O fado tropical

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Uma belíssima canção de Chico Buarque, da qual este post é homônima, apresenta dois versos magistrais que, em grande medida, ajudam a entender a atual realidade brasileira: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”. Depois da queda de tantos ministros, tem-se veiculado na mídia e enraizado no senso comum que todos os problemas do Brasil se resumem à corrupção. Em uma análise bastante limitada, a assertiva se confirma, mas, quando se trata de uma análise histórica, desde a formação de nosso país, verifica-se que o mal do Brasil é o fado tropical que corre em seu sangue verde, amarelo, azul e branco.

Em um brilhante artigo ao Correio Brasiliense, Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Vox Populi, lida de maneira muito perspicaz com essa ideia de que a sociedade se acostumou, historicamente, a condensar os problemas brasileiros em torno de um grande mal. Por exemplo, entre os anos 1810 e 1820, a formiga saúva foi a grande vilã do Brasil, e Mario Andrade, ao brincar com a frase de um viajante estrangeiro, ilustrou bem essa situação: “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são!”. Aliás, a própria questão sanitária, por um bom tempo, prevaleceu como a mais grave no país, concebendo as doenças como o motivo do atraso brasileiro – isso se consagrou no personagem Jeca Tatu, de Monteiro Lobato.

De todos os males que já se listaram, o de maior conteúdo explicativo é a herança ibérica, que remonta as Raízes do Brasil, livro de Sergio Buarque de Holanda, historiador e pai do compositor mencionado acima. Fundamentalmente, Sergio Buarque recupera o peso da colonização lusitana para a formação do Brasil. O espírito aventureiro do português contribuiu para ampliar os limites geográficos, bem como alimentou o insaciável desejo de sempre querer mais e a necessidade por resultados imediatos. Acresce-se a isso a transmutação de uma sociedade individualista, rural, patriarcal e personalista para o Brasil, na qual as pessoas tendiam a zelar pelos interesses privados ao invés dos interesses públicos e que a aristocracia, tão bem descrita nos romances machadianos, reinava. A construção de nosso país é indissociável à construção de nossa sociedade e mentalidade, cujas aspirações da grandeza aristocrática sempre estiveram presentes, ainda que sob a orientação de uma ética maquiavélica, em que os fins importam, e não os meios.

É preciso transcender as simplificações fashion que cegam o senso crítico. Notem um ponto curioso levantado por Afonso Romando Sant’anna em artigo publicado na Estado de São Paulo: “o Brasil não produz livros “demais”, o Brasil produz leitores de menos”. Um dado ilustrativo é que há 2.600 livrarias e 2.500 cinemas, enquanto há 109.000 lan-houses. Outro dado, extra-oficial, que poderia ser adicionado é que, atualmente, cerca de dois terços dos Secretários Municipais de Saúde não tem sequer o ensino médio completo. Diante dessa situação, pode-se afirmar que a corrupção não é tudo! Faltam leitura, capacidade e vontade da sociedade para dar respostas à altura dos problemas brasileiros. O povo desconhece seu príncipe, enquanto o príncipe bem sabe como o povo se comporta. O distanciamento acrítico entre governantes e governados possibilita a manutenção dos caprichos dos primeiros sobre os últimos.

O Brasil, com seu fado tropical, está se tornando um imenso Portugal semi-feudal. A corrupção é produto da herança lusitana, que se profilera no tempo e espaço. A tradição personalista e patrimonialista que herdamos dá origem a pequenos nichos de poder. A aristocracia zela por interesses próprios, esquecendo-se dos interesses da nação. O espírito aventureiro, cujo traço marcante é o imediato, sustenta os desejos de ascender aos círculos aristocráticos e, quando os alcança, os recém-chegados incorporam a mesma mentalidade. O povo, por sua vez, permanece sem compreender o que acontece, além de optar por enxergar todos os seus males na corrupção. Ainda que esta acabe, a estrutura que a retro-alimenta não se extinguirá. É preciso pensar o Brasil, e não reproduzir irrefletidamente ideias reificadas!


