
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Conversando com a Teoria

quarta-feira, 27 de abril de 2011
O casamento do século
A dois dias do (já chamado) “casamento do século” (apesar de estarmos apenas em 2011), a união do Príncipe William com Kate Middleton está mais em pauta que nunca na mídia. O foco em tantos detalhes, segredos, notícias, especulações e expectativas demonstra claramente o interesse midiático pelo prestígio da realeza britânica, que impressiona o mundo inteiro e, por conseqüência, tem o poder de concentrar as atenções internacionais – especialmente nas últimas semanas.Talvez uma primeira constatação válida a este espaço seja o impacto político favorável à monarquia que os casamentos reais promovem – direta e indiretamente. E não podia ser diferente neste caso, especialmente considerando o carisma, a beleza e a juventude do casal. Segundo dados de pesquisas recentes, 67% dos britânicos pensam que sua monarquia é ainda apropriada no século XXI e 63% afirmam que o país se encontra em melhor situação com uma família real.
Contudo, também o debate antimonárquico ganha força nesta época, sendo que grupos republicanos estão preparando inclusive uma celebração ao “Não Casamento Real” para sexta-feira, voltada à “democracia e ao poder popular, e não aos privilegiados herdados”...
Polêmica foi a nota divulgada pela Human Rights Foundation, reconhecida Organização de Assistência Humanitária, dizendo que este casamento real está “divorciado dos direitos humanos”. Isso se deve ao fato de controversos líderes árabes – de países como Bahrein, Marrocos, Catar e Omã – terem sido convidados para a festa. O príncipe do Bahrein recusou o convite com “com profunda tristeza” (!); convite este que não chegou para a Líbia, dada a intensificação dos conflitos no país...
Além do impacto político, em termos econômicos vê-se que o apelo turístico do casamento é notável: mais de 1 milhão de visitantes devem estar em Londres nos próximos dias. O mercado também se aquece com os mais diversos produtos relacionados, de alguma forma, ao casamento. Entretanto, há ainda críticas sobre os gastos governamentais necessários a um evento deste porte.
Estes comentários refletem um contexto internacional em que, diante de instabilidades políticas e sociais, desastres nucleares, desafios ambientais, etc., as atenções se voltam, ainda que momentaneamente, para um festejo real de impressionantes proporções. Se será efetivamente o “casamento do século”, só daqui a algumas décadas se saberá efetivamente, mas que este assunto envolve mais questões que apenas os detalhes de decoração, ah, isso é inegável...
terça-feira, 26 de abril de 2011
Nada de novo no front

segunda-feira, 25 de abril de 2011
Viajar é preciso...

Até o momento, é meio complicado avaliar as grandes “diferenças” na política externa de Lula e Dilma. A grande mudança até agora foi com relação aos Direitos Humanos (tema em que Dilma parece ser bem mais aguerrida que Lula). Agora, se essas viagens de 2011 podem dizer alguma coisa, é uma possível mudança no foco de como o país conduz seus negócios. Sim, negócios – eles estavam presentes nas visitas de Lula, em maior ou menor grau, mas ainda prevalecia uma noção bastante política, de aproximação com países periféricos e busca de novos parceiros.
Ao que parece, os objetivos de Dilma são mais pragmáticos nessa esfera econômica – literalmente, o Brasil estaria indo atrás de resultados, relacionamentos mais “estáveis” e que tragam algo em troca, especialmente para a balança comercial. Se vai dar certo ou não, é outra história, mas fora uma possível visita sentimental à Bulgária, terra de sua família, todas as demais tem em vista algum objetivo mais concreto, político ou econômico. Isso é bem diferente de muitas das visitas de Lula, feitas mais para divulgar a imagem do país e “fazer amigos” – o que colocava o presidente em algumas saias-justas perto de ditadores e afins.
Por fim, merece atenção o esforço de visitar os países menores dos Mercosul, Paraguai e Uruguai – será que o bloco vai ser uma prioridade em seu governo? Fica o indício.
sábado, 23 de abril de 2011
Somos apáticos?

