quinta-feira, 31 de março de 2011

Conversando com a Teoria


Neoliberalismo: interdependência, instituições e cooperação

O mundo como deveria ser pertence à utopia liberal. Um mundo como pode ser se encaixa no repertório neoliberal. É possível superar a condição anárquica do sistema internacional, que, na ausência de um soberano global a qual todos os países estariam subordinados, mantém a guerra num horizonte sempre próximo. Verdade também seja dita, nem sempre as relações conflituosas são mitigadas e os neoliberais reconhecem isso. Mas a grande questão que se interpõe é: como então mitigar a anarquia e o conflito?

Eis que entram em cena os conceitos de “interdependência” e “instituições”. Keohane e Nye, os teóricos mais expoentes da abordagem neoliberal, constataram na década de 1970 que os processos transnacionais estavam mudando a natureza das relações internacionais, notadamente, as economias nacionais cada vez mais interligadas e a maior presença de atores não-estatais (empresas multinacionais, ONGs, etc.). Um mundo interdependente que nos faz lembrar a personagem Waris Dirie, do filme Flor do deserto, “o que acontece com qualquer um de nós, afeta a todos nós.” As crises do petróleo são o principal exemplo, a atitude dos países da OPEP repercutiu de imediato em todos os quadrantes do globo.

Uma definição mais precisa de interdependência (e que será trabalhada melhor na próxima semana), na concepção dos autores supramencionados, é a situação na qual ocorrem efeitos recíprocos entre os países ou entre atores de diferentes países. Em outras palavras, um estado de mútua dependência. Num mundo interdependente, o custo da guerra se eleva, ainda que envolva poucos países, já que os efeitos dela podem ser prejudiciais a terceiros. E também aumenta a perspectiva da cooperação. (Uma ressalva: isso não quer dizer que o conflito seja extinto de uma vez por todas, pois, como veremos, a interdependência pode também contribuir para que ele ocorra.)

Outro ponto que aumenta e aprofunda a cooperação é a criação de instituições, o segundo conceito. Por instituições, não se entende apenas “organizações internacionais”, mas um conjunto de regras (formais ou informais) que norteiam o comportamento, constrangem a ação e geram expectativas. Pode ser uma ONU, um sistema como Bretton Woods ou convenções (por exemplo, Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (1992) – UNFCCC, na sigla em inglês). A institucionalização engendra confiança, permite a troca de informações e confere maior previsibilidade em relação ao comportamento futuro dos atores envolvidos na instituição. Por isso, a cooperação.

Para não estender muito este artigo, apenas um último registro: os neoliberais, ao contrário do pensamento realista vigente, não concebem uma ordem hierárquica de assuntos, sendo que a segurança vem à segurança. Para eles, segurança é tão importante quanto bem-estar econômico, quebrando a distinção que usualmente se faz entre high politics (segurança, poder militar, etc.) e low politics (economia, cultura, meio ambiente, etc.). Isso foi também favorecido pela emersão de atores não-estatais nas relações internacionais.

quarta-feira, 30 de março de 2011

And the Oscar goes to...Chávez?

Não, objetivo do post não é tratar da premiação do Oscar desse ano que já fora há algumas semanas. Tratamos de uma premiação assaz singular, a um líder também singular e por feitos em um campo ainda mais singular. Talvez esse seja um adjetivo adequado para tratar do prêmio dado ao presidente venezuelano, Hugo Chávez por suas contribuições à liberdade de imprensa. Um episódio que parece ser distante da realidade atual, tanto do país sede do prêmio quanto do chefe de Estado que o recebeu. Como se ambos tentassem garantir ao grande escritor e jornalista argentino, Rodolfo Walsh, uma caneta para traçar novos caminhos nas páginas da história sul-americana.

Se singularidade for um adjetivo adequado para o ocorrido, somos capazes de ver, até sem um grande esforço, algumas incongruências e incoerências no evento. Comecemos pelo prêmio e pelo vencedor. Essa é uma homenagem de telecomunicações garantida sempre a destaques ou àqueles com feitos memoráveis no campo. E não podemos dizer que entupir as cadeias nacionais com discursos presidenciais ou mover redes televisivas para a TV sejam formas muito claras de liberdades.

Ora, outra incoerência é o fato de o prêmio ser garantido a Chávez na Argentina, um país que atualmente não é um grande exemplo da liberdade de imprensa. Apesar de ser concedido por uma universidade, a Faculdade de Jornalismo e Ciência da Comunicação (UNLP), e não pelo governo, o simples fato de ocorrer em território argentino é representativo. É bom lembrar que no domingo, o jornal O Clarín (principal crítico do governo) não circulou no país por uma manifestação do sindicato dos caminhoneiros na garagem do jornal.

Como no Brasil, na Argentina, os sindicatos são ligados ao governo e os líderes sindicais são funcionários públicos como quaisquer outros. O que sugere alguns questionamentos sobre se eles tinham o aval do governo para agir dessa forma. Bom, as dúvidas a parte sobre a participação de Cristina Kirchner apenas aumentam essa incongruência.

Bom, todos sabemos que seria muito difícil para uma personalidade como o líder venezuelano não causar uma polêmica sequer em seu giro pela América do Sul. Pode ser que Chávez talvez merecesse mais. Poderia muito bem ganhar um Oscar por sua atuação nesse filme, passado em um território onde a imprensa não está lá com muita bola e no qual o prêmio com o nome de um questionador de censuras e autoritarismos é dado a um líder que pratica, no mínimo, um desses dos dois delitos. É de se pensar...

terça-feira, 29 de março de 2011

A princípio, uma guerra...


Antes de começarmos o post de hoje, devemos prestar nossas devidas condolências pela morte de José Alencar, ex-vice-presidente do Brasil. Poucas pessoas foram capazes de despertar tamanha comoção no povo brasileiro. Um exemplo grandioso de quem ficou de frente para morte em inúmeras ocasiões e ensinou que o sorriso, a simplicidade e a perseverança são as melhores armas, quando a força está debilitada. Um gigante parte para viver eternamente na história e em nossas memórias.


E a guerra na Líbia? Por lá, a situação não está nada fácil. A intervenção tem sido entendida como uma manobra precipitada, porém necessária. Depois de bombardeios, enfraquecimento das exíguas tropas de Kadafi e avanço dos rebeldes, os desencontros que precederam as iniciativas da coalizão começam a se acentuar. Para agravar, as manifestações se intensificaram no Iêmen e na Síria, enquanto o Bahrein já recorreu até as tropas sauditas para controlar os protestos.

No século XIX, o general prussiano Clausewitz disse que “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Em sua assertiva, a política é entendida enquanto um ato de imposição da vontade. Na Líbia, a comunidade internacional quis o cessar-fogo. Kadafi rejeitou. Quando a palavra falha, a vontade é lançada à sorte das armas. Porém, trata-se de vontades – por exemplo, a busca do prestígio externo francês, ou o controle da imigração africana para a Itália –, no plural, e não uma única vontade, esta condensada no cessar-fogo. Essas vontades podem explicar a ausência de uma grande estratégia em relação ao cessar-fogo: derrubar Kadafi ou apenas proteger os cidadãos líbios, com a zona de exclusão aérea? Ou algo mais?

Esta estratégia não foi levada a cabo durante a discussão sobre o tipo de abordagem na Líbia, nem qual seria a estrutura de comando (até a OTAN assumir). Desacertos e inércias gritantes podem ter um preço alto. Em debate, está a queda de Kadafi pelos próprios rebeldes, os quais se converteriam na força terrestre – armados pelos países da coalizão (França e Estados Unidos já deram sinal favorável a isso) – para terminar o trabalho que a força aérea estrangeira iniciou. Aqui, retorna a iminência de uma sangrenta guerra civil; o pré-intervenção foi só o aquecimento.

Outra questão cara: e depois da queda? A coalizão, a OTAN ou qualquer outra organização ou país vai participar do processo de reconstrução da Líbia? Em nossa memória ainda fresca, permanecem as aventuras hercúleas no Afeganistão e no Iraque. Uma das últimas coisas que os interventores querem é plantar e cultivar a democracia em terreno pedregoso.

A guerra, quando fica órfã da política, toma caminhos sombrios e ainda mais incertos. Sem objetivos claros e com vontades ocultas e contrastantes entre os membros da coalizão, os três meses para “arrumar” a Líbia serão absolutamente insuficientes. Permanece também a dúvida se essa guerra pode se espalhar na região, no caso de contestadas lideranças vizinhas abusarem da força na repressão dos protestos. Mal se pensou a guerra, que dirá as suas conseqüências...

segunda-feira, 28 de março de 2011

Dança portuguesa


A coisa anda feia na Europa, especialmente em termos de eleições – ao menos, para os que estão no poder agora. Na França e na Alemanha, seus governantes sofrem por motivos diversos o peso de possíveis derrotas políticas no futuro (no caso de Sarkozy, o desgaste já comentado anteriormente aqui no blog; na Alemanha, o temor de acidentes nucleares alimentado pelo caos japonês enfraqueceu o partido de Angela Merkel, favorável ao uso de energia nuclear). Em Portugal, contudo, o resultado é mais sombrio: a saída de José Sócrates da chefia do governo abriu uma crise institucional e assombra a UE com a necessidade de um pacote de ajuda bilionário para saldar as finanças do país.