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Um mundo em lotação: a esperança

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Enfim, chegamos à última postagem sobre os 7 bilhões de habitantes do planeta Terra e suas repercussões. Desde já, é preciso ressaltar que esta discussão não deve ser encerrada aqui, e sim prosseguir entre vocês, leitores, e seus familiares, amigos, namorados(as) e demais conhecidos, com a finalidade de produzir novas e instigantes reflexões. Afinal de contas, este é um tema que interessa a todos nós e nos permite, com muita atenção, prospectar o futuro e delimitar nossas escolhas, a bordo de uma astronave que tentamos pilotar, como canta Toquinho em sua Aquarela.


Acompanhamos, ao longo das postagens que cobriram esta temática, desafios hercúleos, dados intrigantes (alguns revoltantes) e perspectivas de mudança diminutas. Ficamos, sim, desolados. Mas a vida é uma caixinha de surpresas, como diria Joseph Climber, personagem interpretado pela companhia teatral Melhores do Mundo, e o que se deseja, ao fim e ao cabo destas postagens, é transmitir uma mensagem esperança. A humanidade, embora seja uma família estranha, detém amor profundo.

O potencial humano não pode ser subestimado nunca. E, muitas vezes, ele é encontrado nas coisas mais simples. Uma mãe faz o possível e o impossível para sobrevivência de um filho, um filho faz o possível e o impossível para cuidar do pai doente e assim por diante. Vejamos um exemplo. Em uma palestra em 2005, o ex-comandante da Force Commander da MINUSTAH, o General-de-Divisão Augusto Heleno Ribeiro Pereira, exaltou o amor próprio do povo haitiano, pois em se tratando de um país pobre e com freqüente falta de energia, as pessoas sempre andavam bem vestidas, limpas e com as roupas bem arrumadas. Com tantas coisas para se preocuparem, tanta tragédia acontecendo, lá estavam os haitianos valorizando-se e sorrindo.

Nestas sombrias eras de escassez, de duas escassezes mais especificamente, uma que priva o mundo de seus recursos, outra que priva as pessoas de suas ideias, assistiremos a vivificação de muitos Fabiano’s de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e de muitos Severino’s, de João Cabral de Melo Neto. Os primeiros adaptam-se ao meio, os segundos retiram-se do meio. Água, alimentos, energia, entre outros recursos, não duram para a eternidade, e a má gestão deles pela comunidade internacional exacerba problemas, desloca pessoas, alimenta tensões e costura um frágil tecido social, materialmente distinto e culturalmente diversificado. Essas personagens já encontram seus dramas reais, como demonstra o Relatório do Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA) sobre a situação da população mundial em 2011, e já articulam mudanças, despertam sonhos e sustentam a esperança.

Nossas personagens reais e seus congêneres responderão as escassezes, talvez com protestos que culminem em ciclos de violência, talvez com o diálogo pacífico que termine em processos negociados. Riqueza não é tudo. Uma vida digna que nos permita ser felizes, sim. Para isso, não importa se o país é rico ou pobre, democrático ou autocrático, se as pessoas forem privadas de direitos que lhes são inerentes, elas sairão às ruas e os protestos de 2011 exemplificam bem isso. Por enquanto, as pessoas enrolam-se em suas bandeiras, mas, no futuro, pode ser que se abracem em nome da bandeira da humanidade, independentemente de pátrias e territórios. Outra vez, poderíamos retomar a poesia de Melo Neto, em sua estrofe final: “E não há melhor resposta/que o espetáculo da vida:/vê-la desfiar seu fio,/que também se chama vida,/ver a fábrica que ela mesma,/teimosamente, se fabrica/vê-la brotar como há pouco tempo/em nova vida explodida.”

Por trás de cada número, há uma possibilidade e uma potencialidade. Há uma esperança. É certo que enfrentaremos grandes dificuldades quando uma nova aurora nascer, mas tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, diria Tom Zé. A incerteza, nas palavras do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, é o hábitat natural da espécie humana, e as nossas vidas, quer queiramos ou não, são obras de arte, o que exige estabelecer desafios difíceis de confrontar e escolher alvos e padrões de excelência muito além do nosso alcance. É preciso tentar o impossível. A esperança não é necessariamente a última que morre, e sim a primeira que vive: é o que acreditamos e esperamos que determinam nossas escolhas. E lembremos, para encerrar, uma canção chilena de Violeta Parra, intitulada La esperanza: “Não pode nem o mais extravagante/passar em indiferença/se brilha em nossa consciência/amor pelos semelhantes.”


