segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Dos males, o menor


É o tema da vez: o norte da África anda em polvorosa com o que andou acontecendo na Tunísia, e mais recentemente no Egito. Com o ineditismo do modo como os protestos são organizados (é a informatização da revolução!), já há quem diga que podemos esperar um efeito dominó em diversos países africanos, com relatos de protestos estudantis no Sudão e pela renúncia do presidente do Iêmen. Será? A cautela é necessária em todo tipo de análise, e não sei se podemos dizer que está havendo algum tipo de revolução naqueles países.

A Tunísia parece um caso exitoso. O malvado Bem Ali foi removido do poder e as massas populares terão seus anseios respondidos. Bem, a coisa não é tão simples – boa parte da estrutura política e social do “antigo” regime permanece intacta (já se fala em governo de coalizão); ademais, foi um movimento de cunho popular, mas surgido de massas estudantis, letradas, não algo espontâneo. Não sei se podemos encarar como revolução em seu sentido próprio algo que foi gestado por uma elite intelectual insatisfeita e que não tirou do governo peças-chaves do antigo establishment.

Já no Egito, a coisa está mais complicada. O país é muito diferente da Tunísia em termos políticos e econômicos, com a semelhança de terem um presidente longevo e tirano. No país dos faraós a revolta popular se origina no caos e no colapso da economia, por isso é bem mais visceral que na Tunísia, mas provavelmente terá problemas em conseguir algo de concreto. Hosni Mubarak já cortou a internet e telefone (meios de mobilização para os protestos) e rapidamente articula sua defesa com os militares, enviando os tanques às ruas e colocando militares e pessoal do serviço de inteligência em postos importantes de seu governo (incluindo a vice-presidência). Há sinais de divisão nas fileiras do exército (com tropas se negando a usar a força contra a população), mas com as manobras de Mubarak o cenário é tenebroso no Egito, indo de possível continuidade de seu estilo com os militares (mesmo que saia do poder) a uma guerra civil.

A isso permanecem atentos os EUA, especialmente no caso do Egito, aliado histórico em um dos mais importantes atores na política externa da região. Mudanças nas políticas desses países podem ter conseqüências graves no jogo das relações regionais, e fazem com que surja, por exemplo, o temor da ascensão do radicalismo islâmico (possível nos dois casos, apesar de improvável, na Tunísia dada a moderação dos que se encontram no poder e no Egito pela força dos militares). Mas há necessidade de ação?

Não considero que essas manifestações tenham pouco significado, nem que deixem de ter seu valor contestatório. Há insatisfação com governos tirânicos, e isso é um indício dos mais saudáveis por aquelas bandas. Por menores que sejam, mudanças são sempre bem-vindas; contudo, precisam de um evento muito drástico para que ocorram em um espaço de tempo curto: via de regra, são bem demoradas. Por mais que possam estar inspirando outros movimentos semelhantes, provavelmente não vão causar grandes inflexões. No caso, parece que está havendo, no máximo, a opção pelo “menos pior”. E assim, por enquanto, a insatisfação popular ainda não conseguiria seus objetivos. Por enquanto...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Otimismo x Ação?

“Being an optimist does not mean simply looking at the world through rose-tinted glasses, and declaring everything to be for the best, despite an endless array of misfortunes. Being an optimist, as I see it, means to refuse to make do with the status quo, and instead to consciously look for ways to make the world a better place and help address the practical challenges faced by people here and now. I call this ‘optimism by action’, and I believe that such a philosophy of life can provide the catalyst for our much-needed transformation to sustainable development”.
(Mikhail Gorbachev)

Otimismo: característica notadamente importante àqueles que acreditam em mudanças e trabalham para torná-las possíveis. Ação: meio através do qual tais mudanças se manifestam. Seriam estas duas palavras contraditórias? Em tese, não. Na prática, freqüentemente sim. A infindável discussão em busca de consenso acerca de um acordo ambiental para suceder o Protocolo de Kyoto que o diga...

O desenrolar (mal-sucedido) destas discussões desde 2007 já foi abordado aqui no blog (vejam os seguintes posts, por exemplo: 1, 2 e 3) e sabe-se que o desenvolvimento deste acordo tem predominado apenas no plano das idéias há meses, sendo que poucos foram os avanços dignos de destaque na mídia. Contudo, ao adotar-se o otimismo, deve-se acreditar que tais avanços são possíveis, desde que a mobilização político-estratégica internacional aos poucos volte sua atenção a esta demanda.

Deve-se destacar que, ao longo do século XX, vivenciou-se no cenário internacional uma considerável expansão da consciência ambiental, sendo que, segundo Castells, teórico de importância destacada para a análise das Relações Internacionais, a presença constante de temas ambientais na mídia dotou-lhes de uma legitimidade bem maior que a atribuída a outras causas. Entretanto, não basta que exista otimismo e legitimidade apenas no plano teórico enquanto na prática os obstáculos às ações efetivas ainda se mostram tão amplos.

Hoje foi anunciado pelas Nações Unidas que haverá uma “sessão extra” de negociações com a presença de representantes de quase 200 países na capital asiática de Bangcoc durante o mês de abril, precedendo a sessão já anteriormente prevista de conversações durante o mês de junho na Alemanha e no final do ano na África do Sul. Este será mais um momento em que as partes poderão avançar nas discussões para a efetivação deste acordo até o final de 2011. Seria esta uma perspectiva exageradamente otimista? Talvez sim... porém urge a busca por ações que possibilitem a assinatura deste acordo internacional com metas plausíveis para o desenvolvimento sustentável durante a próxima década.

Diante do caos climático vivenciado em tantas partes do mundo de maneiras tão distintas – provocando secas, enchentes e catástrofes de amplitude notável – espera-se que seja possível, a exemplo da citação inicial deste post, construir a perspectiva de “otimismo pela ação”. Apenas desta forma estes conceitos essenciais podem deixar de parecer antagônicos e virem a se complementar, almejando-se que os Estados busquem esta construção no sentido de promover avanços na discussão ambiental (e em tantas outras áreas de atuação).

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Conversando com a Teoria

[Hoje, contamos com uma participação especial e bastante oportuna na CCaT. É também algo inédito, temos um post do leitor nesta coluna. Danillo Alarcon, graduado em Relações Internacionais pela Unesp-Franca e mestrando também em Relações Internacionais pela UnB, é quem nos escreve. Teremos uma sequência de dois posts sobre a temática abordada, que é a democracia muçulmana, tão em evidência após os acontecimentos na Tunísia e no Egito. Ressalta-se que parte do conteúdo tratado consta na própria Tese de Conclusão de Curso (TCC) do autor, apresentada à Unesp-Franca em 2009, e que suas pesquisas contaram com o financiamento da Fapesp.. Eis a referência, para quem se interessar: “A Democracia Muçulmana e o Afeganistão – A atuação da International Security Assistance Force e seus reveses”, sob orientação da Prof. Drª. Regina Laisner.]


Breve reflexão sobre a 'democracia muçulmana' - Parte 1

Os acontecimentos políticos recentes na Tunísia e no Egito são claras demonstrações de que a aspiração pela liberdade, pela auto-determinação dos povos e pela ‘democracia’ – na sua acepção básica de advento de um governo representativo – não são ‘valores’ ou ‘demandas’ Ocidentais. O fato é que se caminha em busca de novos tempos políticos nos países muçulmanos, que pululam em variações políticas, que vão dos mais extremistas (como os islamitas, tendo como exemplo a Irmandade Muçulmana no Egito) aos mais liberais (inclusive alguns que defendem a separação do Estado da religião). As ditaduras que se instalaram nestes países, ou logo após o processo de independência, ou por conta de golpes de Estado, promoveram não sem auxílio externo, a homogeneização forçada do povo, o que não coibiu, como se sabe, o desenvolvimento de forças políticas contrárias.

Por muito tempo procurou-se negar que o Islã seria incompatível com a democracia. Isto se deu por forças em vários lados, e por conta da reificação do ‘relativismo cultural’ muitos se eximiram de analisar a questão. Todavia, frente aos acontecimentos recentes em Túnis e no Cairo, é importante fazer-se uma reflexão acerca do que é (ou pode vir a ser) uma ‘democracia muçulmana’, análise que será feita em duas partes.

