Uma curiosa corrida presidencial

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O sistema eleitoral dos Estados Unidos guarda particularidades interessantes. O presidente é eleito por meio de um colégio eleitoral, o qual é escolhido em cada estado do país através do voto popular. O número de delegados é diretamente proporcional à população, sendo a orientação para o voto do colégio eleitoral, na maioria das vezes, pautada no princípio “o vencedor leva tudo”. Assim, uma pequena margem no voto popular significa, com duas exceções (Nebraska e Maine), a totalidade dos delegados na conta do vencedor. Nada de proporcionalidade.

Outra característica é concentração do debate entre dois grandes partidos, o democrata e o republicano, apesar da possibilidade de candidatos independentes também concorrerem. A definição dos candidatos é fruto de um longo processo de primárias, passando pelos estados para debates de propostas e atingindo, talvez, seu ápice nas convenções partidárias. Em 2008 viu-se um cenário acirrado, ambos os partidos travaram primárias pelo direito de concorrer ao posto deixado por George W. Bush. Desta vez, contudo, já há um candidato esperando seu oponente, numa espécie de pole position, ao mesmo tempo em que tenta governar.

Faltando menos de dois meses para o início das primárias republicanas, opositores do presidente Obama, a instabilidade reina soberana na medida em que a popularidade dos pré-candidatos sobe e desce, somado ao surgimento de novas figuras na disputa e à desistência de protagonistas. Na última eleição, enquanto Hillary Clinton e Barack Obama monopolizavam a disputa de um lado, os republicanos viram uma contenda entre três figuras centrais: Mike Huckabee (ex-governador do Arkansas), Mitt Romney (ex-governador do Massachusetts) e Johh McCain (senador).

As primárias funcionam como um teste dos candidatos e oferecem a possibilidade de unificar as diversas correntes dos partidos em torno de uma candidatura, ainda que resistências tendam a perseguir. Neste ano há outro fator importante no acirramento da ala conservadora republicana. Mesmo que não veja seus expoentes como candidato, como no exemplo de Sarah Pallin, representa uma parcela do eleitorado que deverá ser agradada de alguma forma pelos que desejam ganhar a indicação republicana. Mesmo nas primárias, é inevitável a troca de argumentos fortes, um fogo amigo que nem sempre consegue ser superado. Neste sentido, demonstrar unidade, no caso do partido republicano, não será tarefa das mais fáceis.

Alguns nomes despontam como favoritos na corrida pela nomeação. Entre eles, figuras conhecidas, como Mitt Romney; outros advindos de correntes tradicionais do partido, como Rick Perry (sucessor de Bush no governo do Texas); além de figuras ascendentes, como Herman Cain. Outros ainda contam com vitórias nas primárias do mês de janeiro para ganhar força e seguir na disputa até o final, como Michele Bachmann. A disputa está só no início. Enquanto isso, confortável, mas não tanto, estará Obama em sua pole position, assistindo quem sobreviverá nessa disputa e disputará cada curva com ele. Tudo indica que os chamados “swing states” serão novamente decisivos.

Reveja o mapa da eleição de 2008.


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Brasil, meu Brasil brasileiro…

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“Quem somos nós, os brasileiros, feitos de tantos e tão variados
contingentes humanos? A fusão deles todos em nós já se
completou, está em curso ou jamais se concluirá?”

Em meio a questionamentos sobre nossa identidade como estes do renomado antropólogo Darcy Ribeiro em sua clássica obra “O povo brasileiro”, eis que se inicia uma iniciativa cultural com o objetivo principal de apresentar o Brasil – em suas diferentes facetas, cores e ritmos – à Europa, mais especificamente à Bélgica e a seus arredores.

O Festival Europalia (site oficial aqui) é um evento bienal que acontece desde 1969 em terras belgas, considerado o maior festival cultural multidisciplinar do mundo. Segundo os organizadores, a proposta de cada edição é reunir as atividades artísticas de um país, de forma a apresentar sua diversidade ao público. Depois da Rússia e da China nos últimos anos, é a vez de o Brasil ser homenageado por aqui. Esta 23ª edição do festival teve início no último dia 04 de outubro, com a inauguração oficial pela presidente Dilma, e tem previsão de encerramento em janeiro de 2012.

