quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O fado tropical


Uma belíssima canção de Chico Buarque, da qual este post é homônima, apresenta dois versos magistrais que, em grande medida, ajudam a entender a atual realidade brasileira: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”. Depois da queda de tantos ministros, tem-se veiculado na mídia e enraizado no senso comum que todos os problemas do Brasil se resumem à corrupção. Em uma análise bastante limitada, a assertiva se confirma, mas, quando se trata de uma análise histórica, desde a formação de nosso país, verifica-se que o mal do Brasil é o fado tropical que corre em seu sangue verde, amarelo, azul e branco.

Em um brilhante artigo ao Correio Brasiliense, Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Vox Populi, lida de maneira muito perspicaz com essa ideia de que a sociedade se acostumou, historicamente, a condensar os problemas brasileiros em torno de um grande mal. Por exemplo, entre os anos 1810 e 1820, a formiga saúva foi a grande vilã do Brasil, e Mario Andrade, ao brincar com a frase de um viajante estrangeiro, ilustrou bem essa situação: “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são!”. Aliás, a própria questão sanitária, por um bom tempo, prevaleceu como a mais grave no país, concebendo as doenças como o motivo do atraso brasileiro – isso se consagrou no personagem Jeca Tatu, de Monteiro Lobato.

De todos os males que já se listaram, o de maior conteúdo explicativo é a herança ibérica, que remonta as Raízes do Brasil, livro de Sergio Buarque de Holanda, historiador e pai do compositor mencionado acima. Fundamentalmente, Sergio Buarque recupera o peso da colonização lusitana para a formação do Brasil. O espírito aventureiro do português contribuiu para ampliar os limites geográficos, bem como alimentou o insaciável desejo de sempre querer mais e a necessidade por resultados imediatos. Acresce-se a isso a transmutação de uma sociedade individualista, rural, patriarcal e personalista para o Brasil, na qual as pessoas tendiam a zelar pelos interesses privados ao invés dos interesses públicos e que a aristocracia, tão bem descrita nos romances machadianos, reinava. A construção de nosso país é indissociável à construção de nossa sociedade e mentalidade, cujas aspirações da grandeza aristocrática sempre estiveram presentes, ainda que sob a orientação de uma ética maquiavélica, em que os fins importam, e não os meios.

É preciso transcender as simplificações fashion que cegam o senso crítico. Notem um ponto curioso levantado por Afonso Romando Sant’anna em artigo publicado na Estado de São Paulo: “o Brasil não produz livros “demais”, o Brasil produz leitores de menos”. Um dado ilustrativo é que há 2.600 livrarias e 2.500 cinemas, enquanto há 109.000 lan-houses. Outro dado, extra-oficial, que poderia ser adicionado é que, atualmente, cerca de dois terços dos Secretários Municipais de Saúde não tem sequer o ensino médio completo. Diante dessa situação, pode-se afirmar que a corrupção não é tudo! Faltam leitura, capacidade e vontade da sociedade para dar respostas à altura dos problemas brasileiros. O povo desconhece seu príncipe, enquanto o príncipe bem sabe como o povo se comporta. O distanciamento acrítico entre governantes e governados possibilita a manutenção dos caprichos dos primeiros sobre os últimos.

O Brasil, com seu fado tropical, está se tornando um imenso Portugal semi-feudal. A corrupção é produto da herança lusitana, que se profilera no tempo e espaço. A tradição personalista e patrimonialista que herdamos dá origem a pequenos nichos de poder. A aristocracia zela por interesses próprios, esquecendo-se dos interesses da nação. O espírito aventureiro, cujo traço marcante é o imediato, sustenta os desejos de ascender aos círculos aristocráticos e, quando os alcança, os recém-chegados incorporam a mesma mentalidade. O povo, por sua vez, permanece sem compreender o que acontece, além de optar por enxergar todos os seus males na corrupção. Ainda que esta acabe, a estrutura que a retro-alimenta não se extinguirá. É preciso pensar o Brasil, e não reproduzir irrefletidamente ideias reificadas!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Um mundo em lotação: a esperança

Enfim, chegamos à última postagem sobre os 7 bilhões de habitantes do planeta Terra e suas repercussões. Desde já, é preciso ressaltar que esta discussão não deve ser encerrada aqui, e sim prosseguir entre vocês, leitores, e seus familiares, amigos, namorados(as) e demais conhecidos, com a finalidade de produzir novas e instigantes reflexões. Afinal de contas, este é um tema que interessa a todos nós e nos permite, com muita atenção, prospectar o futuro e delimitar nossas escolhas, a bordo de uma astronave que tentamos pilotar, como canta Toquinho em sua Aquarela.

Acompanhamos, ao longo das postagens que cobriram esta temática, desafios hercúleos, dados intrigantes (alguns revoltantes) e perspectivas de mudança diminutas. Ficamos, sim, desolados. Mas a vida é uma caixinha de surpresas, como diria Joseph Climber, personagem interpretado pela companhia teatral Melhores do Mundo, e o que se deseja, ao fim e ao cabo destas postagens, é transmitir uma mensagem esperança. A humanidade, embora seja uma família estranha, detém amor profundo.

O potencial humano não pode ser subestimado nunca. E, muitas vezes, ele é encontrado nas coisas mais simples. Uma mãe faz o possível e o impossível para sobrevivência de um filho, um filho faz o possível e o impossível para cuidar do pai doente e assim por diante. Vejamos um exemplo. Em uma palestra em 2005, o ex-comandante da Force Commander da MINUSTAH, o General-de-Divisão Augusto Heleno Ribeiro Pereira, exaltou o amor próprio do povo haitiano, pois em se tratando de um país pobre e com freqüente falta de energia, as pessoas sempre andavam bem vestidas, limpas e com as roupas bem arrumadas. Com tantas coisas para se preocuparem, tanta tragédia acontecendo, lá estavam os haitianos valorizando-se e sorrindo.

Nestas sombrias eras de escassez, de duas escassezes mais especificamente, uma que priva o mundo de seus recursos, outra que priva as pessoas de suas ideias, assistiremos a vivificação de muitos Fabiano’s de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e de muitos Severino’s, de João Cabral de Melo Neto. Os primeiros adaptam-se ao meio, os segundos retiram-se do meio. Água, alimentos, energia, entre outros recursos, não duram para a eternidade, e a má gestão deles pela comunidade internacional exacerba problemas, desloca pessoas, alimenta tensões e costura um frágil tecido social, materialmente distinto e culturalmente diversificado. Essas personagens já encontram seus dramas reais, como demonstra o Relatório do Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA) sobre a situação da população mundial em 2011, e já articulam mudanças, despertam sonhos e sustentam a esperança.

Nossas personagens reais e seus congêneres responderão as escassezes, talvez com protestos que culminem em ciclos de violência, talvez com o diálogo pacífico que termine em processos negociados. Riqueza não é tudo. Uma vida digna que nos permita ser felizes, sim. Para isso, não importa se o país é rico ou pobre, democrático ou autocrático, se as pessoas forem privadas de direitos que lhes são inerentes, elas sairão às ruas e os protestos de 2011 exemplificam bem isso. Por enquanto, as pessoas enrolam-se em suas bandeiras, mas, no futuro, pode ser que se abracem em nome da bandeira da humanidade, independentemente de pátrias e territórios. Outra vez, poderíamos retomar a poesia de Melo Neto, em sua estrofe final: “E não há melhor resposta/que o espetáculo da vida:/vê-la desfiar seu fio,/que também se chama vida,/ver a fábrica que ela mesma,/teimosamente, se fabrica/vê-la brotar como há pouco tempo/em nova vida explodida.”

Por trás de cada número, há uma possibilidade e uma potencialidade. Há uma esperança. É certo que enfrentaremos grandes dificuldades quando uma nova aurora nascer, mas tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, diria Tom Zé. A incerteza, nas palavras do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, é o hábitat natural da espécie humana, e as nossas vidas, quer queiramos ou não, são obras de arte, o que exige estabelecer desafios difíceis de confrontar e escolher alvos e padrões de excelência muito além do nosso alcance. É preciso tentar o impossível. A esperança não é necessariamente a última que morre, e sim a primeira que vive: é o que acreditamos e esperamos que determinam nossas escolhas. E lembremos, para encerrar, uma canção chilena de Violeta Parra, intitulada La esperanza: “Não pode nem o mais extravagante/passar em indiferença/se brilha em nossa consciência/amor pelos semelhantes.”

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Ladrão... que rouba ladrão?




Enquanto o mundo presta atenção no Oriente Médio e suas agitações, vamos um pouco mais ao sul de lá, mais especificamente no Chifre da África. Já falamos da Somália aqui no blog esse ano. O tema foi, como muitos devem saber (e é o modo que a mídia mais mostra o país africano), a crise de desabastecimento e a fome decorrente. Mas a Somália também anda conseguindo destaque nos jornais com outro assunto, que é o ressurgimento da pirataria em suas águas, rota marítima obrigatória entre Ásia e Europa.


