Conversando com a Teoria

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Nas últimas semanas, falamos de Neorrealismo e muita teoria. Por mais que a ideia seja simplificar, é muito mais fácil de entender quando pensamos em um caso concreto, e o Neorrealismo não foge à regra. Um exemplo muito ilustrativo dessa teoria e que está bastante fresco na memória de todos é o caso da intervenção na Líbia.


Recapitulando, o regime de Muamar Kadafi/Ghadafi/Gandalfi começou a enfrentar protestos estimulados pelos levantes nos países da região. Como todo regime opressor, mandou tanques e aviões atacarem os protestos e logo aquilo tomou a forma de uma guerra civil prolongada. A ONU, atendendo aos apelos da comunidade internacional, autorizou uma intervenção com zona de exclusão aérea e possibilidade de ataques para proteger a população civil. Tudo muito bonito, e o resto é história – Kadafi caiu (e foi linchado na primeira oportunidade), o Conselho Nacional de Transição está tentando evitar que a Líbia e torne uma nova Iugoslávia (aliás, o provável destino da Síria) e a coisa vai de mal a pior por aqueles lados.

E o Neorrealismo com isso? É claro que o foco é na ação das potências ocidentais, que protagonizaram os ataques aéreos e deram uma mãozinha aos grupos de oposição na Líbia. Vamos pensar nas duas “condições” no Neorrealismo, a estrutura e a distribuição de capacidades. Para um analista dessa vertente, o caso da Líbia é bastante claro. Vejam que os principais interessados na remoção de Kadafi do poder eram os países europeus… que poucos meses antes eram seus aliados; mas por quê isso? O regime de Kadafi oferecia vantagens a suas empresas, especialmente de petróleo. Nesse sentido, havia uma distribuição clara de recursos de poder, estável. Porém, com os protestos e a reação de Kadafi, países como França e Inglaterra se viram na situação de rever a posição quanto ao regime líbio – não pegaria bem ficar a favor de um governo que massacra civis manifestantes, e seria proveitoso garantir desde já o acesso aos grupos de poder emergentes quando viesse a iminente queda de Kadafi. Nada mais pragmático. Por outro lado, Kadafi já desconfiava do apoio dos europeus e ameaçava suas empresas – mas sem cogitar qualquer reação contra empresas russas ou chinesas. Basta ver o resultado da votação da resolução do Conselho de Segurança que aprovou a intervenção: os países que se abstiveram foram os que não tinham nada a perder com a situação (ou até ganhavam), como China, Rússia, Brasil e Índia.

Havia uma estrutura, que limitava as ações (o sistema ONU), mas que não impediu que se aprovasse por meios legais (apesar da justificativa ser meio controversa…) a ação orquestrada pelos países interessados para que mantivessem sua distribuição de poder. Alterações nas condições do sistema levaram os países interessados a agir para se acomodarem em uma nova realidade. O resultado dessa intervenção, para França e amigos, foi a continuidade do acesso a recursos estratégicos e a manutenção de uma ordem de poder regional que lhes seja conveniente. Aliás, lembra muito a “criação de condições” do Neorrealismo ofensivo, não? Pois é, nada nesse mundo é mera coincidência…

Essa é uma análise muito superficial (que nem mexe nos temas mais espinhosos desse caso), mas que mostra como o Neorrealismo pode servir para entender fatos contemporâneos. Na próxima semana, vamos lidar com um caso que já analisamos e contrapor ao que já vimos com o Neo-liberalismo. Até lá!


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Post do Leitor

Post do Leitor – Tiago Pedro Vales

[Pessoal, hoje apresentamos um post escrito por Tiago Pedro Vales, mestre pelo programa de pós-graduação em História da UNESP, acerca da crise na União Europeia. O texto se torna ainda mais interessante pelo fato de o autor atualmente residir em Lisboa e, portanto, está vivenciando a crise de perto. Lembrando que todos podem participar da Página Internacional, basta enviar textos para [email protected]


Crise…

A crise econômica do velho continente tem ocupado boa parte dos noticiários mundo afora. Mais do que isso, tem deixado muita gente preocupada. Os Estados tem se esforçado para encontrar uma solução mas, no entanto, é difícil atender a todos os interesses, principalmente quando se fala em um bloco de países como a União Europeia, que guarda dentro de si discrepâncias enormes quando se trata de desenvolvimento econômico. 