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Ladrão… que rouba ladrão?

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Enquanto o mundo presta atenção no Oriente Médio e suas agitações, vamos um pouco mais ao sul de lá, mais especificamente no Chifre da África. Já falamos da Somália aqui no blog esse ano. O tema foi, como muitos devem saber (e é o modo que a mídia mais mostra o país africano), a crise de desabastecimento e a fome decorrente. Mas a Somália também anda conseguindo destaque nos jornais com outro assunto, que é o ressurgimento da pirataria em suas águas, rota marítima obrigatória entre Ásia e Europa.

A história é conhecida: pequenos barcos rápidos abordam cargueiros e exigem resgates aos governos. Claro que os países civilizados, nobres e justos, não deixam isso barato e enviam navios de guerra pra protegerem suas frotas mercantes. Afinal, não é como se a OTAN tivesse coisa melhor para fazer. E o tratamento dedicado aos criminosos varia de acordo com o humor e a origem da marinha. Se os piratas têm sorte, podem ser presos por franceses, que dão até comida para os maltrapilhos. Agora, se tiverem o azar de encontrar os russos… (Talvez uma herança truculenta herdada da URSS? É famoso o caso de um navio ucraniano em que africanos clandestinos foram mortos friamente para que a companhia não pagasse uma multa ao chegar na Europa. Virou até filme.)

É claro que a pirataria tem muito a ver com a crise e a fome naquele país. E boa parte da culpa, adivinhem, é de outros países e causada por um fator que quase ninguém conhece por esses lados: a falta de controle do Estado sobre o mar por lá. A equação é simples: barcos pesqueiros de diversas nacionalidades (europeus, chineses, japoneses…) praticam toda sorte de pesca ilegal e irregular nos mares somalis, sem serem incomodados; acabam os cardumes, o principal recurso alimentar do país é esgotado e uma forma de sobrevivência milenar de comunidades pesqueiras é destruída. Com isso, muitos adotam a solução extrema de partir para o crime, e como em qualquer lugar do mundo, o lucro dessa “vida fácil” faz com que grandes “lordes” piratas enriqueçam astronomicamente e mantenham o ciclo funcionando – um negócio tão lucrativo que acabou com as rixas entre clãs, tão comuns na África. Ser pirata virou status e uma ocupação comum por lá. E a coisa ainda fica pior – depois do tsunami de 2004 (aquele que causou estragos cataclísmicos na Ásia) descobriu-se que o mar da Somalia também virou um depósito aberto de lixo nuclear e tóxico. Como se as coisas já não estivessem ruins por lá…

Você pode ver um chocante e breve documentário sobre o tema aqui. E esse é apenas mais um dos casos em que as questões que chegam aos nossos ouvidos não contam a história toda. Pense no que ouvimos sobre esse tema. Fome na Somália? Claro que é resultado de governos ruins e guerra civil, o de sempre na África. Pirataria? Um óbvio crime contra o comércio internacional, uma barbaridade, que deve ser combatida com medidas “extremas” pra não sair do controle. Mas são apenas peças de um quebra-cabeça muito maior, em que seus efeitos são cíclicos e alimentam a miséria e a corrupção, sob vista grossa dos governos ocidentais. Não se pode defender o crime dos piratas, mas ao mesmo tempo é lamentável ver a que situação se chegou naquele país e difícil não sentir pena dos que acabam enveredando por essa vida (claro que não se precisa sair do Brasil pra entender essa lógica… é a globalização da miséria). Nisso quem perde, é claro, é o lado mais fraco, com a Somália sendo roubada, massacrada e, o pior de tudo, ignorada.


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Eu voltei (na Rússia)

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“Eu voltei agora pra ficar
Por que aqui, aqui é o meu lugar
Eu voltei pras coisas que eu deixei,
Eu voltei”

A música de Roberto Carlos descreve um retorno, uma volta para as coisas deixadas para trás. Algo definitivo, como o retrato na parede. Foi como se não tivesse partido. No nosso caso, a vida imita a arte, mesmo que não plenamente. Vladimir Putin, atual primeiro-ministro russo, aceitou a indicação de seu partido para concorrer à presidência de seu país. Contudo, alguém realmente acreditou que ele havia passado o bastão para Medvédev? Voltou sem ir a nenhum lugar.