A história é conhecida: pequenos barcos rápidos abordam cargueiros e exigem resgates aos governos. Claro que os países civilizados, nobres e justos, não deixam isso barato e enviam navios de guerra pra protegerem suas frotas mercantes. Afinal, não é como se a OTAN tivesse coisa melhor para fazer. E o tratamento dedicado aos criminosos varia de acordo com o humor e a origem da marinha. Se os piratas têm sorte, podem ser presos por franceses, que dão até comida para os maltrapilhos. Agora, se tiverem o azar de encontrar os russos... (Talvez uma herança truculenta herdada da URSS? É famoso o caso de um navio ucraniano em que africanos clandestinos foram mortos friamente para que a companhia não pagasse uma multa ao chegar na Europa. Virou até filme.)


É claro que a pirataria tem muito a ver com a crise e a fome naquele país. E boa parte da culpa, adivinhem, é de outros países e causada por um fator que quase ninguém conhece por esses lados: a falta de controle do Estado sobre o mar por lá. A equação é simples: barcos pesqueiros de diversas nacionalidades (europeus, chineses, japoneses...) praticam toda sorte de pesca ilegal e irregular nos mares somalis, sem serem incomodados; acabam os cardumes, o principal recurso alimentar do país é esgotado e uma forma de sobrevivência milenar de comunidades pesqueiras é destruída. Com isso, muitos adotam a solução extrema de partir para o crime, e como em qualquer lugar do mundo, o lucro dessa “vida fácil” faz com que grandes “lordes” piratas enriqueçam astronomicamente e mantenham o ciclo funcionando – um negócio tão lucrativo que acabou com as rixas entre clãs, tão comuns na África. Ser pirata virou status e uma ocupação comum por lá. E a coisa ainda fica pior – depois do tsunami de 2004 (aquele que causou estragos cataclísmicos na Ásia) descobriu-se que o mar da Somalia também virou um depósito aberto de lixo nuclear e tóxico. Como se as coisas já não estivessem ruins por lá...

Você pode ver um chocante e breve documentário sobre o tema aqui. E esse é apenas mais um dos casos em que as questões que chegam aos nossos ouvidos não contam a história toda. Pense no que ouvimos sobre esse tema. Fome na Somália? Claro que é resultado de governos ruins e guerra civil, o de sempre na África. Pirataria? Um óbvio crime contra o comércio internacional, uma barbaridade, que deve ser combatida com medidas “extremas” pra não sair do controle. Mas são apenas peças de um quebra-cabeça muito maior, em que seus efeitos são cíclicos e alimentam a miséria e a corrupção, sob vista grossa dos governos ocidentais. Não se pode defender o crime dos piratas, mas ao mesmo tempo é lamentável ver a que situação se chegou naquele país e difícil não sentir pena dos que acabam enveredando por essa vida (claro que não se precisa sair do Brasil pra entender essa lógica... é a globalização da miséria). Nisso quem perde, é claro, é o lado mais fraco, com a Somália sendo roubada, massacrada e, o pior de tudo, ignorada.

domingo, 27 de novembro de 2011

Eu voltei (na Rússia)

"Eu voltei agora pra ficar
Por que aqui, aqui é o meu lugar
Eu voltei pras coisas que eu deixei,
Eu voltei"

A música de Roberto Carlos descreve um retorno, uma volta para as coisas deixadas para trás. Algo definitivo, como o retrato na parede. Foi como se não tivesse partido. No nosso caso, a vida imita a arte, mesmo que não plenamente. Vladimir Putin, atual primeiro-ministro russo, aceitou a indicação de seu partido para concorrer à presidência de seu país. Contudo, alguém realmente acreditou que ele havia passado o bastão para Medvédev? Voltou sem ir a nenhum lugar.

O presidente em exercício, um tanto quanto fragilizado ante seu mentor, propôs uma troca de papéis. Sai Medvédev e entra Putin para presidente, ao passo que este passa o posto de premiê para aquele. Uma renovação, nas palavras do próprio mandatário, que encontra forças neles mesmo, uma continuidade que permita saber quem estará no controle do Estado. Agora, vai ser abertamente Putin esta figura central. Medvédev mesmo admitiu “Putin é o político com mais autoridade em nosso país”. Será que, frente tal reconhecimento, ele aceitou de fato ficar na sombra de um presidente menos graduado por quatro anos?

Para completar, uma comparação levantada pelo atual presidente tenta demonstrar a naturalidade da transição que muito provavelmente será feita (as eleições ocorrerão em 4 de dezembro). Seria como a aliança estabelecida entre Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, e Hillary Clinton, escolhida para comandar o Departamento de Estado. Na visão dos mandatários russos é o que ocorrerá no país, uma espécie de concertação entre políticos do mesmo partido pelo bem na nação. Só esquecem que no caso norte-americano houve uma disputa feroz nas prévias do partido democrata e que a aliança foi selada posteriormente, ao contrário do que ocorreu na Rússia.

Putin deve voltar para o que nem chegou a deixar. O seu retrato não saiu da parede, muito menos amarelou. Por outro lado, sua popularidade perdeu o embalo e seu projeto de estabilidade ganhou contornos de estagnação. A tendência de queda do preço do petróleo pode dificultar ainda mais a situação, podendo tragar a Rússia para um buraco similar ao de alguns países europeus. Corrupção e nacionalismo são temas que poderiam voltar à tona, numa tentativa de minar a candidatura de Putin, ainda que com chances pequenas de consolidarem um caminho para a vitória da oposição. Quase todos os indícios apontam para sua volta.

O destino da Rússia pelos próximos anos já parece estar traçado. A princípio, parece que Medvédev manteve a cadeira pronta para seu mentor. Um retorno mais doce do que o imaginado por Roberto Carlos:

"Eu cheguei em frente ao portão
Meu cachorro me sorriu latindo,
Minhas malas coloquei no chão.
Eu voltei." (Roberto Carlos)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Recorde mundial

A Bélgica está estabelecendo um recorde mundial difícil de ser batido. Contudo, infelizmente, não se trata de nenhum assunto do qual os belgas possam se orgulhar: o recorde em questão envolve o tempo sem um governo nacional estabelecido. Há um ano e meio (mais de 500 dias!) debates infrutíferos se alastram e a crise política nacional se intensifica...

Para um país de 10 milhões de habitantes (população equivalente apenas à cidade de São Paulo), a organização política da Bélgica é extremamente complexa de se entender (segundo os próprios belgas!). O país é composto por três regiões e três comunidades principais, bastante distintas entre si – tanto em termos culturais como políticos. Três também são as línguas oficiais belgas, mas isso não significa que as regiões do país inteiro se comuniquem entre si nas três línguas, muito pelo contrário (à exceção da região de Bruxelas).

A região de Bruxelas-Capital é a mais cosmopolita, que move o "coração da Europa" abrigando as principais Organizações Internacionais e sendo a capital de fato da União Europeia. Na Valônia, por sua vez, se encontram os francófonos, em Flandres os flamengos (língua holandesa) e na fronteira com a Alemanha a reduzida comunidade germanófona (mapa abaixo). [O vídeo da série "For dummies" sobre o assunto é crítico, mas bastante ilustrativo, disponível aqui.]

Em meio a toda essa diversidade, a Bélgica tem uma monarquia parlamentarista como sistema de governo, o que significa que existe um rei que exerce o papel de Chefe de Estado e (deveria existir) um Primeiro-Ministro no papel de Chefe de Governo. E aí é que se encontra a principal dificuldade: há cerca de um ano e meio o país não chega a um acordo em relação à formação do governo federal. [No começo do ano aconteceu até a chamada "Revolução das Fritas", promovida pelos jovens belgas em protesto contra a situação.]

Essa semana, com o fracasso das negociações políticas (em relação à formação do governo) e econômicas (em relação ao Orçamento Nacional), ocorreu a renúncia de Elio di Rupo – líder francófono que exercia o cargo de Primeiro-Ministro interinamente por indicação do rei com o objetivo de buscar consensos – a crise se intensifica. E, pela primeira em todo esse tempo, hoje a União Europeia cobrou publicamente uma resolução da questão o mais rápido possível.

Se não bastasse a tensão política, hoje ainda foi divulgado mais um indicador negativo, dessa vez em termos econômicos: a classificação internacional da Bélgica no ranking financeiro da agência Standard & Poor's foi rebaixada de AA+ para AA, em clara referência às dificuldades econômicas que atingem toda a Europa nesse momento.

