Post Especial – Memórias póstumas de 2012: o final de uma era?

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[Para encerrar o ano, temos uma postagem especialíssima de nosso colega Giovanni Okado, fazendo uma retrospectiva instigante do ano que passou. O texto foi publicado originalmente no dia 22 de dezembro, no Jornal Liberdade, e contém opiniões pessoais do autor. A equipe do blog deseja um feliz ano novo a todos, e agradecemos pelo prestígio ao longo de 2012. Nos vemos em 2013!]

Caso o mundo não tenha acabado no dia 21, este artigo chegará até vocês, leitores da Página Internacional. Em meio a esse clima, com traços de romance machadiano, convém recordar as memórias póstumas de 2012. Memórias que, como há décadas já revelaram os arqueólogos, encerram uma era ao invés de anunciarem o fim dos tempos. 

O primeiro artigo que Fidel Castro escreveu este ano é intitulado “A marcha em direção ao abismo”. Nele, o ex-mandatário cubano colocou em xeque o Ano Internacional da Energia Sustentável para Todos, proclamado pela ONU em 2012. Hoje, o mundo atravessa uma crítica corrida energética. E uma das grandes promessas para assegurar o abastecimento energético, o gás de xisto, do qual se extraem o gás natural e petróleo, não tem nada de sustentável. 

O ano de 2012 talvez marque o final de uma era energética. Desde meados da década de 1970, ela foi dominada pelas epopeias petrolíferas no Oriente Médio. Agora, outra era se inicia com o abandono das expectativas quanto às fontes renováveis alternativas e com o renascimento abrupto do petróleo. Os EUA finalmente estão encontrando no interior o que tanto buscaram lá fora: segurança e autossuficiências energéticas. E a América do Sul, seja com o pré-sal no Brasil, seja com o gás de xisto na Argentina, deve se ocupar um lugar estratégico na geopolítica mundial. 

A economia mundial está estagnada. Surgem novos pólos dinâmicos de crescimento econômico. Acompanhando o sucesso do hit mais visto no Youtube em 2012, Gangnam Style, a Coréia do Sul se converteu em um pólo de alta tecnologia e industrialização. O país compõe um novo acrônimo, o Mist, em conjunto com México, Indonésia e Turquia, que está mais em alta do que o tradicional Brics. Enquanto isso, os efeitos da crise financeira são cada vez piores na Europa: na Espanha, o desemprego atingiu 25% da população e, na Grécia, a previsão do crescimento econômico, em 2012, é -4,7% e a dívida pública alcançou 165% de seu PIB. 

Nesse ambiente de crise financeira, os países emergentes – particularmente Brasil e Venezuela –, com seus respectivos modelos de desenvolvimento econômico, tem dado respostas diferentes dos países ricos para seus cidadãos. A regra de ouro é crescer promovendo a distribuição de renda e a inclusão social. Eis aí também o desafio: um não é sinônimo do outro. Distribuir renda não pressupõe a eliminação da pobreza, e sim uma etapa para superá-la. Um analista norte-americano considera que, no século XXI, haverá uma disputa entre os tipos concorrentes de capitalismo para saber qual prevalecerá sobre os outros. Seriam sinais de uma nova era? 

Um en passant sobre fatos que marcaram 2012 proporciona recordações alegres e tristes, boas e ruins. Os tiros em Sandy Hook, o recrudescimento do conflito árabe-palestino, o agravamento da situação na Síria, os ataques terroristas no Afeganistão e no Iraque, a iminência de uma guerra entre Japão e China, os campos de refugiados na África, entre outros acontecimentos. O clamor pela liberdade, uma das esperanças da Primavera Árabe, é cada vez mais sucumbido pelo conservadorismo das elites dirigentes, que transformam a religião no principal instrumento da política. 