É claro que não se pode negar o prestígio internacional do nosso país atualmente, mas o investimento nacional neste sentido também não tem sido baixo: o Europalia é o maior e mais caro projeto da atual gestão do Ministério da Cultura, representando um investimento/custo de aproximados 30 milhões de reais – advindos do governo em sua maior parte, mas também da iniciativa privada. Também a Bélgica investiu cerca de 10 milhões de euros para a consolidação do festival.

Centenas de eventos compõem a programação, desde apresentações musicais a exposições e palestras, com o objetivo de demonstrar a riqueza cultural brasileira, desvinculando-a unicamente das ideias de samba, carnaval e futebol, segundo o Sérgio Mamberti, atual secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura. Fugir dos “estereótipos” foi um argumento destacado também por Ana de Hollanda, Ministra da Cultura. Contudo, é claro que polêmicas são inevitáveis quando se trata de um investimento e divergências entre organizadores belgas e brasileiros sobre os nomes para compor a programação marcaram o processo de seleção das atividades.

Em um momento crítico de consolidação da identidade brasileira internacionalmente, percebe-se o claro interesse do governo em disseminar a riqueza de nossa cultural, reafirmando a visão de um país multifacetado e em franco crescimento. Entretanto, as cifras que envolvem o festival são impressionantes – investimento justificado ou exagerado? E sobre os ditos “estereótipos”, será que é realmente possível desvincular-nos de uma visão que parece, ao mesmo tempo, ser reforçada a cada Copa do Mundo ou Carnaval?

De qualquer forma, vale a pena recorrer novamente a Darcy Ribeiro para incitar a reflexão sobre a perspectiva que temos de nossa própria formação:

“Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si, afundada na ‘ninguendade’. Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros”.

O Europalia deste ano que o diga…


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Indignações

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Se pudéssemos dar um nome à longa estrada da política internacional que atualmente muitos têm percorrido durante o ano de 2011 esse poderia muito bem ser “Indignação”. Populações ou parcelas de populações insatisfeitas passando desde os tortuosos caminhos do Oriente Médio, trilhados pelos protestos contra regimes autoritários de nossa bem conhecida primavera árabe, por aqueles que cortam as altas cordilheiras da dívida pública, que inspiraram indignados na Espanha, na Grécia ou em outros países da zona do Euro, até chegarem na América do Sul, pela gratuidade da educação no Chile. E, apesar de muito diferentes, de possuírem muitas condições específicas, todos eles parecem convergir em um mesmo destino: o das mudanças políticas significativas.

E, aos que pensaram que os Estados Unidos não teriam motivo para estarem incluídos nessa estrada, já podem rever seus conceitos. Desde o início de outubro que já observamos a disseminação do movimento “Ocupe Wall Street”, cujo nome é bem auto-explicativo. Todavia, o simples chamado a ocupar a rua que representa o poderio do grande capital financeiro e bancário poderia parecer a todos um tanto descabido ou sem grandes objetivos políticos, tornando Wall Street uma rua distante ou sem intersecções com nossa estrada da indignação. Bom, pode ser que essa percepção esteja equivocada.

A ocupação de Wall Street possui um valor simbólico muito importante. Significa que a insatisfação com o sistema financeiro e tributário estadunidense ganhou as ruas e agora exerce uma pressão de fato sobre o governo. Um movimento sem líder, que parece carecer de demandas, mas que significa a necessidade concreta de se ver mudada alguns aspectos da estrutura econômica dos Estados Unidos para que se amplie os impostos sobre as camadas mais abastadas.

Ora, a mesma força de agregar membros que o movimento possui é também uma grande dificuldade no mesmo sentido. O problema jamais seria os protestos não-violentos, a ocupação ou mesmo a falta liderança. Mas sim a falta de clareza no que concerne às demandas específicas. O que também não invalida o movimento (basta ver os recentes protestos brasileiros contra a corrupção), apenas dificulta um pouco mais que se atinjam objetivos específicos.

