Mais uma vez, Malvinas.

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A disputa pelas Malvinas já chegou até as barras de endereço dos sites de notícias ingleses

As Malvinas são argentinas. As Malvinas não são argentinas. Essas são duas frases que temos ouvido muito nos últimos trinta anos. Normalmente, uma muito próxima da outra e proferidas por pólos opostos. Ainda hoje, essas ilhas são um tema importantíssimo na política do país. Pode-se dizer que, em certa medida, foram determinantes para o fim da ditadura militar. No início dos anos 70 já se desenvolvia um pequeno processo entre os políticos para uma transição para a democracia mais controlada pelos militares. Mas a guerra, a última tentativa do regime se segurar acabou mexendo muito com o moral da população e levando a quebra de todo apoio.

O regime militar acabou. A guerra das Malvinas também. A questão, todavia, perdura. Por quê? Será que de fato Cristina Kirchner e a trupe de sua diplomacia têm alguma esperança de que o governo britânico irá abdicar às ilhas? Se entendem isso ou não, é difícil dizer. Mas que acreditam na importância do tema para o país e para seus eleitores, não há dúvida alguma. É um daqueles temas, como educação no Brasil, que todo político tem a obrigação de tratar. E, por isso, nunca passa despercebido.

Próximo do aniversário de 30 anos da guerra, estamos vendo uma tensão diplomática entre a Grã-Bretanha e a Argentina. Observa-se um lado falando, o outro retrucando e, pela primeira vez, a ONU dizendo que vai mediar. Sim, isso mesmo. É a primeira vez que um governo argentino aceita a mediação das Nações Unidas para tentar atingir um acordo nesse tema. Essa tensão toda se intensificou quando Kirchner acusou a Grã-Bretanha de militarização da região, pois houve um exercício militar que chegou a envolver até mesmo o príncipe William. Depois, na Assembleia da ONU, a Argentina até mesmo acusou os ingleses de terem armas nucleares na região. Cameron e sua diplomacia negavam tudo e ainda complementavam que não há acordo sobre a soberania das Malvinas.

Todavia, o aceite de uma atuação da ONU na questão pode apontar para uma mudança de postura. Como já disse, é a primeira vez, em trinta anos, que isso ocorre. Por outro lado, é difícil vislumbrar no curto prazo uma resolução da disputa, já que ambos os lados colocam-se de maneira pouco flexível e, para os ingleses, não existe negociação. Da mesma forma, pode até ser que os argentinos estejam buscando alguém mais forte para legitimarem sua posição, nesse caso, a ONU. Além do que a atuação do órgão em tensões desse tipo nem sempre atingiu bons resultados na história, mas já é interessante o passar de “apontar os dedos” para uma possível negociação (note-se que, por enquanto, só dos argentinos). O mais interessante é notar a postura dos moradores da região das Malvinas, os kelpers. De origem inglesa, quase não há quem se identifique com a Argentina e, para eles, também não há o que negociar. Preocupam-se com os ganhos econômicos e agora temem um isolacionismo que possa vir do apoio do Mercosul à causa argentina (tema já tratado no blog anteriormente, confira aqui).

A raíz histórica da disputa das Malvinas já vem do século XIX. Há quem diga que os ingleses estiveram lá primeiro, há quem defenda que os argentinos estavam lá antes e há também os que dizem que a Inglaterra rompeu tratados internacionais para ocupar a região (clique aqui para ver essas posturas interessantes). Seja lá quem está correto de verdade, até que essa dita mediação da ONU ocorra, continuaremos a ouvir muito as frases “Malvinas são argentinas!” e “as Malvinas não são argentinas!”.


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Alguém quer damascos?

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Uma onda de protestos, mortes e insatisfação social tomou conta da Síria, país árabe situado na chamada “Ásia ocidental”, desde março de 2011 e, de lá pra cá, sua capital, Damasco, começou a retratar uma série de implicações características do atual cenário internacional. Se meses atrás o centro das atenções era a Grécia e/ou o Egito, sem dúvidas a Síria tomou seus postos nos noticiários.

