quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Palco amazônico, marcha boliviana

Amazônia. Por si só essa floresta já atrai os mais diversos olhares. Segundo Aziz Nacib Ab'Sáber, importante geógrafo brasileiro, “Trata-se [a Amazônia] de um grandioso anfiteatro de terras baixas, encerrado entre o arco interior das terras subandinas e o Planalto das Guianas e o Planalto Brasileiro”.

E eis que esse anfiteatro está sendo palco de mais uma polêmica discussão ambiental internacional. No momento, a peça em cartaz trata da construção de uma estrada amazônica em território boliviano – com fins estritamente comerciais e financiamento brasileiro.

Mais de mil indígenas nativos da Amazônia boliviana realizam há duas semanas uma marcha contra a construção dessa estrada, potencial causadora de inúmeros danos ao Meio Ambiente, segundo eles. Ao que consta, o projeto inicial da estrada divide ao meio o Território Indígena Parque Isiboro Sécure (TIPNIS), sendo o impacto ambiental a maior crítica dos manifestantes. O diálogo com as autoridades governamentais bolivianas ainda não possibilitou consenso a respeito do impasse, fazendo com que a marcha dos indígenas siga em direção a La Paz, capital do país.

Este não é o primeiro impasse em relação a impactos ambientais e prejuízo à biodiversidade local envolvendo o Brasil que vieram à tona em tempos recentes. Também as obras da usina hidrelétricas de Belo Monte têm gerado enorme discussão e revolta, questionando o custo benefício de um empreendimento deste porte (veja o post no blog sobre o assunto aqui e uma notícia atual aqui).

Como conciliar interesses econômicos com a preservação ambiental? A resposta a esta pergunta parece constituir um desafio diário. Em tempos nos quais o conceito de sustentabilidade tem sido cada vez mais utilizado por empresas e governos para determinar políticas e investimentos, cabe questionarmo-nos até que ponto este assunto se restringe ao âmbito da retórica, sem que efetivamente se reflita em decisões práticas.

A marcha dos indígenas bolivianos ainda deve acontecer por dias até que as possibilidades de diálogo sejam retomadas para a busca de uma solução adequada ao problema. O presidente Evo Morales demonstrou-se disposto a encontrar uma alternativa ao impasse. Resta saber se todos aplaudirão ao final de mais este de mais este desafio em palco amazônico.

[UPDATE: "Após distúrbios, Bolívia suspende construção de estrada que tem recursos brasileiros", 27/09/2011.]

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Injustiça histórica

Maquiavel é o autor de uma das frases mais conhecidas da História – e frequentemente utilizada sem escrúpulos para justificar atos inconsequentes –, qual seja “os fins justificam os meios”. Dado seu período histórico e o objetivo político de sua obra, tal afirmação é carregada de uma ideologia relativista no que concerne à ética e à moral, provocando bastante discussão até os dias de hoje.

No contexto das Relações Internacionais, talvez os Estados Unidos tenham sido o país que mais vezes se utilizou deste lema para justificar suas ações. Hoje, mais uma polêmica vem à tona e suscita debate neste âmbito: está comprovado que médicos norte-americanos realizaram verdadeiros experimentos com milhares de “cobaias” guatemaltecas durante a década de 1940, camuflando os meios utilizados nos testes e provocando a morte de 83 pessoas, inoculadas com vírus de doenças sexualmente transmissíveis – notadamente a sífilis e a gonorreia.

Ocorre que este debate se iniciou em novembro do ano passado, quando o presidente da Guatemala, Alvaro Colom, divulgou informações a este respeito e classificou como “crime contra a humanidade” a atitude dos cientistas norte-americanos. Ao que consta, os guatemaltecos que participaram da pesquisa não foram informados acerca do procedimento (que consistia exatamente na inoculação dessas doenças venéreas), deixando clara a intenção dos cientistas de camuflarem os meios utilizados. O fim “recompensador” seria a verificação dos efeitos da penicilina no combate a este tipo de doença.

Até que ponto o espírito maquiavélico pode ser aplicado neste caso? Evidentemente, quando se trata do respeito à vida humana, não há “fim” que justifique “meios” criminosos, e isto foi reconhecido pelo próprio presidente Obama, ao instaurar uma comissão presidencial de bioética para averiguar essa injustiça histórica. O relatório final deve ser publicado apenas em setembro, mas as avaliações preliminares indicam que realmente os dados apresentados pelo presidente da Guatemala no ano passado são verídicos. Verídicos e revoltantes.

Revoltantes no sentido de que esta polêmica reforça a perspectiva predominante naquela época (ou será que até hoje?) de claro preconceito em relação aos povos ditos “subdesenvolvidos”. O que mais pode explicar o fato de essas pesquisas terem sido realizadas dessa forma em território guatemalteco? Será que aquelas vidas teriam menos valor que as vidas de norte-americanos? Pelo menos na visão dos cientistas (ir)responsáveis à época, isso parece ser nítido.

Depois de tantos anos, eis que o próximo desafio (mais um!) ao presidente Obama será pensar, efetivamente, em meios para compensar tamanha injustiça histórica cometida pelos Estados Unidos em relação à Guatemala... será que ainda é possível reparar, de alguma forma, os danos?

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O show é dos senhores!


No estudo da história das Relações Internacionais, uma das vertentes mais tradicionais (e que já levou muita pedrada, mas ainda é muito utilizada) é a chamada “história diplomática”. Basicamente, é o estudo da história de um país com foco nas figuras do homem de Estado (de diplomatas a governantes) e seus feitos. Eu imagino que os historiadores do futuro que venham a estudar nosso período vão ter um prato cheio pra lidar com os protagonistas que temos hoje em dia.

O cara da moda é o Kadafi. Não bastava ter seu país estar em conflito civil, com intervenção estrangeira e seu paradeiro ainda ser um mistério, enquanto continua bradando aos seus leais seguidores que mantenham a resistência aos insurgentes. Na semana passada, descobriram em um de seus suntuosos bunkers ocupados pelos rebeldes um álbum de fotos e recortes de... Condolezza Rice. Aparentemente o líder líbio nutre uma admiração excessiva pela antiga secretária de Estado dos EUA, e mesmo que ressurja e tome de volta o país em uma espécie de virada épica, as páginas da história não vão ter clemência ao relatar sua “paixão adolescente”.

Por outro lado, há outros que estão um pouco fora de cena. Lembram do Kim Jong-Il? Pois é, depois de tanto espernear com seu programa nuclear e chamar a atenção do mundo, vieram uns árabes abusados e roubaram os holofotes da Coreia do Norte no palco internacional. No momento, deve estar de tocaia, aguardando para seu retorno triunfal à cena internacional enquanto o país tenta driblar as sanções e ganhar uns trocados de maneira criativa, como trapacear em jogos on-line.

