sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A (luta pela) conquista de direitos

Segundo o poeta francês Balzac, “A igualdade pode ser um direito, mas não há poder sobre a Terra capaz de a tornar um fato”. Será? Talvez o poder do diálogo e da luta social possa surtir efeitos – ainda que lentamente e a partir de muitos (e articulados) esforços. Mais um passo foi dado na Arábia Saudita no que se refere à igualdade de gênero: trata-se da importante conquista do voto e da elegibilidade feminina nas eleições municipais, a partir de 2015.

Em uma era de movimentos contra os regimes autoritários no Oriente Médio, a famosa “Primavera árabe”, esta recente conquista das mulheres árabes merece destaque, já que se trata de um direito básico e essencial à consolidação de sua participação na tomada de decisões (e na construção destas) em sua sociedade.

Vale lembrar que a rica e conservadora Arábia Saudita é uma monarquia absolutista, de forma que o rei concentra os poderes de chefe de Estado e de governo. Nesta semana estão sendo realizadas, apenas pela segunda vez na história, as únicas eleições existentes no país, para cargos municipais. Ainda sem a participação das mulheres, a falta de confiança nos órgãos públicos por parte da população marca o tom dessas eleições. Muito ainda precisa mudar para que o regime possa ser considerado efetivamente participativo...

A luta para que as mulheres sejam incluídas no sistema político (e tenham seus direitos básicos respeitados) não é de hoje, e as críticas à intolerância religiosa têm alcançado novos patamares nos últimos tempos, dada a facilidade de contato e de disseminação de ideias/propostas/revoltas/movimentos proporcionada pela internet, especialmente por meio das redes sociais (veja aqui post no blog a respeito do movimento pelo direito das mulheres a dirigir, também na Arábia Saudita). A pressão dos cidadãos árabes têm sido responsável por um incremento considerável em seus direitos: igualdade e democracia buscadas a cada dia!

É verídico afirmar que a igualdade (ainda) não é fato consolidado em nossos tempos, mas não seria excessivamente pessimista pensar que esta situação é irreversível? Para que se possa enxergar resultados práticos, é preciso que a mobilização social seja constante, diária, cotidiana... cada sociedade enfrenta seus próprios desafios na busca pela igualdade, nos mais diversos âmbitos. E, bom, será que estamos fazendo também a nossa parte?

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Até quando?

Haiti. MINUSTAH. Operação de paz. Estes três termos – intrinsecamente relacionados – têm gerado profundos debates internacionais há anos (quase uma década!). O Haiti, país assolado por dificuldades extremas e dos mais diversos tipos, recebeu em 2004 a “Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti” (MINUSTAH), operação de paz em que o protagonismo brasileiro é notável, com mais de 13 mil soldados e 1 bilhão de reais investidos (posts sobre o assunto aqui e aqui).

Ok, mas a pergunta que não quer calar é: até quando? Uma operação de paz, dentro de uma lógica de ação humanitária, deve pressupor um planejamento de curto, médio e longo prazo que respeite o(s) momento(s) de urgência social e humanitária (no plural, já que o desastroso terremoto de janeiro de 2010 fez a escala de ação retroceder “abaixo do zero”, segundo o então representando da ONU no Haiti – veja post no blog sobre o tema aqui), mas que também visem, pouco a pouco, à promoção do desenvolvimento local.

Neste sentido é que a MINUSTAH passa a ser questionada pelo próprio povo haitiano. Alguns escândalos por parte de abusos dos “capacetes azuis”, tal como são chamados os soldados da ONU, também têm contribuído para essa visão negativa. A partir do momento em que a população não se sente participante do processo de construção comunitária, muitas dificuldades advêm e tornam a fase de “transição” mais longa do que deveria ser.

Vista como “força de ocupação”, a MINUSTAH não cativa hoje os haitianos como em 2004. Após todos esses anos, esperava-se poder visualizar a construção de uma estrutura nacional que proporcionasse segurança social à população, o que não ocorre. Segundo declarações da ONU e do próprio governo brasileiro, a operação de paz só pode ser encerrada quando houver uma alternativa a ela, de forma que a saída da MINUSTAH não venha a gerar o caos.

O atual presidente haitiano, Michel Martelly, eleito este ano com a promessa de retirar as forças da ONU do país, discursou semana passada na 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas pedindo, contudo, a permanência da MINUSTAH. Segundo ele, a operação ainda precisa ajudar o governo em questões como educação, geração de empregos, meio ambiente e garantia de um Estado de direito.

Enquanto este ciclo vicioso (e retórico) se estende, a esperada “alternativa sustentável à MINUSTAH para o Haiti” parece ser construída (?) a passos demasiado lentos. Sem forte apoio da população e ainda com um caráter excessivamente assistencialista, a MINUSTAH segue em suas atividades no país. Não se pode negar, é claro, a importância de uma operação de paz para a ingerência humanitária em situações de crise e em face da necessidade de estabilização política, mas podemos questionar até quando esta operação específica no Haiti não será acompanhada de um necessário (e desafiador!) desenvolvimento sustentável nacional...

[UPDATE: Será que até março de 2012? "Brasil vai começar a retirar tropas do Haiti em março, diz Amorim", 29/09/2011]

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Uma década nada econômica


Voltamos à análise dos 10 anos dos ataques terroristas aos EUA. E dessa vez, com um viés bastante atual, o econômico. Pode não parecer à primeira vista, mas boa parte da crise econômica mundial que estamos enfrentando hoje se deve àquele 11 de setembro e suas conseqüências.

Claro que a estrela dessa tragédia são os EUA. Podemos pensar, em um primeiro momento, em pelo menos duas conseqüências para a economia norte-americana, e que depois infectaram a mundial. A primeira delas, como todos sabem, logo após os atentados, foi a exigência de uma pronta-resposta contra o regime que acolhia os terroristas responsáveis pela hecatombe. A outra foi, imediatamente, uma grave crise de confiança: queda de bolsas, paralisação do mercado financeiro por algum tempo (afinal, teve seu “coração” derrubado) e o caos aéreo que se seguiu pela paranóia de segurança. A cada um desses desafios os EUA responderam à altura: primeiro invadiram o Afeganistão (e posteriormente o Iraque, na onda da “Guerra ao Terror”), e o governo fez de tudo para incentivar o consumo e manter o ritmo de produção.

Fazer guerra é um negócio lucrativo – e também muito caro. As campanhas empreendidas pelos EUA movimentaram bilhões em contratos com empresas de segurança, mercenários, indústria bélica e de “reconstrução” civil, ao mesmo passo em que endividaram consideravelmente o tesouro norte-americano. Nada que eles não conseguissem manejar, apesar de problemas graves como o Katrina e a reconstrução subseqüente. O problema veio do outro lado: a manutenção de taxas de juro irrisórias e do consumo a todo vapor geraram uma bolha que afetou todo o sistema financeiro dos EUA (e logo, do mundo inteiro, já que esse aquecimento afetava também os parceiros comerciais dos EUA... ou seja, todo mundo!), e acabou estourando quando houve o descontrole dos créditos podres no sistema imobiliário. O excesso de ambição interno e brutalidade externa causaram uma distorção impossível de ser impedida e que logo desabou levando a economia mundial junto.

Pois bem, vejam o quadro. Economias do mundo todo começaram a cair em 2008, endividamentos absurdos que estavam mascarados pelos anos de bonança começaram a fazer a unidade da União Europeia ruir, as invasões (especialmente do Iraque) causaram incertezas no mercado e desagradaram países árabes, fazendo os preços do barril de petróleo estourarem (afetando preços pelo mundo todo), e o capitalismo enfrentou sua pior crise desde 1929. No fim, os bancos nacionais conseguiram salvar economias cambaleantes, a China e seu mercado gigante carregaram o mundo nas costas, alguns países tiveram muita sorte (ou competência) para evitar os efeitos mais graves da crise (bem ou mal, é o caso do Brasil), e o pior passou. Passou? Não parece que tempos melhores estejam por vir, e os bancos podem não ter mais dinheiro para salvar a pátria (literalmente). Essa discussão sobre a dívida dos EUA, por exemplo, que angustia Obama num cabo-de-guerra com o Congresso e os partidos, é a grande herança maldita dos gastos de seu antecessor; a dívida dos países na zona do Euro põe em risco a até agora “mais bem sucedida” experiência de integração regional; e mesmo a China parece estar chegando ao seu limite, dadas as contradições internas e a pressão cambial.