Duas reeleições foram muito comentadas neste ano: Obama, nos EUA, e Chávez, na Venezuela. O líder norte-americano precisará negociar com os republicanos a saída do “abismo fiscal”; o líder venezuelano deverá garantir a continuidade de seu projeto bolivariano. As Olimpíadas, por sua vez, consagraram nomes e criaram lendas, além de protagonizarem um novo embate pela hegemonia esportiva: EUA x China. E a grande descoberta científica de 2012, o Bóson de Higgs, a chamada “partícula de Deus”, ampliará os horizontes do conhecimento da humanidade, permitindo-a compreender a estrutura fundamental da matéria e, consequentemente, o funcionamento do universo. 

O melhor exemplo para começar uma nova era, se assim acreditarmos, vem de uma menina paquistanesa de 15 anos. Malala Yousafzai é uma estudante ativista que começou a escrever em um blog para a BBC, contando acerca da vida sob o governo do Talibã no vale do Swat, no Paquistão, e lutando pelo direito de meninas frequentarem as escolas. A coragem e a perseverança quase lhe custaram a vida. No dia 9 de outubro, após constantes ameaças de morte, o Talibã resolveu atacar e uma bala ficou alojada na cabeça da jovem. Felizmente, ela sobreviveu. 

Há, portanto, esperança. As memórias póstumas de 2012, mais do que trazer a descrença, convidam à reflexão, que é essencial a ação. Diferente de Brás Cubas, não queremos morrer com o legado de nossa miséria, e sim transmitir o legado de nossas histórias, individuais ou coletivas. Um feliz Ano Novo a todos!


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A nova Guerra Fria?

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O século XX foi marcado pela disputa política e ideológica entre os Estados Unidos e a União Soviética. Os dois países lideravam dois grandes blocos que representavam modelos de vida diferentes. A princípio, o Tio Sam tinha o foco na expansão de sua ideologia, enquanto que, a URSS preocupada igualmente com isso, também tinha ganas de conseguir mais territórios. Mas em uma coisa os dois quase nunca divergiam: a busca de denegrir a imagem do outro, construir signos negativos vinculados ao seu rival tanto pela mídia, filmes e propaganda até por leis e decretos. 

Desde os anos 1990 que as relações entre Rússia e os EUA estavam estabilizadas. Apesar de algumas divergências política e da existência daqueles sentimentos anacrônicos resultado da Guerra Fria, as relações bilaterais iam bem. Acontece que os últimos dias de 2012 trouxeram uma pequena mudança a esse estado de coisas. Uma troca de farpas causada por leis destinadas diretamente aos russos e americanos, promulgadas nos dois países, estremeceram as relações políticas entre os dois países

Tudo começou com o governo estadunidense aprovando uma lei referente a um problema interno da Rússia, o caso de Sergei Magnitsky. O advogado russo que rendeu nome à nova lei, foi preso em 2009 e acabou morrendo alguns dias antes de que completasse um ano na prisão, tempo em que poderia ser mantido em cana sem julgamento. O caso rendeu um grande bafafá internacional naquele ano, pois, a despeito de o governo russo apontar que ele faleceu em virtude de doença, as organizações internacionais de direitos humanos diziam que foi devido a maus tratos e violações de D.H. por oficiais da polícia russa. 

Bom, agora, 3 anos depois, os Estados Unidos resolveram retaliar os suspeitos de envolvimento no caso por meio de uma espécie de “lista negra”. O Ato Sergei Magnitsky, aprovado pelo congresso em Junho e pelo senado em Dezembro, pune os oficiais russos suspeitos de envolvimento no caso, dificultando-os de obter o visto e contas bancárias em bancos americanos. É de se esperar que o governo russo não veria com bons olhos o ato e, rapidamente, as retaliações vieram. 

Em 18 de outubro, os EUA e a Rússia assinaram um acordo regulamentando a adoção internacional de crianças entre os dois países. O tratado que entrou em vigor em 1 de novembro desse ano, foi revogado pelo governo russo. No dia 26 de dezembro, o parlamento deu um “presente de Natal” para famílias americanas, proibindo a adoção de crianças russas por americanos. Apesar de causar divergências entre os próprios russos, rendendo comentários negativos do ministro das Relações Exteriores, e questionamentos de Putin, a nova lei foi aprovada pelo voto de 143 senadores, nenhum voto contra e 42 abstenções. A justificativa dos parlamentares foi fundamentada em denúncias de mortes de pequenos russos nas mãos de pais americanos por maus tratos. 