David Meslin faz uma distinção entre apatia e exclusão intencional. Você já leu um edital público? Alguém teria interesse em participar de uma atividade comunitária que utilizasse tal modelo de convocatória? Parece ser óbvia a sua escolha. Pense em como as principais marcas de produtos de consumo tentam ganhar sua atenção. Existe algum movimento similar dos setores públicos? Muito pelo contrário, a imagem que muitas pessoas têm é que os políticos são corruptos, sem-vergonhas, aproveitadores, entre tantas outras alcunhas. O setor público, por outro lado, é associado à lentidão, falta de criatividade e burocracia.
No Equador se discute atualmente uma consulta popular com a intenção que o povo ofereça seu veredicto sobre as reformas do poder judiciário propostas por Rafael Correa. O presidente já deixou bem claro que a idéia é de fato colocar as mãos na justiça, à medida que ninguém poderia estar satisfeito com o atual desempenho das cortes pelo país. São 10 perguntas, já propriamente revisadas pela Corte Constitucional do país, que estarão disponíveis aos cidadãos. Tais perguntas fazem referência à documentos adicionais e à constituição federal, como se não bastasse a já árdua missão de analisar e decidir sobre temas como a Lei de Comunicação, os jogos de azar, as touradas, o Código Penal, a Composição do Conselho de Justiça; isso para centrar nossa atenção somente em alguns exemplos.
Diante da complexidade da discussão, muitos preferem pensar em como ficaria o país sem touradas. Esse tema sim tem apelo e é acessível para muitas pessoas. Enquanto isso, a reforma do Judiciário fica em segundo plano. Afinal, o governo conseguiu deixar as perguntas da consulta, as fontes de pesquisa e os temas tão complicados que certamente quase ninguém conseguirá formar uma opinião em cada uma das dez questões. Por tal razão, em grande medida o “votar sim” ou o “votar não” será pautado na aprovação (ou desaprovação) do governo e da conduta do presidente. Isso é prato-cheio para ainda mais desinformação. Os partidários de Correa defendem a consulta como uma continuação da Revolução Cidadã, ao passo que os opositores a entendem como mais um passo rumo ao autoritarismo.
Tal como Meslin, não julgo as pessoas desinteressadas pela consulta como apáticas. A intenção parece ser levar a discussão para longe dos verdadeiros pontos importantes, delimitando o debate a uma mera aprovação política do atual governo. Será que ninguém se importa sobre o controle do conteúdo vinculado por meios de comunicação e a estrutura do poder judiciário? Ou simplesmente ninguém (ou quase ninguém) é capaz de entender a profundidade de tais discussões? Sim, as pessoas se importam. Contudo, as entidades políticas fazem questão de tornar os debates ininteligíveis, como se fosse algo circunscrito a uma parte da elite intelectual. Para que todos possam participar, os mesmos atores trazem questões interessantes à ótica popular (os jogos de azar e as touradas). No final, eles têm a esperança que poucos percebam que são as outras perguntas que realmente escondem o “ouro”. Povo, não precisa se preocupar em ler e entender. Se você aprova o Correa, vote sim. Basicamente vai ser assim, independente da importância das questões em pauta.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Há um ano...

quinta-feira, 21 de abril de 2011
Conversando com a Teoria

Essa teoria não é propriamente uma teoria das Relações Internacionais, foi desenvolvida pelos trabalhos dos matemáticos Von Neumann e Morgenstern durante a década de 1940 e, a princípio, serviu como um modelo para descrever e prever o comportamento econômico. Com o tempo, passou a ser incorporada por outras áreas do conhecimento, como a psicologia, antropologia, e chegou também às Relações Internacionais.
Por volta dos anos 1950, momento em que emergiu o Segundo Grande Debate das Relações Internacionais (revejam o post sobre ele aqui), cientificistas se contrapuseram aos tradicionalistas. Os primeiros defendiam uma abordagem mais científica para a disciplina, o que incluía o emprego da Teoria dos Jogos para analisar o comportamento dos atores internacionais em suas interações. Tal teoria encontrou expressão no neoliberalismo e no neorrealismo, de maneira a prever as possibilidades de cooperação e as perspectivas de conflito.
Mas, afinal, em que consiste a Teoria dos Jogos? Ela parte do pressuposto de que os atores envolvidos nos jogos (entenda-se, situações de interação) são “racionais” e, portanto”, buscam maximizar os seus lucros e minimizar as suas perdas. Em outros termos, os jogadores devem assegurar os melhores resultados para si mesmos. Isso não é tarefa fácil. Eles devem fazer escolhas, num conjunto finito ou infinito de possibilidades e estratégias, que envolve outros jogadores, sabendo que o resultado final dependerá das combinações decorrentes das escolhas feitas por todos envolvidos no jogo.
Não basta apenas o jogador fazer uma escolha entre todas as possíveis, é preciso também imaginar que escolha fará os demais jogadores para que se chegue no resultado mais favorável para si. Vejamos uma situação hipotética. Um país pode optar por se manter neutro numa guerra feita pelo seu principal aliado, para não ser afetado pelo conflito, entretanto, a neutralidade acaba tendo um custo: o encerramento de um contrato de transferência de tecnologia militar. Qual seria o melhor resultado para o esse país: a neutralidade ou a guerra?
É por isso que se organiza o raciocínio da Teoria dos Jogos numa lista de preferência, em que nem sempre se atinge o melhor resultado possível, alcançando, na maioria das vezes, a segunda melhor opção. O país supracitado não perde soldados, nem se desgasta economicamente, mas, por outro lado, não recebe tecnologia militar. Na próxima semana, com a demonstração de “jogos específicos”, construiremos uma escala de preferência para tornar mais claro este ponto.
Enfim, o que é importante saber é que as Relações Internacionais ganham aqui o reforço das ciências exatas, e, por meio de um modelo teórico, dedica-se a descrever e prever o comportamento de atores, apresentando-lhe escolhas, individuais e alheias, com vistas à formulação da melhor estratégia para atingir o melhor resultado possível.
[Para quem se interessar, fica a dica de um interessante artigo (aqui) da Foreign Affairs a respeito do Totalitarismo no século XX.]
terça-feira, 19 de abril de 2011
Por que o Bahrein?

