Há um ano...

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O que Cristina Kirchner, a Política Externa Brasileira, a Estação Espacial Internacional e um livro de George Bush têm em comum? Bem, eles eram tema de nosso blog há um ano!

No final de Outubro, postagem da Bianca comentava como Cristina Kirchner tinha uma missão árdua pela frente – com a recente morte de seu marido, o ex-presidente Nestor Kirchner (que por sinal completou um ano no último dia 27), a presidente argentina deveria mostrar a que veio e “construir a identidade própria de seu governo”. Aparentemente, um ano depois, ela conseguiu – não apenas desenvolveu um estilo bastante midiático e popular, como leva o país a uma onde de recuperação econômica e conseguiu se reeleger para mais quatro anos (completando 12 anos ininterruptos de “kirchnerismo”).

Em seguida, um post da Andrea abordava a questão da política externa brasileira no contexto das eleições presidenciais de então. O grande debate era sobre os rumos que nossa política tomaria a depender do candidato que fosse eleito, e como o tema fora tratado em campanha – via de regra, de modo superficial. Ainda é muito cedo para avaliar de maneira mais profunda o atual governo nessa área, contudo, o primeiro ano de governo Dilma parece demonstrar certa mudança com relação ao anterior. O tratamento de temas como Direitos Humanos parece diferenciado, e muito mais que um país emergente em busca de novos aliados e oportunidades, agora o Brasil parece ter se estabelecido quanto a um papel de destaque (já se fala em figurar entre as seis maiores economias do mundo dentro de 15 anos por causa da crise econômica europeia, ultrapassando até mesmo a Alemanha) e enfrenta o desafio de manter essa dinâmica.

No dia 1º, este que vos escreve comentou sobre a comemoração dos dez anos da Estação Espacial Internacional, e como essa empreitada é um esforço internacional de cooperação muito bem-vindo. Um ano depois, as coisas não andam tão bem – nesse meio tempo as cápsulas russas que enviariam suprimentos sofreram com problemas no lançamento e as “entregas” estão atrasadas, e já se fala em planos de emergência para abandonar a estação e deixá-la no “piloto automático” por falta de suprimento pros astronautas. Enquanto isso, os EUA parecem cada vez menos inclinados a fazer missões espaciais, o programa do ônibus espacial foi encerrado definitivamente, e o programa espacial chinês continua evoluindo a todo vapor. Ao mesmo tempo, a agência espacial européia e a Rússia buscam prorrogar o período de atividade da ISS (para além de 2015), o que vem em boa hora. Agora que a humanidade chegou a 7 bilhões de habitantes, talvez seja a hora de considerar seriamente a possibilidade de mandar pessoas pro espaço (literalmente) em um futuro próximo, e estudos como os da ISS são fundamentais para isso…

No dia segunte, o Giovanni fazia uma brincadeira com o halloween e festas juninas para tratar de um assunto sério, o envio de pacotes-bomba para embaixadas e representações em países europeus. Aparentemente, foram motivados pela crise econômica e social, não tiveram vítimas graves. Mas hoje os países da UE enfrentam situação bem pior, com uma bomba ainda mais destrutiva em suas mãos, que é a crise econômica cujo remédio é amargo e vai trazer insatisfação ainda maior, com protestos crescentes e uma crise institucional que põe em risco a própria sobrevivência do bloco.

Por fim, no dia 3, o Raphael comentava do lançamento do livro de George Bush explicando (e justificando…) suas traquinagens ao longo de 8 anos de Casa Branca. O tema era muito mais sobre persuasão e como exercer outras formas de poder, indiretas, mas não menos efetivas. E o tema não seria menos atual – basta tomar o caso da Wikileaks. Aquele site amado por muitos, temido por tantos outros, que estava desvelando segredos e escândalos internacionais, dos mais divertidos aos mais aterradores, vai muito provavelmente encerrar suas atividades por tempo indeterminado pelo simples fato de que não consegue se manter. A falta de fundos foi imposta por um bloqueio sistemático de operadoras de cartões e outras empresas a suas fontes de financiamento. Somado às suspeitas acusações contra seu criador que renderam um processo judicial na Suécia, vê-se que existem formas muito sutis – mas não menos efetivas – de exercer poder e enfrentar “ameaças” aos Estados (além de abrir um precedente terrível contra a liberdade de circulação de informação…).