Todavia, a medida “anti-Ato Magnitsky”, em números, não passará sem efeitos para crianças e adolescentes que iriam ser adotados. Em 2011, 1000 crianças russas foram adotadas por cidadãos americanos e, desde 1999, esse número chega a 45000. Somente nesse final de ano, serão 46 crianças impedidas de obter um lar devido à disputa ideológica entre Estados Unidos e Rússia. Há ainda a questão de que muitos americanos adotam crianças com necessidades especiais. Proibidos de adotá-las, provavelmente, irão busca-las em países vizinhos como a Ucrânia e Georgia, deixando essas outras crianças desamparadas. 

O governo americano acusa a Rússia de violar tratados internacionais (como a Convenção sobre os Direitos da Criança) e passar para as crianças o ônus das dificuldades bilaterais entre os dois países. Todavia, se de um lado, a Rússia irá prejudicar inúmeras crianças e ainda complicar as relações bilaterais, de outro, os EUA, pelo Ato Magnitsky estariam igualmente violando o direito internacional ao intervir em assuntos internos russos. Há, ainda, o risco dessa lista se alargar e passar a complicar a vida de outros russos que não necessariamente tiveram envolvimento com o caso, como já é de se saber que o ocorreu com o Ato Patriota. 

Outra vez existe uma disputa ideológica entre a Rússia e os Estados Unidos. Dessa vez, os EUA defendendo seu novo estandarte, os Direitos Humanos, escudo sob o qual já cometeu inúmeras atrocidades; e a Rússia transferindo os problemas dessa disputa bilateral para aqueles que não tem a capacidade de se defender, as crianças. Esses seriam os germens para o despertar de uma nova guerra fria entre os dois países. Ou, seria somente a manifestação de que, para muitos, ela nem veio a acabar.

[Para mais: 1, 2, 3, 4]


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Tensões no Golfo

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É sempre interessante pensar sobre o Oriente Médio. Ultimamente muito se comenta sobre a Primavera Árabe e os supostos contornos democráticos que este processo impõe na região. Seja no norte da África, na Crescente Fértil ou no Golfo Pérsico, aos países árabes se juntam Israel e Irã, os quais, mesmo não sendo árabes propriamente ditos, também trazem sempre novos horizontes para a geopolítica local.

Por um lado, o conflito israelo-palestino é sabido por todos. E, de outro, a oposição iraniana aos Estados Unidos, bem como seus anseios nucleares na figura do então presidente Mahmoud Ahmadinejad, ilustram as principais capas de jornais e revistas nas seções internacionais. Todavia, existe uma questão de longa data não tão conhecida e divulgada pelas mídias: a balança de poder existente entre este mesmo Irã e a Arábia Saudita nos entornos do Golfo.

Além da Liga Árabe, existe outro bloco de países denominado Conselho de Cooperação do Golfo, sendo composto por Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos (EAU), Kuwait, Omã e Qatar. Como o próprio nome nos diz, tais países situam-se justamente na região do Golfo, a qual é de grande interesse dos iranianos. No último mês de Novembro o país fez manobras navais com o intuito de reforçar sua presença sobre três pequenas ilhas que disputa com os emirados.

Mais recentemente, o Irã foi acusado de interferir em assuntos internos dos países do Conselho, causando uma nova onda de comunicados entre autoridades, mais uma vez dizendo que nada passou de um mal-entendido. O que se sabe é que as manobras continuarão. Navios, submarinos e sistemas de mísseis de defesa serão testados num futuro bem próximo.

É uma questão majoritariamente geopolítica e estratégica por dois fatores bastante simples de serem entendidos. Primeiro, o Golfo é um mar interior que serve como rota marítima e saída principal para o Mar Arábico. Segundo, concentra algumas das principais zonas de exploração de petróleo a nível mundial. Assim, nada mais justificável para se confirmar esta rivalidade que perdura há anos. 

