Mais Rio+20!

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Nesta semana, em Brasília, ocorreram dois eventos de grande importância para as chamadas “relações internacionais locais” do Brasil. A Frente Nacional de Prefeitos (FNP) organizou sua 61ª Reunião Geral em meio ao I Encontro dos Municípios com o Desenvolvimento Sustentável – Pequenos Negócios, Qualidade Ambiental Urbana e Erradicação da Miséria. Neste, foram realizadas inúmeras reuniões sobre os mais diversos temas: fronteiras, desenvolvimento local, ciência, tecnologia, inovação, economia solidária, políticas públicas para a juventude, etc. 

O objetivo central dos encontros foi reunir o máximo de autoridades locais, principalmente prefeitos, assessores e secretários, para discutir as temáticas já citadas acima. Para tanto, o diálogo se deu, também, com a presença de acadêmicos, governadores e ministros de Estado, justamente para criar as bases de uma maior relação entre as esferas municipal, estadual e federal. Dentre todos os debates, destaco, pela importância e proporção do evento, as iniciativas de finalização da organização da Rio+20, a tão comentada Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável que ocorrerá em meados de Junho, destacando-se os dias finais (20, 21 e 22/06) em que estarão presentes diversos chefes de Estado de todo o mundo. 

Tive a oportunidade de participar da Reunião do Fórum Nacional de Secretários e Gestores Municipais de Relações Internacionais (FONARI), no qual foi justamente tema principal a organização da Rio+20. Pelo que pude perceber, evidentemente, a conferência é monstruosa quando comparada a outras. Serão dez dias de eventos centrais e paralelos. Haverá desde encontro de prefeitos em Copacabana até reuniões de estadistas no Complexo Rio Centro, participação de “iniciativas verdes”, como organizações não governamentais e empresas sustentáveis, até shows musicais no chamado “Viradão Cultural”. 

O que ficou bastante claro foi a preocupação em conscientizar políticos e a própria população de que a Rio+20 é um evento nacional de proporções internacionais e não somente da cidade ou do governo do Rio de Janeiro. Estão divulgando o evento até mesmo nas escolas públicas. Tenho a certeza de que boa parte dos brasileiros não tem a mínima ideia do peso desta conferência para nosso país. Será a grande oportunidade de ver se o Brasil está preparado para ter eventos internacionais, bem como de firmar nossos ideais de política externa. “iPor supuesto!” que o tema central é desenvolvimento sustentável, mas tem todo um jogo politico por trás disso. 

Também foi debatida a “Cúpula dos Povos”, organizada pela sociedade civil global e que objetiva apresentar uma visão mais crítica, até mesmo de protesto, em meio à Rio+20. Tem toda uma logística entre a cúpula e os eventos principais, algumas alterações provavelmente serão feitas. Eles esperam um grande público e há preocupações no que tange aos transportes públicos e número de leitos em hotéis, tanto é que entre os dias 20 e 22, salvo engano, será feriado na cidade. 

Enfim, foi uma boa oportunidade de ver toda a preparação da Rio+20, de ver secretários, assessores de Relações Internacionais e pessoas envolvidas com o governo estadual carioca debaterem o impacto da conferência para a cidade, o estado e o Brasil como um todo. Esta interlocução tende a crescer e nossa área só tende a ganhar bons frutos com isso. 

PS1: Algumas destas informações e outros adendos podem ser encontrados no site da Rio+20, disponível aqui

PS2: O ICLEI, associação de Governos Locais para a Sustentabilidade, receberá sua reunião de 2012 na cidade de Belo Horizonte (MG). Será a primeira vez que a América do Sul sediará o Congresso Mundial do ICLEI, o qual estará intimamente ligado à Rio+20 através da Global Town Hall. Para maiores informações, acesse aqui.


Categorias: Brasil, Economia, Meio Ambiente


Conversando com a Teoria

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Continuamos a conversa com o Neomarxismo, agora falando da outra vertente mais relevante, a famosa Teoria da Dependência. Muito conhecida por ser uma teoria fora do “mainstream” da área (leia-se, feita fora do eixo EUA-Reino Unido), já que é principalmente sul-americana, propõe uma opção ao pensamento marxista tradicional e em alguns momentos se aproxima bastante da teorização do sistema-mundo que vimos na semana passada. 