Enfim, post longo, mas com assuntos instigantes, e mostra como a atualidade ainda reflete de maneira profunda eventos não tão distantes. Afinal, é pra isso que temos essa seção – e vamos que vamos, postando e relembrando…


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A volta dos esquecidos

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A semana que chega ao fim serviu para reavivar antigas questões da recente história latino-americana. As ditaduras militares que viveram países de nossa região estão sendo revisitadas, apesar de terem sido alvo de anistias. Trata-se de uma ferida aberta, não esquecida e que ainda alimenta a revolta de muitos. O caminho rumo à democratização foi tortuoso, tendo exigido uma contrapartida inicial sacrificante.

No caso brasileiro, o último presidente militar, João Figueiredo, sancionou a Lei da Anistia em 1979. O seu caráter “amplo, geral e irrestrito” foi duramente criticado, na medida em que teria atendido aos interesses do próprio regime. Assim, não houve, por exemplo, indenizações às famílias das vítimas daquele período. Nosso caso não é exclusivo. Argentina e Uruguai traçaram caminhos similares. Contudo, nossas trajetórias já estão separadas. Nossos vizinhos em questão já revogaram estes dispositivos.

Na noite de quarta-feira, a Argentina viu as sentenças de 18 militares acusados de 86 crimes contra a humanidade, por fim, chegarem. A condenação mais esperada (e celebrada) foi a de Alfredo Astiz, o “anjo loiro da morte”. Entre diversos depoimentos, os requintes de crueldade contrastavam com a convicção de alguns condenados, como se obedecer a ordens justificasse a desumanidade. Já no Uruguai, a Câmara de Deputados aprovou a lei que põe fim à anistia concedida aos militares que cometam crimes contra os direitos humanos durante a ditadura no país. Alguns deles já foram condenados pela Justiça uruguaia.

No Brasil, a presidente Dilma afirmou que a nossa Lei da Anistia é intocável, a despeito de críticas da Anistia Internacional e do Comitê de Direitos Humanos da ONU. Desta maneira, em um primeiro momento parece pouco provável que o Brasil volte a unir-se ao caminho escolhido por argentinos e uruguaios. Em todos os casos, o pós-ditadura militar foi marcado pela anistia, que tentava fechar um capítulo da história para abrir o seguinte. Logo, as pressões e escolhas políticas levaram Argentina e Uruguai a buscar seus arquivos e julgar devidamente seus culpados.

Para boa parte dos brasileiros a ditadura representou um período sombrio, mas finalizado. Por outro lado, os vitimados que sobreviveram aos abusos parecem pouco dispostos a esquecer definitivamente de tudo. Através da Comissão da Verdade, aprovada pelo Senado Federal também na quarta-feira, e do fim do sigilo eterno de documentos, que espera sanção da presidente, o Brasil enveredará pelos registros de sua história em busca de violações. Resta saber se somente a revisitaremos ou se os esquecidos terão, finalmente, justiça. Seguiremos nossos vizinhos ou deixaremos a ferida como está?


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“Educação é direito humano, não serviço”

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“Educação é direito humano, não serviço”. Esta frase foi proferida em 2008 por Vernor Muñoz Villalobos, então relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) pelo Direito à Educação, e certamente é atemporal, universal e incontestável. Entretanto, alguns serviços estatais estão diretamente relacionados ao bom andamento da Educação em cada país e a polêmica deste ano em torno do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deixa novamente claro o despreparo do Brasil no que se refere a esta temática.

Aliás, polêmicas envolvendo o Enem têm sido recorrentes desde 2009, quando o formato da prova se alterou para uma espécie de “vestibular nacional”, possibilitando o acesso direto à maioria das universidades públicas do país. Roubos de provas, cancelamentos, atrasos e reimpressões… a lista de problemas é enorme e a falta de organização notável. Neste ano de 2011, a controvérsia envolve uma série de questões a que estudantes de um colégio cearense teriam tido acesso em um simulado no começo do mês e que estavam idênticas às da prova do último final de semana.