Todavia, o “Ocupe Wall Street” cabe muito bem nessa estrada da indignação que traçamos, e pode ser um radar social importante para que o governo estadunidense veja que parte de sua população trilha o caminho da insatisfação com atual situação da econômica bem como da estrutura econômica do país. O movimento é mais do que legítimo, materializa bem o que muitos estadunidenses já pensam há muito tempo (basta ver sua repercussão nacional) e segue trilhando o longo caminho dos protestos desse ano. Agora, o destino de fato dessa estrada, a mudança significativa desse sistema econômico, aí já são outros quinhentos…

[Para mais sobre o assunto: 1, 2, 3, 4, 5, 6 ]


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Os burros, a FIFA e a Lei

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Se não fizerem o que queremos, vão levar um deste tamanho!

A FIFA agora quer mudar a Lei do Brasil. Simples assim!

Quer que, durante a Copa do Mundo, em 2014, algumas leis simplesmente deixem de ter validade. É mole? O Estatuto do Idoso, o Estatuto do consumidor e (pasmem) até o Código de Defesa do Consumidor estariam na lista negra da entidade.

O motivo? Elementar, caríssimos. Em geral, resume-se aos seguintes: estudantes e idosos têm meia entrada nos eventos no Brasil. Além disso, não se pode consumir bebidas alcoólicas nos estádios. Para complicar, nossa Lei ainda proíbe a chamada “venda casada”, quando o consumidor é praticamente obrigado a comprar duas ou mais coisas (no caso uma viagem mais um ingresso) sem a opção, por um preço justo, de comprar apenas uma parte do pacote.

As exigências de se mudar a Lei de um país para se garantir um evento e, mais a fundo, simplesmente o interesse dos patrocinadores ou a arrecadação de recursos, levanta vários debates.

Em primeiro lugar, a questão jurídica. As Leis – e os direitos adquiridos dos cidadãos – podem simplesmente perder a validade durante um período qualquer sem que haja algo realmente sério acontecendo, como uma guerra? Um evento poderia alterar a validade de nossas Leis?

Além disso, há a questão do bom senso. Podemos, simplesmente, tirar dos idosos e estudantes, por exemplo, um direito porque a FIFA quer arrecadar mais dinheiro? Ou então, colocar bebidas alcoólicas nos estádios (proibido porque sabemos que não estamos em Londres e no que isso pode dar por aqui) só porque uma indústria de cerveja quer? Ou, ainda, expor o consumidor ao abuso das agências de turismo legalizando uma prática já proibida há mais de 15 anos?

Que tipo de precedentes isso poderia abrir num país como o nosso?

Mas, do ponto de vista das Relações Internacionais, há uma questão ainda mais séria: a Soberania Nacional.

Pode-se pressionar um país a mudar sua Lei para garantir um evento externo? E no caso do Brasil, pior, fazer Leis estabelecidas perderem a validade por um espaço de tempo?

Mais uma vez vem a pergunta: que tipo de precedentes isso abriria em um país como o Brasil?

Agora, cabe aos políticos analisar a questão e decidir se farão as concessões ou não. O governo jura de pé junto que não vai mexer nos direitos adquiridos da população.

Mas, no caso do Brasil, a relação entre entidades como a FIFA ou qualquer uma que tenha algum interesse (e poder) e aqueles que definem as Leis do nosso país é simples, muito bem explicada por um antigo ditado:  “Todo burro come palha, a questão é saber dar”. 

Qual será a “palha” que a FIFA terá de dar para garantir seus interesses?


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Tempos de mudança ou mudança de tempos?

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Diz um antigo ditado que “os tempos mudam, e nós mudamos com eles”. Esse ditado ganha coro na atualidade, no entanto, é preciso verificar se a palavra mudança não se tornou clichê. Já faz tempo que todos nós ouvimos que a China será a nova grande potência mundial e que o Brasil é o país do futuro. Já faz tempo que se fala da decadência dos Estados Unidos e das grandes potências europeias. Por um lado, os chamados países emergentes – particularmente China, Índia, Brasil, Coreia do Sul – estão puxando o crescimento da economia e do comércio internacionais, por outro, a velha guarda do mundo não abandona nem as armas nem o trono. Mas, afinal, a quem pertence o poder de mando? E o que muda, muda para sempre?