Esqueça luta de classes: existem relações de dominação e subordinação para os teóricos do desenvolvimento, mas elas passam pela relação de atraso econômico dos subdesenvolvidos. Esse atraso é fruto da própria colocação desses países no sistema internacional, e fatores de alocação de recursos e desenvolvimento tecnológico mantinham esse ciclo – o que torna o desenvolvimento desses países praticamente impossível nessa estrutura. 

Uma das principais bases para isso foi a teorização de Raúl Prebisch, que revê a questão das vantagens comparativas lá da época do David Ricardo e chega a uma conclusão trágica: os países que dependem de produtos primários vão estar sempre em desvantagem já que vão precisar exportar cada vez mais dos seus produtos para conseguir a mesma quantidade de manufaturados e produtos de maior valor agregado dos desenvolvidos. Isso, grosso modo, é o que chama de “deterioração dos termos de troca”. 

Esse pensamento mostra que não basta se industrializar (como pregava, por exemplo, o pensamento corrente da CEPAL): é necessário romper com a lógica da subordinação, mesmo que chegue ao extremo de romper com o Capitalismo em si. Claro que havia variações: Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, um dos expoentes mais importantes da Teoria da Dependência, não acreditava que a dominação implicasse necessariamente em subdesenvolvimento, ou que o socialismo fosse a única via possível como alternativa ao Capitalismo. 

Com isso, a Teoria da Dependência ganhou muita força nos anos 60, mas enfrentou descrédito a partir dos anos 70, principalmente por conta das crises econômicas e políticas da região. Porém, ainda hoje resiste, em muito se aproximando dos conceitos estruturalistas da teoria do sistema-mundo e a questão de ciclos históricos de acumulação. 

O neomarxismo é muito rico em variedade (como podemos ver, até mesmo dentro de suas subdivisões), e poderíamos classificar outros autores nessa vertente, mas deixemos para outra oportunidade quando lidarmos com o pensamento mais radical das Relações Internacionais. Por hora, vamos focar em alguns estudos de caso para mostrar a aplicação prática dessa vertente. Até a próxima!


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O ciclo sem fim

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Há 70 anos, na França, partia o primeiro trem lotado de judeus rumo ao campo de concentração de Auschwitz. Era um período de guerra, e a Europa olhava aterrorizada para o avanço dos nazistas e da ideologia antissemita. Hoje, mais de 40 anos depois, ainda pode-se ouvir o ranger dos trilhos desse trem, que ainda manifesta suas tenebrosas assombrações materializadas na forma do antissemitismo na França (clique aqui para uma interessante entrevista sobre isso). Na semana passada já comentamos um pouco sobre isso, quando falamos de um atentado, no qual crianças judias foram brutalmente assassinadas no país. 

Mas ainda assim, uma dúvida corta esse agudo som e parece ecoar em um tom grave muito mais intenso. E essa pergunta é a do quanto o antissemitismo também não motiva a tal da “islamofobia”. Ainda mais em um contexto de “guerra ao terror”, em que se mistura também “terrorismo” com “islã”. A história prova que os árabes e os judeus não tiveram uma relação muito amigável. E mesmo, sabendo que essas duas “fobias” são muito ligadas, os líderes franceses não se mostram muito “ligados” nessa situação. Nicolas Sarkozy é um bom exemplo disso. Desde a política que criminaliza o uso da burca (já bem comentada no blog, aqui e aqui), passando pelas críticas à imigração no país em 2011, e desembocando até seus mais recentes atos após os atentados de Toulouse, ele parece disseminar ainda mais intolerância. 

Ontem mesmo, afirmou que proibiria a entrada na França para o de um dos mais polêmicos líderes xiitas da atualidade, Youssef al-Qaradawi. Por mais complicado que as declarações desse líder possam ser, é  um chefe religioso de renome. Há até quem o compare com o papa por opinar tanto em tantos temas diferentes. Al-Qaradawi atualmente reside no Qatar e tem até passaporte diplomático. Mesmo assim, o governo orientou o ministério do Interior a barrar sua entrada no país, considerando-o “persona non grata”. O presidente francês diz que não existe relação entre esse bloqueio e o atentado de Toulouse. Mas só não vê uma relação quem não quer. Ainda mais em um contexto no qual Sarkoky tem tentado ganhar votos radicalizando sobre o polêmico tema da imigração

O ódio contra os judeus é sim um problema muito disseminado mundo a fora, não tem como negar. O ódio contra o islã é outro. Mas, quando o governo cria políticas que intensificam ainda mais o ódio “a uma das partes” ou “em uma das partes”, é como se criasse um ciclo de vingança. A população vai assimilar ainda mais islã com antissemitismo, e, eventualmente, com imigração (apesar de o presidente dizer o contrário). E, assim, estimulam-se ainda mais radicais islâmicos ou quaisquer outros radicalismos. É um ciclo sem fim.