De um lado está a todo-poderosa Alemanha (PIB atual de US$ 3,3 tri), atualmente a quarta economia do mundo e, por outro, uma série de países que, mesmo somados, tem economias pouco expressivas, como Portugal (US$ 228 bi), Grécia (US$ 301 bi) e Romênia (US$ 161 bi) que dividem um mesmo banco central. Este tem o desafio de formular políticas monetárias que sejam viáveis desde a Finlândia ao Algarve. Tarefa bastante ingrata, é verdade, e que, segundo alguns, é a causa da crise. 

Não é só entre ricos e pobres que se dividem os interesses na União Europeia. Dentro do “alto clero” (Alemanha, França e Reino Unido) há interesses divergentes que por vezes impedem a aplicação de medidas que evitariam ou solucionariam crises como a atual. Ainda assim, a União Europeia serve de exemplo de integração regional e desenvolvimento econômico a todos os blocos que assim pretendem ser. 

Há muitas críticas acerca dos planos de recuperação em Portugal e Grécia, principalmente. Por conta das condições e reformas exigidas em troca de ajuda financeira, os países tiveram de cortar drasticamente seus investimentos em todas as áreas. Suspenderam direitos, cortaram salários, aumentaram impostos, despediram funcionários públicos, entre outras medidas que, ao menos por enquanto, não tiveram o resultado esperado. Em Portugal, nove meses depois dos acordos com a troika (Banco Central Europeu + Comissão Europeia + FMI) pariu-se uma taxa de desemprego que está chegando aos 20%, ou 35% entre os jovens (20 a 25 anos). A expectativa é que essa taxa aumente ao menos até meados de 2012. 

A crise europeia, no entanto, é diferente das crises do passado no Brasil e América Latina. Há tempos que os europeus, de forma geral, superaram alguns problemas sociais que ainda estão presentes no cotidiano brasileiro. Pelo menos por enquanto, a crise ainda não corroeu a boa qualidade de vida que os Estados europeus conseguem oferecer aos seus cidadãos. Por enquanto não há índices inflacionários tão altos, ou seja, não há inflação como houve e há na América Latina (ou pelo menos o Banco Central Europeu não a quer, mesmo que for para resolver a crise), há desemprego, mas também há alternativas (mesmo que sejam a migração para países da União Europeia menos afetados pela crise ou ainda em direção a países emergentes). De fato, o primeiro-ministro português, Passos Coelho, encorajou seus cidadãos a migrarem. Há portugueses pedindo emprego em call centers brasileiros. O consumo de bens não duráveis tem caído, um efeito colateral esperado, já que se tem, ao menos em Portugal, aumentado os impostos e cortados os salários. Mesmo assim, não há um mal social generalizado e sim dificuldades. 

Não se pode, no entanto, minimizar alguns casos extremos. Por exemplo, portugueses estão “rifando” a própria casa para poder sobreviver. Espanhóis estão migrando ilegalmente às suas antigas colônias em busca de oportunidades. Mais chocante ainda, casais gregos estão doando os próprios filhos porque não têm como sustentá-los. Mas isso, por enquanto, são casos extremos. Façamos votos que não se torne a regra.


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Falsas esperanças

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Enquanto isso, nas arábias, um vento de esperança sopra quando se noticiam novas constituições para países afetados pela onda de protestos de 2011…ou será que não?