Para um país cujo lema, paradoxalmente, é "A União faz a força", a Bélgica enfrenta dificuldades históricas em termos de diálogo entre suas comunidades. O momento político e econômico europeu é crítico e a Bélgica, tal como a maioria dos países do continente, não passa ilesa por ele. Enquanto isso, o recorde mundial belga de tempo sem governo - infelizmente - só aumenta.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Trocando seis por meia dúzia


É possível estar em dois lugares ao mesmo tempo? Fisicamente falando a resposta é não. E se alterarmos a questão. É possível estar em dois tempos simultaneamente? Avaliando os resultados dos últimos eventos no Egito, acredito que possamos esboçar uma resposta bem positiva. O país parece materializar o significado de dois tempos em um só. Se de um lado, a população, fragmentada, vive a tal da primavera árabe, o florescer da democracia que a mídia e os Estados Unidos tanto louvam, de outro, a junta militar no poder vive a ditadura dos tempos de Hosni Mubarak.

Temos visto isso nos últimos movimentos que o país tem enfrentado. Os conflitos seculares entre cristãos e islâmicos aliados aos protestos dos (mais uma vez) ocupantes da praça Tahir contra o governo da junta militar dão o tom do que o Egito de fato vive: uma transição. Se em algum momento pensou-se na Primavera Árabe como uma ruptura, pensou-se de maneira precipitada. Aqui mesmo no blog, o Álvaro já questionou a validade do conceito da Primavera Árabe em um post anterior, dizendo que ela já virou outono.

Ou, talvez, tenha sido primavera. Mas em um jardim que os brotos só virarão flores se tiverem as condições certas. E, caso não tenham, os brotos podem vir a morrer e a primavera vai passar sem mudanças significativas. Em outras palavras, enquanto não se constituir um governo estável com uma constituição, um conjunto de leis satisfatório à população, não se pode falar de um resultado, mas sim de uma fase que pode nem resultar em algo emblemático no futuro. Seria como trocar seis por meia dúzia.

Mas e agora? Qual seria o próximo passo? Bom, atualmente, aos egípicios que viveram sob 30 anos de uma ditadura, há um certo receio que o governo da junta miltiar possa estar no caminho de “ditatoriar-se”. Um pouco desse sentimento provém da lógica militar que age mais sob o senso de cumprir missões, poucas vezes aceitando “não” como resposta. O que também traz o outro problema do baixo grau de diálogo proposto na nova constituição. Uma razão adicional desse sentimento provém dessa falta de um controle da população sobre os militares, e, meus caros, é aí que mora um dos grandes problemas.

Um belo exemplo disso é o Brasil da década de 1960. Há quem diga que vivemos em 1964 uma “revolução democrática”. E, no sentido histórico, talvez não esteja completamente descabido. O golpe militar teve apoio da elite brasileira e de parte significativa da classe média que, grosso modo, temia que o país caminhasse para o comunismo. Todavia, nos anos subsequentes, observou-se emergir um governo que tornou a exceção uma regra e que todos sabem o fim da história.

Sendo assim, é importante que, embora fragmentada, a população (ou partes dela) tente trabalhar no sentido de construir um controle civil sobre os militares para não garantir que eles interfiram demais na política, pois a maior parte desses oficiais foram gestados sob os tratos no querido Mubarak e até mesmo seus candidatos são farinha do mesmo saco. Bom, se na teoria é fácil falar desse processo, já na prática...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Um mundo em lotação: os Adams vêm aí!

Já apresentamos a situação do mundo na atualidade e os possíveis desdobramentos críticos para o futuro. Se, por si mesmo, os dados apresentados em outros posts chamam muito a atenção, imaginem quando adicionamos o crescimento populacional. Inevitavelmente, despertamos mais inquietações. Os Adams vêm aí... Pandandandan!

São sete bilhões de pessoas no mundo. Por vezes, uma família estranha, que a surpresa é tamanha, cheia de artimanhas, parecida de outro mundo, mas com amor profundo e sem parar um segundo. Sim, os Adams vêm aí! Este jingle, por certo, é uma representação simples, e muito boa, da humanidade vivendo em um planeta lotado, neste século XXI.

Ora, vejamos, inicialmente, por que o crescimento populacional é surpreendente, embora não destoe inteiramente das estimativas feitas. De acordo com os dados oficiais da Divisão de População do Departamento de Economia e Assuntos Sociais das Nações Unidas: “O rápido crescimento da população mundial é fenômeno recente. Há cerca de 2.000 anos, a população mundial era de cerca de 300 milhões. Foram necessários mais de 1.600 anos para que ela duplicasse para 600 milhões. O rápido crescimento da população mundial teve início em 1950, com reduções de mortalidade nas regiões menos desenvolvidas, o que resultou numa população estimada em 6,1 bilhões no ano de 2000, quase duas vezes e meia a população de 1950. Com o declínio da fecundidade na maior parte do mundo, a taxa de crescimento global da população tem decrescido desde seu pico de 2,0%, observado no quinquênio 1965-1970.”

Se isso já é surpreendente, vejamos os cenários futuros que advêm da chegada dos Adams ao mundo: 1) se a taxa de fecundidade se manter no atual patamar, em torno de 2,5, a população mundial chegará a 15 bilhões de habitantes em 2100; 2) se a taxa de fecundidade decrescer para 2,0, então, haverá 10,1 bilhões de habitantes; 3) se a taxa de fecundidade reduzir drasticamente para 1,6, então, a população mundial poderá diminuir para 6,2 bilhões de habitantes. O cenário mais realista é o segundo, e o terceiro é pouco provável: a diminuição da população só aconteceu em momentos de grandes calamidades, particularmente doenças, como a peste bubônica e a gripe espanhola na Europa. A não ser que o filme Contágio se converta em realidade, a população não deve diminuir, mas seu crescimento pode desacelerar.

O relatório do Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA) sobre a situação da população mundial em 2011 apresenta considerações muito interessantes acerca do significado desses 7 bilhões de habitantes. Simultaneamente, estamos nos tornando uma população mais velha e mais jovem. Isso é paradoxal, mas é o que ocorre. Nos últimos 60 anos, a expectativa de vida saltou de 48 anos, no início da década de 1950, para 68, na primeira década do novo século, e a mortalidade infantil declinou de 133 óbitos para cada 1000 nascimentos, na década de 1950, para 46 em cada 1000, no período de 2005-2010. Pessoas com menos de 25 anos já compõe cerca de 43% da população mundial e, de acordo com uma reportagem do Valor, já nasceu a geração de pessoas que viverá 150 anos.

As pessoas fazem artimanhas para viver: migram em busca de melhores oportunidades ou se envolvem com atividades ilícitas, fazem a paz ou a guerra, sonham ou morrem. Em meio as suas escolhas, há desafios, choques culturais e, também, possibilidades. Na China, por exemplo, além da “política do filho único”, Shangai, com seus 20 milhões de habitantes, adotou a “política do cachorro único”: um Snoop por família. Alguns lugares estão e estarão lotados, outros, seguem e seguirão no esquecimento, como os rincões da África, nos quais predominam o que o geógrafo brasileiro Milton Santos chamou de “tirania das distâncias”, condenados a exclusão. Na China, também, a tentativa de controle populacional provoca choques culturais: há muitos jovens homens morrendo sem se casar. Isso, para a cultura chinesa, é perigoso, pois a vida espiritual é idêntica a vida terrena, e um homem solteiro pode ser um homem infeliz. Então, tornou-se hábito, e até mesmo um negócio, o casamento entre defuntos, mas a quantidade de mulheres é menor do que a de homens.

Poderíamos, neste post, tratar de questões como: os países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos estão crescendo, em termos populacionais, mais rápido que os desenvolvidos, que aqueles ainda não passaram por uma transição demográfica, o problema da mão de obra, entre outras questões. Mas isso acompanhamos diariamente na mídia. O importante, aqui, é tentar pensar na situação em que o mundo se encontra e como essas pessoas, esses Adams que vem aí, vão se inserir nele. Na semana que vem, fecharemos a série sobre o crescimento populacional, com as lições que poderíamos depreender de tudo isso e quais a possibilidades para o futuro.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Papéis invertidos?


Deu no jornal: o Brasil está se tornando um pólo de atração de migrantes. Não que não tenha sido no passado recente (no contexto da América do Sul e África), sem contar o passado que moldou a formação étnica variada do país – a imigração é um fenômeno histórico por essas bandas. A questão é que agora, com a crise no Europa, quem está vindo pra são trabalhadores altamente qualificados que vêm suprir deficiências de mercado.

Parece chocante receber gente de países mais ricos, mas não é nenhuma novidade o Brasil acolher gente do primeiro mundo. No passado vinham italianos, alemães, japoneses, mas para trabalhar de modo mais humilde, plantando café, soja e arroz. Agora, quem está vindo vem ocupar cargos importantes na construção civil, ciência e tecnologia e engenharia (como no setor petrolífero, que faz a alegria de holandeses e ingleses). Não deixa de haver a migração mais tradicional, como os refugiados políticos e os que vêm de países mais pobres em busca de melhores condições. A situação levanta duas considerações.

