Compromisso contra a desigualdade

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“Compromisso contra a desigualdade”: este foi o lema da primeira Reunião de Cúpula da UNASUL depois de sua criação formal em março deste ano, contando com a adesão de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela – Colômbia e Paraguai ainda devem aprovar a adesão ao bloco em seus parlamentos nacionais. Este encontro aconteceu essa semana em Lima, no Peru, logo após a posse do presidente eleito Humala no país e já apresentou importantes discussões para se pensar a integração regional.

Entre todos os desafios comuns que os países-membros compartilham, a desigualdade, infelizmente, pode ser listada como um dos principais (se não for o principal). Desigualdade em diferentes esferas, afetando diferentes públicos, e prejudicando populações diversas, especialmente em termos econômicos e sociais. A falta de políticas nacionais (e por que não regionais?) para a promoção de igualdade – em todos os sentidos – deixa claro que o desenvolvimento acelerado que vivenciamos não se encontra pautado em bases tão sólidas como poderia ser.

No que se refere à economia, especial atenção da reunião da UNASUL foi destinada à discussão acerca da competitividade em relação aos produtos industrializados asiáticos. Trata-se de uma questão delicada que os presidentes dos Bancos Centrais e os Ministros das Fazendas dos países do bloco debaterão nos próximos dias para apresentar uma postura comum. O fato é que, apesar de se incentivar o comércio internacional, não há como cogitar a proteção das indústrias nacionais enquanto os produtos importados são vendidos a preços tão inferiores. A criação de uma política regional neste sentido seria, certamente, de grande valia para o crescimento de todos os países envolvidos.

Já em termos sociais, foi apontada a necessidade também de se construir políticas comuns (dado que os problemas enfrentados são comuns), de modo que boas práticas sejam valorizadas como tais. O combate à pobreza extrema é urgente. O “Bolsa-família” brasileiro, enquanto medida paliativa e temporária de incentivo ao desenvolvimento local, se mostra como uma prática relevante a ser compartilhada – o Peru, inclusive, já solicitou apoio do Brasil para “importar” este modelo nacional de trabalho.

De fato, a necessidade de adoção de uma agenda prioritária com definição de metas (e prazos para seu cumprimento) é clara, mas espera-se que seja cada dia mais clara também a disposição por parte dos membros do bloco em alcançar essas metas conjuntamente. Os primeiros passos para a consolidação da UNASUL parecem estar sendo dados e o combate à desigualdade é a peça-chave. Desta forma, espera-se que sejam direcionadas as devidas atenções às devidas demandas para que se visualize um bloco regional cada vez mais forte e coeso.


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A revolta por mais educados

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“A educação sozinha não transforma a sociedade, mas sem ela tampouco a sociedade muda”

Essa é uma bela lição apresentada por Paulo Freire, grande educador brasileiro. De fato, a educação talvez possa não ser considerada como o único agente da mudança social, mas com toda certeza age como seu combustível e participa desse processo. Um combustível que tem sido capaz de urgir mudanças nos próprios sistemas educacionais mundo a fora.

Em outras palavras, a busca por maior nível de estudos pode vir a tornar-se uma transformação por si mesma. E é isso que os manifestantes têm visado no Chile. A busca de novas regras no sistema educacional para trazer alterações significativas na sociedade. Nesse sentido, o objetivo desse post é mostrar algumas das características do polêmico e louvado método chileno e onde os protestos dos estudantes se inserem nessa história toda.

Desde os anos 1980, com a onda do “libera geral” que os ideais do neoliberalismo sugeriam aos países sul-americanos, que todos os tipos de educação no país tornaram-se pagos. Isso mesmo, desde as privadas até as públicas. Todavia, esse mesmo ponto controvertido também foi louvado por muitos quando o Chile é considerado o país com o melhor sistema educacional em avaliações internacionais.

O que ocorre é que, basicamente, o governo subsidia as instituições de ensino, em todos os graus, havendo, portanto, colégios públicos e particulares que são propriedades de instituições, fundações e pessoas, mas recebem dinheiro do governo. Paralelamente, o país conta com um rígido exame de professores e processo de especialização que trás bonificações aos melhores e pode levar os piores ao desemprego. Mas os altos custos nunca impediram que muitos chilenos buscassem estudar, mas que também trouxe consigo um grave ônus: o endividamento pessoal. Assim, o financiamento privado estudantil tornou-se essencial para a maioria daqueles que não poderiam arcar com os custos dos seus estudos de qualidade, podendo trazer dívidas para uma vida toda. E esse é justamente o ponto mais controverso que uniu os estudantes e tem sido capaz de angariar apoio até mesmo de não-estudantes por todo o país.