No fim das contas, é mais uma vez o lance da crise financeira e os PIIGS, fazendo mais uma vítima. Enquanto por esses lados o Brasil é aclamado como modelo de condução econômica, na Europa os efeitos da crise ainda vão perdurar. É a vez de Portugal pagar o pato, pois nenhum político quer aceitar o ônus de fazer o pedido da ajuda européia antes das eleições previstas para o meio do ano (e convocadas justamente pela saída de José Sócrates). Afinal, se a maior parte das pessoas fica encabulada ao pedir dinheiro, quanto mais um empréstimo da ordem de 75 bilhões de euros, e que implicaria em medidas pouco populares como os cortes de gastos e enxugamento do setor público.

É um remédio amargo e necessário, mas que está sendo postergado para evitar o dano político – ou, ao menos, deixar que ocorra após as eleições. Enquanto isso, as finanças portuguesas se debilitam (e o país é rebaixado em notas de risco) e já ameaçam contaminar a ainda cambaleante Espanha – e, por extensão, a Europa como um todo. Em um exemplo de como política interna pode afetar de maneira decisiva a arena externa, Portugal dança ao som de um triste fado.

sábado, 26 de março de 2011

Há um ano


O desastre ambiental no Japão somado as danos ocasionados à usina nuclear de Fukushima criaram um grande debate com relação aos riscos da energia nuclear. De um lado, existem aqueles que defendem a ampliação do uso de fontes renováveis na matriz energética internacional, o que diminuiria o risco da utilização de mecanismos que possam lesar o meio ambiente ou a saúde humana. No lado oposto estão os especialistas que defendem a manutenção da diversidade de fontes energéticas, incluindo a nuclear. Afinal, o que aconteceria nos dias em que o vento não sopre como o usual? De acordo com as estimativas deste grupo, as fontes renováveis podem representar entre 20% e 30% da matriz energética internacional, o que as deixaria longe de ser a solução perfeita.

Contudo, há outro debate com relação ao uso da energia nuclear: as armas que se podem produzir a partir da mesma. Raphael tratava em seu post das negociações entre Estados Unidos e Rússia para a redução de seus arsenais nucleares. Na verdade, foi a renovação de um tratado firmado na década de 1990. Em abril de 2010, Obama e Medvedev confirmaram a expectativa e acertaram os últimos detalhes do acordo. Para Obama, as duas maiores potências nucleares (detentoras de 95% da totalidade de tais armamentos) sinalizavam a intenção de liderar pelo exemplo em temas de desarmamento, ao mesmo tempo em que representava um argumento incisivo para pressionar outros países a repensarem suas ambições nucleares.

Uma das razões que levaram Obama a ser laureado com o Nobel da Paz foi justamente o seu compromisso de diminuir os estoques de armamento nuclear e atuar no sentido de fortalecer as perspectivas de paz mundial. Nada além de um compromisso, não necessariamente seguido por ações efetivas neste sentido. Ainda temos um longo caminho a seguir, críticos questionam os reais números da redução que são apregoados pelas potências mundiais. Mesmo uma significativa diminuição deve representar pouco, uma vez que as ogivas restantes são mais que suficientes para a aniquilação do mundo. Será que existe algum país altruísta a ponto de abrir mão de seu arsenal nuclear? Como parece que não, países como Irã e Coréia do Norte seguem com o discurso “se eles têm, por que eu não posso ter”?

Poucos são os indícios que os novos acordos firmados possam aproximar o mundo do objetivo final. Como afirma o Giovanni em seu último post: “se a política internacional fosse a arena do altruísmo, o mundo seria perfeito”. O mesmo vale para o armamento nuclear. O perigo imanente da energia nuclear deixa uma mensagem importante. Se um mero acidente em uma usina pode gerar tanto receio e perigo em uma comunidade, imaginem um ataque nuclear preparado por uma potência detentora de tal tecnologia. Um marco simbólico do poder norte-americano foi o ataque final ao Japão na Segunda Guerra Mundial através das bombas nucleares lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Desde então, não foram mais vistos ataques desta natureza. Que caminho seguimos, um mundo sem armas nucleares ou a destruição total? Será suficiente o precedente do acidente em Fukushima para os líderes mundiais abrirem mão de seus arsenais nucleares? Tudo indica que não, afinal a política internacional ainda não se tornou a arena do altruísmo.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Tibete sem Dalai?

É possível imaginar o Tibete (“o teto do mundo”) sem a liderança de Dalai Lama (“o oceano de sabedoria”)? Em termos espirituais, efetivamente não. Porém, esta é a situação atual em termos políticos: a solicitação de Tenzin Gyatso para retirar-se das funções políticas do Tibet foi aceita hoje por seu Parlamento, em Dharamsala, local do exílio tibetano na Índia.

Tenzin Gyatso é o 14º Dalai Lama da História, denominação concedida à principal autoridade do budismo tibetano (visto como a própria reencarnação de Buda). Líder espiritual e político, sua luta pela autonomia do Tibete o tornou conhecido pela comunidade internacional e lhe rendeu inclusive o Prêmio Nobel da Paz, em 1989. Envolvido politicamente nas questões do Tibete há mais de 60 anos, seu afastamento deve ser visto como um marco histórico. Uma nova era de lutas deve se iniciar sob uma nova liderança política.

O Tibete constitui um dos principais impasses territoriais das Relações Internacionais modernas, envolvendo o gigante chinês. A disputa histórica pela região tibetana remonta ao início do século XX, sendo que sua independência nunca foi reconhecida pela China. Os interesses na região são de caráter geopolítico e estratégico, envolvendo desde as riquezas naturais locais até as ambições imperiais seculares chinesas.

Há anos que a independência efetiva da localidade não tem sido cogitada (apesar de sempre sonhada) pelos tibetanos e por Dalai Lama, sendo que as pacíficas reivindicações têm se voltado principalmente para a busca de maior autonomia religiosa e cultural. Aspectos que as autoridades chinesas se recusam a aceitar minimamente. Existe a estimativa de que o número aproximado de tibetanos mortos durante as décadas de conflitos com o governo chinês chegue a 1 milhão, sendo que o auge dos protestos ocorreu no ano de 1959 e foi relembrado em 2008.

Em 1959, Dalai Lama e a maior parte dos tibetanos foram forçados a deixar a região, exilando-se no norte da Índia, em Dharamsala. E foi lá que Dalai hoje renunciou às suas funções políticas ao alegar preocupação a longo prazo com o Tibete, considerando que as responsabilidades oficiais devam ser transmitidas a um novo primeiro-ministro eleito diretamente e com poderes mais amplos.

Foi divulgado que o Parlamento tibetano hesitou em aceitar tal renúncia, temendo o enfraquecimento da causa tibetana. Contudo, certamente o Tibete ficará apenas sem o político Dalai, mas não sem seu grande e carismático líder Dalai, símbolo da busca pela paz na região e por melhores condições de vida ao povo tibetano. Motivação para que o Tibete seja ouvido em seus anseios. Símbolo da busca efetiva por ser a mudança que se quer (e se espera) ver no mundo...

quinta-feira, 24 de março de 2011

Conversando com a Teoria


Neoliberalismo: uma breve introdução

É hora de teorizar! E começaremos pelo neoliberalismo, ou teoria neoliberal institucionalista, ou institucionalismo neoliberal. Antes de apresentarmos o seu corpo teórico propriamente dito, é importante termos em mente que não se trata do famoso neoliberalismo, iniciado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, que se espalhou pela América Latina a partir do final dos anos 1980, com as medidas ditadas pelo Consenso de Washington. No Brasil, em específico, a lembrança de eras neoliberais nos remete aos governos de Collor, Franco e Cardoso.

Nas relações internacionais, o neoliberalismo difere da prática político-econômica adotada pelos governos daqui da região. Não prevê o Estado mínimo, com as privatizações, ou a abertura indiscriminada dos mercados nacionais. Trata-se, resumidamente, de uma teoria que se dedica a entender a cooperação a partir do conflito – e não da natureza humana boa, como acreditavam os liberais.

