
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Há um ano

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sábado, 29 de outubro de 2011
A volta dos esquecidos

No caso brasileiro, o último presidente militar, João Figueiredo, sancionou a Lei da Anistia em 1979. O seu caráter “amplo, geral e irrestrito” foi duramente criticado, na medida em que teria atendido aos interesses do próprio regime. Assim, não houve, por exemplo, indenizações às famílias das vítimas daquele período. Nosso caso não é exclusivo. Argentina e Uruguai traçaram caminhos similares. Contudo, nossas trajetórias já estão separadas. Nossos vizinhos em questão já revogaram estes dispositivos.
Na noite de quarta-feira, a Argentina viu as sentenças de 18 militares acusados de 86 crimes contra a humanidade, por fim, chegarem. A condenação mais esperada (e celebrada) foi a de Alfredo Astiz, o “anjo loiro da morte”. Entre diversos depoimentos, os requintes de crueldade contrastavam com a convicção de alguns condenados, como se obedecer a ordens justificasse a desumanidade. Já no Uruguai, a Câmara de Deputados aprovou a lei que põe fim à anistia concedida aos militares que cometam crimes contra os direitos humanos durante a ditadura no país. Alguns deles já foram condenados pela Justiça uruguaia.
No Brasil, a presidente Dilma afirmou que a nossa Lei da Anistia é intocável, a despeito de críticas da Anistia Internacional e do Comitê de Direitos Humanos da ONU. Desta maneira, em um primeiro momento parece pouco provável que o Brasil volte a unir-se ao caminho escolhido por argentinos e uruguaios. Em todos os casos, o pós-ditadura militar foi marcado pela anistia, que tentava fechar um capítulo da história para abrir o seguinte. Logo, as pressões e escolhas políticas levaram Argentina e Uruguai a buscar seus arquivos e julgar devidamente seus culpados.
Para boa parte dos brasileiros a ditadura representou um período sombrio, mas finalizado. Por outro lado, os vitimados que sobreviveram aos abusos parecem pouco dispostos a esquecer definitivamente de tudo. Através da Comissão da Verdade, aprovada pelo Senado Federal também na quarta-feira, e do fim do sigilo eterno de documentos, que espera sanção da presidente, o Brasil enveredará pelos registros de sua história em busca de violações. Resta saber se somente a revisitaremos ou se os esquecidos terão, finalmente, justiça. Seguiremos nossos vizinhos ou deixaremos a ferida como está?
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
“Educação é direito humano, não serviço”
“Educação é direito humano, não serviço”. Esta frase foi proferida em 2008 por Vernor Muñoz Villalobos, então relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) pelo Direito à Educação, e certamente é atemporal, universal e incontestável. Entretanto, alguns serviços estatais estão diretamente relacionados ao bom andamento da Educação em cada país e a polêmica deste ano em torno do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deixa novamente claro o despreparo do Brasil no que se refere a esta temática.Aliás, polêmicas envolvendo o Enem têm sido recorrentes desde 2009, quando o formato da prova se alterou para uma espécie de “vestibular nacional”, possibilitando o acesso direto à maioria das universidades públicas do país. Roubos de provas, cancelamentos, atrasos e reimpressões... a lista de problemas é enorme e a falta de organização notável. Neste ano de 2011, a controvérsia envolve uma série de questões a que estudantes de um colégio cearense teriam tido acesso em um simulado no começo do mês e que estavam idênticas às da prova do último final de semana.
Desta forma, o princípio de que todos os estudantes teriam as mesmas condições de realização do exame foi violado, gerando revolta e indignação no país (foto). Há inclusive a chance de cancelamento da prova nos próximos dias, dado que não é possível calcular exatamente a extensão desse “vazamento de informações”, bem como suas consequências...
De fato, não se pode negar que o porte do exame é enorme, mas o orçamento para sua realização também é, bem como sua importância para milhões de estudantes anualmente. Como explicar tantas e tão recorrentes falhas nacionais a este respeito? Apesar do atual desenvolvimento econômico acelerado do Brasil, a cada ano a credibilidade do governo no que se refere à educação sofre baques inestimáveis.