Há também os que andam sumidos, por bons motivos, como Hugo Chavez (que certamente vai voltar com mais força que nunca); e há os que estão achando ótimo esse sumiço. Quando começou a intervenção da Líbia, se falava muito de Sarkozy e Berlusconi, os maiores interessados na ação. Mas claro que, um com problemas econômicos e políticos, outro com judiciais, a mudança do foco para a desastrada, apesar de apaixonada, ação dos rebeldes líbios caiu como uma luva: se não para amenizar as críticas, ao menos para desviar o mau-olhado da imprensa. Falem bem, falem mal, NÃO falem de mim...

E há os que navegam na incerteza. No Japão, a saída anunciada há tempos de Naoto Kan e consumada na sexta-feira abre espaço para Yoshihiko Noda, ministro das finanças e que promete arrocho fiscal pra sanar a economia do país e bancar a reconstrução após o desastre do começo do ano. Nos EUA, o esforçado mas desgastado Obama parece ter contornado momentaneamente os problemas com o Congresso e sua organização para enfrentar a chegada do furacão Irene (com um saldo de 19 mortos até o momento) são vitórias quando comparadas, pelo menos, a circunstâncias semelhantes enfrentadas pelo seu antecessor.

Curioso reparar como não temos no momento líderes que estejam com aceitação acima da média ou 100% de bem com a imprensa. Pode ter sido um mês excepcionalmente ruim, mas provavelmente é a época de crise que não ajuda muito na criação dos mitos...

sábado, 27 de agosto de 2011

Que futuro é esse?

Prever o futuro sempre atendeu a um anseio de muitos, seja por possibilitar uma preparação para tempos difíceis, seja para sonhar um futuro de grandes perspectivas. Em ambas as escolhas, projetar um futuro crível foi tarefa para poucos. Ao contrário do imaginado, por exemplo, veículos voadores ainda não dominam o tráfego das grandes cidades. Apesar de tudo, é possível inferir que aquele futuro trouxe grandes conquistas para a humanidade. Saindo da perspectiva mais científica, cabe lembrar que mesmo em questões mais conectadas ao dia-dia é inevitável alguns equívocos diante dos fatores tão dinâmicos da contemporaneidade. Um bom exemplo disso são as previsões econômicas anteriores à crise de 2008.

Uma interessante análise do futuro o divide em três fases: passado, presente e futuro. Para Santiago Bilkins, o primeiro reservou avanços lentos, que ensejaram grandes esperanças que pouco foram transformadas em realidade. Deste tempo, no pós-Revolução Industrial, surgiram as visões do que seriam os anos 2000. Passando para o presente do futuro, o homem parece ter enfim encontrado algo que avança exponencialmente: a tecnologia. O que hoje é um aparelho de última geração, logo será obsoleto frente aos novos inventos. Assim, o que fora desesperança pela não consubstanciação de nossos anseios (passado do futuro), nos leva a partir do presente para um futuro em que a ciência dá mostras que seguirá o ritmo da tecnologia, podendo talvez gerar vida artificial, modificar nossa espécie ou mesmo criar condições para a perpetuação da vida humana.

Contudo, as perspectivas que são ponderadas não criam dilemas estritamente científicos, mas atingem muitas questões atinentes à convivência em comunidade. Qual seria o futuro da educação, o modelo formal conseguirá sobreviver à profusão de informação imediata a que se tem acesso? Existe ou deveriam existir limites para a modificação ou criação da vida? Enfim, são temas que não produzem grande interesse no curto prazo e por este motivo, em sua maioria, seguem seus cursos de desenvolvimento longe dos tomadores de decisão. A história do futuro, como apresentada por Bilkins, nos leva a crer todo o conhecimento construído ao longo dos anos, especialmente nas últimas décadas, teve e tem o poder de gerar intensas transformações na forma em que vivemos. Neste sentido, seria uma estratégia lógica incentivar o intercâmbio entre cientistas/empreendedores e setor público. Isso poderia ser novamente a diferença entre transformar o presente em decepção (passado do futuro) ou em avanços exponenciais (futuro do futuro).

Enquanto especialistas ainda tentam interpretar as previsões relativas ao fim dos tempos, algumas temáticas dão mostras da profundidade dos debates que enfrentaremos no futuro. Oscar Pistorius, sul-africano que compete com próteses de carbono, entrará na pista a partir de hoje no Mundial de Atletismo (Daegu, Coréia do Sul) para tornar-se o primeiro atleta paraolímpico a disputar uma competição de tal porte em seu esporte. Em 2007, o mesmo Pistorius fora impedido de participar de competições não paraolímpicas em decorrência de possíveis vantagens que levaria contra os demais atletas. Em outro caso notável, pessoas escolheram substituir um membro por alternativas biônicas. A partir disso, as possibilidades de oferecer uma substituição ao corpo humano têm como princípio oferecer condições similares às pessoas saudáveis. Cabe ressaltar, como no caso de Pistorius, que talvez seja possível aperfeiçoar as habilidades humanas por meio da mesma tecnologia, justamente o debate travado por especialistas sobre o corredor sul-africano.

Como então analisar e projetar um mundo que substitui a linearidade pela exponencialidade?

terça-feira, 23 de agosto de 2011

¿Qué pasó con los "33 de Atacama"?


Hoje vamos fazer uma edição especial do nosso já muito conhecido exercício de memórias. Dessa vez, vamos olhar para um evento que marcou tanto o ano passado que a mídia e o governo do Chile à época vieram a chamar de um divisor de águas na história chilena: o acidente dos 33 mineiros chilenos. Não se deu exatamente um ano depois do resgate, mas no ano passado a essa altura, a mídia nos bombardeava com notícias sobre o paradeiro dos mineiros e os planos do governo para retirá-los da mina (para o post escrito sobre o tema, clique aqui).

Já discutimos por aqui se muitos eventos que a mídia ou governos veiculam como marcos ou rupturas representam de fato mudanças (clique aqui para o texto). Agora, o caso dos 33 mineiros foi de fato um marco na história chilena?

Bom, se estamos falando de um marco no qual pessoas seriam para sempre lembradas como heróis e a partir do qua a forma da população ver o governo seria diferente, a resposta pende bastante para o não. Aquilo que serviu como catalisador da unidade nacional e catapultou a popularidade do presidente Sebastián Piñera, hoje já é pouco lembrado no país.

Os mineiros passaram, para muitos, de heróis nacionais para aproveitadores nacionais. Os altos cachês por entrevistas e os processos realizados contra o Estado chileno por negligência têm provocado a revolta contra aqueles que antes eram vistos como os arautos do orgulho da nação chilena. Há também o lado dos próprios “33 do Atacama”. Insatisfeitos, esquecidos pelo governo, em estado pós-traumático e sem prospecção de melhoria de vida, eles são mais lembrados fora do país do que dentro dele.