Algumas coisas boas aconteceram nessa área, como o início das negociações da Rodada Doha (já comentada aqui), que ninguém imaginava que iria sequer começar, ou o surgimento de outras forças econômicas com maior relevância na esfera internacional, como a China ou mesmo o Brasil. Ou seria apenas a decadência das economias mais tradicionais? Enfim, não chega a ser surpreendente, já que muitos países subdesenvolvidos eram anunciados como potenciais protagonistas da economia mundial do futuro, mas o modo como isso aconteceu foi de uma escala muito ampla e rápida. A China, por exemplo, galgou degraus e hoje é a segunda economia do mundo, com data prevista pra ser a primeira. E agora, cá entre nós, quem imaginaria, em 2001, quando o Brasil ainda devia mundos e fundos ao FMI, que dez anos depois seríamos credores (mal e mal, mas credores) do infame órgão?

Pois é, as conseqüências foram muitas, para bem e para mal. Hoje o mundo todo sofre com as conseqüências e o desafio imposto por essa crise toda, e não seria exagero pensar que daqui a dez anos ainda estaremos enfrentando desenvolvimentos dessa crise. Que, em de certa forma, teve suas raízes naquela manhã de 2001...

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Segredos bem guardados...


Existem dois elementos que geralmente rendem boas histórias para livros e filmes: aventuras em terras estrangeiras (como ser preso por tráfico na Tailândia ou se tornar confessor de um jovem Dalai Lama no Tibet) ou enfrentar problemas em terreno hostil (como ficar preso a uma rocha ou nos destroços de um avião). Os alpinistas norte-americanos Josh Fattal e Shane Bauer vão ter bastante o que contar pois sua história envolve esses dois aspectos – eram eles os prisioneiros norte-americanos que estavam no Irã há dois anos, acusados de espionagem, e libertados neste fim de semana.

Tudo começou com uma confusão com relação à localização do grupo de alpinistas (que incluía uma terceira pessoa, Sarah Shourd, que foi libertada ano passado), que teriam se perdido na fronteira com o Iraque e acabaram parando inadvertidamente em território iraniano em meados de 2009. Esse engano (até que se prove o contrário) se tornou para esses três jovens uma experiência vívida da parcialidade do regime jurídico iraniano. Isolados do mundo, julgados com base em mentiras absurdas e encarcerados sob condições deploráveis, em meio aos gritos de outros presos sendo torturados. O relato desses rapazes é assustador e mostra uma faceta irônica da situação – segundo consta, todas as vezes que reclamavam do tratamento, os guardas os lembravam de como os norte-americanos tratavam seus presos em Guantánamo e Abu-Ghraib.

E assim chegamos ao tema principal do texto de hoje. Não é segredo pra ninguém que quase todos os governos do mundo mantêm ou mantiveram, em maior ou menor grau, algum tipo de repressão política. Porões de ditadura, prisões secretas, campos de trabalho forçado. Cada localidade tem sua variedade de como lidar com prisioneiros políticos (uma “justificação” para se livrar daqueles que incomodam o regime). Como lidam com isso, depende da situação política ser favorável ou não. Mesmo as democracias não estão livres disso! Obama confirmou a existência de prisões secretas e o previu o fechamento destas e de Guantánamo, mas no fim das contas essa continua aberta, e as outras... quem sabe. O Irã obviamente usava os jovens como uma moeda de troca valiosa com os EUA, e sua libertação teria sido um aparente movimento para atrair a simpatia ocidental. Ou teria sido o mero desmoronamento de uma acusação infundada que se tornara insustentável? Ou o valo estratégico dos reféns acabou? É difícil saber.

O que se percebe com clareza é que esses norte-americanos tiveram muita sorte – afinal, sua detenção era uma das principais chantagens contra o país mais poderoso do mundo. Assim enfrentaram, até onde se sabe, julgamento severo e injusto (que custa a vida de muitos em locais como a China e a Tailândia) e prisão insuportável mas saíram relativamente ilesos (ao menos, fisicamente). Por outro lado, quantos prisioneiros políticos como eles estão tendo menos sorte em países de governos mais truculentos, pelo mundo todo. Vamos tomar o exemplo dos países da tal Primavera Árabe... Basta pensar no Iêmen: o presidente Saleh está de volta e fala em transição do poder, mas persistem os choques e as mortes em confrontos com forças policiais. É impossível saber o número exato de mortos – quanto mais de presos, que ficarão sabe-se lá quanto tempo em algum porão até conseguirem sair (SE saírem). E mesmo onde as revoltas parecem ter sido exitosas (como na Líbia), se descobrem segredos cada vez mais aterrorizantes: a bola da vez é a cova coletiva de Kadafi, descoberta pelos revolucionários perto de Trípoli, com as ossadas de mais de 1200 pessoas mortas em protestos contra o regime nos anos 90. É tão ruim quanto (ou pior) do que as valas encontradas nos genocídios balcânicos da mesma época.

O alívio de ver os jovens aventureiros sãos e salvos (independentemente de sua origem ou de como foram pegos – não deve haver terror semelhante ao da impotência ante um sistema todo contra você) contrasta com a angústia de saber que tantos outros estão por aí em condição semelhante ou pior. E descobertas como essa da Líbia, ao mesmo tempo em que são assustadoras, um verdadeiro choque de realidade quando tomamos conhecimento desse tipo de evento, é benéfico que se desacobertem esses abusos. Fica a incerteza.

sábado, 24 de setembro de 2011

Primeiro-ministro à Berlusconi

O inventário de escândalos envolvendo o primeiro-ministro italiano aparentemente segue uma só tendência. Quando os mais cautos pensam que a fonte secou, logo surgem novos episódios para demonstrar o comprometimento de Berlusconi em criar problemas. Como se não bastasse a crise econômica, o líder da nação tem, digamos, um comportamento pouco alinhado em relação ao que se deveria esperar. Afinal, ser acusado de peculato, sonegação de impostos, suborno e falsificação de registros contábeis já não é para qualquer um. Contudo, nosso personagem vai além, a suas famosas farras com menores de idade foram noticiadas mundo afora.

A mesma Itália que, em 2011, celebrou os 150 anos de sua unificação pouco tem a comemorar. Um país em rota decrescente, empobrecido, endividado e desmoralizado ante constantes escândalos políticos. O último capítulo desta novela foi a decisão da agência de classificação de riscos, a Standard & Poor´s, de elevar o grau de risco dos títulos da dívida italiana. Com tudo somado, acentua-se a situação de uma Itália cambaleante, perigosamente ensejando, de acordo com especialistas, paralelos com a Grécia. Fato é que cenários de crise, independente do seu tipo, exigem um esforço extra das lideranças, na medida em que a retomada depende da restauração da confiança, interna e externa, no plano de recuperação. Algo bem contrário a esta premissa fica expresso através da figura de Berlusconi.

Aquela austeridade, tanto clamada, foi também a saída para a Itália, mas não para seu primeiro-ministro. Em tempos que o foco deveria estar dirigido a remediar os males, descobre-se o que significa governar à Berlusconi. Sem rodeios, este bilionário assume que “em minhas horas vagas sou primeiro-ministro”. O que se poderia esperar de um líder com tal perspectiva? Se algo, certamente muito pouco. No seu rol de preocupações, governar a Itália e gerar prosperidade para seus concidadãos não deve estar em primeiro lugar. Resta saber quem está a serviço de quem, Berlusconi da Itália ou o contrário? Logo, no entanto, teremos que utilizar o verbo no passado para falar de sua passagem pelo cargo. Seus dias parecem estar contados.