É importante destacar que, embora o neoliberalismo tenha sido cunhado na década de 1970, outras teorias, desenvolvidas nas décadas de 1950 e 1960, já traziam algumas ideias que seriam retomadas pelos autores neoliberais das Relações Internacionais. Entre esse conjunto de ideias, podemos destacar a teoria “funcionalista” e “neofuncionalista”, bem como a própria contribuição de Norman Angell, um autor que se enquadra na vertente liberal, mas que previa que a interdependência entre as nações afastava a perspectiva do conflito.

Particularmente, era do interesse dos autores funcionalistas estudarem o funcionamento das organizações internacionais, para compreender de que maneira elas ajudavam no aprofundamento da cooperação. Termos como “peace by pieces” (“a paz por partes”) ou “spill-over effect” (“efeito de transbordamento”) ganharam coro. O primeiro, no sentido de que as organizações internacionais formariam redes e assumiriam cada vez mais funções que os Estados não poderiam desempenhar sozinhos. O segundo, trazia consigo o pressuposto de que a cooperação em uma determinada área poderia ser transbordada para outra, num processo de aprendizado constante; por exemplo, se dois países cooperam em ciência e tecnologia, podem, futuramente, também cooperar em defesa e segurança.

Basicamente, esta é a sala de entrada para a teoria neoliberal das Relações Internacionais. Não tem o mesmo significado que na economia e também retoma alguns conceitos que foram se desenvolvendo no pós-guerra. Para encerrar, vale notar um ponto que é bastante discutível: muitos consideram que o neoliberalismo não se apresenta como uma evolução do pensamento liberal, mas, antes, uma ruptura com o mesmo – diferente do realismo para o neorrealismo. Alguns até consideram que o neoliberalismo parte de uma concepção realista sobre a “sombra da guerra” no sistema internacional, mas enxerga a possibilidade de superá-la. Seguimos conversando...

terça-feira, 22 de março de 2011

Em cima do muro


O que antes eram manifestações se converteu em guerra civil e, agora, tomou proporções internacionais. Uma coalizão de países, liderada por Estados Unidos, França e Reino Unido, decidiu intervir militarmente na Líbia, com a finalidade de proteger os cidadãos do país das tropas sanguinárias de Muamar Kadafi. Por enquanto, derrubar o polêmico tirano não faz parte dos planos, mas os objetivos da coalizão ainda não estão perfeitamente claros e podem ir além do estabelecimento de uma zona de exclusão aérea (no-fly zone), ou mesmo atravessar as fronteiras da Líbia, sob a discreta forma de intervenção humanitária. (Seguem dois artigos bastante explicativos sobre a Guerra na Líbia: aqui e aqui)

Ora, que ninguém se engane, se a política internacional fosse a arena do altruísmo, o mundo seria perfeito. Os interesses nacionais acabam falando mais alto, principalmente aqueles de natureza econômica e geopolítica. Fora da coalizão, mas igualmente interessado nos acontecimentos na Líbia, está o Brasil. A abstenção brasileira na votação da resolução do Conselho de Segurança da ONU que autorizou o estabelecimento da zona de exclusão aérea está muito longe de significar desinteresse na questão. Nosso país tem se pronunciado o tempo todo. Tenta agradar a gregos e troianos com um insustentável laissez-faire. E, assim, fica em cima do muro.

O Brasil condenou os ataques contra o povo líbio, promovido pelo seu próprio líder, mas discordou do tipo de abordagem com relação à questão. Para não causar mal-estar, absteve-se de votar. Qual seria a solução brasileira? O diálogo pacífico! Evidentemente, este seria o melhor caminho, se a situação não demandasse urgência. Rubens Ricupero, em recente artigo publicado na Folha de São Paulo, chegou a dizer que o Brasil faz o “melhor de dois mundos”, já que não se compromete e deixa os outros resolver o problema.

Uma situação como esta evidencia um despreparo do Brasil para assumir um posto permanente no Conselho de Segurança. Não adianta o ex-chanceler Celso Amorim escrever um artigo na Foreing Policy explicando por que os Estados Unidos deveriam apoiar a pretensão brasileira, ou o governo ficar todo excitado com o “apreço” de Obama – digno de míseras linhas de uma nota diplomática norte-americana – à inclusão do Brasil, manifestado com veemência hoje, em Manaus, pela presidenta Dilma. Não é apenas a nova realidade global do poder, a capacidade de estabelecer diálogo com todos os países do mundo ou a dimensão econômica do nosso país que carimbam as nossas credenciais para administração da segurança internacional. Quando as negociações fracassam, a fala cede espaço para a sorte das armas e as decisões se tornam inadiáveis.

Particularmente, manifesto-me favorável à reforma do Conselho de Segurança e gostaria de ver o Brasil incluído no órgão. No entanto, nossa conduta recorrente não tem passado de uma aventura homérica. Protestamos, discordamos e até sugerimos outras soluções, mas quando se trata de implementá-las, não temos força. O mundo árabe tem uma imagem positiva do Brasil, mas não há como falar e querer negociar se não tivermos capital político, econômico e, principalmente, militar à altura de nossa voz. Não há também como dizer “não” para os grandes ou tratar de igual para igual, de maneira clara, por exemplo, o sentido da intervenção na Líbia. Resta ficar em cima do muro.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O preço da liberdade?

Antes de liberdade e igualdade, poderíamos ter pão e carne?

As revoltas no mundo árabe continuam dando corda para o noticiário internacional. Nessa última semana, com o aval do CS da ONU, países aliados encabeçados por França, Reino Unido e EUA passaram a fazer valer uma “no-fly zone” na Líbia, para evitar que Kadafi continuasse a massacrar os insurgentes (e civis) com aeronaves. Até onde se sabe, parece que sua força aérea já foi, se não destruída, enfraquecida o suficiente para garantir a segurança dos cidadãos.

Ora, chegamos ao ponto principal dessa revolta – e de todas as que andam acontecendo na região: são marcadas pela participação popular, de variados modos, mas o que se pode esperar de suas conseqüências para o povo? Afinal, mais do que derrubar ditadores e instaurar a democracia, os seus protagonistas estarão sendo contemplados?

No Egito e Tunísia, onde o furor já passou, a coisa não parece muito melhor – o Egito tem um momentâneo (e, quem sabe, contínuo?) poder castrense, enquanto na Tunísia houve uma divisão de poder entre partidos incluindo antigos aliados do ditador deposto. Já na Líbia, apesar do que possa parecer, os países aliados não estão atacando para derrubar Kadafi ou coisa parecida – e nem podem fazer isso! Apenas estão cumprido uma vaga resolução da ONU para proteger a população de seu próprio governante. Ou seja, estão dizendo que quem deve fazer o trabalho são os próprios líbios. Se vai dar certo ou não? Mistério. O que importa é que líbios continuam morrendo diariamente (pelas tropas de Kadafi? Ou mesmo pelas bombas ocidentais?).

A coisa está pior em outros países da região, como no Iêmen. Lá, o presidente teve de destituir partes do governo e perdeu apoio de generais e outros políticos após o massacre de civis em protestos. Se a perda de vidas nesses processos de democratização acaba sendo inevitável nesse contexto de choque, o problema é não ter a certeza de que o resultado final atingirá os objetivos esperados pelo povo.

Os protestos continuam, na Síria, Iêmen, Bahrein e outros países. A violência, também. Com a incerteza dos resultados nos casos de "sucesso" e a aparente falta de evolução nos que estão ocorrendo agora, o futuro dessas revoluções é, no mínimo, nebuloso, e não se tem nem democracia, nem melhora de condições em um horizonte próximo para esses povos. Seria exagero se pergutar se não seria um preço muito alto pela democracia?

domingo, 20 de março de 2011

Presidente Obama no Brasil

Um dos exemplos mais emblemáticos do conceito “Soft Power” é o presidente Obama. Os Estados Unidos tem as forças armadas mais poderosas do mundo, investe anualmente 700 bilhões de dólares em defesa (o que equivale a três vezes o PIB do Egito), além de manter dois conflitos armados externos. Contudo, quando se pensa em Obama, qual palavra vem imediatamente a sua cabeça? Aposto que ninguém, ou quase ninguém, pensa em guerra ou associa sua imagem ao tradicional unilateralismo norte-americano. Ao invés disso, Obama significa mudança, multilateralismo, o fato novo; uma espécie retorno aos ideários dos fundadores de sua nação. Muito do que menciono obviamente não funciona na prática, mas traz uma forte carga retórica associada.

De que outra maneira se poderia explicar o seu poder de mobilizar pessoas? Obama parece ter claro que o seu principal campo de atuação para 2011 é a arena internacional. Em âmbito interno, sua “política da esperança” tem enfrentado desafios extremos e críticos vorazes. Frente a indícios cada vez mais evidentes que a política em seu país não mudará no curto prazo, talvez deixar sua marca na política internacional seja algo mais plausível. Obama não cumpriu a totalidade de suas promessas, o que terminou gerando oportunidades de críticas por vezes ácidas. Nada, no entanto, que tenha corroído sua imagem. Todos querem tirar um foto com ele, ouvir seus discursos ou ler seus livros. Que levante a mão que gostaria de tirar uma foto com George W. Bush.