Com exceção do gigante saudita, todos os outros países do Conselho são pequenos. Por conseguinte, Arábia Saudita acaba por ser um rival do Irã em nível de igualdade. Isso se reflete nas relações entre a Liga Árabe e o Conselho em si. Não podemos esquecer que existem diferenças culturais, religiosas e socioeconômicas milenares. Todavia, sendo um tanto quanto realista, a disputa pelo poder permanecerá e os iranianos sentem-se com todos os direitos de fazê-la.


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Post do Leitor

Post do leitor – William Soares Gonçalves

[Neste dia de Natal, a reflexão da Página Internacional fica por conta do nosso leitor William Soares Gonçalves, aluno da Escola Estadual Profª. Zeicy Apparecida Nogueira Baptista, em Taboão da Serra/SP. Seu novo texto é sobre a Amazônia, assunto tão importante para o Brasil e para o mundo. Boa leitura e um ótimo Natal a todos!]

Vamos cuidar do que é nosso 

A Amazônia, sem sombra de dúvidas, é um dos maiores berços ecológicos – se não for o maior – do mundo. Por essa questão, ela também é muito visada por pessoas que querem ganhar dinheiro a partir da diversidade ecológica ali presente. O desmatamento, o tráfico ilegal de animais, as construções de estradas também ilegais… tudo isso contribui para o futuro fim da nossa Amazônia.

Apesar de ter citado que a Amazônia é um berço ecológico, ela pode ser também uma mina de ouro quando cai nas mãos erradas. Funciona mais ou menos assim, por exemplo: o empresário quer uma arara azul para deixar de enfeite na sala de sua casa. Sabendo que se trata de um animal raro, ele contrata uma quadrilha especializada em tráfico de animais, que faz o serviço para ele.

Isso na verdade é um jogo mafioso entre quem rouba e quem compra, alimentando ainda mais esse mercado negro e ilegal. Contudo, em toda essa história, quem leva a pior é a floresta que perde mais ainda o que já está em falta. Talvez se não houvesse quem alimentasse esse crime contra a natureza, nossa floresta não estaria na situação que está…

Mas não é só o trafico de animais que prejudica a Amazônia. De 1901 a 2000, a área desmatada amazônica para a prática da pecuária de grandes fazendas é seis vezes maior que o território de Portugal. Isso a partir de dados de 12 anos atrás, imaginem então como deve estar a situação atualmente. [Leia mais aqui.]

O Brasil é o segundo maior produtor de soja do mundo, uma das causas que impulsionam esse desmatamento. Com o aumento da demanda de exportação para outros países, a consequência é também o aumento do plantio, levando à necessidade de novas áreas para este plantio. E como terreno na Amazônia não falta, os grandes produtores partem para o desflorestamento em certas regiões para a prática do plantio da soja.

Outras atividades que prejudicam também a floresta são a extração de petróleo e a mineração que, além de destruírem o verde, poluem também o solo, o ar e as águas. A construção de estradas ilegais também contribui para facilitar o transporte de madeira ilegal e o transporte de gado.

Na realidade, todos nós devemos respeitar nossa natureza assim como a nossa Amazônia, tão importante para o mundo e especialmente para o Brasil. O Ibama e os governantes devem estipular leis mais severas para aqueles que fazem mal ao que é nosso. Então fica o aviso: devemos cuidar do que é nosso ou a floresta – que, para nós brasileiros, é sinônimo de orgulho – irá acabar. 


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Gritos abafados?