Sabendo do caráter mais explicativo desse texto e para evitar de me estender muito mais, julgar se esse é o melhor sistema educacional do mundo ou não é complicado, até porque cada país deve criar regras adaptadas à sua realidade histórica, e o que é bom para uns pode não ser aplicável a outros lugares. Mas o ponto é que, melhor ou não, público ou privado, a sociedade está se organizando na maior manifestação desde a década de 1990 e tem buscado propostas que visam maior acesso aos estudos por toda a população. Por isso, no Chile, havendo grandes rupturas ou não, a educação, lentamente, já está realizando sua mudança. Fica a lição.

Para mais clique aqui, aqui e aqui.


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Conversas com o futuro

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Se, em nossa coluna “Há um ano”, olhamos para trás, que tal olharmos para frente? Que tal conversarmos com o futuro? Não pelo prazer da futurologia, mas para a avaliação dos caminhos a serem trilhados pelo mundo.


Não é novidade para ninguém que, atualmente, estamos presenciando um mundo em constante mudança e movimento. Mudanças que, até pouco tempo atrás, pareciam improváveis e outras que estão se consolidando cada vez mais. Analistas de relações internacionais ou não, todos nós, expectadores de acontecimentos globais, estamos nos perguntando: afinal de contas, que momento vivemos e para onde vamos?

Há pouco tempo, o Luís Felipe escreveu sobre os Estados Unidos. Dificilmente alguém poderia dizer que o país seria tão afetado pela atual crise financeira. Tampouco poderia dizer isso sobre a Europa. Ambos foram. Os principais pólos do poder mundial estão se desgastando, comprometendo o exercício da hegemonia econômica e política. Esse fato abre espaço para os países emergentes – China, Rússia, Brasil, Índia, Indonésia, etc. – se reposicionarem no mundo e suscita a indagação sobre se esses países irão ocupar a lacuna deixada pelos Estados Unidos e Europa em relação ao gerenciamento da ordem internacional. Se sim, que tipo de ordem teremos; se não, como lidar com esses países, quando emersos e então (provavelmente) potências?

Muitos estudos (ver, por exemplo, a publicação do National Intelligence Council) estão sendo realizados para poder compreender o futuro que há de vir. De maneira geral, os cenários oscilam entre a cooperação e o conflito, questionando o resultado dessa interação entre o declínio das tradicionais potências e a emersão de novas “potências” (se, de fato, quiserem assumir este status). Ademais, o rearranjo mundial deve levar em consideração questões que, até o momento, tem figurado de maneira marginal na agenda internacional. O terrorismo é importante, como demonstrou recentemente o atentado na Noruega (vejam o post do Álvaro e mais informações aqui), mas não é determinante. Se o terrorismo permanecer como a força gravitacional que rege a agenda mundial, milhões (se não bilhões) de pessoas estarão condenadas à miséria, fome e escassez de água, xenofobias e fundamentalismos serão fomentados, isso para não falar sobre outras questões, como meio ambiente, narcotráfico, tráfico de armas, etc.

Os Relatórios de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) (link desses relatórios), os relatórios do Banco Mundial e de diversas outras organizações apontam as questões tratadas acima como riscos diversos, que vêm sendo negligenciados. Riscos muito mais “reais” do que o terrorismo ou guerras. Riscos que matam silenciosamente e podem desencadear conflitos. A “favelização” está se tornando o principal fenômeno do século XXI (vejam este impressionante relatório, intitulado “The challenge of slums”). Há chineses e indianos que precisarão comer. Africanos morrerão por alguma doença antes mesmo que balas ou facões milicianos e tribais lhes atinjam. Esses riscos também despertam a atenção porque, em geral, ocorrem nos países pobres e nos emergentes.

Ora, pessoal, a conversa com o futuro é extensa, impossível de ser exaurida neste post. O objetivo aqui é convidá-los a refletirem a respeito do momento em que vivemos e pensarmos no futuro. Na próxima semana, traremos alguns dados importantes que ilustram as transformações em curso. Lembremos que as relações internacionais, diferentes dos diamantes, não são feitas para a eternidade; tampouco os países, diferentes dos periquitos ou dos ursos, não são monogâmicos e destinados a estabelecerem interações para todo o sempre. O poder muda e a interpretação do que é importante e do que deixa de ser varia. O mundo está mudando rapidamente e nossas mentes devem acompanhar esse processo de mudança.