De uma maneira ou de outra, vejamos quais são as implicações causadas por conflitos internos nas relações internacionais, utilizando, para tanto, o caso sírio. Este é bastante singular e central, pois coloca em questão diversos pontos que devem ser debatidos e indagados:

a) Oriente Médio: continua a se mostrar como uma das regiões, ou talvez a principal região, mais conflituosas do mundo. De um lado estão Irã, Síria, Rússia e China. De outro aparecem Israel e Estados Unidos. Nem preciso me estender no debate, é digno de contraste e oposição;

b) Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU): Rússia e China vetaram a resolução contrária ao presidente sírio, Bashar al-Assad, e colocaram mais dúvidas ainda sobre a política dos “cinco grandes” da organização. É claro que ambos os países seguiram suas linhas de política externa, mas a pergunta que voltou com total força foi: “Já passou da hora de haver uma mudança nos membros permanentes e no modo de resolução de litígios do CSNU, não?”;

c) Liga Árabe: antes da Primavera pouco se falava nesta organização. Ela vem demonstrando o quão importante é a atuação de vários países por meio de um órgão único que leva ao debate os ideais envolvidos. A liga mostra-se contrária ao governo sírio e vem dialogando constantemente com as Nações Unidas;

d) Democracia: a Síria simboliza, do mesmo modo que o Egito, a força dos movimentos favoráveis à democracia, mas também evidencia a complexidade de se chegar, de fato, a um “governo do povo”. Parece que ainda existirá um longo caminho para isso, porque este regime representa muito mais do que reivindicações sociais;

e) Sanções: não se sabe ao certo se os bloqueios comerciais e a suspensão de exportações colocarão fim à problemática interna do país. Tais ações são mais recorrentes por parte dos Estados Unidos, o qual, em tempos passados, utilizou-as contra os iranianos, norte-coreanos e os próprios sírios. Mês passado, foi a vez da União Europeia aprovar sanções ao governo de Assad, mas, mesmo assim, Bruxelas, sede da Comissão e do Conselho europeus, aposta na via diplomática e no diálogo para pôr fim a esta questão.

Estas são apenas algumas constatações que podem ser pensadas em meio à repercussão causada, ultimamente, pela Primavera Árabe. É interessante observar, através deste viés, como uma desordem interna pode servir de base para se analisar inúmeras problemáticas internacionais. Com certeza alguém quer Túnis, Cairo, Trípoli e Damasco. A região interessa a todos.


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Elefantes na sala

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Nos dizeres populares, quanto se quer falar que há um problema enorme pelo qual passamos despercebidos, diz-se que há elefantes na sala. Algo tão grande que não teria como não se reparar, mas por razões quaisquer que sejam, impede-se de vê-lo ou simplesmente o ignora. Pensando sobre isso que li um recente editorial para a Folha de S. Paulo no qual Clovis Rossi disse que a Grécia tem vivido sobre uma ditadura. O país estaria sob um governo central composto pelo FMI, pela União Europeia e pelo Banco Central Europeu que estaria limitando a escolha da população. A cada dia esses “ditadores” forçariam a Grécia a adotar mais medidas que envolviam cortes de gastos (como ocorreu na essa semana), já que não lhe apresentam nenhuma outra solução. Papandreou caiu e logo veio esse “governo central” para substituí-lo por um tecnocrata de sua escolha, Lucas Papademos, sem que houvesse sequer eleições diretas.  

Será que de fato a Grécia estaria vivendo sob essa ditadura? Bom, ditadura é sempre um termo muito forte para se usar. Mas, por outro lado, é um termo interessante, pois revela a indignação e busca chocar. Talvez, o que a Grécia, ou melhor, a União Europeia, tenha vivido é com elefantes na sala. Elefantes tão grandes que somente pela “doutrina absoluta do mercado”, da austeridade, do corte de gastos é que os países poderiam passar despercebidos. Basta lembrar as opções quase nulas que os organismos internacionais forneceram para o Brasil na década de 1980 e 1990 e para os países latino-americanos em suas inflações desenfreadas no mesmo período. 

Há muito louvamos a União Europeia como o maior exemplo da integração regional, aquele que atingiu o último estágio, o do Mercado Comum com moeda única. Todavia, é difícil ver em que medida os países do bloco estão dispostos a agir coletivamente e aceitar os custos das crises pelas quais o bloco passa. Paul Krugman mostrou que de fato a Grécia passou por uma gastança pública sem limites. Com os demais “porcalhões”, nossos PIIGS (Portugal, Espanha, Irlanda e Itália), houve uma gastança aliada a problemas estruturais grandes (clique aqui para conferir). Há também os efeitos da crise financeira mundial (clique aqui para um artigo interessante sobre o assunto) que tem ainda complicado mais o conjunto europeu, sem que haja uma ação conjunta de fato. Os elefantes na sala seriam os problemas que emergiriam da falta de ação conjunta do bloco. 

