A (luta pela) conquista de direitos

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Segundo o poeta francês Balzac, “A igualdade pode ser um direito, mas não há poder sobre a Terra capaz de a tornar um fato”. Será? Talvez o poder do diálogo e da luta social possa surtir efeitos – ainda que lentamente e a partir de muitos (e articulados) esforços. Mais um passo foi dado na Arábia Saudita no que se refere à igualdade de gênero: trata-se da importante conquista do voto e da elegibilidade feminina nas eleições municipais, a partir de 2015.

Em uma era de movimentos contra os regimes autoritários no Oriente Médio, a famosa “Primavera árabe”, esta recente conquista das mulheres árabes merece destaque, já que se trata de um direito básico e essencial à consolidação de sua participação na tomada de decisões (e na construção destas) em sua sociedade.

Vale lembrar que a rica e conservadora Arábia Saudita é uma monarquia absolutista, de forma que o rei concentra os poderes de chefe de Estado e de governo. Nesta semana estão sendo realizadas, apenas pela segunda vez na história, as únicas eleições existentes no país, para cargos municipais. Ainda sem a participação das mulheres, a falta de confiança nos órgãos públicos por parte da população marca o tom dessas eleições. Muito ainda precisa mudar para que o regime possa ser considerado efetivamente participativo…

A luta para que as mulheres sejam incluídas no sistema político (e tenham seus direitos básicos respeitados) não é de hoje, e as críticas à intolerância religiosa têm alcançado novos patamares nos últimos tempos, dada a facilidade de contato e de disseminação de ideias/propostas/revoltas/movimentos proporcionada pela internet, especialmente por meio das redes sociais (veja aqui post no blog a respeito do movimento pelo direito das mulheres a dirigir, também na Arábia Saudita). A pressão dos cidadãos árabes têm sido responsável por um incremento considerável em seus direitos: igualdade e democracia buscadas a cada dia!

É verídico afirmar que a igualdade (ainda) não é fato consolidado em nossos tempos, mas não seria excessivamente pessimista pensar que esta situação é irreversível? Para que se possa enxergar resultados práticos, é preciso que a mobilização social seja constante, diária, cotidiana… cada sociedade enfrenta seus próprios desafios na busca pela igualdade, nos mais diversos âmbitos. E, bom, será que estamos fazendo também a nossa parte?


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Até quando?

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Haiti. MINUSTAH. Operação de paz. Estes três termos – intrinsecamente relacionados – têm gerado profundos debates internacionais há anos (quase uma década!). O Haiti, país assolado por dificuldades extremas e dos mais diversos tipos, recebeu em 2004 a “Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti” (MINUSTAH), operação de paz em que o protagonismo brasileiro é notável, com mais de 13 mil soldados e 1 bilhão de reais investidos (posts sobre o assunto aqui e aqui).

Ok, mas a pergunta que não quer calar é: até quando? Uma operação de paz, dentro de uma lógica de ação humanitária, deve pressupor um planejamento de curto, médio e longo prazo que respeite o(s) momento(s) de urgência social e humanitária (no plural, já que o desastroso terremoto de janeiro de 2010 fez a escala de ação retroceder “abaixo do zero”, segundo o então representando da ONU no Haiti – veja post no blog sobre o tema aqui), mas que também visem, pouco a pouco, à promoção do desenvolvimento local.

Neste sentido é que a MINUSTAH passa a ser questionada pelo próprio povo haitiano. Alguns escândalos por parte de abusos dos “capacetes azuis”, tal como são chamados os soldados da ONU, também têm contribuído para essa visão negativa. A partir do momento em que a população não se sente participante do processo de construção comunitária, muitas dificuldades advêm e tornam a fase de “transição” mais longa do que deveria ser.

Vista como “força de ocupação”, a MINUSTAH não cativa hoje os haitianos como em 2004. Após todos esses anos, esperava-se poder visualizar a construção de uma estrutura nacional que proporcionasse segurança social à população, o que não ocorre. Segundo declarações da ONU e do próprio governo brasileiro, a operação de paz só pode ser encerrada quando houver uma alternativa a ela, de forma que a saída da MINUSTAH não venha a gerar o caos.