O fato é que nem mesmo Piñera conseguiu aproveitar muito o sucesso da operação de resgate. Hoje, graças aos protestos por educação universitária gratuita, o presidente tem enfrentado a maior crise de seu governo e sua popularidade voltou a cair. Observa-se que eventos capazes de mudar o curso de determinada história são difíceis de ocorrer. Mesmo aqueles que parecem trazer inflexões grandes para um país, com a mesma velocidade com que rapidamente dominam os meios de comunicações, caem no esquecimento.

O Chile continua dependendo grandemente do cobre. Mineiros continuam com direitos trabalhistas e condições de trabalho precárias (tanto que outros mineiros envolvidos no caso somente receberam indenizações mais de um ano depois). Piñera continua com a popularidade baixa. É, pelo visto algumas coisas precisam de muitos mais do que um ano para mudar e nem sempre serão a mídia e o governo aqueles que ditarão o que é de fato um divisor de águas. É isso aí pessoal, postando, questionando, comparando e relembrando.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Uma virada irônica


A Líbia volta a ficar no centro das atenções do mundo. Enquanto a coisa pega fogo nas redondezas, como na Síria (onde persiste o jogo de afaga-bate da Assad contra os manifestantes, em que prevalece claramente o “bate”) ou em Israel (onde a trégua de dois anos com o Hamas foi rompida após os eventos infelizes da última semana), a queda de Kadafi é iminente (e considerada até mesmo inevitável).

Indícios não faltaram. Na última semana, a embaixada líbia em Brasília foi tomada por manifestantes. Agora, foi a vez de embaixadas na Turquia e na Bósnia. E até mesmo os próprios embaixadores na Síria abandonaram seu governo, reconhecendo o Conselho Nacional de Transição (leia-se: rebeldes) como legítimo. A situação atual favorece os rebeldes, que já teriam tomado pontos cruciais da capital e capturado três filhos de Kadafi (inclusive um deles, Saif al-Islam, a exemplo do pai tem um mandado do TPI contra eleEssa pode ter sido o golpe decisivo contra o governo, mesmo por que não se sabe o paradeiro do ditador). Aliás, se der o azar de morrer, podem esperar uma daquelas capas da Time com a foto dele cruzada por um “X” de sangue (recurso já meio banalizado pela revista...). Esteja ele entocado em algum lugar ou fugindo nas sombras em direção ao asilo na Tunísia, esse desmoronamento das principais figuras políticas fez com que as forças governamentais certamente perdessem o ânimo, e explicaria o rápido avanço dos rebeldes e a debandada das forças governamentais, dentro e fora do país.

O que esperar disso? Mais uma vez, efeitos da “primavera árabe” são obscuros. Se em análises anteriores mostrávamos que havia um grande risco da coisa se tornar um caos em meio ao vácuo político, hoje talvez haja razão para um pouco de otimismo. Se for seguir o exemplo de Egito e Tunísia, o resultado menos pior traria um governo pouco coeso e que talvez chafurde um pouco no meio da corrupção, mas ainda assim uma situação preferível ao sectarismo. A grande vantagem da Líbia em comparação aos demais países é o fato de que seu governante (possivelmente) deposto não é a figura mais popular no cenário internacional, e vários países já consideram o CNT como representante legítimo. Claro que dá uma forcinha a mais o fato de haver muito mais interesses econômicos na Líbia que no Egito ou Tunísia, especialmente europeus, e que já houve uma cruzada internacional nebulosa pra ajudar os rebeldes por meio de intervenção.

Não sabemos como vai ficar a situação na Líbia. Muito menos se os objetivos dos revoltosos (como melhora de vida, etc.) vão ser alcançados. Mas é possível que a esperada queda de Kadafi seja a que tenha maior possibilidade de trazer mudanças concretas, com grandes chances de que seja a transição mais organizada (apesar de ser ironicamente a mais violenta) até o momento.

sábado, 20 de agosto de 2011

Males da austeridade

Há mais de um ano, em artigo do Giovanni, foram destacados alguns fatores fundamentais para a vitória do Partido Conservador nas últimas eleições do Reino Unido. Gordon Brown, então líder do Partido Trabalhista, entregava a seu sucessor um país com crescentes desigualdades sociais e um déficit orçamentário em 11,9% do PIB. O fundamental, no entanto, era o quadro que se materializava através da promessa de aprofundar a austeridade sob o comando de David Cameron e Nick Clegg, reduzindo assim o déficit para 2% em 2014.

O que fora, em parte, iniciado por Gordon Brown, tornou-se o principal compromisso de Cameron: melhorar substancialmente a situação econômica do país. Além disso, defendia a diminuição da burocracia e o fomento da descentralização do poder. Em época de campanha, a plataforma soou como música para um eleitorado atônito. Há pouco mais de um ano, o tal déficit orçamentário britânica equiparava-se com o déficit grego. É evidente que a situação do Reino Unido não permitia soluções milagrosas, mas projetava um horizonte de grandes dificuldades.

Já afastadas, nas múltiplas análises do caso, interpretações superficiais das revoltas recentes, cabe ainda questionar o verdadeiro significado dessas políticas de austeridade. Houve, em menos de um ano de governo, uma escalada na frustração e raiva de setores da sociedade britânica. Já vimos: protestos estudantis, ocupação de universidades e atos públicos organizados por sindicatos. Os atos criminosos perpetrados no início de agosto são uma face das escolhas recentes e, mais que isso, dos setores da sociedade que realmente carregam o fardo da austeridade. Desemprego de 20% entre jovens de 16-24 anos, mensalidades de universidades triplicadas, programas enfocados na juventude encerrados. Fatores que certamente não ensejam esperanças para comunidades que antes se beneficiavam de investimentos sociais.

Poucos poderiam esperar isso dos britânicos. Para a socióloga Saskia Sassen, as diversas manifestações ao redor do mundo não são isoladas. Tais movimentos representam, em realidade, a chegada de um ponto limite da lógica excludente advinda da globalização. Neste sentido, seria lógico prever a intensificação dos conflitos. Qual a direção que tomamos, há ainda algo a perder? Entre agências de qualificação, tetos de dívidas e rendimento de títulos públicos, nada parece estar sob nosso controle. Contudo, as piores conseqüências irrompem entre nós, meros espectadores.

No caso britânico, a edição especial “O Mundo em 2011” da publicação The Economist já destacava a distribuição desigual dos cortes orçamentários: Defesa com 7,5%, Educação 11%, ao passo que os departamentos responsáveis pelo policiamento e prisões sofreriam um corte de 25%. A coalizão governista certamente não esperava flores pelo caminho, mas seu destino parece ainda mais sombrio que o previsto. Será possível levar até o fim um plano de austeridade a despeito das demandas e protestos dos seus eleitores?

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Teoria na prática

Se, por um lado, popularmente se costuma ouvir que, em regra, “na prática a teoria é outra”; também é comum escutar que “toda regra tem sua exceção”. Neste post, a reflexão traz exatamente uma “exceção” a essa “regra”, apresentando a atual crise política nos Estados Unidos como uma situação em que a Teoria dos Jogos se aplica diretamente à realidade.