A Alemanha, a maior economia europeia, é o maior exemplo desse posicionamento. Quer, como todos, utilizar-se da melhor forma possível dos benefícios que a união político-econômica proporciona, mas não parece disposta a aceitar os problemas conjuntos insistindo apenas no corte de gastos dos demais. É um bloco que não age sempre como bloco. Pode-se dizer que há entre os alemães uma espécie de nacionalismo econômico que tem levado a uma visão (tanto na mídia europeia quanto no plano político) sempre pela austeridade, culpando os “gastadores” pela crise e louvando a austeridade, quando há muitos outros problemas por trás. 

Há uma ditadura? Talvez não, pois de fato não restam opções agora para a Grécia. Há, contudo, uma lição. Se a Europa continuar a viver com seus elefantes na sala, ignorando a ação conjunta e limitando as perdas aos países que considera os focos de crise, o bloco poderá não se sustentar. Os elefantes vão começar a se mexer e aí a coisa pode complicar ainda mais…

[Para mais, clique aqui, aqui e aqui]


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Os homens da bomba

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Atacar uma embaixada é uma das coisas mais baixas que se pode fazer quando pensamos em Direito Internacional. Afinal, imunidade diplomática é tradição que vem lá do início da formação do Estado moderno, em que os governantes precisavam começar a criar laços de confianças sem que seus emissários voltassem cheios de flechas nas costas (quando voltavam). Isso vale até hoje e não é definido por nenhuma regulamentação específica, mas um costume. Isso por mais estranho que seja – eu e mais dois colaboradores desse mesmo blog lembramos bem da vez em que um carro de placa azul passou a um palmo de nós atravessando uma avenida (e sem se preocupar muito com o resultado, pelo visto).


E eis que as embaixadas de Israel na Índia e na Geórgia foram alvo de bombas (apesar de só uma ter explodido). Como sempre acontece aquele déjà vu, pra variar o Irã está envolvido. Israel acusa o Irã de ter patrocinado os ataques. O Irã rebate… dizendo que foi Israel. Eu não duvido de nada – ainda sustento aquela minha teoria da conspiração de que Israel soltou presos do Hamas pra que voltassem a atacar e justificar uma ação mais dura. Ao mesmo tempo, o Irã já tem precedentes com aquele vandalismo na embaixada do Reino Unido. Mas seja quem for que ordenou isso escolheu uns capangas bem atrapalhados. A ação até pareceu coisa de filme de James Bond (com suspeitos grudando um “dispositivo magnético” com a bomba em um dos casos), mas o fato de uma bomba ter sido desarmada e de no outro terem visto claramente quem as colocou significa que os terroristas foram bastante descuidados… ou queriam ser vistos? Como nesse tipo de ataque o que pesa mais é a repercussão que o dano em si, acho que poder causar esse tipo de especulação já pode ser considerado um sucesso pra eles.


Aliás, esse negócio de atacar missão diplomática não está dando certo faz algum tempo – basta lembrar aquela história do ataque planejado ao embaixador saudita dos EUA em que tentaram contratar traficantes mexicanos pra executar o serviço e acabaram encontrando um agente do FBI disfarçado (e no fim das contas o caso caiu no esquecimento…). Ou aquela história meio mal-contada dos ataques a embaixadas na Síria (que assim como o caso das embaixadas de Israel, não se sabe ainda quem foi, seja vândalos ou forças do governo, que instigou isso). Mas parece que esses últimos anos deram início a uma tendência nada saudável na relação entre alguns países.


No fim das contas, os panos quentes entram em cena, e a intenção provavelmente é chantagear ou intimidar o outro lado. A não ser que seja uma matança muito escandalosa ou em escala suficiente pra causar uma guerra, quem está envolvido não vai correr o risco de perder um dos meios mais eficientes (e, muitas vezes, derradeiro) de negociar com os demais Estados, e o dano fica mesmo pra quem acaba vitimado por esses atentados. Nesse jogo, perde quem não tem nada a ver com isso.


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Há um ano...