Estar à mercê dos “cara de pau” não é uma tragédia apenas italiana, muito pelo contrário. Dessa vez, a fidelidade de seus aliados para esmorecer à medida que seu quadro se torna irremediável. O povo, tomando sua aprovação de 25%, não sentiria sua falta, por enquanto. Ganharia ainda, por outro lado, mais tempo para acompanhar seu (sim, ele é o dono) time de futebol, o AC Milan, e organizar com mais cuidado aquelas festas que ele tanto gosta. Talvez ainda haja tempo para celebrar alguma coisa neste 150° aniversário da unificação. Enquanto isso, Berlusconi teria ainda mais horas livres sem o hobby de ser primeiro-ministro, deve ter cansado depois da quarta tentativa. Ao menos seria um problema a menos para os italianos. No futuro, podem-se abrir novas horas vagas para brincar de ser primeiro-ministro outra vez.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Uma nova geopolítica energética?

Todo mundo adora um pouco de futurologia. Tentar prever o que virá, como será e quando será, são questões que a maioria das pessoas já se perguntou em algum momento da vida. Se esse exercício é tão comum no campo individual, para os países e para a economia internacional é algo imprescindível. E o atual momento do mundo no concernente ao fornecimento de combustíveis é extremamente convidativo para esse tipo de reflexão.

Mais uma vez, o globo se encontra dividido. De um lado, os países do Oriente Médio, representando os atuais maiores fornecedores de petróleo e combustíveis do mundo. De outro, as Américas, que representam países que poderão tornar-se grandes potências nesse campo. A pergunta que atualmente tem se feito, é se estaria emergindo uma nova geopolítica energética. Estariam as novas tecnologias permitindo a expansão da exploração de petróleo e gás natural em níveis tais que possibilitasse que o continente americano se tornasse o novo centro mundial dos combustíveis?

Para refletirmos melhor sobre esse tema, aqui vão alguns dados. O país que foi capaz de levantar as estatísticas de reservas de petróleo da OPEP em 2009 foi a Venezuela. Estima-se que houve uma ampliação de aproximadamente 25% em suas reservas, enquanto que as da maior exportadora da OPEP, a Arábia Saudita, mantiveram-se estagnadas, em um valor bem abaixo do venezuelano. A produção de petróleo colombiana já se aproxima daquela da Argélia e, muito em breve, pode vir a superar às da Líbia antes de sua guerra. Para o Brasil, que já contém tecnologia suficiente para explorar a camada do pré-sal, acredita-se que, em alguns anos, poder-se-á atingir o volume considerável de 1 milhão de barris por dia.

Nem mesmo os Estados Unidos estão fora dessa bolada. Recentemente obteve-se a tecnologia para explorar as formações rochosas de xisto na região da Dakota do Norte, capaz de produzir um volume de 400.000 barris/dia de uma substância semelhante ao petróleo. Essas expressivas possibilidades aliadas as já altas produções de México e Canadá sugerem que os países da América estão passando a ocupar papéis mais significativos na produção energética mundial. Agora, seria suficiente para tornarem-se o principal pólo mundial?

Ora, há quem sugira que sim. E, para esses, a Primavera Árabe seria o principal evento catalisador dessa mudança. Se há muito, a Revolução Islâmica no Irã foi capaz de reduzir a produção de petróleo do páis de 6 milhões de barris/dia para os 4 milhões de hoje ou mesmo o Iraque obteve uma diminuição significativa de aproximadamente 33% quando Sadam Hussein assumiu o poder, por que a Primavera árabe não atuaria no mesmo sentido? Há também os pessimistas que apontam para o sentido oposto. Segundo eles, as revoluções citadas seguiram um período de isolamento, enquanto que a Primavera árabe traria os países da região para a teia de interdependência, ampliando ainda mais seu comércio.

Bom, em se tratando de futurologia, não é possível obter uma resposta clara. Todavia, somos capazes de dizer que a América está tornando-se um continente bem mais significativo na produção energética que, com certeza, influenciará mais essa balança dos petroleiros. E quanto ao futuro do continente no campo energético, só o tempo dirá...

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O 11/09 e os mistérios do tempo

"Sabemos que houve guerras, que há guerras, e sabemos que ainda sim Deus será sempre exaltado entre as nações."
Obama, em discurso relembrando os 10 anos do 11/09.

Neste mês de setembro, a Página Internacional está aberta a análises sobre um dos acontecimentos mais memoráveis da história contemporânea, que agora completa dez anos. Nem sempre é fácil falar do 11/09, muito menos tão bem quanto o Danillo Alarcon o fez em seu post (aqui), principalmente porque se perdeu a dimensão do tempo. Dez anos, para a investigação histórica, é um período muito curto, mas, paradoxalmente, para o mundo de hoje, caracterizado pela revolução técnico-científica – com ênfase nas comunicações –, grandes transformações, boas ou ruins, surgem em instantes.

Notem, leitores, que se comemora trinta anos da descoberta do vírus HIV/AIDS em 2011. Até o momento, apesar das inovações em pesquisa e tecnologia, só há um caso de cura diagnosticado, que é fortuito e, ao mesmo tempo, emblemático. O terrorismo, por sua vez, em meio a esse ambiente de inovações, rompeu os limites da história e provocou um espetáculo áudio-visual jamais visto. Sua cura, em geral, é fortuita e emblemática, na medida em que, ainda que grupos terroristas renunciem à prática do terror, o fenômeno permanece e pode inspirar corações e mentes na luta por uma causa ou ideia (recordem o fato ocorrido na Noruega há dois meses).

A grande questão, dez anos passados do 11/09, é como vencer o terrorismo. Ao menos, esta foi a meta expressamente declarada pelos governos norte-americanos ao se lançarem em uma aventura homérica e quimérica no período em tela. Foi preciso inventar uma Guerra Global ao Terror, territorialmente aberta e sem inimigos claramente definidos, para promover a segurança interna dos cidadãos norte-americanos e sustentar a hegemonia dos Estados Unidos pelo mundo. Mas ‘guerra’ é um conceito absolutamente vago para as manobras norte-americanas, uma vez que padece de um objetivo político claro – combater o terrorismo é lutar contra a insurgência afegã? É depor Saddam Hussein? – e perde o sentido de vitória. Então, a guerra passa a seguir uma lógica própria, com suas leis e dinâmicas.

O velho Marx, com sua máxima “a história se repete, primeiro, como tragédia, depois, como farsa”, teria muito a dizer sobre os Estados Unidos hoje. A guerra contra o Afeganistão é a repetição trágica do indigesto Vietnã e a guerra contra o Iraque, a repetição como farsa. Não apenas pela retórica das armas de destruição em massa do governo de Saddam Hussein, mas também pela manifestação mais expressiva (e incansável) da idiotia norte-americana, agora, sob a égide da Guerra Global ao Terror. Cada vez mais, guerreia-se por guerrear, em defesa da honra, não de objetivos, o que aumenta, sobretudo, o custo político. O jornalista Thomas Friedman, recorrentemente, afirma que essa guerra deixou de ser sobre o que ganhar e passou a ser sobre o que se está disposto a perder. Vencer já não é possível.

O tempo é mesmo uma coisa misteriosa. A história tem ensinado que o terrorismo é praticamente insuperável quando combatido pela força das armas, pior ainda quando estas falam por si mesmas. Guerras passadas, similares no campo de batalha, demonstraram os limites da superioridade do mais forte. De que adianta ter o maior poderio militar do mundo se não saber como utilizá-lo? De que adianta o conhecimento técnico-científico se se esquece as lições dos livros, da teoria da guerra e da estratégia? Em dez anos, em uma era de informações e comunicações, esqueceu-se de grandes lições do passado, encurtou-se a memória.