O Plano Nacional de Educação (PNE) está em fase final de elaboração e é bastante ousado, estabelecendo metas importantes para a próxima década. Estima-se um grande aumento no investimento em Educação, priorizando a área – a qual está, sem dúvida, diretamente relacionada à construção das bases para que o crescimento nacional seja sólido e sustentável no longo prazo. A pergunta que não quer calar é: se os problemas insistem em aparecer a cada ano em tantas situações (a realização do Enem é uma delas), quais as chances de efetivamente estas metas saírem do papel e alcançarem as salas de aula de todo o país?
Exemplos bem-sucedidos de outros países no que se refere a políticas educacionais demonstram que o ensino básico e a valorização do papel dos professores são fatores essenciais, sendo que as reformas levam anos para produzirem frutos visíveis. Para melhorar a qualidade de vida e diminuir a desigualdade, a Educação também é considerada pela ONU como um dos pilares em que o Brasil deve investir. Em teoria, todos (?) sabemos e concordamos com isso, o desafio é colocar em prática ações concretas.
O momento global é de reflexão. Somos (quase!) 7 bilhões de pessoas no mundo e o papel da formação educacional se mostra cada dia mais relevante para a criação de ferramentas e condições de sobrevivência em um mundo totalmente interconectado. Visualizar, portanto, a Educação como um direito (e por que não também um dever?) humano é essencial para que possamos evoluir como pessoas. E como país...
terça-feira, 25 de outubro de 2011
You say goodbye and I say hello
Alguns pontos relevantes para a discussão:
1) Na última sexta-feira, dia 21, o presidente Obama anunciou a retirada definitiva das tropas norte-americanas do Iraque, mas disse que a porta do país estará sempre aberta aos Estados Unidos. Quais serão as repercussões disso?
2) De acordo com a publicação intitulada “Global Trends 2025: a transformed world”, do National Intelligence Council (NIC), um centro de estudos norte-americano, ocorrerá uma transferência sem precedentes do poder econômico e da riqueza relativa do Ocidente para o Oriente nos próximos anos. O que isso representa para o mundo?
3) Alemanha e França tentam, a todo custo, salvar a zona do euro, embora não estejam em perfeito acordo sobre a salvação da Grécia. E quando outro país, talvez Portugal ou Itália, cair, como será? O que serve para a Grécia aplica-se a outro? Em que medida a crise europeia se alastrará pelo globo? (Acompanhem este artigo de Paul Krugman)
Com estes três pontos, torna-se inevitável a pergunta, baseada em afirmação categórica de Philip Zelikow, em artigo para o Financial Times, no mês de agosto: é o fim de uma era global? Para Zelikow, as políticas externas se converteriam em ajustes das políticas domésticas, não só nas grandes potências, como também nas potências emergentes. Notem os exemplos: os Estados Unidos deixarão o Iraque em definitivo, a China se diz preocupada com o desenvolvimento socioeconômico interno e a Europa lida com uma crise interna. Qual a margem para a atuação internacional dos países?
Certamente, ao contrário do que prevê Zelikow, não é o fim de uma era global, mas um período de mudanças significativas. A democracia, como é sabido, não chegou pelas bombas no Iraque. Matar Saddam Hussein, e agora Muamar Kadafi, está longe de ser um sinal de novos tempos de bonança. Retirar as tropas em um país que vive surtos de estabilidade e segurança, desarrumado após sete anos de guerra, pode significar a eclosão de conflitos étnicos e religiosos. Isso para não dizer sobre a projeção estratégica do Irã no país, que já detém forte influência sobre as forças policiais iraquianas e a população xiita. Aliás, em grande medida, a não-intervenção na Síria deve-se ao temor aos iranianos no Oriente Médio. Experimentem as grandes potências bagunçar mais um país para ver onde a região vai parar. Os Estados Unidos dizem adeus, o Irã, olá. (Vejam a análise de George Frideman)
A China também diz oi, o que não é novidade para ninguém. Mas seria ilusório acreditar que a inserção internacional chinesa é pacífica e que serve ao propósito exclusivo do desenvolvimento interno. A verdade é que a China ainda não foi testada para saber até onde vai seu pacifismo. Com uma estimativa diminuída do crescimento econômico e a escassez de recursos vitais ao seu desenvolvimento, é que o mundo conhecerá o que o país realmente quer. Os Estados Unidos dizem cada vez mais olá para a China e, no próprio artigo que Hillary Clinton escreveu para a Foreign Policy, consta que será a opção estratégica norte-americana para o século XXI. Nas palavras de Clinton, “The Asia-Pacific has become a key driver of global politics”.