Não faz muito tempo, Thomas Friedman disse que esta onda democratizante que se espalha pelo mundo árabe é diferente daquela que se espalhou pela Europa Oriental nos anos 1990. Naquele momento, todos os países eram homogêneos, como a Alemanha. Hoje, a maior parte do mundo árabe se assemelha à Iugoslávia, multiétnico e multireligioso. Essa característica se acentuou no Bahrein, onde a população xiita – que corresponde a cerca de 70% do país – tem conduzido protestos contra a monarquia (pseudo)constitucional sunita, que governa o país.
Problema: a Arábia Saudita não gostou nada disso, nem os Estados Unidos, enquanto que o Irã curtiu. Comecemos pela Arábia Saudita. A última coisa que o Rei Abdullah quer é um protesto xiita de larga escala numa ilha vizinha, que ameace o seu próprio governo, de maioria sunita, e provoque um “efeito dominó”, com a queda das demais monarquias do Oriente Médio. Isso é exatamente o que também incomoda os Estados Unidos, que espalhou governos fantoches pela região e percebe a sua influência comprometida. Porém, a situação é favorável ao Irã, de maioria xiita e que vê com bons olhos essas manifestações: a Revolução Islâmica de 1979 alcançaria todo o Golfo Pérsico.
Obviamente, a Arábia Saudita não ficou parada. Com a aprovação do Conselho de Cooperação do Golfo e a pedido do rei Hamad Bin Isa al-Khalifa, enviou tropas para conter os protestos xiitas no Bahrein. Se a intervenção é legítima ou não é bastante discutível, mas aconteceu. A questão agora é se a intervenção é o melhor caminho e como lidar com os desdobramentos posteriores a ela.
Diwan, por exemplo, argumenta que a solução mais cabível seria a incorporação dos xiitas na política bareinita, que tornaria a repressão dispensável e atenuaria a influência iraniana. Fato é que os acontecimentos no Bahrein abriram uma oportunidade para a consolidação da influência regional do Irã, um antigo desejo do país, e, inclusive, para a formação daquilo que muitos analistas têm chamado de “um bloco islâmico e anti-Israel”. Isso gera polêmicas (aqui e aqui).
De inimigo dos árabes – o principal –, o Irã passaria para uma posição de liderança. De uma colcha de retalhos, o mundo islâmico se tornaria uma fina tapeçaria para ornamentar com brilho próprio as relações internacionais. Não é à toa que Ahmadinejad critica tanto os Estados Unidos por incitarem a tensão entre árabes e iranianos e prevê o surgimento de “um novo Oriente Médio”. Não é à toa que os Estados Unidos se preocupam tanto com o programa nuclear iraniano. Não é à toa que a questão bareinita é tão importante e ganha o reforço do vácuo de poder deixado no Iraque desestabilizado, de maioria xiita.
[Para aqueles que tiverem curiosidade para entenderem melhor a questão, segue a indicação de alguns artigos: 1, 2, 3 e 4. Também é interessante dar uma olhada no mapa da Freedom House sobre os países considerados livres, particialmente livres e não-livres: aqui.]
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segunda-feira, 18 de abril de 2011
Nada de novo em... opa

Bom, é claro que estamos esperando mudanças em Cuba desde que Fidel saiu de cena há alguns anos, mas por enquanto nada de muito drástico ocorreu. O impacto dessas novidades recentes é basicamente a renovação política expressa de maneira mais clara pela primeira vez, por exemplo com a expectativa da possibilidade de um político mais jovem assumir o segundo cargo mais importante do país depois de mais de 50 anos de Castros. Isso também passa pela limitação dos mandatos e discussões mais pesadas sobre reformas econômicas (em discussão no congresso).
Parece que esse modelo cubano de socialismo vai resistir por um certo tempo. Como isso vai ocorrer, não sabemos. Vai ter a capacidade de conduzir um modelo híbrido como o chinês? Vai desabar? Os irmãos Castro provavelmente não vão ver como isso acaba (na verdade, talvez isso só comece quando eles saírem de cena definitivamente!), mas é inegável que estão, se não conduzindo, ao menos defendendo o caminho da mudança.
sábado, 16 de abril de 2011
A crise realmente acabou?