O 11/09 é mais uma novidade com o sabor ácido do tempo do que a reinvenção do mundo ou uma grande transformação. É uma ‘não-era’, como bem definiu o Danillo, e não um ponto de inflexão nas relações internacionais. Alguns processos podem ter se acelerado, como o desgaste da hegemonia norte-americana, mas o fizeram em um quadro evolutivo previamente marcado pela ascensão de novos poderes, ameaças transnacionais e globais e de formação de uma bolha econômica, que explodiu em 2008. E, nessa não-era, os Estados Unidos estão fadados a perder.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ambiente nervoso


Antes de começar, convido o leitor a ver um pequeno vídeo. Um pouco de humor para começar um post bem sério (não se preocupem, vai fazer sentido no final): veja o vídeo aqui.

Esse esquete brinca com aquele joguinho famoso e divertido em que se deve destruir castelos usando aves suicidas. Mesmo quem não fale inglês deve ter entendido a historinha: o acordo de paz entre os dois lados (para dar fim a um conflito “sem sentido e que custa a milhares de pessoas ...seu tempo livre”) é quase alcançado, mesmo com brigas, acusações mútuas e discussões constantes, mas no fim é sabotado por um elemento radical que faz ir tudo por água abaixo. No fim, a guerra recomeça e a “missão falha”.

Não me surpreende que esse quadro tenha surgido em um programa de humor israelense. Afinal, eles estão mais do que acostumados a negociações de paz que acabam minguando. E essa semana promete: deixando um pouco de lado as discussões do decênio do 11/09, nesse dia 20 começa a 66ª Assembleia Geral da ONU, e a tentativa palestina de reconhecimento de seu Estado perante a comunidade internacional.

Apenas retomando a questão: os palestinos precisam da aprovação do Conselho de Segurança e de dois terços da Assembleia Geral para que tenha seu Estado reconhecido. O problema: Israel do direitista duro Nethanyahu sequer cogita a possibilidade, e tem o apoio dos EUA, que vetariam a questão no Conselho de Segurança. Com isso, na eventualidade da proposta passar na Assembleia Geral, a Palestina pode ser reconhecida como um Estado, mas não sendo membro da ONU.

Na prática, nada mudaria: territórios ocupados permanecem ocupados, e por aí vai. O problema maior se encontra entre as partes, mas especificamente nos grupos radicais: por mais que o reconhecimento desse Estado possa fazer com que o grupo mais conservador em Israel seja influenciado a rever suas posições, inclusive para um processo de paz, os grupos radicais palestinos vêm com suspeitas esse reconhecimento – para eles, o mais importante seria varrer o inimigo do mapa, e ter seu Estado reconhecido implicaria em aceitar a solução dos “dois Estados”, e coexistir com Israel.

A população também se mostra indiferente – como na prática nada muda, o temor é que as coisas piorem no campo econômico, já que Israel e EUA podem retaliar economicamente a Autoridade Palestina (que depende tanto de auxílio dos EUA quanto de arrecadação de impostos de Israel). Há também o temor de que aumente a repressão nos territórios ocupados.

No fim, parece que todos perdem um pouco. A ONU terá esse constrangimento de reconhecer um país sem poder abraçá-lo. Os EUA, se não conseguirem aliados no CS até lá, vão fazer o papel de “vilões” vetando sozinhos o projeto. Na prática, nada mudará em Gaza e na Cisjordânia, e se for poderá ser para pior, com recrudescimento da ocupação israelense e possivelmente um fortalecimento dos elementos radicais. Israel será cada vez mais isolado na região, enfrentando um misto de paranóia e perplexidade com a recente perda de aliados (Egito, Turquia, etc.). A força crescente do Irã assiste tudo, à espreita e com um leve sorriso. Infelizmente, as possibilidades de resultados não são as melhores.

O reconhecimento do Estado palestino é um passo legítimo e fundamental para a paz na região, mas se for dado nessas condições ocorrerá em má hora, quando uma das partes não tem interesse no tema e a outra não colherá frutos práticos – discutir de cabeça quente nunca ajuda. É uma aposta bastante arriscada, que pode ajudar a flexibilizar setores mais conservadores, mas também tem o potencial de alimentar extremismos. Relembrando o esquete mostrado no começo do texto, basta um radical para por tudo abaixo – e as chances para isso não serão poucas se essa votação vingar.

sábado, 17 de setembro de 2011

Desmontando e montando

A União Européia marcou uma espécie de modelo ideal de integração regional. De um início tímido, quando constituído por seus membros-fundadores, o projeto foi progressivamente ganhando contornos de uma verdadeira “Europa sem fronteiras”. Nestes quase setenta anos de história, o bloco unificou objetivos e foi muito além de sua incumbência inicial. A paz aflorou entre os antes inimigos de guerra, as barreiras aduaneiras foram removidas, criou-se o Mercado Comum e, mais recentemente, ratificou-se o Tratado de Lisboa.

Este grupo de países viu passar ante seus olhos momentos fundamentais, seja a queda das últimas ditaduras na Espanha e Portugal ou o fim da Guerra Fria, seja as manifestações pró-mudança da geração de 1968 ou a ascensão do movimento Solidariedade na Polônia. As inúmeras convulsões políticas, sociais e econômicas vividas foram pano de fundo para uma Europa que deu sinais de mover-se rumo um sistema consolidado de integração, baseado na livre circulação de mercadorias, pessoas, serviços e capitais. Tão bem sucedido que o seu caminho percorrido é amplamente estudado e utilizado para pensar novos esquemas de integração regional.

Entre as principais bandeiras da nova União Européia está o euro. Contudo, é exatamente a moeda comum que promove o receio que crises circunscritas a países específicos (como a Grécia) terminem por minar a estabilidade de outros de seus membros. Todos os países do bloco, ao menos em certa medida, construíram e financiaram benefícios para seus concidadãos a partir de um crescente déficit público. Agora, crise após crise, a fatura parece ter chegado. Mais que isso, cabe a alguns aportar em nome de membros menos capitalizados, afinal muito está em jogo.

A situação, mesmo que prove ser meramente temporária, traz consigo inconvenientes para o aprofundamento da integração. De um lado, estarão os países ajudados, obrigados a cortar grande parte dos benefícios sociais criados e aumentar impostos como forma de mostrar forte comprometimento com o combate da dívida e do déficit orçamentário. De outro lado, estarão aqueles países ainda fortes apesar de endividados também, que tentam salvar outros enquanto pensam em suas próprias prioridades. Ao menos deste problema os britânicos parecem ter escapado. O processo já deu mostras de quão doloroso será.

Poderia a crise corroer as bases um processo tão bem (ao menos aparentemente) estruturado e minar a confiança construída pela paz e prosperidade? Quando a própria sobrevivência está em questão, muitos se esquecem de pensar em problemas além de seus próprios. Como em todos os demais momentos de inflexão, o rumo parece incerto. No entanto, sanar os problemas conjunturais pode representar uma oportunidade única de repensar a própria estrutura do bloco, não permitindo assim arrefecer o espírito da “Europa sem fronteiras”.

Obs: É engraçado ver o secretário do Tesouro norte- americano mencionar possíveis efeitos catastrófico advindos das discordâncias entre os governos europeus. Tomara que ele não tenha esquecido o embate democratas x republicanos em seu próprio país.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Post do Leitor - Tamiris Hilário

[Pessoal, esse é um texto da graduanda em Relações Internacionais pela Unesp, Tamiris Hilário, tratando da questão da arte como fator de transformação. Uma perspectiva muito interessante, vale a pena conferir! E, aos interessados em enviar posts do leitor e fomentar as discussões, basta enviarem um e-mail para contato@paginainternacional.com.br]

"uma fronteira não é o ponto onde algo termina, mas [...] a fronteira é o ponto a partir do qual algo começa a se fazer presente". Heidegger

A exposição paulistana "De dentro e de fora" , a ser exibida no MASP, de 17/08 a 23/12, apresenta trabalhos de arte contemporânea, dentre os quais se destaca a participação do fotógrafo francês JR , vencedor do TEDx2010 . JR, em face ao contexto vigente, oportunamente suscita a questão: poderia a arte salvar o mundo? De pronto, reconhece: não, não poderia. Isso porque, não se trataria de "salvar", como afirma, mas de "mudar" o mundo. Vejamos de que maneira.