A primeira, é uma constatação surpreendente: segundo dados do Ministério da Justiça (veja aqui), apesar da fama de receptividade do povo brasileiro, o país recebe uma porcentagem de pedidos de asilo humanitário (de gente fugindo de perseguição ou guerras) semelhante ao dos EUA mas tem uma taxa de aceitação muito menor que em países com notórios problemas de aceitação ou contestação de imigrantes, como a Itália. O Brasil deporta muito mais “ilegais” que países europeus, e isso é um mero demonstrativo de como essas políticas de refugiados como um todo estão em xeque no mundo todo - até mesmo aqui... Agora, seria demais imaginar que esses “indesejáveis” estão passando pelo mesmo processo que muitos brasileiros enfrentam/enfrentaram no passado indo para Europa e EUA? Seria exagero pensar que o crescimento econômico está tornando o Brasil internacionalmente “elitizado”?

E isso nos traz ao segundo ponto: a onda de imigração por empregos de alta capacitação, além de expor uma grave deficiência na educação nacional (e não estamos falando apenas de engenheiros e pessoal de Exatas, mas técnicos, e essencialmente a debilidade do ensino médio e fundamental), mostra que o mercado em expansão está sendo obrigado a trazer gente de fora para cumprir funções específicas. É evidente que não vamos nos tornar uma Europa que joga a culpa de muitos problemas econômicos nas costas de ondas de imigração do leste, Ásia e África. Mas, até que ponto esse tipo de situação persistirá, e o Brasil começará a investir de maneira decente para suprir esses nichos com força de trabalho nacional? Não estamos falando que os estrangeiros não tenham direito de trabalhar aqui, se pinta a oportunidade, ótimo para eles. Mas, por que não temos brasileiros nesse tipo de função, que seria facilmente “ocupável” se tivéssemos gente capacitada?

Até quando um país que quer ser “grande” (e já diz há muito tempo por aí que é...) vai passar por uma situação dessas, tendo que importar mão de obra especializada e fechando a porta para quem precisa de asilo? Acho que deve ser um caso único no mundo, e não deixa de ser mais uma das inúmeras contradições (e, pra variar, coisas que se vê apenas por aqui) de nosso país...

domingo, 20 de novembro de 2011

Há um ano

Nosso tema em 2010 era o processo eleitoral na Nicarágua. O esperado se confirmou recentemente, Daniel Ortega ganhou com ampla maioria, apesar das discussões levantadas. Confirma-se, novamente, a tendência regional de manutenção no poder de líderes fortes. Exemplos não faltam. Muitas vezes as instituições ficam em segundo plano.

Pois bem, falávamos das perspectivas democráticas na América Latina. Nossos líderes tendem a buscar projetar uma imagem de salvadores da pátria, dizem ter paixão e desprendimento infindáveis pelo bem da nação. Não é isso? Neste sentido, passar o poder para outro político pode colocar tudo a perder.

Agora, no entanto, voltamos nossa atenção para outra região. A Grécia e a Itália ganharam novos líderes. Hoje é a vez da Espanha. O favorito é Mariano Rajoy, representante da oposição, impulsionado pela baixa popularidade do primeiro-ministro Zapatero. Diante de situações econômicas e sociais críticas, os novos governos enfrentarão imensos desafios.

A ironia reside justamente no fato de que os governantes europeus terão que personalizar o aplicado na América Latina. Afinal, só salvadores da pátria para aceitarem encarar os desafios em países como Grécia, Espanha e Itália. A difícil realidade não deve vir acompanhada por maior compreensão popular frente dificuldades, muito pelo contrário. Como já vimos em outras situações, propor e implementar a tal austeridade é legal mesmo na casa dos outros.

Obs: A apuração dos votos na Espanha não terminou, contudo o candidato da situação já reconheceu a vitória de Rajoy. O vencedor acaba de discursar e agradecer o trabalho de seus seguidores, diretamente da sede de seu partido.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Entre tapas... e beijos?

Existem limites à liberdade de expressão? Talvez essa seja uma das questões mais complexas em nosso mundo atual, em que a difusão da informação ocorre (quase) instantaneamente e em cuja realidade virtual as fronteiras parecem não existir. Com o lançamento da nova campanha de impacto da marca italiana Benetton, este assunto merece novamente destaque na mídia e causa polêmica.

Amplamente comentada na internet essa semana, a campanha da grife se intitula "Unhate" ("Deixe de odiar", em uma possível tradução) e apresenta fotos de grandes (e rivais) líderes mundiais aos beijos. Entre si! As cenas inimagináveis de carinho (?) envolvem Obama e Chávez (foto acima) ou Hu Jintao; os líderes das rivais Coréias; os europeus Merkel e Sarkozy; o premiê israelense e o líder palestino (foto abaixo); e até o Papa e o imã egípcio.

As reações foram automáticas. A China censurando as fotos; a Casa Branca criticando fortemente a campanha; o Vaticano movendo ação judicial contra a grife; e por aí vai... consequências absolutamente previsíveis e seria ingênuo que uma marca do porte da Benetton acreditasse que a resposta das autoridades não seria imediata ao lançamento de uma campanha deste porte.

Ao apresentar as principais divergências globais atuais em "convivência amorosa", a intenção teórica/política/retórica da marca é incentivar a tolerância e a busca pela paz no cenário internacional (até uma fundação sem fins lucrativos foi fundada com este propósito!). Na prática, o objetivo é menos nobre, mas não menos compreensível em uma lógica de mercado: ao alcançar novamente os holofotes midiáticos, a Benetton espera agora dar novo impulso às suas vendas, principalmente entre o público jovem.

Voltando à pergunta inicial do post, será que podem ser estipulados limites à liberdade de expressão? Questionamento interessante atribuído a Benjamin Franklin é o seguinte: “Os abusos da liberdade de expressão devem ser reprimidos; mas a quem teríamos a coragem de delegar esse poder?”. Esta parece ser a parte mais delicada da discussão. Ao utilizar a imagem dos líderes representados nas fotomontagens sem a autorização (que nunca viria) dos mesmos, a marca reacende a polêmica sobre a ética nos meios de comunicação.

Entre a (indesejável) censura e a liberdade de expressão absoluta existe um amplo meio-termo em que cada ente (indivíduo, Estado, empresa, etc.) deve sempre buscar a razoabilidade para estabelecer os critérios de divulgação das próprias ideias, campanhas e perspectivas. O direito à liberdade de expressão deve vir acompanhado do dever de saber utilizar-se desta em consonância com os princípios de respeito mútuo e tolerância. Princípios que (paradoxalmente?) a marca afirma querer propagar exatamente por meio de sua campanha.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Um mundo em lotação: onde estão os riscos?


Continuamos nossa saga. Quais os riscos que o crescimento populacional acarreta? Nós já sabemos que vai faltar alimento, água, energia e outros recursos, que, consequentemente, colocarão em risco à sobrevivência de muitas pessoas. A questão é: quando suas vidas estiverem em risco, o que essas pessoas farão? Não importa se a natureza humana é boa ou má, azul ou vermelha, todo mundo faz o possível e o impossível para sobreviver: uns acordam às 4h da manhã, gastam 2h andando de trem, metrô e ônibus para chegar ao trabalho e retornam para casa depois das 22h; outros roubam, traficam e matam. Assim é a vida. Em algum canto, alguém precisa alimentar um filho faminto, em outro canto, alguém resolve ser o Eike Batista da periferia.

Duas coisas não são fatos exclusivos do século XXI: por alimentos, as pessoas migram e brigam. Desde o período Paleolítico (até cerca de 10.000 a.C.), antes de se tornar sedentária, a humanidade era nômade, caçadora e coletora de seus alimentos. Com a passagem do período Neolítico (10.000 a.C. – 3.000 a.C.) para a Idade dos Metais, assistiu-se ao surgimento das civilizações e, também, da guerra na história escrita. Acredita-se que, na planície aluvional dos rios Tigre e Eufrates, onde se localizava a Suméria, nasceram as raízes da belicosidade, em disputas por água, pastoreio e limites. Já dizia o velho Machado de Assis em “Quincas Borbas”, ao analisar por que duas tribos lutam por batatas, e uma delas vence: “não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra”.

Mas o que há de novo neste século? As pessoas continuam migrando. De acordo com os dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), atualmente, há 214 milhões de migrantes, 27,5 milhões de deslocados internos e 15,4 milhões de refugiados. Quando comparados com os indicadores de 2000, esses números subiram bastante. Alguns migram buscando novas condições de vida, outros são forçados a migrar. Faltam alimentos, água, empregos, sobram violência, pobreza, perseguições.

E os conflitos? Há um dado muito chamativo no Relatório de Desenvolvimento Humano do Banco Mundial de 2011: uma em cada quatro pessoas no mundo vive em situação de conflito ou violência. Não necessariamente porque há guerras interestatais, mas a existência de guerras civis e a presença de grupos armados, gangues, entre outros fatores, provocam essa situação. Além disso, esse estudo constatou outro dado importante: um conflito civil pode custar cerca de 30 anos de crescimento do PIB e gerar a perda de mais de 20 pontos percentuais no combate à pobreza. Imaginem isso em um mundo lotado, em que o vínculo entre a escassez, a lotação e as migrações pode despertar tensões?