O atual presidente haitiano, Michel Martelly, eleito este ano com a promessa de retirar as forças da ONU do país, discursou semana passada na 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas pedindo, contudo, a permanência da MINUSTAH. Segundo ele, a operação ainda precisa ajudar o governo em questões como educação, geração de empregos, meio ambiente e garantia de um Estado de direito.

Enquanto este ciclo vicioso (e retórico) se estende, a esperada “alternativa sustentável à MINUSTAH para o Haiti” parece ser construída (?) a passos demasiado lentos. Sem forte apoio da população e ainda com um caráter excessivamente assistencialista, a MINUSTAH segue em suas atividades no país. Não se pode negar, é claro, a importância de uma operação de paz para a ingerência humanitária em situações de crise e em face da necessidade de estabilização política, mas podemos questionar até quando esta operação específica no Haiti não será acompanhada de um necessário (e desafiador!) desenvolvimento sustentável nacional…

[UPDATE: Será que até março de 2012? “Brasil vai começar a retirar tropas do Haiti em março, diz Amorim”, 29/09/2011]


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Uma década nada econômica

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Voltamos à análise dos 10 anos dos ataques terroristas aos EUA. E dessa vez, com um viés bastante atual, o econômico. Pode não parecer à primeira vista, mas boa parte da crise econômica mundial que estamos enfrentando hoje se deve àquele 11 de setembro e suas conseqüências.

Claro que a estrela dessa tragédia são os EUA. Podemos pensar, em um primeiro momento, em pelo menos duas conseqüências para a economia norte-americana, e que depois infectaram a mundial. A primeira delas, como todos sabem, logo após os atentados, foi a exigência de uma pronta-resposta contra o regime que acolhia os terroristas responsáveis pela hecatombe. A outra foi, imediatamente, uma grave crise de confiança: queda de bolsas, paralisação do mercado financeiro por algum tempo (afinal, teve seu “coração” derrubado) e o caos aéreo que se seguiu pela paranóia de segurança. A cada um desses desafios os EUA responderam à altura: primeiro invadiram o Afeganistão (e posteriormente o Iraque, na onda da “Guerra ao Terror”), e o governo fez de tudo para incentivar o consumo e manter o ritmo de produção.

Fazer guerra é um negócio lucrativo – e também muito caro. As campanhas empreendidas pelos EUA movimentaram bilhões em contratos com empresas de segurança, mercenários, indústria bélica e de “reconstrução” civil, ao mesmo passo em que endividaram consideravelmente o tesouro norte-americano. Nada que eles não conseguissem manejar, apesar de problemas graves como o Katrina e a reconstrução subseqüente. O problema veio do outro lado: a manutenção de taxas de juro irrisórias e do consumo a todo vapor geraram uma bolha que afetou todo o sistema financeiro dos EUA (e logo, do mundo inteiro, já que esse aquecimento afetava também os parceiros comerciais dos EUA… ou seja, todo mundo!), e acabou estourando quando houve o descontrole dos créditos podres no sistema imobiliário. O excesso de ambição interno e brutalidade externa causaram uma distorção impossível de ser impedida e que logo desabou levando a economia mundial junto.

Pois bem, vejam o quadro. Economias do mundo todo começaram a cair em 2008, endividamentos absurdos que estavam mascarados pelos anos de bonança começaram a fazer a unidade da União Europeia ruir, as invasões (especialmente do Iraque) causaram incertezas no mercado e desagradaram países árabes, fazendo os preços do barril de petróleo estourarem (afetando preços pelo mundo todo), e o capitalismo enfrentou sua pior crise desde 1929. No fim, os bancos nacionais conseguiram salvar economias cambaleantes, a China e seu mercado gigante carregaram o mundo nas costas, alguns países tiveram muita sorte (ou competência) para evitar os efeitos mais graves da crise (bem ou mal, é o caso do Brasil), e o pior passou. Passou? Não parece que tempos melhores estejam por vir, e os bancos podem não ter mais dinheiro para salvar a pátria (literalmente). Essa discussão sobre a dívida dos EUA, por exemplo, que angustia Obama num cabo-de-guerra com o Congresso e os partidos, é a grande herança maldita dos gastos de seu antecessor; a dívida dos países na zona do Euro põe em risco a até agora “mais bem sucedida” experiência de integração regional; e mesmo a China parece estar chegando ao seu limite, dadas as contradições internas e a pressão cambial.