Essa ambivalência que representa Obama é algo notável. Por um lado, pouco fez de diferente do establishment político internacional. Por outro, é uma das figuras mais admiradas internacionalmente. Seus discursos arrastaram multidões. Talvez sua popularidade seja maior fora de seu próprio país. Mais popular que ele somente Michelle Obama, a primeira dama. Sua visita ao Brasil foi cercada de imensa expectativa, especialmente quanto à possibilidade que incluísse um pronunciamento contundente sobre a importância do Brasil no sistema internacional. Tal fato somado a cooperação econômica e científica entre os dois países, seria o roteiro que todos gostaríamos de ver. O que podemos realmente esperar? Um efeito meramente midiático ou realmente uma renovada aliança entre Brasil e Estados Unidos?

Passamos para o ato principal: o pronunciamento no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. De acordo com o previsto, Obama enfocou seu discurso na parceria entre Estados Unidos e Brasil. Mais além da cooperação entre governos, uma aliança entre os cidadãos, entre as nações. Entre os pontos mais importantes, o presidente norte-americano destacou a fundo histórico comum, ambos como parte de um “Novo Mundo” dominado por metrópoles, que logo conseguiram conquistar suas independências. Além disso, a democracia representou para ambos os países um caminho para liberdade, crescimento econômico e prosperidade. O país do futuro, ainda nas palavras de Obama, viu sua vez chegar. O Brasil é um exemplo do que a democracia pode gerar. Nesse sentido, nossa aliança, que se funda em valores e exemplos comuns, poderia ser intensificada em diversos setores.

Caminha para o fim a tão esperada visita do presidente norte-americano. Fica a esperança que essa aliança entre nossos países torne-se efetivamente discussões de igual para igual, como apregoou Obama. Para um país que busca o palco principal no sistema internacional, a abertura e o reconhecimento da (ainda) maior potência mundial pode ser um caminho profícuo. Para os que esperavam uma declaração ainda mais contundente, apoiando aspirações brasileiras nas Nações Unidas, talvez fique uma sensação de decepção. Resta, independente do ponto de vista, a oportunidade de capitalizar em nossa reafirmada parceria.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Energia nuclear em questão

“A energia nuclear é uma forma boa, limpa e segura de se gerar energia, e pode ser usada em larga escala”. Esta é a opinião do cientista James Lovelock, famoso por polemizar em seu meio a respeito da geração de energia a partir de fontes nucleares. Em certa medida, seus argumentos são válidos e defendidos por muitos, já que a energia nuclear efetivamente não gera gases de efeito estufa, não compromete áreas de reservas naturais e demonstra um potencial financeiro e científico elevado para que o enriquecimento de urânio ocorra.

Contudo, esta discussão vem à tona no momento em que um dos principais efeitos negativos da geração de energia nuclear é visível após os desastres naturais que assolaram o Japão: a contaminação radioativa. Os níveis de radiação estão comprovadamente altos em um raio de 30 quilômetros da usina de Fukushima Daiichi, no Japão. O terremoto da semana passada danificou os reatores dessa usina, cuja responsabilidade é da empresa Tokyo Electric Power Co.

A situação, que já constitui um cenário de crise nuclear, se encontra no nível cinco de uma escala internacional de risco (o nível sete é o máximo, alcançado no caso de Chernobyl, em 1986). Jatos d’água estão sendo lançados nos reatores para resfriá-los, evitando que a disseminação das partículas radioativas se intensifique na localidade; porém, a opção de enterrar esses reatores está sendo cogitada pela primeira vez, demonstrando a gravidade da situação.

Este contexto remonta a um questionamento básico: a geração de energia nuclear compensa os riscos de sua implementação? Sabe-se, por meio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) – órgão da ONU que fiscaliza questões relativas à tecnologia nuclear – que aproximadamente 14% da energia gerada no mundo é nuclear, constituindo-se esta na terceira maior fonte energética existente (e o Japão é um dos países que possui o maior número de reatores, depois dos Estados Unidos e da França).

Além da preocupação com a produtividade energética em si, pode-se argumentar que, muitas vezes, os Estados prezam pela energia nuclear (a despeito de outros tipos renováveis/não-poluentes de geração de energia) ao avaliarem aspectos político-estratégicos nas Relações Internacionais. Com vistas à ampliação de seu poder relativo e ao seu crescimento em termos de influência no cenário inter-estatal, investimentos financeiros altíssimos são direcionados à tecnologia nuclear.

Entretanto, desastres do porte deste ocorrido no Japão reforçam a necessidade de cautela e promovem o debate a respeito, sendo que a Europa já repensa investimentos nessa área – especialmente considerando a baixa aceitação da sociedade civil em geral neste âmbito. Assim, não fica tão difícil perceber o porquê de Lovelock ser considerado polêmico em sua acalorada defesa da geração de energia nuclear que, se por um lado pode ser “boa, limpa e segura”, por outro pode ser extremamente danosa em vários sentidos.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Há (quase) um ano


Este é um post diferente – não é um “Há um ano” propriamente dito, mas se escora num texto de março de 2010. Em “O mundo dá voltas”, abordávamos a questão da governança analisando o caso das eleições do Iraque e do (então) recente terremoto no Chile. O primeiro caso era um surpreendente caso de “despertar” político enquanto o segundo era o oposto, a decaída de uma sociedade relativamente estável no caos por conta de um evento extremo.

Parece muito apropriado trazer essa questão novamente com o drama do Japão. No caso, poderíamos traçar um paralelo quanto à reação dos cidadãos face à tragédia – talvez não caiba comparar a escala dos desastres, mas algumas de suas implicações. No Chile, houve muito caos, saques e crimes. No Japão, até onde se sabe, parece estar havendo mais organização e um admirável auto-controle de seu povo. A tristeza é contida, mas o pânico parece ser mais por conta dos estrangeiros. Talvez por causa dos japoneses estarem “acostumados” às tragédias assim (lembrem-se que mesmo a contaminação nuclear eles já conhecem muito bem...), somando-se à sua costumeira disciplina, enquanto no Chile o pânico era fruto da escala inédita do desastre. No Japão, o temor do desabastecimento faz os produtos sumirem das prateleiras – mas não há saques; são todos comprados, e parece que se tenta seguir um rumo comum da vida, o quanto antes, em meio à devastação.

Por outro lado, há coisas que não mudam. Nem vamos entrar nos méritos da questão líbia, em que a esperança de uma revolução legítima contra o ditador Kadafi parece cada vez mais fadada ao destino da guerra civil e sem prazo pra ser resolvida. Outros casos dramáticos estão se desenvolvendo à sombra da tragédia nipônica – especialmente na Costa do Marfim e no Sudão. O primeiro está à beira de uma sangrenta guerra civil, com protestos pacíficos sendo reprimidos e operações militares sendo realizadas contra o presidente que não que largar o osso Gbagbo. Já no segundo, o processo de independência do sul parece cada vez mais atrapalhado e conturbado por escaramuças, problemas na província de Abyei (cujo plebiscito de intgração ao sul ou ao norte está suspenso indefinidamente) e o eterno caos de Darfur. Na África, a política dificultada por questões tribais e étnicas e temperada pela ganância internacional parece seguir um rumo pré-definido, em que sempre ficam em desvantagem a segurança e a paz de seus habitantes.

Se no ano passado podíamos afirmar que em termos de governabilidade o inesperado pode surgir de tragédias, os fatos recentes mostram que, via de regra, as conseqüências podem ser bastante previsíveis, para o bem ou para o mal...

quarta-feira, 16 de março de 2011

Salas de recepção

Nos últimos dias temos observado interessantes visitas internacionais muito bem destacadas na mídia nacional e internacional. Ambientes de recepções caracterizados pela diversidade dos seus hóspedes, oscilando entre aqueles bem-vindos e aqueles muito mal queridos. Bom, comecemos pelo Brasil. O governo brasileiro já se organiza para uma visita presidencial aos moldes dos grandes eventos musicais, como o Rock in Rio.

A vinda do presidente estadunidense, Barack Obama, e de sua comitiva ao país tem agitado os ânimos dos brasileiros e as expectativas dos Estados Unidos. Expectativas essas de mobilizar não só o Itamaraty ou o governo brasileiro da importância da parceria Brasil - Estados Unidos, mas também com forte apelo à população, com discurso de Obama a ser proferido ao público geral brasileiro. Um hóspede que oferecerá uma negociação de dois âmbitos. A primeira do governamental, por negociações diretas em Brasília, e a segunda, no âmbito social, com um discurso à população que visa reforçar a importância dessa parceria estratégica e despertar no povo esse sentimento.

