A volta dos que foram. E saíram, depois tornaram a voltar…

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E olha aí, o bom e velho Zelaya dando as caras novamente. Na semana em que Honduras muito provavelmente vai ser readmitida na OEA, o presidente exilado volta a seu país dando declarações de paz e amor com o atual mandatário, Porfírio Lobo.

Claro que uma coisa tem a ver com a outra. Pra quem não lembra, a crise começou em 2009 quando Zelaya teve a brilhante idéia de contornar a Constituição e pedir um plebiscito para tentar se reeleger. Não deu muito certo, e a oposição teve a não menos constitucional idéia de removê-lo do poder e mandá-lo de mala e cuia pra Costa Rica. Deu no que deu: Zelaya apareceu do nada na Embaixada do Brasil onde se entocou por 120 dias, criou-se um mal-estar entre os que reconheciam ou não o governo golpista (palavra forte para muitos países sul-americanos…) e Honduras saiu da OEA.

Todavia, com a negociação entre as partes, negociada por Venezuela e, principalmente, Colômbia, tudo parece estar em paz. Zelaya foi autorizado a retornar a seu lar, a crise institucional parece contornada e articula-se o consenso na OEA para a readmissão. Paz aparente, claro, com as denúncias de repressão, impunidade e violência contra jovens e camponeses. E há ainda quem reclame do golpe de Estado estar passando impune por meio desse acordo político.

No fim das contas, ganham Zelaya (que retorna), Lobo (que fica no poder até as próximas eleições e pode levar o país de volta à OEA) e, correndo por fora, a Colômbia de Juan M. Santos. O país costurou em grande parte esse acordo, eclipsando a Venezuela e o Brasil (que só se atrapalhou nessa história), demonstra ser um interlocutor viável para a região e que mostra como seu presidente Santos parece ser uma versão tropical do russo Medvedev, saindo da sombra de seu padrinho político de maneira surpreendente.


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Tragédia nacional, mobilização internacional?

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“Tragédia nacional” foi o modo como Obama caracterizou o tornado que devastou Missouri na última semana. Uma tragédia que demanda uma resposta também de proporções nacionais (ou será que internacionais?) por parte dos Estados Unidos, país que sofre com desastres naturais há décadas.

Sabe-se que a localização geográfica dos Estados Unidos é mais propícia à ocorrência de desastres naturais, mas o impacto destes nos últimos tempos tem surpreendido a todos (veja um interessante “Especial on-line” a respeito neste link). Com o último tornado ocorrido na cidade de Joplin, em Missouri, 2011 já se torna o ano em que mais mortes devido a tornados foram causadas nos Estados Unidos desde que o Serviço Nacional de Meteorologia começou as medições: foram mais de 500 vítimas no total, sendo aproximadamente 140 só da cidade de Joplin (as fotos comparando o “antes” com o “depois” são impressionantes, veja aqui!).

As medidas de socorro a desastres necessárias a este tipo de situação são tomadas pelo governo americano e a população constantemente se mobiliza em apoio ao trabalho voluntário para a reconstrução das cidades destruídas. Ok, mas será que o conhecido ditado “é melhor prevenir do que remediar” não poderia ser aplicado neste caso? De fato, existem ocorrências que são praticamente impossíveis de serem evitadas, mesmo com todas as precauções existentes.

Contudo, pensando a longo prazo, percebe-se que os esforços internacionais na área de Meio Ambiente são extremamente necessários para que as conseqüências negativas gerais das mudanças climáticas sejam evitadas ou, pelo menos, amenizadas. E não é de hoje que os Estados Unidos “desapontam” neste quesito. O que fazer quando os interesses estratégicos suplantam a mobilização ambiental?

Com a proximidade da Cúpula Rio+20 (que ocorrerá no Brasil exatamente 2o anos depois da primeira grande reunião das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, a famosa Rio 92), aumentam as perspectivas de maior comprometimento internacional com a causa ambiental, partindo-se do pressuposto de que “prevenir” é, sim, possível (e muito melhor) que “remediar”. Alguém duvida que os esforços de hoje repercutirão diretamente no cenário internacional de amanhã? Resta apenas saber se o apoio dos países à(s) causa(s) ambiental(is) – tantas vezes restrito à retórica – pode se configurar efetivamente em ações para a prevenção de desastres, especialmente diante de acontecimentos tão trágicos e constantes como os tornados nos Estados Unidos nos últimos meses…


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A Justiça Internacional

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A genialidade e a inventividade humana parecem não conhecer limites. No decorrer da história outra faceta dessa mesma característica assombrou populações, ensejou ódio e perpetrou atos antes impensáveis. Infelizmente, o mesmo homem que por meio de diversas inovações moldou a vida moderna, também apresentou ao mundo conceitos como limpeza étnica, Holocausto e genocídio. Como esquecer massacres contra civis? Como acreditar na justiça frente crimes que permaneciam irresolutos e vozes nunca atendidas?