Um olhar mais contido permite visualizar números importantes. Em 2010, a economia mundial cresceu 3,6%, após uma retratação sem precedentes de 2,4% em 2009. Enquanto os países desenvolvidos cresceram 2,6% em 2010, os países emergentes cresceram 7,0%. Entre os desenvolvidos, o destaque fica para a Alemanha, que registrou um crescimento de 3,6%; entre os emergentes, China, Índia e Brasil impressionaram, com crescimentos de 10,3%, 9,7% e 7,5%, respectivamente. No que se refere ao comércio internacional, registrou-se um aumento de 14,5% em 2010, sendo que as exportações e importações dos países desenvolvidos cresceram, respectivamente, 13,0% e 11%, ao passo que dos países emergentes cresceram, respectivamente, 17% e 18%. (ver o relatório da OMC sobre o comércio mundial em 2010)

Não obstante o dinamismo econômico, os indicadores sociais, na maioria dos casos, deixam a desejar. O Estado cresce de maneira descolada da sociedade e a distribuição da riqueza do crescimento não se traduz de maneira efetiva. Para se ter uma ideia em números absolutos, de acordo com a publicação da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) intitulada “Plano Brasil 2022”, houve um aumento incessante da distância entre os países desenvolvidos e os emergentes. Tendo por base os oito principais países desenvolvidos no mundo (EUA, Canadá, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Japão e Austrália), em 1988, a renda per capita média era de US$ 18.224, e a renda média dos oito principais países emergentes (China, Índia, Brasil, Indonésia, México, Argentina, Rússia e África do Sul), era de US$ 1.325. Em 2008, o número dos primeiros subiu para US$ 43.445; o dos segundos, para US$ 6.215. A diferença passou de US$ 16.889 para US$ 37.320.

Economicamente, os países emergentes vão se firmando no cenário mundial e enfrentarão o grande desafio de distribuir riqueza entre sua população que, agora, está se estagnando. Na China, para exemplificar, a população deve envelhecer antes de se tornar rica. Ou podem as pessoas morrer de fome antes de ter dinheiro para comer: atualmente, há 925 milhões de subnutridos no mundo, dos quais 906 milhões estão em países emergentes e em países pobres. Por sua vez, os países desenvolvidos melhoraram seus indicadores sociais, mas, neste ambiente de crise, enfrentam o desafio de manter tais indicadores sem ter dinheiro suficiente para fazê-lo. A grande questão é como distribuir a riqueza quando ela decresce, e isso começa com a decisão sobre qual área cortar os gastos públicos (educação, saúde, previdência, etc.) ou a quem tributar.

Por enquanto, são tempos de mudança, intensos e extensos. Para os emergentes, é uma oportunidade histórica para alcançar, não apenas números abstratos, mas melhorias reais de vida para seus habitantes. “Que seja eterno enquanto dure”, como disse Vinícius de Moraes, pertence ao domínio do amor. Na política, o amor cego e intenso pela duração compromete a perpetuação. Os países emergentes não podem se entregar aos deleites do presente, do contrário, não haverá uma mudança de tempos e um reordenamento concreto do mundo. Ruim para as sociedades, ruim para a dinâmica das relações internacionais…

Sugestões de leitura: 1, 2 e 3.


Categorias: Brasil, Economia, Política e Política Externa


Outono árabe

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A primavera árabe já virou um outono?

Tivemos um fim de semana sangrento por aqueles lados. No Egito, confrontos entre minorias cristãs e muçulmanos que se seguiram a um grande protesto renderam cerca de 30 mortos. Segundo as autoridades, foram os manifestantes que começaram. Já os manifestantes afirmam que era uma passeata pacífica e que foram atacados por bandos armados e pelo exército. O fato é que o Egito, desde que removeu Mubarak do poder, ainda está enfrentando questões internas graves de segurança, com divisões sectárias que eram controladas pelo antigo ditador, e parece que ainda não consegue decidir que forma seu novo governo vai possuir. O mais provável é que o poder continue nas mãos dos militares (que foram o elemento-chave na derrubada de Mubarak). Por mais que os manifestantes da Praça Tahir quisessem mudanças, democracia não parece ser o resultado disso em curto prazo…

Agora, esse lance de passeatas pacíficas sendo atacadas pelo governo, não parece familiar? Quem soube minimamente do que se passou no Bahrein vai reconhecer essa situação. Naquele pequeno país, manifestantes pacíficos foram violentamente massacrados e perseguidos (inclusive os médicos que tratavam dos feridos), com apoio de tropas sauditas e de outros países do Golfo, e a situação continua até hoje. Isso pode ser visto em um documentário polêmico e chocante que chegou a causar um mal-estar diplomático entre o Bahrein e o Qatar, sede da emissora. (Se tiver algum tempo livre, veja o vídeo completo aqui.)