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Estamos acostumados aos protestos no noticiário internacional, especialmente no caso das revoltas do Oriente Médio. A turbulência na Síria continua, com um novo capítulo agora com a presença de um enviado da ONU/Liga Árabe para negociações com Assad. No Egito, a nova Constituição parece ter sido aprovada mas ainda vai render muito descontentamento e protestos por causa de irregularidades no referendo e o teor controverso da lei. Agora, o que espanta mesmo é o que está rolando na Índia, com uma revolta generalizada por causa de um estupro coletivo

Revolta na Índia parece coisa do passado. O país é atípico, se livrou da dominação da Inglaterra com a “desobediência civil”, e por causa do sistema de castas e da religião, não existem protestos por causa da miséria ou coisa do tipo (como foi, por exemplo, nos países da “primavera árabe”). Por isso soa muito estranho esse caso. Após uma jovem ter sido estuprada em um ônibus e espancada até quase morrer, estouram manifestações violentas e multidões tomam as ruas de Nova Déli, cobrando proteção das autoridades. Claro que a polícia revida do jeito que todos nós conhecemos, ainda mais com a visita do presidente da Rússia marcada para essa semana (em que vão fechar acordos milionários para a compra de helicópteros e caças). 

O fato é que a Índia está somando o pior de dois mundos: a população feminina está basicamente encolhendo como na China (pela preferência tradicional por filhos homens, infanticídio de meninas e abortos clandestinos) e o número de estupros está explodindo como na África do Sul (aumento de 875% nos últimos 40 anos!). Isso num país com população enorme e carência de serviços fundamentais para a maioria.  

Existe uma relação entre pobreza e criminalidade, mas no caso do estupro sempre pesa o fator cultural. Na África chega a ser uma arma de guerra, e no caso da Índia parece ser um elemento de reafirmação de identidade masculina (e falta de caráter, diga-se de passagem) ou qualquer bobagem do gênero. Enquanto isso, quem sofre são as indianas, mais uma vez em situação de risco. Por isso chega a ser uma surpresa positiva o fato desses protestos por justiça, em um país que passa a impressão de “acomodação” (com todo respeito à cultura e tradição local) com relação a questões sociais. Não vamos pensar em termos de “revolução”, mas parece que pode estar havendo uma mudança importante para o povo indiano.


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Há um ano...

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Há um ano, talvez um dos assuntos mais comentados internacionalmente tenha sido a retirada das tropas estadunidenses do Iraque (reveja o post aqui). Após nove anos, e cumprindo uma das promessas de campanha de Obama, o fim desta polêmica e violenta ocupação mereceu destacada atenção da mídia e da comunidade internacional.

Um ano depois, contudo, a violência ainda marca a rotina iraquiana, em um estado de tensão constante que infelizmente parece não ter se alterado tanto desde a saída dos soldados norte-americanos. O medo de que a Síria venha a se tornar um “novo Iraque” ainda aparece nas discussões deste ano, em meio a um dos conflitos internacionais mais complexos e devastadores da atualidade.

Nesta mesma época do ano passado, um anúncio importante no âmbito econômico internacional também mereceu destaque: a entrada da Rússia na Organização Mundial do Comércio (OMC), após um longo período de negociações (post aqui). Anunciada há um ano, a importante participação russa na organização (156º membro) foi oficializada apenas em agosto deste ano, sendo ainda tema de discussão na cúpula bilateral entre a União Europeia e a Rússia desta semana.

Depois da entrada da China na OMC em 2001, este fato foi considerado um dos eventos mais importantes da década no que se refere ao comércio internacional e ao incentivo ao progresso econômico a longo prazo no país.

Por fim, há um ano realizamos também aqui no blog uma interessante série sobre a Indústria de Defesa no Brasil, após a participação de três colaboradores do blog em um evento a este respeito. Vale a pena reler os posts e se inteirar sobre o assunto (sempre atual) aqui: 1, 2 e 3.

Postando e relembrando no blog, o próximo “Há um ano” será publicado já às vésperas de mais um Ano Novo. Bem-vindo seja 2013!


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Conversando com a Teoria

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Gênero e Relações Internacionais

 

Um dos propósitos desta série mais atual do “Conversando com a Teoria (?)” é trazer ao debate uma evolução do modo de se estudar, compreender e entender o universo das Relações Internacionais. Conforme foi pontuada lá atrás no primeiro post, a ideia foi justamente sair do campo teórico e abranger o conceitual. Após passarmos por temáticas envolvendo governança, cyberespaço e redes, chegamos a um ponto bastante recente desta área de estudos: a questão de gênero, a qual envolve o Feminismo ou perspectiva (teoria) feminista das políticas internacionais. 