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Há um ano, o assunto mais comentado no blog (e na mídia em geral) era a ascensão da “Primavera Árabe”, especialmente na Tunísia e no Egito. O dia 11 de fevereiro se tornou um marco internacional com a queda de Mubarak, responsável por décadas de ditadura egípcia, e com o sucesso dos movimentos populares de contestação no país. Um ar de esperança dominava o ambiente internacional e amplas eram as expectativas de renovação.

Neste ano que se passou, contudo, a euforia tem cedido lugar à frustração dos cidadãos, na medida em que a queda de Mubarak não proporcionou também a (esperada) queda dos dois pilares de seu regime: a forte repressão do Estado e o sistema econômico injusto, segundo uma professora de Ciências Políticas na Universidade Americana do Cairo. A data foi comemorada esse ano como um “aniversário sem revolução”, enquanto a forte corrupção e os conflitos políticos assolam o país em meio à (já não tão eufórica) esperança popular por mudanças.

Um ano atrás, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) também lançava seu conhecido relatório Food Outlook, no qual uma grave crise alimentar era anunciada para 2011. De fato, as (tristes) expectativas se cumpriram e o último ano foi marcado por uma situação alarmante no Chifre da África, especialmente na Somália. Devido às secas prolongadas, a crise de fome tem afetado mais de 11 milhões de pessoas nessa região, desafiando as iniciativas das Organizações Internacionais e Não-Governamentais. No início deste mês, foi anunciado pela ONU o fim do “estado de fome” na Somália, mas um terço da população ainda necessita de ajuda urgente e contínua da comunidade internacional.

Enquanto em 2011 nesta época comentávamos ainda sobre as expectativas em relação ao encontro diplomático de Dilma Rousseff com Barack Obama e o reforço das relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos, há poucos dias comentamos aqui no blog sobre outra viagem diplomática da presidente. Neste ano de 2012, a presidente foi a Cuba, demonstrando a diversificação diplomática do governo e o reforço para a construção de uma agenda cada vez mais multilateral. Novo ano, novas perspectivas?

Por fim, um último importante fato comparativo entre 2011 e 2012 merece atenção: o Conselho de Segurança da ONU e seu polêmico e persistente sistema de veto. Há um ano, os Estados Unidos assumiram seu apoio a Israel e vetaram – contra o posicionamento geral – o projeto de resolução que condenava a política israelense de construção de assentamentos nos territórios palestinos ocupados. Neste ano, mais uma vez o veto foi utilizado em situação polêmica – e também contra o posicionamento geral, especialmente estadunidense – só que desta vez por China e Rússia. Aliadas da Síria, estas potências demonstraram-se, por sua vez, contrárias à resolução que indicava a necessidade de renúncia de Bashar al-Assad.

Ambos os vetos foram justificados como “ingerência nos afazeres internos”, mas ambas as situações demonstram claramente que este argumento só é acionado quando se encontra em consonância com os interesses envolvidos. Situação previsível, apesar de demonstrar uma das mais claras fraquezas de nosso sistema internacional contemporâneo. Passa ano, entra ano e, afinal, existem coisas que parecem não mudar nunca…


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Congelando

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Enquanto o Brasil vive o auge do verão, com sol e calor às vésperas do Carnaval, no Velho Continente a situação é absolutamente contrária. Um dos mais rigorosos invernos dos últimos tempos é vivido na Europa este ano e as consequências práticas deste fato alcançam níveis alarmantes.

“Morrer de frio” deixou de ser uma expressão retórica para se tornar uma preocupante realidade neste inverno europeu. Mais de 600 mortes (!) já foram registradas em toda a Europa (especialmente na Ucrânia) devido às nevascas desde meados de janeiro. E este número continua aumentando exponencialmente a cada dia, já que é enorme a quantidade de pessoas em situação vulnerável – notadamente os moradores de rua – e as medidas sociais de urgência para protegê-las avança em ritmo mais lento que a queda de temperatura…

Além do grande desafio social, ainda existem consequências econômicas importantes advindas do frio extremo: vias marítimas, rodoviárias e ferroviárias se tornam intransitáveis; safras agrícolas apodrecem antes de chegarem a seus destinos; cidades e até mesmo países (caso da Sérvia) são isolados, etc. [Na foto, vê-se uma pessoa passeando com seus cachorros sobre o Rio Danúbio, um dos mais importantes canais europeus – totalmente congelado!] Muitas vezes, estas consequências ultrapassam o nível local e alcançam os âmbitos nacional e internacional, influenciando o comportamento dos demais atores devido a características naturais imprevisíveis e/ou incontornáveis.

