Injustiça histórica

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Maquiavel é o autor de uma das frases mais conhecidas da História – e frequentemente utilizada sem escrúpulos para justificar atos inconsequentes –, qual seja “os fins justificam os meios”. Dado seu período histórico e o objetivo político de sua obra, tal afirmação é carregada de uma ideologia relativista no que concerne à ética e à moral, provocando bastante discussão até os dias de hoje.

No contexto das Relações Internacionais, talvez os Estados Unidos tenham sido o país que mais vezes se utilizou deste lema para justificar suas ações. Hoje, mais uma polêmica vem à tona e suscita debate neste âmbito: está comprovado que médicos norte-americanos realizaram verdadeiros experimentos com milhares de “cobaias” guatemaltecas durante a década de 1940, camuflando os meios utilizados nos testes e provocando a morte de 83 pessoas, inoculadas com vírus de doenças sexualmente transmissíveis – notadamente a sífilis e a gonorreia.

Ocorre que este debate se iniciou em novembro do ano passado, quando o presidente da Guatemala, Alvaro Colom, divulgou informações a este respeito e classificou como “crime contra a humanidade” a atitude dos cientistas norte-americanos. Ao que consta, os guatemaltecos que participaram da pesquisa não foram informados acerca do procedimento (que consistia exatamente na inoculação dessas doenças venéreas), deixando clara a intenção dos cientistas de camuflarem os meios utilizados. O fim “recompensador” seria a verificação dos efeitos da penicilina no combate a este tipo de doença.

Até que ponto o espírito maquiavélico pode ser aplicado neste caso? Evidentemente, quando se trata do respeito à vida humana, não há “fim” que justifique “meios” criminosos, e isto foi reconhecido pelo próprio presidente Obama, ao instaurar uma comissão presidencial de bioética para averiguar essa injustiça histórica. O relatório final deve ser publicado apenas em setembro, mas as avaliações preliminares indicam que realmente os dados apresentados pelo presidente da Guatemala no ano passado são verídicos. Verídicos e revoltantes.

Revoltantes no sentido de que esta polêmica reforça a perspectiva predominante naquela época (ou será que até hoje?) de claro preconceito em relação aos povos ditos “subdesenvolvidos”. O que mais pode explicar o fato de essas pesquisas terem sido realizadas dessa forma em território guatemalteco? Será que aquelas vidas teriam menos valor que as vidas de norte-americanos? Pelo menos na visão dos cientistas (ir)responsáveis à época, isso parece ser nítido.

Depois de tantos anos, eis que o próximo desafio (mais um!) ao presidente Obama será pensar, efetivamente, em meios para compensar tamanha injustiça histórica cometida pelos Estados Unidos em relação à Guatemala… será que ainda é possível reparar, de alguma forma, os danos?


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O show é dos senhores!

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No estudo da história das Relações Internacionais, uma das vertentes mais tradicionais (e que já levou muita pedrada, mas ainda é muito utilizada) é a chamada “história diplomática”. Basicamente, é o estudo da história de um país com foco nas figuras do homem de Estado (de diplomatas a governantes) e seus feitos. Eu imagino que os historiadores do futuro que venham a estudar nosso período vão ter um prato cheio pra lidar com os protagonistas que temos hoje em dia.

O cara da moda é o Kadafi. Não bastava ter seu país estar em conflito civil, com intervenção estrangeira e seu paradeiro ainda ser um mistério, enquanto continua bradando aos seus leais seguidores que mantenham a resistência aos insurgentes. Na semana passada, descobriram em um de seus suntuosos bunkers ocupados pelos rebeldes um álbum de fotos e recortes de… Condolezza Rice. Aparentemente o líder líbio nutre uma admiração excessiva pela antiga secretária de Estado dos EUA, e mesmo que ressurja e tome de volta o país em uma espécie de virada épica, as páginas da história não vão ter clemência ao relatar sua “paixão adolescente”.

Por outro lado, há outros que estão um pouco fora de cena. Lembram do Kim Jong-Il? Pois é, depois de tanto espernear com seu programa nuclear e chamar a atenção do mundo, vieram uns árabes abusados e roubaram os holofotes da Coreia do Norte no palco internacional. No momento, deve estar de tocaia, aguardando para seu retorno triunfal à cena internacional enquanto o país tenta driblar as sanções e ganhar uns trocados de maneira criativa, como trapacear em jogos on-line.