Muita coisa está para acontecer. Por enquanto, cabe a nós, analistas e aficionados em relações internacionais, debater quem entra e quem sai do palco principal da política mundial.
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Mais eleições

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sábado, 22 de outubro de 2011
Fim?

Um já fragilizado grupo separatista ETA, reconhecido como terrorista por europeus e norte-americanos, anunciou o fim definitivo de suas atividades armadas. Desde sua fundação o em 1959, durante a ditadura de Franco na Espanha, empunhou a bandeira do separatismo para os territórios bascos (norte da Espanha e sudoeste da França). Em seu início, pregava a formação de uma organização clandestina e revolucionária. Contudo, ficou marcada pela grande violência de suas ações terroristas. O grupo fez mais de 800 vítimas.
A luta de Espanha e França contra o ETA fragilizou suas atividades, mas os ataques continuaram. O grupo chegou a anunciar suspensões temporárias, as quais não levaram ao final definitivo de suas atividades armadas. A mais recente comunicação do grupo, a despeito do ceticismo de alguns, marca uma posição definitiva com relação à prevalência do diálogo político ante a luta armada pela causa basca. Já a promessa do ETA de findar as ofensivas ainda terá de ser observada na prática.
Apesar de enfraquecido, o grupo poderá criar implicações no cenário político espanhol. A esquerda, acusada de proximidade com ETA, poderá ver acusações da direita cessarem. Nada que mude, no entanto, significativamente o jogo político atual no país, já que frente problemas econômicos e sociais crescentes, o terrorismo deixou de ser a principal preocupação. Neste caso, a liberdade é o mais significativo. Pode-se dizer, caso confirmada a promessa do ETA, que o país sairá da sombra, representada pela ameaça constante do terrorismo.
O ex-prefeito de San Sebastián, um das cidades mais afetadas pelo terrorismo do ETA, definiu o sentimento:
“Somos livres. Eu olho para vocês e não vejo mais ninguém com a necessidade de olhar para trás ou debaixo de seu carro, que algo ruim possa lhe acontecer na saída deste ato. É claro que as coisas mudaram. Sabem como se chama isso? Liberdade” (em tradução livre)
Resta saber o que será feito dos membros restantes do grupo. Os que sofreram com mais de quatro décadas de ataques certamente não esquecerão, tampouco parece existir arrependimento por seus perpetradores. Ainda assim, mais um exemplo que a violência não levou a consubstanciação da causa original. O problema ainda não acabou. Zapatero, tal qual Obama com relação à Bin-Laden, certamente colocará em seu crédito político o final da atividade armada do ETA, mesmo sem a garantia do fim realmente definitivo.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Continente estratégico
Em meio à enxurrada de manchetes internacionais sobre a (polêmica) morte do ditador Muammar Kaddafi no dia de ontem, ao mesmo tempo em que os noticiários nacionais mais uma vez se veem diante de denúncias de corrupção no governo – desta vez em relação ao Ministério do Esporte; eis que a presidente Dilma retorna de sua primeira viagem oficial ao continente africano.E a viagem foi marcante, reforçando a importância da cooperação entre os países emergentes. A reunião do Fórum Ibas (que reúne Índia, Brasil e África do Sul) buscou arquitetar o discurso entre os parceiros para a reunião do G-20 que se aproxima, ao reafirmar a relevância de um posicionamento coordenado, muito mais expressivo que posicionamentos separados sobre as questões e os desafios que são comuns.
Após passar pela África do Sul, por Angola e por Moçambique, a delegação brasileira retorna ao Brasil com perspectivas renovadas de cooperação Sul-Sul. Em Angola, o volume de investimentos brasileiros (majoritariamente privados, mas em consonância também com os interesses governamentais) já chega à casa dos R$ 7 bilhões – uma alta cifra de acordo com os interesses econômicos brasileiros internacionais, mas que também visa beneficiar o desenvolvimento local com a injeção de capital, como se ressaltou em Moçambique.