Podemos imaginar que algo semelhante (ou pior!) acontece na Síria, onde falta de informação torna o número de mortos mais impressionante. Lá, onde milhares de pessoas já morreram nos protestos, agora há o risco de guerra civil iminente – após o governo massacrar civis, é a vez de milícias de oposição enfrentarem tropas do governo diariamente. Parece que, quando a coisa aperta, os revoltosos acabam se radicalizando.

Duas coisas que aprendemos com essa situação de repressão governamental. A primeira, é que os países desenvolvidos estão pouco se importando com a questão democrática dessas revoltas. Na Líbia, houve a intervenção (desastrada, diga-se de passagem) por conta de fatores econômicos sob risco iminente que pesavam para os interesses europeus. Na Síria, por mais que haja retórica contra o “tirano”, interesses sino-russos impedem ações práticas. E as demais revoltas, como no Bahrein, foram ou continuam sendo simplesmente ignoradas.

A outra, é que com a repressão nos protestos em andamento, e o aparente insucesso das que deram certo (Egito, Tunísia, Líbia), a “primavera árabe” parece cada vez mais um evento isolado, algo como fogo de palha. Nosso colega Mário Machado disse certa vez que não gostava de se referir a essa onda de protestos como “primavera” dada a carga negativa de insucessos que esse tipo de predicado teve em revoluções no passado. Pelo jeito, não estava enganado, e pode ser que na prática não passem disso, uma simples onda…


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Há um ano...

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O 30 de setembro de 2010

Um ano depois dos lamentáveis eventos no Equador, pouco foi esclarecido. A versão oficial segue sustentando que houve uma tentativa de golpe de Estado. De concreto, cabe destacar os processos judiciais contra três figuras importantes da revolta: César Carrión (acusado de tentar assassinar Rafael Correa), Fidel Araújo (suposto organizador do movimento) e Rolando Tapia (acusado de atentar contra a segurança interna do Estado). Por outro lado, as famílias das 10 pessoas mortas naquele dia ainda esperam a finalização do processo e a responsabilização dos culpados.

Curiosamente, poucos dias antes da sublevação policial, havia publicado um post contando um pouco da recente história equatoriana, marcada pela instabilidade e por bases democráticas pouco consolidadas. Correa foi justamente o presidente que conseguiu quebrar este ciclo, construindo uma forte coalizão que consubstanciou seu projeto de revolução popular. Como em outros movimentos que dizem defender os direitos dos que mais precisam, enfrentou resistências de diversos setores. Há os que amam o presidente e há os que o odeiam, poucos são indiferentes. Sua forma de governar desperta conflitos e seu projeto cidadão não é unânime.

Ainda que sob controle, a instabilidade voltou por um dia, relembrando os equatorianos de tempos mais sombrios. Tudo começou com a aprovação de um projeto que incidia sobre alguns direitos dos servidores públicos. Por alguns bônus cortados, teria iniciado a movimentação de setores dos policiais e militares, que culminou na sublevação do 30 de setembro. Aí reside a principal fonte da discórdia entre analistas. Teria sido uma revolta corporativista contra a nova lei aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente? Ou, foi um movimento, ensejado por forças políticas somadas a um grupo de policiais e militares, que tentou tomar o poder à força?

Apesar de não esclarecido, o dia ficará marcado por mudanças importantes. Correa saiu fortalecido, apoiado pela UNASUL e por movimentos populares, viu sua retórica ganhar um importante aporte. De fato, agora ele podia apontar uma ameaça tangível para defender que a democracia ainda está em jogo no Equador e, mais que isso, que existem forças tentando voltar ao passado. Assim, pôde fortalecer sua cruzada contra a mídia, denunciar setores retrógrados dentro da oposição e consolidar a revolução cidadã, para a qual parece não existir mais volta. Caso volte a ocorrer algo similar, o Correa deixou claro “Daqui saio como presidente ou cadáver, mas jamais abriremos mão de nossos princípios”.

Resta saber se esta é uma referência à auto-proclamada revolução cidadã ou ao projeto de poder iniciado em 2008 com a nova constituição do país. Afinal, o que são princípios mesmo?