Há também os que andam sumidos, por bons motivos, como Hugo Chavez (que certamente vai voltar com mais força que nunca); e há os que estão achando ótimo esse sumiço. Quando começou a intervenção da Líbia, se falava muito de Sarkozy e Berlusconi, os maiores interessados na ação. Mas claro que, um com problemas econômicos e políticos, outro com judiciais, a mudança do foco para a desastrada, apesar de apaixonada, ação dos rebeldes líbios caiu como uma luva: se não para amenizar as críticas, ao menos para desviar o mau-olhado da imprensa. Falem bem, falem mal, NÃO falem de mim…

E há os que navegam na incerteza. No Japão, a saída anunciada há tempos de Naoto Kan e consumada na sexta-feira abre espaço para Yoshihiko Noda, ministro das finanças e que promete arrocho fiscal pra sanar a economia do país e bancar a reconstrução após o desastre do começo do ano. Nos EUA, o esforçado mas desgastado Obama parece ter contornado momentaneamente os problemas com o Congresso e sua organização para enfrentar a chegada do furacão Irene (com um saldo de 19 mortos até o momento) são vitórias quando comparadas, pelo menos, a circunstâncias semelhantes enfrentadas pelo seu antecessor.

Curioso reparar como não temos no momento líderes que estejam com aceitação acima da média ou 100% de bem com a imprensa. Pode ter sido um mês excepcionalmente ruim, mas provavelmente é a época de crise que não ajuda muito na criação dos mitos…


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Que futuro é esse?

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Prever o futuro sempre atendeu a um anseio de muitos, seja por possibilitar uma preparação para tempos difíceis, seja para sonhar um futuro de grandes perspectivas. Em ambas as escolhas, projetar um futuro crível foi tarefa para poucos. Ao contrário do imaginado, por exemplo, veículos voadores ainda não dominam o tráfego das grandes cidades. Apesar de tudo, é possível inferir que aquele futuro trouxe grandes conquistas para a humanidade. Saindo da perspectiva mais científica, cabe lembrar que mesmo em questões mais conectadas ao dia-dia é inevitável alguns equívocos diante dos fatores tão dinâmicos da contemporaneidade. Um bom exemplo disso são as previsões econômicas anteriores à crise de 2008.

Uma interessante análise do futuro o divide em três fases: passado, presente e futuro. Para Santiago Bilkins, o primeiro reservou avanços lentos, que ensejaram grandes esperanças que pouco foram transformadas em realidade. Deste tempo, no pós-Revolução Industrial, surgiram as visões do que seriam os anos 2000. Passando para o presente do futuro, o homem parece ter enfim encontrado algo que avança exponencialmente: a tecnologia. O que hoje é um aparelho de última geração, logo será obsoleto frente aos novos inventos. Assim, o que fora desesperança pela não consubstanciação de nossos anseios (passado do futuro), nos leva a partir do presente para um futuro em que a ciência dá mostras que seguirá o ritmo da tecnologia, podendo talvez gerar vida artificial, modificar nossa espécie ou mesmo criar condições para a perpetuação da vida humana.

Contudo, as perspectivas que são ponderadas não criam dilemas estritamente científicos, mas atingem muitas questões atinentes à convivência em comunidade. Qual seria o futuro da educação, o modelo formal conseguirá sobreviver à profusão de informação imediata a que se tem acesso? Existe ou deveriam existir limites para a modificação ou criação da vida? Enfim, são temas que não produzem grande interesse no curto prazo e por este motivo, em sua maioria, seguem seus cursos de desenvolvimento longe dos tomadores de decisão. A história do futuro, como apresentada por Bilkins, nos leva a crer todo o conhecimento construído ao longo dos anos, especialmente nas últimas décadas, teve e tem o poder de gerar intensas transformações na forma em que vivemos. Neste sentido, seria uma estratégia lógica incentivar o intercâmbio entre cientistas/empreendedores e setor público. Isso poderia ser novamente a diferença entre transformar o presente em decepção (passado do futuro) ou em avanços exponenciais (futuro do futuro).