No Iêmen, essa esperança veio a reboque da notícia oficial da saída de cena do presidente Abdullah Saleh. Pra quem não lembra, o Iêmen foi um dos países árabes onde ocorreram alguns dos protestos mais inflamados (e repressão das mais duras) durante 2011. Saleh foi um caso bem atípico – não largava o osso, mas ao mesmo tempo dava alguma margem de manobra para a oposição, dizendo que se o povo queria mudanças, que o fizesse pelas urnas. Com 30 anos de experiência no poder, ele sabe o que faz, e sai do poder de forma pacífica, terminando seu mandato, e deixando o abacaxi para Abdo Rabbo Mansour Hadi, seu vice, que deve dar um jeito de convocar eleições gerais e mudar a Constituição nos próximos dois anos, segundo um plano de transição do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Escapando ileso (e deixando um dos seus no poder), ponto pra Saleh.

E acabam aqui as boas (mal e mal) notícias. Na Síria, a situação piora, com dezenas de mortes por dia. A semana passada foi agitada, com mortes de repórteres estrangeiros e um arremedo de referendo constitucional que aconteceu no fim de semana. É uma proposta de nova Constituição pra inglês ver, o tipo de jogada política que tem a intenção de mostrar boa-vontade mas deixa os opositores estupefatos (já que o presidente Assad não respeita muito a que já está em vigor…) nem impressiona os países ocidentais. O que importa, no fim das contas, é a possibilidade da impunidade, já que China e Rússia ainda blindam a Síria, e pelo jeito por muito tempo. Putin é o franco favorito para as eleições de março e muito provavelmente vai endossar o discurso de censura às críticas dos países ocidentais quando voltar ao poder.

O discurso diplomático oculta aquilo que todo mundo já sabe, o interesse econômico e de exportação, especialmente de armas. Oras, se até a Turquia, um país que engrossa o coro dos que criticam Assad e oficialmente embarga o envio de armas pra Síria, deixa escapar um ou outro carregamento em nome de relações comerciais, quanto mais a Rússia, maior provedor de armamento do regime de Damasco. O duro é ver o argumento de Putin – em vez de ir por um lado mais elegante, como a defesa da autodeterminação e da não-interferência (linha que foi seguida pelo Brasil, por exemplo), o foco é em como a Rússia perdeu mercado na região com os protestos, dando a entender que interesses ocultos de mercado financiam os rebeldes. Eu não duvido de nada. Mas esse tipo de retórica não faz nada mais que incentivar a repressão (já que não vai dar em nada a pressão “de fora”…) que já contabiliza mais de 7200 mortes. Pontos pra Assad. Muitos.


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Há um ano...

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E cá estamos, um ano depois, relembrando os textos e assuntos que foram postados no blog e que eram pauta na mídia nacional e internacional. Seguimos com nosso exercício de memórias! Há um ano, a “Primavera Árabe” ocupava as manchetes e era tema recorrente no blog.

Tanto a Bianca quanto o Luiz Felipe postaram textos que abordavam a mesma questão, mas de maneiras muito distintas. Primeiramente, no dia 23, no texto “Pão e Circo”, questionou-se a forma que alguns dos ditadores e monarcas tentavam driblar as demandas da população oferecendo garantias que notadamente trariam benefícios sociais, mas cujos conteúdos não se relacionavam com aquilo o povo buscava. Arábia Saudita e Bahrein, eram claros exemplos nos quais oferecia-se algumas benesses aqui enquanto reprimia-se e massacrava-se acolá.

Já o Luiz Felipe nos apresentou um texto que embora abordasse também a “Primavera Árabe”, tinha um foco bem diferente (confira aqui). Se, até aquele momento, o bafafá todo no Oriente Médio tinha algum vencedor, esse, com certeza, estaria na América Latina. Ou melhor, seria uma figura muito bem conhecida por nós cuja imagem é facilmente ligada a complicações e discursos inflamados: Hugo Chávez. Bom, o post nos mostra como as revoltas árabes estavam causando que os preços do petróleo alavancassem e, a Venezuela, por ser a grande produtora de petróleo que é, buscava aproveitar-se dessa maré de sorte. Apesar de o país encontrar-se em períodos de elevada inflação, crises energéticas e recessão econômica, a alta do petróleo aparecia como uma interessante margem de manobra que poderia ser aproveitada para driblar o discurso dos opositores.