Segundo Hillary Clinton, Secretária de Estado norte-americana, o diferencial do Brasil (ou melhor, dos países emergentes em geral) tem sido “colocar a economia no centro de sua política externa”. De fato, o atual momento reflete um planejamento econômico em que o Brasil se afirma como um ator estratégico no cenário global, e os contatos internacionais apenas reforçam esta perspectiva. Mais do que isso, é importante ressaltar o fato de que o Brasil tem se atentado à valorização das parcerias entre os países emergentes e africanos, o que proporciona um rol de possibilidades ainda imensuráveis, mas certamente estratégicas neste século.
Resta saber se, diante das nossas próprias dificuldades e nossos desafios internos de desenvolvimento (que não são poucos!), estamos efetivamente preparados para assumir as responsabilidades globais que se acumulam rapidamente e são intrínsecas às benesses de sermos considerados o tão comentado “país do futuro”...
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Herois e Bandidos
terça-feira, 18 de outubro de 2011
A flor da mocidade
Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.
Oh, não aguardes, que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.
Eis um trecho do poema “À sua mulher antes de casar”, de Gregório de Matos, considerado o maior poeta barroco do Brasil. Não é por acaso que se escolhe o poema e o estilo artístico barroco para este post, cujo objetivo é tratar dos protestos que se disseminam pelo globo e ganham cada vez mais força. Em todos os cantos, há cidadãos lutando contra o trote do tempo, que imprime sua pisada nos sonhos desabrochados da modicidade, sem deixá-los florescer nos jardins de esperança do futuro.
No século XVII, o estilo barroco surgiu de duas crises: a dos ideias e valores renascentistas, oriunda das lutas religiosas e marcada pela Contra Reforma, e a econômica, decorrente da decadência do comércio com o Oriente. Quando se pára para pensar cuidadosamente, observa-se que também há uma crise de ideias e valores, além da econômica, por trás de todos os protestos que sacodem o mundo. Ambas as crises apresentam características intrínsecas ao pensamento barroco, caracterizado pelo culto ao dualismo, pessimismo diante da vida e literatura moralista (em termos contemporâneos, seriam ‘protestos moralistas e educadores’). Autoritarismo x liberdade, capitalismo x (?), bancos x pessoas, são dilemas que se impõe, expectativas que se frustram e gritos que ecoam nas ruas.
O barroco voltou?
O mundo está se transformando em uma grande ágora contemporânea. Da praça Zuccotti, nos EUA, à praça de Tel Aviv, as pessoas acampam e protestam. Elas dormem e acordam em frente ao Banco Central Europeu, em Frankfurt, pedem a reforma do sistema educacional no Chile, enfim, as pessoas querem voz, demonstram sua insatisfação e querem participar diretamente dos governos, excedendo os meros caprichos eleitorais, manifestados pelo voto. Mas elas assustam. Na Inglaterra, foram tachadas como vândalas, desocupadas, para serem reprimidas, assim como são reprimidas nos países árabes. Volta à tona o príncipe maquiavélico, da época barroca, em que é melhor ser temido do que ser amado. Putin já deu o recado na Rússia.
Até quando esta flor da mocidade adornará os campos de penúria que se espraiam? O que esta pintura barroca do mundo sugere? A despeito da participação popular nos rumos de seus respectivos países, o grande desafio é proposicional. Por enquanto, os protestos são marcados pelo que elas se opõem, e não pelo que propõem, alertando os governos sobre suas práticas excludentes. Goza, goza da flor da mocidade, antes de ser acometida pelos passos abrasivos do tempo.
[Artigos interessantes sobre a temática tratada: 1, 2, 3, 4, 5, 6]
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segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Um por todos, e todos por um

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sábado, 15 de outubro de 2011
Uma curiosa corrida presidencial

O sistema eleitoral dos Estados Unidos guarda particularidades interessantes. O presidente é eleito por meio de um colégio eleitoral, o qual é escolhido em cada estado do país através do voto popular. O número de delegados é diretamente proporcional à população, sendo a orientação para o voto do colégio eleitoral, na maioria das vezes, pautada no princípio “o vencedor leva tudo”. Assim, uma pequena margem no voto popular significa, com duas exceções (Nebraska e Maine), a totalidade dos delegados na conta do vencedor. Nada de proporcionalidade.