Enquanto especialistas ainda tentam interpretar as previsões relativas ao fim dos tempos, algumas temáticas dão mostras da profundidade dos debates que enfrentaremos no futuro. Oscar Pistorius, sul-africano que compete com próteses de carbono, entrará na pista a partir de hoje no Mundial de Atletismo (Daegu, Coréia do Sul) para tornar-se o primeiro atleta paraolímpico a disputar uma competição de tal porte em seu esporte. Em 2007, o mesmo Pistorius fora impedido de participar de competições não paraolímpicas em decorrência de possíveis vantagens que levaria contra os demais atletas. Em outro caso notável, pessoas escolheram substituir um membro por alternativas biônicas. A partir disso, as possibilidades de oferecer uma substituição ao corpo humano têm como princípio oferecer condições similares às pessoas saudáveis. Cabe ressaltar, como no caso de Pistorius, que talvez seja possível aperfeiçoar as habilidades humanas por meio da mesma tecnologia, justamente o debate travado por especialistas sobre o corredor sul-africano.

Como então analisar e projetar um mundo que substitui a linearidade pela exponencialidade?


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Há um ano...

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Hoje vamos fazer uma edição especial do nosso já muito conhecido exercício de memórias. Dessa vez, vamos olhar para um evento que marcou tanto o ano passado que a mídia e o governo do Chile à época vieram a chamar de um divisor de águas na história chilena: o acidente dos 33 mineiros chilenos. Não se deu exatamente um ano depois do resgate, mas no ano passado a essa altura, a mídia nos bombardeava com notícias sobre o paradeiro dos mineiros e os planos do governo para retirá-los da mina (para o post escrito sobre o tema, clique aqui).

Já discutimos por aqui se muitos eventos que a mídia ou governos veiculam como marcos ou rupturas representam de fato mudanças (clique aqui para o texto). Agora, o caso dos 33 mineiros foi de fato um marco na história chilena?

Bom, se estamos falando de um marco no qual pessoas seriam para sempre lembradas como heróis e a partir do qua a forma da população ver o governo seria diferente, a resposta pende bastante para o não. Aquilo que serviu como catalisador da unidade nacional e catapultou a popularidade do presidente Sebastián Piñera, hoje já é pouco lembrado no país.

Os mineiros passaram, para muitos, de heróis nacionais para aproveitadores nacionais. Os altos cachês por entrevistas e os processos realizados contra o Estado chileno por negligência têm provocado a revolta contra aqueles que antes eram vistos como os arautos do orgulho da nação chilena. Há também o lado dos próprios “33 do Atacama”. Insatisfeitos, esquecidos pelo governo, em estado pós-traumático e sem prospecção de melhoria de vida, eles são mais lembrados fora do país do que dentro dele.

O fato é que nem mesmo Piñera conseguiu aproveitar muito o sucesso da operação de resgate. Hoje, graças aos protestos por educação universitária gratuita, o presidente tem enfrentado a maior crise de seu governo e sua popularidade voltou a cair. Observa-se que eventos capazes de mudar o curso de determinada história são difíceis de ocorrer. Mesmo aqueles que parecem trazer inflexões grandes para um país, com a mesma velocidade com que rapidamente dominam os meios de comunicações, caem no esquecimento.

O Chile continua dependendo grandemente do cobre. Mineiros continuam com direitos trabalhistas e condições de trabalho precárias (tanto que outros mineiros envolvidos no caso somente receberam indenizações mais de um ano depois). Piñera continua com a popularidade baixa. É, pelo visto algumas coisas precisam de muitos mais do que um ano para mudar e nem sempre serão a mídia e o governo aqueles que ditarão o que é de fato um divisor de águas. É isso aí pessoal, postando, questionando, comparando e relembrando.


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Uma virada irônica

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A Líbia volta a ficar no centro das atenções do mundo. Enquanto a coisa pega fogo nas redondezas, como na Síria (onde persiste o jogo de afaga-bate da Assad contra os manifestantes, em que prevalece claramente o “bate”) ou em Israel (onde a trégua de dois anos com o Hamas foi rompida após os eventos infelizes da última semana), a queda de Kadafi é iminente (e considerada até mesmo inevitável).