É um tema pouco estudado na academia. Podemos até dizer que ele é posto em segundo plano, não sendo recompensado por seu devido valor. Uma das maiores referências e especialistas do mundo sobre gênero é Ann Tickner e ela afirma com convicção que existe uma falha nas Relações Internacionais em não considerar estas questões nos debates. 

A Escola Feminista inaugurou uma nova fundação e novas fronteiras na agenda internacional. Buscou compreender qual o grau de participação e como as mulheres estão inseridas nas mais variadas políticas mundiais. Mais importante ainda, não procurou mudar apenas as visões hegemônicas existentes entre masculino e feminino, mas inaugurou uma nova metodologia para as questões políticas. Para as feministas, ignorar o papel das mulheres neste meio é como enfraquecer o entendimento das Relações Internacionais, propriamente ditas. 

Dois exemplos evidenciam este processo. Primeiro, o mercado de trabalho global. Segundo, o militarismo e as guerras. De acordo com dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2007 as mulheres ganhavam cerca de 10% a menos que os homens. Nas indústrias de exportação de manufaturados, bem como no turismo, a grande maioria dos trabalhadores são do sexo feminino e concentram os piores salários em comparação com outros setores. Para a Escola Feminista, a “flexibilidade” e a “produção maximizada” nas fábricas são umas farsas. Do outro lado, nas guerras, mulheres são estupradas e impostas a outros tipos de dominação. No meio militar existem mudanças significativas, todavia em muitos casos o gênero é ainda uma relação de poder. Um acaba por predominar sobre o outro e confirmar a velha estrutura patriarcal que muito bem conhecemos. 

É uma perspectiva de questionamentos. O Feminismo veio para “complicar” as Relações Internacionais e é extremamente benéfico para nosso atual estágio de inquietudes. Trazendo questões sobre gênero, masculinidade, mulheres e assim por diante, é uma escola vital para o entendimento de alguns processos internacionais. Se ligarmos as relações de poder com gênero, veremos que existe um imenso rol de pesquisas possíveis. Se as Relações Internacionais também são sociais, é impraticável nos desvencilharmos dos embates sobre gênero. Mesmo não sendo colocadas em destaque por várias perspectivas, as feministas merecem seus lugares ao sol. 

PS1: Aos interessados nesta área, uma boa indicação de leitura, além dos textos da já citada Ann Tickner, é o livro “Gender Matters in Global Politics: A Feminist Introduction to International Relations” editado por Laura Shepherd. 

PS2: O Feminismo é ainda muito questionado nas Relações Internacionais. Não se sabe ao certo sua aplicabilidade e coesão teóricas. Procurou-se, aqui, dizer que a temática de gênero é necessária para alguns estudos da nossa área, assim como explicitado no mercado de trabalho e no ambiente militar.


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O fim que é recomeço

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E nesta mítica sexta-feira 21/12/12, o assunto no blog não poderia ser outro que o fim de uma era histórica, segundo o calendário maia – ou o suposto “fim do mundo”, segundo os fins comerciais e midiáticos dos nossos tempos… 

Tantas profecias e especulações em relação ao um possível “fim do mundo” parecem refletir a influência hollywoodiana sobre o imaginário mundial, alimentando uma fantasia que atormenta alguns [leia aqui ou aqui], diverte outros tantos [confira aqui o trailer do fim do mundo narrado por Galvão Bueno], e certamente gera altos lucros a determinados setores da sociedade. São impressionantes os milhões de turistas e de investimentos públicos e privados para as celebrações na Guatemala e no México, onde estão concentrados os maiores aglomerados populacionais de origem maia. [Estima-se entre 6 e 9 milhões a população maia atual na América Central, especialmente nestes dois países.]

