Há um ano...

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Outra vez nos aventuramos por antigos textos da Página Internacional. Como sempre, exercitamos nossas memórias e tentamos impedir que as histórias dos acontecimentos mais antigos tornem-se contos esquecidos, e que os eventos que as desencadearam percam-se em meio ao bombardeio diário de notícias mais recentes.

O tema do texto postado há exatamente um ano foi o Quirguistão. Nada mais prudente do que relembrarmos um pouco do que o Álvaro escreveu, aproveitarmos a deixa para tratarmos um pouco da história do país e relembrarmos aquilo que já foi dito pelo blog sobre o tema. Bom, no texto “Novos ares, velhos problemas”, nos é apontado que o referendo sobre a adoção de um regime parlamentarista no país teve um resultado a favor do novo regime. Como bem apontou Álvaro, foi a primeira vez que um país que compôs o bloco soviético adotou caminho diferente daquele do tradicional presidencialismo (para mais sobre as eleições de 2010, clique aqui).

A verdade é que esse país há tempos vive em uma luta constante entre continuidades e rupturas. Proclamada sua independência em 1991, a população é dividida entre a maioria quirguiz (aproximadamente 70%) e uma parcela significativa de uzbeques (cerca de 30%). Se de um lado observam-se tensões entre essas duas camadas populares provenientes da ruptura com o sistema da guerra fria, de outro, o que vemos é a preservação de uma relação diplomática conflituosa no país, entre Rússia e Estados Unidos, remontando os antigos tempos da bipolaridade. Atualmente, tanto os Estados Unidos quanto a Rússia mantém bases militares no país e ambos realizam pressões recíprocas para o fechamento daquelas do outro.

Mas aquilo que colocou o Quirguistão no foco dos noticiários nos últimos anos não foram os problemas que compartilha com muitos outros países do mundo – bases militares estrangeiras, corrupção ou improbidades administrativas diversas –, e sim a reação das organizações da sociedade civil a alguns desses problemas. Para se ter uma ideia, as manifestações populares que ocorreram na última metade de década (uma em 2005 e outra em 2010) tiveram efeitos interessantes sobre a política local, depondo líderes após líderes e chegando, hoje, a um novo regime de governo. E esses efeitos ainda se estendem até esse ano, semeando na mente dos populares mais dúvidas e incertezas.

O Quirguistão ainda se encontra naqueles rincões esquecidos do mundo. Mas, se forem pelos eventos que se desenrolam no país, seja pelas amplas capacidades de mobilização, seja pelo grau de violência utilizado, podemos dizer que o país irá atrairá muito a atenção do mundo e os holofotes da mídia.

Para não me estender muito mais do que isso, gostaria também de apontar algumas referências de textos do blog que tratam diretamente sobre o tema: A primeira seria a aplicação do Realismo em um caso concreto (em nossa coluna conversando com a teoria), escrito pelo Giovanni, e outro, de minha autoria, sobre os eventos da manifestação de 2010.

Bom, é isso aí, pessoal, postando, refletindo e relembrando!

[Mais sobre há uma interessante reportagem da bbc sobre o país, acesse clicando aqui. Para a descrição do país no Factbook da CIA, clique aqui]


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Indicação de leitura

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Pessoal, gostaria de deixar uma indicação de leitura.

Foi publicado na revista Foreign Polciy, na semana passada, um artigo relacionando a chamada “piada das duas vacas” com os acontecimentos em cada país do Oriente Médio. Ficou bem bacana e acho que vale a pena ser lido.

Só para deixar mais claro, esta “piada das duas vacas” faz alusão a uma situação na qual uma pessoa tem duas vacas e suas interações possíveis conforme variam os sistemas de governo. Por exemplo, no socialismo, se você tem duas vacas, o governo toma-lhe uma e dá para o seu vizinho.