Indícios não faltaram. Na última semana, a embaixada líbia em Brasília foi tomada por manifestantes. Agora, foi a vez de embaixadas na Turquia e na Bósnia. E até mesmo os próprios embaixadores na Síria abandonaram seu governo, reconhecendo o Conselho Nacional de Transição (leia-se: rebeldes) como legítimo. A situação atual favorece os rebeldes, que já teriam tomado pontos cruciais da capital e capturado três filhos de Kadafi (inclusive um deles, Saif al-Islam, a exemplo do pai tem um mandado do TPI contra eleEssa pode ter sido o golpe decisivo contra o governo, mesmo por que não se sabe o paradeiro do ditador). Aliás, se der o azar de morrer, podem esperar uma daquelas capas da Time com a foto dele cruzada por um “X” de sangue (recurso já meio banalizado pela revista…). Esteja ele entocado em algum lugar ou fugindo nas sombras em direção ao asilo na Tunísia, esse desmoronamento das principais figuras políticas fez com que as forças governamentais certamente perdessem o ânimo, e explicaria o rápido avanço dos rebeldes e a debandada das forças governamentais, dentro e fora do país.

O que esperar disso? Mais uma vez, efeitos da “primavera árabe” são obscuros. Se em análises anteriores mostrávamos que havia um grande risco da coisa se tornar um caos em meio ao vácuo político, hoje talvez haja razão para um pouco de otimismo. Se for seguir o exemplo de Egito e Tunísia, o resultado menos pior traria um governo pouco coeso e que talvez chafurde um pouco no meio da corrupção, mas ainda assim uma situação preferível ao sectarismo. A grande vantagem da Líbia em comparação aos demais países é o fato de que seu governante (possivelmente) deposto não é a figura mais popular no cenário internacional, e vários países já consideram o CNT como representante legítimo. Claro que dá uma forcinha a mais o fato de haver muito mais interesses econômicos na Líbia que no Egito ou Tunísia, especialmente europeus, e que já houve uma cruzada internacional nebulosa pra ajudar os rebeldes por meio de intervenção.

Não sabemos como vai ficar a situação na Líbia. Muito menos se os objetivos dos revoltosos (como melhora de vida, etc.) vão ser alcançados. Mas é possível que a esperada queda de Kadafi seja a que tenha maior possibilidade de trazer mudanças concretas, com grandes chances de que seja a transição mais organizada (apesar de ser ironicamente a mais violenta) até o momento.


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Males da austeridade

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Há mais de um ano, em artigo do Giovanni, foram destacados alguns fatores fundamentais para a vitória do Partido Conservador nas últimas eleições do Reino Unido. Gordon Brown, então líder do Partido Trabalhista, entregava a seu sucessor um país com crescentes desigualdades sociais e um déficit orçamentário em 11,9% do PIB. O fundamental, no entanto, era o quadro que se materializava através da promessa de aprofundar a austeridade sob o comando de David Cameron e Nick Clegg, reduzindo assim o déficit para 2% em 2014.

O que fora, em parte, iniciado por Gordon Brown, tornou-se o principal compromisso de Cameron: melhorar substancialmente a situação econômica do país. Além disso, defendia a diminuição da burocracia e o fomento da descentralização do poder. Em época de campanha, a plataforma soou como música para um eleitorado atônito. Há pouco mais de um ano, o tal déficit orçamentário britânica equiparava-se com o déficit grego. É evidente que a situação do Reino Unido não permitia soluções milagrosas, mas projetava um horizonte de grandes dificuldades.

Já afastadas, nas múltiplas análises do caso, interpretações superficiais das revoltas recentes, cabe ainda questionar o verdadeiro significado dessas políticas de austeridade. Houve, em menos de um ano de governo, uma escalada na frustração e raiva de setores da sociedade britânica. Já vimos: protestos estudantis, ocupação de universidades e atos públicos organizados por sindicatos. Os atos criminosos perpetrados no início de agosto são uma face das escolhas recentes e, mais que isso, dos setores da sociedade que realmente carregam o fardo da austeridade. Desemprego de 20% entre jovens de 16-24 anos, mensalidades de universidades triplicadas, programas enfocados na juventude encerrados. Fatores que certamente não ensejam esperanças para comunidades que antes se beneficiavam de investimentos sociais.