Um exemplo de tensão? Claro! Vamos dar dois, um interno e o outro externo. Um estudo lançado pelo UN-HABITAT, em 2003, verificou o aumento crescente das condições degradantes de moradia, com a tendência para a elevação do número de favelas. Em 2001, 924 milhões de pessoas, o que correspondia a 31,6% da população urbana mundial, viviam em favelas, e o prognóstico é que esse número alcance 2 bilhões de pessoas até o ano de 2030. Já o Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD de 2004 estimou que quase 900 milhões de pessoas – na época, quase uma em cada sete pessoas do mundo – eram discriminadas ou prejudicadas por causa de sua identidade e enfrentavam a exclusão cultural, econômica e política.

Poderíamos, também, falar sobre o aumento das atividades ilícitas e sua vinculação com o aumento de riscos para um mundo cada vez mais lotado. Será que veremos novas guerras, ondas de xenofobia, crises de identidade, entre outras coisas, nos próximos anos? Tomara que não.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Quem manda no Oriente Médio?


A festa junina já foi faz tempo, mas continuam a estourar rojões no Oriente Médio. No Irã, um depósito numa base militar explodiu e matou cerca de 30 pessoas – segundo a imprensa local, um depósito de mísseis, e descartando a hipótese de sabotagem (apesar da expectativa de ação militar iminente contra suas instalações nucleares e do histórico de eliminação de cientistas iranianos por serviços de inteligência estrangeiros). Já na Síria, continua a repressão, e se depender da Rússia não termina tão cedo: enquanto não houver sanções formais ao regime de Assad, os contratos de fornecimento de armas russas continuam. Nada mais pragmático, mesmo agora em que o país foi suspenso da Liga Árabe e as sanções parecem vir a galope.

Os dois casos estão relacionados por conta de suas implicações regionais. A Síria ser posta para escanteio é um sinal de enfraquecimento da Liga Árabe, a responsável pela negociação com Assad para cessar a repressão, e até então a principal força de coordenação política regional para os países islâmicos. Com esse insucesso, é aparente sua decadência (talvez iniciada quando Kadafi abandonou a organização procurando se mostrar muito mais africano que árabe), e a ascensão de outro grupo, que hoje está cada vez mais influente e, principalmente, com dinheiro no bolso, o Grupo de Cooperação do Golfo (ou GCC, da sigla em inglês).

Essa foi uma organização criada na época da Guerra Irã-Iraque, para resguardar as frágeis monarquias do Golfo Pérsico, que dependiam (e ainda dependem) muito dos EUA para sua segurança. Hoje, com as oscilações no preço do petróleo, a saída de cena do Iraque como potência regional e a riqueza refletida em exuberância dos pequenos emirados (Doha, Qatar, etc. - o chamado "Gulf Moment"), esse grupo, que antes não tinha quase nenhum efeito prático, está cada vez mais poderoso política e até mesmo militarmente (foram tropas do grupo que auxiliaram na repressão dos protestos no Bahrein, fato inédito para a organização). E qual seria a principal razão para o fortalecimento do GCC? Quem responder Irã ganha um doce.

O temor do programa nuclear e, acima de tudo, de uma turba xiita, que estenderia seus tentáculos sobre os países da região e ameaçariam as monarquias (adivinhem só, sunitas) faz com que sejam esses países os principais responsáveis pela campanha de “demonização” do Irã. Lembram do "Crescente Xiita"?Há até quem diga que são os países liderados pela Arábia Saudita os responsáveis por incitar EUA e Israel a fazerem seu “serviço sujo”, e os principais interessados na remoção de cena do Irã. Por mais que o Irã brade a destruição de Israel, realmente não faz sentido que haja uma dinâmica de conflito imediata entre eles – não com a questão palestina, muito mais urgente e próxima para Israel, ainda sem ser resolvida. E os EUA? São eles que querem conter o Irã? Ou estão apenas atendendo a pedidos sutis dos seus aliados do Golfo?

Ainda é cedo para dizer com certeza “quem manda” no Oriente Médio. Mesmo por que, algo assim nunca existiu que não fosse um império da Antiguidade. Temos que pensar, por exemplo, no atual papel da Turquia, que cada vez mais parece se alijar da Europa em crise e se aproximar dos países árabes para desempenhar um papel de liderança. Também seria muito simplista falar em "manipulação" de países. Mas, nesse ano de efervescência, o crescimento de uma organização conservadora (que já cogita chamar o Egito para sua órbita para evitar o fervor revolucionário pós-Mubarak) e sunita (que adoraria ver o Irã varrido do mapa) faz com que se perceba como há uma diversidade de interesses envolvidos dentro da própria região, e como suas dinâmicas podem ser complexas, surpreendentes, e acima de tudo, desconhecidas de grande parte da mídia Ocidental...

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Post do Leitor - Tauã Carvalho

[Segue abaixo uma interessante reflexão proposta pelo leitor Tauã Carvalho*, sobre os desafios para uma possível democratização no acesso e na tomada de decisões em geral nas Relações Internacionais. Aproveitem a leitura! Agradecemos a contribuição do Tauã e lembramos a todos os leitores que, para publicar um texto no blog, basta enviar-nos um e-mail para o seguinte endereço: contato@paginainternacional.com.br]

Da democratização das Relações Internacionais


Existe uma crença no sentido de que as relações internacionais estão se democratizando, que o rol de países que passam a se integrar a sociedade internacional (no estilo da Escola Inglesa) está gradativamente sendo ampliado e que, com o passar do tempo, os mecanismos de posicionamento estão se tornando cada vez mais fortes e incisivos. Ou seja, a crença de que o passar do tempo leva à universalização de participação na decisão nas relações internacionais. Tal ideia crê que o avanço das tecnologias e a abertura de uma multiplicidade de fóruns multilaterais tornam as relações internacionais mais democráticas, pois permitem o ingresso gradativo e constante das nações a essas instâncias, estando assim na condição de influir nas decisões mundiais.

A realidade se mostra um pouco mais hard que o ideal. As nações ainda têm de lidar com a estratificação do poder de decisão de fato no âmbito internacional. Entre tantas fórmulas, os teóricos convergem no sentido de que as nações se movem para fortalecer, ampliar, alterar ou reverter o status quo. Posição no sistema internacional parece ser uma noção intimamente ligada ao poder de decisão.

Para a última cúpula do G-20 financeiro, realizada em Cannes na França durante a semana passada, a Casa Branca informou que antes do certame promoveria reuniões privadas bilaterais entre Obama e os presidentes europeus Sarkozy e Merkel. A reunião teria por fim, indicaram muitos dos analistas, ritmar as posições das três nações.

De acordo com a crença da onda de universalização na tomada de decisões em âmbito mundial esse pequeno encontro dos três países é uma afronta aos ideais democráticos da expansão do poder para todos.

Em termos do G-20, três países se reúnem para traçar estratégias unificadas. Se chanceladas no encontro, o efeito dessas medidas equivale a cerca de 90% do PIB mundial. Por tudo isso não se pode atestar a veracidade da ampliação do poder de decisão no sistema mundial.

Sabemos que o imperativo é a anarquia internacional, que, mesmo fora da conotação realista, a falta de um poder central e superior ao dos entes estatais é clara. Não havendo um poder maior, todos os Estados concorrem em ideias e poder. A isonomia de poder não é, nem nunca foi, um princípio das principais correntes da Teoria das Relações Internacionais, e o mesmo também não se percebe na realidade. Não se observa esse impulso de maior escala de participação estatal nas decisões e na implantação das medidas aprovadas no plano internacional.

Há alguns dias a ONU foi evasiva no pedido palestino de ingresso como membro estatal permanente na organização. O conflito árabe-israelense e o processo de paz tem encontrado grandes entraves na negociação e decisão de efetivação dentro da maior organização política multilateral universal de que temos notícia. Prova de que o multilateralismo por si mesmo não é capaz de gerir o sistema internacional.

A própria Liga das Nações é fiel reflexo dessa situação: não foi possível a instrumentalização da entidade e de sua efetividade. A falta dos Estados Unidos foi maior que a presença de outros inúmeros países. A possibilidade de uso real da força se mostrou extremamente necessária visto que a falta de poder da organização e sua incapacidade de conter a escalada da agressividade lhe garantiu um tom de nulidade.

Contudo, a tese da democratização das relações internacionais se propagou no pós-Segunda Guerra Mundial quando da criação da ONU e teve imenso fôlego após a queda do muro de Berlim. O fim da bipolaridade encaminhou outro debate aos ambientes acadêmicos e midiáticos: o mundo seria a partir de então unipolar ou multipolar? A tese do mundo multipolar pareceu mais adequada aos anseios da comunidade internacional, das nações em desenvolvimento e das nações em processos de independência na África e na Ásia.