Categorias: Europa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica


Conselho pra uma região turblenta…

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E no Oriente Médio, as coisas estão fervendo com a crise da Síria, e agora com a briga de Israel com o Conselho de Direitos Humanos da ONU. Só pra explicar, na semana passada o Conselho votou pela condenação da construção de assentamentos na Cisjordânia e Jerusalém ocidental, além do envio de uma equipe para investigar. Claro que o governo de Israel se sentiu ultrajado pela condenação e pela parcialidade do Conselho, e hoje rompeu com a organização, terminando qualquer cooperação que mantivesse e causando aquele estardalhaço de sempre. 

É interessante reparar nesse argumento da parcialidade. Todos sabem que ninguém é santo nessa história, e das 91 resoluções do órgão, 39 foram relativas a Israel, certamente não sem motivo. Mas quando reclamam do órgão ser tendencioso não podemos esquecer do ranço que esse órgão carrega. Isso por que herda uma “herança maldita” do antigo Comitê de Direitos Humanos da ONU (extinto em 2006 e substituído pelo atual Conselho), que já acolheu coisas bizarras como ser presidido pela Líbia. 

 O fato é que, no sistema ONU, a distribuição de cargos e vagas nas organizações meio que obedece a padrões de poder informais que premiam países mais “populares” ou influentes. É assim que notórios violadores de direitos humanos latino-americanos e africanos conseguiram ocupar cadeiras no órgão que velava pela defesa desses mesmos direitos, empacando as coisas. Além disso prevalece uma seletividade de temas, predominando aspectos políticos em vez de técnicos nas discussões e decisões. O caso de Israel é grave? Sim. Mas não deixa de transparecer um certo grau de interesse pela pressão política contra EUA (único que votou contra, diga-se de passagem) e Israel ao escolherem esse tema, enquanto crises mais graves como da Somália ou do Sudão estão aí. 

 Por outro lado, o Conselho é mais atuante que o finado Comitê, e está participando ativamente, por exemplo, do caso sírio. Mas como tudo que vem da ONU, é um órgão sem muito poder de agir pra valer, e no fim das contas, o rompimento não é tão grave assim em um terreno em que impera a retórica e a politicagem em vez da ação concreta. A maioria dos países que se abstiveram da votação justificaram que as investigações seriam apenas repetições de outros mecanismos e não mudariam nada na prática. Segue assim o mal-estar no cenário internacional, o crescente isolamento de Israel, e o drama dos que sofrem nesse jogo de atritos, de ambos os lados.


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Defesa, Direitos Humanos, Estados Unidos, Europa, Organizações Internacionais, Polêmica, Política e Política Externa


Há um ano...

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Desta vez, faremos um pouco diferente do usual. Olharemos não só para o que comentávamos em 2011, mas também passaremos brevemente por 2010.

Começamos pelo ano passado, quando recebemos uma contribuição da leitora Ana Elisa, na qual se discutia a política externa brasileira e a busca por maior protagonismo internacional. Se por um lado o Brasil tentava incursionar pelo Oriente Médio, tanto nas negociações de paz como através da aproximação com o Irã, por outro deixava as relações com países vizinhos em um quadro secundário. Para a leitora, a postura de nossa política exterior deveria ser repensada, focando-se em nossos parceiros mais evidentes.

Logo em seqüência, Ivan trouxe para debate um tema pouco (ou nada) tratado. Uma discussão a portas fechadas sobre a criação de um organismo internacional, nos moldes da OMC, com o objetivo de combater a pirataria em medicamentos, produção industrial, propriedade intelectual, entre outros. A principal crítica levantada pelo colaborador era a maneira que foi escolhida para condução da discussão: portas fechadas, apesar o evidente interesse público. O risco envolvido de invasão de privacidade fazia premente um maior envolvimento de todos na questão. Neste caso, no entanto, a morosidade nas discussões internacionais emperrava uma resolução rápida destas negociações. O texto final do acordo foi elaborado em maio do ano passado, sendo assinado por alguns países já em outubro.