Poucos poderiam esperar isso dos britânicos. Para a socióloga Saskia Sassen, as diversas manifestações ao redor do mundo não são isoladas. Tais movimentos representam, em realidade, a chegada de um ponto limite da lógica excludente advinda da globalização. Neste sentido, seria lógico prever a intensificação dos conflitos. Qual a direção que tomamos, há ainda algo a perder? Entre agências de qualificação, tetos de dívidas e rendimento de títulos públicos, nada parece estar sob nosso controle. Contudo, as piores conseqüências irrompem entre nós, meros espectadores.

No caso britânico, a edição especial “O Mundo em 2011” da publicação The Economist já destacava a distribuição desigual dos cortes orçamentários: Defesa com 7,5%, Educação 11%, ao passo que os departamentos responsáveis pelo policiamento e prisões sofreriam um corte de 25%. A coalizão governista certamente não esperava flores pelo caminho, mas seu destino parece ainda mais sombrio que o previsto. Será possível levar até o fim um plano de austeridade a despeito das demandas e protestos dos seus eleitores?


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Teoria na prática

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Se, por um lado, popularmente se costuma ouvir que, em regra, “na prática a teoria é outra”; também é comum escutar que “toda regra tem sua exceção”. Neste post, a reflexão traz exatamente uma “exceção” a essa “regra”, apresentando a atual crise política nos Estados Unidos como uma situação em que a Teoria dos Jogos se aplica diretamente à realidade.

Para aqueles que desconhecem a Teoria dos Jogos, vale a pena acessar os textos já publicados aqui no blog e que descrevem a teoria de forma bastante clara: disponíveis neste link e neste outro link.

Esta teoria advém essencialmente da área de Exatas e há poucas décadas passou a ser incorporada às Relações Internacionais para incrementar as análises político-econômicas em termos de cálculos racionais dos posicionamentos dos atores/jogadores envolvidos. O argumento dos autores norte-americanos Brendan Greeley e Steven Brams – este último famoso teórico político na área – em relação à atual situação política dos Estados Unidos apresenta uma visão muito racional dos fatos ao aplicar a lógica da Teoria dos Jogos a esta.

Na opinião destes autores, o embate entre Democratas e Republicanos nos EUA hoje poderia ser enquadrado em um dilema de “chicken game”, e a falha nas negociações provocaria um default completo, o equivalente a um “desastre nuclear”, se considerarmos o mais famoso exemplo de “chicken game” nas RI, a Crise dos Mísseis de Cuba (1962).

Este interessante artigo pode ser lido na íntegra (em inglês) aqui e vale destacar a seguinte citação: “Obama and the House Republicans, says Steven Brams, were playing chicken this summer, a noncooperative, non-zero-sum game in which both players can lose. A compromise outcome is difficult to achieve in chicken, because it’s not stable. Brams says that each player has an incentive to dissemble, because he will achieve a better outcome for himself if he does.” (GRELEY, B., 2011).

Tal como a figura no início deste texto sugere, o ganho político seria a maior vantagem caso uma das partes se mostrasse claramente cooperativa diante de uma falta de cooperação por parte da outra parte envolvida. Mas e a possibilidade (real) de um desastre completo? Será que valeria a pena correr esse risco? Racionalmente, não. E, depois de discussões tremendas (veja aqui, aqui e aqui), se chegou a um acordo a este respeito, elevando o teto da dívida pública para evitar o “calote”.

Este dilema enfrentado pelos norte-americanos certamente não está encerrado em sua totalidade. Analisar as características dos embates internos e suas consequências a partir da Teoria dos Jogos demonstra uma interessante visão da realidade por meio de ferramentas teóricas. Perceber a aplicabilidade desta teoria na prática demonstra a importância de uma avaliação ampla da situação político-econômica dos Estados Unidos, em que as variáveis incluam as estratégias utilizadas pelos atores, os benefícios de cada possibilidade e os interesses (sempre) envolvidos…


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Há um ano...