O ex-presidente iraniano Mohamed Katami conclama que há três posições para se avaliar a relação Islã – Democracia. A primeira advoga que não há compatibilidade entre os dois; a segunda acredita no vínculo, mas diz que é necessária a revisão dos fundamentos da religião. A terceira posição defende que não só são compatíveis, bem como se devem buscar na religião os fundamentos da democracia. Para Katami a segunda posição é a mais coerente, tendo em vista que a democracia, na sua perspectiva é um método de governo no qual o ‘povo’ é a fonte do poder, além de ser o método menos custoso de manejar as sociedades humanas.

Para Katami, de um ponto de vista do Islã moderno, se a democracia for tomada então como uma ferramenta para governar a sociedade e se diferentes sociedades lhe dão valores especiais de acordo com sua própria cultura, então há sim compatibilidade entre democracia e islamismo. Além do mais, apesar de os valores gerais da democracia – na perspectiva das regras do jogo – serem constantes, os muçulmanos podem adicionar a ela valores que a tornariam mais ética.

Vali Nasr, um irano-americano, é um dos que traduz o debate de Islã – Democracia na expressão “Democracia Muçulmana”. Nasr enfatiza que a democracia muçulmana não é um valor teológico e ideológico abstrato, acomodada entre o Islamismo e a democracia, mas é uma síntese prática que surge no mundo muçulmano em resposta às oportunidades e demandas criadas por eleições.
Para Nasr, a idéia de “Democracia Muçulmana” tem a ver com a criação de um espaço para ação de forças políticas dentro de países islâmicos, para que em um ambiente de competição, os islamitas tenham que moderar seus pontos de vista para competir e os secularistas tenham que se ‘islamizar’ um pouco, o que determinaria um middle ground.

O foco, nos países de maioria muçulmana, deveria ser então para fomentar e fortalecer a democracia, criar uma ‘cultura de eleições’ e enfatizar mudanças reais nos governos. Neste ponto, é de extrema importância ressaltar que as democracias não estão isentas de produzir governantes conservadores, religiosos, e obtusos, e como Nasr defende, não se deve esperar que as eleições no mundo muçulmano levem ao poder governantes pró-Ocidente, tendo em vista que há demandas específicas no mundo do Islã, e estas têm que estar representadas nos parlamentos e instituições políticas dos países com população majoritariamente muçulmana.

Assim, o que se procurou mostrar nesta primeira parte é que há debates dentro e fora do mundo muçulmano que eliminam os estigmas vinculados ao Islã, de que este seria retrógrado, e incapacitado a fomentar debates de divergência e frutíferos à democracia. Como toda religião/cultura, as incompletudes do Islã precisam ser compreendidas, e o debate político aberto dentro destes países seria o caminho para tal. Mas para tanto, deveria haver este espaço, e a forma de consegui-lo é através de maior democracia. Os protestos na Tunísia e no Egito tem lutado justamente por isso.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Tempestade constante, calmaria distante

Diz-se, para acalmar os ânimos daqueles envolvidos em conflitos duradouros, que o fim de longos períodos de tempestade acompanha o inicio de uma calmaria. Espera-se sempre que sim. Todavia, na Costa do Marfim, é difícil vislumbrar um fim para os conflitos. Se a esse cenário, o provérbio pode não ser usado em sua forma original, uma releitura sua poderia adaptar-se bem à tensa situação.

Nas décadas de 1970 e 1980 o país era tido como uma jóia rara em meio ao solo africano de pedras rígidas e sangrentas. Sob os auspícios de Félix Houphouët-Boigny, líder do país desde a independência, a Costa do Marfim crescia cada vez mais rica e com estabilidade invejável (para mais visitem esse interessante artigo da revista The Economist).

Com o falecimento de Boigny, em 1993, as instabilidades ampliaram-se e as rusgas entre grupos étnicos cresceram, até o estouro de uma guerra civil em 2002. Dada a situação do país, o então presidente, Laurent Gbogbo, não pode conduzir as eleições no ano marcado de 2005. E os anos seguintes foram marcados por constantes postergações no pleito. Em um período de cinco anos, remarcou-se seis vezes.

O desfecho dessa tempestade não foi uma calmaria e sim mais raios e trovoadas. Observa-se a coexistência de dois presidentes. Aquele que luta para manter-se no poder, Gbagbo, e aquele que luta por seu direito de assumí-lo, Alassane Ouattara. Ao observar-se o histórico construído nos últimos anos, é possível perceber que o longo processo de instabilidades no país alimentara uma fome insaciável por poder de Gbagbo.

Os eventos recentes motivaram as Nações Unidas a ampliar o número de peacekeepers no país e repercutiram em fortes pressões externas, especialmente da União Europeia e de países da União Africana. Assim, foi construído um novo cenário que oscila entre o genocídio e a disputa política (como afirma um interessante artigo da Foreign Policy). Enquanto dois protagonistas lutam pelo poder, centenas de coadjuvantes lutam pela sobrevivência, quando forças policiais de Gbagbo eliminam opositores e provocam mais destruição.

O cenário está dado. As opções para findar a crise são escassas e oscilam algum lugar entre a intervenção militar e sanções comerciais. É difícil optar por uma violação da soberania da Costa do Marfim e é provável que o país seja condenado ao ostracismo até que Gbagbo desista de sua empreitada. Qualquer que seja a opção, militar, diplomática ou comercial, os castigados ainda serão aqueles que há uma década experienciam guerras: a população. E em casos como esse, quando a tempestade é quase a normalidade, a calmaria torna-se uma memória distante, quase que esquecida.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Qual o preço da esperança?


Esta é uma pergunta difícil, ainda mais nestas eras divididas entre a incerteza – não apenas econômica, mas política – e a perspectiva de mudança. O incerto pode tanto ser o ponto de partida da mudança, como conseqüência dela. Quatro eventos são de interesse deste post: os atentados na Rússia, o novo premiê libanês e as manifestações na Tunísia e no Egito. Como mudar e o que esperar?

Ontem, a Rússia esquentou. Um atentado terrorista no aeroporto de Domodevo, em Moscou, matou 35 pessoas e deixou 180 feridas. Nenhum grupo assumiu a autoria do atentado, sabe-se apenas que foi um homem-bomba e se suspeita que provenha do Cáucaso. Tal ato pode ser interpretado como uma pressão por parte de militantes separatistas para a independência de Estados do norte do Cáucaso e frear as ambições de Putin, que pretende voltar à presidência, com seu discurso de contenção dos separatismos pela violência.

No Líbano, o negócio está bem confuso. Uma hora, o país é cristão, noutra, é islâmico. Quando é islâmico, vem o impasse entre xiitas e sunitas. Nesta terça, os seguidores do ministro interino Saad al Hariri (sunita) protestaram contra a nomeação do novo premiê, Najib Mikati (xiita) (vejam o seu perfil), que é apoiado pelo Hezbollah. O protesto foi intitulado como o “dia de fúria”, em resposta à queda de Hariri do cargo, há duas semanas, quando o grupo político e paramilitar (para muitos, também terrorista) deixou de apoiar o governo em vigor.

Tunísia e agora o Egito retratam uma realidade interessante: a sociedade está se levantando do jugo do tempo e decidindo o próprio destino. Os protestos na Tunísia culminaram na renúncia do presidente Zine Al-Abidine Ben Ali e servem de exemplo para os egípcios. Hosni Mubarak está no poder desde 1981, seis a mais que Ben Ali. A síndrome faraônica, de governos vitalícios, pertence à história. À custa de muita revolta, o povo luta pela nação que construiu.

Diante do quadro que se esboça, percebe-se que a mudança é conduzida de modos diferentes, seja por meio da prática do terrorismo ou pela própria sociedade, travando lutas sangrentas. É natural que, no espírito evolucionário, a humanidade sempre busque a mudança – e para melhor –, todavia, quando dela se distancia, recorre a meios mais complexos, variando no preço a ser pago pelo que se esperar.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Será que agora vai?