Algumas coisas boas aconteceram nessa área, como o início das negociações da Rodada Doha (já comentada aqui), que ninguém imaginava que iria sequer começar, ou o surgimento de outras forças econômicas com maior relevância na esfera internacional, como a China ou mesmo o Brasil. Ou seria apenas a decadência das economias mais tradicionais? Enfim, não chega a ser surpreendente, já que muitos países subdesenvolvidos eram anunciados como potenciais protagonistas da economia mundial do futuro, mas o modo como isso aconteceu foi de uma escala muito ampla e rápida. A China, por exemplo, galgou degraus e hoje é a segunda economia do mundo, com data prevista pra ser a primeira. E agora, cá entre nós, quem imaginaria, em 2001, quando o Brasil ainda devia mundos e fundos ao FMI, que dez anos depois seríamos credores (mal e mal, mas credores) do infame órgão?

Pois é, as conseqüências foram muitas, para bem e para mal. Hoje o mundo todo sofre com as conseqüências e o desafio imposto por essa crise toda, e não seria exagero pensar que daqui a dez anos ainda estaremos enfrentando desenvolvimentos dessa crise. Que, em de certa forma, teve suas raízes naquela manhã de 2001…


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Segredos bem guardados…

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Existem dois elementos que geralmente rendem boas histórias para livros e filmes: aventuras em terras estrangeiras (como ser preso por tráfico na Tailândia ou se tornar confessor de um jovem Dalai Lama no Tibet) ou enfrentar problemas em terreno hostil (como ficar preso a uma rocha ou nos destroços de um avião). Os alpinistas norte-americanos Josh Fattal e Shane Bauer vão ter bastante o que contar pois sua história envolve esses dois aspectos – eram eles os prisioneiros norte-americanos que estavam no Irã há dois anos, acusados de espionagem, e libertados neste fim de semana.

Tudo começou com uma confusão com relação à localização do grupo de alpinistas (que incluía uma terceira pessoa, Sarah Shourd, que foi libertada ano passado), que teriam se perdido na fronteira com o Iraque e acabaram parando inadvertidamente em território iraniano em meados de 2009. Esse engano (até que se prove o contrário) se tornou para esses três jovens uma experiência vívida da parcialidade do regime jurídico iraniano. Isolados do mundo, julgados com base em mentiras absurdas e encarcerados sob condições deploráveis, em meio aos gritos de outros presos sendo torturados. O relato desses rapazes é assustador e mostra uma faceta irônica da situação – segundo consta, todas as vezes que reclamavam do tratamento, os guardas os lembravam de como os norte-americanos tratavam seus presos em Guantánamo e Abu-Ghraib.

E assim chegamos ao tema principal do texto de hoje. Não é segredo pra ninguém que quase todos os governos do mundo mantêm ou mantiveram, em maior ou menor grau, algum tipo de repressão política. Porões de ditadura, prisões secretas, campos de trabalho forçado. Cada localidade tem sua variedade de como lidar com prisioneiros políticos (uma “justificação” para se livrar daqueles que incomodam o regime). Como lidam com isso, depende da situação política ser favorável ou não. Mesmo as democracias não estão livres disso! Obama confirmou a existência de prisões secretas e o previu o fechamento destas e de Guantánamo, mas no fim das contas essa continua aberta, e as outras… quem sabe. O Irã obviamente usava os jovens como uma moeda de troca valiosa com os EUA, e sua libertação teria sido um aparente movimento para atrair a simpatia ocidental. Ou teria sido o mero desmoronamento de uma acusação infundada que se tornara insustentável? Ou o valo estratégico dos reféns acabou? É difícil saber.

O que se percebe com clareza é que esses norte-americanos tiveram muita sorte – afinal, sua detenção era uma das principais chantagens contra o país mais poderoso do mundo. Assim enfrentaram, até onde se sabe, julgamento severo e injusto (que custa a vida de muitos em locais como a China e a Tailândia) e prisão insuportável mas saíram relativamente ilesos (ao menos, fisicamente). Por outro lado, quantos prisioneiros políticos como eles estão tendo menos sorte em países de governos mais truculentos, pelo mundo todo. Vamos tomar o exemplo dos países da tal Primavera Árabe… Basta pensar no Iêmen: o presidente Saleh está de volta e fala em transição do poder, mas persistem os choques e as mortes em confrontos com forças policiais. É impossível saber o número exato de mortos – quanto mais de presos, que ficarão sabe-se lá quanto tempo em algum porão até conseguirem sair (SE saírem). E mesmo onde as revoltas parecem ter sido exitosas (como na Líbia), se descobrem segredos cada vez mais aterrorizantes: a bola da vez é a cova coletiva de Kadafi, descoberta pelos revolucionários perto de Trípoli, com as ossadas de mais de 1200 pessoas mortas em protestos contra o regime nos anos 90. É tão ruim quanto (ou pior) do que as valas encontradas nos genocídios balcânicos da mesma época.