Para finalizar, voltamos um pouco mais no tempo. No dia 22 de março de 2010, em artigo escrito por Álvaro, tratávamos da aprovação do Congresso norte-americano da prometida reforma da saúde no país. É a tal “Obamacare”, tão atacada e criticada pelos candidatos republicanos à presidência. Assim, ficava marcado um dos passos finais para a instauração de um novo sistema de saúde efetivamente público, com preços bem mais baixos que os do setor privado. Idealmente a saúde deixava de ser estritamente um negócio, passando a ser um serviço público que abrangia a maioria dos cidadãos do país. Este tema está sendo revisitado nas primárias do partido republicano, novos capítulos ainda virão.

Seguimos postando e relembrando! 


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Cooperar é bom!

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Está lá nas diretrizes brasileiras de política externa: fomentar o desenvolvimento e promover a cooperação técnica entre países do sul e/ou instituições internacionais. No dicionário, cooperação significa colaboração, prestação de auxílio para um fim comum ou solidariedade. Meu enfoque, aqui, é falar um pouco especificamente sobre a tipologia técnica, mas mesmo assim é importante observar que a cooperação é um modelo de negociação internacional caracterizada pela troca mútua de experiências entre as partes. 

De maneira geral, o objetivo da cooperação é fazer com que todos os atores envolvidos tenham ganhos satisfatórios. A relação mútua e não competitiva entre dois ou mais agentes sociais, políticos ou econômicos – principalmente Estados e organizações internacionais – caracterizam a chamada cooperação internacional. Designadamente, a cooperação técnica internacional (CTI) corresponde à troca de tecnologias, know-how e experiências vindas de um lado mais desenvolvido e direcionadas para outro que apresenta certa deficiência em determinada área. 

No Brasil, o órgão responsável pelas diretrizes da CTI é a Agência Brasileira de Cooperação (ABC). Criada em 1987, seu nascimento teve como objetivo principal aperfeiçoar e coordenar todas as ações de cooperação técnica existentes entre o Brasil, outros países e organismos internacionais. O órgão é vinculado ao Ministério de Relações Exteriores (MRE) e, desde 1996, faz parte de sua Secretaria-Geral. Embora, teoricamente, a CTI possa ser realizada por estados federados, municípios, conselhos federais e organizações não-governamentais, é visível que a ABC é o órgão máximo e tenta centralizar as ações sob sua supervisão. Como disse no começo, acaba por ser uma política de governo e de política externa central.

Resumidamente, a CTI divide-se em duas frentes: horizontal/vertical e bilateral/multilateral. A cooperação horizontal é promovida entre o Brasil e os países em desenvolvimento, a vertical é estabelecida somente entre o Brasil e países mais desenvolvidos. A bilateral, como o próprio nome diz, é realizada entre dois países e a multilateral entre mais de dois países tendo o possível adendo de uma instituição internacional, destacando-se a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). 

Recentemente, sobressaíram as iniciativas de cooperação entre o Brasil e a África. Quênia, Angola, Moçambique e África do Sul são alguns exemplos de sucesso da parceria com nosso país. A CTI ganhou reconhecimento nos últimos tempos e vem sendo um importante instrumento da política externa brasileira. Pode-se dizer que ela é uma das poucas iniciativas que realmente “tornam o mundo um lugar melhor pra se viver”. É um meio termo entre diplomacia e realismo político. 

PS: Algumas destas temáticas tratadas neste texto foram desenvolvidas, com maior aprofundamento, pelo Setor Governamental da Empresa Júnior de Relações Internacionais da UNESP/Franca e estão no Caderno de Estudos Internacionais Aplicados a Localidades (CEIAL). Para ter acesso a esta publicação e saber mais sobre o conteúdo, clique aqui.


Categorias: África, Brasil, Organizações Internacionais


Conversando com a Teoria

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Post do Leitor

[Dando continuidade a nossa análise, hoje teremos um post especial e riquíssimo, de autoria de nosso colega Bruno Hendler, mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e bolsista CAPES, no qual ele abordará a teoria do sistema-mundo e seus autores. Aproveitem!] 