A crueldade contra a vida humana, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, não era acompanhada por sistemas formais de justiça no âmbito internacional. Em verdade, muitos dos crimes então cometidos criaram um precedente para sistemas que garantissem o reconhecimento e o respeito aos direitos humanos. A Segunda Guerra Mundial foi sucedida por diversos tratados, convenções e reuniões internacionais com o fim de regulamentar tal questão. Passamos de um sistema que tratava os direitos humanos como intrínsecos à conduta humana para um corpo regulatório formal, no qual tais direitos eram estabelecidos e reconhecimentos pela comunidade internacional.

O cerco aos países membros das Nações Unidas, contudo, não foi suficiente para assegurar o fim de condutas lesivas de governos contra populações civis. A inexistência de guerras que envolvessem um grande número de países não arrefeceu o ritmo do desrespeito aos direitos humanos. Foram diversos os conflitos de âmbito regional que chocaram a comunidade internacional, ao mesmo tempo em que seus fóruns eram incapazes de vencer a batalha entre direitos humanos e direitos dos Estados, no sentido de conduzir ações que impedissem genocídios e crimes contra a humanidade.

O estabelecimento, com amplo apoio da comunidade internacional, do Tribunal Penal Internacional (TPI) através do Tratado de Roma veio como mais um passo para o fortalecimento do sistema internacional para os direitos humanos. Desta vez, o objetivo era trazer líderes de grupos (estatais ou não); que tenham perpetrado crimes de guerra, genocídios ou crimes contra a humanidade; a um julgamento baseado do direito internacional. Os alvos da ação do TPI são líderes não levados a sistemas nacionais de justiça considerados justos, notadamente países de institucionalidade fragilizada. Portanto, a comunidade internacional idealmente contará com tratados e convenções definindo o sistema internacional para os direitos humanos ao mesmo tempo em que terá mecanismos que garantam o fim da impunidade de Estados e líderes com o advento das cortes e tribunais internacionais.

Por se tratar um sistema colaborativo, no qual há forte dependência da cooperação com os estados membros, o TPI ainda enfrenta desafios colossais para levar à justiça seus acusados. As boas intenções ainda não encontraram mecanismos que as corroborem. Um exemplo claro disso é a possibilidade de extradição de Mladic para Haia (Holanda, onde está sediado o TPI) somente 16 anos após o fim da Guerra da Bósnia. Existe ainda a forte oposição dos Estados Unidos, que chegou a ser um ativismo contra o sucesso do estabelecido via Tratado de Roma, representada pela a afirmação de John Bolton, um importante diplomata norte-americano durante o governo Bush:

“Um grupo de países reza pelo fim do governo Bush e a eleição de um sucessor que assine novamente o Tratado de Roma. Haverá um dia frio no inferno antes que isso aconteça.”(em tradução livre) 

Será possível uma justiça internacional realmente efetiva?

Para mais: 1,2,3


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O código do descrédito

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E o Brasil mudou. Com o fim dos governos autoritários no país e o emergir da década de 1990, ventos de mudança sopraram na mente dos brasileiros e na política externa do país. Foram ratificados muitos tratados internacionais pendentes em diversas áreas e foram alteradas as posturas referentes às mudanças do clima.

De país displicente que conduziria a Amazônia à sua própria destruição, a país referência por suas posturas pró-ativas no campo das mudanças climáticas, o Brasil foi construindo uma nova imagem, que perdura até hoje.

Um exemplo disso foram a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (CNUMC), no Rio de Janeiro, em 1992, também conhecido como ECO-92 ou Rio-92, e a Cúpula Mundial pelo Desenvolvimento Sustentável, a Rio+10 (realizada 10 anos depois da Rio-92) que consolidaram a nova visão do país em questões climáticas. Visão essa que perdura até hoje, mas lembrando, foi construída lentamente, arduamente e ainda é um castelo de cartas em nossa história, já que o Brasil apresenta dificuldades em lidar com desmatamentos ilegais em áreas de preservação e é bem dependente de uma agricultura que precisa de constantes ganhos de produtividade e produção.