O presidente em exercício, um tanto quanto fragilizado ante seu mentor, propôs uma troca de papéis. Sai Medvédev e entra Putin para presidente, ao passo que este passa o posto de premiê para aquele. Uma renovação, nas palavras do próprio mandatário, que encontra forças neles mesmo, uma continuidade que permita saber quem estará no controle do Estado. Agora, vai ser abertamente Putin esta figura central. Medvédev mesmo admitiu “Putin é o político com mais autoridade em nosso país”. Será que, frente tal reconhecimento, ele aceitou de fato ficar na sombra de um presidente menos graduado por quatro anos?

Para completar, uma comparação levantada pelo atual presidente tenta demonstrar a naturalidade da transição que muito provavelmente será feita (as eleições ocorrerão em 4 de dezembro). Seria como a aliança estabelecida entre Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, e Hillary Clinton, escolhida para comandar o Departamento de Estado. Na visão dos mandatários russos é o que ocorrerá no país, uma espécie de concertação entre políticos do mesmo partido pelo bem na nação. Só esquecem que no caso norte-americano houve uma disputa feroz nas prévias do partido democrata e que a aliança foi selada posteriormente, ao contrário do que ocorreu na Rússia.

Putin deve voltar para o que nem chegou a deixar. O seu retrato não saiu da parede, muito menos amarelou. Por outro lado, sua popularidade perdeu o embalo e seu projeto de estabilidade ganhou contornos de estagnação. A tendência de queda do preço do petróleo pode dificultar ainda mais a situação, podendo tragar a Rússia para um buraco similar ao de alguns países europeus. Corrupção e nacionalismo são temas que poderiam voltar à tona, numa tentativa de minar a candidatura de Putin, ainda que com chances pequenas de consolidarem um caminho para a vitória da oposição. Quase todos os indícios apontam para sua volta.

O destino da Rússia pelos próximos anos já parece estar traçado. A princípio, parece que Medvédev manteve a cadeira pronta para seu mentor. Um retorno mais doce do que o imaginado por Roberto Carlos:

“Eu cheguei em frente ao portão
Meu cachorro me sorriu latindo,
Minhas malas coloquei no chão.
Eu voltei.” (Roberto Carlos)


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Recorde mundial

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A Bélgica está estabelecendo um recorde mundial difícil de ser batido. Contudo, infelizmente, não se trata de nenhum assunto do qual os belgas possam se orgulhar: o recorde em questão envolve o tempo sem um governo nacional estabelecido. Há um ano e meio (mais de 500 dias!) debates infrutíferos se alastram e a crise política nacional se intensifica…


Para um país de 10 milhões de habitantes (população equivalente apenas à cidade de São Paulo), a organização política da Bélgica é extremamente complexa de se entender (segundo os próprios belgas!). O país é composto por três regiões e três comunidades principais, bastante distintas entre si – tanto em termos culturais como políticos. Três também são as línguas oficiais belgas, mas isso não significa que as regiões do país inteiro se comuniquem entre si nas três línguas, muito pelo contrário (à exceção da região de Bruxelas).

A região de Bruxelas-Capital é a mais cosmopolita, que move o “coração da Europa” abrigando as principais Organizações Internacionais e sendo a capital de fato da União Europeia. Na Valônia, por sua vez, se encontram os francófonos, em Flandres os flamengos (língua holandesa) e na fronteira com a Alemanha a reduzida comunidade germanófona (mapa abaixo). [O vídeo da série “For dummies” sobre o assunto é crítico, mas bastante ilustrativo, disponível aqui.]

Em meio a toda essa diversidade, a Bélgica tem uma monarquia parlamentarista como sistema de governo, o que significa que existe um rei que exerce o papel de Chefe de Estado e (deveria existir) um Primeiro-Ministro no papel de Chefe de Governo. E aí é que se encontra a principal dificuldade: há cerca de um ano e meio o país não chega a um acordo em relação à formação do governo federal. [No começo do ano aconteceu até a chamada “Revolução das Fritas”, promovida pelos jovens belgas em protesto contra a situação.]