Para aqueles que desconhecem a Teoria dos Jogos, vale a pena acessar os textos já publicados aqui no blog e que descrevem a teoria de forma bastante clara: disponíveis neste link e neste outro link.

Esta teoria advém essencialmente da área de Exatas e há poucas décadas passou a ser incorporada às Relações Internacionais para incrementar as análises político-econômicas em termos de cálculos racionais dos posicionamentos dos atores/jogadores envolvidos. O argumento dos autores norte-americanos Brendan Greeley e Steven Brams – este último famoso teórico político na área – em relação à atual situação política dos Estados Unidos apresenta uma visão muito racional dos fatos ao aplicar a lógica da Teoria dos Jogos a esta.

Na opinião destes autores, o embate entre Democratas e Republicanos nos EUA hoje poderia ser enquadrado em um dilema de “chicken game”, e a falha nas negociações provocaria um default completo, o equivalente a um “desastre nuclear”, se considerarmos o mais famoso exemplo de “chicken game” nas RI, a Crise dos Mísseis de Cuba (1962).

Este interessante artigo pode ser lido na íntegra (em inglês) aqui e vale destacar a seguinte citação: “Obama and the House Republicans, says Steven Brams, were playing chicken this summer, a noncooperative, non-zero-sum game in which both players can lose. A compromise outcome is difficult to achieve in chicken, because it’s not stable. Brams says that each player has an incentive to dissemble, because he will achieve a better outcome for himself if he does.” (GRELEY, B., 2011).

Tal como a figura no início deste texto sugere, o ganho político seria a maior vantagem caso uma das partes se mostrasse claramente cooperativa diante de uma falta de cooperação por parte da outra parte envolvida. Mas e a possibilidade (real) de um desastre completo? Será que valeria a pena correr esse risco? Racionalmente, não. E, depois de discussões tremendas (veja aqui, aqui e aqui), se chegou a um acordo a este respeito, elevando o teto da dívida pública para evitar o “calote”.

Este dilema enfrentado pelos norte-americanos certamente não está encerrado em sua totalidade. Analisar as características dos embates internos e suas consequências a partir da Teoria dos Jogos demonstra uma interessante visão da realidade por meio de ferramentas teóricas. Perceber a aplicabilidade desta teoria na prática demonstra a importância de uma avaliação ampla da situação político-econômica dos Estados Unidos, em que as variáveis incluam as estratégias utilizadas pelos atores, os benefícios de cada possibilidade e os interesses (sempre) envolvidos...

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Há um ano...


Há um ano o blog tratava de alguns assuntos que mantém sua atualizade mesmo hoje. Parece chavão, mas deve ser uma das provas de como a evolução do processo internacional é lenta e gadual...

No dia 9 de agosto, comentávamos sobre os 65 anos das bombas atômicas lançadas sobre o Japão na II Guerra Mundial. O final do texto falava um pouco desse pesadelo nuclear ainda ser uma ameaça real e até mesmo absurda no mundo de hoje. Ironia do destino, ou um presságio funesto, no ano seguinte o Japão se vê assolado novamente por esse terror, claro que por razões bem diferentes, mas que ainda assim mostra como a energia nuclear pode ser um tema controverso e que desperta debates apaixonados. Num momento, é a salvação da lavoura com o "fim" do petróleo, e até ambientalistas dão o braço a torcer; noutro, é desculpa pra radicais fazerem bombas atômicas ou uma ameaça latente nos reatores nucleares mal-administados...

No dia 10, comentávamos sobre as relações entre Colômbia e Venezuela. Com a saída de cena do combativo Uribe, havia a expectativa da reconciliação de seus líderes Chavez e Santos, encarada como um "espetáculo", quase que planejada. Dito e feito: os países estão em bons termos novamente, e o espetáculo continua, agora com o tratamento médico de Chavez. Sua luta aguerrida e otimista contra o câncer acaba sendo uma mostra de tenacidade que tem tudo pra aumentar muito sua popularidade (já está confiante para as eleições de 2012), principalmente nesse contexto de crise em que a Venezuela se encontra.

Por fim, no dia 13, falávamos da "síndrome de Dom Quixote", que nas Relações internacionais parece afetar muitos líderes mundiais, em que atitudes consideradas sem muito juízo na verdade são revestidas de interesses bem específicos. Os eventos recentes no Oriente Médio, em que vemos mandatários enviando suas forças armadas pra enfrentar civis, da Síria à Líbia, mesmo com a condenação internacional, mostram o quanto essa "loucura" parece estar preesente no dia-a-dia internacional.

É isso aí pessoal, postando e relembrando.

sábado, 13 de agosto de 2011

Brasil: ator global e líder regional?

Foi-se a desconfiança que nos impedia de identificar a Argentina como um potencial parceiro relevante. O Mercosul marcou, entre tantos elementos fundamentais, a aliança regional com o intuito de construir uma região de cooperação. Neste sentido, nossos projetos de desenvolvimento democrático, político, social e econômico caminhariam em sintonia e gerariam benefícios mútuos. Apesar da predominância do conceito integração regional, o tratado de Assunção marcou o fim de uma rivalidade histórica entre Brasil e Argentina, países com ambições e caminhos similares naquele momento.

Foi-se também o tempo em que o Brasil, assolado por questões urgentes no âmbito interno, pouco ou nada opinava nos rumos da comunidade internacional. Hoje a realidade é distinta. Como bem apontou Giovanni em um post recente, já existe o reconhecimento do Brasil como potência global por alguns especialistas. Em sentido similar, Celso Amorim, recém empossado ministro da Defesa, destacou a recomendação feita ao governo norte-americano de ajustar-se a um Brasil mais afirmativo e independente, em outras palavras, um ator verdadeiramente global. As recentes intervenções brasileiras nos mais importantes organismos internacionais corroboram nosso atual papel junto à comunidade internacional.

Há 20 anos, parecia que o Brasil estava destinado a ter como principais interlocutores: Argentina, Paraguai e Uruguai. A partir deste círculo, construiríamos as bases para o fortalecimento nacional e regional. Atualmente, cresce a convicção que nosso verdadeiro lugar é no salão principal junto aos Estados Unidos, a União Européia e os principais países emergentes. Nosso confinamento na ante-sala das organizações internacionais chegou ao fim. O que fora um sonho, parece formar um cenário crível e legitimado. Contudo, onde fica o projeto de integração e desenvolvimento regional? Aliás, é possível ser potência global sem ser um líder regional?

O evidente descolamento do Brasil em relação aos membros do Mercosul, em especial da Argentina, permitiu à nossa diplomacia alçar vôos mais ambiciosos. Recentemente, tive a oportunidade de conversar com alguns argentinos sobre o novo papel do Brasil, em maioria afirmavam que a Argentina ficou para trás e teríamos nos transformado nesse tal líder regional. Por outro lado, em contatos com colegas de Paraguai e Uruguai tive a impressão que o Brasil é visto como um “poderoso”, que pouco ou nada valoriza efetivamente a cooperação regional. Nossa ambição viria acima de tudo, o que nos permite inferir que há, em realidade, imposição brasileira em alguns temas importantes junto aos países menores.