Nesse sentido, reformular o Código Florestal brasileiro tornando mais fácil a ampliação do desmatamento das áreas de proteção e garantindo mais vias para o drible da legislação (como permitir que o registro de áreas seja feito pelos governos estaduais) é grandemente não recomendado. Isso porque a proposta atual, não só pode, como irá representar uma pedrada na casa de vidro da política externa do Brasil.

Basta pensar que todo o marketing pessoal do ex-presidente Lula pelo biocombustível brasileiro pode ser rapidamente desconstruído se a produção do produto for assimilada à expansão ilegal de canaviais ou a uma produção com severos custos aos ecossistemas brasileiros. O descrédito poderia emergir também quando da realização da próxima conferência de desenvolvimento sustentável, a Rio+20, que terá o Brasil como país sede. Ter um novo código florestal mais permissivo e que abranda as relações do Estado com os desmatadores não seria nada adequado para a visão internacional do país.

Se a política externa é um jogo tão delicado, cada palavra, cada frase e cada ação devem ser pensadas com cuidado. Um Código Florestal que instiga o desmatamento pode vir a representar uma incoerência, um passo mal pensado, que, ao invés de produzir mais comércio internacional de produtos brasileiros, pode acarretar justamente o oposto: descrédito.


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Há um ano...

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Enquanto um ano se passou na história mundial, no complexo livro das relações internacionais talvez tenha passado nada mais do que alguns grifos que ressaltavam alguns temas. Os destaques aos leitores se foram, mas muitas dessas questões ainda prosseguem, enquanto aguardam um novo grifo de outro leitor em um novo momento.

Agora, no livro das postagens da Página Internacional, há um ano, tínhamos um cenário de crises. Tensões como aquela entre as Coreias ou como aquela velha história do programa nuclear iraniano. Dois temas que foram bem retratados no texto “Dominó Mundial”, de autoria do Álvaro, no qual ele aponta que em ambas questões as divergências entre o tio Sam e o dragão chinês eram evidentes.

Essas diferenças formariam um grande dominó mundial, no qual a oposição em uma questão impediria a negociação em outra. Um ano depois, podemos dizer que essas peças ainda estão delicadamente posicionadas no tabuleiro mundial, com a ressalva de que poderio econômico pode não necessariamente significar influência em todos os âmbitos da política.

Isso porque a China nem chegou a votar contra as novas sansões econômicas contra o Irã aprovadas pelo Conselho de Segurança (lembrando que com duas abstenções: Brasil e Turquia), acatando com a decisão dos cinco gigantes do veto.

Por isso mesmo, relembrar esse texto caberia dentro de muitas discussões interessantes. E essa tal ascensão da China e declínio do poderio americano? De fato podem ser levados em consideração quando tratamos da nova ordem mundial? Será que dá pra dizer que a economia é um ambiente de muitos países hegemônicos enquanto que na esfera da segurança o Tio Sam ainda mantém sua hegemonia? Se sim, como isso seria?

De fato, podem-se levantar muitas questões. E dentre todas essas dúvidas, alguém que antes era manchete torna-se mero coadjuvante nas notícias quando a primavera árabe desabrocha. E o Irã? Apesar de pouco se falar de programa nuclear, Ahmadnejad ainda é tema de muitas notícias já que anda em uma relação conflituosa com os líderes religiosos do país, os aiatolás. Enquanto se equilibra na corda bamba, o presidente iraniano agradece ao novo foco da imprensa internacional e das declarações de Obama.

E no final das contas, no livro das relações internacionais, o Irã agradece a falta de atenção, a China fortalece-se como potência econômica, os Estados Unidos experimentam limitações hegemônicas; enquanto o dominó mundial ainda é instável e espera um simples sopro para desabar em mais crises…


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Revolta dos indignados

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Na última sexta-feira, a Bianca comentou sobre as revoluções e a “primavera árabe”. Hoje, lemos nos jornais sobre os resultados das eleições na Espanha, e por mais estranho que pareça, são assuntos que têm tudo a ver.