Sistema-mundo e as relações internacionais 

Sistema-mundo moderno de 1500-1775 (BRAUDEL, F. Civilização material, economia e capitalismo. Séculos XV-XVIII: O tempo do mundo. São Paulo, Martins Fontes, 1996. p. 18-19)

A perspectiva teórica dos sistemas-mundo surge com a publicação do livro “The World-System Analysis” de Immanuel Wallerstein, como uma crítica à centralidade do Estado nas ciências sociais. Sua origem está ligada ao surgimento da economia política internacional nos anos 70 e aos questionamentos da época sobre os rumos do sistema internacional frente à crise hegemônica dos EUA durante a Guerra do Vietnã e o fim do padrão ouro-dólar. Assim, autores da teoria da estabilidade hegemônica como Gilpin e Kindleberger, da interdependência complexa como Nye e Keohane e o próprio sistema-mundo de Wallerstein apontavam respostas diferentes para perguntas parecidas. Vamos ficar com o último e ver mais a fundo as bases do sistema-mundo para entender suas respostas. 

Em primeiro lugar, o método de análise dos sistemas-mundo evita o uso de conceitos abstratos para depois buscar exemplos históricos que os comprovem ou refutem. Wallerstein utiliza o método da “comparação incorporada”, ou seja, seus conceitos são construídos à medida que avança na análise da história. Para ele, o sistema social que existe hoje surgiu no fim da Idade Média na Europa Ocidental e se expandiu pelo mundo todo como a soma de um sistema de unidades políticas competitivas e uma divisão internacional do trabalho que supera as fronteiras políticas e funciona sob a lógica do capitalismo. 

Teríamos dois tabuleiros no sistema-mundo moderno, que se afetam mutuamente: a esfera do capitalismo, onde os agentes empresariais buscam lucro e riqueza com aplicações econômicas; e a esfera do sistema interestatal, onde os Estados aplicam recursos de violência em busca de poder. É importante ressaltar que nas duas esferas há uma hierarquia que define o papel dos agentes e faz o sistema oscilar entre a ordem e a anarquia. 

No tabuleiro do capitalismo, também chamado de economia-mundo capitalista, existe uma polarização de riqueza, não apenas entre classes, mas principalmente entre regiões do sistema. Wallerstein se aproxima dos teóricos da dependência ao verificar uma hierarquia na divisão internacional do trabalho entre regiões ou Estados centrais (que se ocupam de tarefas que exigem maior qualificação, aplicação de tecnologia de ponta, agregação de valor a mercadorias e maior acumulação de riqueza) e regiões ou Estados periféricos (que apresentam baixa rentabilidade marginal e transferem para as regiões centrais grande parte do seu excedente de riqueza). Porém, Wallerstein vai mais longe e ainda identifica regiões ou Estados semi-periféricos, onde há uma proporção equilibrada entre atividades que acumulam e transferem valor. 

O tabuleiro do sistema interestatal também tem suas assimetrias, que dependem não apenas dos recursos de poder entre os Estados, mas da função que ocupam na economia-mundo capitalista. Assim, Giovanni Arrighi, outro expoente, percebe ciclos entre governança e caos de acordo com potências hegemônicas. A governança decorre da capacidade da hegemonia em garantir a ordem no tabuleiro político (por meio da hierarquia de poder) e a rigidez no tabuleiro capitalista para manter-se no centro; e o caos sistêmico substitui a governança no momento em que surgem Estados capazes de enfrentar militarmente o poder hegemônico e/ou concorrer e ultrapassá-lo na vanguarda do capitalismo. Em outras palavras, a ascensão e queda de potências. Assim ocorreu com o declínio da hegemonia holandesa frente à ascensão da Inglaterra e da França; e o declínio da hegemonia inglesa frente à ascensão da Alemanha e dos Estados Unidos.

Com isso, a grande interrogação que fica é sobre os rumos do sistema-mundo diante das sucessivas crises nas últimas décadas. Wallerstein sugere o “fim do mundo como o conhecemos”, uma verdadeira ruptura com o padrão histórico do sistema-mundo moderno; já Arrighi sugere uma fissão das capacidades sistêmicas: um novo ciclo econômico estaria surgindo na Ásia, puxado pela China, enquanto que a hierarquia no tabuleiro de poder continuaria a favor dos Estados Unidos por um bom tempo. Façam suas apostas!