Ao mesmo tempo, os herdeiros vivos desta antiga e inigualável civilização infelizmente não merecem a mesma atenção que suas lendas manipuladas por nossa sociedade do consumo. Vivendo em estado de miséria – que afeta 73% da população descendente maia na Guatemala, por exemplo – os povos de origem maia sofrem hoje em dia racismo e discriminação, além da falta de terras para o cultivo de alimentos e a problemas em relação aos serviços de saúde e educação.

Ironicamente, uma exposição sobre a cultura maia foi realizada recentemente em um dos museus mais importantes de Paris, atraindo a atenção de toda a alta sociedade europeia… valorizamos o passado e esquecemos o presente? Parece que sim.

Ao fim de uma longa era de aproximados 5.200 anos, segundo as históricas previsões maias, a data de hoje simboliza apenas um recomeço, com a esperança de melhores dias que sempre cultivamos a cada final de ano. Acreditando em uma nova era de espiritualidade renovada, esperemos, pois, que toda esta atenção voltada aos maias durante esse ano de 2012 possa vir a promover um real impacto positivo nas condições de vida de seus descendentes atuais, nada semelhantes a todo o “glamour” das comemorações oficiais deste dia…


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O novo e o velho

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Nos últimos dias tem-se tido uma mistura de sensações na terra do Tio Sam. O “novo” e o “velho”. Ou melhor, expectativa e a conservação no tema das armas de fogo. Atiradores malucos com gravíssimos problemas psicológicos massacrando inocentes com armas já são uma constante nos Estados Unidos. O velho. 

No mínimo uma vez por ano ouvimos falar de alguma atrocidade do gênero. O último foi o massacre no colégio de Sandy Hook, na cidade de Newtown, em Connectcut que deixou 27 pessoas mortas, dentre elas 20 crianças. Com a tragédia, veio também, provavelmente pela milésima vez, o ímpeto de discutir o porte de armas de fogo no país. Ainda, o velho. Algo que no Brasil, com também uma dose de polêmica, se resolveu com o referendo de 2004. 

A diferença é que nos EUA a discussão sempre vem à tona em torno da tal segunda emenda da constituição. Basicamente, trata-se daquele artigo escrito no século XVIII que garantia aos americanos as armas de fogo para que pudessem se proteger contra os ingleses. O problema é que o lobby pró-armamentos, financiado pela National Rifle Association (NRA) é muito forte e o tema divide tanto republicanos e democratas quanto o restante da população. É interessante que para muitos estadunidenses o porte das armas de fogo lhes é tão caro que retirar seu direito de tê-las significaria aliená-los de sua própria liberdade (clique aqui para reler um post no blog sobre o tema).

Liberdade essa que para muitos tem sido custosa demais. Segundo estimativas, nos EUA morrem 34 americanos por armas de fogo por dia. Em alguns estados, como Columbia, Maryland e Virginia, mais pessoas padecem dessa forma do que por acidentes de trânsito. Em 2010, por exemplo, morreram aproximadamente 1280 pessoas em acidentes e 1512 por armas, segundo estudo da Violence Policy Center. 

Em defesa do controle do porte de armas, a mesma organização estimou que tanto o volume de armas por pessoa quanto o por casa tem declinado no país nos últimos anos. Entre 1990 e 2010, o valor caiu aproximadamente 13,5%, podendo significar desde a redução da popularidade do esporte de caça até o envelhecimento da população que tem porte e um desinteresse dos mais novos por essas armas. Mesmo assim, o Escritório da ONU contra Armas e Crimes (UNDOC) aponta os EUA como o país mais armado do mundo, com a média de 270 milhões de armas em posse da população em 2007. 

Esses dados não significam que os EUA sejam um país extremamente violento, simplesmente que cresce a probabilidade de que pessoas com problemas psicológicos severos e péssimas intenções se apoderem de armas. Além do que, muitas das armas que são contrabandeados para países do restante das Américas saem dos Estados Unidos. Nos EUA, por exemplo, com esse fácil acesso às armas de fogo, a taxa de óbitos por armas de fogo é de 3,2 por 100 mil habitantes, enquanto que, no Brasil, com sua legislação mais rígida, chega a 19,3 por 100 mil habitantes. 