Diante desta situação de “estado de emergência” decretada em vários países, estudos concluem que a intensidade deste inverno está diretamente relacionada à evolução do aquecimento global. Compreender em que medida a diminuição do gelo no Ártico influencia o frio europeu parece ser um grande desafio para geólogos e especialistas nesta área. Compreender de que forma a comunidade internacional vai se preparar daqui pra frente para enfrentar esta situação e buscar alternativas à sua intensificação é tarefa para todos nós.


Categorias: Europa, Meio Ambiente


As FARC, a Colômbia e um problema sem fim…

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[Pessoal, este é o primeiro post oficial do nosso novo colaborador, Cairo Junqueira! Porém, por motivos técnicos, hoje postaremos em seu lugar. Confiram esse polêmico debate!]


Tensas relações, falta de diálogo e inquietação social são velhas preocupações vividas pelos colombianos em relação às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Embora a grande mídia não tenha divulgado muitas notícias recentes sobre estes fatos, o grupo continua agindo constantemente no território e coloca em questão a eficiência das políticas adotadas pelos últimos governos acerca da segurança nacional.


Num primeiro momento, é importante dizer que a Colômbia é, e sempre foi, um país de contrastes. Durante as últimas décadas, tem apresentado os maiores índices de violência da região sul-americana, mas detém forte estabilidade econômica e política, haja vista que é a quarta economia da América Latina, estando atrás somente do Brasil, da Argentina e do México, e possui dois grandes partidos políticos que dominam o cenário nacional: o Liberal e o Conservador.

As FARC surgiram na década de 1960, mais precisamente em 1964, período em que também nasceram outras organizações contrárias à Frente Nacional (FN), a qual representava a alternância de poder dos dois partidos mencionados acima. Além das FARC, o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o M-19 tinham como objetivo a oposição ao Estado colombiano. Posteriormente, a década de 1980 representou a mais convulsionada do país devido à irrupção do narcotráfico e, a partir de 1990, uma série de medidas governamentais tentou colocar fim ao chamado “caos social” colombiano.

Os presidentes César Gaviria (1990-1994) e Ernesto Pizano (1994-1998) apostaram na resolução pacífica com as guerrilhas, mas fracassaram. Consequentemente, começaram a surgir as organizações paramilitares, as quais são associações civis, armadas e sem vínculo com as forças militares nacionais. Com Andrés Pastrana (1998-2002), a experiência de desmilitarização também falhou e coube ao seu sucessor, Álvaro Uribe (2002-2010), a tentativa de minimizar os problemas do país.

Mesmo assim, no governo de Pastrana foi colocado em prática o Plano Colômbia, componente exclusivo para a luta contra o narcotráfico e os grupos armados. Baseando-se em inversão social, desenvolvimento alternativo e fortalecimento militar, o governo tinha como objetivo reduzir a produção de cocaína no país, mesmo que, para isso, precisasse fortemente do auxílio norte-americano. Para alguns especialistas, o plano fracassou na luta contra as drogas, contudo obteve sucesso no combate às forças contrainsurgentes.

Somente na década de 2000, com Uribe, entrou em cena a “segurança democrática”, uma politica central de governo para tentar recuperar o controle territorial, debilitar os grupos irregulares e assegurar o controle de liberdades à população. Sumariamente, caracterizou-se como uma medida para fortalecer e aumentar a presença do Estado em todo o território nacional.

Foi este o legado deixado ao atual presidente, Juan Manuel Santos, como tentativa de dar maior suporte ao tão mencionado, nas Relações Internacionais, monopólio legítimo da força do Estado. Os desafios de Santos para com a Colômbia são inúmeros: resolução do conflito armado, consolidação do Estado de Direito, estabelecimento de uma maior conexão entre o governo central e os governos regionais, reavaliação das medidas antidrogas etc.

O cerne da questão é que as demandas colombianas, no que tange à ação de forças “antigovernamentais”, com destaque para as FARC, estão sendo resolvidas de forma parcial. O problema sem fim que mencionei no título vai muito além de medidas estatais para combater grupos revolucionários e paramilitares. A “segurança democrática” leva em consideração, também, uma maior participação popular e um maior diálogo entre esta e o governo. É isso que falta na Colômbia, mas deixemos para um futuro (talvez) não muito distante.