Outro texto digno de nota, postado durante essa semana, foi escrito pelo Giovanni (clique aqui para conferir). Abordar a temática do desenvolvimento nacional é algo sempre muito atual e que, mesmo um ano depois, traz interessantes questionamentos. Ele nos coloca reflexões sobre em que vias o Brasil tem andado quando o assunto é desenvolvimento e para onde esse caminho poderá nos levar, opondo os ganhos e previsões positivas no campo econômico aos índices nada instigantes do lado social.

Um ano depois vemos como há temáticas que permanecem muito atuais enquanto outras, como a Primavera Árabe, tem, supostamente, perdido o seu encanto de novidade e o seu brilho de outrora. Todavia, também vemos que as lutas e mudanças são um processo bem mais lento do que se imagina e com consequências para partes que seria difícil vislumbrar.

É isso aí, pessoal, postando e relembrando!


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O clube dos sem candidatos

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A corrida eleitoral norte-americana segue indefinida, talvez mais do que nunca. Pelo lado republicano, tivemos alguns favoritos, outras ascensões meteóricas (quase sempre acompanhadas de uma decadência tão ou mais rápida) e, mais recentemente, um quadro descrito pelo governador do estado de Vermont, Peter Shumlin, como deprimente. De fato, surgiu nesta semana uma perspectiva ainda mais sombria. As primárias do partido podem chegar ao fim com um vencedor, mas sem candidato à presidência do país.

Quem assiste a um (dos inúmeros) debates entre os republicanos, no mínimo, se diverte. Entre as discussões propostas estão temas importantes como saúde, economia e política externa. Contudo, as abordagens que predominam são prioritariamente pouco construtivas. No último encontro, Santorum insistiu que o Obama Care foi baseado em um plano de gestão da saúde pública criado e implementado por Romney em Massachusetts. Por seu lado, Romney destacava os votos do então senador Santorum, que para ele contradiziam seus ideários conservadores ao apoiar alguns projetos de democratas.

Não, o concordar em discordar não virou o lema destas primárias. Eles fazem questão em concordar no óbvio, como na questão do controle das fronteiras dos Estados Unidos com o México. Em outros momentos se juntam para criticar o Obama Care e prometem revogá-lo logo no primeiro dia de governo. Nos demais tópicos, um vira lobo do outro. Ao destacar o pior dos outros, um candidato pensa que destacará seu melhor. Esta tática funciona em parte, a julgar pelo sobe e desce das pesquisas. No entanto, tomando os efeitos cumulativos de tanta exposição negativa, fica clara uma tendência: o enfraquecimento da candidatura republicana nas eleições gerais.

Talvez o elemento mais trágico do atual contexto é a possibilidade do vencedor das primárias, historicamente garantido como candidato do partido contra os democratas, sair tão fragilizado da disputa que não tenha legitimidade suficiente para representar os que o elegeram. Outros rumores dão conta da pressão sobre outras eminentes figuras republicanas para que entrem na disputa, ainda que tardiamente. Antes tarde do que nunca. Ao passo que vamos, nem Romney conseguirá angariar apoio suficiente para enfrentar Obama. Contando com o histórico recente, nada está descartado, nem mesmo uma mudança radical do quadro e a consolidação de um candidato inconteste para o partido, apesar de tudo.

Neste contexto, destaca-se ainda o deserto eleitoral americano, no qual “a pequena fração de americanos que está tentando escolher o candidato republicano é velha, branca, uniformemente cristã e não representativa do país em geral”.Ou seja, os pré-candidatos estão projetando uma imagem baseada somente em uma porção pequena do eleitorado total. Mais do que isso, estão destruindo as campanhas uns dos outros por este pequeno grupo que não dá conta de congregar o “clube” inteiro. No mesmo país, de acordo com Paul Krugman: “… as regiões nas quais os programas do governo representam a maior parcela dos rendimentos pessoais são precisamente aquelas que estão elegendo esses severos conservadores…”.