Desta forma, o princípio de que todos os estudantes teriam as mesmas condições de realização do exame foi violado, gerando revolta e indignação no país (foto). Há inclusive a chance de cancelamento da prova nos próximos dias, dado que não é possível calcular exatamente a extensão desse “vazamento de informações”, bem como suas consequências…

De fato, não se pode negar que o porte do exame é enorme, mas o orçamento para sua realização também é, bem como sua importância para milhões de estudantes anualmente. Como explicar tantas e tão recorrentes falhas nacionais a este respeito? Apesar do atual desenvolvimento econômico acelerado do Brasil, a cada ano a credibilidade do governo no que se refere à educação sofre baques inestimáveis.

O Plano Nacional de Educação (PNE) está em fase final de elaboração e é bastante ousado, estabelecendo metas importantes para a próxima década. Estima-se um grande aumento no investimento em Educação, priorizando a área – a qual está, sem dúvida, diretamente relacionada à construção das bases para que o crescimento nacional seja sólido e sustentável no longo prazo. A pergunta que não quer calar é: se os problemas insistem em aparecer a cada ano em tantas situações (a realização do Enem é uma delas), quais as chances de efetivamente estas metas saírem do papel e alcançarem as salas de aula de todo o país?

Exemplos bem-sucedidos de outros países no que se refere a políticas educacionais demonstram que o ensino básico e a valorização do papel dos professores são fatores essenciais, sendo que as reformas levam anos para produzirem frutos visíveis. Para melhorar a qualidade de vida e diminuir a desigualdade, a Educação também é considerada pela ONU como um dos pilares em que o Brasil deve investir. Em teoria, todos (?) sabemos e concordamos com isso, o desafio é colocar em prática ações concretas.

O momento global é de reflexão. Somos (quase!) 7 bilhões de pessoas no mundo e o papel da formação educacional se mostra cada dia mais relevante para a criação de ferramentas e condições de sobrevivência em um mundo totalmente interconectado. Visualizar, portanto, a Educação como um direito (e por que não também um dever?) humano é essencial para que possamos evoluir como pessoas. E como país…


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You say goodbye and I say hello

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A belíssima canção dos Beatles diz muito sobre as incertezas atuais que acometem a redistribuição global e regional do poder. Isso passa por três questões fundamentais: que papel os Estados Unidos exercerão ou deixarão de exercer no mundo? O que querem os países emergentes ou os surpreendentes (como o Irã)? Quanto tempo a Europa levará para superar sua crise interna? Uns dizem adeus, outros dizem olá.

Alguns pontos relevantes para a discussão:

1) Na última sexta-feira, dia 21, o presidente Obama anunciou a retirada definitiva das tropas norte-americanas do Iraque, mas disse que a porta do país estará sempre aberta aos Estados Unidos. Quais serão as repercussões disso?
2) De acordo com a publicação intitulada “Global Trends 2025: a transformed world”, do National Intelligence Council (NIC), um centro de estudos norte-americano, ocorrerá uma transferência sem precedentes do poder econômico e da riqueza relativa do Ocidente para o Oriente nos próximos anos. O que isso representa para o mundo?
3) Alemanha e França tentam, a todo custo, salvar a zona do euro, embora não estejam em perfeito acordo sobre a salvação da Grécia. E quando outro país, talvez Portugal ou Itália, cair, como será? O que serve para a Grécia aplica-se a outro? Em que medida a crise europeia se alastrará pelo globo? (Acompanhem este artigo de Paul Krugman)

Com estes três pontos, torna-se inevitável a pergunta, baseada em afirmação categórica de Philip Zelikow, em artigo para o Financial Times, no mês de agosto: é o fim de uma era global? Para Zelikow, as políticas externas se converteriam em ajustes das políticas domésticas, não só nas grandes potências, como também nas potências emergentes. Notem os exemplos: os Estados Unidos deixarão o Iraque em definitivo, a China se diz preocupada com o desenvolvimento socioeconômico interno e a Europa lida com uma crise interna. Qual a margem para a atuação internacional dos países?