Como assim, está havendo uma revolução na Espanha? Calma, não é pra tanto. Ou, ao menos, se está havendo, é pacífica e organizada. Desde a semana passada, milhares de pessoas se aglomeram em frente a diversas praças no país, sendo a maior concentração na Puerta del Sol em Madri, reivindicando a revisão de reformas econômicas e a moralização da política no país, no chamado movimento 15-M, ou “a revolução dos indignados”.

O movimento era “proibido” pelo governo, por conta das eleições próximas – e já se comentava que fazia uso dessa regulamentação eleitoral como instrumento para debelar os protestos. Contudo, ao contrário dos casos anteriores nos países árabes, não se recorreu à violência ou intervenção policial, apenas avisos aos reclamantes que se dispersassem. Deu no que deu: uma taxa recorde de abstenção eleitoral, a derrota do partido de situação, o PSOE do primeiro-ministro Zapatero, e a permanência do 15-M, que promete continuar com os protestos e se mostra uma força política organizada (mas não como um partido) mesmo após o período eleitoral.

Uma ponderação e uma lição sobre o caso. O fato é que a oposição praticamente clama pela saída imediata do partido socialista do governo, e isso pode refletir a insatisfação quanto às medidas de austeridade impostas para a continuidade da Espanha na União Europeia. As dívidas dos governos regionais podem ser muito maiores que o declarado e os mercados podem receber muito mal essa novidade. Isso tudo agrava o cenário de incerteza econômica na Espanha e pode vir a ser mais um golpe duro contra a integração européia.

E a lição? Com um mínimo de boa vontade, é possível organizar um movimento civil de contestação, legítimo e pacífico. Se a questão econômica é espinhosa de se debater, ao menos o clamor por transparência e dignidade da classe política é mais que bem-vindo em qualquer Estado. Se em países com debilidades e restrições (como o Egito) os jovens conseguiam armar protestos por meio de redes sociais e afins, quanto mais em um país “livre” como a Espanha.

Ou o Brasil. Dá no que pensar…


Categorias: Economia, Europa, Polêmica, Política e Política Externa


A audácia da desesperança

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Até que ponto os Estados Unidos estão na página errada da história?

Obama realizou o anseio premente de uma nação através da operação que vingou os atentados terroristas do 11 de setembro. No mais recente capítulo da saga norte-americana, o presidente fez um esperado pronunciamento sobre as revoluções no Oriente Médio e as perspectivas para o processo de paz entre palestinos e israelenses. Os pontos principais a se destacar foram as demandas com relação à atuação de Israel em territórios originalmente palestinos (de acordo com resolução das Nações Unidas de 1967) e a promessa de financiamento para projetos que fortaleçam a democracia nos países de região.

Pouco ou nada mudou. Israel é um dos aliados mais antigos dos Estados Unidos e o compromisso elementar da parceria é a manutenção da segurança dos israelenses. Obama já havia, em outras oportunidades, solicitado o congelamento da expansão dos assentamentos em territórios palestinos. Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, não parece dar atenção às demandas. Não há indícios que um discurso, repleto de intenções, do principal aliado tenha força suficiente para ensejar mais uma rodada de negociações. Israel tem forte resistência interna a qualquer ajuste. No final das contas, Netanyahu reconhece que as discussões devem ser baseadas nas fronteiras definidas em 1967, porém nunca as mesmas serão restabelecidas por representarem riscos à segurança dos israelenses.

Não só Obama não disse nada novo, muito menos algo que mudasse a figura das negociações, como abriu um precedente para Netanyahu destacar a posição oficial de seu país. O destaque, novamente, foi retórico. Vieram à tona os “valores” e o “dever” norte-americano de promover a democracia pelo mundo. As revoluções no Oriente Médio já ocorreram, algumas seguem em andamento, e suas motivações e seus líderes foram gestados internamente. Para piorar, muitos dos governantes depostos foram aliados de longa data dos americanos. Nesse sentido, estariam os Estados Unidos lendo os livros de história errados?