O alívio de ver os jovens aventureiros sãos e salvos (independentemente de sua origem ou de como foram pegos – não deve haver terror semelhante ao da impotência ante um sistema todo contra você) contrasta com a angústia de saber que tantos outros estão por aí em condição semelhante ou pior. E descobertas como essa da Líbia, ao mesmo tempo em que são assustadoras, um verdadeiro choque de realidade quando tomamos conhecimento desse tipo de evento, é benéfico que se desacobertem esses abusos. Fica a incerteza.


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Primeiro-ministro à Berlusconi

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O inventário de escândalos envolvendo o primeiro-ministro italiano aparentemente segue uma só tendência. Quando os mais cautos pensam que a fonte secou, logo surgem novos episódios para demonstrar o comprometimento de Berlusconi em criar problemas. Como se não bastasse a crise econômica, o líder da nação tem, digamos, um comportamento pouco alinhado em relação ao que se deveria esperar. Afinal, ser acusado de peculato, sonegação de impostos, suborno e falsificação de registros contábeis já não é para qualquer um. Contudo, nosso personagem vai além, a suas famosas farras com menores de idade foram noticiadas mundo afora.

A mesma Itália que, em 2011, celebrou os 150 anos de sua unificação pouco tem a comemorar. Um país em rota decrescente, empobrecido, endividado e desmoralizado ante constantes escândalos políticos. O último capítulo desta novela foi a decisão da agência de classificação de riscos, a Standard & Poor´s, de elevar o grau de risco dos títulos da dívida italiana. Com tudo somado, acentua-se a situação de uma Itália cambaleante, perigosamente ensejando, de acordo com especialistas, paralelos com a Grécia. Fato é que cenários de crise, independente do seu tipo, exigem um esforço extra das lideranças, na medida em que a retomada depende da restauração da confiança, interna e externa, no plano de recuperação. Algo bem contrário a esta premissa fica expresso através da figura de Berlusconi.

Aquela austeridade, tanto clamada, foi também a saída para a Itália, mas não para seu primeiro-ministro. Em tempos que o foco deveria estar dirigido a remediar os males, descobre-se o que significa governar à Berlusconi. Sem rodeios, este bilionário assume que “em minhas horas vagas sou primeiro-ministro”. O que se poderia esperar de um líder com tal perspectiva? Se algo, certamente muito pouco. No seu rol de preocupações, governar a Itália e gerar prosperidade para seus concidadãos não deve estar em primeiro lugar. Resta saber quem está a serviço de quem, Berlusconi da Itália ou o contrário? Logo, no entanto, teremos que utilizar o verbo no passado para falar de sua passagem pelo cargo. Seus dias parecem estar contados.

Estar à mercê dos “cara de pau” não é uma tragédia apenas italiana, muito pelo contrário. Dessa vez, a fidelidade de seus aliados para esmorecer à medida que seu quadro se torna irremediável. O povo, tomando sua aprovação de 25%, não sentiria sua falta, por enquanto. Ganharia ainda, por outro lado, mais tempo para acompanhar seu (sim, ele é o dono) time de futebol, o AC Milan, e organizar com mais cuidado aquelas festas que ele tanto gosta. Talvez ainda haja tempo para celebrar alguma coisa neste 150° aniversário da unificação. Enquanto isso, Berlusconi teria ainda mais horas livres sem o hobby de ser primeiro-ministro, deve ter cansado depois da quarta tentativa. Ao menos seria um problema a menos para os italianos. No futuro, podem-se abrir novas horas vagas para brincar de ser primeiro-ministro outra vez.


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Uma nova geopolítica energética?