Dessa vez, na ONU, a sociedade internacional contaria com o poder militar e econômico da nação mais poderosa e com o mecanismo da democracia da Assembleia Geral, porém conviveria também com os mecanismos truncados do restrito Conselho de Segurança. O multilateralismo se fazia presente da mesma maneira que a tomada de decisão pelos detentores de poder efetivo, ou seja, possibilidade de uso real da força militar e nuclear.

Na questão palestina, outra vez, a ONU não fez aplicar suas decisões quanto às disputas territoriais nem ao reconhecimento da Palestina como Estado. Coube à UNESCO o papel de reconhecer a Palestina como Estado, uma vez que a ONU não cumpriu sua prerrogativa. Neste mesmo momento, retaliações a essa decisão já foram elaboradas e anunciadas. Os EUA congelaram o repasse à UNESCO e Israel assegurou o congelamento de repasse de recursos financeiros à Autoridade Nacional Palestina e reafirmou a construção de mais colônias de judeus em assentamentos palestinos.

São evidentes os avanços na democratização das relações internacionais passando do sistema europeu ao sistema mundial, a criação de um fórum político universal, a inclusão de muitas das nações da África e da Ásia. Assim como representam ampliações do G7 para G8 ou G7+1 e depois para G-20, alternativas bem melhores que as anteriores, principalmente a da triangulação do poder entre EUA, União Européia e Japão.

Sim, as relações internacionais passam por momentos de democratização, mas este não é um desses momentos. O G-20 foi um imperativo, não uma possibilidade de democratização. O agregado incorporou novos pólos de poder, mesmo que menores, à sua estrutura, mas não permitiu a universalização do ingresso voluntário. Em momentos de crise internacional - seja financeira, econômica ou militar - as pequenas nações detentoras de poder residual não têm a capacidade de estancar a situação ou de influir em sua resolução.

Uma maior participação nas decisões e ações coletivas mundiais ainda depende invariavelmente de incremento de poder por parte dos países desejosos de adentrar no "clube dos grandes", participando das decisões de escala planetária, mas também arcando com os custos desse propósito.

O evidente salta aos olhos: a medida do multilateralismo não é a mesma do esquema multipolar. Uma e outra podem ser estratégias complementares nas relações internacionais, entretanto não se confundem.

*Contato: tauacarvalho@hotmail.com

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Entre paradoxos e desafios globais

O cenário internacional anda mesmo agitado ultimamente... agitado e repleto de paradoxos generalizados – e talvez inerentes à perspectiva de construção diária da história. Entre os destaques, temos que líderes importantes saem de cena, enquanto ameaças inquietantes são declaradas; e no mesmo momento em que se celebra o nascimento dos bebês que elevaram a população mundial a outro patamar, a morte de um líder polêmico gera euforia e também incertezas para toda uma região.

Trata-se da morte de Guillermo León Sáenz Vargas essa semana, mais conhecido como "Alfonso Cano", que ocupava o mais alto cargo na direção das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Duro golpe para o grupo dos milhares de "guerrilheiros marxistas" e, em contrapartida, vitória para o presidente da Colômbia no âmbito político. Com o triunfo da "Operação Odisseia", tal como foi chamada esta operação contra a organização, as FARC voltam ao centro da mídia e perdem uma importante liderança.

A opinião pública se agita, os demais países declaram seu apoio ao governo colombiano contra o grupo, mas este faz questão de demonstrar (de forma violenta, é claro) que as FARC continuam "ativas", mantendo suas posições e seus modos de ação pouco apreciados... a retaliação dita o tom da resposta.

A queda de Alfonso Cano significa uma melhora no nível de segurança da população? Talvez sim. Mas mais provavelmente não. Produto de uma operação estratégica do governo unida ao acaso e (por que não?) à sorte, a operação foi um sucesso em si mesma, mas não representa (ainda, pelo menos) o verdadeiro fim da milícia, que continua a afligir a população com a revolta pela morte de seu último líder. [O que não exclui o fato de esta perda ter sido um grande baque para as FARC, atingidas em sua instância mais alta... demonstração de fragilidade?]

Urge, pois repensar o caminho da paz, avaliando a situação de inserção crescente da Colômbia nas discussões internacionais e salientando as características (paradoxais ou não) de um contexto global repleto de dúvidas, mas também de esperança de mudança. Os colombianos que o digam.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Cai cai

Ciao!

O dominó da economia europeia começa a derrubar peças cada vez maiores. Quando caiu, por exemplo, o primeiro-ministro de Portugal, um coadjuvante da crise, até era algo de se esperar, e não houve muito estardalhaço. Agora, quando se fala numa mesma semana de duas peças grandes dessa armação, e que estão sendo pressionadas como Grécia e Itália, a coisa muda um pouco de figura e deixa os investidores internacionais de cabelos em pé.

Na verdade, parece um pouco surpreendente que isso tenha acontecido apenas nesse momento (muitos já cantavam essa jogada). A saída do premiê Giorgos Papandreou na Grécia faz parte de um acordo interno do governo para tornar possível a implementação de medidas previstas no acordo europeu de ajuda à Grécia – apenas com a formação de um governo de coalizão seria possível aplicar as medidas de austeridade para que a UE venha em socorro dos irresponsáveis bancos gregos (incluindo um generoso corte de 50% na dívida...). Já na Itália, o problema é uma crise de credibilidade, e o bonachão Berlusconi anuncia que sairá do governo logo após implementar as medidas de controle e regulação de finanças, prevendo eleições das quais não participará. Claro que o primeiro-ministro italiano tinha muito mais problemas, que iam de escândalos sexuais a corrupção, e a crise econômica parece ter sido uma justificativa bastante oportuna para seu afastamento - afinal, a Itália seria "grande demais pra ser resgatada".

Estariam esses líderes pensando em uma espécie de trade-off? O Giovanni mencionou esse tipo de mecanismo ontem – no caso os europeus optariam por algo ruim para evitar algo pior. Vejam só: quando a UE começou a aceitar os países menos ricos para seu clube, estes mascararam contas e inflaram números para parecer mais importantes. A falta de responsabilidade dos governos anteriores, a fartura de crédito e os lucros dos juros resultaram nessa bola de neve atual, e os governos atuais pagam o preço de processos e escolhas feitas há mais de 10 anos. Ao saírem nesse momento, impondo as medidas impopulares, não estariam esses governantes assumindo para si o ônus da fúria popular e tornando a missão dos governos que estão por vir menos indigesta?

É complicado imaginar que se haja um raciocínio tão altruísta. Mas o fato é que outros países estão na linha de tiro agora: na Espanha e na França os governos estão desacreditados e à sombra da oposição nas pesquisas para as próximas eleições, e uma hora essa bomba das medidas de austeridade vai estourar na mão de alguém – resta saber se nos governos atuais ou nos seguintes. E assim, as decisões de hoje podem reverberar por muitos anos no futuro...

Disso tudo, uma grande ironia: a Islândia. O pequeno país tem duas lições a ensinar aos seus companheiros europeus. Primeiro, quando seus bancos quebraram, em vez de onerar o contribuinte, deixaram que os bancos fossem para o ralo e cuidaram de resguardar sua estrutura fiscal e organizar a casa. Claro que a situação não se compara à dos outros países em crise, mas após 3 anos de dureza, sua economia é uma das poucas que dá sinal de recuperação na Europa. E isso pode ter a ver com o segundo fator – por não estar na zona do Euro, essa regulação foi bastante facilitada. Não seria isso um sinal para os demais?

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Um mundo em lotação: o que escolher?

Em seguimento ao post da semana passada, continuemos apresentando um retrato deste mundo em lotação e suas implicações para as relações internacionais. Nestes tempos de escassez, inevitavelmente, teremos que fazer escolhas. Que escolhas faremos? Eis um princípio basilar da economia, as pessoas enfrentam tradeoffs: para conseguirem algo que desejam, precisam abdicar de outra coisa de que gostam. Isso é importante para que elas tomem boas decisões, na medida em que compreendam as opções disponíveis.

Que tal voltarmos à questão dos alimentos? Vejamos este dado: para se produzir 1 kg de carne, são necessários 20.000 litros de água, enquanto que produzir 1 kg de cereal demanda 1.200 litros. Mas é possível aumentar a produção de carne e de cereais indiscriminada e simultaneamente? Comeremos carne ou cereais? E, se decidirmos comer os dois, beberemos água ou tomaremos banho? De acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2006, 1,1 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável e 2,8 bilhões não têm as mínimas condições de saneamento; apenas a agricultura responde por 70% do uso da água doce disponível no mundo. Para 2030, estima-se que a demanda por alimentos aumentará em 50% e a demanda por água, em até 40%.