Outra característica é concentração do debate entre dois grandes partidos, o democrata e o republicano, apesar da possibilidade de candidatos independentes também concorrerem. A definição dos candidatos é fruto de um longo processo de primárias, passando pelos estados para debates de propostas e atingindo, talvez, seu ápice nas convenções partidárias. Em 2008 viu-se um cenário acirrado, ambos os partidos travaram primárias pelo direito de concorrer ao posto deixado por George W. Bush. Desta vez, contudo, já há um candidato esperando seu oponente, numa espécie de pole position, ao mesmo tempo em que tenta governar.
Faltando menos de dois meses para o início das primárias republicanas, opositores do presidente Obama, a instabilidade reina soberana na medida em que a popularidade dos pré-candidatos sobe e desce, somado ao surgimento de novas figuras na disputa e à desistência de protagonistas. Na última eleição, enquanto Hillary Clinton e Barack Obama monopolizavam a disputa de um lado, os republicanos viram uma contenda entre três figuras centrais: Mike Huckabee (ex-governador do Arkansas), Mitt Romney (ex-governador do Massachusetts) e Johh McCain (senador).
As primárias funcionam como um teste dos candidatos e oferecem a possibilidade de unificar as diversas correntes dos partidos em torno de uma candidatura, ainda que resistências tendam a perseguir. Neste ano há outro fator importante no acirramento da ala conservadora republicana. Mesmo que não veja seus expoentes como candidato, como no exemplo de Sarah Pallin, representa uma parcela do eleitorado que deverá ser agradada de alguma forma pelos que desejam ganhar a indicação republicana. Mesmo nas primárias, é inevitável a troca de argumentos fortes, um fogo amigo que nem sempre consegue ser superado. Neste sentido, demonstrar unidade, no caso do partido republicano, não será tarefa das mais fáceis.
Alguns nomes despontam como favoritos na corrida pela nomeação. Entre eles, figuras conhecidas, como Mitt Romney; outros advindos de correntes tradicionais do partido, como Rick Perry (sucessor de Bush no governo do Texas); além de figuras ascendentes, como Herman Cain. Outros ainda contam com vitórias nas primárias do mês de janeiro para ganhar força e seguir na disputa até o final, como Michele Bachmann. A disputa está só no início. Enquanto isso, confortável, mas não tanto, estará Obama em sua pole position, assistindo quem sobreviverá nessa disputa e disputará cada curva com ele. Tudo indica que os chamados “swing states” serão novamente decisivos.
Reveja o mapa da eleição de 2008.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Brasil, meu Brasil brasileiro...
“Quem somos nós, os brasileiros, feitos de tantos e tão variadoscontingentes humanos? A fusão deles todos em nós já se
completou, está em curso ou jamais se concluirá?”
O Festival Europalia (site oficial aqui) é um evento bienal que acontece desde 1969 em terras belgas, considerado o maior festival cultural multidisciplinar do mundo. Segundo os organizadores, a proposta de cada edição é reunir as atividades artísticas de um país, de forma a apresentar sua diversidade ao público. Depois da Rússia e da China nos últimos anos, é a vez de o Brasil ser homenageado por aqui. Esta 23ª edição do festival teve início no último dia 04 de outubro, com a inauguração oficial pela presidente Dilma, e tem previsão de encerramento em janeiro de 2012.
É claro que não se pode negar o prestígio internacional do nosso país atualmente, mas o investimento nacional neste sentido também não tem sido baixo: o Europalia é o maior e mais caro projeto da atual gestão do Ministério da Cultura, representando um investimento/custo de aproximados 30 milhões de reais – advindos do governo em sua maior parte, mas também da iniciativa privada. Também a Bélgica investiu cerca de 10 milhões de euros para a consolidação do festival.