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Todo mundo adora um pouco de futurologia. Tentar prever o que virá, como será e quando será, são questões que a maioria das pessoas já se perguntou em algum momento da vida. Se esse exercício é tão comum no campo individual, para os países e para a economia internacional é algo imprescindível. E o atual momento do mundo no concernente ao fornecimento de combustíveis é extremamente convidativo para esse tipo de reflexão.

Mais uma vez, o globo se encontra dividido. De um lado, os países do Oriente Médio, representando os atuais maiores fornecedores de petróleo e combustíveis do mundo. De outro, as Américas, que representam países que poderão tornar-se grandes potências nesse campo. A pergunta que atualmente tem se feito, é se estaria emergindo uma nova geopolítica energética. Estariam as novas tecnologias permitindo a expansão da exploração de petróleo e gás natural em níveis tais que possibilitasse que o continente americano se tornasse o novo centro mundial dos combustíveis?

Para refletirmos melhor sobre esse tema, aqui vão alguns dados. O país que foi capaz de levantar as estatísticas de reservas de petróleo da OPEP em 2009 foi a Venezuela. Estima-se que houve uma ampliação de aproximadamente 25% em suas reservas, enquanto que as da maior exportadora da OPEP, a Arábia Saudita, mantiveram-se estagnadas, em um valor bem abaixo do venezuelano. A produção de petróleo colombiana já se aproxima daquela da Argélia e, muito em breve, pode vir a superar às da Líbia antes de sua guerra. Para o Brasil, que já contém tecnologia suficiente para explorar a camada do pré-sal, acredita-se que, em alguns anos, poder-se-á atingir o volume considerável de 1 milhão de barris por dia.

Nem mesmo os Estados Unidos estão fora dessa bolada. Recentemente obteve-se a tecnologia para explorar as formações rochosas de xisto na região da Dakota do Norte, capaz de produzir um volume de 400.000 barris/dia de uma substância semelhante ao petróleo. Essas expressivas possibilidades aliadas as já altas produções de México e Canadá sugerem que os países da América estão passando a ocupar papéis mais significativos na produção energética mundial. Agora, seria suficiente para tornarem-se o principal pólo mundial?

Ora, há quem sugira que sim. E, para esses, a Primavera Árabe seria o principal evento catalisador dessa mudança. Se há muito, a Revolução Islâmica no Irã foi capaz de reduzir a produção de petróleo do páis de 6 milhões de barris/dia para os 4 milhões de hoje ou mesmo o Iraque obteve uma diminuição significativa de aproximadamente 33% quando Sadam Hussein assumiu o poder, por que a Primavera árabe não atuaria no mesmo sentido? Há também os pessimistas que apontam para o sentido oposto. Segundo eles, as revoluções citadas seguiram um período de isolamento, enquanto que a Primavera árabe traria os países da região para a teia de interdependência, ampliando ainda mais seu comércio.

Bom, em se tratando de futurologia, não é possível obter uma resposta clara. Todavia, somos capazes de dizer que a América está tornando-se um continente bem mais significativo na produção energética que, com certeza, influenciará mais essa balança dos petroleiros. E quanto ao futuro do continente no campo energético, só o tempo dirá…


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O 11/09 e os mistérios do tempo

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Sabemos que houve guerras, que há guerras, e sabemos que ainda sim Deus será sempre exaltado entre as nações.”
Obama, em discurso relembrando os 10 anos do 11/09.


Neste mês de setembro, a Página Internacional está aberta a análises sobre um dos acontecimentos mais memoráveis da história contemporânea, que agora completa dez anos. Nem sempre é fácil falar do 11/09, muito menos tão bem quanto o Danillo Alarcon o fez em seu post (aqui), principalmente porque se perdeu a dimensão do tempo. Dez anos, para a investigação histórica, é um período muito curto, mas, paradoxalmente, para o mundo de hoje, caracterizado pela revolução técnico-científica – com ênfase nas comunicações –, grandes transformações, boas ou ruins, surgem em instantes.