Certamente, ao contrário do que prevê Zelikow, não é o fim de uma era global, mas um período de mudanças significativas. A democracia, como é sabido, não chegou pelas bombas no Iraque. Matar Saddam Hussein, e agora Muamar Kadafi, está longe de ser um sinal de novos tempos de bonança. Retirar as tropas em um país que vive surtos de estabilidade e segurança, desarrumado após sete anos de guerra, pode significar a eclosão de conflitos étnicos e religiosos. Isso para não dizer sobre a projeção estratégica do Irã no país, que já detém forte influência sobre as forças policiais iraquianas e a população xiita. Aliás, em grande medida, a não-intervenção na Síria deve-se ao temor aos iranianos no Oriente Médio. Experimentem as grandes potências bagunçar mais um país para ver onde a região vai parar. Os Estados Unidos dizem adeus, o Irã, olá. (Vejam a análise de George Frideman)

A China também diz oi, o que não é novidade para ninguém. Mas seria ilusório acreditar que a inserção internacional chinesa é pacífica e que serve ao propósito exclusivo do desenvolvimento interno. A verdade é que a China ainda não foi testada para saber até onde vai seu pacifismo. Com uma estimativa diminuída do crescimento econômico e a escassez de recursos vitais ao seu desenvolvimento, é que o mundo conhecerá o que o país realmente quer. Os Estados Unidos dizem cada vez mais olá para a China e, no próprio artigo que Hillary Clinton escreveu para a Foreign Policy, consta que será a opção estratégica norte-americana para o século XXI. Nas palavras de Clinton, “The Asia-Pacific has become a key driver of global politics”.

Muita coisa está para acontecer. Por enquanto, cabe a nós, analistas e aficionados em relações internacionais, debater quem entra e quem sai do palco principal da política mundial.


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Mais eleições

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No ano passado, eu até brincava com o fato de termos tantas postagens sobre eleições por conta das que ocorriam mundo afora. Pra não perder o costume, hoje vamos falar não de uma, mas duas, que movimentaram o noticiário internacional nesse fim de semana – e que sem dúvida são bastante importantes, cada uma a seu modo.

Primeiro, vamos ao caso mais próximo, na Argentina, onde a eleição presidencial rendeu a Cristina Kirchner mais um mandato. É simplesmente o caso de continuidade no poder mais longo na Argentina nos últimos 150 anos – contando com os mandatos do falecido Nestor, que era o verdadeiro articulador do governo de sua esposa até sua morte, vão ser 12 anos ininterruptos de “kirchnerismo”. Claro que o recorde pode ser quebrado se a base governista conseguir implantar uma reforma constitucional – já se fala em reeleições a perder de vista.

É complicado pensar em como isso afeta nossos vizinhos e seu futuro – Cristina passa por uma onda de boa sorte, com popularidade em alta (muito disso devido à morte de seu marido?) e a Argentina saindo dos anos de trevas do começo do século XX com o bom preço das commodities e consumo em expansão. Mas até quando? Basta pensar que crescimento ancorado em consumo não teve a melhor das conseqüências nos EUA, quanto mais na Argentina. E tudo isso regado em denúncias de corrupção e de perseguição à mídia “independente”. Ninguém é santo nessa história, mas Cristina cada vez mais consolida um modelo de governo meio popularesco e gradualmente centralizador que não traz boas lembranças ou resultados…

Acham que isso pode ficar feio? Na Tunísia, as coisas não são melhores. As eleições parlamentares de sábado ainda não tiveram resultado definitivo divulgado, mas a expectativa é que o partido moderado, o Ennahda, leve a melhor. Como isso pode ser ruim, no país que inaugural a danada da “primavera árabe” e onde se vê o primeiro resultado prático dela? O problema é que todo o processo eleitoral está sendo muito conturbado, com denúncias de corrupção, financiamento de países do Golfo e, principalmente, falta de identidade política. Não se vê um “projeto” de governo para o país, e as tensões mais diversas, de religiosas a políticas, começam a pipocar.

Esse é o drama dos países do Oriente Médio onde as “revoluções” deram certo (ou ao menos, tiraram os ditadores do poder). A coisa que unia esses movimentos era justamente a oposição aos governantes. Como eles fora do caminho, começa a luta interna pelos espólios – na Tunísia, completa discordância sobre os rumos a se tomar; no Egito, os militares não largam o osso até segunda ordem (as eleições de novembro); e na Líbia, que hoje vive no caos, é duro ver uma possível democracia que nasce com um assassinato covarde sem conseguir garantias mínimas de um Estado de direito.