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Tragédia de Primeiro Mundo

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Agora que a poeira assentou, parece ser um momento oportuno pra falar sobre a tragédia ocorrida na Noruega. Pra quem não sabe, na semana passada um maluco explodiu um carro-bomba em Oslo e chacinou jovens em um encontro do Partido Trabalhista, totalizando 93 mortes até o momento.

Apesar de se suspeitar do bom e velho fundamentalismo islâmico, o maluco da vez se chama Andres Behring Breivik, um radical cristão de extrema-direita com um plano meio audacioso de limpar a Europa dos muçulmanos e marxistas. Fosse nos EUA, onde se compra munição no mercadinho da esquina, até se esperaria algo assim (na verdade, virou algo bem comum por lá), mas na Noruega, onde o tempo de prisão máximo é de 21 anos e pode ser abreviado pela metade por bom comportamento (é o preço da reabilitação no primeiro mundo…), é um choque.

Fundamentalismo por fundamentalismo, de cristão a muçulmano, todos são nocivos. Mas o problema maior talvez seja a relação das políticas de segurança da região. Quando ocorreram os ataques, pipocaram análises sobre sua possível relação com terroristas islâmicos infiltrados, a participação da Noruega no Afeganistão e na Líbia, entre outros. Isso seria algo realmente problemático, por que se os ataques a Madri e Londres se deram como represália ao apoio às políticas de intervenção dos EUA, no momento atual o caso é completamente diferente – e isso implicaria em rever políticas de segurança da região como um todo (agora vista como um alvo “isolado”, sem precisar da justificativa de aliança com os EUA pra ser atacada). Mesmo não sendo esse o caso, cabe pensar na própria política norueguesa, pois ainda assim temos repercussões na União Européia como um todo.

Isso por que tudo que o terrorista conseguiu obter para seu massacre foi feito de maneira legal (das armas de caça e munição comprada em outros locais da Europa ao fertilizante que usou nas bombas), e claro que o que é posto no centro dessa discussão é a questão do porte de armas. Mesmo que seja para a caça, ocorreu alguma falha no sistema de regulamentação que deixou um radical notório obter munição pesada, trafegar livremente com ela pela Europa e entrar no país sem nenhum problema. Não se trata apenas de rever a liberdade prevista na Noruega, mas regulamentar essas situação na UE como um todo. Isso é um desafio: se não há nem a discussão em relação a temas menores, mas polêmicos, como o porte de armas e munições, quanto mais os complicados e abrangentes. Isso tudo em meio aos problemas econômicos e políticos (especialmente no tópico “imigração”) da UE. Mas se a idéia do bloco é unificar políticas como um todo, já passou da hora de pensar nessas questões.

Enquanto isso, restam as condolências pelas vítimas, e a perplexidade de que haja esse “Bin Laden loiro de olhos azuis”.


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Ibero-américa: um conceito em perspectiva

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Ibero-américa. Eis um conceito muitas vezes difundido, porém pouco analisado em sua essência. Objetivamente, a Ibero-américa pode ser definida, em termos gerais, como o agrupamento de todos os países latino-americanos somados à Espanha e a Portugal. Duas línguas principais (o português e o espanhol), aliadas a uma multiplicidade de tradições culturais, expressões e pensamentos distintos – e, ao mesmo tempo, complementares – caracterizam um conceito em diária construção.

Aliás, pensar na complementaridade a partir das diferenças talvez seja a grande promessa para o fortalecimento da idéia de um bloco ibero-americano neste século. Bloco de proporções gigantescas: 400 milhões de pessoas em extensos 18 milhões de km². O diálogo sobre o que une estes países (e também sobre o que os separa) deve ser o ponto de partida para qualquer análise neste sentido.

Desafios comuns, histórias de evolução compartilhadas e perspectivas de desenvolvimento acelerado marcam este momento social ibero-americano. Contudo, em termos econômicos, a crise financeira que assola fortemente os representantes europeus deste bloco vem a sugerir uma inversão em relação ao status quo das (já longínquas) eras de colonização. A América Latina – e notadamente o Brasil neste contexto – concentra as atenções e os investimentos no atual momento mundial de profundas transformações. Mas será que estamos efetivamente preparados para exportar modelos de gestão?