Centenas de eventos compõem a programação, desde apresentações musicais a exposições e palestras, com o objetivo de demonstrar a riqueza cultural brasileira, desvinculando-a unicamente das ideias de samba, carnaval e futebol, segundo o Sérgio Mamberti, atual secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura. Fugir dos “estereótipos” foi um argumento destacado também por Ana de Hollanda, Ministra da Cultura. Contudo, é claro que polêmicas são inevitáveis quando se trata de um investimento e divergências entre organizadores belgas e brasileiros sobre os nomes para compor a programação marcaram o processo de seleção das atividades.
Em um momento crítico de consolidação da identidade brasileira internacionalmente, percebe-se o claro interesse do governo em disseminar a riqueza de nossa cultural, reafirmando a visão de um país multifacetado e em franco crescimento. Entretanto, as cifras que envolvem o festival são impressionantes – investimento justificado ou exagerado? E sobre os ditos "estereótipos", será que é realmente possível desvincular-nos de uma visão que parece, ao mesmo tempo, ser reforçada a cada Copa do Mundo ou Carnaval?
De qualquer forma, vale a pena recorrer novamente a Darcy Ribeiro para incitar a reflexão sobre a perspectiva que temos de nossa própria formação:
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Indignações

quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Os burros, a FIFA e a Lei
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Tempos de mudança ou mudança de tempos?

Um olhar mais contido permite visualizar números importantes. Em 2010, a economia mundial cresceu 3,6%, após uma retratação sem precedentes de 2,4% em 2009. Enquanto os países desenvolvidos cresceram 2,6% em 2010, os países emergentes cresceram 7,0%. Entre os desenvolvidos, o destaque fica para a Alemanha, que registrou um crescimento de 3,6%; entre os emergentes, China, Índia e Brasil impressionaram, com crescimentos de 10,3%, 9,7% e 7,5%, respectivamente. No que se refere ao comércio internacional, registrou-se um aumento de 14,5% em 2010, sendo que as exportações e importações dos países desenvolvidos cresceram, respectivamente, 13,0% e 11%, ao passo que dos países emergentes cresceram, respectivamente, 17% e 18%. (ver o relatório da OMC sobre o comércio mundial em 2010)
Não obstante o dinamismo econômico, os indicadores sociais, na maioria dos casos, deixam a desejar. O Estado cresce de maneira descolada da sociedade e a distribuição da riqueza do crescimento não se traduz de maneira efetiva. Para se ter uma ideia em números absolutos, de acordo com a publicação da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) intitulada “Plano Brasil 2022”, houve um aumento incessante da distância entre os países desenvolvidos e os emergentes. Tendo por base os oito principais países desenvolvidos no mundo (EUA, Canadá, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Japão e Austrália), em 1988, a renda per capita média era de US$ 18.224, e a renda média dos oito principais países emergentes (China, Índia, Brasil, Indonésia, México, Argentina, Rússia e África do Sul), era de US$ 1.325. Em 2008, o número dos primeiros subiu para US$ 43.445; o dos segundos, para US$ 6.215. A diferença passou de US$ 16.889 para US$ 37.320.
Economicamente, os países emergentes vão se firmando no cenário mundial e enfrentarão o grande desafio de distribuir riqueza entre sua população que, agora, está se estagnando. Na China, para exemplificar, a população deve envelhecer antes de se tornar rica. Ou podem as pessoas morrer de fome antes de ter dinheiro para comer: atualmente, há 925 milhões de subnutridos no mundo, dos quais 906 milhões estão em países emergentes e em países pobres. Por sua vez, os países desenvolvidos melhoraram seus indicadores sociais, mas, neste ambiente de crise, enfrentam o desafio de manter tais indicadores sem ter dinheiro suficiente para fazê-lo. A grande questão é como distribuir a riqueza quando ela decresce, e isso começa com a decisão sobre qual área cortar os gastos públicos (educação, saúde, previdência, etc.) ou a quem tributar.