Vai entender. O único feliz, ao menos com grande parte de tudo isso, é Obama. Afinal, cada dia mais sua campanha se fortalece enquanto os republicanos esquadrinham os detalhes mais sórdidos de seus candidatos e expõem suas mais diversas fraquezas.  


Categorias: Estados Unidos


Amigos da Síria

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Segundo um pensamento atribuído a Aristóteles, “ter muitos amigos é não ter nenhum”. No dia em que se reuniram na Tunísia os “Amigos da Síria” – grupo de países formado para discutir a situação do país e pedir a cessão da violência contra o povo – vale a reflexão acerca da aplicabilidade (ou não) dessa frase neste cenário particular.

Tal como já abordado em posts anteriores no blog (aqui e aqui), a situação de protestos populares na Síria tem se prolongado e atinge níveis alarmantes de violência e destruição, especialmente em meio à população civil. Hoje, a Cruz Vermelha foi (finalmente) autorizada a agir na cidade de Homs, a terceira maior do país, que sofre há aproximadamente 20 dias com brutais ofensivas do governo.

Ainda no dia de hoje, a conferência internacional “Amigos da Síria”, organizada pela Liga Árabe, reuniu na cidade de Túnis os principais líderes mundiais em uma tentativa diplomática de proposição de medidas em apoio ao povo sírio, contra a repressão governamental.

De fato, esta iniciativa deve se restringir ao âmbito diplomático, com medidas de pressão e propostas paliativas de ajuda humanitária, especialmente porque entre a lista de “amigos do povo sírio”, certamente não se encontram Rússia e China – importantes atores no jogo internacional. O caso é que, pautados em interesses nacionais, estes dois países têm deixado claro seu apoio ao governo sírio, vetando as resoluções do Conselho de Segurança relativas à renúncia de Bashar-al-Assad (veja post a respeito aqui).

A “amizade” (talvez não em sua mais pura versão, por assim dizer) constitui um elemento estratégico nas relações internacionais. Boas relações bi e multilaterais significam certamente bons frutos políticos e econômicos, em diversas perspectivas. No caso do apoio à causa popular síria, contudo, as relações amistosas em questão extrapolam a esfera puramente interestatal, envolvendo um embate direto entre os interesses – e os aliados – do governo e do povo, diante ainda de uma urgência humanitária em grandes proporções.

Isto posto, talvez a citação aristotélica (?) possa/deva ser adaptada na análise deste caso. Para o povo sírio, ter muitos amigos (mais de 70 países participaram da conferência de hoje!) não significa necessariamente não ter nenhum, já que a pressão internacional é valiosa para promover mudanças estruturais. Entretanto, ter muitos amigos dentre os quais não se encontram todas as potências detentoras do veto onusiano pode, sim, gerar inconvenientes e dificultar o sucesso de qualquer operação…


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O Lula é pop e samba!

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Acabou o carnaval 2012 no Brasil, mas a figura de “bom garoto” do ex-presidente parece estar longe de chegar ao fim. Quando ainda estava em seu mandato, era fácil ler notícias do Lula nas páginas sobre política, economia e, evidentemente, assuntos internacionais que envolviam a política externa brasileira. Entretanto, desde que a presidente Dilma assumiu o posto, tornou-se mais habitual ver o rosto do petista nas seções de personalidades e famosos.

Como é do conhecimento da grande maioria, Lula foi o tema principal do enredo da escola de samba “Gaviões da Fiel”, intitulado Verás que o filho fiel não foge à luta – Lula o retrato de uma nação. Por motivos de saúde envolvendo seu tratamento contra o câncer, ele não marcou presença, mas a ex-primeira-dama, Marisa, o representou no penúltimo desfile em São Paulo.