Este cenário ainda se agrava. A escassez dos alimentos e da água enfrenta ainda outros tradeoffs, quando se adiciona as mudanças climáticas e a questão energética. Um estudo realizado em 2006, pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), verificou que a emissão de gases estufas das atividades pecuárias supera a emissão do sistema de transporte mundial. Gases estufas, como se sabe, geram aquecimento global, e o aumento de um grau Celsius na temperatura do planeta provoca a diminuição de 10% no rendimento da produção de cereais. Nós comeremos menos cereais... E menos carne, a não ser que queiramos viver no Saara e os rebanhos aprendam a fazer fotossíntese.

Então, o que vamos comer? Aí, depende da criatividade. Que tal um grilo? Só não façamos isso na China; lá, os grilos têm sua própria UFC. Mas não desanimemos, já há mais de 1.000 variedades de insetos comestíveis em pelo menos 80% dos países do mundo. Algum dia, talvez peçamos um Mc’ Gafanhoto, com saúvas crocantes. Em 2013, está prevista uma conferência mundial para discutir sobre os insetos comestíveis. Há bandas de rock ou pessoas famosas que adquiriram o hábito de deixar de comer carne um dia por semana. Por falar em China, como sabemos, o consumo de cachorro é uma tradição milenar no país, que, com a ascensão de uma nova classe média, procura-se coibir a prática. O que há de errado em mandar o Snoop para a panela? É preferível um chinesinho roubando cachorro para alimentar o mercado negro?

Vamos para a questão energética. Qual o tradeoff que enfrentaremos? A matriz energética mundial é composta por 85% de hidrocarbonetos. Petróleo polui. Energia nuclear dá problema, não só pelo temor de novos “Japões”, mas porque alguém, de repente, pode acusar outrem de fazer bombas. Isso permitiu um regresso para o passado: continuar gerando energia energética com reatores da época de “Os Trapalhões” e fazer guerras infantis. Escolhas precisarão ser feitas, ainda mais em se tratando de uma demanda energética mundial que se elevará 40% em 2030. Por um lado, a atual matriz causa o aquecimento global, que causa a queda na produção de alimentos, mas, por outro, a busca por fontes alternativas tem suas implicações; por exemplo, há uma previsão de que 5% do transporte rodoviário global será abastecido por biocombustíveis, o que representaria um consumo impreciso, entre 20% e 100%, da quantidade total de água destina à agricultura – a extração de gás natural também demanda o uso altamente intensivo de água.

(Confiram as publicações do Forum Econômico Mundial, particularmente as publicações intituladas "Global Risks". Vejam também o site da FAO e estes artigos 1 e 2. A maioria dos dados forma extraídos destas fontes.)

É muito simples nós dizermos que a escassez gera conflitos, imigrações, instabilidade, entre outras coisas, mas é preciso ver, nas minúcias, como isso ocorre. O reino da vida e da morte, nas relações internacionais, pertence cada vez mais aos indivíduos e menos aos Estados. Por falta de alimentos, água, energia e pelo calor, as pessoas fenecem antes dos príncipes. Ainda pior, os tradeoffs que já se enfrentam parecem conduzir a uma inevitável Lei de Murphy: tudo dá errado! Qual é a saída? Do que abdicaremos para ter o que queremos? Somos 7 bilhões em ação, 7 bilhões de opções e 7 bilhões de expectativas...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Israel x Irã: o problema não é nuclear


“A destruição do passado é [...] um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX.” – Eric Hobsbawm, A Era dos Extremos.

A perspectiva de guerra entre Israel e Irã assombra não apenas o coração desértico do Oriente, mas todo o mundo. Os Fracassos Unidos, o Reino Cedido e a Fraca, ops, um pequeno erro de nomenclatura, os Estados Unidos, o Reino Unido e a França já declararam apoio a uma eventual incursão israelense à terra dos caras barbudos, com turbantes esquisitos. Mas por que isso? Por que agora? Há coisas que não são contadas: o programa nuclear iraniano é o menor dos problemas.

A História tem sempre as suas peripécias. Antes mesmo dos vazamentos do Wikileaks, já se sabia que iranianos e árabes não se davam bem. Os iranianos não são árabes; eles são persas. Na Antiguidade, conta-se que o rei persa Ciro concedeu refúgio aos judeus, que eram perseguidos pelas tropas babilônicas, lideradas por Nabucodonosor. Então, os iranianos passaram a ser tratados de maneira pejorativa, como ajam, um povo inferior entre os povos islâmicos, alguém em que não se poderia confiar. Com tempo, os iranianos se aproximaram dos árabes, construindo um inimigo comum: Israel. Esta, por sua vez, está prestes a empreender suas armas contra quem lhe salvou um dia.

Isto, Israel esquece, mas não esquece suas pretensões absolutas sobre a cidade de Jerusalém, a antiga capital do reino da Judeia. Estranho... a Hungria não reivindica a Bratislava, atual capital da Eslováquia e antiga capital do Império Austro-Húngaro. Israel também esquece que a criação de um Estado Palestino, que poderia encerrar o entranhado conflito do Oriente Médio, razão de muitos males na região, é que o está em pauta na agenda mundial. Recordemos, ademais, um acontecimento significativo: no começo da Guerra do Yom Kippur, quando os árabes levavam imensa vantagem sobre os israelenses, quem foi que ameaçou usar armas nucleares? Se Israel morresse, levaria seus inimigos consigo para o além. Agora, o país quer desviar a atenção, dissimular, fingir... Teme o que o Irã possa se tornar, não o que é. (Vejam esta análise)


O Irã está a anos-luz de ser uma potência nuclear. Ahmadinejad não tem um dom similar ao do lendário Rei Midas: transformar tudo o que toca em bomba atômica. Os eventos que estão ocorrendo naquela região incandescente do globo, iniciados com as movimentações no Bahrein, fizeram a comunidade internacional coçar a cabeça e se perguntar: o Irã é a nova potência regional que determinará as relações no Oriente Médio? De fato, os sonhos de um grande império persa não morreram, mas o que permite de fato a projeção iraniana é o grande vácuo de poder que paira no mundo e a falta de lideranças globais.

Quem contratar os redatores dos discursos de Ahmadinejad tem chances reais de ganhar qualquer eleição. Por exemplo, notem um trecho do discurso do presidente iraniano na última Assembleia Geral da ONU: “Se alguns países europeus ainda utilizam o Holocausto, depois de seis décadas, como a desculpa para compensar ou resgatar os sionistas, não deveria ser uma obrigação os senhores de escravos ou as potências coloniais pagarem indenizações às nações afetadas?”. Com estas provocações corajosas – diga-se de passagem, acertadas –, Ahmadinejad adquire proeminência em um mundo cujo poder de mando escapa dos países que se acostumaram a ele e seus povos protestam contra as condições sociais que se agravam.

A ONU, neste ano, reelegeu o “Banana” Ki-moon como Secretário-Geral, alguém sem qualquer expressão política. No Reino Unido, o David Cameron é um poeta de boca fechada. Na França, Sarkozy anda adotando uma política de “trocar de roupas”: cada novo dia, um novo inimigo, uma nova guerra. Uma curiosidade à parte: em uma charge, que simula uma conversa entre um latino e um inglês, aquele acusa este de ter começado e perdido todas as guerras, ao que responde o inglês que conquistou a França. O latino: “e quem não chutou a França?”. Nos Estados Unidos, tem-se assistido ao surgimento de um Barack Kissinger Obama, como sugeriu Thomas Friedman, ensaiando uma política externa assertiva, mas que enfrenta desafios estruturais, a começar pela menor influência norte-americana no mundo.

Israel desvia o foco da questão Palestina. Estados Unidos, Reino Unido e França querem manter seus desígnios de grande potência e reeditar uma versão moderna do antigo acordo Sykes-Picot (1916), para controlar o Oriente Médio, ainda que o baguncem mais. O Irã se aproveita do desgaste das grandes potências e da ausência de lideranças globais para aumentar seu protagonismo nas relações internacionais. Só que os egos falam sempre mais alto, esquece-se e se reinterpreta o passado, até a perspectiva de guerra se levantar no horizonte. Tudo poderia ser um blefe, mas a política é um exercício apaixonado da razão. E se apaixonar demais pode ser perigoso.

domingo, 6 de novembro de 2011

Avançando para o passado e voltando para o presente


Recentemente, tivemos mais uma tentativa do governo de nos levar ao passado ao lançar uma medida para aumentar em 30 pontos percentuais o IPI sobre os carros importados

Em primeiro lugar, a abertura do mercado brasileiro aos importados foi o que nos possibilitou deixar de andarmos em carroças há quase 20 anos e hoje conhecermos carros melhores, mais bonitos e (incrível) mais baratos do que antes. 

Para quem não se lembra, o carro que estampa este post é uma "Elba". SUCESSO absoluto nos anos 90, considerado um carrão. Até foi por conta de uma dessas que o presidente Collor sofreu impeachment.

Não passava de uma carroça (muito feia, inclusive, até para os padrões da época). Mas era o que tínhamos por aqui.