O multilateralismo parece ser a chave para a superação: soluções globais para problemas também globais. Entretanto, será mesmo que temos as ferramentas para “globalizar” as ações de uma forma coordenada entre os representantes da chamada Ibero-américa? Será que cada um dos países (dos menores aos mais expressivos) estão preparados para lidar com as diferenças e igualdades e promover políticas de integração comuns que promovam benefícios coletivos?

E neste ponto nos deparamos com uma reflexão interessante. Visualizar a Ibero-américa como um “conceito em perspectiva” parece a forma mais adequada de incentivar essa discussão. Perspectiva de longo prazo? Perspectiva de fortalecimento? Perspectiva de questionamento? Muitas são as possibilidades de análise…

Esperemos, com otimismo, que estejamos trabalhando em uma perspectiva de amadurecimento das idéias por parte dos próprios ibero-americanos (todos nós!) a respeito do desenvolvimento internacional cooperativo para que se possa, gradativamente, aprofundar os laços não apenas históricos, mas também sociais, econômicos e políticos entre todos os integrantes deste rico e peculiar agrupamento de países.


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A Argentina e seus mistérios

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A Argentina é um país com muita história pra contar. O nosso vizinho platino está em voga na mídia nas últimas semanas, por conta do torneio de futebol continental que lá acontece. E, além do fato do melhor jogador do mundo não conseguir render na sua seleção nacional como faz em seu clube na Espanha, existem muitos mistérios rondando aquelas bandas…

Hoje, 18 de julho, faz 14 anos que houve o ataque à AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), o maior atentado da história da América Latina, com mais de 80 mortos, e até hoje sem solução (veja um artigo interessante sobre o tema aqui). Nenhum grupo reivindicou a autoria do ataque (o que é atípico), ninguém foi preso, não se sabe nem qual foi o explosivo (e como foi) usado no ataque. As especulações sobre a motivação do ataque vão de vingança política contra o presidente Menem ao bom e velho terrorismo fundamentalista islâmico contra uma das maiores (e mais vulneráveis) comunidades judaicas do mundo. Trata-se de um assunto que nunca caiu no esquecimento, mas a falta de provas e falhas na investigação o condenam a ser para sempre uma fonte de teorias conspiratórias.

Por outro lado, nesse fim de semana houve uma revelação que acabou com outro mistério: exames de DNA mostraram que os herdeiros do maior jornal da Argentina não são filhos de desaparecidos políticos. A Argentina pode ter tido uma das ditaduras mais truculentas da América do Sul, com seu score de mortos e desaparecidos na casa das dezenas de milhares (só pra comparar, no caso do Brasil, por mais controversos que sejam os números, não se chega na casa dos 500), mas não eram malvados o suficiente pra matar criancinhas. O que ocorria muitas vezes com filhos de mulheres presas ou mortas em centros de detenção clandestinos era o envio para famílias simpáticas ao regime – mais de 104 crianças foram identificadas nessa situação até hoje. Com essa revelação, cai por terra mais uma teoria da conspiração que ligaria o grupo midiático mais poderoso do país a interesses políticos – e atualmente em uma rixa com Cristina Kirchner.

Não sei se o ataque à AMIA vai ter explicação, algum dia. Mas, em um país com um invejável senso de investigação e participação política, onde a justiça mandou a anistia catar coquinho e quase todos os ex-ditadores pararam na cadeia, não é surpresa que cada vez mais possamos ter esse tipo de mistério revelado.


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O melhor jornal do mundo caiu

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A imprensa, que tantas vezes modificou os rumos da história, viu nascer um escândalo no Reino Unido que ensejou um debate para rediscutir a tênue linha que separa sua missão e seus limites. A convivência entre o sensacionalista “News of the World” e os políticos britânicos nunca sofrera uma crise tão intensa. Para alguns a relação aproximou-se de uma lua de mel em diversas situações. Agora, os múltiplos escândalos de escutas ilegais viraram o centro das discussões, ocasionando inclusive o encerramento das atividades do tablóide mais popular do Reino Unido.