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Post especial – Boas-vindas!

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“Sonho que se sonha só
É só um sonho que se sonha só
Mas sonho que se sonha junto é realidade”
[…]

Estes versos da canção “Prelúdio”, de Raul Seixas, de certa forma traduzem o histórico da Página Internacional: um “sonho” que começou em 2009 pela iniciativa do Alcir Candido e que, de lá pra cá, tem se tornado cada vez mais “realidade” a partir de um constante e prazeroso trabalho em equipe.

Hoje, é com muita satisfação que neste post especial anunciamos a chegada do mais novo membro da Equipe Página Internacional! Nosso colega Cairo Junqueira, a partir dessa semana, se junta ao grupo para nos brindar com suas ótimas análises, que temos certeza que em muito enriquecerão o conteúdo do blog.

Assim como os demais membros, Cairo é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) – Campus Franca, e neste ano de 2012 ingressa no curso de Mestrado também em Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB). Cairo tem se mostrado bastante prestativo e auxiliado o blog com entusiasmo, enviando postagens muito pertinentes como leitor. A partir de agora, semanalmente nos proporcionará a leitura de seus textos como colaborador.

Neste post especial, damos as boas-vindas ao Cairo, agradecendo por seu interesse e desejando sucesso nessa nova etapa. Aproveitamos para agradecer ainda a todos os leitores que nos prestigiam e enviam seus textos para colaborar com este espaço. Juntos, esperamos seguir transformando nosso sonho em realidade diariamente!


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Um jogo sem tempo

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Nos jogos de futebol nem tudo é decidido no primeiro tempo. Para que isso aconteça é preciso que se esteja muito bem no jogo e que o adversário não tenha tanta reação. De maneira semelhante parece estar funcionando o jogo da transição para a democracia no Egito. Para que se tivesse obtido sucesso logo nos primeiros movimentos, seria preciso uma vontade muito grande de todos envolvidos (nisso também falo dos que tem cargos no governo). O que não ocorreu.

Ora, essa comparação com futebol poderia parecer banal para qualquer outro caso, mas, considerando que para o povo egípcio, esse esporte parece estar junto deles na “primavera egípcia”, é válido. Na tarde de 01 de fevereiro, o jogo entre dois times locais teve quatro gols, quase 74 mortos, 1000 feridos e foi marcado pelos dribles da polícia, que evitou ao máximo intervir nos momentos da tensão. Esse triste evento foi também alvo de suspeitas. A inação da polícia não pode ter sido orientada pelo governo para mostrar que tudo andava muito instável?

Qualquer que seja a resposta que o povo encontrou, para um país que já se encontra em situação de incerteza sobre o futuro da democracia, a mínima dúvida sobre a integridade de um governo de transição já é capaz de alavancar mais protestos. E de fato ocorreu. O jogo foi um marco. Um triste marco para a história do esporte egípcio, mas, um marco que garantiu novo fôlego para os protestos da população, encontrando nas torcidas organizadas, o mais novo aliado.

Mas em qual tempo o jogo da democracia egípcia se encontra? Teríamos um empate ou a população já estaria perdendo depois dos lances de perigo que as respostas violentas da Junta Militar representaram? Bom, o cronograma adotado, diga-se de passagem, arbitrariamente, pelo governo está sendo seguido. O processo eleitoral do legislativo já vem sendo conduzido desde dezembro do passado e vai até o final de fevereiro. O registro dos candidatos para presidente também está marcado para o início de março e as eleições somente para junho.

Todavia, não é esse o cronograma que a população quer. Mesmo porque, em 11 de fevereiro, fará exatamente um ano que Mubarak deixou o poder. E para essa data, a festividade marcada foi uma greve geral pelas eleições presidenciais. A promessa do governo é responder a esses eventos à altura, mantendo a fórmula anterior. E, ainda, há alguns casos, como o julgamento judicial de 43 ONGs no país pró-democracia no país, dentre elas 19 estadunidenses, (justificando-se que estão sendo beneficiadas por governos e organizações estrangeiras para realizar atividades ilegais, para mais sobre as ONGs, clique aqui e aqui), que levantam mais suspeitas de que o governo está querendo passar uma imagem de instabilidade para segurar-se no poder.