Quem não se lembra da crise econômica que se iniciou no final de 2007? O seu marco inicial foi a quebra do banco de investimento Lehman Brothers, que representou somente a primeira etapa da denominada “crise dos subprimes”. Logo outras instituições financeiras entraram em colapso, a desconfiança nos mercados internacionais se expandiu e as maiores economias do mundo entraram em recessão.
Para mitigar os efeitos negativos da crise financeira, diversos países adotaram pacotes de estímulo, diminuíram suas taxas básicas de juros aos níveis mais baixos da história, socorreram bancos, entre outras medidas. A ação rápida através de medidas sem precedentes dos diversos governos mundiais tiveram um papel fundamental na estabilização dos mercados financeiros e para a recuperação econômica. De certa maneira, a crise foi estancada.
Anualmente a Organização das Nações Unidas (ONU) prepara um relatório com previsões para a economia mundial. O relatório deste ano apresenta as tendências e propõe medidas com o intuito de fortalecer a recuperação econômica. Em primeiro lugar, aponta para a austeridade em lugar de amplos pacotes de estímulo, política que arrefecerá o crescimento das economias mundiais. Além disso, destaca mercados cambiais voláteis, migração de investimentos de curto-prazo rumo a países em desenvolvimento e um desemprego persistentemente alto.
Os países que ditaram e comandaram a recuperação mundial foram os chamados “em desenvolvimento”, uma vez que os países centrais se viram mais expostos aos riscos de um mercado financeiro irresponsável. Tal constatação gerou efeitos na dinâmica política da comunidade internacional, seja pelo questionamento das tradicionais potências ou por meio da ampliação dos grupos de discussão. Antes os principais temas eram tratados no G-8, o pós-crise viu um G-20 vitaminado e reconhecido como o principal fórum de negociação e cooperação internacional.
Passado o pior da crise, alguns países viram uma forte deterioração de sua segurança social e econômica, sendo o caso mais recente Portugal. A encruzilhada que muitos governos enfrentam é escolher entre a austeridade e a manutenção de estímulos para a recuperação. O primeiro representaria o reequilíbrio econômico, ao passo que o segundo foca na continuidade do combate ao desemprego e a recessão. Encontrar um meio-termo é essencial, errar a medida para um lado ou para o outro pode representar riscos à recuperação. Contudo, os países em profunda crise (Portugal, Grécia e Irlanda, por exemplo) possivelmente não terão escolha, à medida que serão forçados por seus credores a escolher austeridade frente a qualquer outra prioridade.
Por fim, as Nações Unidas defende uma maior sinergia na cooperação internacional. Os estímulos fiscais/monetários deveriam enfocar um modelo mais sustentável de desenvolvimento, a proteção social e a geração de novos empregos. No mesmo sentido, a coordenação deveria envolver a regulação do setor financeiro mundial, a facilitação dos fluxos de capital pelos países em desenvolvimento e a reforma do sistema de reservas e pagamentos. A falta de cooperação poderia desencadear uma nova recessão. Não se pode perder de vista também os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que sofreram perdas e se viram ainda mais desafiadores para diversos países. A questão-chave é justamente a adoção de políticas nacionais integradas a um plano internacional abrangente. No final das contas, talvez a crise ainda não tenha acabado.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
BRICS: Teoria x Prática
E eis que entre ontem e hoje ocorreu a terceira cúpula de um dos grupos mais expressivos de países emergentes nas Relações Internacionais atuais: o BRIC, ou melhor, BRICS, agora que a África do Sul se juntou à Rússia, Índia, China e ao Brasil neste fórum multilateral. Esta reunião, ocorrida na cidade chinesa de Sanya, marcou o “ingresso formal” do representante africano nas discussões, e traz novamente à tona uma complexa reflexão envolvendo o (indesejável, mas com freqüência inevitável) antagonismo entre a teoria e a prática neste tipo de diálogo internacional.Antagonismo no sentido de que as afirmações dos líderes se confrontam freqüentemente com as ações efetivas por parte dos membros deste grupo de tamanha representatividade nos dias de hoje. Apenas para que fique registrado: juntos, os países em questão representam 43% da população mundial, atraem 53% do investimento externo global e representarão 61% do crescimento do planeta em 2014 (entre outros dados impressionantes contidos neste link).
Mesmo a partir deste inegável alcance mundial e das elevadas taxas de crescimento que justificam o diálogo em prol do alinhamento de interesses destes países emergentes, vê-se, contudo, várias contradições que nos levam a questionar não a importância do diálogo, mas sim a real efetividade deste quando se trata da prática.
Na teoria, o presidente chinês afirma que “Sob o contexto de multilateralização política e globalização econômica, a paz, o desenvolvimento e a cooperação ainda são temas prioritários. [...]”. Na prática, a China é uma contradição em si mesma no que se refere aos âmbitos político e econômico; e suas práticas comerciais dificultam enormemente o desenvolvimento de outros países, o que leva a questionar essa ânsia chinesa por uma “prosperidade comum do mundo”, por exemplo.
Na teoria, o BRICS se mostrou contrário aos recentes bombardeios na Líbia e à forma como a intervenção aprovada no âmbito da ONU foi conduzida. Na prática, a África do Sul votou a favor da resolução em questão e todos os demais membros do BRICS (inclusive China e Rússia, membros permanentes do Conselho de Segurança) optaram pela abstenção em tal pleito.
Na teoria, a Organização das Nações Unidas precisa de reformas profundas para ser mais eficaz e representativa. Na prática, Rússia e China (ambos representantes do BRICS que possuem poder de veto no Conselho de Segurança) parecem se eximir de manifestações/propostas enfáticas neste sentido que possam comprometer futuramente seus privilégios na tomada de decisões.
Vários ainda poderiam ser os exemplos para ilustrar o propósito deste post, qual seja a reflexão acerca do real impacto nas Relações Internacionais de grande parte das discussões em fóruns multilaterais como o BRICS. Teoria e prática constantemente se chocam. Coincidências recorrentes? Muito provavelmente não... o jogo de interesses existente merece uma análise menos simplista.
De qualquer forma, ao final dessa rodada de discussões do BRICS foi publicada a Declaração da Sanya, um documento que resume todos os pontos da reunião e as intenções/propostas para as principais áreas de interesse comum (leia na íntegra aqui). Segundo tal declaração, a expectativa é que o século XXI seja “marcado pela paz, harmonia, cooperação e desenvolvimento científico”. Esperemos, sinceramente, que esse mote não fique apenas na teoria...
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Pela liberdade