Os tablóides são uma maneira de expressão popular. Diversos veículos adotam estratégias similares para alavancar vendas e apelo publicitário. Os assuntos, de acordo com o contexto local ou nacional, são simples e de pouco conteúdo (para não dizer obscenos). Quem não viu jornais impressos e programas de televisão tratarem quase que exclusivamente de violência urbana, escândalos e crimes? O sucesso, medido através dos índices de vendas e ibope, é diretamente proporcional ao apelo popular. Mais fácil vender o que de fato gera interesse. O surgimento do “News of the World”, em 1843, está vinculado ao nascimento de um jornalismo popular direcionado para uma população britânica recém-alfabetizadas. Desde então, a fórmula foi amplamente reproduzida e teve estrondoso sucesso.

Rupert Murdoch, o magnata da mídia, terá um longo caminho pela frente se quiser defender seu império. O que antes era influência e prestígio junto à classe política, já se transformou em intensas críticas e no risco de intervenção do governo no que antes era a sagrada liberdade de imprensa. Não há mais espaço para condescendência com veículos com más condutas e relações ambíguas entre políticos e magnatas da mídia. A impunidade parece ter acabado. O tablóide britânico foi traído pela prática constante e impune de ilegalidades no acesso de informações exclusivas. Talvez os responsáveis por tal linha editorial, os quais supostamente nem sabiam das práticas conduzidas, tenham sido traídos pela segurança de não serem descobertos, e se descobertos não responsabilizados.

O tablóide pode cair, o império e seus súditos não. Murdoch se desculpou, fez acordos para indenizar vítimas, fechou o veículo causador do estrago. Ainda lhe resta o “The Sun” no Reino Unido, sem esquecermos o respeitado “Wall Street Journal” nos Estados Unidos. O caso do “News of the World” remonta a um problema maior: a informação interessada (com anuência da classe política) levada às grandes massas. Ao povo fica reservado o trivial, enquanto que magnatas decidem quais notícias serão publicadas e com qual enfoque. Os políticos por sua vez, ficam com o que lhes convém.

Nem David Cameron, primeiro-ministro britânico, conseguir escapar do escândalo.


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Brasil: uma potência global?

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De acordo com uma equipe de analista do Council on Foreign Relations (CFR), uma organização composta por pensadores independentes e não-partidários, o Brasil é uma potência global, e não apenas regional. O sonho dos teóricos do pensamento geopolítico brasileiro se concretizou. O tal do “país-monstro”, categoria restrita de Kennan – há somente cinco “países-monstros” – que une vantagens comparativas naturais (população, território e recursos naturais) para a manutenção de uma economia avançada e diversificada, finalmente demonstrou sua monstruosidade, em uma era de incertezas e grandes transformações.

Ora, que o Brasil assumiu um protagonismo crescente nas relações internacionais, por meio da diplomacia “altiva e ativa” ou da diplomacia do espetáculo, ninguém duvida. A questão é se esse protagonismo classificaria o Brasil como uma potência global. O país detém as capacidades necessárias para sustentar esse status? Além disso, é preciso que a comunidade internacional o reconheça e o Brasil o assuma. De um lado, os países têm que dizer “Ei, Brasil, você é uma potência global”; de outro, o Brasil deve afirmar “Nós somos uma potência global!”

O relatório do CFR divulgado nesta terça, intitulado Global Brazil and U.S.-Brazil Relations (não deixem de ver o Overview), considera o Brasil uma das potências globais mais importantes de hoje e deste século. Com a exceção da capacidade militar, o documento ressalta a dimensão territorial, populacional, crescimento econômico, liderança dos países em desenvolvimento, combate à pobreza, etc., que habilitariam o país a ocupar esse status. O Brasil seria uma potência global de natureza não-militar, um interlocutor favorável entre os mundos desenvolvido e em desenvolvimento e contribuiria para a governança global. Eis as suas capacidades, não só materiais, senão ideacionais. (Vejam, respectivamente, este artigo e esta entrevista: 1 e 2)

Do ponto de vista do reconhecimento, será que os outros países aceitariam o Brasil como potência global? Um exemplo para tentar responder essa pergunta. O relatório é categórico ao expressar que o país deveria ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, mas Estados Unidos, China, França e por aí vai sempre falam a mesma coisa para não dizer absolutamente nada: “É muito importante o papel que o Brasil vem desempenhando no mundo…”. Não falam se apóiam ou não o pleito brasileiro. Ademais, nem a região sul-americana está totalmente de acordo com esse status para o Brasil. Perguntem para um argentino ou para um colombiano qual a opinião dele sobre isso.