Dessa maneira, o Brasil não poderia ser considerado um líder regional, uma vez que a maioria de nossos vizinhos não nos vê ou nos aceita como tal. Mais que isso, surge outra consideração importante. O Brasil que tanto defendeu um sistema mais justo, no qual todos os países sejam devidamente representados e relevantes, não estaria entrando para o seleto clube das potências e virando as costas para nossos interlocutores de outrora? Por exemplo, reivindicamos um assento permanente no Conselho de Segurança, mas isso o fará mais representativo ou somente nos tornará mais poderosos dentro de uma lógica igual? Será que adotamos a retórica que antes execrávamos, entrando no clube sem fazê-lo menos seleto, como defendíamos que deveria ser?

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Eram os deuses astronautas?


Este é o título de um dos mais intrigantes e revolucionários livros a respeito do contato entre seres humanos e seres extraterrestres, escrito por Erich von Däniken: deuses desconhecidos imprimindo o conhecimento em civilizações atrasadas. O espírito de suas páginas viajou não só pelo passado longínquo, senão também pelas eras da História, quando homens se endeusaram para homens subjugar, como o fardo do “homem branco”, em sua missão civilizatória na África e Ásia, ao longo do século XIX. A questão, na atualidade, é quem são esses deuses astronautas e o que eles pregam?

O entrechoque de visões de mundo é parte indispensável da evolução do conhecimento, processo contínuo, que tanto provoca a curiosidade humana quanto promove melhorias no modo de vida. Quando uma visão tenta se impor às demais, limitam-se os horizontes do pensamento humano, produz-se maniqueísmos e se hipoteca o futuro. Da discussão para a prática: o que difere a repressão síria da repressão britânica? Por que gerenciar uma crise de países ricos com os instrumentos econômicos de países ricos?

Não admira que o mundo esteja um caos e atravessando uma das principais épocas de incerteza. A “primavera árabe” despertou nos povos o sentimento de liberdade, enfatizando, sobretudo, as melhorias sociais. Coincidentemente, há uma Europa que, embora livre, se levanta por causas sociais. Começou em Atenas, passou por Paris, e se acentuou em Londres. O continente perdeu seu vigor diante da atual crise financeira. Desemprego e desespero, uma combinação perfeita para a violência, basta uma fagulha para acendê-la. Com a violência, vem também a repressão.

Será que Ahmadinejad, Assad e Kadafi estão completamente errados em condenar o Reino Unido? Os deuses astronautas, do lado do Ocidente, condenam sistematicamente as atrocidades na Síria e na Líbia e agora fazem o mesmo? Dizem que é errado usar forças repressivas contra cidadãos e, ao mesmo tempo, prometem endurecer a postura em relação aos manifestantes de Londres. Os extraterrestres ocidentais estão combatendo as mesmas ideias que difundiram para os primatas que atravessaram Greenwich. A única diferença é que não se produziu estatísticas elevadas de morte.

E esta crise que apenas começou em 2008? Ela já foi considerada sob diversas perspectivas, particularmente, uma delas é precisa para defini-la estruturalmente, bem como suas conseqüências: nas palavras do renomado economista Joseph Stiglitz, a crise ideológica do capitalismo. Sabe-se, pois, que desde o término da Segunda Guerra Mundial, o modelo do crescimento dos Estados Unidos foi sustentado pelo endividamento crescente, criando instituições que lhes garantisse grana. Agora, o mundo cobrou a conta. Só que os países ricos ainda não perceberam isso; acham que o dólar é mais confiável, que os títulos da dívida norte-americana (T-Bonds) são seguros e assim por diante. Estas “pessoas realmente sérias”, na expressão irônica do economista Paul Krugman, perderam a noção de credibilidade, mas acreditam cegamente nas ideias econômicas alienígenas, como dogmas de tudo aquilo que é avançado e correto.

O que aprendemos e aprenderemos com estes deuses astronautas da contemporaneidade? Que civilização construiremos? São perguntas cujas respostas deixaremos para os escritores de amanhã.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Quem tem medo de escuro?

Você tem medo de escuro? Quem disser que não escutou essa frase diversas vezes desde a infância, com certeza estará mentindo. O medo faz parte daquelas incertezas que crescem dentro de nós e que se alimentam de inseguranças e, possivelmente, de falta de entendimento e/ou capacidade para lidar com determinados problemas. E quando se trata do escuro então, do não enxergar, do deixar a mente criar e destruir pensamentos, certezas e fantasias, que as crianças, ficam ainda mais amedrontadas.

E a América do Sul? Tem medo do escuro? Se não quer ter é melhor começar a trabalhar para isso, segundo o responsável pela divisão de infra-estrutura e recursos naturais da CEPAL, Beno Ruchansky. A estimativa feita é que, caso o continente não dobre sua produção energética nas próximas duas décadas, os sul-americanos vão enfrentar um grande apagão conjunto.

Claro que de previsões nefastas já estamos todos fartos. Ultimamente elas vão desde o fim do mundo no ano que vem até o aumento do nível do mar em proporções capazes de derreter as calotas polares e reduzir drasticamente territórios ao redor do globo. Mas a questão é que, por trás dessa estimativa da CEPAL está uma mensagem interessante sobre o crescimento econômico desses países. Essa mensagem reside no quão desordenados e não planejados têm sido as expansões das economias sul-americanas e das possíveis consquências que terão caso continuem a marginalizar questões essenciais de infra-estrutura e energia.

Todavia não se pode dizer que não há nenhuma investida política de cooperação nesse sentido. O maior exemplo é a Iniciativa para Integração da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). Essa arquitetura regional criada em 2000, durante a 1ª Reunião de Presidentes da América do Sul, representa um avanço, porém não a resolução das dificuldades de infra-estrutura. Mas, da mesma forma que a instalação do Mercosul não representou, necessariamente, o efetivo livre-comércio entre os países sul-americanos, mas sim possibilitou um novo ambiente de diálogo comercial, a IIRSA ainda tem que trabalhar muito para rebater cenários nefastos. Mas o diálogo já começou. O que é sempre positivo.

Em outras palavras, a despeito dessa cooperação, o caminho a ser trilhado ainda é longo. Principalmente se levarmos em conta a necessidade de melhor planejamento de infra-estrutura do ponto de vista interno e do quão em segundo plano a questão da energia tem ficado na agenda política desses países. O Brasil passou por uma crise complicada em 2000, a Venezuela passa por outra desde 2010 e o Peru já anunciou que terá que comprar energia elétrica de seu vizinho para suprir sua demanda interna. A coisa não ta fácil para os sul-americanos.