Parece confortável afirmar, hoje, que elementos culturais e artísticos se apresentam como transcendentes daquilo que se entende ou se convencionou chamar de fronteiras - físicas, sociais, econômicas, políticas e imaginárias. Carregam consigo, com isso, não apenas a idéia de agregação, mas também (e principalmente) de transcendência. Denso? Basicamente, estamos a falar da música, da fotografia, da dança, do circo, do teatro... como transgressores!

O "Inside Out Project"de JR, por exemplo, é uma iniciativa a qual transforma fragmentos individuais pequeninhos em elementos artísticos. Qualquer um pode utilizar-se de fotografias em preto e branco para descobrir, revelar ou compartilhar histórias e imagens de sujeitos visivelmente invisíveis, ao redor do mundo.

Para além dos entraves e das burocracias tradicionais, comumente exigidas quando se quer mudar algo, neste faz-se necessária, apenas e tão somente, uma superfície sólida na qual a aplicação da imagem possa ser feita. Em grosso modo, uma parede. Testou-se assim, o poder da cola e do papel na África do Sul, Sudão, Serra Leoa, Libéria, Quênia, França, EUA, Inglaterra, Brasil, Índia...!

JR acredita que a arte se apresenta como um instrumento real para fomentar trocas e enriquecer discussões, tornando-se com isso capaz, não propriamente de alterar as regras do jogo, mas de modificar percepções.

Trata-se de um exemplo dentre a ampla gama de ações culturais transformadoras capazes de propiciar o aprendizado do convívio com a diferença, desencadear a formação de sujeitos criativos e transformadores e promover o sentimento de coletividade e de convívio social. A arte que "transforma" desenvolve assim um leque iniciativas mais inclusivas e que considera as diversas maneiras de fazer parte e de ser. Permite, com isso, que os espaços sejam realmente vistos - e entendidos - de forma mais humana.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O 11/09 solidário


Hoje, vamos falar um pouco mais do 11 de setembro, sob uma perspectiva meio diferente (ou pouco vista). Quando pensamos nos resultados dos atentados, sempre vem à nossa mente a questão dos ataques terroristas, intervenções militares e tantas mortes que vieram na sua esteira. Mas, no que pesem essas consequências nefastas, houve em algum momento algo de bom que veio desses atentados (e não, não estou falando da alegria daqueles que comemoravam a punhalada no coração do “grande satã imperialista”). É o que poderíamos chamar de solidariedade pós-atentados. Mas talvez o tema principal seja, na verdade, como é fácil se esvaziar esse sentimento.

Muita gente não se lembra, mas foi o 11/09 que possibilitou o início da Rodada Doha de negociações da OMC. A discussão da chamada “Rodada do Desenvolvimento” estava planejada para ter início em novembro daquele ano. Quando o momento chegou, por mais que houvesse dificuldades de planejamento, pauta e negociações, havia um grande clima de otimismo. Mesmo por que não havia um objetivo mais justo do que derrubar barreiras comerciais, abrir mercados e facilitar a vida dos países subdesenvolvidos. E, acima de tudo, nenhum país do mundo, naquele momento de perplexidade, pouco mais de um mês depois dos atentados, queria fazer o papel de vilão mundial e travar as discussões dessa tão nobre empreitada. Claro que os objetivos estavam traçados para 2006, não saiu nada até agora e a rodada foi pro vinagre faz tempo, mas que em algum momento houve uma certa boa-vontade, ah, isso houve.

Por outro lado, havia aquela solidariedade mais atávica, dos momentos imediatamente posteriores aos ataques. Não apenas nos EUA, mas também quando as bombas estouraram em Madri e Londres, o mundo se pôs ao lado dos que foram vitimados pelo terror. Os EUA tiveram uma onde de popularidade tão grande podemos até imaginar se isso não pareceu uma “carta branca” ao país e isso não afetou a sua decisão de invadir, por exemplo, o Afeganistão. Alguns dizem que a escolha desse país como refúgio para Bin Laden era, além do governo simpático à sua causa, justamente pelo fato de que a proximidade com a Rússia, China e Paquistão colocaria os EUA em posição complicada caso escolhesse ir atrás dele e mexer no delicado equilíbrio de poder na região. Mas o que aconteceu? A Rússia apoiou, a China deu de ombros e o Paquistão virou o melhor amigo dos EUA na região (até pouco tempo atrás), tudo isso reflexo dessa “solidarização”. O que aconteceu depois disso é questionável, mas não podemos negar que quem sofreu com os atentados esteve com a corda toda por algum tempo.

Mas por que essa solidariedade evapora? É interessante reparar como o mundo se une em casos de grandes desastres como os terremotos da Turquia ou da China, ou o tsunami do Japão. Todos foram desastres que vieram depois do 11/09, vitimaram muito mais gente, e causaram muito mais estrago material. A solidariedade foi bem mais duradoura.

Talvez tenhamos citado casos muito impróprios pra exemplificar essa solidariedade pós-11/09. O comércio internacional é uma arena travada e onde prevalecem os interesses egoístas de cada ente – a esperança de Doha foi mera politicagem. Já as reações militares nem precisam de muita explicação – retaliação de mortes com mais mortes não poderia ter outro resultado que fazer ruir a imagem dos EUA em muitos lugares. Claro que ambos os casos acabaram tendo efeitos secundários surpreendentes. Só para constar, houve a união dos países em desenvolvimento para dar mais força a suas reivindicações (e unindo interesses comerciais tão divergentes como de Índia e Brasil) e a rejeição generalizada (que, portanto, uniu ideologicamente muitos grupos e países) aos EUA em boa parte do mundo islâmico.

Talvez, a verdadeira solidariedade não possa advir de um evento tão catastrófico. O impacto das imagens e da matança de inocentes pode ser um elemento de choque que causou simpatia momentânea, mas no fim das contas pode ser que nada de bom realmente venha da violência, ainda mais quando respondida com mais violência. Fica essa indagação para o futuro.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Post especial para a Bianca!


Nesta semana de comemoração e posts especiais - particularmente por causa do lançamento do nosso livro -, todos nós, colaboradores da Página Internacional, não poderíamos deixar de fazer mais uma postagem comemorativa. Desta vez, homenageamos a colaboradora Bianca Fadel, que, neste momento, está a caminho da Bélgica. É claro que não comemoramos sua partida, Bianca; comemoramos esta nova fase de sua vida, a qual temos a absoluta certeza de que será fantástica. Ao longo dos próximos dois anos, não teremos ao lado aquele sorriso afável e aquele jeito mágico de ser, sempre tão comentados e venerados. Mas seguimos com a convicção de que não há gélidas fronteiras que desaqueçam o calor da amizade, ainda que nossos laços sejam conduzidos por fios.

Se nos permitir breves recordações, Bianca, para saborear no presente todo o encanto do passado, nós gostaríamos de lhe se servir, no prato de sua memória, o inesquecível, temperado com emoções e alegrias. De modo praticamente inevitável, logo nos vêm à mente a imagem da toda esforçada delegada do Chile, na 3ª Edição do United Nations Model of São Paulo (UN-SP). Em 2007, você já demonstrava, com distinta elegância, que há espaço para a bondade nas relações internacionais. E não parou por aí. Militou pela bondade em sua passagem pelo 3º Setor da Orbe-Empresa Júnior de Relações Internacionais da Unesp-Franca e na iniciativa de trazer uma representação da Cruz Vermelha para Franca. Há pouco tempo, esteve na Espanha, participando da "X Edição do Programa de Jovens Líderes Ibero-americanos", e nos contou sobre isso muito entusiasmada. Quis o destino que a Europa te acolhesse novamente.

