachorro da família no teto do carro e sai para a estrada? Ou o presidente que já comeu carne de cachorro? Bom, em ambos os casos, acredito que seja melhor todos os norte-americanos esconderem seus cachorros. Nunca se sabe. 

 


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"Change" ou "Changement"?

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Está mais pra changement do que para change. Vou explicar. Faltam poucos dias para o primeiro turno das eleições presidenciais francesas e o candidato do Partido Socialista, Francois Hollande, está liderando as pesquisas de intenções de votos contra o atual presidente, Nicolas Sarkozy. Já nos EUA, depois de Mitt Romney ser oficializado como o republicano que disputará as eleições em Novembro, o atual presidente, Barack Obama, está liderando as prévias. Ou seja, a mudança está mais para o caso francês do que para o norte-americano, por isso a pergunta feita anteriormente. 

Há tempos que Sarkozy vem perdendo voz na França. Quando iniciou seu quarto ano de mandato, em 2011, registrou os índices mais baixos de popularidade de um chefe de Estado francês, estando na casa dos 28%. Ao contrário, Hollande tomou “corpo de político” e fortaleceu a base aliada para fazer frente ao atual presidente. O cenário tornou-se propício para uma mudança de governo: tensão política francesa, queda do poder carismático do líder, crise econômica na Europa… Existem indícios de que, em um segundo turno, Hollande massacraria Sarkozy. Alta probabilidade de changement

As prévias eleitorais norte-americanas também vinham sendo feitas há tempos para ver quem seria o rival do Obama. Sempre a mesma história: inúmeros políticos aparecendo na televisão, realizando discurso e toda população acenando com bandeirinhas atrás do palanque. É quase tão chato quanto a propaganda eleitoral no Brasil, mas vamos ao que interessa. Foi deste modo que o republicano Romney oficializou-se como candidato e, mesmo que as eleições estejam datadas somente para o final do ano, vem ganhando considerável paridade com o atual presidente. Ainda é cedo para afirmar algo e dois pontos serão centrais para os resultados: Obama deve se apoiar novamente no desastre que foi o governo Bush e Romney provavelmente pegará as promessas não cumpridas do “Yes, we can!” para angariar votos. Baixa probabilidade de change

Dois casos distintos, mas duas faces da mesma moeda. Sarkozy já mostrou que teve um governo fraco e Obama não evidenciou tudo aquilo que disse em sua campanha eleitoral. Mudanças lá e, talvez, mudanças futuras aqui.


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Conversando com a Teoria

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Estamos chegando a um momento importante de nossa coluna. Nos últimos tempos, estivemos trabalhando com as vertentes mais debatidas nos anos 80 e 90, o chamado debate neo-neo, e com a adição do neomarxismo, completamos as principais vertentes do mainstream das Relações Internacionais nas últimas décadas. O estudo de caso de hoje é bastante importante nesse sentido, já que é um assunto que já foi tratado sob o enfoque das outras teorias. 

Relembrando, para os neoliberais, a crise atual do continente europeu seria mais um reflexo do seu processo de interdependência, enquanto para os neo-realistas reflete padrões de poder regional, com a prevalência de cálculos políticos sobre os econômicos e interesses internos sobre os institucionais. E o neomarxismo? 

A vertente que cai como uma luva para essa análise é o sistema-mundo. Vejam como se configura o quadro da crise europeia: tudo começa com a importação de uma crise externa (a dos bancos dos EUA), passando pelo desequilíbrio fiscal dos PIIGS, a esquizofrenia dos bancos nacionais e a perspectiva tenebrosa de um fim melancólico para o bloco mais exitoso da história. Todos esses elementos possuem uma explicação sob a ótica da polarização econômica, política e social proposta por esses autores que trabalhamos nas últimas semanas. A dinâmica entre Europa e Estados Unidos, que estremeceu as bases, mostra como mesmo entre as regiões centrais do sistema internacional podem existir atritos e pressões (ou “infecções”…) quando entra em jogo a economia. Isso era de se esperar, mas quando vemos a situação interna da Europa que a coisa fica feia: vemos ao vivo a formação (ou melhor, degradação…) de áreas de Estados semi-periféricos, como a Grécia (que no momento está inserida numa área central, mas apresenta características de periferia).

Aliás, o exemplo grego seria emblemático da perversidade desse sistema: má administração interna à parte, o sistema que havia na Europa dava a impressão de permitir uma melhora ou evolução do Estado grego em termos de poder e economia, mas quando a coisa apertou, esse “vôo da galinha” foi abortado e os vizinhos pouco podem (ou querem) fazer para que essa degradação em semi-periferia ocorra. Com isso, está havendo a geração de bolsões de desigualdade na Europa; não que não existissem, mas agora ainda mais acentuados (basta ver como Alemanha e França estão conseguindo prosperar), que transferem poder e recursos para o centro. Mais ainda, a tendência é que permaneça esse padrão de distribuição irregular. Isso redunda depois em problemas como crises de imigração e acirramento de ânimos, que põem em cheque a própria integração europeia. 

Essa é uma análise breve e que certamente não explora a riqueza de possibilidades ou a profundidade exigida para a questão, mas que mostra como o pensamento neo-marxista, em especial a teoria do sistema-mundo, tem sua valia para um caso contemporâneo. Até a próxima!


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