Notem, leitores, que se comemora trinta anos da descoberta do vírus HIV/AIDS em 2011. Até o momento, apesar das inovações em pesquisa e tecnologia, só há um caso de cura diagnosticado, que é fortuito e, ao mesmo tempo, emblemático. O terrorismo, por sua vez, em meio a esse ambiente de inovações, rompeu os limites da história e provocou um espetáculo áudio-visual jamais visto. Sua cura, em geral, é fortuita e emblemática, na medida em que, ainda que grupos terroristas renunciem à prática do terror, o fenômeno permanece e pode inspirar corações e mentes na luta por uma causa ou ideia (recordem o fato ocorrido na Noruega há dois meses).

A grande questão, dez anos passados do 11/09, é como vencer o terrorismo. Ao menos, esta foi a meta expressamente declarada pelos governos norte-americanos ao se lançarem em uma aventura homérica e quimérica no período em tela. Foi preciso inventar uma Guerra Global ao Terror, territorialmente aberta e sem inimigos claramente definidos, para promover a segurança interna dos cidadãos norte-americanos e sustentar a hegemonia dos Estados Unidos pelo mundo. Mas ‘guerra’ é um conceito absolutamente vago para as manobras norte-americanas, uma vez que padece de um objetivo político claro – combater o terrorismo é lutar contra a insurgência afegã? É depor Saddam Hussein? – e perde o sentido de vitória. Então, a guerra passa a seguir uma lógica própria, com suas leis e dinâmicas.

O velho Marx, com sua máxima “a história se repete, primeiro, como tragédia, depois, como farsa”, teria muito a dizer sobre os Estados Unidos hoje. A guerra contra o Afeganistão é a repetição trágica do indigesto Vietnã e a guerra contra o Iraque, a repetição como farsa. Não apenas pela retórica das armas de destruição em massa do governo de Saddam Hussein, mas também pela manifestação mais expressiva (e incansável) da idiotia norte-americana, agora, sob a égide da Guerra Global ao Terror. Cada vez mais, guerreia-se por guerrear, em defesa da honra, não de objetivos, o que aumenta, sobretudo, o custo político. O jornalista Thomas Friedman, recorrentemente, afirma que essa guerra deixou de ser sobre o que ganhar e passou a ser sobre o que se está disposto a perder. Vencer já não é possível.

O tempo é mesmo uma coisa misteriosa. A história tem ensinado que o terrorismo é praticamente insuperável quando combatido pela força das armas, pior ainda quando estas falam por si mesmas. Guerras passadas, similares no campo de batalha, demonstraram os limites da superioridade do mais forte. De que adianta ter o maior poderio militar do mundo se não saber como utilizá-lo? De que adianta o conhecimento técnico-científico se se esquece as lições dos livros, da teoria da guerra e da estratégia? Em dez anos, em uma era de informações e comunicações, esqueceu-se de grandes lições do passado, encurtou-se a memória.

O 11/09 é mais uma novidade com o sabor ácido do tempo do que a reinvenção do mundo ou uma grande transformação. É uma ‘não-era’, como bem definiu o Danillo, e não um ponto de inflexão nas relações internacionais. Alguns processos podem ter se acelerado, como o desgaste da hegemonia norte-americana, mas o fizeram em um quadro evolutivo previamente marcado pela ascensão de novos poderes, ameaças transnacionais e globais e de formação de uma bolha econômica, que explodiu em 2008. E, nessa não-era, os Estados Unidos estão fadados a perder.


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Ambiente nervoso

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Antes de começar, convido o leitor a ver um pequeno vídeo. Um pouco de humor para começar um post bem sério (não se preocupem, vai fazer sentido no final): veja o vídeo aqui.

Esse esquete brinca com aquele joguinho famoso e divertido em que se deve destruir castelos usando aves suicidas. Mesmo quem não fale inglês deve ter entendido a historinha: o acordo de paz entre os dois lados (para dar fim a um conflito “sem sentido e que custa a milhares de pessoas …seu tempo livre”) é quase alcançado, mesmo com brigas, acusações mútuas e discussões constantes, mas no fim é sabotado por um elemento radical que faz ir tudo por água abaixo. No fim, a guerra recomeça e a “missão falha”.

Não me surpreende que esse quadro tenha surgido em um programa de humor israelense. Afinal, eles estão mais do que acostumados a negociações de paz que acabam minguando. E essa semana promete: deixando um pouco de lado as discussões do decênio do 11/09, nesse dia 20 começa a 66ª Assembleia Geral da ONU, e a tentativa palestina de reconhecimento de seu Estado perante a comunidade internacional.