Mas é aí que mora outro problema. Vamos aumentar nossa produção de energia? Certo, mas que fonte vamos usar? A polêmica hidroelétrica, a complicada nuclear ou fontes alternativas? Alterar ecossistemas, ir à contramão de ambientalistas ou gastar quantias que não são certeza de sucesso? Se os países sul-americanos não quiserem alimentar as incertezas e inseguranças energéticas, se quiserem não ter medo de escuro, há um longuíssimo caminho a ser trilhado. E, para começar, é preciso colocar, ainda mais, o tema na agenda.

[Clique aqui para um mapa da integração física da América do Sul]

Onde as crianças do mundo dormem

Este post especial se dedica ao compartilhamento de um interessante projeto fotográfico de James Mollison intitulado "Onde as crianças do mundo dormem" ("Where children sleep", no original em inglês).

O objetivo do documentário foi realizar, de forma crítica, uma reflexão sobre a pobreza e a riqueza; e, enfim, sobre as históricas desigualdades mundiais. Para isso Mollison percorreu o mundo retratando a realidade de crianças e seus quartos, em uma rica apresentação visual que choca e emociona ao mesmo tempo.

Cada foto é acompanhada de uma legenda explicativa para contextualizar a situação. Trata-de de um interessante projeto, vale a pena ser analisado. Neste link encontra-se um resumo traduzido da obra, com as principais imagens e suas legendas em português. Já o livro original em inglês pode ser acessado em sua versão digital aqui.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

66 anos depois...

Há 66 anos, o mundo vivia um dos momentos mais paradigmáticos do século passado: os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki. Estes encerraram, por assim dizer, a II Grande Guerra e demonstraram tristemente ao mundo o poder bélico estadunidense. Tristemente porque essa demonstração ocorreu à custa de aproximadas 200 mil mortes – em sua maioria de civis – e esse acontecimento foi hoje novamente relembrado pelo povo japonês.

A imagem acima, eternizada contemporaneamente, torna visível a magnitude do impacto da bomba nuclear sobre Nagasaki, ocorrida há exatos 66 anos. Vale lembrar que essas ocasiões foram as primeiras (e únicas) em que bombardeios atômicos foram utilizados em conflitos internacionais. A proporção dos ataques foi tão grande e tão intensa que, durante décadas, as consequências da radiação foram sentidas pelo país. Ainda hoje os termos “Hiroshima e Nagasaki” são frequentes quando o assunto discutido envolve guerra e paz, e os meios utilizados durante aquela para se alcançar esta.

Há dois anos, quando questionados sobre os bombardeios atômicos em pesquisa nacional, a maioria dos norte-americanos se mostrou favorável à decisão de Truman. Não restam dúvidas de que os anos passam, mas o sentimento nacionalista extremado (e muitas vezes inconsequente) estadunidense permanece.

Hoje, ao relembrar o impacto dos bombardeios e o recente desastre na usina nuclear de Fukushima, o prefeito de Nagasaki lançou o seguinte questionamento: “Por que esta nação que tem lutado durante tanto tempo pelas vítimas da bomba, uma vez mais vive com temor à radiação?”. Novamente a polêmica sobre as vantagens e desvantagens da utilização da energia nuclear vem à tona, e deve ser destacado o discurso sobre a necessidade de redução da dependência japonesa no que se refere à energia nuclear, nos dizeres do próprio Primeiro-Ministro do Japão.

Reviver a história é necessário e relembrar as vítimas destes ataques fulminantes ao Japão é natural e importante para que, diante dos desafios globais, os riscos de utilização da energia nuclear (especialmente em termos bélicos) estejam sempre vivos em nossas memórias. O que se deve evitar é repetir os mesmos erros e as mesmas perspectivas unilaterais de análise internacional para que, 66 anos depois, efetivamente tenhamos todos evoluído a partir das experiências históricas, quaisquer que tenham sido estas...

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

London Calling


Quem lê sobre isso até pode achar que está acontecendo aqui no Brasil. Um jovem foi morto em circunstâncias suspeitas depois de ter sido abordado por uma força especial da polícia. A população se revolta e vai protestar conta a truculência policial e falta de trato com a comunidade; eventualmente a passeata perde o controle e vira uma verdadeira chusma. O resultado são saques coordenados a estabelecimentos comerciais, mais de 100 presos e 30 policiais feridos. Rio de Janeiro? Não, mas em outra cidade olímpica, Londres. Como cantava a banda The Clash:

London calling to the faraway towns
Now that war is declared-and battle come down
London calling to the underworld
Come out of the cupboard, all you boys and girls

As reflexões sobre esse caso são inúmeras. Antes de tudo, há coisa de 20 ou 30 anos fervilhava esse tipo de tumulto e agitações na Inglaterra. A contestação econômica (crise, desemprego, etc.) e política (questão da Irlanda do Norte, etc.) fomentava revoltas e movimentos de contra-cultura, e dessa violência latente que surgiu nesse contexto apareceram coisas do movimento punk aos hooligans do futebol. Claro que boa parte disso foi superada com a rigidez e disciplina britânicas.

Pois bem, os tumultos que aconteceram no último fim de semana foram no bairro de Tottenham, um dos bolsões de pobreza e imigrantes da capital inglesa. Quando estouraram problemas parecidos em Paris, há alguns anos, até era de se esperar algo assim por causa do volume de imigrantes e todos os problemas de desequilíbrio de renda envolvidos que criaram um verdadeiro barril de pólvora. Mas, em Londres? Onde daqui a um ano tem um super evento multicultural com a Olimpíada, mesmo com a crise as coisas não vão mal, e uma tradição centenária de imigrações criou uma atmosfera meio que cosmopolita? Vale lembrar que por conta de fatores como a abolição precoce da escravidão e o Commonwealth (que torna até hoje súditos da rainha os povos que já foram parte do Império Britânico), sempre houve um grande volume de “não-europeus” (paquistaneses, indianos, negros africanos) na Inglaterra. Preconceito e atritos sociais não deixam de existir, mas são bem mais amenos que em outros países da Europa por conta dessa tradição.

E agora, o que esse evento pode nos mostrar? É impossível não traçar um paralelo com a morte do brasileiro Jean-Charles, fruto (também?) de erro da polícia. Situações parecidas, resultados diferentes. Não houve revolta no caso do brasileiro por ser imigrante e no de Mark Duggan por ser alguém do povo? Ou os tempos eram diferentes? O contexto atual de crise e incerteza, somado a tensões acumuladas da população mais pobre contra o tratamento da polícia (que parece ser o mesmo em qualquer lugar do mundo... até mesmo na Inlgaterra, onde os policiais nem andam armados!) resultou em uma onda de violência “ultrajante” e como não se via há tempos. A morte de Duggan e a ação de bandidos no meio dos protestos foi um gatilho para que alguns membros da população exprimissem uma enorme insatisfação reprimida. Não é o caso de ser alarmista, e pode ter sido algo isolado, mas de todo modo, esse fato improvável pode ser um sinal preocupante de como as tensões sociais e econômicas na Europa estão atingindo um limite – se na Inglaterra as coisas vão mal assim, quanto mais na França ou Alemanha...