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terça-feira, 12 de abril de 2011
Uma breve reflexão sobre a violência

segunda-feira, 11 de abril de 2011
Vai e vem
Poderíamos entrar nos méritos do desarmamento doméstico – não deixa de ser uma medida importante (como uma pesquisa apontou, o controle da circulação de armas irregulares tem relação direta com a diminuição de assassinatos, na proporção de 18 para 1), mas o problema maior ainda é o tráfico ilegal de armas. Boa parte dessas são desviadas do comércio legalizado (há, inclusive, relatos de criminosos que se filiam como caçadores e esportistas para facilitar esse desvio), mas a maioria certamente vem do exterior através das nossas fronteiras pouco vigiadas. A grande ironia, no caso, é que grande parte dessas armas e (especialmente) munições que adentram o país tem origem... no próprio Brasil!

Não somos os maiores compradores de armas do mundo (esse mérito é da Índia atualmente), mas estamos entre os 10 maiores produtores e exportadores de munição e peças. A sacada é que vendemos esses “insumos” para o exterior (EUA e Europa) e eles retornam ilegalmente pela América do Sul. É um mercado bilionário, em que se destacam países “bonzinhos”, sem muita fama de militarização (como Bélgica, Espanha e Áustria), mas é a causa de cerca de 90% das mortes violentas entre civis pelo mundo. E são relações em que a relação pragmática entre comprador e vendedor é mantida até as últimas conseqüências. O caso mais recente e emblemático disso é a Líbia – o grupinho de amigos europeu que agora está às turras com Kadafi vendia boa parte das armas que ele usava contra os civis até poucos dias antes de sair a resolução da ONU contra o ditador. Negócios, negócios, amigos à parte.
O massacre da semana passada foi uma das coisas mais chocantes que aconteceu no Brasil recente, mas é só um exemplo cruel de um problema que vitima o mundo todo (algo em torno de duzentas mil vítimas por ano). O controle desse comércio macabro existe, mas é pouco eficaz, especialmente na parte da reentrada no país, e por isso se torna uma das maiores ameaças (e desafios) à segurança no século XXI.
Dois relatórios interessantes sobre o tema aqui e aqui.
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sábado, 9 de abril de 2011
De(s)mocratizando?

Esta semana surgiram algumas importantes movimentações com relação às eleições presidenciais no Peru. De acordo com pesquisas de intenção de voto, é provável um segundo turno entre Ollanta Humala e Keiko Fujimori. Mario Vargas Llosa, recentemente laureado com o Nobel de Literatura, chegou a afirmar que caso tal cenário realmente se configure, o país enfrentaria uma situação como escolher entre o câncer terminal e a AIDS. Muitos comentários surgiram também nas mídias sociais. Vários peruanos parecem ver o cenário eleitoral como uma desmontagem da democracia do país.
Mas afinal, quem são estes dois candidatos que levantam discussões tão calorosas? Keiko Fujimori é senadora e representa a via conservadora. Contudo, é mais conhecida por ser filha do ex-presidente Alberto Fujimori, o mesmo que foi condenado a 25 anos de prisão por violações aos Direitos Humanos. O segundo candidato, Ollanta Humala, é militar da reserva e candidato pela coligação de esquerda “Ganha Peru”. Ficou conhecido por liderar uma tentativa uma tentativa de golpe de Estado contra o presidente Alberto Fujimori. Há ainda outros dois candidatos com chances de passar ao segundo turno, o ex-presidente Alejandro Toledo e o ex-ministro da economia Pedro Paulo Kuczynski.
As críticas aos dois principais favoritos são abundantes. Analistas políticos defendem que Keiko Fujimori, e o conseqüente retorno ao “fujimorismo”, poderia significar um retrocesso democrático e a volta da perseguição política. Sua campanha foi baseada na defesa do modelo político adotado por seu pai, o qual teria, ainda segundo a candidata, estabelecido as bases para a estabilidade econômica peruana. Já Humala apresenta um projeto nacionalista denominado “afirmar a nação, transformar o Estado”, incluindo a construção de um novo marco constitucional para o país. Seus principais críticos receiam uma aproximação com regimes de esquerda, especialmente o comandado por Hugo Chávez.
Apesar de sua base política consolidada junto a uma parte do eleitorado, Keiko Fujimori talvez seja a candidata mais fácil de recusar, especialmente devido ao fato de seu projeto político ancorar-se em antigos aliados e prioridades adotadas pelo ex-presidente Fujimori. Por outro lado, Humala tem seus críticos fortemente baseados nos vínculos que se apresentam entre ele e Chávez. Em 2006, Humala perdeu o segundo turno das eleições presidenciais para Alan Garcia, muito em decorrência da pretensa adoção do modelo político “chavista”. No último debate entre os candidatos, todos direcionaram críticas a Humala, coincidentemente o único representando à esquerda. No entanto, desta vez o candidato se define com mais próximo ao modelo democrático brasileiro, tentando desvencilhar-se das comparações com os presidentes do “socialismo do século XXI”.
Afigura-se o cenário para o segundo turno. Humala tem uma vantagem consolidada ante aos demais, o que provavelmente garantirá seu lugar na continuação da disputa presidencial. Resta saber quem o acompanhará. Alan Garcia abriu caminho para tal fragmentação política, seu partido sequer lançou um candidato a sua sucessão. E agora? Será possível desmontar a democracia? O Peru encontra-se frente a um desafio, escolher entre várias opções: uma representando o passado; outras movidas pelo conservadorismo e livre-mercado; e por último a que defende uma mudança do sistema. Independente do resultado, o risco de novos autoritarismos permeia as discussões. Resta aos cidadãos peruanos não permitirem que o medo de uma “desmocratização” torne-se realidade, levando o país a retroceder em tantas conquistas do passado recente.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
O Primo Chinês