2011 é ano de festa. O F-X, projeto de compra de caças avançados pela Força Aérea Brasileira, completa seus 15 anos, e virá com um novo visual. Mas não seria esse o projeto, sob sua nova roupagem de F-X2, que deveria ter tido seu resultado final revelado em outubro de 2009? Sim, esse mesmo.

Não vamos criticar o governo, afinal um atraso de dois anos é compreensível – um negócio de 12 bilhões de reais não se fecha de um dia pro outro! O que embolou a escolha foi a decisão da presidente Dilma Roussef de reavaliar as ofertas das empresas competidoras (F/A-18 da Boeing, Girpen NG da Saab e Rafale da Dassault). Isso pois o relatório técnico da FAB já estava pronto desde o começo do ano passado, e avaliou todas as aeronaves como aptas às necessidades brasileiras. Com isso, restou o drama da escolha: a opção francesa, mais cara e de preferência do ex-presidente Lula, era uma escolha política e que batia com um ambicioso projeto de cooperação em defesa com a França que passa pelo submarino nuclear; a opção norte-americana é a mais confiável em termos de desempenho e batismo de fogo, mas sempre pairou sobre ela a desconfiança da retenção de tecnologia norte-americana; e a opção sueca seria a mais interessante para o desenvolvimento de tecnologia, inclusive se adequando aos objetivos da Estratégia Nacional de Defesa, mas seria uma aposta potencialmente arriscada. Nada foi decidido por Lula e o abacaxi ficou com Dilma. Pouco adiantaram as conversas de seu antecessor com Sarkozy: a presidente optou por reavaliar todas as ofertas e aguardar um parecer em conjunto com o Conselho de Defesa nacional.

Basicamente, o programa volta à estaca zero. Todas as empresas parecem ter voltado ao páreo, e inclusive há quem diga que as já eliminadas em uma primeira etapa do projeto poderiam voltar a apresentar propostas (como o consórcio europeu do Eurofighter e a Rosoboronexport, dos aviões russos Sukhoi), ou que o programa de compra de aviões de 4ª geração seja definitivamente cancelado e se comece o puro e simples desenvolvimento de um caça de 5ª geração desenvolvido aqui.

Várias questões podem ser levantadas. Primeiro, se a compra dos franceses era quase certa, por quê recomeçar toda a análise? Lula passou por cima de critérios técnicos para prevalecer uma decisão política. Estaria Dilma sendo cautelosa quanto aos termos de transferência de tecnologia, ou simplesmente estaria dando mostras de que lida de maneira diversa que seu antecessor tais assuntos? E se o projeto for mesmo cancelado como compra e se tornar um processo de desenvolvimento de caça nacional, haverá a transferência de know-how necessária, e conseguiremos algo em um prazo útil, ou isso se delongará por mais 15 anos? A única certeza é que esse investimento é um dos principais para a reorganização do setor de Defesa brasileiro, e enquanto essas questões não têm respostas em curto prazo, resta ao país continuar a modernizar a maior esquadrilha de F-5s do mundo...

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Enquanto isso, na Tunísia...

Certamente não é todo dia que a Tunísia, país localizado ao norte da África, estampa os noticiários internacionais. Contudo, esta tem sido a situação há algumas semanas, quando os acontecimentos políticos tunisianos têm gerado discussão e promovido instabilidade no âmbito de um país conhecido, usualmente, por sua riqueza cultural no seio da sociedade islâmica.

O cartaz de “Game over” na imagem acima se refere ao (ex-)presidente Zine El Abidine Ben Ali que deixou o poder depois de mais de vinte anos em que ocupava este cargo – atingido a partir de um golpe de Estado no ano de 1987.

O clima de contestação social domina o país desde o final de 2010 e tem promovido fortes confrontos entre os populares e a segurança tunisiana, especialmente desde o suicídio de um jovem desempregado que provocou comoção nacional. Somam-se a isso as denúncias vazadas pelo Wikileaks a respeito da corrupção por parte de Ben Ali e sua família; bem como os efeitos ainda persistentes da crise financeira internacional no país que abalam sua antiga estabilidade.

Assim, com tamanha pressão popular e a instabilidade dominante, o ditador deixou a Tunísia - declarando estado de emergência - e rumou em busca de asilo político em outros países, mas não sem despertar ainda mais polêmicas (veja aqui e aqui). O primeiro-ministro assumiu o poder de forma interina, sendo que já existem candidatos para as próximas eleições, que devem acontecer em alguns meses.

Tamanha instabilidade percebida em meio à população tunisiana reflete o anseio por mudanças e melhoras nas condições de vida da sociedade, especialmente diante de denúncias tão graves de corrupção por parte de um governo ditatorial. Devem ser lamentadas as mortes advindas dos confrontos internos nas últimas semanas, mas espera-se que o país possa atravessar suas dificuldades e rumar para novos horizontes políticos, econômicos e sociais a partir de esforços conjuntos que reflitam efetivamente uma necessária renovação no que tange ao ativismo árabe diante da repressão de liberdades individuais...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Conversando com a Teoria


Sobre lucros e soluções

[Um detalhe, pessoal: este artigo foi escrito em 2008, quando a atual crise financeira explodiu. Hoje, poderíamos ainda inserir a quebradeira na Grécia, na Irlanda e, logo mais, nos países ibéricos. A lógica do que anda ocorrendo talvez não seja tão diferente de dois anos passados, afinal, seguimos nos desdobramentos dela.]

Primeiramente, façamos algumas considerações: não nos caberá apontar quais estão sendo os resultados, as atuais discussões e outras questões que todos podem acompanhar no noticiário diariamente. Nosso objetivo será avaliar as medidas que privilegiam a manutenção do sistema capitalista existente, alvo de críticas pelo viés marxista.

Fazendo alusão à entrevista recente do economista Renato Gonçalves para a revista Ciência Hoje, a locomotiva do atual sistema capitalista descarrilou e, por conseguinte, seus vagões foram saindo do trilho. Sim, estamos falando dos Estados Unidos e dos demais países. Todos entraram na crise norte-americana. As pessoas foram seduzidas a comprar, os bancos não tinham dinheiro para emprestar. E lucram aqueles que não têm dinheiro. É engraçado, não?

Entre os extremos da sedução e do consumo, a especulação. E a ganância, por que não? Mas, sinceramente, as principais instituições financeiras souberam dissimular muito bem. O comportamento fraudulento e até mesmo criminoso delas alienou os consumidores a ter o que nunca tiveram pagando por aquilo que perderam. É, realmente, o sistema opera de tal forma que somente produz exclusão e privilegia àqueles que detêm o capital.

Ora, se não fosse assim, será que os Estados Unidos teriam uma dívida pública de 10,5 trilhões de dólares? Para efeito de comparação, o PIB (Produto Interno Bruto) mundial é da ordem de 55 trilhões de dólares, ou seja, a dívida norte-americana corresponde a um quinto deste percentual.
E as soluções adotadas até então? Adivinhem? Vamos salvar os criminosos, opa, as empresas que criaram a crise. Empresas cada vez mais soltas numa economia completamente desregulada. E quem as salva? Os Estados. E o que são os Estados? O instrumento de dominação das classes dominantes. Bem-vindos ao marxismo.

Vocês sabem qual a primeira reação dos especuladores norte-americanos sobre o anúncio da liberação de 700 bilhões de dólares do governo para a economia? The happy days are back. O que é que podemos dizer? Só nos resta concordar e dizer que realmente estão de volta para eles.

Até mesmo nas situações de maior fragilidade econômica, a doutrina salvacionista é o lucro. Ou melhor, a concentração dele. Quando a economia cresce, ele é acumulado; quando declina, ele é expropriado: independentemente do que ocorrer, sempre se socializará os prejuízos, não os ganhos. Querem um exemplo, na Inglaterra, primeiro se salvou os carros, para estes salvarem as pessoas. Não há espaço para os pequenos, para os que fazem a economia se mover, apenas para aqueles que a controlam.