Aliás, não estaríamos errados justamente em pensar nesses movimentos como democráticos, quando na verdade eram apenas reivindicatórios? A mídia e governos ocidentais exaltam o teor democrático deles, mas não seriam apenas movimentos coordenados por uma causa comum, com dinâmicas regionais e internas próprias, e que no fim das contas não têm nenhum interesse em desenvolver algo como a democracia entendida pelos ocidentais? Isso sem falar em como os regimes conservadores se fecharam ainda mais ou aumentaram a repressão para evitar problemas. Dá o que pensar, e é mais um balde de água fria para aqueles que esperavam uma revitalização democrática nos regimes da região.

A discussão não para aqui. Eleições podem ser tanto termômetros de situações correntes quanto sinais de mudanças. Ainda esse ano, esperam-se eleições no Egito, e ano que vem, na Líbia, além da corrida presidencial nos EUA, só para ficar nas mais esperadas. Fiquem ligados.


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Fim?

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Um já fragilizado grupo separatista ETA, reconhecido como terrorista por europeus e norte-americanos, anunciou o fim definitivo de suas atividades armadas. Desde sua fundação o em 1959, durante a ditadura de Franco na Espanha, empunhou a bandeira do separatismo para os territórios bascos (norte da Espanha e sudoeste da França). Em seu início, pregava a formação de uma organização clandestina e revolucionária. Contudo, ficou marcada pela grande violência de suas ações terroristas. O grupo fez mais de 800 vítimas.

A luta de Espanha e França contra o ETA fragilizou suas atividades, mas os ataques continuaram. O grupo chegou a anunciar suspensões temporárias, as quais não levaram ao final definitivo de suas atividades armadas. A mais recente comunicação do grupo, a despeito do ceticismo de alguns, marca uma posição definitiva com relação à prevalência do diálogo político ante a luta armada pela causa basca. Já a promessa do ETA de findar as ofensivas ainda terá de ser observada na prática.

Apesar de enfraquecido, o grupo poderá criar implicações no cenário político espanhol. A esquerda, acusada de proximidade com ETA, poderá ver acusações da direita cessarem. Nada que mude, no entanto, significativamente o jogo político atual no país, já que frente problemas econômicos e sociais crescentes, o terrorismo deixou de ser a principal preocupação. Neste caso, a liberdade é o mais significativo. Pode-se dizer, caso confirmada a promessa do ETA, que o país sairá da sombra, representada pela ameaça constante do terrorismo.

O ex-prefeito de San Sebastián, um das cidades mais afetadas pelo terrorismo do ETA, definiu o sentimento:

“Somos livres. Eu olho para vocês e não vejo mais ninguém com a necessidade de olhar para trás ou debaixo de seu carro, que algo ruim possa lhe acontecer na saída deste ato. É claro que as coisas mudaram. Sabem como se chama isso? Liberdade” (em tradução livre) 

Resta saber o que será feito dos membros restantes do grupo. Os que sofreram com mais de quatro décadas de ataques certamente não esquecerão, tampouco parece existir arrependimento por seus perpetradores. Ainda assim, mais um exemplo que a violência não levou a consubstanciação da causa original. O problema ainda não acabou. Zapatero, tal qual Obama com relação à Bin-Laden, certamente colocará em seu crédito político o final da atividade armada do ETA, mesmo sem a garantia do fim realmente definitivo.

Fonte foto


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Continente estratégico

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Em meio à enxurrada de manchetes internacionais sobre a (polêmica) morte do ditador Muammar Kaddafi no dia de ontem, ao mesmo tempo em que os noticiários nacionais mais uma vez se veem diante de denúncias de corrupção no governo – desta vez em relação ao Ministério do Esporte; eis que a presidente Dilma retorna de sua primeira viagem oficial ao continente africano.

E a viagem foi marcante, reforçando a importância da cooperação entre os países emergentes. A reunião do Fórum Ibas (que reúne Índia, Brasil e África do Sul) buscou arquitetar o discurso entre os parceiros para a reunião do G-20 que se aproxima, ao reafirmar a relevância de um posicionamento coordenado, muito mais expressivo que posicionamentos separados sobre as questões e os desafios que são comuns.