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O embalo da popularidade…

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“Shakira vira assessora de Barack Obama”. Aos desavisados essa frase que percorreu os noticiários dessa semana pode parecer, no mínimo, estranha. Contudo, o fato é que a Casa Branca anunciou mesmo que a estrela latina fará parte de uma Comissão Presidencial voltada ao desenvolvimento de projetos na área de educação para a população hispânica nos Estados Unidos.

Parece que, no embalo da Shakira – cujos hits e carisma têm conquistado multidões nos últimos anos – Obama tenta também retomar sua popularidade com o eleitorado latino. Realmente, o atual momento político do presidente norte-americano não é dos mais favoráveis. E, na medida em que 2012 é ano eleitoral, os democratas (partidários de Obama) entendem que a aproximação com a população latina que reside no país poderá constituir o diferencial para a possível (apesar de hoje não muito provável) reeleição do presidente.

Vários são os aspectos reivindicados pela população latina – e prometidos durante a campanha presidencial há três anos – que ainda permanecem sem encaminhamento, tais como a reforma nas leis de imigração, o Dream Act, a geração de empregos e a qualidade da educação, por exemplo (mais detalhes aqui). O fato é que “Obama terá trabalho para ganhar os votos latinos”.

Impossível, pois, não vincular a nomeação de Shakira a essa demanda de Obama por popularidade junto ao principal “público” da cantora. Em verdade, não se pode deixar de mencionar que Shakira desenvolve projetos muito importantes e reconhecidos internacionalmente no que se refere à educação na América Latina. Sua ONG Pies Descalzos é um exemplo de trabalho filantrópico, e a colombiana foi recentemente também nomeada embaixadora da Boa Vontade da Unicef, órgão das Nações Unidas responsável pela defesa e promoção dos direitos infantis. A nomeação, pois, se justifica não apenas em termos midiáticos, mas também pela coerência da postura da cantora nestas questões. Obama não poderia ficar mais satisfeito!

A midiatização natural dessa nomeação não poderia ter sido mais expressiva no cenário internacional em geral. Resta visualizar efetivamente quais serão os reais impactos deste ato político na vida prática e no incremento real das políticas educacionais para a população latina nos próximos meses…


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I Conferência Conjunta História- Relações Internacionais sobre Integração Latinoamericana

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Os povos que não se conhecem devem ter pressa em se conhecer, como aqueles que vão lutar juntos. Os que se enfrentam como irmãos ciumentos, (…) devem dar as mãos para que sejam um só. (…) as árvores devem formar fileiras, para que não passe o gigante das sete léguas! É a hora da avaliação e da marcha unida, e deveremos marchar bem unidos, como a prata nas raízes dos Andes.” (José Martí, Nuestra América, 1891).

Caríssimos leitores,

Gostaríamos de convidar a todos para participar da primeira conferência conjunta de História e Relações Internacionais da UNESP – Franca sobre a temática da integração regional. Contaremos com ilustres presenças de palestrantes especialistas na temática da UNESP e de outras grandes universidades.

Segue, abaixo, mais detalhes sobre o evento:

Data: 18, 19 e 20 de Outubro


Local: Faculdade de Ciências Humanas e Sociais – UNESP Av Eufrásia Monteiro Petráglia, 900 – Franca/SPInscrições: 10,00 (conferência + mini-curso) 15,00 (apresentação de trabalho) http://integracaolatinoamericana.wordpress.com/


Programação:

MESAS-REDONDAS (19h00)

Anfiteatro II

18/10 – A América Latina enquanto bloco cultural e político

Prof Drª Regina Laisner (UNESP- Franca)

Prof Dr Renato Braz Oliveira de Seixas (USP)

Prof Dr José Luis Beired (UNESP- Assis)

19/10 – Imperialismos e dependência – a união latinoamericana como estratégia de superação

Prof Dr Alberto Aggio (UNESP- Franca)

Maria Silvia Portela de Castro (Secretaria de RI da CUT/ Mestre pela USP)

Prof Dr Pio Penna Filho (UnB)

20/10 -Tentativas e Perspectivas da Integração Latinoamericana

Prof Dr Augusto Zanetti (UNESP- Franca)

* Esperando confirmação de Marco Aurélio Garcia (Assessor Especial da Presidência para Assuntos Internacionais) e de Joaquim Pinheiro (Coletivo de Relações Internacionais do MST).