PS.: O título do post é homônimo da música citada. É uma alegoria dos problemas sociais e econômicos ingleses dos anos 70, e pode vir a servir para a situação atual. Uma análise bem interessante de como se tornou um hino involuntário e inapropriado dos jogos de 2012 se encontra aqui.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Quão distantes estão o soldado e o diplomata?

Entre ontem e hoje, os canais de notícias brasileiros têm todos se focado na demissão do Ministro da Defesa, Nelson Jobim, por suas declarações desafortunadas. Enquanto muitos têm questionado aquilo que ele falou ou poderia falar, acabam por deixar passar ou mesmo aceitar plenamente outras manifestações que podem, até certo ponto, ser consideradas tão polêmicas quanto.

Assim que a presidente Dilma Rousseff demitiu Jobim, imediatamente já anunciou o novo ministro que iria ocupar o cargo. O sortudo da vez foi Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores do governo Lula e um diplomata de carreira. É aí que a outra polêmica começa. Espere aí, um diplomata no ministério da Defesa? Desde quando diplomata gosta de guerra? Não é estranho colocar alguém que só trabalha para prevenir guerras no comando das três Forças Armadas do país?

De fato, esse questionamento existe tanto do ponto de vista civil quanto do ponto de vista militar. Como fica explícito na notícia veiculada pela Folha de S. Paulo no dia 05/08, quando retratam que em entrevista com um militar sobre a escolha de Amorim, obteve-se uma resposta bem negativa acompanhada da seguinte analogia: “é como colocar um médico para cuidar de um necrotério”. Alguns o falam e outros o absorvem, sem de fato refletir no que ele siginifica.

Isso é resultado de uma cultura política que após longos e tristes anos ditatoriais ainda existe no Brasil, e no interior das Forças Armadas do país, apontando que defender deve ser tarefa dos militares em todos os aspectos (desde o planejamento tático e estratégico até as vias de fato da guerra). Existe também outro ponto, aquele de uma antiga rivalidade entre o Itamaraty e as instituições militares do país, uma espécie de luta de egos, de busca por maior reconhecimento e legitimidade. Um tentando mostrar que é mais importante para o país que a outra, quando parece que são muito mais próximas do que se imagina.

Por isso, o que um famoso estudioso das relações internacionais apontou sobre a natureza da relação entre os países ajuda um pouco a entender a importância de cada uma dessas instituições e, como elas são muito mais complementares do que necessariamente opostas. Para ele, haveria dois aspectos por trás das relações entre os países: a guerra e a diplomacia. Sendo um soldado e um diplomata a síntese de como elas poderiam ocorrer. De um lado a guerra de outro as negociações. Duas possibilidades que caminham lado a lado e de mãos atadas. Dessa maneira, ambos seriam duas faces de uma mesma moeda, duas formas de defender um mesmo interesse, o do país.

Agora, após avaliar o quão próximas são a diplomacia e as Forças Armadas, questiono-me, é tão estranho assim ver um diplomata a frente do ministério da Defesa?

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Cova somaliana

“Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
[...] Não é cova grande, é cova medida
[...] É uma cova grande pra teu pouco defunto
É uma cova grande pra tua carne pouca” [...]

A partir dos dizeres acima de Chico Buarque, em sua música inspirada no poema “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto, a reflexão de hoje se volta a uma crise social tão grave (em seu âmbito) como a crise econômica norte-americana, porém muitíssimo menos noticiada. Trata-se da situação da Somália, país imerso em uma cova de fome, miséria e despreparo.

Despreparo diante de uma situação que envolve fatores ambientais, políticos, econômicos e sociais em um cenário internacional no qual as perspectivas de Assistência Humanitária ainda precisam se tornar muito mais eficientes e construídas sobre um sistema de cooperação que preze efetivamente pelo humanitarismo, e não unicamente por interesses estratégicos pontuais.

Enquanto isso, a Somália permanece em uma cova cada vez mais funda: a crise de fome se alastra rapidamente pelo sul do país e o número de mortes já é estimado em dezenas de milhares. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), metade da população do país (quase 4 milhões de pessoas) sofre direta ou indiretamente com esta crise humanitária.

Vale destacar que a chamada região do “Chifre da África” – que inclui, além da Somália, a Eritréia, o Sudão, a Etiópia e o Djibouti – se encontra em uma situação de crise generalizada de fome que afeta mais de 11 milhões de pessoas segundo a ONU devido às secas prolongadas.

Além da situação de seca, somam-se a falta de um governo efetivo e os conflitos internos na Somália para se compreender o quão grande está a cova em que a “carne pouca”do povo parece ser lançada sem piedade. Os coveiros? O governo local (ou a falta dele); os interesses geopolíticos internacionais que impedem historicamente o desenvolvimento social africano; os interesses econômicos internacionais que limitam os fundos auxílio humanitário a um país que, na opinião de muitos, parece ser tratado como insignificante; os fatores climáticos que insistem em castigar a região; e talvez muitos outros que poderiam ser listados aqui...

Se a ampliação dos programas e dos fundos de assistência humanitária são urgentes, como afirma a ONU, talvez seja necessário midiatizar cada dia mais essa temática para que se possa cobrar esse desenvolvimento dos órgãos e responsáveis. Ou talvez seja apenas necessário que nos consideremos todos responsáveis pela solução de uma crise humanitária como esta para que a Somália não se afunde cada vez mais em si mesma e em suas dificuldades que são locais, mas também globais.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Reflexões para o futuro


Uma questão intrigante para começarmos, que expressa bem a redistribuição global do poder e o reposicionamento dos países no mundo, é o Conselho de Segurança da ONU. Todos sabemos que a missão central do organismo é zelar pela paz e segurança internacionais. Também sabemos que isso inclui deter um poder militar condizente a essa missão, certo? Pois bem, de acordo com os dados do site Global Firepower, a França não mereceria mais ocupar um assento permanente, já que ocupa apenas a 8ª posição, atrás de três países emergentes: Índia (4ª), Turquia (6ª) e Coreia do Sul (7ª). Mas é claro que esse posto também é assegurado por razões históricas, prestígio e poder econômico. Neste último aspecto, os top-5 deixam a desejar ainda mais: não apenas pelas consequências da atual crise financeira que enfrentam, senão pela posição que ocupam na economia mundial, de acordo com PIB. Reino Unido e França, por exemplo, ocupam, respectivamente a 8ª e 9ª posição.