Não se pode dizer em que altura do jogo da democracia o Egito está. Em alguns momentos a população tem aquele gostinho de gol marcado. Logo depois já sentem o dissabor de um gol do adversário ao final do segundo tempo. A população tem jogado como se estivesse com pressa, na prorrogação. Já o governo, parece querer segurar o resultado, após um gol no início do jogo. Nesse jogo sem tempo, com cada time com uma percepção diferente do relógio, quem sai perdendo é o Egito todo.

[É bacana lembrar o complexo e longo processo eleitoral do Egito, no qual cada votação é dividida por região em um sistema de eleições misto e complexo. Clique aqui para um interessante quadro explicativo sobre ele.]


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Conversando com a Teoria

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Damos continuidade à nossa conversa com a teoria falando “dos” Neorrealismos… Mas como assim? Afinal, quando falamos de Neorrealismo logo se pensa em Waltz – e foi dele que tratamos até agora; nada mais justo, considerando que foi o primeiro a articular essas ideias. Porém, vida de estudante de Relações Internacionais não é fácil, e mesmo um ramo de pensamento relativamente coeso como esse tem montes de subdivisões.

 


Bom, pra se ter uma ideia, para ficarmos apenas na divisão “histórica”, temos a divisão entre Neorrealismo e Realismo Neoclássico: enquanto o primeiro busca apenas determinar conseqüências da atuação dos Estados no sistema, o segundo entra no aspecto do comportamento e razões dos mesmos (assim como no Realismo “original”). Ou seja, grosso modo é mais ou menos como um conflito entre conseqüências e motivações, com as teorias analisando os mesmos fenômenos mas com objetivos diferentes.

 


Por outro lado, temos a divisão, essa mais conhecida, entre os Realismos Ofensivo e Defensivo. E vejam só: essas divisões (para ficar apenas nas mais conhecidas e simplificar), não se anulam, e sim se sobrepõem, formando na verdade um quadro analítico bastante complexo.

Robert Jervis

O Defensivo é o tradicional, que tem origem em Waltz (e sua tradição do balanço do poderes) e Robert Jervis, com suas teorizações acerca do dilema de segurança (brevemente, quando um Estado busca sua segurança gera insegurança para os demais Estados). O nome diz tudo – a sobrevivência do Estado vem da capacidade de lidar com a divisão de poder na estrutura internacional e se impor.

Entre os Defensivos se destaca Stephen Walt, um Neoclássico, que defende a teoria do Balanço de Ameaças, separando os termos “poder” e “ameaça” como elementos distintos na condução da política internacional: apenas quando uma soma de fatores de certo Estado como força bruta, proximidade geográfica, capacidades e intenções se mostrar como uma ameaça, é que outro Estado vai tentar crescer pra balancear aquele que ameaça.

Já a vertente ofensiva, apesar de ter ficado famosa com John Mearsheimer, tem origem na teoria hegemônica vista em Robert Gilpin (aquele da economia), em que a estabilidade viria de um Estado hegemônico no sistema. Assim como o ramo defensivo adota as idéias de Waltz, o ofensivo parte da hegemonia de Gilpin, mas indo pelo lado de que não basta para o Estado se adaptar à divisão de poder da estrutura, mas sim “criar” condições ideais.

John Mearsheimer

O mais famoso dessa leva, Mearsheimer, por exemplo, seria um Neorrealista Ofensivo – sua teorização da política de grandes potências evoca uma posição de destaque para os EUA, mesmo que apenas como um hegemon regional. Mas não se enganem com o título! Ser ofensivo não significa necessariamente ser favorável à guerra. Mearsheimer é um dos grandes críticos da condução da guerra no Afeganistão e do modo como Israel lida com os Palestinos; ao mesmo tempo, considera um erro a aproximação econômica com a China (que seria estar municiando um futuro inimigo). No caso, ser “ofensivo” seria apenas se tornar “menos amistoso”…

Muito confuso? Não é tão ruim quanto parece – o Neoliberalismo consegue ser ainda pior quando falamos em ramificações. É claro que essa análise varia de autor para autor – há quem considere, por exemplo, Barry Buzan (um autor mais ligado à Escola Inglesa) e Samuel Huntington (aquele do “choque de civilizações”) autores neorrealistas. Rotulações à parte, o que importa é que para esses autores o Estado ainda é o ator principal, e a distribuição de poderes no sistema sempre leva à consideração, para o bem ou para o mal, do conflito.

Um artigo interessante sobre o tema (e com uns quadros bastante explicativos) pode ser visto aqui. Até a próxima!


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