quinta-feira, 7 de abril de 2011
Conversando com a Teoria
quarta-feira, 6 de abril de 2011
"Belo Monte" de problemas
Eis que um “Belo Monte” de problemas para o governo brasileiro vem à tona novamente nesta semana. Tudo porque a Organização dos Estados Americanos (OEA), por meio do seu Conselho Internacional de Direitos Humanos (CIDH) divulgou uma nota oficial (veja o texto original aqui) pedindo a paralisação imediata das obras da usina hidrelétrica de Belo Monte, iniciadas no último mês às margens do Rio Xingu, no Pará.O principal argumento utilizado por esta Organização Internacional é a existência de prejuízo potencial no que se refere aos direitos das comunidades tradicionais da bacia do rio Xingu. Esse manifesto ocorre aproximadamente cinco meses após a denúncia formal feita por movimentos sociais, índios e camponeses que temem pelo ecossistema da região.
Entretanto, sabe-se que a discussão (e a polêmica) sobre Belo Monte não é recente. Remonta, de fato, à década de 1980, quando os primeiros projetos da usina foram divulgados. Após fortes manifestações contrárias de ambientalistas e comunidades indígenas, o projeto foi adiado e voltou à pauta apenas em 1994 com alterações notáveis (reduzindo a área a ser represada e, por consequência, seu impacto ambiental). Mesmo assim, os críticos consideram ainda hoje que os problemas ambientais advindos dessa obra permanecem enormes e não fazem valer o “custo-benefício” de sua construção.
Em números mais exatos, o custo financeiro da obra atinge a exorbitante casa dos aproximados 20 bilhões de reais – sem que se mencionem os inestimáveis custos sócio-ambientais. Em contrapartida, esta represa tem potencial para se tornar a terceira maior do mundo (e a maior do Brasil, já que Itaipu pertence também ao Paraguai), diversificando ainda mais a matriz energética do país e beneficiando a população em geral com o início de suas atividades – previsto, a princípio, para 2015.
Apesar da grande polêmica, as obras já estão em andamento no Pará e o Ministério das Relações Exteriores se posicionou oficialmente afirmando “perplexidade” diante deste (inesperado) impasse internacional. O ministro Patriota se utilizou de termos como “injustificável e precipitada” para caracterizar a nota oficial da OEA e expressar o descontentamento do Itamaraty. O governo afirma que foram feitos todos os estudos necessários a respeito do impacto das obras nos níveis social e ecológico, tendo as obras sido autorizadas por vários organismos que lidam com o controle de danos ao Meio Ambiente, tal como o Ibama, por exemplo.
Contudo, dados recentes apontam que 70% das obras para reduzir os impactos de Belo Monte ainda não começaram – sendo que as estatais e as construtoras responsáveis foram acertadas há um ano atrás. Trata-se de obras de infra-estrutura básica que poderão auxiliar as comunidades da região em que a usina se desenvolverá e minimizar as consequências negativas da construção. O que pensar diante dessa situação?
Parece existir uma nítida e infeliz contradição entre, de um lado, a preservação ambiental da região e a proteção dos povos indígenas; e, de outro, um projeto político histórico e a perspectiva de baixo custo na geração de energia elétrica para o país a longo prazo. Os argumentos de ambos os lados são amplamente defendidos, porém o necessário equilíbrio entre as partes parece estar longe de ser atingido. A única certeza é que um “Belo Monte” de questões políticas, sociais e ambientais são evidenciadas neste contexto – questões, aliás, muito mais complexas do que se pode imaginar à primeira vista...
[Vale esclarecer que esta nota emitida pela OEA não implica em nenhuma consequência prática de imediato para o Brasil. Porém, se porventura a justificativa brasileira não for aceita pela Comissão, o caso pode ser levado à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA, a qual tem o poder de condenar o país e determinar sanções em geral.]
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terça-feira, 5 de abril de 2011
Intervenções humanitárias desumanas?