MINI-CURSOS (9h00 – 12h00)

Salas de aula

1) Movimentos Sociais na América Latina – Gonzalo Berrón (Secretaria de RI da CUT/ doutor em Ciência Política pela USP)

2) As questões ambientais na integração latino-americana: das disputas por recursos naturais à cooperação ambiental – Fernanda Mello Sant’Anna (Doutoranda em Geografia pela USP)

3) O Plano Colômbia na relação Colombo-Equatoriana: Estados e fronteiras – Laura Gonzalez (Antropóloga, Mestranda pelo Progama Santiago Dantas)

MOSTRA DE CINEMA LATINOAMERICANO (14h00 -17h00)

Anfiteatro da biblioteca

SESSÃO DE COMUNICAÇÕES (14h00 – 17h00)

Salas de aula

(As inscrições de trabalhos estão abertas. Veja informações em http://integracaolatinoamericana.wordpress.com/)


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Velhos caminhos com novas palavras ou novos caminhos com velhas palavras?

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Há um tempo temos ouvido várias análises sobre a forma que a presidente Dilma tem conduzido a política externa. Análises que oscilam entre os extremos da total ruptura com o governo anterior até uma simples mudança de governante. Nesse contexto de muita dúvida e muita discussão, constantemente pergunta-se: está bem, mas se algo mudou em tão pouco tempo, o que foi, e o que de fato poderia mudar?

Uma questão bem difícil de responder. Mas podemos tentar dar algumas indicações. Na política externa brasileira existe uma linha que vem sendo seguida e mais desenvolvida desde os dois últimos anos do governo FHC. Baseada na ideia de que o Brasil tem que inserir internacionalmente não só pela participação e defesa de posturas multilaterais, mas sim advogando um multilateralismo que garantisse direitos iguais a todos e exigisse o mesmo de todos. Uma forma bem propositiva de se inserir.  

Essa abordagem foi gestada pelo Itamaraty ao final do governo FHC e foi levada a diante por aquele toque de diplomacia presidencial (de presidente fazendo papel de diplomata e defendendo os interesses do país mundo afora). Bom, a partir de Lula isso foi levado mais adiante ainda. Da iniciativa de criação do G-20 (representante dos países em desenvolvimento) no governo anterior, ao reconhecimento deste como um dos principais foros de discussão de questões mundiais de agricultura da OMC. De um Mercosul institucionalizado, para uma nova integração política, a Unasul.  

Agora, tendo isso claro, é aí que começam de fato as perguntas. Ora, pode-se seguir uma mesma abordagem e chegar a lugares diferentes. Como há muito tempo já disse Rousseau, pelos mesmos caminhos nem sempre se chega aos mesmos fins. Se Lula, fazendo uso de tantos improvisos e declarações polêmicas, foi capaz de imputar maior importância à aliança com países em desenvolvimento, a famosa relação “Sul-Sul”, Dilma não tem sido diferente.

Defendendo ainda a reforma dos grandes organismos internacionais, advogando formas alternativas de solução dos problemas que não sejam a força (por isso absteve-se na questão do uso da força militar na Líbia) e relações mais próximas e coordenadas com os BRICs e os IBAS, mantém a mesma lógica do governo anterior. Talvez, pudéssemos dizer que o campo dos direitos humanos seja de fato uma nova postura. O Brasil, anteriormente, apenas abstinha-se em votações sobre violações em países autoritários e hoje já demonstra uma posição diferenciada. Até mesmo votou a favor de maior fiscalização no Irã no Conselho de Direitos Humanos.

Bom, tentando responder as perguntas do começo, vale lembrar que nada é certo e que há apenas pistas que podem levar a conclusões diferentes. A questão é que, ao que parece, temos muito mais do mesmo. Até agora parece que existem algumas diferenças mais na gestão pessoal dos presidentes e na abordagem de direitos humanos. Apesar de termos indicações e precisarmos de mais tempo para avaliar, ainda cabe a pergunta: seriam os velhos caminhos com novas palavras ou novos caminhos com velhas palavras?

[Aos que se interessarem, seguem links de artigos de opinião sobre o assunto: 1, 2, 3, 4]


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