Categorias: Conversando com a Teoria, Post do leitor


O toque do novo Midas

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A internet é uma ferramenta fantástica. É capaz de reduzir distâncias, derrubar fronteiras e fornecer informação com uma velocidade impressionante. E, com a mesma força, pode ainda separar mais as pessoas, ampliar muros e substituir o conhecimento pela informação rápida. Como uma nova versão do rei Midas que, ao invés de transformar em ouro tudo o que toca, pode abrir um universo de novas possibilidades a tudo que entra na rede, enquanto também pode provocar a raiz da própria ruína. 

Um interessante exemplo da força desse nosso novo Midas, foi o vídeo produzido pela ONG (clique aqui para conferir) “Invisible Children” que gerou o maior bafafá (virou até matéria do Fantástico). Motivações muito nobres, disseminadas em uma velocidade impressionante e que, da mesma forma, traziam uma visão simples de uma situação extremamente complexa. Se você está lendo esse post hoje, quase duas semanas depois da divulgação do “viral”, provavelmente você já ouviu falar ou até mesmo chorou assistindo-o. 

O vídeo retrata a situação das crianças soldados em Uganda, utilizadas pelo líder da LRA (Exército de Resistência do Senhor), dos abusos do líder do movimento, Joseph Kony e das violações de direitos humanos. Para tentar solucionar o problema, urge todos que assistiram a participar da campanha para tornar Kony famoso e até mesmo contribuir com recursos para a organização. O objetivo seria pressionar os governantes para incluir os problemas de Uganda em sua agenda política e urgi-los a agir. 

A divulgação representa outro exemplo do ciclo “humanitari-ático” que a Bianca citou em seu último post. Da comoção, partir-se-ia para a ação. Mas, logo o nosso Midas virtual sente a frustração de suas habilidades. Se a comoção foi grande, a crítica também veio com a mesma força. As discussões sobre doações logo deram lugar a tentativas da organização de se justificar frente às denúncias de falta de auditoria dos gastos da ONG (clique aqui e aqui para ler as respostas da Invisble Children) e até mesmo de ações públicas, diga-se de passagem, bem estranhas, de um dos diretores e editor do vídeo, Jason Russell. 

Bom, mas será que tornar Kony famoso é o suficiente? 

Alguns afirmam que não. Dentre eles, parte da população que desaprovou o vídeo por ele não ter sido capaz de enfatizar alguns dos mais recentes e importantes problemas do país. Por exemplo, desde 2006 que Kony não se encontra mais em Uganda e a LRA migra entre o Sudão, Sudão do Sul, Congo e outros países da região. Então empreender esforços para capturá-lo seria tão importante quanto atentar para outros problemas mais essenciais do país, como o altíssimo nível de corrupção e as violações de direitos humanos empreendidas pelo próprio governo de Yoweri Museveni (que já caminha para seu 26º ano)? Será que empreendimentos militares seriam interessantes ou causariam as mesmas discussões que existem hoje a respeito da Síria? 

É tão difícil ditar o melhor caminho, quanto é fácil simplesmente atribuir juízo de valor às ações da “Invisible Children”. Como na história do rei Midas, ele precisou começar tocar as coisas para perceber as reais dificuldades de viver daquela forma. E com o campo da internet e das ONGs talvez funcione da mesma forma. Pelas críticas e diálogo, o novo Midas possa estar encontrando a sua água, aquilo que trará novos caminhos para ação e revelará os problemas dos anteriores.

[Para alguns artigos interessantes sobre o tema clique aqui, aqui]


Categorias: Assistência Humanitária, Defesa, Direitos Humanos, Polêmica


Mas de novo??

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Como coincidência pouca é bobagem, pela segunda semana seguida vamos falar de um atirador maluco. Mas agora, em vez de um militar americano estressado fuzilando aldeões afegãos, temos um maluco francês matando quatro pessoas em uma escola judaica em Toulouse, e que pelo visto está envolvido em ataques similares na semana passada. Isso não é novidade aqui no blog, como mostra o caso daquele norueguês doido do ano passado. O problema é que dessa vez não se sabe nada sobre o atirador, que ainda está à solta, e sabe-se lá com qual alvo em mente agora. 