Apenas retomando a questão: os palestinos precisam da aprovação do Conselho de Segurança e de dois terços da Assembleia Geral para que tenha seu Estado reconhecido. O problema: Israel do direitista duro Nethanyahu sequer cogita a possibilidade, e tem o apoio dos EUA, que vetariam a questão no Conselho de Segurança. Com isso, na eventualidade da proposta passar na Assembleia Geral, a Palestina pode ser reconhecida como um Estado, mas não sendo membro da ONU.

Na prática, nada mudaria: territórios ocupados permanecem ocupados, e por aí vai. O problema maior se encontra entre as partes, mas especificamente nos grupos radicais: por mais que o reconhecimento desse Estado possa fazer com que o grupo mais conservador em Israel seja influenciado a rever suas posições, inclusive para um processo de paz, os grupos radicais palestinos vêm com suspeitas esse reconhecimento – para eles, o mais importante seria varrer o inimigo do mapa, e ter seu Estado reconhecido implicaria em aceitar a solução dos “dois Estados”, e coexistir com Israel.

A população também se mostra indiferente – como na prática nada muda, o temor é que as coisas piorem no campo econômico, já que Israel e EUA podem retaliar economicamente a Autoridade Palestina (que depende tanto de auxílio dos EUA quanto de arrecadação de impostos de Israel). Há também o temor de que aumente a repressão nos territórios ocupados.

No fim, parece que todos perdem um pouco. A ONU terá esse constrangimento de reconhecer um país sem poder abraçá-lo. Os EUA, se não conseguirem aliados no CS até lá, vão fazer o papel de “vilões” vetando sozinhos o projeto. Na prática, nada mudará em Gaza e na Cisjordânia, e se for poderá ser para pior, com recrudescimento da ocupação israelense e possivelmente um fortalecimento dos elementos radicais. Israel será cada vez mais isolado na região, enfrentando um misto de paranóia e perplexidade com a recente perda de aliados (Egito, Turquia, etc.). A força crescente do Irã assiste tudo, à espreita e com um leve sorriso. Infelizmente, as possibilidades de resultados não são as melhores.

O reconhecimento do Estado palestino é um passo legítimo e fundamental para a paz na região, mas se for dado nessas condições ocorrerá em má hora, quando uma das partes não tem interesse no tema e a outra não colherá frutos práticos – discutir de cabeça quente nunca ajuda. É uma aposta bastante arriscada, que pode ajudar a flexibilizar setores mais conservadores, mas também tem o potencial de alimentar extremismos. Relembrando o esquete mostrado no começo do texto, basta um radical para por tudo abaixo – e as chances para isso não serão poucas se essa votação vingar.


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Desmontando e montando

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A União Européia marcou uma espécie de modelo ideal de integração regional. De um início tímido, quando constituído por seus membros-fundadores, o projeto foi progressivamente ganhando contornos de uma verdadeira “Europa sem fronteiras”. Nestes quase setenta anos de história, o bloco unificou objetivos e foi muito além de sua incumbência inicial. A paz aflorou entre os antes inimigos de guerra, as barreiras aduaneiras foram removidas, criou-se o Mercado Comum e, mais recentemente, ratificou-se o Tratado de Lisboa.

Este grupo de países viu passar ante seus olhos momentos fundamentais, seja a queda das últimas ditaduras na Espanha e Portugal ou o fim da Guerra Fria, seja as manifestações pró-mudança da geração de 1968 ou a ascensão do movimento Solidariedade na Polônia. As inúmeras convulsões políticas, sociais e econômicas vividas foram pano de fundo para uma Europa que deu sinais de mover-se rumo um sistema consolidado de integração, baseado na livre circulação de mercadorias, pessoas, serviços e capitais. Tão bem sucedido que o seu caminho percorrido é amplamente estudado e utilizado para pensar novos esquemas de integração regional.

Entre as principais bandeiras da nova União Européia está o euro. Contudo, é exatamente a moeda comum que promove o receio que crises circunscritas a países específicos (como a Grécia) terminem por minar a estabilidade de outros de seus membros. Todos os países do bloco, ao menos em certa medida, construíram e financiaram benefícios para seus concidadãos a partir de um crescente déficit público. Agora, crise após crise, a fatura parece ter chegado. Mais que isso, cabe a alguns aportar em nome de membros menos capitalizados, afinal muito está em jogo.