E o Brasil quer ser potência global? É uma boa pergunta! Até o momento, o país pode se vangloriar de indicadores econômicos comparáveis aos de países desenvolvidos, mas os sociais deixam a desejar (confiram os dados no site do PNUD). Além disso, incorporar essa condição exige tratamento diferenciado do que até então dispõe, bem como assumir mais responsabilidades no plano internacional: fazer parte da OCDE, adotar outras tarifas na OMC e compromissos maiores com o Protocolo de Kyoto, etc. Às vezes, o país até pode se julgar como potência global, de sorte que obtenha um assento permanente no Conselho de Segurança, mas, em geral, prefere ser percebido como um líder do mundo em desenvolvimento.

Por enquanto, parece muito prematuro tratar o Brasil como potência global. Ou não? Fica a pergunta no ar.


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Mares revoltos (até para os americanos)

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O Brasil tem navegado soberano pelos mares da economia internacional. São tantos elementos favoráveis – valorização das commodities, controle da inflação, crescimento econômico sustentado e amplos programas de distribuição de renda – que a crise de 2008 ficou longe de ser um pesadelo, apesar de tampouco ter se aproximado da “marolinha” apregoada por Lula. Por outro lado, um estudo das Nações Unidas sobre as perspectivas econômicas para os próximos anos apontou que nossa economia foi, em grande medida, tragada por eventos sucessivos que nos possibilitaram colher benesses no meio da tempestade. O alerta não vem somente de organismos internacionais, mas é amplamente conhecido e discutido por analistas no Brasil.

A queda da demanda das commodities parecia tolher as esperanças brasileiras. Contudo, o mercado das commodities foi alvo da ação de investidores (ou especuladores) frente a queda do dólar logo após o início da crise no setor bancária. No final das contas, as commodities elevaram suas cotações e garantiram maior segurança econômica ao país. Foi um golpe do destino, longe de um cenário previsto ou preparado por nossos governantes. O barco brasileiro, arisco e forte contra oscilações internacionais, poderia virar caso cenários menos favoráveis se consolidassem. A Sociedade Brasileira de Economia Política traz diversas considerações, críticas e sugestões para assegurar o fortalecimento do nosso projeto de desenvolvimento nacional.

Voltemos nossa atenção para o cenário externo. Os tais PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) eram os vilões preferidos, aqueles que poderiam levar o mundo a conhecer buracos ainda mais fundos e obscuros. Parece que não, ao menos não são os únicos vilões. Nesta semana, Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, clamou aos congressistas americanos pela expansão do teto da dívida do país. Na prática, isso representaria novos endividamentos para arcar com compromissos previamente assumidos. Sem isso, a confiança do mundo para prover crédito aos americanos desfaleceria. O default, aquilo que a Argentina já fez em 2001, seria catastrófico uma vez que poderia trazer a recessão de volta. Mesmo nós, leigos para assuntos econômicos complexos, já aprendemos: uma eventual crise nos Estados Unidos ameaçaria todos. Se para salvar a Grécia foram necessárias negociações tão complexas, imaginem o que aconteceria em um cenário de calote norte-americano.

Este cenário, mesmo considerando as discordâncias entre governo e congressistas, ainda é pouco provável. As partes envolvidas na discussão (essencialmente um embate partidário entre democratas e republicanos) conhecem os riscos envolvidos. Uma economia ainda mais destroçada não parece convir nem mesmo para os mais severos oposicionistas. Obama promete organizar reuniões diárias com congressistas até o fim do impasse. Resta saber se vencerá pelo cansaço ou pela persuasão. Na Europa, os problemas com os PIIGS também persistem, salvar a Grécia parece ser um mero paliativo para um bloco europeu assolado por bombas-relógio. Neste cenário, o Brasil segue intacto. O governo e a sociedade brasileira deveriam levar as seguidas ameaças de crise como um remédio contra a soberba de pensar que estaremos sempre salvos nesse mar indecifrável, a economia internacional.