E agora o governo quer incentivar a "Indústria Nacional" aumentando o imposto do carro importado. Aliás, que indústria nacional? Aos nacionalistas de plantão, o Brasil não tem nenhuma montadora. São todas de capital estrangeiro. Enquanto isso, a China tem pelo menos cinco e a Índia duas.

Aliás, cabe lembrar também que nosso setor automotivo é dominado por apenas 3 empresas. VW, GM e FIAT. As outras ainda têm pouco mercado. E o que nos mantém reféns dessas marcas e de carros caros não são os impostos do governo, por incrível que pareça.

Quanto custa no Brasil um carrão com motor V8 6.2 litros de 16 válvulas com mais de 400 cavalos, escapamento duplo, rodas de alumínio aro 20, injeção eletrônica e freios Brembo de fórmula 1? Na sua mão por apenas R$ 185.000 sem aumento do IPI. Clique aqui e peça o seu.

Justo, certo? Um carrão desses, com tudo isso. 

Mas e se nos Estados Unidos o mesmo carro custasse apenas 22.805 dólares? Clique aqui e tire suas dúvidas.

Certamente o leitor mais atento dirá prontamente: são os impostos do Brasil!

Mas eu digo: não são os impostos! Se fossem, como seria possível que o Honda City, produzido aqui no Brasil, em Sumaré, é exportado e vendido no México por R$ 25.800 (reais, não dólares) se pagamos aqui pelo mesmo carro R$ 56.000?

E, além disso, em virtude no Acordo de Complementação Econômica n° 53, o México não nos cobra Impostos de Importação. Ou seja, o único custo adicional que a Honda tem por vender o carro lá é o frete. E, se o problema fossem impostos, a diferença de preço não deveria ser tão grande. E, aos mais informados, o item na NCM que corresponde a este carro não consta em nenhuma lista de exceção às tarifas  de importação acordadas.

Recentemente, estive no Panamá (país que é menor que a zona leste da cidade de São Paulo em população), e uma BMW que aqui custa R$ 150.000 lá custa US$ 27.500. E o Panamá nem tem indústria "nacional" para proteger...

Ou seja, os carros no Brasil não são caros só pelos impostos, mas pelo domínio de grupos estrangeiros no nosso mercado. Oligopólio não é bom em lugar nenhum. Esses grupos têm um poder enorme manifesto através do lobby de suas associações junto ao governo, que permitem que influenciem as decisões em seu favor e consigam controlar os preços nos prejudicando.

Aliás, em 2009, quando o nosso mercado não estava recebendo carros de outros países, sobretudo da China, por preços competitivos, o governo reduziu o IPI para incentivar a indústria. E deu certo! Por que agora aumentar o mesmo imposto para os importados? É voltar para o passado.

Felizmente, os ministros do STF, não por entenderem de economia, mas porque, além de tudo, a decisão ainda era contra a constituição e contra os acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário, revogaram a decisão por voto unânime.

Voltamos para o presente.

Mas o nosso presente ainda é passado, um mercado dominado por um governo que atende a interesses privados e por um oligopólio da indústria estrangeira que se diz nacional. O governo protegendo a ineficiência dessas empresas impedindo a entrada de concorrentes. E nós aqui ainda andando em carroças caras, mas não tão carroças quanto a Elba. Presente nem tão passado mas longe do futuro. 

É o Brasil.

sábado, 5 de novembro de 2011

Quirguistão: novos capítulos

Este país localizado na Ásia Central, por incrível que pareça, já foi tema de alguns posts aqui na Página Internacional. A sua estabilidade volta ao noticiário, na forma de uma esperança reacendida. Desta vez, as eleições presidenciais foram finalizadas com a vitória do primeiro-ministro, Almazbek Atambayev. A ele será incumbida a difícil tarefa de conseguir finalizar a transferência de poder pacificamente, o que não ocorreu desde a independência do país em 1991.

Para alguns, o Quirguistão pode ser um país invisível, pouco conhecido e de pequena relevância no cenário internacional. Contudo, as tensões advindas ainda da guerra fria, as acirradas cisões étnicas, o referendo que estabeleceu o parlamentarismo e as reações da sociedade civil mantiveram o país sob os holofotes internacionais. Seu caráter estratégico, marcado pelo constante interesse de Rússia e Estados Unidos, contrasta com a sua fragilidade estatal e institucional. O recém-eleito iniciará seu governo com denúncias de irregularidades durante o dia da eleição.

Atambayev, um bem-sucedido empresário, promete trazer prosperidade e estabilidade para sua nação. Outra promessa, por outro lado, desperta expectativa internacional: o fechamento da base militar norte-americana, localizada na capital Bishkek. Ao contrário dos seus vizinhos (Uzbequistão, Cazaquistão e Tadjiquistão), onde sobreviveram governantes fortes, o Quirquistão viu poucos rastros de estabilidade. Porém, é justamente debaixo das ruínas de seus problemas recentes que reside a esperança do seu florescimento democrático.

O presidente, frente aos desafios inerentes à sua função, terá que lidar com grupos da sociedade civil e outras lideranças políticas, ambos munidos de liberdade para operar, discutir preocupações e levar às ruas suas demandas. Com relação ao âmbito externo, há implicações para a estabilidade regional, na medida em que o país é parte da rota para contrabandear drogas para o Oeste e poder virar alvo de militantes islâmicos em busca novas bases. O país está também perto de China e Rússia.

Mia Couto, importante escritor moçambicano, defende:

“A esperança é a última a morrer. Diz-se. Mas não é verdade. A esperança não morre por si mesma. A esperança é morta. Não é um assassínio espetacular, não sai nos jornais. É um processo lento e silencioso que faz esmorecer os corações, envelhecer os olhos dos meninos e nos ensina a perder a crença no futuro”. (E se Obama fosse africano?, Mia Couto, 2009)

Não parece ser o caso. A esperança segue viva e em pauta no Quirquistão.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Dragão vermelho sob o velho mundo

"Decidimos nos entregar com os pés e as mãos amarradas aos emergentes. Os europeus não podem discutir uma proteção contra os efeitos sociais e ambientais da globalização e pedir, ao mesmo tempo, a quem você vai negociar isso, para pagar a conta da sua crise financeira" -
Daniel Cohen-Bendit, deputado do partido verde europeu


A economia da Europa não anda bem. Essa frase resume o conteúdo de muitos dos acontecimentos noticiados durante esse ano. Enquanto esse tema ainda continuará a ser abordada por muito tempo, uma sombra paira sobre o velho mundo. É a do grande dragão vermelho que emerge sobre a Europa, de forma a também assustar muitos dos governantes, que já estão tensos demais com a questão da dívida pública e da quebradeira dos bancos.

O que significa que membros de diversos partidos europeus já têm demonstrado suas preocupações com ajuda econômica dos países emergentes para a crise. O temor de serem atados em uma espécie de “colonização às avessas” é algo já bem materializado no imaginário de governantes. Para a Europa, os Brics, com C bem maiúsculo, leia-se China, é o epicentro desse movimento. Até mesmo o Brasil já realizou grandes doações para o FMI e hoje já é 17º país que mais contribui.

Mas, o medo de chineses partiu da iniciativa do país de ampliar, ainda mais, sua ajuda ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. Como disse um deputado do partido verde europeu, “não se deve entregar de mãos e pés atados aos emergentes”. Nesse contexto, a pergunta que se segue é: a Europa está realmente em condições de escolher qual país se disporá a ajudar?

O governo grego já está em uma sinuca de bico. Enquanto o presidente Papandreou, sofre com os efeitos político-sociais dessa crise e convoca a população para um referendo sobre a manutenção do país na zona do Euro, o pacote de ajuda ao país não é liberado. O desespero é tanto que não se consegue elencar apoio político suficiente e esse referendo seria uma tentativa de legitimar seu esforço ou de ter aquela frase “foram vocês quem escolheram” na manga, caso algo dê errado.

A Itália já trilha o mesmo caminho e começou a realizar as medidas de cortes de gastos exigidas pela União Europeia. Até mesmo Obama já colocou a boca no trombone para falar que a situação é muito mais grave que se imagina e o bloco está sendo hesitoso demais. Bom, de fato, todos os países temem a violência com a qual os produtos chineses competem com os demais no mercado internacional ou depender demais de uma economia como a China. Por isso, repito a pergunta, será mesmo que a Europa está em condições de escolher os doadores para seu fundo de estabilidade ou mesmo diretamente para os países em que a crise é mais grave.

O mundo está mudando e a reflexão sobre o papel dos Brics e dos demais países emergentes é essencial. Talvez a máxima dos reis destronados, que nunca querem perder sua majestade, está se aplicando na Europa, agora sob a sombra do voraz dragão vermelho chinês. A reunião do G-20 dessa semana virá a definir melhor a posição europeia sobre ajuda dos emergentes, até mesmo a questão do referendo grego e da guerra cambial. Seja o que for decidido, parece que a resposta da pergunta desse post pende bastante para o não. Mas fica a provocação.

[Sobre o referendo na Grécia: 1, 2]