Se os liberais defendem o estímulo ao consumo e a recuperação do atual sistema econômico e financeiro, os marxistas são mais apocalípticos. O sistema chegou ao seu colapso? Inevitável mundo novo? Não. Para recordarmos, ainda não dissemos adeus para Marx ou Lênin. Não enquanto não nos ajudarem na procura de respostas. E de críticas.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Entre palavras de amor e ódio, há dependência

Há muito se estima o papel que a China assumiria no sistema internacional. Uma população de aproximadamente 1,3 bilhões de habitantes e um crescimento do PIB que continua a surpreender qualquer um (ano passado atingiu 9,5%). Um dragão de extensão incomensuráveis e dimensões que parecem infinitesimais tem despertado um sentimento que os Estados Unidos de Obama não esperavam reviver desde uma adolescência muito remota, mistos de amor e ódio.

Como era de se esperar, a ascensão da China tem provocado certo desconforto no governo estadunidense, que alimenta uma pitada de ódio. Isso poderia ser atribuído às posturas divergentes referentes a direitos humanos e a conflitos (como a questão das Coreias) ou mesmo a uma apreensão quanto às capacidades militares não muito divulgadas – exaltada no teste nada escondido de caças furtivos durante a visita da comitiva estadunidense no dia 11.

Apesar de ser possível reconhecer uma conjunção de fatores que justifica essa postura estadunidense, o fato da China estar clamando sua posição no sistema internacional e não mais estar satisfeita como ser aclamada como nova potência, incomoda, e muito. Em artigo essa semana, a revista The Economist defendeu que o governo chinês tem agido de maneira irresponsável tendo sempre em vista o declínio do poderio estadunidense e que era preciso lembrar ainda que os Estados Unidos detenham um poder militar ainda não-equiparável.

O que a revista não considerou é que o poder econômico chinês seria capaz de solapar qualquer superioridade americana. Assim, o ódio rapidamente transforma-se em amor. A dependência estadunidense da China é tamanha que a pressão interna por um fim nas baixas taxas de câmbio é enorme. Estima-se que os investimentos dos EUA na China em 2010 foram de aproximadamente 60,5 bilhões, enquanto que os investimentos chineses nos Estados foram de apenas 4,4 bilhões. Uma diferença muito significativa para ser desconsiderada em qualquer cálculo estratégico.

Um cálculo que Obama não tem ignorado. Dois encontros bilaterais visando fortalecer a confiança entre ambos foram realizados em menos de duas semanas. O primeiro ocorreu no dia 11 e o outro foi realizado hoje entre Obama e Hu Jintao. Os temas não são novos: flexibilização do Yuan, uma postura mais rígida sobre direitos humanos e incentivos a investimentos estadunidenses na China.

Como era de se esperar, não se destrava um impasse em apenas uma tarde. O diálogo já é um passo representativo na relação entre esses dois países e isso deve continuar sendo uma característica marcante para evitar maiores atritos. Uma relação que parece oscilar entre o amor e o ódio, na realidade oscila entre dependência e ódio, despertando sentimentos que os estadunidenses há muito pensavam estar esquecidos.

[Para mais sobre o assunto, clique aqui]

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Post do Leitor - Christiane Matos

[Olá, pessoal! Recebemos um interessantíssimo Post do Leitor esta semana. Desta vez, quem nos escreve é a jornalista e publicitária Christiane Matos, formada pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). O assunto em tela é o Facebook e as suas implicações para as comunicações e relações sociais Em especial, a leitora comenta boa parte do tão premiado filme "A rede social". Não deixem de conferir!]

A face da nova era

Talvez já não surpreenda o fato de que se o facebook fosse um país ele seria o terceiro mais populoso do planeta, perdendo apenas para a China e para a Índia e desbancando os Estados Unidos, onde metade da população possui uma conta no site. Estima-se que uma em cada dez pessoas no mundo inteiro esteja cadastrada na rede social, disponível em 75 idiomas diferentes, mas ‘indisponível’ entre os chineses, pois, assim como o youtube e o twitter, o facebook consta entre os sites bloqueados pelo Governo Chinês.

A genialidade do facebook não é reflexo apenas da grande habilidade do seu fundador e diretor executivo, Mark Zuckerberg, em programar códigos de computador, mas também do seu senso de coletividade e da sua postura natural como líder. Arrogância e prepotência são características inerentes apenas ao Mark construído no cinema, no filme A Rede Social, lançado no final do ano passado. Com todo respeito aos produtores da obra, que recebeu o Globo de Ouro de melhor filme de drama no último domingo e está entre os favoritos para indicação ao Oscar, o roteiro não parece levar em consideração a verdadeira personalidade ou as reais motivações do seu principal personagem.

“O filme é legal, a história é interessante, foi bom relembrar coisas que me aconteceram nos últimos anos, mas estou certo de que a minha vida não é tão dramática assim”. De forma bem humorada, essa foi a resposta de Zuckerberg quando questionado sobre o filme durante entrevista no Oprah Winfrey Show.

Mark mora com a sua namorada, Priscilla Chan, numa casa modesta que fica a poucas quadras da sede do facebook em Palo Alto, Califónia. Ele faz questão de ir caminhando até o trabalho todas as manhãs, não dispõe de um escritório próprio em sua empresa, não usa anotações ou quadros para falar durante as reuniões e trabalha, em média, 16 horas por dia. O seu compromisso e a sua dedicação fazem de Mark um exemplo marcante de liderança.


Em entrevista para a revista Time, no artigo que Mark é apresentado como a personalidade do ano de 2010, o criador do facebook diz normalmente não gostar de falar muito sobre si mesmo e revela que o sucesso do seu projeto está no fato de o site ter como prioridade o estabelecimento de uma rede de conexão entre pessoas e não entre computadores. Aliás, o que pouca gente sabe é que antes de abandonar os estudos na Universidade de Harvard (como também fizeram Bill Gates e Steve Jobs), Mark cursava não apenas ciências da computação, mas também psicologia.

No artigo, Mark é descrito por seus colegas de trabalho como alguém bem quisto e que gosta de estar cercado por pessoas, e não como o geek obcecado pela aquisição de status apresentado no cinema. É inegável o fato de que manter uma conversa com ele não parece ser mesmo algo muito simples de se fazer, pois Mark fala rápido e pode facilmente perder o foco no assunto e se dedicar a outra coisa que julgue ser mais interessante. Sim, isso poderia torná-lo alguém frio e soberbo, mas, na verdade, indica apenas o quanto ele preza pela boa utilização do seu tempo, nada além disso.

“Quando as ordens são razoáveis, justas, sensatas, claras e consequentes, existe uma satisfação recíproca entre o líder e o grupo”. As palavras de Sun Tzu, em A Arte da Guerra, encontram sentido nas paredes da sede da empresa fundada por Zuckerberg, onde é comum a presença de frases de motivação como: Move fast, Take the risk, It’s ok to try big things ou Fail harder. Reafirmando a sua postura de líder, Mark entende a importância do uso de uma comunicação eficaz e do bom relacionamento entre os seus colaboradores para que todos possam alcançar os melhores resultados.

Muito se pode esperar de alguém que, aos 19 anos de idade, foi capaz de criar algo cuja missão consiste em “dar às pessoas o poder de compartilhar interesses comuns e de tornar o mundo mais amplo e conectado”. E por conectar mais de meio bilhão de pessoas ao redor do planeta, Mark Elliot Zuckerberg conquistou não apenas o título de personalidade do ano, mas também o reconhecimento pelo papel que exerce numa sociedade que ele tem ajudado a construir.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Uma vez mais...


Uma vez mais, os desastres naturais ocupam as manchetes do início de ano. Claro que a desgraça doméstica ocupa uma porcentagem muito maior na nossa mídia, e não poderia deixar de ser diferente, com mais de 600 mortes e milhares de desabrigados. Contudo, parece que a natureza resolveu causar no mundo todo, das tempestades de neve em Nova Iorque às enchentes que cobrem uma área igual à da Alemanha e França somadas na Austrália. Isso abre uma série de questionamentos.