Aqui está o link.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


Um senhor respeitável

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Há algumas semanas estávamos comemorando os 20 anos de democracia na Rússia. Pois bem, hoje temos um aniversario ainda mais expressivo, o do nonagenário Partido Comunista Chinês. Ao contrário da democracia surgida com o fim da União Soviética, que anda meio mal das pernas, o governo de Pequim (não me venham com Beijing) está firme e forte como nunca. Mas é um aniversario sem ter muito que comemorar.

A economia chinesa, até segunda ordem, vai bem, obrigado. Claro que tem o problema da inflação, mas nada que não se consiga contornar. Acho que é o que podemos chamar de males do crescimento… Agora, se nos últimos anos a economia se abriu, as expectativas de abertura política parecem diminuir à medida em que o partido envelhece.

Havia uma esperança de abertura com a sucessão de Hu Jintao, mas com a provável ascensão de Xi Jinping em 2012, considerado conservador, vai persistir a o padrão de atuação política atual e truculência no trato com os insatisfeitos. Com medo dos efeitos da “primavera árabe”, o governo chinês aumentou a repressão e passa esse aniversário no vermelho, literalmente, reforçando símbolos dos “bons tempos”. É a boa e velha propaganda em seu sentido original, de difusão política. Enquanto isso, aumentam incertezas e continuam pipocando os que protestam contra a corrupção e abusos.

Governos opressores não duram para sempre – nessa mesma semana, por exemplo, começa o julgamento dos últimos 4 líderes vivos do Khmer Vermelho (o então governo comunista do Camboja, que foi responsável pela morte de cerca de 2 milhões de pessoas, e é o caso mais absurdo e truculento de como os regimes comunistas lidavam com seus cidadãos). É pouco provável que haja um novo massacre da Praça da Paz Celestial, mas vai ser gradualmente mais difícil a esse governo, cada vez mais fechado e defensivo, que continue a manter os ânimos apaziguados sem que ocorra algum incidente mais grave.

Além do mais, um país não pode viver só de uma economia pujante, e se essa degringolar, aí a coisa fica feia. O partido continua firme, e ainda vai fazer muitos aniversários. Mas, até quando?


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Existe chavismo sem Chávez?

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Chávez, gostem ou não, raramente mantém grandes lapsos de silêncio. Suas aparições são variadas e contundentes, uma das fortalezas do regime por ele comandado. Aquele socialismo do século XXI, apregoada há tempos pelo mandatário venezuelano, fica melhor contextualizado para muitos por meio do termo “chavismo”. Sem ele, não haveria o movimento socialista repaginado tal qual conhecemos atualmente. Nesse sentido, a internação em uma clínica em Havana (Cuba) e os 12 dias em que o presidente se manteve longe da mídia bastaram para despertar novas discussões.

Pouco se sabe sobre o problema de saúde que o acomete, porém menos ainda se sabe sobre o que seria do regime frente possíveis limitações ao exercício de sua função. O chanceler Nicolas Maduro resume a preocupação: “A batalha que o presidente Chávez está enfrentando por sua saúde deve ser uma batalha de todos, uma batalha pela vida, pelo futuro imediato de nossa pátria”. Uma das características que sustenta governantes por todo nosso continente é justamente o viés personalista que adotam. No caso de Chávez, reformas constitucionais garantem o direito de re-eleições ilimitadas na Venezuela, sendo o atual presidente a grande – quando não única – aposta de seus seguidores.

Mesmo que a situação de Chávez não lhe imponha nenhuma limitação às suas funções e seu ativismo, ainda desperta uma velha pergunta intermitente. Existe “chavismo” sem Chávez? O dilema não é novo. Fidel Castro transferiu seus poder político e decisório em Cuba, seguindo um cronograma conservador como meio de garantir a aceitação popular e a legitimidade política de seu sucessor, Raul Castro. Em realidade, esse exemplo pouco nos serve. Chávez poderia escolher um sucessor dentro do partido, o(a) qual teria de enfrentar uma dura luta eleitoral. Assim, muito como Lula no Brasil, um dia o maior expoente do “chavismo” elegeria um(a) herdeiro(a) somente em seu partido. No melhor dos cenários, esse sucessor seguiria rumos similares e ficaria à sua disposição re-eleições ilimitadas.