Pois bem, e o que isso nos revela? Logo que vi toda movimentação da imprensa, seja na televisão, na internet e até mesmo no rádio, me lembrei de como a figura pessoal do Lula ajudou bastante na imagem de seu governo. É evidente que este é apenas um aspecto de um conjunto de fatores que influenciaram seu cargo presidencial, mas é o intuito de análise neste post.

Lula é, em partes, o retrato do que Max Weber, considerado um dos fundadores da Sociologia, denomina poder ou dominação carismática, na qual “a autoridade é suportada graças a uma devoção afetiva por parte dos dominados”. Esta caracterização abarca desde heróis, líderes autoritários e profetas até demagogos e políticos, sendo que o ex-presidente se situa neste último patamar. Diferentemente das outras tipologias de dominação (veja aqui), a carismática age sobre princípios pessoais e se baseia no carisma e na virtude do líder.

Houve e ainda há, com Lula, a ideia de uma devoção afetiva e de uma oratória ímpar. Basta voltarmos no tempo e recapitularmos o que Getúlio Vargas representou para a população da época, era “o pai dos pobres e a mãe dos ricos”. O debate se estenderia com os emblemáticos John Kennedy e Mahatma Gandhi, por exemplo, que se enquadram nesta perspectiva. No caso brasileiro, a personificação realizada no desfile da “Gaviões da Fiel” na última semana, no qual a bateria representou Lula enquanto operário, é o retrato da admiração e da identidade nacional.

Ainda mereceriam apreciação a relação cultural do Brasil com o carnaval e o próprio futebol…mas o que ficou bem claro foi a recuperação da importância social que Lula possui. Existem rumores recentes colocando-o como o ideal presidente do Banco Mundial em virtude de sua gestão competente, do prestígio alcançado com países ricos e, com certeza, do seu carisma mencionado anteriormente.

Será que Lula volta agora ou só nas próximas eleições? Talvez seja cedo para afirmar alguma coisa, mas ele ainda estampará muitas capas de revistas e artigos de jornais.


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Festa histórica

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Não, o título do post não se refere ao Carnaval brasileiro e a toda a magia e simbolismo que o envolvem (provocando, por vezes, reações lastimáveis em meio à alegria das festividades). A festa histórica em questão é a festa dos eleitores líbios que finalmente – após 40 anos – se veem diante da possibilidade de escolherem seus representantes municipais.

Em Misrata, cidade-símbolo da resistência anti-Kadhafi, o dia foi de feriado nacional, sendo que elevado contingente da população participou do processo eleitoral. Em junho, o novo Parlamento da Líbia será escolhido e, pouco a pouco, espera-se que o país alcance sua estabilidade política. Um ano depois das revoluções que alteraram completamente o cenário geopolítico do Oriente Médio, a Líbia espera consolidar seu novo sistema político com a (antes impensável) participação popular.

De fato, eleições bem planejadas e, consequentemente, bem-sucedidas, promovem o fortalecimento das instituições democráticas; assim como o (sempre almejado) desenvolvimento de um país. Em termos de transformação do conflito e reconstrução social, a estabilidade de um sistema político baseado na legítima escolha da população representa um fator essencial à análise.

Garantir a boa realização destas eleições municipais e, principalmente, assegurar as condições para as eleições de junho serão interessantes indicadores para avaliar as características de uma Líbia pós-Revolução e sem Kadhafi. Apenas o tempo poderá dizer se a festa dos eleitores líbios de hoje pode, efetivamente, entrar para a História como um marco no desenvolvimento da democracia no país.


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É ritmo de festaaa…

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Post rápido de feriadão. Nessa segunda-feira de carnaval, parece que apenas no Brasil se tem o que comemorar. A economia vai relativamente bem e o governo é reconhecido internacionalmente pela “limpeza” que vem promovendo nos ministérios (e pelo modo como está cada vez mais criando uma identidade própria, saindo da sombra dos governos Lula) e já há quem defenda a volta do Brasil pra ajudar a resolver o problema nuclear do Irã.