Por enquanto, são tempos de mudança, intensos e extensos. Para os emergentes, é uma oportunidade histórica para alcançar, não apenas números abstratos, mas melhorias reais de vida para seus habitantes. “Que seja eterno enquanto dure”, como disse Vinícius de Moraes, pertence ao domínio do amor. Na política, o amor cego e intenso pela duração compromete a perpetuação. Os países emergentes não podem se entregar aos deleites do presente, do contrário, não haverá uma mudança de tempos e um reordenamento concreto do mundo. Ruim para as sociedades, ruim para a dinâmica das relações internacionais...
Sugestões de leitura: 1, 2 e 3.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Outono árabe

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sábado, 8 de outubro de 2011
Há um ano

O 30 de setembro de 2010
Um ano depois dos lamentáveis eventos no Equador, pouco foi esclarecido. A versão oficial segue sustentando que houve uma tentativa de golpe de Estado. De concreto, cabe destacar os processos judiciais contra três figuras importantes da revolta: César Carrión (acusado de tentar assassinar Rafael Correa), Fidel Araújo (suposto organizador do movimento) e Rolando Tapia (acusado de atentar contra a segurança interna do Estado). Por outro lado, as famílias das 10 pessoas mortas naquele dia ainda esperam a finalização do processo e a responsabilização dos culpados.
Curiosamente, poucos dias antes da sublevação policial, havia publicado um post contando um pouco da recente história equatoriana, marcada pela instabilidade e por bases democráticas pouco consolidadas. Correa foi justamente o presidente que conseguiu quebrar este ciclo, construindo uma forte coalizão que consubstanciou seu projeto de revolução popular. Como em outros movimentos que dizem defender os direitos dos que mais precisam, enfrentou resistências de diversos setores. Há os que amam o presidente e há os que o odeiam, poucos são indiferentes. Sua forma de governar desperta conflitos e seu projeto cidadão não é unânime.
Ainda que sob controle, a instabilidade voltou por um dia, relembrando os equatorianos de tempos mais sombrios. Tudo começou com a aprovação de um projeto que incidia sobre alguns direitos dos servidores públicos. Por alguns bônus cortados, teria iniciado a movimentação de setores dos policiais e militares, que culminou na sublevação do 30 de setembro. Aí reside a principal fonte da discórdia entre analistas. Teria sido uma revolta corporativista contra a nova lei aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente? Ou, foi um movimento, ensejado por forças políticas somadas a um grupo de policiais e militares, que tentou tomar o poder à força?
Apesar de não esclarecido, o dia ficará marcado por mudanças importantes. Correa saiu fortalecido, apoiado pela UNASUL e por movimentos populares, viu sua retórica ganhar um importante aporte. De fato, agora ele podia apontar uma ameaça tangível para defender que a democracia ainda está em jogo no Equador e, mais que isso, que existem forças tentando voltar ao passado. Assim, pôde fortalecer sua cruzada contra a mídia, denunciar setores retrógrados dentro da oposição e consolidar a revolução cidadã, para a qual parece não existir mais volta. Caso volte a ocorrer algo similar, o Correa deixou claro “Daqui saio como presidente ou cadáver, mas jamais abriremos mão de nossos princípios”.
Resta saber se esta é uma referência à auto-proclamada revolução cidadã ou ao projeto de poder iniciado em 2008 com a nova constituição do país. Afinal, o que são princípios mesmo?
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
O embalo da popularidade...

“Shakira vira assessora de Barack Obama”. Aos desavisados essa frase que percorreu os noticiários dessa semana pode parecer, no mínimo, estranha. Contudo, o fato é que a Casa Branca anunciou mesmo que a estrela latina fará parte de uma Comissão Presidencial voltada ao desenvolvimento de projetos na área de educação para a população hispânica nos Estados Unidos.
Parece que, no embalo da Shakira – cujos hits e carisma têm conquistado multidões nos últimos anos – Obama tenta também retomar sua popularidade com o eleitorado latino. Realmente, o atual momento político do presidente norte-americano não é dos mais favoráveis. E, na medida em que 2012 é ano eleitoral, os democratas (partidários de Obama) entendem que a aproximação com a população latina que reside no país poderá constituir o diferencial para a possível (apesar de hoje não muito provável) reeleição do presidente.