O silêncio de Chávez, interrompido via rede social durante a manhã de hoje, preocupou seus partidários e abriu espaço para novas ondas de questionamento da oposição. Afinal, não foi empossado temporariamente o vice-presidente, tampouco houve transparência sobre o real quadro de saúde do presidente. 12 dias de um vazio político somado a problemas sérios na Venezuela. Talvez fosse a hora de Chávez começar a pensar no futuro de seu país desvinculado do seu, para o bem do acirradamente defendido projeto de “Revolução Bolivariana”. Muito se perderia caso não se construa essa diferenciação ou mesmo que os cidadãos não a reconheçam. Frente a uma nova eventualidade com a saúde de Chávez, há alguém que personifique a imagem de comandante? Muito poderia estar em jogo, possivelmente o “chavismo” em si.


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Vem, vem, Croácia vem!

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E não é que a Croácia será mesmo o próximo país a fazer parte da União Européia (UE)? Desta forma, o número de membros deste bloco de grande prestígio político-econômico no mundo sobe para 28, sendo a Croácia o segundo país formado após o desmembramento da antiga Iugoslávia a fazer parte dele (o primeiro foi a Eslovênia).

A inclusão croata na UE foi anunciada hoje pela Comissão Européia – após anos de negociações, adaptações e reformas –, mas o tratado de adesão ainda precisa ser assinado e a entrada efetiva do país no bloco está prevista apenas para julho de 2013. Apesar disso, os principais passos já foram dados e espera-se que o governo croata mantenha as condições determinadas nos últimos anos como pressupostos para a aceitação do país na UE.

Detalhe que a admissão da Croácia vem ainda carregada de mais um significado: estímulo para que mais países do Sudeste da Europa se esforcem para cumprir as exigências e ingressar na UE, em que se destaque o caso da Sérvia.

Se, por um lado, a entrada da Croácia parece dar novo ânimo aos entusiastas da UE e enfatizar os benefícios de fazer parte do bloco (a despeito das contrapartidas exigidas em termos políticos, econômicos e sociais); por outro lado é inevitável reconhecer que, em geral, a Europa não passa por seu momento de mais pleno crescimento, em todos os sentidos. Pelo contrário. A trágica situação grega ou a revoltosa situação espanhola, por exemplo, constituem aspectos bastante midiatizados nos últimos tempos que deixam claras as crises internas dos países-membros da UE que, inevitavelmente, afetam de alguma forma todos os membros do bloco.

De fato, o conhecido ditado “Grandes poderes trazem consigo grandes responsabilidades” parece ser mais verdadeiro que nunca para a União Européia. Com a ampliação do bloco e a busca por seu fortalecimento, todos os países-membros assumem cada vez mais riscos e responsabilidades uns em relação aos outros. Ceder, de certa forma, parte de sua soberania para obter maiores benefícios conjuntamente em um bloco supranacional demonstra o interesse dos países europeus em se aliarem em prol de seu próprio crescimento nacional. E que venha a Croácia, então!


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França, a prostituta europeia

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A Velha Senhora, como é conhecida a cidade de Paris, ainda tem muito do seu amor de pássara noturna para dar e vender nas relações internacionais. Isso tem uma explicação muito simples: a França alimenta os sonhos reprimidos de ser a grande potência europeia que não foi, ofuscada pelo brilho britânico durante todo o século XIX. A obra inacabada de Napoleão Bonaparte povoa o imaginário francês e, ao mesmo tempo, corrompe-o. Um dia, dorme com um cliente, noutro, com outro. Depois os esquece e se vende para os mais fortes.