A quem culpar? É justo falar apenas da natureza? O elemento da imprevisibilidade e a força das intempéries são, claro, o elemento principal dessas catástrofes. Por ouro lado, também é muito fácil culpar as pessoas e os governos. No fim das contas, a responsabilidade pode ir de elementos que vão do aquecimento global à ocupação irregular de terrenos. É uma questão tão ampla que acaba sendo impossível determinar exatamente um motivo principal, e a prevenção se torna impossível sem que seja necessário aplicar um plano muito ambicioso e complexo para sanar esse emaranhado de possíveis causas. A única coisa perceptível (e até mesmo um lugar-comum nesse tipo de discussão), no fim das contas, é que pra variar são os mais pobres que pagam o pato.

É fácil comparar tragédias desse tipo ocorridas em países com governabilidade distinta. Basta vislumbrar a reação do Chile e do Haiti aos terremotos que os castigaram ano passado: o Chile já está recuperado, enquanto o Haiti sofre com revoltas, eleições problemáticas, epidemia de cólera e a volta da praga Baby Doc, que roubava dinheiro de ajuda humanitária. Um artigo interessante mostra que existe uma relação perceptível entre corrupção e fragilidade democrática e o número de mortes em desastres naturais.

Outro ponto é o da percepção. Vejam as inundações na América do Sul. A Colômbia enfrenta uma catástrofe de dimensões semelhantes, ou até mesmo piores que as do Brasil – as chuvas torrenciais dos últimos meses, até o momento, causaram menos mortes, mas já arruinaram produção agrícola e deixaram mais de 2 milhões de pessoas desabrigadas. Situação semelhante ocorre na Venezuela. Se esse tipo de notícia passa como nota de rodapé por aqui, quanto mais nossas enchentes devem ser exibidas em alguns segundos do noticiário internacional nos EUA ou Europa, como se fosse algum tipo de incômodo passageiro num mundo distante – enquanto as inundações na Austrália tomam grande parte de seus noticiários.

E é essa justamente a questão: todo ano esse tipo de notícia se repete, pelo mundo inteiro. E as pessoas se acostumam. É sabido que muitos morrerão e pouco se faz. Nos países mais pobres (e propensos à corrupção/democracia frágil), esse filme será repetido indefinidamente enquanto não houver a solução das mais variadas vicissitudes sociais, que vão de habitação a corrupção política – e isso não tem prazo para ocorrer... Enquanto isso, nos países mais abastados, seus problemas são suficientes, cada um na sua, e a falta dessa percepção global dos problemas pode levar a agravar o quadro atual. Debater e (quiçá) reverter as mudanças climáticas? A existência de refugiados climáticos? Fome pela destruição de áreas agrícolas? Uma hora esse tipo de situação sairá do controle. E quando uma atitude for tomada, poderá ser tarde demais.

sábado, 15 de janeiro de 2011

ISO 26.000


A gestão da Responsabilidade Social para a sustentabilidade nos negócios

A revista “The Economist”, uma das vozes mais influentes junto ao mundo corporativo, tomou uma posição interessante em relação à Responsabilidade Social Empresarial (RSE). Em 2005, divulgava artigos reconhecendo a relevância do debate, mas mostrava-se cética a sua plena validação. Definia a RSE como “uma análise equivocada de como o capitalismo serve a sociedade” e que “não poderia substituir políticas inteligentes nessas áreas”. Isso gerou frustração entre os especialistas e ativistas da RSE.

Eis que em 2008, a mesma “The Economist” reservou um edição ao mesmo tema. Dessa vez, a visão foi bem diferente: “uma pesquisa da Economist Intelligence Unit demonstrou que a responsabilidade corporativa tem ganhado força nas prioridades dos executivos” e também que: “bem feita, não está separada da atividade principal, como uma área reservada à virtude, mas é um bom negócio”. Há uma tendência de evolução da percepção da responsabilidade social empresarial (ou responsabilidade corporativa) por parte das empresas. Justamente o que foi capturado pela renomada revista.

O conceito de Responsabilidade Social não é novo. De fato, remonta a exemplos ainda do século 19 e início do século XX. Seja via a percepção que uma melhor qualidade de vida dos trabalhadores gera maior produtividade ou através da regulação estatal mais estrita, o conceito já apresentava suas bases. Desde então, passamos pela filantropia corporativa, investimento social, investimento social estratégico, até, finalmente, chegarmos à gestão da Responsabilidade Social. Passamos de iniciativas que não tinha relação com os negócios (a filantropia ou caridade) até uma de ampla grande vinculação com os negócios (a RSE integrada a gestão corporativa).

A ISO (International Organization for Standardization, em inglês) é uma federação mundial de organismos nacionais de normatização, a qual desenvolve normas internacionais por intermédio de comitês técnicos. Sua missão é desenvolver normas que sejam relevantes para os mercados a nível global e que ajudem a criar um mundo sustentável. Em imensa maioria, são normas técnicas, mas também existem as normas vinculadas à gestão e agora a responsabilidade social. A ISO 26.000 foi resultado de um virtuoso processo, que abrangeu governos, sindicatos, organizações internacionais, consumidores, indústrias e observadores; culminando em um guia para empresas que desejem aplicar a Responsabilidade Social de uma maneira integrada a sua gestão corporativa.

É uma falácia a velha história de que a RSE só se aplica quando tudo vai bem. A crise de 2008 demonstrou isso, através da redução somente dos investimentos em projetos filantrópicos e não em outros campos da Responsabilidade Social. Há a percepção que cuidar do financeiro, ao mesmo tempo em que do social, ambiental, desenvolvimento comunitário, relacionamento com fornecedores e direitos humanos; tende a gerar sustentabilidade no longo prazo. A norma, tal qual a RSE em si, não se aplica somente a empresas e sim a todas as áreas de atuação humana. É uma forma de desenvolvimento intimamente interligada à sustentabilidade. Reconhece-se, neste sentido, que não obstante ao horizonte é comum, cada país tem uma posição de largada diferente, por isso devem ser avaliados de acordo com seu contexto nacional de partida. Cabe ainda ressaltar também que somente cinco países foram contra a norma: Índia, Cuba, Estados Unidos, Turquia e Luxemburgo.

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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Conversando com a Teoria

Adeus Marx? Adeus Lenin?

Na época da eclosão da atual crise financeira, o historiador britânico Eric Hobsbawn concedeu uma entrevista ao jornalista Marcello Musto, na qual se abordou a atualidade do pensamento de Marx e o interesse renovado por este autor. Pela entrevista, percebe-se que o marxismo – tão preconizado na filosofia, sociologia e economia – também pode contribuir para o entendimento das relações internacionais.

Já afirmava categoricamente Marx, em pleno século XIX, que a história de todas as sociedades é a história da luta de classes. Em todos os tempos, sempre houve uma classe opressora e outra oprimida, freqüentemente explorada. No plano internacional, tal situação se repetia. Diferentemente dos pensadores liberais que acreditavam que o livre comércio era benéfico a todas as nações, Marx defendia que, na verdade, as relações econômicas reproduziam a exploração e acentuava as desigualdades. Ainda assim, não é propriamente o filósofo e economista alemão que produziu uma teoria marxista para as relações internacionais, mas suas idéias contribuíram decisivamente para uma leitura crítica das mesmas.

Ora, justamente as premissas de Marx acima mencionadas inspiraram a primeira teoria marxista propriamente dita para as relações internacionais, qual seja, a teoria do imperialismo, elaborada por Lênin. Aprimorando o pensamento anterior, este autor substituiu o termo “classes” por “Estados”, os quais reproduziam também relações de domínio e exclusão em suas interações. Internamente, há a exploração da classe dominante, externamente, pode haver a associação entre classes dominantes de diferentes países ricos com a finalidade de explorar os países pobres, bem como pode haver desacordos quanto à exploração.

Para Lênin, o final do século XIX era marcado por um estágio superior do capitalismo: o imperialismo – situação em que havia uma intensa disputa entre os países ricos (opressores) por matérias-primas e mercados consumidores nos países pobres (oprimidos). Esta, por sua vez, contribuía para a formação de monopólios e conflitos. Por este viés, a guerra é causada a partir das desavenças econômicas e não pela busca incessante da sobrevivência, como crêem os realistas.