Enquanto isso… 1,2


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Post do leitor – Danillo Alarcon

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[Hoje temos uma postagem muito oportuna e especial do nosso colega Danillo Alarcon, graduado em Relações Internacionais pela Unesp-Franca e mestrando também em Relações Internacionais pela UnB, sobre a emancipação do Sudão do Sul. Aproveitem! E lembramos que se quiserem escrever para o blog, basta mandar o texto para o e-mail da Página Internacional – [email protected], fiquem à vontade para participar]

É bom chamar o síndico: al-Bashir e seu novo vizinho

O cenário internacional está em constante mudança. A imagem congelada do mundo que temos nos mapas e globos que ornamentam bibliotecas e escolas não dá conta deste processo, e a atualização é constante. Neste início do século XXI, algumas mudanças são consideráveis dentre as quais a criação de Estados como o de Montenegro, o de Kosovo, o de Timor-Leste e mais recentemente o do Sudão do Sul. A criação de um novo Estado suscita um bom número de questões importantes, desde o seu reconhecimento à própria forma como este foi criado. Este artigo tem, assim, por objetivo enfrentar algumas questões referentes à situação no Sudão do Sul, recém criado a partir da divisão do antigo Sudão.

A primeira consideração a ser feita é em relação à própria forma como esse novo Estado, com capital em Juba, foi criado. Um referendo foi adotado para tal consulta. Apesar da influência internacional pressionando para a aceitação deste tipo de meio político, Cartum – agora capital do ‘novo’ Sudão – respeitou e reiterou seu compromisso com os resultados obtidos em janeiro de 2011. Omar Al-Bashir, atual presidente do Sudão, demonstrou que a voz e os anseios do povo são dignos e passíveis de serem ouvidos, onde quer que se esteja. Ponto para as teorias democráticas neste quesito.

A influência estrangeira em assuntos internos de determinados países é o segundo elemento a ser ressaltado. O Estado hodierno não é este ente ‘mágico’ que muitos acreditam ser – indivisível, inviolável e insuperável. Aliás, quanto mais dependente economicamente, mais vulnerável se torna um Estado. Esta situação é, contudo, aplicada aos grandes países, que agora tem acesso às reservas de petróleo do Sudão do Sul, sem passar pelo empecilho “Omar al-Bashir”. Ou seja, a criação do novo Estado ressalta também a situação de emergência em que se encontram os consumidores de produtos advindos do petróleo.

A questão econômica é deveras importante, e é destacada como a terceira questão aqui analisada. O novo Estado congrega ao longo de sua fronteira norte boa parte das reservas de recursos naturais que antes pertenciam ao todo. Há inclusive uma zona fronteiriça que ainda está sendo contestada pelas duas partes. De um lado, há um enorme potencial para um conflito, entre dois Estados independentes, ou seja, não mais seria uma guerra civil. Isso poderia acarretar a influência de outros atores e fatores na possibilidade de um conflito. Do outro, existem possiblidades de cooperação, pois a estrutura para exportar e submanufaturar os produtos extraídos no sul, estão no norte. O interessante é que há possibilidades de escolhas, e o resultado disso só virá com o tempo. Além desta questão, deve-se ressaltar o peso que haverá de ter a China no novo país criado, já que no Sudão de al-Bashir ela é a grande investidora.

O quarto ponto ressaltado está relacionado às dificuldades ainda sentidas pelo ser humano em conviver com o diferente. Um dos fatores que motivou a divisão dos dois países foram as diferenças religiosas e étnicas. O sul é majoritariamente cristão e animista, enquanto que o norte é islâmico. Como o próprio termo já ressalta, cada novo país é “majoritariamente” uma coisa ou outra, o que reascende a preocupação de todos para com a situação criada nos novos países, e atenção deve ser dada ao trato das minorias em cada lado da fronteira. Além do mais, a situação no ‘novo’ Sudão não é nada animadora para boa parte da população que vive na região de Darfur, e nem mesmo para o Sudão do Sul, onde convivem mais de 60 etnias, com potencial para severas divergências.

A divisão de um país, devemos ressaltar, não cria somente um outro país, pois o Estado original deixa de existir para dar lugar a duas ou mais entidades. Essa pode ser a chance para um novo começo, mas “enquanto o mundo continua parolando”, nem o Sudão nem o Sudão do Sul têm reais condições de proporcionar boas condições de vida para sua população, quanto mais de assegurar a paz entre si, Al-Bashir continua sendo o mesmo facínora de antes da divisão e movimentos de resistência continuam causando muitos problemas nos dois lados da fronteira. Há, claro, motivos para comemorar, mas há muito trabalho a fazer, e neste quesito, os atores internacionais – quaisquer que sejam (outro Estados, organismos internacionais, ONGs, indivíduos, etc) – têm deixado muito a desejar.


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