A primeira insere-se nas recepções acaloradas. Agora, também é de se notar uma recepção quente, que trouxe muito calor e insatisfação para os protestantes no Bahrein. País que se encontra envolvido na onda de protestos do mundo árabe, dessa vez uma população de maioria sunita volta-se contra a dinastia xiita, dos Khalifa, que se encontra no poder há mais de duas centenas de anos. As reivindicações da população se inseriam no âmbito de protestos pacíficos quando iniciados em fevereiro, tanto que o governo apontou para possibilidade do diálogo, prometendo a criação de melhores condições para a população e libertando presos políticos.

O diálogo não foi o suficiente e com o prosseguimento dos protestos, o rei Hamad bin Isa al-Khalifa, logo apelou para a repressão. A quente recepção foi observada quando o rei pediu apoio do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) para operar na repressão dos protestos. Logo desembarcaram no Bahrein tropas sauditas e do CCG (que seriam mais que suficiente para assegurar a visita de Obama) mas tinham um propósito mais, digamos, repressivo (apesar de os sauditas dizerem diferente). Como destacou um artigo da Foreign Policy, a organização foi criada como forma de os países da região lidarem com agressões militares externas a quaisquer membros, e não é o que se observa no caso.

Nesses diferentes ambientes de visitas, enquanto no Brasil, é acalorada e o hóspede é bem querido, no Bahrein, a recepção é quente e os hóspedes malditos para o prosseguimento dos protestos. De um lado observa-se a vontade de reconstruir a importância estratégica e ampliar o entendimento conjunto, de outro, há a imposição da estratégia de repressão e de um entendimento de manutenção de situação vigente. Apesar de contextos diferentes e métodos divergentes, ambas visitas também visam atingir um ponto em comum: as populações locais.

terça-feira, 15 de março de 2011

Declinismo norte-americano?


Este é um debate que tem acompanhado a trajetória dos Estados Unidos no final da década de 1970, ao término da Guerra Fria e tem voltado com vigor após os atentados de 11/09. O declinismo é associado à perda do poderio – político, econômico, militar, etc. – norte-americano e que repercute na sua capacidade de gerenciar a ordem internacional, meta buscada pelo país desde o término da Segunda Guerra Mundial.

É fato inconteste que os Estados Unidos permanecem como a maior potência mundial. O PIB norte-americano é superior a soma do PIB das cinco economias subsequentes. O poder militar é superior ao poder militar somado dos dez países que o sucedem. Porém, a despeito desses dados impressionantes, o gigante do norte não reina de maneira absoluta, por mais que passe por cima das organizações internacionais (ONU, OMC, etc.). A Europa, a China e mesmo as coalizões de países emergentes procuram contrabalançar o poder norte-americano, buscando outras formas de administrar o ordenamento global, sem o pretenso unilateralismo em um mundo multipolar ou o desejo de assumir a posição de “gendarme” global.

De acordo com Michael Mandelbaum, professor de política externa dos EUA da Universidade Johns Hopkins, a situação econômica do país – sobretudo, a dívida pública de US$ 14 trilhões e o déficit fiscal de US$ 1,3 bilhão – deve levar a um corte de gastos na atuação externa. Consequentemente, a tendência é que diplomacia norte-americana continue privilegiando a Europa, o Oriente Médio e o Leste Asiático. No entanto, o envolvimento direto nestas regiões – como, por exemplo, o envio de tropas para apaziguar a situação na Líbia ou no Iêmen – deve diminuir.

A ênfase nestas regiões ora deixa de lado outros temas caros à política externa norte-americana, ora negligencia temas vitais nos locais de interesse geoestratégico, como explicou Elizabeth Dickinson: o narcotráfico no México, a crise europeia, a questão da Caxemira, a divisão do Sudão, o terrorismo no Iêmen, a perda da exuberância do dólar, o desabastecimento do Afeganistão, os vazamentos do Wikileaks, as negociações para a criação de um Estado Palestino e a política para a América do Sul. Mesmo em sua tradição universalista, os tentáculos norte-americanos já não conseguem se espalhar por aí sem esbarrar em obstáculos.

Como no término da Guerra Fria, a ideia do declinismo veio como um alerta para os governos reajustarem a sua conduta externa, de maneira a manter o prestígio internacional. Após o 11/09, volta à tona. O mundo mudou significativamente e o país já não pode concebê-lo de maneira congelada, estática. Novos atores – Estados, organizações, movimentos sociais, etc. – vão se inserindo nos círculos da política mundial, procurando atuar em todos os quadrantes do globo e buscando novas formas de lidar com a ordem internacional. Tentar administrá-la de maneira unilateral já não convém e só acentua a perspectiva de declínio do poderio norte-americano, devido à incapacidade de fazê-lo sozinho. Por outro lado, participar de um jogo coletivo pode trazer o amargo sabor do declínio, temperado pela impotência e resignação. É uma situação complicada, que a grande potência fatalmente terá que enfrentar. Resta saber quando.

sábado, 12 de março de 2011

Irã(fobia)?


O Irã já foi assunto diversas vezes na Página Internacional. Muito já foi dito e analisado com relação ao país, sendo o programa nuclear iraniano um tema recorrente. Por um lado, as principais potências temem a possibilidade do desenvolvimento de armas nucleares, por outro os iranianos questionam a legitimidade da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Tal qual no recente caso da Líbia, são poucas as vozes que se levantam com o objetivo de defender as escolhas do Irã.

Mahmoud Ahmadinejad é uma das figuras mais controversas do sistema internacional. Entre suas declarações estão a negação ao Holocausto e a afirmação que não existe homossexualismo no Irã. Uma das principais críticas a recente política externa brasileira vinculava-se justamente a aliança com o Irã, o que incluía um apoio velado no campo dos Direitos Humanos. Em palestra do cônsul iraniano no Equador, tive a oportunidade de escutar argumentos sobre as mais variadas temáticas. Justo de um argumento do diplomata vem minha pergunta, existe uma fobia ao Irã?

O cônsul apresentou os princípios norteadores da República Islâmica do Irã, defendeu alguns eventos como formadores do atual contexto no Oriente Médio, comentou sobre a constante tentativa das grandes potências em influenciar o destino regional, entre outros. Contudo, o ponto alto na sua exposição foi a defesa da existência de uma campanha midiática com o intuito de prejudicar o país, que termina por ensejar uma espécie de aversão aos iranianos por parte dos ocidentais. Tomando o exemplo recente da primevera árabe, mencionou a tentativa de comparar as revoltas em tais países com os movimentos da oposição iraniana após as eleições de 2009. Em sua visão, há na verdade uma clara semelhança com a revolução islâmica de 1979. Contudo, a primeira comparação tem o intuito de gerar mais pontos de vista negativos quanto ao Irã.

Passando para uma análise dos principais países do sistema internacional, o cônsul trouxe várias questões. Qual o interesse das grandes potências no Oriente Médio? Que governos ocidentais estavam apoiando estes mesmos governos árabes que agora são apontados como autoritários e corruptos? Quem apoiava Saddam Hussein? Para que uma intervenção militar no Oriente Médio? Isso já foi também mencionado aqui no blog, realmente são poucos os países que tem a consciência limpa para falar de seu papel no Oriente Médio. Além disso, o representante do governo iraniano ainda vê uma grande disparidade entre a opinião das ruas e o noticiário ocidental. Em sua visão, os árabes aprecia o posicionamento confrontivo do Irã para as grandes potências. Por último, re-afirmou os intuitos pacíficos do programa nuclear de seus país, tal direito nunca se negociará, em suas próprias palavras. As preocupações de parte a parte nesta temática poderão estar na pauta de uma negociação. Terminou sua defesa com uma nova pergunta. Houve esforço significativo para a redução de armamento junto aos países que dominam a tecnologia nuclear?