Após passar pela África do Sul, por Angola e por Moçambique, a delegação brasileira retorna ao Brasil com perspectivas renovadas de cooperação Sul-Sul. Em Angola, o volume de investimentos brasileiros (majoritariamente privados, mas em consonância também com os interesses governamentais) já chega à casa dos R$ 7 bilhões – uma alta cifra de acordo com os interesses econômicos brasileiros internacionais, mas que também visa beneficiar o desenvolvimento local com a injeção de capital, como se ressaltou em Moçambique.

Segundo Hillary Clinton, Secretária de Estado norte-americana, o diferencial do Brasil (ou melhor, dos países emergentes em geral) tem sido “colocar a economia no centro de sua política externa”. De fato, o atual momento reflete um planejamento econômico em que o Brasil se afirma como um ator estratégico no cenário global, e os contatos internacionais apenas reforçam esta perspectiva. Mais do que isso, é importante ressaltar o fato de que o Brasil tem se atentado à valorização das parcerias entre os países emergentes e africanos, o que proporciona um rol de possibilidades ainda imensuráveis, mas certamente estratégicas neste século.

Resta saber se, diante das nossas próprias dificuldades e nossos desafios internos de desenvolvimento (que não são poucos!), estamos efetivamente preparados para assumir as responsabilidades globais que se acumulam rapidamente e são intrínsecas às benesses de sermos considerados o tão comentado “país do futuro”


Categorias: África, Brasil, Economia


Herois e Bandidos

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A história é escrita pelos vencedores. Essa famosa frase de George Orwell tornou-se quase que uma cláusula pétrea para muitos. Mas quais seriam essas personagens? Bom, seriam os que ganharam as guerras, aqueles que vieram a ditar valores morais, éticos, comerciais e etc. Há quem diga, “ah, mas princípios e valores são construídos!”. Sim, de fato são, só que sua difusão tende a dar-se sob os auspícios desses tais vencedores.

Está bem, mas por que estamos falando disso tudo? Bom, iremos direto ao ponto. Hoje, o primeiro-ministro do Conselho Nacional de Transição, Mammoud Jibril, declarou que o coronel Muammar Kaddafi foi morto em Sirte, sua cidade natal na Líbia. Um evento que, representou o mais novo capítulo na longa história da Primavera Árabe, abriu também um novo na história líbia (para mais, clique aqui, aqui e aqui)

A morte de Kaddafi não representa o fim de discussões acerca dessa longa guerra civil e sim o início de mais dúvidas e questionamentos. Agora, declaradamente, temos um bandido morto, ou assim será conhecido pela história. E os vencedores, nesse caso, quem seriam? A princípio seria o povo da Líbia. Mas os países ocidentais que participaram da intervenção da OTAN também não poderão ser esquecidos. Devem então ser os herois do nosso episódio.

Sendo assim, uma das principais dúvidas que surgem seria sobre os custos de se esquecer o modo como a queda de Kaddafi ocorreu e de ignorar-se o precedente perigoso que pode abrir para nossos herois das relações internacionais. O fato de terem “vencido” pode acarretar na efetivação de um costume de intervenções, sem que se atente para os problemas e dificuldades dessas ações.

Já há algum tempo que se discute na política internacional o conceito de “responsabilidade de intervir” (do inglês “responsability to protect” ou simplesmente R2P). Esse conceito não possui nem uma década de idade e, a despeito de seu conteúdo já ter sido contemplado em outras ocasiões no século XX, significa que um governo pode ser responsabilizado por não garantir o bem-estar de seus cidadãos, podendo acarretar intervenções militares para proteger o povo. Essa foi a sustentação teórica da atuação da OTAN.

No plano formal, desde 2005 que as Nações Unidas adotaram-no como uma forma de prevenir crimes atrozes (“atrocity crimes”, tradução livre). O que significa que um suposto sucesso da ação na Líbia pode inspirar outras ações do tipo e ainda outros excessos das atribuições garantidas (o que já ocorreu na intervenção da OTAN, na qual foram realizadas ações muito além daquilo deliberado pelo Conselho de Segurança). Por isso, os supostos vencedores do evento e o heroísmo inspirado por eles podem cegar a comunidade internacional para problemas estruturais no concernente às intervenções humanitárias.