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Há um ano o blog tratava de alguns assuntos que mantém sua atualizade mesmo hoje. Parece chavão, mas deve ser uma das provas de como a evolução do processo internacional é lenta e gadual…

No dia 9 de agosto, comentávamos sobre os 65 anos das bombas atômicas lançadas sobre o Japão na II Guerra Mundial. O final do texto falava um pouco desse pesadelo nuclear ainda ser uma ameaça real e até mesmo absurda no mundo de hoje. Ironia do destino, ou um presságio funesto, no ano seguinte o Japão se vê assolado novamente por esse terror, claro que por razões bem diferentes, mas que ainda assim mostra como a energia nuclear pode ser um tema controverso e que desperta debates apaixonados. Num momento, é a salvação da lavoura com o “fim” do petróleo, e até ambientalistas dão o braço a torcer; noutro, é desculpa pra radicais fazerem bombas atômicas ou uma ameaça latente nos reatores nucleares mal-administados…

No dia 10, comentávamos sobre as relações entre Colômbia e Venezuela. Com a saída de cena do combativo Uribe, havia a expectativa da reconciliação de seus líderes Chavez e Santos, encarada como um “espetáculo”, quase que planejada. Dito e feito: os países estão em bons termos novamente, e o espetáculo continua, agora com o tratamento médico de Chavez. Sua luta aguerrida e otimista contra o câncer acaba sendo uma mostra de tenacidade que tem tudo pra aumentar muito sua popularidade (já está confiante para as eleições de 2012), principalmente nesse contexto de crise em que a Venezuela se encontra.

Por fim, no dia 13, falávamos da “síndrome de Dom Quixote”, que nas Relações internacionais parece afetar muitos líderes mundiais, em que atitudes consideradas sem muito juízo na verdade são revestidas de interesses bem específicos. Os eventos recentes no Oriente Médio, em que vemos mandatários enviando suas forças armadas pra enfrentar civis, da Síria à Líbia, mesmo com a condenação internacional, mostram o quanto essa “loucura” parece estar preesente no dia-a-dia internacional.

É isso aí pessoal, postando e relembrando.


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Brasil: ator global e líder regional?

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Foi-se a desconfiança que nos impedia de identificar a Argentina como um potencial parceiro relevante. O Mercosul marcou, entre tantos elementos fundamentais, a aliança regional com o intuito de construir uma região de cooperação. Neste sentido, nossos projetos de desenvolvimento democrático, político, social e econômico caminhariam em sintonia e gerariam benefícios mútuos. Apesar da predominância do conceito integração regional, o tratado de Assunção marcou o fim de uma rivalidade histórica entre Brasil e Argentina, países com ambições e caminhos similares naquele momento.

Foi-se também o tempo em que o Brasil, assolado por questões urgentes no âmbito interno, pouco ou nada opinava nos rumos da comunidade internacional. Hoje a realidade é distinta. Como bem apontou Giovanni em um post recente, já existe o reconhecimento do Brasil como potência global por alguns especialistas. Em sentido similar, Celso Amorim, recém empossado ministro da Defesa, destacou a recomendação feita ao governo norte-americano de ajustar-se a um Brasil mais afirmativo e independente, em outras palavras, um ator verdadeiramente global. As recentes intervenções brasileiras nos mais importantes organismos internacionais corroboram nosso atual papel junto à comunidade internacional.

Há 20 anos, parecia que o Brasil estava destinado a ter como principais interlocutores: Argentina, Paraguai e Uruguai. A partir deste círculo, construiríamos as bases para o fortalecimento nacional e regional. Atualmente, cresce a convicção que nosso verdadeiro lugar é no salão principal junto aos Estados Unidos, a União Européia e os principais países emergentes. Nosso confinamento na ante-sala das organizações internacionais chegou ao fim. O que fora um sonho, parece formar um cenário crível e legitimado. Contudo, onde fica o projeto de integração e desenvolvimento regional? Aliás, é possível ser potência global sem ser um líder regional?

O evidente descolamento do Brasil em relação aos membros do Mercosul, em especial da Argentina, permitiu à nossa diplomacia alçar vôos mais ambiciosos. Recentemente, tive a oportunidade de conversar com alguns argentinos sobre o novo papel do Brasil, em maioria afirmavam que a Argentina ficou para trás e teríamos nos transformado nesse tal líder regional. Por outro lado, em contatos com colegas de Paraguai e Uruguai tive a impressão que o Brasil é visto como um “poderoso”, que pouco ou nada valoriza efetivamente a cooperação regional. Nossa ambição viria acima de tudo, o que nos permite inferir que há, em realidade, imposição brasileira em alguns temas importantes junto aos países menores.