Uma boa parte dos argumentos que vi apresentados agrega ao debate. Também enxergo uma dualidade das grandes potências na atual crise no mundo árabe, as políticas que tiveram apoio dos países centrais na região terminaram por alimentar regimes lesivos ao povo. Os mesmos que agora caem e deixam os líderes mundiais sem tantos argumentos para defender condutas anteriores. A lembrança da revolução islâmica de 1979 tenta refrescar a memória de todos, no sentido de criar um paralelo com as atuais movimentações em diversos países. Um resultado similar ao do Irã para a primavera árabe provavelmente não está nem nos piores pesadelos das grandes potências, o que seria da região e do mundo se regimes não alinhados ao Ocidente se espalhassem por meio de revoltas populares? Voltando a pergunta inicial, é difícil cravar que existe essa tal fobia ao Irã. A cobertura midiática não é favorável ao país, porém é alimentada por fatos e pronunciamentos de suas autoridades. Mais que isso, a falta de transparência e as constantes críticas a AIEA nunca vão gerar um opinião pública ocidental favorável ao Irã. Ambos os lados (Irã e Ocidente) tem seus pontos negativos, não se pode pautar sua defesa simplesmente na acentuação das falhas do outro lado.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Jishin, Kaminari, Kaji, Oyaji

Segundo o provérbio japonês, quatro são as coisas que um japonês deve temer: Jishin, Kaminari, Kaji, Oyaji (tradução literal: Terremoto, Trovão, Incêndio e Pai). Apesar de a sociedade japonesa não se caracterizar mais pelo patriarcalismo, de certa forma (e infelizmente) o provérbio se confirmou hoje: o Japão enfrentou o maior terremoto já ocorrido no país (e um dos maiores ocorridos no mundo desde 1900), seguido de um tsunami com proporções trágicas.

Abalos sísmicos menores foram registrados posteriormente em conseqüência do terremoto na região e grandes ondas no Pacífico chegaram também à América, mas sem maiores danos. No Japão, as mortes decorrentes desta tragédia somam centenas, com prejuízos a milhares. Mensagens de lamento e apoio, bem como ações de assistência humanitária do mundo inteiro começam a chegar ao governo japonês, desde os grandes aliados norte-americanos – que possuem mais de 50 mil homens por lá –, até o governo brasileiro – país onde a colônia japonesa é bastante expressiva.

Este acontecimento nos leva a reflexões diversas, na medida em que os desastres naturais de grandes proporções têm se mostrado freqüentes no contexto atual e demonstram a urgência das discussões de caráter ambiental e humanitário: a mobilização internacional neste sentido é a única forma de serem alocados recursos e esforços para a prevenção e, se necessário, o socorro em situações de crise tal como esta. Contudo, aguardar avanços das cúpulas internacionais neste âmbito não parece uma perspectiva muito animadora...

Ainda uma outra reflexão é pertinente: a possível relação entre os regimes políticos e os desastres naturais e suas conseqüências. Em artigo da Foreign Affairs disponível aqui (sugestão do colaborador Giovanni Okado), o autor afirma que os governos não podem evitar o acontecimento de desastres naturais, mas podem sim se preparar para estes e minimizar seus efeitos para a população. Diante dos recentes terremotos no Haiti e no Chile, são perceptíveis grandes discrepâncias em que o argumento supracitado se aplica de forma coerente, relacionando os regimes políticos de cada um dos países e seus investimentos sociais.

Sabe-se que o Japão é um país rico e que tem implementado políticas preventivas no que tange a tragédias humanitárias e ambientais, possuindo os meios para minimizar as (inevitáveis) conseqüências sociais de desastres naturais como o de hoje. Resta-nos, desta forma, oferecer o apoio necessário em âmbito governamental para que a tragédia no país seja superada e, então, buscar a promoção de meios para que as reflexões expostas sejam aprofundadas a cada dia no cenário internacional.

Afinal, se o provérbio japonês inicialmente apresentado no post fosse atualizado diante do contexto mundial da atualidade, certamente a lista de “coisas a serem temidas” aumentaria de forma considerável...

quinta-feira, 10 de março de 2011

Conversando com a Teoria


Décadas em mutação, teorias em gestação - III

Antes de fazermos um balanço conclusivo das décadas de 1960 e 1970, de maneira a compreender por que neste período emergiram novas teorias das Relações Internacionais, convém comentar pelo menos mais dois acontecimentos importantes. O primeiro deles diz respeito ao “aquecimento” da Guerra Fria, com as guerras do Vietnã e Yom Kipur, numa demonstração do equilíbrio instável no período de arrefecimento do conflito entre as superpotências. A despeito das expectativas otimistas, a guerra deve ser levada em consideração no cálculo racional dos países em suas interações.

O segundo fato importante é a reanimação da Europa, praticamente reconstruída ao final dos anos 1950, com a ajuda econômica norte-americana. Recuperada, o continente encaminhou-se para a reinserção no terreno das relações internacionais, buscando também um lugar ao sol. Uma das estratégias de reinserção foi a construção de uma Europa integrada, marcada pela superação da rivalidade franco-germânica, com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (1951), que depois veio a se tornar a Comunidade Economica Europeia, com os tratados de Roma (1957). Nascia, assim, a União Europeia, o principal projeto de integração supranacional.

Pelo que temos nos últimos posts desta coluna, as relações internacionais mudaram quantitativa e qualitativamente nas décadas de 1960 e 1970, embora o pano de fundo tenha sido o mesmo: a Guerra Fria. Novos atores contracenaram de maneira diferente, fora dos roteiros preconcebidos no jogo de poder e ajuste de posições. Novos temas e novas preocupações, que passaram despercebidos pela cega ameaça da mútua destruição entre as duas superpotências, foram incorporados à agenda global: ambiente, bem-estar econômico, melhorias sociais, movimentos contra-cultura, independência, etc.

Da mesma forma, não se deve pressupor que as velhas preocupações das teorias de Relações Internacionais desapareceram, como assinalam as guerras. A política de poder foi explorada pelo neorrealismo e também com os neoliberais, uma vez que estes consideram que a perspectiva de conflito é o que conduz à cooperação. Os neomarxistas se dedicaram a explicar o subdesenvolvimento e as possibilidades de romper com esse ciclo vicioso. Assim, outros fenômenos, junto com os antigos, eram submetidos à análise sob novas lentes. Ressalta-se também que nem por isso realismo, liberalismo e marxismo, sem os prefixos, foram abandonados.

Diante das mutações os anos 1960 e 1970, novas teorias foram gestadas. A partir da próxima semana, procuraremos apresentá-las!

quarta-feira, 9 de março de 2011

Há um ano...

Um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias. Tempo mais do que suficiente para a agenda internacional alterar-se rapidamente e, da mesma forma, tempo breve demais para configurar grandes alterações em processos que parecem há muito estar estacionados. Muitos temas “do momento” dissolvem-se nos pronunciamentos e da mídia internacional enquanto outras questões parecem que jamais se retirarão da primeira pauta.

Retomemos o que ocorria no blog e no mundo há exato um ano. No post do dia 09/03, o Giovanni tratava de um tema já bem recorrente no blog e, mais ainda, recorrente na agenda internacional: o processo de paz entre Israel e Palestina (clique aqui para conferir). À época, tentava-se reiniciar os diálogos entre os dois Estados e, ao mesmo tempo, Israel havia autorizado a expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia. Uma análise muito interessante que assinala que as expectativas de paz na região voltar-se-iam para o futuro, e hoje, um ano depois, observa-se um mesmo movimento de olhar para outro futuro distante.

No dia seguinte, tratou-se do polêmico discurso de Lula sobre os prisioneiros políticos cubanos, no qual o presidente afirmou que a greve de fome não era pretexto para a libertação de presos políticos. Uma confusão de alguns conceitos, misturando o entendimento de presos políticos com o de criminosos comuns, que gerou amplos questionamentos, tanto no plano interno, quanto externo (clique aqui para reler o texto).

Na mesma semana, o Alcir abordou o polêmico caso do contencioso do algodão (para ler, clique aqui), entre Brasil e os Estados Unidos, em âmbito da OMC. O Brasil havia acabado de divulgar a lista de possíveis itens que seriam retaliados. A retaliação não prosseguiu e o governo brasileiro ainda espera, nas palavras utilizadas no post, um xeque mate.

Bom, esses foram alguns posts e temas tratados há um ano e a há aproximadamente um ano. E para não perder o costume: é isso aí, pessoal, postando e relembrando!

terça-feira, 8 de março de 2011

Às mulheres


“Sentir, amar, sofrer, devotar-se, será sempre o texto da vida das mulheres.” Embora o romancista francês Honoré de Balzac tenha escrito essas palavras no século XIX, elas ecoam pelos confins das eras. Verbos carregados pela mulher de ontem para se tornar a mulher de hoje, o ser mais belo entre o homem e anjo, à Balzac. Nosso calendário reconhece a sua importância no mundo, endereçando-lhe um dia específico. Dia que é comemorado há um século.

No Egito Antigo, segundo a lenda, Ísis atravessou todo o território egípcio para encontrar os catorze pedaços do corpo de seu marido, Osíris, e então revivê-lo. Surgiu, assim, o ritual de mumificação. No período medieval, as bruxas foram arbitrariamente lançadas ao fogo da Inquisição por conhecerem o que a Igreja desconhecia. Foi preciso Joana D’Arc levantar a espada, numa guerra extra-centenária, para devolver o orgulho ao povo francês. Nos bastidores da Guerra do Paraguai, as mães e esposas acompanharam o movimento de seus filhos e maridos, servindo de enfermeiras ou até de combatentes. A paz, em tempos atuais, prestou homenagem às guerreiras políticas Shirin Ebadi e Suu Kyi. Exemplos que não param demonstram que os corações femininos nunca se renderam à luta e seguiram com a esperança.