Em geral, a teoria leninista, partindo do senso crítico de Marx, é a mais aceita como a teoria marxista das relações internacionais, embora haja bastante divergência sobre a existência ou não desta teoria. Apesar dos desacordos, ressalta-se que as premissas do marxismo são indispensáveis para uma boa compreensão do cenário mundial, inclusive, da atual conjuntura em que vivemos. Deixemos uma análise mais profunda para outra ocasião.

Apenas uma questão final: em 2003, Wolfgang Becker dirigiu o filme “Adeus Lênin”, no qual é narrada a trajetória de uma professora entusiasta do socialismo que entrou em coma antes da queda do Muro de Berlim e só recuperou a consciência após o evento. Ela acordou em mundo completamente diferente, mas seu filho esforçou-se para lhe ofertar um mundo antigo. Teria o socialismo soviético morrido de fato para ela? Será que realmente dissemos adeus para Marx e Lênin? Ao que parece, a resposta é negativa.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Na dança da geopolítica mundial


A reflexão final com o que o Álvaro encerra o post de ontem pode abrir o de hoje: a tolerância entre os povos na questão nuclear. O Irã deseja retomar as negociações sobre o seu programa nuclear com o grupo 5+1, composto pelos membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha, e aproveitar a oportunidade para envolver a Turquia, país que sediará reuniões nos próximos dias 21 e 22. A Índia, por sua vez, afirmou que aumentará a matriz energética nuclear de 2,5% para 25% nos próximos anos, e é o segundo país que recebe investimentos estrangeiros no setor, perdendo para China. As mesmas potências que condenam de um lado, apóiam de outro. Isso nos conduz a um olhar mais dilatado.

Não é novidade para ninguém que a geopolítica mundial está mudando. O declínio norte-americano – a priori, econômico – é capa da edição da Foreign Policy da primeira edição deste ano. O tema também ocupou grande espaço no noticiário, concomitante a ascensão de novas potências. Por certo, os compassos geopolíticos desenham novos círculos de influência já não tão globais, mas regionais, cujo cálculo da atuação deve levar em conta a geometria de outros poderes.

No caso iraniano, faz-se apologia à vitória das potências ocidentais e ao êxito esperado com a adoção de sanções. A solução negociada para com o Irã e o seu direito ao desenvolvimento de um programa nuclear pacífico pertencem ao ataúde da memória. O emprego da força, na vertente da pressão econômica, acrescenta outro fracasso para a coleção de insucessos de gerir uma nova ordem internacional à luz de uma estratégica de segurança internacional EUA-OTAN do pós-Segunda Guerra.

Na Índia, por sua vez, o programa nuclear não apenas é apoiado, como fomentado. Nas últimas visitas dos presidentes de Estados Unidos, França e Rússia, foram firmados importantes acordos de cooperação na área. Mas, afinal, por que essa diferença de tratamento quando Índia e Irã se parecem tanto? Os dois não ratificaram o TNP; a primeira tem arsenal nuclear, inclusive já testado, o segundo pretende desenvolvê-lo (embora não assuma e se já não tem); ambos têm fortes inimizades, Paquistão e Israel, respectivamente, e ambição por aumentar a influência regional.

Só que a Índia é bem vista pela comunidade internacional, o Irã, não. Em cenário prospectivo, a Índia pode se consolidar como potência, abandonando o adjetivo “emergente”. O crescimento econômico impressiona – no período de crise, a economia cresceu 6,7%, no ano passado, 8,5%, e a projeção é que cresça entre 9 e 10% este ano (aqui) –, mas as relações diplomáticas, sobretudo na vizinhança imediata, levantam desafios no horizonte político. Como lidar com a China em espaço de influência que também lhe é próprio? E as rivalidades com o Paquistão, que, por sinal, faz parte da estratégia ocidental de combate do terrorismo global? Como o Ocidente lidará com a Índia e o Paquistão simultaneamente? Do lado iraniano, mais marcado pelas polêmicas do que projeção concreta de poder, abre-se caminho para uma maior aproximação entre o país e a América Latina, bem como para a busca turca por influência no Oriente Médio.

Dos grandes assuntos globais, nascem oportunidades regionais. Nos vácuos de poder que se criam nessa geopolítica mundial em gestação e mutação, os países se articulam e se movimentam para encontrar o seu “novo” lugar, sem os encantos nacionalistas de outrora, mas de acordo com a realidade que se interpõe.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Convívio difícil


O ano de 2011 começou, por assim dizer, pouco propício às diferenças. Alguns fatos da última semana reafirmaram que, via de regra, ainda é o foco no que separa as pessoas que pauta suas relações, em vez do que as une. Não que isso seja novidade, infelizmente. Mas a proporção que suas conseqüências tomam acaba reverberando de maneira duradoura.

Veja, por exemplo, o caso da congressista norte-americana Gabrielle Giffords, baleada durante um evento. A hospitalização da deputada democrata, que colecionava desafetos políticos, fez com que a pauta do Congresso dos EUA dessa semana fosse paralisada (incluindo a blitzkrieg republicana contra a reforma da saúde de Obama) e pode até mesmo atrasar o último vôo do ônibus espacial Endeavour (cujo comandante é marido da deputada). No que pese o aparente transtorno mental do atirador, não podemos descartar a intolerância como motivo: Giffords é crítica da lei anti-imigração do Arizona, e um teor mais radical de repulsa, or exemplo, aos latinos (e aos que os defendem) não seria nada improvável como razão para essa chacina. Há ainda indícios de que o atirador integraria uma organização antissemita – e a deputada é judia.

De fato, a intolerância religiosa parece ser a mais perigosa. Logo no começo de janeiro houve os ataques a cristãos no Egito e no Iraque. Já no Paquistão, por exemplo, existe a tal lei de blasfêmias (já comentada aqui), oriunda das sombras do regime militar islamizado radical dos anos 80 e que faz vítimas até hoje, sendo a mais famosa o governador Salman Taseer, morto por seu segurança na semana passada. A razão? Taseer era contrário à lei (que condena à morte ou prisão perpétua quem ofender o Islã; geralmente é uma sentença de morte, mesmo para os que são absolvidos da acusação) e apoiava publicamente uma senhora condenada à morte por tal mecanismo. Uma vez mais, os que defendem os direitos do “outro” pagam caro.

E quando a intolerância religiosa se une à étnica, sendo a mistura temperada pelo vil metal, surge o caos. Vejam o caso do Sudão: o maior país africano está no meio de um processo que referendará, muito provavelmente, a separação da região sul, criando um novo pais. O conflito econômico é iminente: o sul herdará 80% do petróleo, mas as tubulações para escoá-lo ficam com o norte. Se o presidente Omar Al-Bashir não conseguir segurar o ímpeto dos mais exaltados, provavelmente o que era uma guerra civil apenas se transmigrará para uma guerra convencional entre Estados. O Sudão é um micro-cosmos da África: etnias e religiões diferentes, em conflito perene, assentadas em recursos naturais abundantes e sob o olhar atento de fora. Certamente, haverá estatais chinesas prontas a oferecer o suporte para que a produção continue sem estorvos, em troca da boa e velha blindagem nas organizações internacionais, mas esse enlace econômico vai manter em contato grupos conflitantes, e vai ser praticamente impossível controlar as rusgas entre a maioria muçulmana do norte e minoria cristã do sul. Basta ver os conflitos e escaramuças que houve no primeiro dia de votação para se ter uma ideia do que espera esse país. E na falta de mais motivos pra intolerância, o futuro presidente do Sudão do Sul prega a democracia e igualdade para todos em seu país - exceto os homossexuais...