O agravamento da violência na Síria, que suscita uma resolução de condenação pelo Conselho de Segurança e abre espaço para uma possível intervenção militar, é um exemplo da manifestação das transformações em curso no âmbito do poder global. As potências tradicionais, notadamente Estados Unidos e Europa, querem adotar a resolução, enquanto os países emergentes, principalmente Brasil, Índia e África do Sul, são contrários. De um lado, uma estratégia de força; de outro, uma estratégia de fala. A dúvida é: qual o limite para as duas serem levadas separadamente e de que maneira elas se relacionam? Este debate provavelmente permanecerá em aberto e trará tanto dificuldades para administrar a ordem mundial quanto possibilidades mais amplas para a cooperação. Uma coisa é clara: não é mais possível prevalecer apenas a opinião das potências tradicionais. O Concerto Europeu ou a Pax Americana pertencem à história.

A prevalência de uma opinião absoluta do Ocidente pseudo-hegemônico silencia riscos importantes. Mesmo o terrorismo é preciso ser desmistificado. A Guerra Global contra o Terror, capitaneada pelos Estados Unidos, infundiu um maniqueísmo sem precedentes – “ou vocês estão conosco ou contra nós” – e marchou sobre a diferença, denegrindo a imagem de religiões e povos. Quer exemplo melhor dessa situação do que o ocorrido na Noruega? O dedo acusador do governo apontou um muçulmano como culpado, quando, na verdade, era um nacional da extrema direita. (Vejam estes dois artigos 1 e 2, de um professor de Filosofia da UFRGS e do ex-Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, respectivamente). Mais do que isso, demonstrou que o terrorismo não está “lá fora” ou é praticado por quem vem de fora, e sim que é algo endógeno. Aliás, é só pensarmos: além do 11/09, Madri e Londres, quais foram os grandes atentados terroristas tidos como globais?

O terrorismo ainda conduziu a uma espécie da amnésia coletiva. Não é apenas a política conduzida de maneira extrema que mata, a ausência da política é igualmente fatal. Previsões indicam que a população mundial deve ganhar a adição de mais 1,2 bilhões de pessoas, o que provocará pressão sobre os recursos alimentares, energéticos e hídricos. É calculado que a demanda por esses recursos aumentará entre 30-50%, já levantando o problema da escassez. Hoje, as estimativas são de que um em cada cinco habitantes do planeta não tem acesso à água potável, sem contar que cerca 70% dela, em nível mundial, é utiliza para a irrigação. Dois dados já antigos, que prevalecem praticamente semelhantes hoje, em 2002, 1,2 bilhões de pessoas viviam com menos de um dólar por dia; com menos de dois dólares diários, esse número se elevava para 2,8 bilhões. A questão é que problemas como esses não aparecem todos os dias na TV ou na internet.

Caetano Veloso já cantava, “Alguma coisa/ Está fora da ordem/ Fora da nova ordem mundial”, agora, acontece. Por um lado, os países que sobem e os que descem precisam encontrar mecanismos comuns para a governança global, por outro, devem permanecer atentos aos novos riscos. Do contrário, não será mais uma escolha entre a vida e morte, mas entre a escassez e a morte. Costuma-se dizer que toda civilização evolui quando atinge um ponto crítico. Será que chegamos ou precisamos chegar a um ponto mais crítico para evoluir? Em algum canto do mundo, as pessoas estão morrendo não pelas decisões que os países estão tomando, mas pelas questões que estão deixando de tratar, por esquecimento ou impasses. Infelizmente...

[As informações para este post foram coletadas, principalmente, no site do PNUD.]

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Devo, não nego...


E a gente acha o impostômetro ruim....

E os EUA estão longe de pagar quando puderem. 10 anos mantendo duas guerras do outro lado do mundo, desastres naturais e ambientais (de furacão Katrina a vazamento de petróleo sem precedentes no Golfo do México) e uma crise financeira internacional tiveram seu preço para os EUA – e bem salgado, 14 trilhões de dólares. Todos os dias sai algo no noticiário sobre a briga do presidente Obama com o Congresso pra evitar o calote da dívida pública norte-americana. Agora, muita gente nem percebe, mesmo por que essa é uma notícia que passa às vezes como uma nota de rodapé, e na verdade é uma das mais importantes guinadas no cenário internacional nos últimos anos.

E por que isso? Bom, vamos por partes para entender a gravidade da coisa. Quando falávamos em calote de países como Brasil, México, Grécia, era até de se esperar – são (ou eram...) economias fragilizadas por algum fator, de inflação inercial e crise sistêmica a má-administração. Pois bem, no momento em que os EUA correm esse risco, tem alguma coisa MUITO errada na economia mundial. Primeiro, por que o administrador mais poderoso do mundo, outrora credor e que sempre teve suas contas em dia, de repente não consegue mais honrar seus compromissos. Segundo, se isso ocorrer vai levar um monte de outros países junto num efeito cascata – e isso horroriza a China, a maior credora dos EUA.
O maior drama para Washington, contudo, é interno. Os reflexos da crise econômica ainda andam a galope por lá, com o desemprego, queda na renda e endividamento das famílias, enquanto os gastos do governo explodiram, de envio de tropas à criação do plano de saúde público e capitalização de bancos e montadoras automotivas. Foi um grande azar que tantos problemas tenham se acumulado e estourado ao mesmo tempo, mas é uma mistura de decisões ruins (como invadir o Iraque) e falta de regulamentação financeira (que possibilitou a bolha imobiliária) que causou essa dívida inédita. A solução para Obama é negociar com os partidos a elevação do teto da dívida, pela primeira vez na história dos EUA, o que deve ser conseguido hoje, para alívio de meio mundo.

O problema na acaba por aí. Aumentar o teto da dívida não apenas significa que o calote não será dado, mas que os gastos vão acabar aumentado ainda mais para por as contas em dia. O desafio que fica é planejar a austeridade para o ano seguinte, o corte de gastos e redução de déficit do Estado. Leia-se: acabar com pensões, seguros e benefícios, fazer demissões. No contexto em que os EUA se encontram, isso é uma péssima notícia. Se no âmbito externo essa crise tem seus efeitos (como o dólar em queda livre, a ascensão econômica da China e agora o avanço iraniano como poder militar dominante no Golfo, agora sem a presença permanente dos EUA), internamente Obama perdeu popularidade em um nível absurdo. Isso explica, aliás, a briga com os partidos, estando tão próximos das próximas eleições presidenciais. Em um país onde fazer plano de saúde pública é “comunismo”, o “presidente da esperança” parece cada vez mais constrangido por fatores fora de seu alcance e impotente para fazer valer suas mudanças.

O fato é que, mais do que nunca, o mundo acompanha atentamente o que se passa em Washington. O que for decidido hoje vai ter seus efeitos não apenas nos EUA, mas em boa parte das economias do mundo, para bem ou mal. É complicado até mesmo definir quais serão os efeitos em si dessa crise acentuada; a certeza é que serão profundos e sistêmicos. Seja qual for o resultado, no fim das contas vemos que, por mais mal das pernas que ande, os EUA ainda são a economia mais importante do mundo. Ainda...