A humanidade, historicamente, marchou sobre as mulheres e não ao lado delas. Fez do homem a figura perpetuante da espécie, quando a vida, na verdade, nasce no ventre feminino. A desigualdade gênero é marca característica da evolução humana e, ainda hoje, à busca por igualdade é objetivo permanente do mundo. Tal busca pode ser ilustrada com o terceiro Objetivo de Desenvolvimento do Milênio, “Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres”, ou com a criação do ONU Mulheres, presidido pela ex-presidente chilena Michelle Bachelet.

É certo que houve avanços significativos na condição das mulheres. Há cem anos, como lembra Bachelet, apenas em dois países as mulheres votavam, sendo hoje um direito quase universal. (vejam a mensagem e o vídeo) Em 67 países, as leis obrigam a remuneração igual entre os gêneros e, em 127, é assegurada a licença maternidade. Porém, na política, entre os líderes dos 192 países, há apenas 12 mulheres. Isso para não falar das dimensões social, cultural e econômica, como as genitálias amputadas na África ou o apedrejamento islâmico. Mulheres e crianças são também as vítimas mais afetadas pelas guerras e pelos fluxos de refugiados.

Em um século, ultrapassou-se o peso da história, mas esta continua em gestação. As mulheres não desistirão de escrevê-la da maneira justa, de modo que as epopeias nunca esqueçam o seu heroísmo. Suas misérias e batalhas. Nos brados de “Pão e paz” das mulheres russas, a data nasceu. Finalmente, veio o reconhecimento para quem teve a perseverança de atravessar o Egito ou empunhar as armas, na mais pura expressão de seu sentimento, amor, sofrimento e devoção. Na mais pura demonstração do ser entre o celestial e o terreno, cujos olhos não contêm o brilho da alma e as mãos trazem as marcas de quem acreditou na luta. Vocês merecem um dia especial e a igualdade, pelo que fizeram, fazem e farão.

A vocês, mulheres, prestamos hoje esta homenagem. Parabéns pelo Dia Internacional da Mulher!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Dor de cabeça de Carnaval


O Carnaval, em alguns países, pode ser chamado também de Mardi Gras (do francês, algo como “terça-feira gorda”). Vê-se que existe uma relação entre a festa popular e o país europeu, mas essa época do ano tem sido pouco festiva para eles.

Para variar, o tema do momento, as revoltas árabes. A França, que sempre esteve muito envolvida na política do norte da África, mesmo após a descolonização, está intimamente envolvida com seus desdobramentos. E isso, via de regra, está trazendo dores de cabeça para a França, graças a suas relações no mínimo “amistosas” com ditadores da região. É o tipo de relação que falei em meu último post: um ditador pode ser tolerável desde que útil, e os interesses empresariais e militares dos franceses caíam como uma luva nos favores prestados à trupe de Kadafi e companhia. Isso já causou até uma baixa política na França, quando a ministra das Relações Exteriores se demitiu por ligações com o regime de Bem Ali, da Tunísia. E lembram do Rafale, o elefante branco voador que a França tenta vender a todo custo e que, ao que parece, nem o Brasil dá mais garantia de compra? Pois é, a Líbia já havia encomendado um lote em acordo de defesa bilionário, mas parece que nunca serão entregues. Ops. Com essas revoltas, por um lado, a França é obrigada a rever seus posicionamentos e por vezes ter sua imagem “arranhada”; por outro, perde influência com o surgimento de novos atores na região.

O maior culpado por essa crise política, segundo os franceses, é o próprio presidente Sarkozy. Considerado impulsivo e orgulhoso, coleciona problemas econômicos, equívocos em negociações e gafes diplomáticas, além de ter que lidar com a acidez da opinião pública. A decisão de deportar os ciganos, por exemplo, trouxe indignação internacional e críticas internas (até mesmo dos favoráveis à ideia). O país se recupera relativamente bem da crise econômica, mas persiste o drama da previdência e a inflação sobe a galope, puxando a da União Europeia junto. Por fim, há uma crise moral na política francesa – para se ter uma ideia, o caso mais alarmante é o julgamento do ex-presidente Chirac, acusado de corrupção na prefeitura de Paris (vejam que chique, funcionários fantasmas com sotaque francês!).

O governo é quem pagará o preço por tudo isso – e pesquisas já apontam um crescimento da extrema-direita (aquela que sempre ressurge das cinzas quando há crise e se precisa agarrar à solidez de instituições mais tradicionais). A filha de Jean-Marie Le Pen (lembram dele?) já poderia beliscar o primeiro turno nas eleições de 2012. Nada definitivo, claro, mas fica o alerta. Um desenvolvimento desses poderia ter suas implicações desde o processo de democratização norte-africano às políticas agrícolas europeias. É bom prestar atenção nessa França cheia de problemas...

sábado, 5 de março de 2011

Líbia: cooperação e/ou Direitos Humanos?

A cobertura sobre os recentes eventos na Líbia são praticamente uníssonas. É ponto comum nas discussões internacionais que a violência no país é absolutamente inaceitável. Ghadafi, na imensa maioria das vezes, é descrito como ditador, sanguinário, assassino, entre outras tantas alcunhas. Nada que seja novidade, não? Afinal, trata-se da mesma pessoa que comanda o país há mais de 40 anos. Reprimir adversários, enfraquecer rivais e preparar o caminho da sucessão para o seu filho; estavam entre suas últimas prioridades. Até o início da insurreição nos países árabes, a Líbia seguia relativamente estável, prova disso foi o fim das sanções internacionais que ajudaram a impulsionar sua economia nos últimos anos.

Apesar da ampla cobertura pela mídia internacional, ninguém realmente pode afirmar com propriedade o que acontece no país. O acesso a informação in loco é limitado, quase inexistente. Em sua grande maioria, analistas e jornalistas defendem que Ghadafi está levando seu país à guerra civil através de ataques sistemáticos contra rebeldes e a população civil seja por militares ou mercenários. Neste cenário, haveria um grave precedente que exigiria uma ação energética da comunidade internacional. Por outro lado, Ghadafi, e mais recentemente seus aliados diplomáticos, afirmam que a mídia e as grandes potências ocidentais tentam tomar a situação como uma oportunidade para re-colonizar a Líbia para assim se apoderarem de seu petróleo. Ainda sob este ponto de vista, são forças externas que deram impulso as revoltas populares. Ghadafi chegou a mencionar o Al-Qaeda entre tais forças.

Voltemos nossa atenção para os latino-americanos. A reação dos representantes diplomáticos regionais foi em termos gerais low-profile. O Peru tomou a reação mais radical, rompendo as relações diplomáticas com a Líbia. Não que faça tanta diferença para os peruanos, uma vez que os dois mantinham poucos laços econômicos. Além disso, Chávez (presidente venezuelano), Ortega (presidente nicaragüense) e até Fidel (o líder cubano) também se pronunciaram em defesa do mandatário líbio. As outras nações latino-americanas tentaram manter distância, por vezes afirmando seu desagrado pelo sofrimento civil e reafirmando seu apreço pelos Direitos Humanos, sem tampouco tomar atitudes mais extremas.

Qual o limite para a cooperação econômica? Para que servem os Direitos Humanos? De alguma maneira se chocam em algum momento?

Existe um ponto de colisão. No campo empresarial, o conceito de Responsabilidade Social promove o entendimento que escolher aliados éticos e que respeitem direitos estabelecidos é uma das vertentes da construção de uma gestão pensando na sustentabilidade e no desenvolvimento econômico aliado ao social. Seria o mesmo na comunidade internacional ou não se aplica o conceito? O silencio e a moderação de muitos tem forte ligação o modo que a comunidade internacional resolveu lidar com a Líbia. Somente o Brasil tem negócios estimados em 120 bilhões neste país. A Líbia viu as sanções que limitam sua economia serem levantadas e investidores internacionais chegarem ao país. Todos já sabiam desse líder autoritário e de caráter extremamente controvertido, contudo muitos decidiram cooperar com o mesmo.

Quem tem razão? O chanceler venezuelano Nicolas Maduro que via uma Líbia no caminho do progresso e questiona os países (governos do ocidente) que bombardeiam Paquistão, Afeganistão e Iraque, incluindo inocentes, mas nunca são castigados e agora voltam sua atenção para a Líbia? Nas palavras de Maduro “são igualmente assassinos”. Ou todas as outras vozes que vêm um sério problema na liderança de Ghadafi ante suas reações à crise atual?