Quem tomou a dianteira para bombardear a Líbia? E a Costa do Marfim? Quem agora quer, a todo custo, sancionar a Síria? Muitas vezes, a memória é mais fraca do que se pensa. Isso é também proposital. Há pouco tempo, Sarkozy dormia com Kadafi por causa do petróleo líbio e flertava com Al Assad, almejando influência no Oriente Médio. Agora não mais. O negócio é atacar, dissimular, ser grande… Então, chama as amiguinhas potências, fala uma coisa sensível sobre direitos humanos e as convoca para agir, sem medir a consequência dos atos. O importante é dizer: “Fomos nós, franceses, que tomamos a iniciativa!”

Aí vem a parte econômica. Tem um francesinho na diretoria-geral da OMC, Pascal Lamy, e querem outro no FMI, Cristine Lagarde. Aqui, os franceses optam por seduzir os países emergentes. Se concretizada a escolha, as negociações futuras estão condenadas a nascerem travadas, principalmente na questão agrícola e na política cambial e fiscal. Ora, deixar a principal instituição econômica e a principal instituição financeira justamente nas mãos de quem é autor da Política Agrícola Comum (PAC) europeia é pedir para esquecer grandes acordos em uma das áreas mais travadas ou repensar a atual crise sob o viés do dito mundo desenvolvido. Daí prevalece a França, que prefere ser tratada por Europa, só porque soa mais bonito: a vontade dos europeus está sendo bem representada.

Ah, sim. É impossível não lembrar que a Revolução Francesa trouxe novos ares para o mundo. Na época, as aspirações nacionais, encabeçadas pelos girondinos, deveriam se tornar aspirações universais: a libertação da França conduziria a libertação dos demais povos. E hoje? Já pensou se as fronteiras da exclusão, lançada contra imigrantes, notadamente muçulmanos, e ciganos virarem moda? Leis racistas, xenófobas, intolerantes, etc., emanadas do berço da liberdade contra a liberdade. É claro que isso não é importante, afinal, o governo francês luta pelos direitos humanos fora de casa, não é? Tadinho do sírio, do líbio… a maioria deles, muçulmanos!

Pois é, vale tudo para a França ter os seus orgasmos da grande potência que não foi e nem vai ser. Não adianta nem querer ressuscitar Napoleão III – em cujo período de governo o país gozou de maior influência na Europa – e restaurar o antigo Concerto Europeu. Fato é que esse sonho já descansa em paz faz muito tempo e seu comportamento em função dele a torna uma prostituta. França, a prostituta europeia.


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Presentes de grego

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Desde o ano passado que temos falado no blog sobre a trágica situação de crise de dívida pública em alguns países da União Europeia. Esse é um momento de tamanha dificuldade que se tem questionado o tamanho dos custos dessa integração europeia e o quão dispostos em socorrer as porcalhadas de Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha (chamados pejorativamente de PIIGS pela imprensa, baseados nos nomes dos países em inglês).

E hoje a Grécia ainda está emersa nos graves efeitos dessa severa crise. Após a aprovação, no ano passado, daquele famoso pacote de austeridade fiscal que foi seguido de um pacote de ajuda de 110 bilhões de euros (a serem liberados gradualmente) pelo FMI e pelo bloco europeu, esses dois credores se preparam para liberar mais 12 bilhões de euros da quantia.

Só que, como da última vez, para garantir mais uma parte do valor, a Grécia precisaria aprovar mais medidas de austeridade fiscal, significando cortes de gastos públicos em geral, como saúde, educação, reduzir salários, demitir funcionários públicos, realizar as sempre polêmicas privatizações, entre outras. O primeiro passo em direção da consolidação dessas novas medidas já foi dado: o voto de confiança do parlamento do primeiro ministro grego, George Papandreou (cabe notar que os 158 votos que recebeu vieram do Partido Socialista, seu próprio partido).

Agora resta somente aguardar até a semana que vem quando o parlamento votará no novo pacote.