[Acompanhem nossos outros posts sobre a situação na Costa do Marfim: 1 e 2. Lembrando também que este ano o The Economist trouxe um "apelo" para não nos esquecermos deste país. Confiram aqui.]
Lembram-se do que aconteceu nas últimas eleições do país? O presidente perdeu, mas continuou no poder, recusando-se a admitir a vitória de seu opositor, mesmo reconhecida pela comunidade internacional. Resultado diferente não se poderia imaginar: Alassane Ouattara e seus aliados vem tentando depor Laurent Gbagbo, e, há duas semanas, contam com o apoio da ONU, em particular, da França. Outra vez, a imposição da vontade passa a ser conduzida por meio de ações militares. Outra vez, o argumento é para proteger os civis e evitar uma carnificina. A lembrança da Líbia de imediato vem à mente.
Em pouco mais de duas semanas, duas intervenções são nutridas basicamente pelos mesmos motivos e conduzidas da mesma forma (militarmente): a favor da parte “mais fraca”, os rebeldes líbios ou os vitoriosos oposicionistas costa-marfinenses. Duas intervenções em prol da humanidade, com um senso quixotesco de moralidade e altas doses de interesses próprios. Em um interessante artigo, George Friedman contestou o sentido “imaculado” das intervenções humanitárias, que são pretensamente neutras e acabam decidindo o destino das nações, para bem ou para mal. Para o autor, não quer dizer que os fins dessas intervenções não sejam benignos e morais, mas que eles não são alcançados, cedendo lugar para os interesses, os quais são mais duradouros.
O que começou como uma intervenção, sob o pretexto de proteger vidas humanas em perigo e evitar um derramamento de sangue elástico, pode se degenerar numa guerra civil conturbada. No caso da Costa do Marfim, a situação uma hora fala que se rende, outra, fala que não. Daí, são inevitáveis as memórias dos confrontos sangrentos de 2002-204, que levou a uma missão de paz (UNOCI), pois se estima que os próprios aliados de Ouattara já tenham cometido 800 assassinatos, enquanto que Gbagbo promete vencer. Na Líbia, até os civis que eram supostos proteger acabaram “acidentalmente” mortos nas manobras da OTAN.
Particularmente, em ambas as intervenções, chama também a atenção o protagonismo francês, talvez como uma válvula de escape para mitigar o crescimento da direita no país ou vender aviões para o Brasil. De maneira mais geral, José Fiori, em entrevista à Folha de São Paulo ontem, trata de um novo colonialismo na África – principalmente da porção norte –, capitaneado pelos norte-americanos e europeus, buscando recursos estratégicos, com a primazia do petróleo.
Paradoxalmente, nestes dois casos, as intervenções humanitárias são desumanas. A moral se sustenta com as armas e os interesses, com a promessa de lucros. As pessoas morrem, líderes caem e os países ficam à mercê de um destino que lhes pertence. O fim da moral e a pura prevalência do interesse é uma mera questão de tempo.
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segunda-feira, 4 de abril de 2011
Delenda est Tunisia

Há algumas semanas, quando comentava sobre a agitação no norte da África, uma das conseqüências pouco comentadas e de grande impacto seria o fluxo de imigrantes fugindo do caos na região. Os mais preocupados com isso seriam a França e, principalmente, a Itália, que está logo ali, a alguns quilômetros do outro lado da fuzarca mediterrânea. Pois é, dito e feito: Berlusconi já está pedindo por meio de acordos, em alto e bom som, que a Tunísia tome medidas para impedir a chegada desenfreada de imigrantes ilegais à bota.
Muitos tunisianos já enfrentavam o perigo da travessia antes da revolução que derrubou o ditador Ben Ali para escapar das taxas galopantes de desemprego; com a crise que sucedeu a queda, aumentam as incertezas e o número de barcos atravessando ilegalmente o Mediterrâneo – assim como as mortes. E essa vai ser o padrão em muitas áreas adjacentes aos países da “primavera árabe”, destino de desempregados egípcios, refugiados líbios e tantos outros. As portas de entrada são muitas, de Gibraltar à Grécia. E cedo ou tarde vai deixar de ser um incômodo na Itália para ser um problema europeu por completo. Afinal, os problemas naquela região parecem não ter fim, com mortes no Iêmen, a crise líbia e a instabilidade no Egito e Tunísia. Alguns teóricos modernos colocam as migrações como um dos grandes desafios da segurança internacional do século XX, especialmente na Europa, e parece que esse vai ser um teste decisivo para o Velho Mundo.
Por fim, não deixa de ser irônico notar que na Tunísia se encontrava antigamente a cidade de Cartago, alvo da cobiça e invasões romanas na antiguidade, e que hoje ocorre o inverso, de lá partindo os atuais “invasores” do território italiano...
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sábado, 2 de abril de 2011
Invertendo papéis?