Essa semana, com o fracasso das negociações políticas (em relação à formação do governo) e econômicas (em relação ao Orçamento Nacional), ocorreu a renúncia de Elio di Rupo – líder francófono que exercia o cargo de Primeiro-Ministro interinamente por indicação do rei com o objetivo de buscar consensos – a crise se intensifica. E, pela primeira em todo esse tempo, hoje a União Europeia cobrou publicamente uma resolução da questão o mais rápido possível.

Se não bastasse a tensão política, hoje ainda foi divulgado mais um indicador negativo, dessa vez em termos econômicos: a classificação internacional da Bélgica no ranking financeiro da agência Standard & Poor’s foi rebaixada de AA+ para AA, em clara referência às dificuldades econômicas que atingem toda a Europa nesse momento.

Para um país cujo lema, paradoxalmente, é “A União faz a força”, a Bélgica enfrenta dificuldades históricas em termos de diálogo entre suas comunidades. O momento político e econômico europeu é crítico e a Bélgica, tal como a maioria dos países do continente, não passa ilesa por ele. Enquanto isso, o recorde mundial belga de tempo sem governo – infelizmente – só aumenta.


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Trocando seis por meia dúzia

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É possível estar em dois lugares ao mesmo tempo? Fisicamente falando a resposta é não. E se alterarmos a questão. É possível estar em dois tempos simultaneamente? Avaliando os resultados dos últimos eventos no Egito, acredito que possamos esboçar uma resposta bem positiva. O país parece materializar o significado de dois tempos em um só. Se de um lado, a população, fragmentada, vive a tal da primavera árabe, o florescer da democracia que a mídia e os Estados Unidos tanto louvam, de outro, a junta militar no poder vive a ditadura dos tempos de Hosni Mubarak.

Temos visto isso nos últimos movimentos que o país tem enfrentado. Os conflitos seculares entre cristãos e islâmicos aliados aos protestos dos (mais uma vez) ocupantes da praça Tahir contra o governo da junta militar dão o tom do que o Egito de fato vive: uma transição. Se em algum momento pensou-se na Primavera Árabe como uma ruptura, pensou-se de maneira precipitada. Aqui mesmo no blog, o Álvaro já questionou a validade do conceito da Primavera Árabe em um post anterior, dizendo que ela já virou outono.

Ou, talvez, tenha sido primavera. Mas em um jardim que os brotos só virarão flores se tiverem as condições certas. E, caso não tenham, os brotos podem vir a morrer e a primavera vai passar sem mudanças significativas. Em outras palavras, enquanto não se constituir um governo estável com uma constituição, um conjunto de leis satisfatório à população, não se pode falar de um resultado, mas sim de uma fase que pode nem resultar em algo emblemático no futuro. Seria como trocar seis por meia dúzia.

Mas e agora? Qual seria o próximo passo? Bom, atualmente, aos egípicios que viveram sob 30 anos de uma ditadura, há um certo receio que o governo da junta miltiar possa estar no caminho de “ditatoriar-se”. Um pouco desse sentimento provém da lógica militar que age mais sob o senso de cumprir missões, poucas vezes aceitando “não” como resposta. O que também traz o outro problema do baixo grau de diálogo proposto na nova constituição. Uma razão adicional desse sentimento provém dessa falta de um controle da população sobre os militares, e, meus caros, é aí que mora um dos grandes problemas.

Um belo exemplo disso é o Brasil da década de 1960. Há quem diga que vivemos em 1964 uma “revolução democrática”. E, no sentido histórico, talvez não esteja completamente descabido. O golpe militar teve apoio da elite brasileira e de parte significativa da classe média que, grosso modo, temia que o país caminhasse para o comunismo. Todavia, nos anos subsequentes, observou-se emergir um governo que tornou a exceção uma regra e que todos sabem o fim da história.

Sendo assim, é importante que, embora fragmentada, a população (ou partes dela) tente trabalhar no sentido de construir um controle civil sobre os militares para não garantir que eles interfiram demais na política, pois a maior parte desses oficiais foram gestados sob os tratos no querido Mubarak e até mesmo seus candidatos são farinha do mesmo saco. Bom, se na teoria é fácil falar desse processo, já na prática…


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Um mundo em lotação: os Adams vêm aí!