Tais ações podem ser capazes de se traduzirem em importantes resultados para algumas populações que são alvo de genocídios ou tragédias humanas. O problema está na falta de regulamentação e na arbitrariedade de seu uso (Por que escolheu-se a Líbia e não a Síria que passa por problemas de porte semelhante?) que pode abrir um precedente perigoso para o Tio Sam, as potências europeias ou mesmo a China e a Rússia saiam intervindo onde entendem que há genocídios ou atrocidades.

Na primavera árabe colhem-se os frutos de muitos anos de germinar das sementes que as grandes potências europeias plantaram (pouco fala-se do amor anterior desses países aos ditadores africanos em xeque nas revoltas). E, atualmente, entre banditismos e heroísmos, tenta-se plantar novos valores e cursos de ação para que os vencedores anteriores continuem vencendo, mudando-se apenas os adversários.

[Para mais sobre a questão do “responsability to protect“: 1 e 2 ]


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


A flor da mocidade

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Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,

E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh, não aguardes, que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza

Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Eis um trecho do poema “À sua mulher antes de casar”, de Gregório de Matos, considerado o maior poeta barroco do Brasil. Não é por acaso que se escolhe o poema e o estilo artístico barroco para este post, cujo objetivo é tratar dos protestos que se disseminam pelo globo e ganham cada vez mais força. Em todos os cantos, há cidadãos lutando contra o trote do tempo, que imprime sua pisada nos sonhos desabrochados da modicidade, sem deixá-los florescer nos jardins de esperança do futuro.

No século XVII, o estilo barroco surgiu de duas crises: a dos ideias e valores renascentistas, oriunda das lutas religiosas e marcada pela Contra Reforma, e a econômica, decorrente da decadência do comércio com o Oriente. Quando se pára para pensar cuidadosamente, observa-se que também há uma crise de ideias e valores, além da econômica, por trás de todos os protestos que sacodem o mundo. Ambas as crises apresentam características intrínsecas ao pensamento barroco, caracterizado pelo culto ao dualismo, pessimismo diante da vida e literatura moralista (em termos contemporâneos, seriam ‘protestos moralistas e educadores’). Autoritarismo x liberdade, capitalismo x (?), bancos x pessoas, são dilemas que se impõe, expectativas que se frustram e gritos que ecoam nas ruas.

O barroco voltou?

Da Primavera Árabe ao Outono Americano (ou “Ocupem Wall Street”), as pessoas contestam o exercício da tirania, muitas vezes imperceptível, da minoria. Ditadores, governantes, banqueiros, corporações, ou seja lá o que for, por toda parte, alguém é culpado por abusar do poder (político, econômico, cultural, etc.) e condenar milhões a uma vida indigna e sofrível. As ideias e os valores historicamente construídos por essa tirana são colocados em xeque, mesmo sem saber que ideias e valores se possam reinventar. Críticas são feitas aos regimes políticos árabes, outras atingem o sistema capitalista ocidental. O consumo não se traduz mais em felicidade e bem-estar, nem a religião traz alívio. As motivações comuns entre os protestos são o desemprego, a falta de moradia, o dinheiro, a fome, entre outras questões que agravam as condições sociais.

O mundo está se transformando em uma grande ágora contemporânea. Da praça Zuccotti, nos EUA, à praça de Tel Aviv, as pessoas acampam e protestam. Elas dormem e acordam em frente ao Banco Central Europeu, em Frankfurt, pedem a reforma do sistema educacional no Chile, enfim, as pessoas querem voz, demonstram sua insatisfação e querem participar diretamente dos governos, excedendo os meros caprichos eleitorais, manifestados pelo voto. Mas elas assustam. Na Inglaterra, foram tachadas como vândalas, desocupadas, para serem reprimidas, assim como são reprimidas nos países árabes. Volta à tona o príncipe maquiavélico, da época barroca, em que é melhor ser temido do que ser amado. Putin já deu o recado na Rússia.