Diante da severa crise econômica que enfrenta Portugal surgiu espaço para uma brincadeira. Será que o Brasil poderia salvar Portugal? Talvez Portugal pudesse retirar-se da União Européia e ser anexado ao Brasil, não?
Todos conhecem bem nossa história compartida. Portugal, em seus áureos tempos, foi uma das grandes potências mundiais. Entre os séculos XV e XVI, alguns países europeus lançaram-se aos oceanos com o objetivo de descobrir novas rotas à Índia e novas terras. Tal período foi denominado Era das Grandes Navegações. Neste contexto, Portugal logo encontrou destaque devido a diversas condições internas favoráveis. Tais aventuras surtiram efeitos, muita riqueza e colônias afluíram às terras portuguesas. O Brasil foi parte do esplendor português.
Desde a independência brasileira, muitos fatores levaram a um certo distanciamento entre (as antigas) colônia e a metrópole. Os ingleses, os norte-americanos e os sul-americanos foram os principais brasileiros parceiros desde então. Portugal, antes detentor de exclusividade comercial, econômica e política junto ao Brasil, viu seu papel diminuir nos rumos tomados pela terra que já acolhera sua família real. Enquanto os brasileiros viram surgir um renascimento político, econômico e social; Portugal teve seu posto de potência revogado ante aos países de crescente influência e poder em sua região, marcadamente França, Alemanha e Reino Unido. De certa maneira, Portugal nunca mais voltou a gozar do prestígio de outrora.
Voltando nossa atenção para o capítulo atual da história, fica evidente que os países tiveram seus papéis fortemente alterados. O Brasil apresenta uma economia pujante, um papel de protagonista internacional e uma governança consolidada. As grandes potências só fazem corroborar esta premissa, à medida que aumentam o papel da diplomacia brasileira nas principais temáticas internacionais. Portugal, em caminho contrário, viveu anos de baixo crescimento econômico, políticas fiscais desreguladas; que por fim culminaram no seu atual estado, um país forçado a buscar medidas de austeridade a custo de seu bem-estar social. Mais que isso, Portugal está a um passo de buscar ajuda internacional para mitigar os efeitos mais urgentes de sua crise. Dilma, em visita a Portugal durante esta semana, discutiu a possibilidade do Brasil entrar em cena e ajudar nossos “irmãos portugueses”.
A ironia da brincadeira lançada pelo jornal Financial Times reside nesta inversão de papéis. Brasil está mais próximo do papel internacional da metrópole portuguesa do século XVI, ao passo em que Portugal aproxima-se do cenário de crise que viveu sua ex-colônia por tantos anos. As crises econômicas brasileiras nos forçaram a jogar pelas regras do jogo. Nossa submissão política nos levou a décadas de ostracismo e papel diplomático restrito. O exemplo clássico de nosso papel como “país do futuro” veio por meio das medidas de austeridade impostas por credores internacionais. A libertação simbólica do Brasil ocorreu com o fim da dívida junto ao FMI. Frente à atual crise, eis que Portugal escuta de Dilma “podemos ajudar, desde que se apresentem garantias de pagamento”. Soa familiar, não?
Quem quer ajudar Portugal? Mais que isso, quem vai ajudar os portugueses comuns que sofrerão com as medidas impostas para controlar a crise? Caberá ao próximo governo português limpar o terreno, impor políticas pouco populares e enfrentar a fúria popular. Os antigos governantes – não só em Portugal – que construíram o caminho para a crise e deixaram seus países em situações lamentáveis, vestem discretamente a camisa da oposição, esperando que na próxima eleição o quadro se inverta a seu favor novamente. No meio de tudo isso, o Brasil seguirá desvendando os desdobramentos de seu novo papel como “metrópole”.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
"Dia de Ira"
“O Brasil deplora veementemente todas as ações de discriminação e incitação ao ódio religioso que vêm ocorrendo em várias partes do mundo. Muitas vidas inocentes foram perdidas por causa da intolerância e da ignorância.” Neste 01 de abril, foi registrado o pior ataque contra a ONU no Afeganistão desde 2001. Pode até parecer mentira, mas este ataque foi, na verdade, motivado por um ato polêmico de intolerantes pastores evangélicos norte-americanos – o que causou um “Dia de Ira” por parte de afegãos revoltados.
Na Flórida, há aproximadamente 20 dias, o pastor Wayne Sapp queimou uma cópia do Corão, o livro sagrado muçulmano em sua igreja, alegando que este é responsável por crimes diversos na sociedade atual. Sapp consumou a promessa do pastor Terry Jones que anunciou a “idéia” no aniversário dos atentados de 11 de setembro ano passado, mas não a concretizou após fortes críticas sociais. Nesta ocasião, até Obama se posicionou afirmando que a idéia do pastor deveria ser deixada de lado, na medida em que se mostrava contrária aos valores americanos de tolerância e liberdade religiosa.
Contudo, com a divulgação deste “feito norte-americano” na mídia nos últimos dias, a ira afegã foi atiçada, reforçando a triste máxima de que intolerância gera cada vez mais intolerância. Desta forma, nesta sexta-feira houve um dia de fortes protestos no país que culminou com a morte de cerca de vinte inocentes, sendo ao menos sete funcionários das Nações Unidas em Mazar-i-Sharif.
Infelizmente, nas Relações Internacionais atuais ainda existem desafios enormes no que tange à questão da tolerância religiosa. Esta idéia, discutida inclusive na última reunião Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, remete à perspectiva de respeito mútuo entre diferentes crenças e religiões, sempre prezando pela paz entre os povos.
É complicado determinar a culpa de uns ou outros nesta situação pontual apresentada. Aqueles que atearam fogo ao livro sagrado muçulmano nos Estados Unidos são tão culpados por tais mortes quanto aqueles que pegaram em armas no Afeganistão? A justiça e os órgãos competentes poderão julgar devidamente a questão, porém não se pode negar que o sangue dessas vidas inocentes hoje mancha o histórico de todos aqueles que desconhecem as noções de respeito e tolerância aos demais, em todas as instâncias possíveis. Assim evidencia-se, infelizmente, a violência e a discriminação em um cenário internacional que carece de diálogo e esperança de resolução pacífica dos conflitos e das diferenças em geral.
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