Mesmo frente a esse cenário e após o atirador de Denver, em julho desse ano, ter matado 12 pessoas em um cinema, os candidatos à presidência mal quiseram mencionar a questão do controle às armas. O velho repetido. 

Agora, com mais um massacre (e passadas as eleições…), Obama apontou que quer mudar de postura. Que, a partir de agora, vai considerar o controle do porte de armas de fogo uma de suas prioridades em 2013. Defendeu até falar sobre isso em seu discurso sobre o “Estado da União” no início do ano. Finalmente, o novo. Mas será mesmo? 

As propostas vão desde a apresentação de atestado de psiquiatras para a compra de armas até maior rigidez para compra de armas automáticas e de balas (pois, uma pistola poderia ainda ter matado as crianças, mas, talvez se tivesse que ter parado para carregar, menos teriam morrido). Bom, seja como for, a história fica para o ano que vem. Espera-se que o tema volte à pauta e o “novo” não deixe de ser expectativa para se tornar o “velho”, mais estatísticas de atrocidades.

[Post escrito pelo colaborador Raphael Lima.]


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Crescei e multiplicai-vos

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Em épocas de massacres em escolas e guerras civis intermináveis, vamos falar de vida. Bom, pelo menos não de vida em si, mas de populações, já que pra que haja um país deve haver pessoas nele. Na semana passada, o presidente da Rússia, Vladmir Putin, fez o seu primeiro discurso à nação desde a reeleição, e além das cutucadas de sempre na política exterior dos EUA, abordou alguns problemas mais corriqueiros de lá. O principal deles, a retração da população, que caiu quase 10 milhões de pessoas desde o fim da URSS. Putin pediu para que a população não perca a unidade, e advertiu que sem força de trabalho o país pode ir à ruína. É um caso bem complicado, já que a imigração para lá é quase nula, e o país não está em condições das melhores quando falamos em economia. A solução é ter muitos russinhos, que possam levar o país nas costas mais pra frente.

A situação é bem parecida (se não pior) no Japão. Semana passada, por exemplo, o general Colin Powell deu uma entrevista uma emissora japonesa, em que comentou sobre o fato de ser muito importante para as novas gerações de lá que deixem um pouco os quadrinhos e tecnologia de lado para que assumam a tarefa de produzir e levar o país adiante. A pergunta em específico era sobre os “herbívoros”, jovens que passam mais tempo em casa cuidando de sua vida do que procurando garotas, mas fica a mensagem – num país com taxa de natalidade negativa, população idosa crescente e imigração mínima, é imperativo que haja um esforço para um novo “baby boom”. 

São problemas que afetam menos os países com muita variedade de recursos e populações enormes, como Brasil, China e EUA, mas já se pode pensar num alerta. O Brasil, por exemplo, está com sua pirâmide etária se estabilizando e taxas de natalidade diminuindo. Antes exportávamos mão-de-obra, mas agora temos gente vindo de todos os lados, e nos dois extremos, de latino-americanos fazendo serviços de baixa renda (ou, pior ainda, em regime semi-escravo), a muitos europeus fugindo da crise e assumindo vagas de alto desempenho (como engenheiros) pela falta de gente qualificada aqui. 

Nosso país não enfrenta um envelhecimento avançado como o do Japão, nem uma retração catastrófica como a da Rússia, e não precisa que o governo incentive as pessoas a ter filhos, mas ao mesmo tempo parece estar chegado ao limite da sua produção de força de trabalho, e já atrai imigração há algum tempo, mas sem ter uma economia madura o suficiente pra demandar isso. É uma perspectiva preocupante. Não precisamos de uma anomalia populacional como China ou Índia, mas as lições de Rússia, Japão e até mesmo da Europa como um todo podem mostrar ao Brasil como o planejamento familiar é um fator importante para a manutenção de um país em condições economicamente viáveis.


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