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Já apresentamos a situação do mundo na atualidade e os possíveis desdobramentos críticos para o futuro. Se, por si mesmo, os dados apresentados em outros posts chamam muito a atenção, imaginem quando adicionamos o crescimento populacional. Inevitavelmente, despertamos mais inquietações. Os Adams vêm aí… Pandandandan!

São sete bilhões de pessoas no mundo. Por vezes, uma família estranha, que a surpresa é tamanha, cheia de artimanhas, parecida de outro mundo, mas com amor profundo e sem parar um segundo. Sim, os Adams vêm aí! Este jingle, por certo, é uma representação simples, e muito boa, da humanidade vivendo em um planeta lotado, neste século XXI.

Ora, vejamos, inicialmente, por que o crescimento populacional é surpreendente, embora não destoe inteiramente das estimativas feitas. De acordo com os dados oficiais da Divisão de População do Departamento de Economia e Assuntos Sociais das Nações Unidas: “O rápido crescimento da população mundial é fenômeno recente. Há cerca de 2.000 anos, a população mundial era de cerca de 300 milhões. Foram necessários mais de 1.600 anos para que ela duplicasse para 600 milhões. O rápido crescimento da população mundial teve início em 1950, com reduções de mortalidade nas regiões menos desenvolvidas, o que resultou numa população estimada em 6,1 bilhões no ano de 2000, quase duas vezes e meia a população de 1950. Com o declínio da fecundidade na maior parte do mundo, a taxa de crescimento global da população tem decrescido desde seu pico de 2,0%, observado no quinquênio 1965-1970.”

Se isso já é surpreendente, vejamos os cenários futuros que advêm da chegada dos Adams ao mundo: 1) se a taxa de fecundidade se manter no atual patamar, em torno de 2,5, a população mundial chegará a 15 bilhões de habitantes em 2100; 2) se a taxa de fecundidade decrescer para 2,0, então, haverá 10,1 bilhões de habitantes; 3) se a taxa de fecundidade reduzir drasticamente para 1,6, então, a população mundial poderá diminuir para 6,2 bilhões de habitantes. O cenário mais realista é o segundo, e o terceiro é pouco provável: a diminuição da população só aconteceu em momentos de grandes calamidades, particularmente doenças, como a peste bubônica e a gripe espanhola na Europa. A não ser que o filme Contágio se converta em realidade, a população não deve diminuir, mas seu crescimento pode desacelerar.

O relatório do Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA) sobre a situação da população mundial em 2011 apresenta considerações muito interessantes acerca do significado desses 7 bilhões de habitantes. Simultaneamente, estamos nos tornando uma população mais velha e mais jovem. Isso é paradoxal, mas é o que ocorre. Nos últimos 60 anos, a expectativa de vida saltou de 48 anos, no início da década de 1950, para 68, na primeira década do novo século, e a mortalidade infantil declinou de 133 óbitos para cada 1000 nascimentos, na década de 1950, para 46 em cada 1000, no período de 2005-2010. Pessoas com menos de 25 anos já compõe cerca de 43% da população mundial e, de acordo com uma reportagem do Valor, já nasceu a geração de pessoas que viverá 150 anos.

As pessoas fazem artimanhas para viver: migram em busca de melhores oportunidades ou se envolvem com atividades ilícitas, fazem a paz ou a guerra, sonham ou morrem. Em meio as suas escolhas, há desafios, choques culturais e, também, possibilidades. Na China, por exemplo, além da “política do filho único”, Shangai, com seus 20 milhões de habitantes, adotou a “política do cachorro único”: um Snoop por família. Alguns lugares estão e estarão lotados, outros, seguem e seguirão no esquecimento, como os rincões da África, nos quais predominam o que o geógrafo brasileiro Milton Santos chamou de “tirania das distâncias”, condenados a exclusão. Na China, também, a tentativa de controle populacional provoca choques culturais: há muitos jovens homens morrendo sem se casar. Isso, para a cultura chinesa, é perigoso, pois a vida espiritual é idêntica a vida terrena, e um homem solteiro pode ser um homem infeliz. Então, tornou-se hábito, e até mesmo um negócio, o casamento entre defuntos, mas a quantidade de mulheres é menor do que a de homens.