Vários são os aspectos reivindicados pela população latina – e prometidos durante a campanha presidencial há três anos – que ainda permanecem sem encaminhamento, tais como a reforma nas leis de imigração, o Dream Act, a geração de empregos e a qualidade da educação, por exemplo (mais detalhes aqui). O fato é que “Obama terá trabalho para ganhar os votos latinos”.
Impossível, pois, não vincular a nomeação de Shakira a essa demanda de Obama por popularidade junto ao principal “público” da cantora. Em verdade, não se pode deixar de mencionar que Shakira desenvolve projetos muito importantes e reconhecidos internacionalmente no que se refere à educação na América Latina. Sua ONG Pies Descalzos é um exemplo de trabalho filantrópico, e a colombiana foi recentemente também nomeada embaixadora da Boa Vontade da Unicef, órgão das Nações Unidas responsável pela defesa e promoção dos direitos infantis. A nomeação, pois, se justifica não apenas em termos midiáticos, mas também pela coerência da postura da cantora nestas questões. Obama não poderia ficar mais satisfeito!
A midiatização natural dessa nomeação não poderia ter sido mais expressiva no cenário internacional em geral. Resta visualizar efetivamente quais serão os reais impactos deste ato político na vida prática e no incremento real das políticas educacionais para a população latina nos próximos meses...
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I Conferência Conjunta História- Relações Internacionais sobre Integração Latinoamericana

quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Velhos caminhos com novas palavras ou novos caminhos com velhas palavras?

Uma questão bem difícil de responder. Mas podemos tentar dar algumas indicações. Na política externa brasileira existe uma linha que vem sendo seguida e mais desenvolvida desde os dois últimos anos do governo FHC. Baseada na ideia de que o Brasil tem que inserir internacionalmente não só pela participação e defesa de posturas multilaterais, mas sim advogando um multilateralismo que garantisse direitos iguais a todos e exigisse o mesmo de todos. Uma forma bem propositiva de se inserir.
Essa abordagem foi gestada pelo Itamaraty ao final do governo FHC e foi levada a diante por aquele toque de diplomacia presidencial (de presidente fazendo papel de diplomata e defendendo os interesses do país mundo afora). Bom, a partir de Lula isso foi levado mais adiante ainda. Da iniciativa de criação do G-20 (representante dos países em desenvolvimento) no governo anterior, ao reconhecimento deste como um dos principais foros de discussão de questões mundiais de agricultura da OMC. De um Mercosul institucionalizado, para uma nova integração política, a Unasul.
Agora, tendo isso claro, é aí que começam de fato as perguntas. Ora, pode-se seguir uma mesma abordagem e chegar a lugares diferentes. Como há muito tempo já disse Rousseau, pelos mesmos caminhos nem sempre se chega aos mesmos fins. Se Lula, fazendo uso de tantos improvisos e declarações polêmicas, foi capaz de imputar maior importância à aliança com países em desenvolvimento, a famosa relação “Sul-Sul”, Dilma não tem sido diferente.
Defendendo ainda a reforma dos grandes organismos internacionais, advogando formas alternativas de solução dos problemas que não sejam a força (por isso absteve-se na questão do uso da força militar na Líbia) e relações mais próximas e coordenadas com os BRICs e os IBAS, mantém a mesma lógica do governo anterior. Talvez, pudéssemos dizer que o campo dos direitos humanos seja de fato uma nova postura. O Brasil, anteriormente, apenas abstinha-se em votações sobre violações em países autoritários e hoje já demonstra uma posição diferenciada. Até mesmo votou a favor de maior fiscalização no Irã no Conselho de Direitos Humanos.
Bom, tentando responder as perguntas do começo, vale lembrar que nada é certo e que há apenas pistas que podem levar a conclusões diferentes. A questão é que, ao que parece, temos muito mais do mesmo. Até agora parece que existem algumas diferenças mais na gestão pessoal dos presidentes e na abordagem de direitos humanos. Apesar de termos indicações e precisarmos de mais tempo para avaliar, ainda cabe a pergunta: seriam os velhos caminhos com novas palavras ou novos caminhos com velhas palavras?
[Aos que se interessarem, seguem links de artigos de opinião sobre o assunto: 1, 2, 3, 4]
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Guerra de direitos

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