Se esse é um bom presente (apesar de questionar-se se é suficiente) para uma Grécia que sem essa quantia não conseguiria nem pagar suas dívidas do próximo mês, para a maior parte dos cidadãos gregos é tido apenas como mais um presente de grego, um conjunto de medidas extremamente impopulares. Isso porque não há previsões de o país recuperar-se no curto prazo, e acredita-se que ficará imerso em pacotes de austeridade pelos próximos quatro anos.

O que, em outras palavras, significa quase meia década sem crescimento real, quase meia década sem recuperação das produções nacionais e quase meia década de dificuldades para o povo grego. Situação já bem compreendida pela população grega que já saiu em protestos na noite da aprovação do voto de confiança do primeiro ministro.

Mas a questão que emerge é o que fazer? O que fazer se os custos de sustentar uma Grécia falida são altíssimos e se uma moratória grega representaria quebradeiras generalizadas de bancos na Europa (já que grande parte dos títulos da dívida pública da Grécia foram adquiridos por bancos alemães, ingleses e franceses)? O que fazer se o caminho para a recuperação implica em um severo prejuízo social?

Essas questões são muito mais complexas do que parecem e são aquelas que os próprios policymakers da UE e da Grécia tem se perguntado. E, enquanto isso, a população se revolta, mas espera que esses presentes de grego, no longo prazo, tornem-se o grande presente da recuperação grega.

[Para mais sobre o assunto: 1, 2, 3, 4 , 5 , 6 , 7 , 8]


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"Comer, comer…

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É o melhor para poder crescer.” Toda mãe deve ter dito isso para seu filho. O mundo também disse isso para seus países, só não esperava que uns comessem tanto a ponto de não deixar nada ou quase nada para os outros. Agora, a indigestão ataca os que comeram demais e a carência, aqueles que pouco comeram. Desnecessário dizer que quem não come, não cresce, e que quem come mal, cresce mal.

Alimentação. Um tema sensível, delicado e escondido atrás das envelhecidas cortinas do poder que adornam as relações internacionais. Soa até exagerado, mas os alimentos podem imprimir novas dinâmicas em um mundo acostumado a ver o que as armas, o dinheiro e o prestígio permitem enxergar. Lester Brown é quem dá o recado, em um artigo muito interessante, intitulado “A nova geopolítica dos alimentos”. Para Brown, os alimentos se tornaram o “condutor oculto da política mundial”, deixarão um rastro de crises e viveremos em tempos de escassez.

Não é difícil perceber o que está causando isso: a população está aumentando. Mais pessoas precisam comer, o que não significa que essa necessidade será atendida. Sem dúvidas, Malthus gostaria de se pronunciar no século XXI. O aumento populacional fatalmente provoca uma pressão sobre a produção. Os preços sobem e não querem mais descer: a Organização das Nações Unidas para Agriculta e Alimentação (FAO, na sigla em inglês) acredita que eles se manterão elevados em 2012 e uma ONG britânica calcula que dobrarão até 2030. (Acompanhem os preços e a demanda.) Resultado: as pessoas empobrecem e passam fome. A estimativa é que, em 2010, havia 925 milhões de pessoas subnutridas, o que equivale a praticamente um sexto da população mundial – quase todas (88%) na Ásia e na África Subsaariana. (Vejam os relatórios da FAO de 2008 e 2010 sobre a insegurança alimentar.)

Além disso, a questão dos alimentos perpassa uma série de outras questões: escassez de água, biocombustíveis, revoltas e terras estrangeiras. As práticas excessivas de irrigação estão levando ao esgotamento dos lençóis freáticos. No caso dos biocombustíveis, o investimento em grãos acaba acompanhando o preço do petróleo, pois este conduz à procura por fontes alternativas, sobretudo, o álcool produzido pelo milho ou pela cana-de-açúcar. Alguns também associam as causas da ‘primavera árabe’ com a inflação, principalmente no Egito e na Síria, onde ela atingiu dois dígitos. Por fim, uma prática pode estar se tornando cada vez mais comum: o arrendamento de terras no estrangeiro, de maneira a cultivar produtos para suprir as necessidades dos países que as arrendam. Arábia Saudita, China e Coreia do Sul lideram esta modalidade; o destino é a África.