Todo ano novo, fazemos votos de paz e prosperidade. Talvez fosse o caso de pedirmos tolerância , acima de tudo, em 2011...

sábado, 8 de janeiro de 2011

Eu vou devolver


Em muitas ocasiões, uma pessoa tem que fazer uma escolha: entre fazer o certo (seja por valores pessoais, medo de uma possível sanção, entre outros) ou tentar obter uma vantagem ilegal com seus riscos inerentes. O que obriga o cidadão a agir de acordo os imperativos legais e morais? Estou entre as pessoas que acredita que o receio do castigo apropriado é um dos principais mecanismos para garantir o funcionamento de uma sociedade, evitando assim que a desordem impere.

O que fazer quando os próprios representantes do povo, me refiro mais especificamente aos Poderes Executivo e Legislativo, se comportam à margem de condutas morais e legais? Não bastasse legislarem sobre seus vencimentos e benefícios, ainda gozam, na maioria das vezes, da conivência de seus colegas no que concerne a condutas irregulares. Afinal, a maioria deles adotam procedimentos similares. No caso de uso indevido de cartões corporativos e da verba indenizatória isso fica evidente. Quantos casos surgiram? Havia limite? Em face de indícios irrefutáveis, seja pessoalmente ou por meio de sua assessoria, o acusado em questão prontamente garantia o reembolso do gasto indevido. Era tudo, fim de história.

Todos conhecemos os méritos de Lula. Por outro lado, sob sua tutela algumas questões tiveram abordagem personalista. Os erros não só eram perdoados como também atribuídos em certas ocasiões a perseguições dos veículos de comunicação. O mais recente evento se refere aos passaportes diplomáticos emitidos para os filhos e o neto do ex-presidente Lula. Eles têm direito ou representam um interesse legítimo do país? Para a OAB não. Diante da ampla divulgação da situação, um dos filhos de Lula já prometeu devolver seu passaporte diplomático. Isso, provavelmente, bastará.

Existe algum tipo de sanção para esse tipo de comportamento? À primeira vista, como leigo em questões legais, parece que sim. Imaginem que os acusados terminem devolvendo o obtido/utilizado de maneira ilegal. Basta, não? Esse é o exemplo dos nossos representantes. Agora imaginem se essas prerrogativas pudessem ser aplicadas plenamente à vida em sociedade. Uma pessoa resolve roubar um pequeno item em uma loja. O máximo que pode acontecer é que, caso o roubo seja descoberto, o acusado tenha que devolver o item em questão. Nada mais. Na prática, na minha concepção, é isso que acontece com nossos representantes ou políticos. Obviamente que tais práticas, quando tomadas por um cidadão "normal", são objeto de algum de tipo de sanção. Não importa, para a classe política devolver, ante a comoção pública, é a lei na prática. Muito diferente do aplicado aos cidadãos "normais".

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Babel sudanesa

Segundo o mito bíblico, a Torre de Babel teria sido uma tentativa de os descendentes de Noé eternizarem seus nomes, construindo uma torre tão alta de forma que pudessem alcançar o céu. Por conseqüência de tamanha soberba, o castigo de Deus aos homens foi a diversidade de idiomas, dificultando-lhes a comunicação e espalhando-os por toda a Terra...

De forma metafórica, alguns elementos deste mito podem ser utilizados para uma análise acerca da atual situação do Sudão, um dos países africanos menos desenvolvidos no mundo e assolado por uma das maiores crises humanitárias dos últimos tempos. A artificialidade das fronteiras na África advindas do processo de colonização do continente pode ser considerada uma demonstração da soberba humana em sua ânsia colonizadora, desprezando as características humanas locais para a constituição fronteiriça – estabelecida unicamente de acordo com interesses estratégicos e econômicos. Desde então, o castigo que os próprios homens atribuíram (inevitavelmente) a si mesmos foi a falta de diálogo entre comunidades vizinhas – muitas vezes localizadas sob a alcunha de um mesmo país –, situação em que se enquadra a população sudanesa.

Desde 1956, quando o Sudão se tornou independente, guerras civis entre as regiões norte e sul têm marcado a história do país, somando mortes já na casa dos milhões desde então. Estas regiões possuem muitas diferenças entre si, situação que dificulta enormemente o diálogo entre os povos. Dentre as grandes distinções, a religião se enquadra como uma das principais, sendo o norte predominantemente islâmico e o sul predominantemente cristão. Também as riquezas naturais do país (localizadas notadamente no território ao sul) causam desentendimentos na região.

No ano de 2005, foi firmado um acordo de paz entre o norte e o sul sudaneses de forma a amenizar a situação de insegurança local – acordo este que previa a realização de um plebiscito a respeito da possibilidade de independência de dez províncias do sul do Sudão em relação ao restante do país (mapa abaixo).

Desta forma, durante a próxima semana aproximadamente 3,2 milhões de eleitores decidirão o futuro do Sudão, quando ocorrerá o aguardado plebiscito. Acredita-se que o cenário mais provável é efetivamente a independência da região sul, o que poderá caracterizar a criação do 54º país africano no mundo. Se isto acontecer, o Sudão terá uma diminuição de aproximadamente 25% de sua área – compreendendo riquezas naturais valiosas, diga-se de passagem – e o equivalente de sua população.

Muitas dúvidas ainda pairam sobre esta situação, a qual tem sido acompanhada pela Organização das Nações Unidas e pela comunidade internacional em geral. Muitos também são os desafios humanitários, econômicos e políticos existentes neste país africano, assolado por tamanha dificuldade de diálogo entre os próprios nativos. Esperemos que, a partir do resultado do referendo, essa situação de “babel sudanesa” existente entre o norte e o sul do país visualize um desfecho que possa beneficiar as partes envolvidas e propiciar – ainda que aos poucos – a construção da paz na região.

[UPDATE (07/02/2011): Independência alcança índice favorável de 98,8% em referendo no sul do Sudão.]

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Conversando com a Teoria


Liberalismo: entre a retórica e a aurora

Enfim, vamos a nossa análise de caso pelo liberalismo. A proposta que aqui se segue é identificar qual a praticidade dos pressupostos da teoria liberal das Relações Internacionais. Isto não é tarefa muito fácil e, em grande medida, confusa. Seria mais fácil se falássemos da teoria neoliberal, mas tentemos nos aventurar por esses caminhos.

De modo geral, o liberalismo aparece muito em âmbito discursivo, mas pouco se concretiza na prática. Como toda teoria, serve para nortear um determinado tipo de conduta e instrumentalizar a ação. O problema é que muitas vezes não passa de um exercício de retórica. Exemplo claro disso é a política externa norte-americana. No discurso de posse do presidente Obama, quando deveríamos escolher a esperança ante o medo, um dos belos trechos diz o seguinte: “o mundo ficará menor, nossa humanidade comum deve revelar-se; e que a América vai desempenhar o seu papel em uma nova era de paz.” Foi o que assistimos?

Em outro discurso, proferido no Cairo, em 2009, Obama sinalizou uma aproximação com o mundo islâmico. Para muitos analistas, foi encarado como um marco significativo da política externa dos EUA. Uma questão curiosa foi o argumento do presidente norte-americano de que qualquer um tem o direito de investir em um programa nuclear pacífico, inclusive o Irã. E, no sopro dos ventos liberais, Obama chegou a dizer: “Para que venha a paz, é hora de todos - os diretamente envolvidos e nós também - agirem de acordo com as responsabilidades de cada um.” Ressalta-se que a paz apareceu vinculada aos direitos humanos, democracia e comércio, no espírito liberal.

Em The tragedy of great power politics, Mearsheimer – um realista por definição – endereça a crítica ao liberalismo no sentido exposto acima: no discurso, os Estados Unidos sempre se assumem liberais, mas agem pautados nos princípios do realismo. Ora, se tudo fica no âmbito discursivo, o liberalismo é inútil? Longe disso. Carr, previamente, havia destacado a importância de unir o idealismo e o realismo. Sem a perspectiva de um mundo “como deveria ser”, permaneceríamos estáticos no passado e no presente, sem mudança e tampouco esperança.

Nas relações internacionais, como em outros campos da vida, sempre precisamos de um norte. O liberalismo pode fornecer um importante norte para a conduta das nações, mas é preciso que as ações se voltem para ele. Não basta apenas o contínuo exercício de imaginar novas auroras, se não puder vivê-las e apreciá-las, com vigor e esplendor.