Suas ações, Bianca, engrandecem a alma humana, demonstram o quão longe os seres humanos podem ir sem definir os interesses meramente em termos de poder, como avaliaria Morgenthau. O melhor é pensar na poesia de Guimarães Rosa, que parece ter sido escrita para você:

“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
Aperta e daí afrouxa,
Sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.”

A Página Internacional se orgulha muito de ter você entre seus membros, uma pessoa que, como pouquíssimas, pode assumir uma forma tão angelical. Queremos te dar todo o incentivo que pudermos te oferecer por meio deste post. Esperamos confortar qualquer saudade que vier a sentir quando a solidão te fizer companhia. O mestrado da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, acaba de ganhar um anjo, dedicado a pesquisar na linha de ações humanitárias. A exemplo dos colaboradores Ivan e Luís Felipe, e de modo a destacar o "Internacional" do nome do blog, voltaremos a ter postagens do estrangeiro, o que enriquece as análises culturalmente.

Dê a coragem que a vida te cobra e faça seu sucesso resplandecer em nossos olhos. Boa sorte, Bianca!

domingo, 11 de setembro de 2011

Post Especial



E este é um post especialíssimo. Como divulgamos no blog e por meio de redes sociais, neste dia 11 de setembro, daqui a pouco, a equipe da Página Internacional estará lançando oficialmente nosso livro, na XV Bienal do Livro do Rio de Janeiro.

Quis o destino que coincidisse com essa data tão importante, em que se recordam os dez anos dos ataques terroristas mais importantes da história – e que, de fato, desde então, moldaram a história em si! Boa parte do grupo de autores, que está na média dos seus 20 a 25 anos, eram jovens adolescentes sonhadores quando os aviões se chocaram contra as torres gêmeas e o Pentágono. E nós crescemos – e amadurecemos – acompanhando os fatos e desenvolvimentos desse evento catastrófico; é inegável que tudo que envolve o 11/09 faz parte de nossa cultura e de nosso conhecimento. E, quem sabe, com essa curiosidade por entendermos as razões dos atentados, compreendermos seus efeitos e almejarmos a capacidade de poder mudar algo futuro, não tenha surgido essa centelha que nos levou a estudar Relações Internacionais, e consequentemente dar à vida esse blog. Eu, particularmente, não me imaginava publicando um livro há dez anos!

E isso nos leva à outra parte – se existe o blog, é por que há quem escreva, mas também há quem lê. Sem ninguém para acompanhar, seriam meras palavras lançadas ao vento. Já foi feito um post belíssimo (veja aqui) quando anunciaram nossa conquista, em que agradecemos de maneira especial aos leitores. Por enquanto, reafirmo esse aspecto, e deixo aqui um agradecimento sincero e profundo a todos que nos acompanharam até aqui, lendo, comentando, dando apoio, sugestões, enviando seus textos para a seção de posts do leitor, simplesmente acessando – e que certamente foram fundamentais para a que esse livro se tornasse realidade. Cada pequena ação reflete uma reação, e esse livro têm muito de nosso suor, mas também do de vocês, senhores leitores, que sempre nos incentivaram a dar nosso melhor.

O blog está sempre mudando. A equipe, também. Mas essa etapa de nossas vidas, e da própria vida do blog, agora está condensada e consolidada. Não serei pretensioso a ponto de dizer que “para sempre”; mas, quando alguém vir esse livro no futuro, vai poder lembrar de que houve um bando de jovens abusados que ousaram dar seus pitacos nos eventos do mundo, com seus erros e acertos, mas sempre de modo apaixonado.

Que esse sucesso seja o primeiro de muitos, e um último agradecimento a todos que ajudaram. Fiquem atentos para mais novidades, e até a próxima!

A Equipe “Página Internacional"

[UPDATE: Confiram AQUI todas as fotos do evento de lançamento do livro, que acontece neste momento na Bienal do RJ! Importante dia para a Página Internacional!]

Principais fotos do evento!

O estande do lançamento

Membros da equipe! Da esquerda para a direita, Luis Felipe, Giovanni, Raphael e Alcir

Giovanni, Luis e Alcir com o livro!

Sessão de autógrafos

sábado, 10 de setembro de 2011

Post do leitor - Danillo Alarcon

[Pessoal, dando continuidade às reflexões acerca dos 10 anos dos atentados do 11 de setembro, iniciadas aqui, temos um muito oportuno post do leitor, de nosso colega Danillo Alarcon, graduado em Relações Internacionais pela Unesp-Franca e mestrando também em Relações Internacionais pela UnB. Boa parte das reflexões acerca das consequências dos atentados nesses últimos 10 anos se referem às relações dos EUA com o mundo, e nesse texto vamos ver o tema sob a ótica do "outro lado" - os que "pagaram o pato" após os atentados com a ação militar dos EUA. Vale a pena conferir! E fica o convite a todos que se interessarem a participar dessa discussão para mandar textos para o e-mail da Página Internacional - contato@paginainternacional.com.br]

Dez anos de uma "não-era"

O dia 11 de setembro de 2001 estará para sempre marcado como uma data para reflexão. A irracionalidade dos ataques terroristas ainda nos surpreende e o "terror" continua seu ciclo e perpetua sua função todas as vezes que as fatídicas imagens dos aviões atingindo as torres do World Trade Center são repassadas pela mídia.

De 2001 para 2011 muita coisa mudou. Consideremos que alguns séculos atrás um período da mesma extensão não traria consigo a percepção de tamanhas alterações. Contudo, é necessário cautela nesta análise. Olhemos algumas dos principais desdobramentos desde os atentados.

Não custa recordar que os ataques perpetrados pela rede terrorista Al-Qaeda levaram os Estados Unidos a uma guerra no Afeganistão e deram suporte para a criação de um discurso que auxiliaria na invasão do Iraque, para a derrubada do governo de Saddam Hussein. A priori, as duas intervenções militares tiveram objetivos não vinculados a regime político (no primeiro caso, a derrocada do Talibã, e no segundo, o temor das armas de destruição em massa), mas imbuído nos discursos e na ação que se passou nestes países após a ocupação, ficou-se claro que a exportação da democracia, pela via militar, estava em pauta – e esse foi um desserviço genuinamente americano à democracia propriamente dita.

A prática americana indica que o interesse nacional nem sempre é compatível com a ética e o cumprimento da palavra. Pois bem, o oxímoro a que se renega a “democracia” quando vinculada a outro termo com carga tão poderosa quanto “guerra” pode ter consequências deletérias: dessa vez, contudo, foram os EUA que se viram marginalizados, pois as fábulas contadas para justificar as duas guerras foram desconstruídas pelos fatos no campo de batalha e nas instâncias burocráticas.

Claro, nem tudo é negativo. Se analisarmos as situações no Afeganistão e no Iraque, percebemos certo avanço na construção de um sistema democrático (ao menos no que tange às instituições) nestes países. O Afeganistão ocupado em 2001 passou por um difícil processo de formação de um governo. Conseguiu organizar alguns pleitos que mesmo conturbados um grau razoável de participação populacional. Além do mais, mulheres foram eleitas, um fato que chama muita atenção quando se recorda o histórico de misoginia do Talibã. O Iraque, ocupado em 2003, teve eleições parlamentares em 2005 e 2010. Atualmente, com a retirada das tropas de combate americanas do Iraque e o apelo da sociedade americana (não tanto por parte das autoridades de Cabul) para a saída do Afeganistão, é pertinente que nos perguntemos quais são as chances desses regimes efetivamente se enraizarem!