No caso da semana passada, tínhamos um militar sob stress, o que não justifica o que fez, mas serve de explicação (minimamente). Agora, um caso como o dessa manhã, em que não se sabe nada sobre o criminoso (e mesmo seus alvos foram bem variados, supondo que tenha sido o mesmo atirador, diga-se de passagem), o único fio condutor que podemos pensar pra chegar a alguma conclusão, fora a probabilidade lamentável de crimes de ódio, é a questão de porte de armas. Isso foi levantado no massacre da escola de Realengo, do atirador na Noruega, e em tantos outros casos assim nos EUA. Se um militar, alguém que tem porte de armas, faz algo assim, é uma fatalidade. Mas, um cidadão comum, que obtém essa arma legalmente ou não… poderia ter sido evitado? Um controle mais efetivo (ou proibição mesmo) poderiam ter salvado essas vidas? Fica a dúvida. 

Ironicamente, um relatório do SIPRI (Stockholm Inernational Peace Research Institute) lançado hoje também mostrou que aumentou o comércio de armas pelo mundo nos últimos cinco anos, puxado por países asiáticos e pela “Primavera Árabe”. Muito disso é inflacionado por compras de coisas mais caras como tanques e aviões, mas é claro que isso inclui armas leves. E são dessas armas adquiridas legalmente que vêm os desvios, o tráfico e a aquisição de armas ilegais, que muitas vezes são aproveitadas nesse tipo de crime. Repito, ainda é preciso investigar pra entender os motivos, saber quem fez e estabelecer qualquer tipo de relação do que aconteceu na França com essa questão de armas ilegais… mas dá o que pensar, e não deixa de ser um prognóstico muito ruim. Se não por conta de possíveis atiradores malucos, pelas quadrilhas, milícias e forças militares que venham a usar essas armas – e causar a morte de muito mais que 3 crianças e um professor. 

Enquanto isso, a França, assim como a Bélgica na semana passada, fica de luto pelas crianças inocentes.


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Um novo capítulo de uma obscura história

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Talvez um dos capítulos mais perversos da história possa ser ligeiramente retificado. A Igreja Católica, baseada no Vaticano, escolheu um posicionamento oficial de neutralidade frente às inúmeras violações ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial. Tal escolha desencadeou uma série de críticas, na medida em que a instituição era uma das únicas capazes de fazer-se ouvir naquele contexto. Contudo, não o fez.

Em censo realizado em 1925, descobriu-se que a população católica na Alemanha chegava a 21 milhões, cerca de um terço da população do país. Apesar do regime nazista, a princípio, parecer tolerar a autonomia das organizações religiosas católicas, logo ficou evidente que estas só manteriam certa liberdade caso se alinhassem aos objetivos traçados pelos nazistas. Um acordo entre as partes consubstanciou a coexistência entre a prática da fé católica e o governo sob o comando nazista.

Apesar da divulgação de uma encíclica, uma espécie de carta elaborada pelo Vaticano, lida em todas as igrejas da Alemanha em 1937, poucas foram as manifestações oficiais em referência ao que ocorria no período. A encíclica destacou o cerceamento da liberdade e as inúmeras prisões nos quatro anos anteriores. Foi uma crítica aberta ao regime, a qual ensejou diversas represálias e perseguições. O documento representou um contraponto à concordata, uma ação perspicaz e coordenada para criticar a ação de Hitler na Alemanha.

Para historiadores, a morte do Papa Pio XI possibilitou o abrandamento da posição do Vaticano. O documento escrito pelo sumo pontífice no seu leito de morte, conhecido com “a encíclica escondida de Pio XI”, poderia trazer novos elementos para corroborar a tese de que a política de confrontação teria sido sustentada. Seu sucessor Pio XII, por outro lado, poucos indícios têm a seu favor. Para a história, ficou marcado com uma figura omissa frente às violações e conivente com o rumo política traçado por regimes totalitários daqueles tempos.

Por enquanto, a Igreja Católicaainda silenciou diante das atrocidades nazistas. Como opção própria, escolheu preservar-se como instituição através de um acordo formal com Hitler. Não fica claro se a posterior encíclica contrária ao regime representa de fato uma resposta moral (pautada nas violações em si) ou política (baseada nas violações ao estabelecido na concordata). No entanto, o silêncio de Pio XII ainda segue inexplicável. A abertura de novos documentos no Vaticano podem nos ajudar a emendar a história ou simplesmente fortalecer as teses atuais. 


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