Evidentemente que toda notícia é alvo de certa interpretação de acordo com a leitura editorial do veículo e por vezes do autor, o que nos gera certo receio para afirmar sobre algo que não vimos com nossos próprios olhos. Podemos, no entanto, discutir as reações diplomáticas. A defesa de Maduro parece sair pela culatra, a partir do momento que assume tal regime como assassino. Como alguém, ainda mais em um posto diplomático, pode tentar defender um aliado que assume como assassino? A meu ver, antes tivesse ficado calado, tal qual os diplomatas brasileiros. Afinal, em nosso caso, não há defesa possível a partir do momento que estabelecemos grandes laços econômicos com a Líbia a partir de decisões de Estado. Assim nossa manobra máxima neste campo é garantir a segurança de nossos cidadãos na Líbia e condenar (ainda que timidamente) a violência. Melhor começarmos a escolher melhor nossos parceiros, no cenário atual simplesmente enfrentamos as conseqüências de cooperar com um líder que outrora fora visto como patrocinador de atividades terroristas; passou a ser aceito pela a comunidade internacional e tudo indica que terminará no ostracismo.

Fonte foto

sexta-feira, 4 de março de 2011

E a Costa do Marfim?

Enquanto os holofotes internacionais se voltam para o Egito, a Líbia e, enfim, o Oriente Médio em geral revoltado com a permanência de ditadores no poder mesmo diante da insatisfação popular, pouca atenção tem sido direcionada à Costa do Marfim – país africano que enfrenta situação trágica e que, em muitos aspectos, se assemelha ao contexto árabe atual de reivindicação pelos próprios direitos.

No final de novembro de 2010, foram realizadas eleições presidenciais no país, momento a partir do qual Alassane Ouattara foi eleito e reconhecido como legítimo chefe de Estado pela comunidade internacional. Contudo, o antigo presidente, Laurent Gbagbo, se recusou a deixar o poder. Comportamento tipicamente ditatorial e em conseqüência do qual ocorrem muitas mortes.

Até agora, estima-se que o número de pessoas mortas – decorrentes dos conflitos existentes entre os apoiadores do presidente eleito e os defensores do antigo presidente (hoje “presidente de fato”, apesar da ilegitimidade social) – some aproximadamente 500, sendo que mais de 200 mil pessoas já fugiram do país em busca de paz nas redondezas. As forças de paz da ONU afirmam não possuírem condições de proteger toda a população e a perspectiva de uma nova guerra civil é notável.

O Conselho de Segurança da ONU já se pronunciou, assim como os Estados Unidos e a comunidade internacional em geral. Entretanto, o que pode se esperar de uma situação assim? A embaixadora do Brasil em Abidjã, cidade mais populosa do país, chegou a afirmar ontem que “a situação é tão ruim, tão ruim, que não tem como ficar pior. Esperamos por uma solução nos próximos dias. [...]”. No mínimo complicado, não?

O que fazer diante de um contexto como este? Certamente a organização civil é imprescindível, mas exigir tal articulação de um povo que sofre de carências extremas e luta diariamente pela própria sobrevivência em condições adversas é algo que parece exigir um estudo de caso mais aprofundado – e não uma mera comparação com a situação dos países árabes bem-sucedidos em seus intentos reivindicatórios nas últimas semanas. Enquanto isso, sabe-se apenas que mulheres, crianças e cidadãos em geral morrem diante dos desejos de um ditador insatisfeito com o vislumbre da perda de poder...

quinta-feira, 3 de março de 2011

Conversando com a Teoria

Décadas em mutação, teorias em gestação - II

Continuemos contextualizando as décadas de 1960 e 1970. É hora de olharmos para a sociedade e a economia. Também devemos nos concentrar nas mudanças pelas quais atravessou a Guerra Fria no período, como pano de fundo para os acontecimentos marcantes do período.

Dois momentos bastante similares acompanharam a Guerra Fria entre 1955 e 1979: a coexistência pacífica e détente. O primeiro, entre 1955 e 1968, é marcado pela percepção por parte dos Estados Unidos e da URSS sobre a capacidade de destruírem o mundo com os seus armamentos atômicos. O segundo, entre 1969 e 1979, traz consigo a característica de ambas as superpotências procurarem superar as suas diferenças e colocarem um fim à Guerra Fria. Em outros termos, a flexibilização do conflito nos anos 1960 e 1970 deu espaço para outras manobras no sistema internacional, como a emersão do Terceiro Mundo, que vimos na semana passada.

Cedeu espaço também para as forças da sociedade agirem e alcançarem repercussão internacional. Os movimentos sindicais e operários se espalharam pela Europa e também pela América Latina. Caso marcante foi o “Maio de 1968” na França. Ocorreu também o nascimento do movimento hippie de contra-cultura, em sua onda de “Paz e Amor”, trazendo manifestações contrárias às guerras e favoráveis à paz e à natureza. Outra força importante foram as empresas multinacionais, conquistando territórios e um poder econômico por vezes superior ao dos países.
Por falar em economia, os dois choques do petróleo alarmaram a década de 1970, contrapuseram produtores e consumidores, pobres e ricos. Conduziram também à procura por fontes alternativas de energia. Um aspecto igualmente importante é o avanço no desenvolvimento científico e tecnológico, algo que também aumentou o fosso entre os países mais desenvolvidos e os menos e, consequentemente, suscitou a onda terceiromundista.

Tais aspectos fizeram repensar o mundo para além da estrita luta pelo poder e a condução das relações internacionais apenas por Estados, como unidades fechadas em si mesmas, sem que o aspecto interno influenciasse suas ações internacionalmente. Na verdade, outros atores também atuavam internacionalmente, de empresas a organizações. Seguimos revendo essas duas décadas.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Libertos e libertadores

A temática central das reportagens de veículos diversos de mídia internacional tem sido os fenômenos dos povos árabes clamando por sua liberdade. Regimes ditatoriais vieram abaixo e em outros o povo ainda luta para que isso aconteça (assunto até muito comentado aqui mesmo no blog, para mais clique aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Esses são interessantes casos de povos que visam serem os agentes de sua própria libertação. Entretanto, há ainda aqueles locais nos quais libertadores externos emergem para clamar a liberdade do povo.

Exemplo caro a essa argumentação seria a águia estadunidense que, com sua estratégia de contra-insurgência, eliminaria o foco do terrorismo e logo os afegãos seriam livres. A questão é que o projeto de contra-insurgência não tem ido muito bem, tanto para os olhos da população estadunidense tanto para analistas em geral. Dar a liberdade é muito arbitrário e somente um povo é capaz de saber o tipo de liberdade que busca. Imposições são incongruências históricas e suposições (ou imposições) de princípios.

Isso é o que vemos quando um libertador percebe que sua estratégia não está funcionando. A revista Rolling Stone (a mesma que publicou a entrevista com o general McChrystal que lhe custou sua demissão, clique aqui para ler sobre no blog) em uma interessante reportagem aponta para mais uma incongruência das tropas estadunidenses no Afeganistão. Segundo a revista, tem-se utilizado ferramentas de “operações psicológicas” para convencer senadores da necessidade de envio de mais tropas.

Essas operações são bem conhecidas por utilizarem recursos semelhantes aos da propaganda. O objetivo seria o mesmo, a persuasão, o método e o público-alvo em sua realização é que seriam diferentes. Basicamente, visa-se “a manutenção do elevado moral da população e o desequilíbrio emocional do inimigo” (para mais clique aqui) e é um tipo de estratégia proibida de ser utilizada contra conterrâneos.

Por isso observam-se sempre percepções diferentes dos militares presentes na região e da população estadunidense. É difícil para o maior exército do planeta reconhecer que é hora de voltar atrás e que a missão não foi bem-sucedida. A revista The Economist também publicou um artigo interessante apontando para a desestabilização da economia afegã. Se os soldados são muito queridos em diversas regiões por suas contribuições financeiras às populações locais – para o cumprimento de tarefas diversas –, são repudiados por estudiosos do desenvolvimento que vêem nessas atitudes formas de inibição da reconstrução de um mercado nacional efetivo. Da mesma forma, as atividades de contra-insurgência prosseguem eliminando alvos civis indesejados produzindo mais reações de insurgentes e até mesmo do governo local.

Apesar de se imaginar a existência de tais a práticas, sua divulgação mais uma vez exalta o comportamento de grandes forças frente ao fracasso. Em um contexto de muitos libertos por sua própria conta, a liberdade dos libertadores perde seu eixo estruturante. E, o que se observa, são tentativas desesperadas de atingir a vitória em uma batalha que não parece dar espaço para vencedores.

[Para dois interessantes textos sobre a temática, clique aqui e aqui]