Dez anos depois grande parte dos países muçulmanos sacolejou com a “Primavera Árabe”. Ben Ali (Tunísia), Mubarak (Egito) e Ghadafi (Líbia) são os grandes que já despencaram. E na base de todos esses movimentos estavam fatores como o desemprego, a deterioração das condições de vida e o descontentamento com governos que gradualmente tiraram suas credenciais de provedores de bens básicos, mas que não haviam concedido o devido contrapeso da representação. Nos casos de Afeganistão e Iraque, os mesmos fatores acima ressaltados se somam à crescente violência nas duas sociedades para minar os governos instalados após as devidas invasões.

No campo econômico, as guerras do Afeganistão e do Iraque minaram recursos da economia americana, que em 2008 se viu em uma situação complexa, com uma crise severa e que volta agora a se complicar novamente. Os EUA mantém ainda o seu potencial militar, sua capacidade de renovação tecnológica e de certa maneira suas reservas de "soft" e "hard" power (e estão cientes de que tem que usá-los com cada vez mais cautela). Entretanto, como ressalta Zakaria, o "resto" ascendeu. A China, o Brasil, a África do Sul, a Rússia e a Índia hoje figuram como global players, não somente por suas posições geográficas, mas pelos caminhos que trilharam ao longo desses últimos anos.

Além do mais, o maniqueísmo com que os EUA trataram o mundo durante o governo Bush não rendeu bons frutos: diminuiu o potencial de diálogo com países como o Irã e a Coréia do Norte, que acabou construindo sua bomba nuclear.

Em uma perspectiva ampla, que só o tempo nos dá condições de olhar, faltou a percepção de que o 11 de setembro tinha raízes históricas. Por muito tempo, em especial durante a Guerra Fria, tratou-se o mundo como um jogo de xadrez. Hoje, isso não é mais possível, muito menos desejável. E falta, nas proximidades do aniversário de dez anos dos atentados de 11 de setembro de 2001 a percepção de que o mundo não começou nem foi reinventado naquela data. Talvez houvesse esse desejo por parte de alguns, para justificar o redesenho da ordem internacional, dividida entre um eixo do Bem versus um eixo do mal.

É fato que alguns processos se aceleraram como a contestação da ordem hegemônica americana e a ascensão do resto. Parece claro, todavia, que os EUA de Obama perceberam que realmente não dá mais para seguirem caminhando como "Golias" em uma terra cheia de "Davis".

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sociedade do consumo

Como definir o mundo em que vivemos atualmente? Conceitos utilizados por abordagens pós-positivistas nas Relações Internacionais – as quais questionam discursos dominantes, propondo interpretações de um mundo que é socialmente construído – definem nossa sociedade em termos de pós-modernidade, capitalismo tardio, era da informação, pós-fordismo, etc. Fredric Jameson, importante teórico nesta área, agregou ainda um interessante conceito a essa reflexão: “sociedade do consumo”.

Consumir... verbo antes associado apenas a ações práticas (como fazer compras no mercado!), hoje em dia assume um caráter retórico cada vez mais forte em nossa sociedade. Consumimos informação. Consumimos ideias. Consumimos imagens. Consumimos até perspectivas idealizadas de vida!

E, nesta era globalizada, o que as grandes empresas menos esperam é ter suas marcas associadas a comportamentos negativos, que possam prejudicar sua imagem (e o “consumo” desta pela população, é claro). Segundo os noticiários de hoje, a conhecida marca francesa de roupas Lacoste teria solicitado que a polícia da Noruega impeça que Andres Behring Breivik, atirador responsável pelo desastre recente no país (veja post no blog a respeito aqui), utilize roupas da grife durante os julgamentos do caso (foto). O receio é que a marca se associe, de alguma forma, à imagem dele. E este não é o primeiro caso neste âmbito. Exagero, precaução ou mera consequência inevitável de uma lógica consumista? Em uma “sociedade do consumo” como a nossa, esta parece ser uma questão interessante...

Percebe-se ainda que o cuidado com a preservação da imagem não se restringe a empresas, alcançando também governos, organizações e quaisquer atores neste complexo e articulado cenário internacional em que vivemos. Segundo Jameson, teórico anteriormente citado, hoje a mídia ocupa o espaço da política, sendo que apenas existe o conteúdo veiculado por seus meios – e durante o tempo em que for veiculado. Será? Vale a reflexão.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Lançamento do livro da Página Internacional



Há quase um ano, publicamos um post especial celebrando a conquista do concurso "Blogbooks" na categoria política. Após meses de gestação, finalmente chegou o dia do lançamento do livro da Página Internacional. Será a oportunidade perfeita de dividir com nossos leitores a satisfação de ver mais um projeto de nossa equipe materializar-se. Um grupo de colaboradores do blog estará presente na Bienal do Livro especialmente para o evento. Mais detalhes abaixo:

Domingo, 11 de setembro
12h10 - 13h00
Stand da Singular Digital
Rua Machado de Assis, esquina quadra H

Riocentro
Av. Salvador Allende 6.555
Barra da Tijuca
Rio de Janeiro


Contamos com a sua presença!



11/09: dez anos depois...


A Página Internacional não poderia se ausentar deste importante debate em curso, que tomou conta dos noticiários, das análises de relações internacionais e mesmo das ruas. Todos estamos lembrando a data fatídica de dez anos atrás, cujos significados ainda tentamos investigar e depreender. Nada melhor para começarmos do que a poesia inigualável de Robert Frost, em Road Not Taken, no sentido de avaliar as estradas que divergem e os caminhos que se escolhem, bem como as consequências que advêm dessas escolhas.

Será que o mundo, de fato, mudou após o 11/09? O evento foi um ponto de inflexão nas relações internacionais, em geral, e na orientação dos países no cenário internacional, em específico? No plano cognitivo, estamos diante de novas ideias ou de velhas ideias que foram apresentadas como novas? Será o marco de um processo de declínio dos Estados Unidos? De uma nova ordem internacional? Os indivíduos estariam adquirindo maior voz e representação, ainda que por meios reprováveis? O que dizer acerca das guerras, economia, expressões culturais, movimentos sociais, organizações internacionais, desenvolvimento científico-tecnológico, etc., neste novo milênio?

Estas são apenas algumas questões de uma lista extensa, e quase interminável, de perguntas que poderiam ser feitas sobre o decênio vivido. São questões que intrigam, provocam e despertam a curiosidade em todos nós, telespectadores de um mundo agitado, vivenciando a novidade ou enxergando (finalmente) a velharia. O importante é não prescindir desses questionamentos, exercitar nossas dúvidas continuamente para buscar respostas e determinar ações. Ambas sempre variáveis e, constantemente, submetidas ao escrutínio.

Leitores, amigos e analistas, convidamos todos vocês para refletirem em conjunto com a Página Internacional sobre os dez anos subsequentes aos atentados de 11/09. Vamos debater os posts que forem publicados, argumentar, escrever, aprender, ensinar, criticar... Vamos mergulhar nesta aventura hercúlea de compreensão desta realidade fluída, cujos caminhos e esoclhas parecem sempre escoar para os confins de nosso intelecto, forçando-nos a buscar novos horizontes por onde velejar e cais para aportar.

O convite está feito e, no espírito da canção de Bob Dylan, este post se encerra deixando mais uma provocação para discutirmos o 11/09 e seus desdobramentos: “How many times must a man look up before he can see the sky?”

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Há um ano...


Há um ano, as coisas andavam agitadas na Página Internacional. Entre as principais análises feitas no momento, estava o anúncio do cessar-fogo permanente do grupo separatista basco ETA. Apesar de oficialmente ter deixado a luta armada pra trás (e não ter dado muitas confirmações disso, fora declarações esporádicas), isso não significa que o grupo esteja desmobilizado. Houve até indícios de que membros do ETA treinaram colegas das FARC – mostra de uma atividade que ainda deixa a Espanha e boa parte da Europa com um pé atrás até hoje.