Poderíamos, neste post, tratar de questões como: os países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos estão crescendo, em termos populacionais, mais rápido que os desenvolvidos, que aqueles ainda não passaram por uma transição demográfica, o problema da mão de obra, entre outras questões. Mas isso acompanhamos diariamente na mídia. O importante, aqui, é tentar pensar na situação em que o mundo se encontra e como essas pessoas, esses Adams que vem aí, vão se inserir nele. Na semana que vem, fecharemos a série sobre o crescimento populacional, com as lições que poderíamos depreender de tudo isso e quais a possibilidades para o futuro.


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Papéis invertidos?

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Deu no jornal: o Brasil está se tornando um pólo de atração de migrantes. Não que não tenha sido no passado recente (no contexto da América do Sul e África), sem contar o passado que moldou a formação étnica variada do país – a imigração é um fenômeno histórico por essas bandas. A questão é que agora, com a crise no Europa, quem está vindo pra são trabalhadores altamente qualificados que vêm suprir deficiências de mercado.

Parece chocante receber gente de países mais ricos, mas não é nenhuma novidade o Brasil acolher gente do primeiro mundo. No passado vinham italianos, alemães, japoneses, mas para trabalhar de modo mais humilde, plantando café, soja e arroz. Agora, quem está vindo vem ocupar cargos importantes na construção civil, ciência e tecnologia e engenharia (como no setor petrolífero, que faz a alegria de holandeses e ingleses). Não deixa de haver a migração mais tradicional, como os refugiados políticos e os que vêm de países mais pobres em busca de melhores condições. A situação levanta duas considerações.

A primeira, é uma constatação surpreendente: segundo dados do Ministério da Justiça (veja aqui), apesar da fama de receptividade do povo brasileiro, o país recebe uma porcentagem de pedidos de asilo humanitário (de gente fugindo de perseguição ou guerras) semelhante ao dos EUA mas tem uma taxa de aceitação muito menor que em países com notórios problemas de aceitação ou contestação de imigrantes, como a Itália. O Brasil deporta muito mais “ilegais” que países europeus, e isso é um mero demonstrativo de como essas políticas de refugiados como um todo estão em xeque no mundo todo – até mesmo aqui… Agora, seria demais imaginar que esses “indesejáveis” estão passando pelo mesmo processo que muitos brasileiros enfrentam/enfrentaram no passado indo para Europa e EUA? Seria exagero pensar que o crescimento econômico está tornando o Brasil internacionalmente “elitizado”?

E isso nos traz ao segundo ponto: a onda de imigração por empregos de alta capacitação, além de expor uma grave deficiência na educação nacional (e não estamos falando apenas de engenheiros e pessoal de Exatas, mas técnicos, e essencialmente a debilidade do ensino médio e fundamental), mostra que o mercado em expansão está sendo obrigado a trazer gente de fora para cumprir funções específicas. É evidente que não vamos nos tornar uma Europa que joga a culpa de muitos problemas econômicos nas costas de ondas de imigração do leste, Ásia e África. Mas, até que ponto esse tipo de situação persistirá, e o Brasil começará a investir de maneira decente para suprir esses nichos com força de trabalho nacional? Não estamos falando que os estrangeiros não tenham direito de trabalhar aqui, se pinta a oportunidade, ótimo para eles. Mas, por que não temos brasileiros nesse tipo de função, que seria facilmente “ocupável” se tivéssemos gente capacitada?

Até quando um país que quer ser “grande” (e já diz há muito tempo por aí que é…) vai passar por uma situação dessas, tendo que importar mão de obra especializada e fechando a porta para quem precisa de asilo? Acho que deve ser um caso único no mundo, e não deixa de ser mais uma das inúmeras contradições (e, pra variar, coisas que se vê apenas por aqui) de nosso país…


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Há um ano...

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Nosso tema em 2010 era o processo eleitoral na Nicarágua. O esperado se confirmou recentemente, Daniel Ortega ganhou com ampla maioria, apesar das discussões levantadas. Confirma-se, novamente, a tendência regional de manutenção no poder de líderes fortes. Exemplos não faltam. Muitas vezes as instituições ficam em segundo plano.