Até quando esta flor da mocidade adornará os campos de penúria que se espraiam? O que esta pintura barroca do mundo sugere? A despeito da participação popular nos rumos de seus respectivos países, o grande desafio é proposicional. Por enquanto, os protestos são marcados pelo que elas se opõem, e não pelo que propõem, alertando os governos sobre suas práticas excludentes. Goza, goza da flor da mocidade, antes de ser acometida pelos passos abrasivos do tempo.

[Artigos interessantes sobre a temática tratada: 1, 2, 3, 4, 5, 6]


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Um por todos, e todos por um

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Quando Alexandre Dumas escreveu “Os Três Mosqueteiros”, nem imaginava que um dia o lema dos seus heróis poderia ser usado para caracterizar uma barganha de vidas humanas. E muitas vidas. Já ouviram falar em Gilad Shalit? Esse é o nome de um jovem soldado israelense seqüestrado pelo Hamas e cuja libertação foi definida após negociações meio ambíguas com Israel, que vai libertar cerca de 1000 prisioneiros palestinos acusados de crimes relacionados ao terrorismo, incluindo alguns que estavam em prisão perpétua. Todos ficam felizes e a vida continua, certo?

Bom, esse expediente de troca de prisioneiros não é coisa nova – teria começado mesmo na Guerra de Secessão dos EUA. Antigamente, prisioneiros eram simplesmente mortos ou vendidos como escravos. Claro que isso não pegaria bem na pátria da liberdade, e como as prisões chegaram a um ponto de superlotação, os comandantes da União e confederados chegaram à conclusão que o ideal seria simplesmente trocar os prisioneiros de uma maneira justa. Assim, quem fosse capturado podia circular livremente (sob a condição de ser morto sem piedade caso fosse pego com armas na mão) até que os exércitos encontrassem um lugar neutro pra fazerem a troca de figurinhas. E com isso começou uma tradição que hoje é regulamentada pela Convenção de Genebra, que diz que soldados doentes ou incapacitados para o esforço de guerra e que estejam em território inimigo devem ser repatriados.

O problema é que, enquanto os dois lados do conflito são Estados, dá pra seguir essa regra sem muito problema (e mesmo assim nem sempre é garantia de proteção aos prisioneiros, basta ver a II Guerra Mundial…), mas quando o conflito tem um ator não-estatal, especialmente conflitos civis, o que antes era um recurso humanitário passa a ser um elemento de barganha. Ou seja, se torna não uma decorrência natural do combate, mas um meio para atingir o fim específico de libertar prisioneiros, muitas vezes condenados criminalmente. Basta pensar no seqüestro de diplomatas para trocar por prisioneiros políticos na época da ditadura, no caso das FARC, que mantém gente presa há mais de 10 anos no meio do mato para trocar por terroristas presos, ou dos funcionários de empresas de construção capturados no Iraque.

Esse é o problema desse tipo de troca, pois não são prisioneiros de guerra, apenas vítimas de um crime bastante específico. O próprio Gilat não é um prisioneiro de guerra – foi seqüestrado deliberadamente por um túnel na fronteira. E isso traz mais drama pra situação: pode parecer que todos ficam satisfeitos com o resultado, mas no fundo isso só traz problemas em longo prazo. Essa troca do Gilat é particularmente ruim por que abre um precedente: o pessoal do Hamas já ameaça seqüestrar mais soldados israelenses até que consiga a libertação de cerca de 6000 palestinos presos em Israel. Ao mesmo tempo, os conservadores de Israel repreendem o acordo por considerarem “fraqueza”, além de considerarem que o país perde uma importante moeda de troca nas negociações com os palestinos. Familiares de vítimas de ataques condenam a libertação de “terroristas e assassinos” (inclusive entrando na justiça contra esse acordo). E até mesmo há discussão interna entre Hamas e Fatah – esse acordo teria sido uma manobra de Israel pra tirar a atenção da mídia da questão do reconhecimento do Estado palestino, o que é muito provável, dadas as condições “desvantajosas” que Netanyahu acatou.

Entre mortos e feridos, salva-se o pobre Gilat, que (espera-se) volta para sua família. Mas fica a apreensão de tantos outros, em Israel e pelo mundo, que possam vir a passar pelo mesmo com o sucesso da barganha feita com sua vida.


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