Outro ponto levantado era a questão da imigração. Em um post que relatava problemas recentes na França e no México, o tema principal era a própria escolha e dificuldades da imigração. Não poderia ser mais atual, especialmente quando consideramos o quadro de tensões entre Europa e norte da África. A escalada de conflitos internos na onda de revoltas mediterrâneas se soma-se aos problemas econômicos europeus, criando um quadro nada convidativo aos imigrantes. A revisão das políticas de imigração e problemas na Itália e França são apenas a ponta de um iceberg muito perigoso.

Agora, se houve uma situação que se degradou bastante, foi a de Israel. Há um ano, se comentava a volta dos EUA como mediadores do interminável processo de paz entre Israel e palestinos, e como isso afetava os interesses iranianos na região. Teria continuado mais do mesmo hoje em dia, se não tivesse havido dois problemas, a questão da flotilha turca de ajuda a Gaza e a revolta no Egito. A primeira azedou completamente as relações entre dois aliados de décadas; o relatório da ONU sobre o desastrado ataque à flotilha livrou a cara de Israel, mas ainda assim a Turquia exige uma retratação que nunca vai vir. O efeito mais drástico disso se deu na semana passada, com a expulsão do embaixador israelense da capital turca, Ancara. Já a segunda questão, com a queda de Hosni Mubarak, fez Israel perder um dos poucos aliados que tinha em países árabes e resultou em problemas com terroristas atravessando território egípcio para atacar Israel pelo sul, ao que respondem com ações armadas que já afetam o Egito. Se com a onda de revoltas, pode-se dizer que no Oriente Médio ficou “cada um por si”, do Irã ao Marrocos, Israel fica mais fragilizado que os demais, ao colecionar novas inimizades e deixar de receber paulatinamente o apoio dos (política e economicamente) desgastados EUA.

Se as coisas parecem ter piorado, resta a expectativa de que daqui a um ano possamos relatar eventos mais positivos. Mas por enquanto, é isso aí pessoal, postando e relembrando.

domingo, 4 de setembro de 2011

Nova ordem, velhos amigos


A guerra ainda não acabou, mas todos já querem saber o que será da Líbia após a fim do regime Kadafi. O reconhecimento do Conselho Nacional de Transição (CNT) cresce na medida em que as atrocidades do ditador líbio são reveladas. Aparentemente ser amigo do Kadafi não é mais aceitável, muito pelo contrário. Os Estados Unidos e o Reino Unido, para exemplificar, foram países que no passado aceitaram cooperar com o regime semideposto.

Aqueles que consideravam rotineiro enviar suspeitos de terrorismo para a Líbia ou prover informações ao governo Kadafi sobre seus opositores, agora reconhecem o CNT como representante legítimo do povo líbio. Além disso, organizam reuniões com o intuito de ajudar a Líbia na transição. Com base no histórico recente, cabe a refletir sobre as reais intenções dos “velhos amigos” do povo líbio. Até que ponto há solidariedade e defesa dos Direitos Humanos?

Mais que um gesto de amizade, as discussões sobre o pós-Kadafi – antes mesmo dos rebeldes encontrarem seu refúgio – lembram um balcão de negócios. Afinal, qual a legitimidade desses mesmos países que viraram as costas para um aliado de outros tempos? Longe de defender um ditador sanguinário, trata-se de entender o que motiva as recentes boas ações. Uma delegação brasileira na Líbia, responsável por elaborar um relatório para as Nações Unidas, denunciou excessos e relatou o apoio à Kadafi por parte da população líbia.

Resta torcer para que as atrocidades cometidas no Iraque e Afeganistão em nome da democracia e liberdade não sejam esquecidas. Por enquanto, não faltarão países dispostos a desbloquear os bens líbios ou “ajudar” nos esforços para o restabelecimento de serviços básicos e a reconstrução da economia do país. Para aqueles ainda ditadores, bons ou maus, significa que a era da impunidade pode acabar à medida que seus países-amigos percebam que não é mais aceitável cooperar com governantes opressores ou que um governo mais popular poderá oferecer cooperações tão ou mais convenientes para seus negócios.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Post do leitor - Marcelo dos Santos Durante

[Pessoal, recebemos um interessante post do leitor Marcelo dos Santos Durante, graduando em Relações Internacionais pela UNESP, campus Franca. Nesta oportunidade, ele debate a crise do FMI e suas implicações, vale a pena conferir. Lembramos a todos os leitores que, se quiserem escrever para o blog, basta mandar o texto para o e-mail da Página Internacional - contato@paginainternacional.com.br. Boa leitura!]

Em Tempos de Crise

O Fundo Monetário Internacional (FMI) passou, recentemente, por uma crise interna. Seu Diretor-Geral, o francês Dominique Strauss-Kahn, foi acusado de assediar sexualmente uma funcionária de um hotel de Nova Iorque. Por causa dessa denúncia, Strauss-Kahn foi detido. Renunciou, dias depois, de seu cargo no comando do FMI. Devido à dúvida sobre a credibilidade da vítima, supostamente uma imigrante ilegal envolvida com tráfico de drogas, os promotores dos EUA decidiram retirar as acusações contra o ex-diretor da instituição.

Para a sucessão no comando do FMI foi escolhida Christine Lagarde, a então ministra das Finanças de Nicolas Sarkozy. Mesmo sendo a primeira mulher a assumir o mais alto cargo da instituição financeira (o que é um avanço importante), Lagarde é europeia e sua candidatura teve amplo apoio da União Europeia e dos EUA. Essa pode ser uma evidência de que a reforma pleiteada pelos países de crescente importância global (notadamente os BRICs) e prometida pelas lideranças do FMI demorará a concretizar-se.

Em meio a essa turbulência institucional, o FMI ainda precisa administrar uma crise econômica sem precedentes na zona do euro. Cabe à instituição conseguir, dos governos que pedem auxílio, as garantias efetivas de que eles adotarão as medidas “recomendadas” para sanar as contas públicas e saldar o(s) empréstimo(s). A questão é que, para o FMI, só existe uma única forma de política econômica eficaz: liberalizar, privatizar e desregulamentar. E os efeitos colaterais desse tripé são conhecidos: recessão, desemprego, diminuição nos investimentos sociais e aumento do fosso que separa ricos e pobres.

Ao desconsiderar a influência das particularidades sociais e institucionais na conjuntura econômica e condicionar os empréstimos à garantia de adoção dessas medidas tidas como “eficazes”, o FMI faz com que suas recomendações adquiram um caráter de imposição. O exemplo do chamado Plano Brady é interessante. O Plano foi lançado no final dos anos 1980 com o objetivo de solucionar a crise da divida latino-americana. Consistia na troca dos contratos da dívida dos países que tinham decretado a moratória por títulos que seriam honrados pelo governo dos EUA. Tal mecanismo também foi recomendado para países como a Bulgária, Nigéria e Polônia.

Atualmente os analistas do FMI propõem uma versão atualizada do Plano Brady para socorrer os países europeus imersos na crise. O pacote de medidas foi executado sem considerar o complexo quadro político-econômico latino-americano; tampouco avaliou a vicissitude da convulsão que as economias em transição no leste europeu passavam no início dos anos 1990. E será reeditado para conter os ventos da crise que ameaçam soprar sobre toda a União Europeia. Nenhum país esteve ou estará pronto para os efeitos colaterais do ajuste econômico. Mas quem não adotar as políticas e os mecanismos recomendados não verá a cor do dinheiro.

A única semelhança entre os países que aderiam às recomendações do FMI e os países europeus em crise atualmente é o déficit público. A dinâmica do sistema financeiro internacional mudou. Novos atores surgiram e pleiteiam cada vez mais espaço no cenário internacional. Novos contextos exigem novas ideias. Mas as instituições criadas para manter o equilíbrio no sistema internacional insistem em tomar suas decisões baseadas no mundo de décadas atrás.

Pois bem, os tempos de crise sempre nos convidam à reflexão. Talvez seja a hora de mudar.