Pois bem, falávamos das perspectivas democráticas na América Latina. Nossos líderes tendem a buscar projetar uma imagem de salvadores da pátria, dizem ter paixão e desprendimento infindáveis pelo bem da nação. Não é isso? Neste sentido, passar o poder para outro político pode colocar tudo a perder.

Agora, no entanto, voltamos nossa atenção para outra região. A Grécia e a Itália ganharam novos líderes. Hoje é a vez da Espanha. O favorito é Mariano Rajoy, representante da oposição, impulsionado pela baixa popularidade do primeiro-ministro Zapatero. Diante de situações econômicas e sociais críticas, os novos governos enfrentarão imensos desafios.

A ironia reside justamente no fato de que os governantes europeus terão que personalizar o aplicado na América Latina. Afinal, só salvadores da pátria para aceitarem encarar os desafios em países como Grécia, Espanha e Itália. A difícil realidade não deve vir acompanhada por maior compreensão popular frente dificuldades, muito pelo contrário. Como já vimos em outras situações, propor e implementar a tal austeridade é legal mesmo na casa dos outros.

Obs: A apuração dos votos na Espanha não terminou, contudo o candidato da situação já reconheceu a vitória de Rajoy. O vencedor acaba de discursar e agradecer o trabalho de seus seguidores, diretamente da sede de seu partido.


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Entre tapas… e beijos?

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Existem limites à liberdade de expressão? Talvez essa seja uma das questões mais complexas em nosso mundo atual, em que a difusão da informação ocorre (quase) instantaneamente e em cuja realidade virtual as fronteiras parecem não existir. Com o lançamento da nova campanha de impacto da marca italiana Benetton, este assunto merece novamente destaque na mídia e causa polêmica.

Amplamente comentada na internet essa semana, a campanha da grife se intitula “Unhate” (“Deixe de odiar”, em uma possível tradução) e apresenta fotos de grandes (e rivais) líderes mundiais aos beijos. Entre si! As cenas inimagináveis de carinho (?) envolvem Obama e Chávez (foto acima) ou Hu Jintao; os líderes das rivais Coréias; os europeus Merkel e Sarkozy; o premiê israelense e o líder palestino (foto abaixo); e até o Papa e o imã egípcio.

As reações foram automáticas. A China censurando as fotos; a Casa Branca criticando fortemente a campanha; o Vaticano movendo ação judicial contra a grife; e por aí vai… consequências absolutamente previsíveis e seria ingênuo que uma marca do porte da Benetton acreditasse que a resposta das autoridades não seria imediata ao lançamento de uma campanha deste porte.

Ao apresentar as principais divergências globais atuais em “convivência amorosa”, a intenção teórica/política/retórica da marca é incentivar a tolerância e a busca pela paz no cenário internacional (até uma fundação sem fins lucrativos foi fundada com este propósito!). Na prática, o objetivo é menos nobre, mas não menos compreensível em uma lógica de mercado: ao alcançar novamente os holofotes midiáticos, a Benetton espera agora dar novo impulso às suas vendas, principalmente entre o público jovem.

Voltando à pergunta inicial do post, será que podem ser estipulados limites à liberdade de expressão? Questionamento interessante atribuído a Benjamin Franklin é o seguinte: “Os abusos da liberdade de expressão devem ser reprimidos; mas a quem teríamos a coragem de delegar esse poder?”. Esta parece ser a parte mais delicada da discussão. Ao utilizar a imagem dos líderes representados nas fotomontagens sem a autorização (que nunca viria) dos mesmos, a marca reacende a polêmica sobre a ética nos meios de comunicação.

Entre a (indesejável) censura e a liberdade de expressão absoluta existe um amplo meio-termo em que cada ente (indivíduo, Estado, empresa, etc.) deve sempre buscar a razoabilidade para estabelecer os critérios de divulgação das próprias ideias, campanhas e perspectivas. O direito à liberdade de expressão deve vir acompanhado do dever de saber utilizar-se desta em consonância com os princípios de respeito mútuo e tolerância. Princípios que (paradoxalmente?) a marca afirma querer propagar exatamente por meio de sua campanha.


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