Os alimentos podem estar afetando as relações internacionais e pouca atenção é dada a isso. Não é exagerado dizer que os conflitos futuros, inter ou intra-estatais, podem ser travados por terras ou por comida. A China não vai resolver o seu problema populacional matando seus chinesinhos de fome e o Congo tem de lidar com 69% de sua população subnutrida (Confiram este mapa de subnutrição). Os egoísmos nacionais podem voltar com tudo, uma vez que os países podem preferir alimentar seus cidadãos à custa da subnutrição em outros países. Os egoísmos individuais devem se acirrar na medida em que se prefira investir no luxo de poucos – o combustível para o carro – em detrimento à vida de muitos. Isso são apenas alguns pontos de uma intensa discussão que poderia se estender para meio ambiente, direitos humanos, etc.

Conclui-se, finalmente, que a lógica é simples, come-se para viver, e não apenas por comer. Não é à toa que a gula é considerada um dos sete pecados capitais. Não é à toa que devemos verificar importantes mudanças no curso das relações internacionais em um curto espaço de tempo.


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Socorram o Marrocos

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Parece que o tema da tal “primavera árabe” não morre tão cedo. Em 2011 já se falou de tudo sobre isso, de espírito democrático a questão de intervenções. Mas, qual o saldo até o momento? Temos dois governantes depostos, mas com seu país atualmente imerso em caos e incerteza (Tunísia e Egito), uma invasão cujo único resultado prático foi ressuscitar velhas maneiras de intervenção com uma roupa nova e causar a morte de mais civis, sem resultado prático visível (Líbia), e os casos em que o governante não larga o osso mas solta o porrete contra os insatisfeitos (Iêmen, Síria, etc…). Curiosamente, temos um caso em que finalmente podemos ter um resultado “satisfatório” em termos de democracia, que é o Marrocos.

O país do norte africano não escapou das ondas de protestos, mas a repressão foi bem mais, por assim dizer, light – mesmo por que a família real está consolidada no poder há mais de 300 anos, não são aventureiros como muitos de seus vizinhos, e a economia não anda mal das pernas. Quando tentou reprimir com mais violência, causou a morte de um opositor pacífico e gerou ainda mais furor; com isso, o governo diminuiu a repressão e parece que o rei Mohammed VI se deu conta que reprimir com violência é improdutivo. Continuam a pipocar denúncias e protestos, e de maneira inédita na região, foram apresentadas propostas de reforma para transformar o Marrocos em uma monarquia constitucional. É o bom e velho ditado dos “vão-se os anéis, ficam os dedos”: o rei abre mão de parte do seu poder para se manter, enquanto se implementam algumas reformas desejadas pelos revoltosos.

Se tudo correr bem, será um exemplo aos demais países da região, uma reforma pacífica e que não deixa um vazio político e problemático como no Egito ou Tunísia, mantendo um aparato institucional ao mesmo tempo em que se atendem as reivindicações (ou, ao menos, parte delas…). O grande mistério é o que esperar do rei Mohammed VI com relação às manifestações – tanto estas quanto a repressão foram crescentes nos últimos meses. E por mais que esteja evitando medidas mais drásticas, caso se sinta muito ameaçado, o governo pode recorrer ao exemplo de seus vizinhos, indo pelo caminho “fácil” de desbancar pra violência pesada contra os manifestantes.

Ignorando o palíndromo do título, o Marrocos parece ser um excelente exemplo de que a melhor via para a democracia é mesmo pela reforma interna. O jeito é torcer pelo melhor.


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