A situação, mesmo que prove ser meramente temporária, traz consigo inconvenientes para o aprofundamento da integração. De um lado, estarão os países ajudados, obrigados a cortar grande parte dos benefícios sociais criados e aumentar impostos como forma de mostrar forte comprometimento com o combate da dívida e do déficit orçamentário. De outro lado, estarão aqueles países ainda fortes apesar de endividados também, que tentam salvar outros enquanto pensam em suas próprias prioridades. Ao menos deste problema os britânicos parecem ter escapado. O processo já deu mostras de quão doloroso será.

Poderia a crise corroer as bases um processo tão bem (ao menos aparentemente) estruturado e minar a confiança construída pela paz e prosperidade? Quando a própria sobrevivência está em questão, muitos se esquecem de pensar em problemas além de seus próprios. Como em todos os demais momentos de inflexão, o rumo parece incerto. No entanto, sanar os problemas conjunturais pode representar uma oportunidade única de repensar a própria estrutura do bloco, não permitindo assim arrefecer o espírito da “Europa sem fronteiras”.

Obs: É engraçado ver o secretário do Tesouro norte- americano mencionar possíveis efeitos catastrófico advindos das discordâncias entre os governos europeus. Tomara que ele não tenha esquecido o embate democratas x republicanos em seu próprio país.


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Post do Leitor

Post do Leitor – Tamiris Hilário

[Pessoal, esse é um texto da graduanda em Relações Internacionais pela Unesp, Tamiris Hilário, tratando da questão da arte como fator de transformação. Uma perspectiva muito interessante, vale a pena conferir! E, aos interessados em enviar posts do leitor e fomentar as discussões, basta enviarem um e-mail para [email protected]]

“uma fronteira não é o ponto onde algo termina, mas […] a fronteira é o ponto a partir do qual algo começa a se fazer presente”. Heidegger

A exposição paulistana “De dentro e de fora” , a ser exibida no MASP, de 17/08 a 23/12, apresenta trabalhos de arte contemporânea, dentre os quais se destaca a participação do fotógrafo francês JR , vencedor do TEDx2010 . JR, em face ao contexto vigente, oportunamente suscita a questão: poderia a arte salvar o mundo? De pronto, reconhece: não, não poderia. Isso porque, não se trataria de “salvar”, como afirma, mas de “mudar” o mundo. Vejamos de que maneira.

Parece confortável afirmar, hoje, que elementos culturais e artísticos se apresentam como transcendentes daquilo que se entende ou se convencionou chamar de fronteiras – físicas, sociais, econômicas, políticas e imaginárias. Carregam consigo, com isso, não apenas a idéia de agregação, mas também (e principalmente) de transcendência. Denso? Basicamente, estamos a falar da música, da fotografia, da dança, do circo, do teatro… como transgressores!

O Inside Out Projectde JR, por exemplo, é uma iniciativa a qual transforma fragmentos individuais pequeninhos em elementos artísticos. Qualquer um pode utilizar-se de fotografias em preto e branco para descobrir, revelar ou compartilhar histórias e imagens de sujeitos visivelmente invisíveis, ao redor do mundo.

Para além dos entraves e das burocracias tradicionais, comumente exigidas quando se quer mudar algo, neste faz-se necessária, apenas e tão somente, uma superfície sólida na qual a aplicação da imagem possa ser feita. Em grosso modo, uma parede. Testou-se assim, o poder da cola e do papel na África do Sul, Sudão, Serra Leoa, Libéria, Quênia, França, EUA, Inglaterra, Brasil, Índia…!

JR acredita que a arte se apresenta como um instrumento real para fomentar trocas e enriquecer discussões, tornando-se com isso capaz, não propriamente de alterar as regras do jogo, mas de modificar percepções.

Trata-se de um exemplo dentre a ampla gama de ações culturais transformadoras capazes de propiciar o aprendizado do convívio com a diferença, desencadear a formação de sujeitos criativos e transformadores e promover o sentimento de coletividade e de convívio social. A arte que “transforma” desenvolve assim um leque iniciativas mais inclusivas e que considera as diversas maneiras de fazer parte e de ser. Permite, com isso, que os espaços sejam realmente vistos – e entendidos – de forma mais humana.


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