Dessa maneira, o Brasil não poderia ser considerado um líder regional, uma vez que a maioria de nossos vizinhos não nos vê ou nos aceita como tal. Mais que isso, surge outra consideração importante. O Brasil que tanto defendeu um sistema mais justo, no qual todos os países sejam devidamente representados e relevantes, não estaria entrando para o seleto clube das potências e virando as costas para nossos interlocutores de outrora? Por exemplo, reivindicamos um assento permanente no Conselho de Segurança, mas isso o fará mais representativo ou somente nos tornará mais poderosos dentro de uma lógica igual? Será que adotamos a retórica que antes execrávamos, entrando no clube sem fazê-lo menos seleto, como defendíamos que deveria ser?


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Eram os deuses astronautas?

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Este é o título de um dos mais intrigantes e revolucionários livros a respeito do contato entre seres humanos e seres extraterrestres, escrito por Erich von Däniken: deuses desconhecidos imprimindo o conhecimento em civilizações atrasadas. O espírito de suas páginas viajou não só pelo passado longínquo, senão também pelas eras da História, quando homens se endeusaram para homens subjugar, como o fardo do “homem branco”, em sua missão civilizatória na África e Ásia, ao longo do século XIX. A questão, na atualidade, é quem são esses deuses astronautas e o que eles pregam?

O entrechoque de visões de mundo é parte indispensável da evolução do conhecimento, processo contínuo, que tanto provoca a curiosidade humana quanto promove melhorias no modo de vida. Quando uma visão tenta se impor às demais, limitam-se os horizontes do pensamento humano, produz-se maniqueísmos e se hipoteca o futuro. Da discussão para a prática: o que difere a repressão síria da repressão britânica? Por que gerenciar uma crise de países ricos com os instrumentos econômicos de países ricos?

Não admira que o mundo esteja um caos e atravessando uma das principais épocas de incerteza. A “primavera árabe” despertou nos povos o sentimento de liberdade, enfatizando, sobretudo, as melhorias sociais. Coincidentemente, há uma Europa que, embora livre, se levanta por causas sociais. Começou em Atenas, passou por Paris, e se acentuou em Londres. O continente perdeu seu vigor diante da atual crise financeira. Desemprego e desespero, uma combinação perfeita para a violência, basta uma fagulha para acendê-la. Com a violência, vem também a repressão.

Será que Ahmadinejad, Assad e Kadafi estão completamente errados em condenar o Reino Unido? Os deuses astronautas, do lado do Ocidente, condenam sistematicamente as atrocidades na Síria e na Líbia e agora fazem o mesmo? Dizem que é errado usar forças repressivas contra cidadãos e, ao mesmo tempo, prometem endurecer a postura em relação aos manifestantes de Londres. Os extraterrestres ocidentais estão combatendo as mesmas ideias que difundiram para os primatas que atravessaram Greenwich. A única diferença é que não se produziu estatísticas elevadas de morte.

E esta crise que apenas começou em 2008? Ela já foi considerada sob diversas perspectivas, particularmente, uma delas é precisa para defini-la estruturalmente, bem como suas conseqüências: nas palavras do renomado economista Joseph Stiglitz, a crise ideológica do capitalismo. Sabe-se, pois, que desde o término da Segunda Guerra Mundial, o modelo do crescimento dos Estados Unidos foi sustentado pelo endividamento crescente, criando instituições que lhes garantisse grana. Agora, o mundo cobrou a conta. Só que os países ricos ainda não perceberam isso; acham que o dólar é mais confiável, que os títulos da dívida norte-americana (T-Bonds) são seguros e assim por diante. Estas “pessoas realmente sérias”, na expressão irônica do economista Paul Krugman, perderam a noção de credibilidade, mas acreditam cegamente nas ideias econômicas alienígenas, como dogmas de tudo aquilo que é avançado e correto.

O que aprendemos e aprenderemos com estes deuses astronautas da contemporaneidade? Que civilização construiremos? São perguntas cujas respostas deixaremos para os escritores de amanhã.


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