Já no mundo desenvolvido a coisa não anda tão bem. A coisa ficou feia no final do ano passado para boa parte dos países desenvolvidos, que tiveram retração no seu crescimento per capita. Vejam que não é uma situação tão ruim – há indícios de estabilização, e um crescimento pequeno ainda é um crescimento (aliás, isso é meio que uma norma pra países desenvolvidos, que já não têm muito onde crescer). Não chega a ser uma recessão (em que a economia encolhe, como deve acontecer na Itália, pra não falar da Grécia), e cada vez mais parece distante um quadro de depressão (quando a recessão sai do controle e mantém uma crise generalizada por muito tempo, estagnando a economia do mundo) que muitos analistas mais pessimistas previam.


Ainda assim, expectativas positivas não são garantias, e com os problemas específicos de cada país/região (como a crise deflacionária do Japão, o ciclo eleitoral dos EUA e o resgate à Grécia na UE), o sinal amarelo está aceso por aquelas bandas. Mas vamos deixar pra avaliar isso quando o carnaval desocupar as manchetes, certo?


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Estudar ou não estudar?

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De bolha em bolha, a economia segue seu rumo. Passamos, por exemplo, pela bolha da internet e mais recentemente a do mercado imobiliário norte-americano. Estudar talvez seja uma premissa inquestionável, toda família preza pela educação de seus filhos como forma de garantir um futuro seguro. Contudo, será que alguns pagam em excesso por um título universitário? Ou pior, será que o investimento em uma universidade vale a pena?

O Brasil vive um cenário positivo, com uma economia em crescimento e a melhoria dos indicadores sociais. Nosso modelo para a educação superior, parte público e parte privado, também apresenta tendência similar. O número de cursos, universidades e fontes definanciamento aumentaram nos últimos anos, possibilitando que o sonho de muitas famílias fosse realizado. Em outros países, como os Estados Unidos e o Reino Unido, o ensino superior tem custo para o estudante. A diferença básica é quem paga a conta, algumas vezes é o governo e outras o próprio estudante.

Pensando o modelo norte-americano, Peter Thiel, um dos fundadores da PayPal, enxerga a educação superior como a próxima possível bolha a estourar nos Estados Unidos. Como em outros casos, trata-se de um investimento pensando para garantir maior segurança no futuro. Na medida em que nem todos conseguirão entrar em escolas de elite (as da chamada Ivy League), Thiel defende que um modelo baseado no empreendedorismo deveria predominar sobre o atual focado no ensino superior. Afinal, mesmo os formados em escola de elite, poderão se deparar com índices de desemprego preocupantes e podem terminar forçados a aceitar posições abaixo de suas reais capacidades. Empreendedores em potencial podem ser perdidos no processo.

Por outro lado, quais são as funções do mercado de trabalho que realmente requerem uma formação universitária? Na prática, muitos diplomas universitários não garantirão uma excelente oferta de trabalho logo após a formatura. Para os que pagam pelos estudos, a situação será ainda mais dramática, ficará uma frustração por não encontrar um posição a seu agrado somada à dívida adquirida na universidade. A necessidade de planejamento é evidente, como quando se compra um bem, as oportunidades existem, mas estarão limitadas. O diploma sozinho não garante um futuro seguro. Ainda que o ensino superior resulte em incremento de renda, não é em si um bilhete de ouro como muitos pensam.

E agora? Este foi o modelo que aprendemos a amar. Famílias investiram por anos na educação de seus filhos para nada? Em realidade, haverá a necessidade de adaptação das expectativas anteriores, não se trata de eliminar por completo o construído até agora. Mais que isso, deve-se ampliar a gama de oportunidades e o entendimento em relação ao mercado de trabalho, para que assim todos possam tomar decisões embasadas na realidade (não mais no sonho de um diploma). Cabe prioritariamente àqueles que investem na educação decidirem pautados em expectativas reais de seu retorno. No Brasil surfamos uma onda diferente, próxima talvez do pleno emprego, porém nos resta avaliar que futuro queremos para nossa educação superior, especialmente caso enfrentemos um cenário econômico menos favorável.


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