[Seguem duas leituras da Foreign Policy que valem a pena sobre o trabalho de Samuel Huntingon: uma de Fukuyama e outra de Zakaria. Por sinal, dois críticos de Huntingon.]

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

É hora da "hamanização"


Particularmente, fui atraído por uma notícia que ocupou grande espaço na Folha de São Paulo no último domingo: a “talebanização” da Faixa de Gaza. Processo similar ao ocorrido no Afeganistão pode estar ocorrendo lentamente e de maneira imperceptível nessa região, com a perspectiva de se espalhar pelos territórios palestinos, à medida que o Hamas ganhe projeção política. Em outras palavras, expliquemos melhor o termo: assim como o Talebã, o Hamas está passando da resistência ao controle do país. Porém, diferentemente do primeiro, este se converteu em partido político no ano de 2006, abandonando a luta armada (será?).

À parte dos esforços travados e confusos pela paz no Oriente Médio, fato interessante é a reorganização interna de uma sociedade. Reorganização que passa, primeiramente, pelo intenso bloqueio promovido por Israel à Faixa de Gaza, mesclada com as ondas de aversão e inação. Os ataques à flotilha humanitária no ano passado, o fracasso das negociações diretas, a entrevista à Folha do ex-presidente norte-americano Jimmy Carter sobre a incapacidade dos Estados Unidos de conduzirem sozinhos a paz na região são exemplos de fatores que induzem à reclusão palestina em territórios esfacelados e permitem a ampliação do raio de ação do Hamas, sob a justificativa da proteção de seu povo.

Agora é a vez a “hamanização”! Sob este altar, ocorre o casamento entre cultura e poder. Alguns costumes estão mudando, como a proibição ao fumo do narguile para as mulheres em locais públicos, o tom islâmico está aumentando, tal como a intolerância para com a oposição. O Hamas dissemina idéias para reforçar a sua autoridade. Procura se impor diante de uma sociedade que teme Israel e o Ocidente. Para tanto, precisa da relação biunívoca entre cultura e poder, crenças para serem seguidas e para ganhar poder, e poder para ditar crenças.

[Uma indicação bibliográfica indispensável sobre a discussão entre cultura e poder é o livro de Estevão Chaves de Rezende Martins, intitulado "Cultura e poder".]

Se os impasses perduram externamente – a guerra bate outra vez na soleira das fronteiras, para os israelenses, Abbas teme pelo futuro caso não venha a paz –, no plano interno, a sociedade vai ficando sob o controle do Hamas. Como partido político ou milícia, ainda não sabemos. A história pode estar se repetindo, primeiro como tragédia, depois como farsa, numa paráfrase de Marx.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Ano Novo, vida nova


As festividades de Ano Novo são oportunidade ideal de confraternizar, refletir sobre o ano que passou e fazer planos para o ano vindouro. Também são momentos em que qualquer deslize pode trazer problemas como ressaca e ganho de peso. Bem, podemos fazer uma analogia com relação à economia mundial que se apresenta no momento para o ano de 2011.

Existe motivo para festa, em certo grau. Ao menos, na zona do Euro. Os últimos três anos foram marcados por crise financeira e o risco do bloco ir para o buraco. Eis que, surpreendentemente, um país relativamente humilde se comparado a outros membros do bloco, mas com déficit controlado com esmero, a Estônia, acaba de entrar para o Euro e dá novo fôlego e esperança à combalida moeda européia. Mesmo a Alemanha, rodeada de países em crise, conseguiu ter em 2010 o maior crescimento de seu PIB desde a queda do Muro de Berlim e já prevê altas nos salários em 2011. A crise européia passou? De modo algum. Mas tem solução ainda, e os convidados dessa festa têm que tomar cuidado com a bebida do déficit público e exagerar no remédio da austeridade.

Por outro lado, os países que enfrentaram bem a crise já sentem um irônico clima de fim de festa. Isso por que suas economias continuam aquecidas, até demais, e começa a surgir o temor da inflação. A estrela desse grupo, a China, já sofre com altas de juros e economia aquecida. O fantasma da inflação ronda não apenas o Império do Meio, mas a maioria dos mercados que andam relativamente bem, incluindo o próprio Brasil (claro que em menor grau – nosso país é um caso sui generis em termos de regulação financeira e corre um pouco menos de risco que os demais). Por isso, esses países se vêem forçados a acabar “mais cedo” com sua festa.

Por fim, o único que continua cambaleante, uma mistura de embriaguez de gastos públicos com surra da crise econômica, é o principal convidado da festa, os EUA. País que mais sofreu com a crise, ainda vai ter que arcar com pesados cortes de gastos internos e uma grande instabilidade política. Esse 2011 promete ser desafiante para todos.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Virando a página: O Brasil tem uma nova presidente

Ano novo, vida nova. A frase ganha ainda maior sentido para os brasileiros nesse 1º de janeiro. Dilma Rousseff enfim toma posse e poderá “dar cara” a seu governo, saindo da sombra de Lula. Em certa medida, a presidente enfrentará um desafio semelhante ao de Obama. Há uma grande expectativa tal qual houve na posse do presidente americano, mas que no caso de Dilma não reside na esperança do “fato novo” e sim na expectativa de continuidade do caminho traçado e, em muitos sentidos, brilhantemente executado por seu antecessor.

Contra fatos não há argumentos. O Brasil de 2011 em relação ao de 2003, viu o desemprego cair pela metade, o salário mínimo mais que dobrar, o número de beneficiários dos programas sociais quadruplicar, o mercado interno ser fortalecido e uma política econômica pragmática gerar maior estabilidade. Além de tudo, caiu uma barreira que pairava sobre os brasileiros, trazendo consigo memórias dos tempos de crise, me refiro à quitação da dívida junto ao Fundo Monetário Internacional. Talvez seja o marco simbólico da virada de página, em termos econômicos, que o Brasil vive na atualidade.

Dilma já fez história. É a primeira mulher a ser eleita como presidente da República em nosso país. Segue uma crescente tendência regional, talvez mesmo mundial, de líderes políticas e expoentes da sociedade civil que ganham cada vez mais evidência. The Economist compara a posse da presidente como uma passagem de bastão em uma corrida de revezamento, na qual a mesma recebe o bastão com boa vantagem sobre o rival mais próximo. Justa ou não, cabe a Dilma mudar a percepção de muitos, que a identificam como outsider da política e navegadora da onda de popularidade de Lula. Resta a ela talhar seu já conquistado lugar na história.

Parte da virtude de Lula foi sua incrível habilidade política. Sob sua tutela, vimos um Executivo com maior controle sobre o Legislativo e a base aliada; um líder que tinha abertura para dialogar de igual para igual com as maiores potências; e um país capaz de mediar temas sensíveis em nome da comunidade internacional. Por outro lado, toda negociação política exige contrapartidas, pelas quais alianças espúrias e conchavos políticos tiveram eminência. Por fim, cabe destacar a popularidade e capacidade comunicativa do governo Lula, até o ponto que foi difícil a oposição de posicionar como tal sem perder capital eleitoral. Os feitos talvez tenham sido amplificados, contudo são inegáveis os méritos do agora ex-presidente.

Viremos à página. A Dilma não é Lula, chega a ser injusto pautar seu governo no anterior. Isso, no entanto, deve acontecer e acompanhar o dia-dia da presidente. Prova disso é a recorrente pergunta: será que o Lula volta em 2015? Trazendo para o campo da política externa, Dilma recentemente condenou a posição brasileira em relação aos Direitos Humanos no Irã. Seria uma sinalização de alteração em algumas temáticas no campo internacional? Acredito que pequenos ajustes poderão dar a “cara” ao novo governo, distanciando-se de uma política mais personalista e emocional de Lula. Afinal, Dilma pode trazer um pragmatismo e linearidade que por vezes faltou a Lula. Por que, por exemplo, não “intervir” em relação aos Direitos Humanos no Irã, mas defender ativamente a democracia em Honduras? Serão muitos os desafios e expectativas para o governo que toma posse hoje, tarefa que pode ser definida nas pequenas coisas.