Como em um “revival” de outros momentos históricos, os norte-americanos ficaram à margem do que ocorreu. Contudo, dessa vez sua participação não foi encoberta, os revolucionários não foram patrocinados pela CIA, nem mesmo se previa tal cenário. Obama tenta marcar posição por meio do discurso, garantindo seu país na página certa da história. Será? Ontem, a TV Cultura mostrou um documentário sobre a invasão do Panamá em 1989, a mesma que forçou a renúncia do ditador Noriega. Os princípios, os valores, a influência e o poder bélico seguem quase os mesmos; as ações e os resultados não. A região que se tornou o eixo estratégico para a política externa norte-americana, o Oriente Médio, se liberta de seus ditadores sem uma participação tão profunda da (ainda) maior potência mundial.

Obama, representante da esperança e audácia pela mudança, ruma forte para a reeleição. No plano externo, nada mudou, nem parece que vai. Até o Super-Homem não acredita mais, afinal verdade, justiça e o “american way” não são mais suficientes.


Categorias: Defesa, Estados Unidos, Paz, Segurança


Revoluções e revolucionários

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“Às vezes, no curso da história, as ações de cidadãos comuns desencadeiam movimentos por mudança porque elas falam a um anseio de liberdade que vinha se formando durante anos. […] A história dessa revolução [da Tunísia], e das que se seguiram, não deveria causar surpresa. […] Esses gritos de dignidade humana estão sendo ouvidos por toda a região.” […]

Estes breves excertos foram retirados da tradução do discurso de Barack Obama sobre o Oriente Médio realizado ontem (leia a íntegra traduzida aqui e uma análise a respeito aqui) e cuja mensagem reforça o poder de transformação destes acontecimentos tão recentes e já históricos na luta pelos direitos civis nos diversos países da região.

Neste sentido, os comentários deste post serão baseados na explanação da reconhecida filósofa Marilena Chauí (currículo lattes aqui) por ocasião do evento “Revoluções – Uma política do sensível”, realizado entre hoje e amanhã em São Paulo. O intuito é apenas incentivar a discussão acerca desta temática que tem sido tão freqüente nos noticiários, mas sobre a qual constantemente não refletimos de forma mais aprofundada.

Todos os países árabes que tiveram movimentos políticos revolucionários nos últimos meses possuem diferenças e semelhanças entre si. Entre as diferenças, destacam-se a questão da existência (ou não) de oposição política interna; a força da religião; a força dos exércitos profissionais e a organização policial internas; a existência (ou não) de uma classe média urbana escolarizada; a predominância de uma organização tribal comunitária ou de uma sociedade civil individual; e a falta de homogeneidade econômica – sendo este último fator determinante para avaliar os interesses internacionais envolvidos (!). Já em relação aos aspectos comuns, destacam-se a existência de ditaduras que inspiraram a resistência; os efeitos do colonialismo e do imperialismo nas localidades, assoladas por desemprego e miséria; o caráter popular dos movimentos (nas ruas); a mobilização via internet; e a luta por direitos, tais como liberdade e igualdade.

A partir desse panorama básico, é interessante perceber a dificuldade generalizada em se definir o caráter dos manifestantes árabes. Seriam terroristas? Insurgentes? Rebeldes? Revoltosos? A partir dos acontecimentos no Egito, convencionou-se caracterizá-los, enfim, por “revolucionários”. Trata-se de um conceito cuja definição remonta ao século XVII e sobre o qual vários autores consagrados já dissertaram (possíveis leituras a respeito aqui, aqui e aqui).

Válido neste breve espaço é apenas constatar que, com a modernidade e as muitas lutas vivenciadas, os homens passaram a conquistar Declarações de Direitos Universais. Assim, as revoluções vêm representar mudanças nas formas de poder e não simplesmente nas formas de governo. Poder este que está intrinsecamente relacionado à participação popular, tais como pode-se presenciar tão claramente nas revoluções atuais no Oriente Médio.

Mais interessante ainda é perceber que a partir da suposta “universalidade” destes direitos adquiridos com tanta luta, inevitável e constantemente são abertas brechas que demonstram a existência dos “excluídos” (aqueles que, por algum motivo, ficam à margem do processo e, paradoxalmente, não têm acesso aos direitos universais). E é a partir destas brechas que as lutas seguintes são fomentadas… ciclo interessante e contraditório em si mesmo, não?

Por fim, percebe-se que os “gritos de dignidade humana” destacados por Obama em seu discurso representam, pois, a necessidade constante de garantir a participação popular no desenvolvimento das sociedades. Apenas desta forma pode-se esperar que sejamos todos “revolucionários” na luta por liberdade, igualdade e, de forma geral, dignidade. Seja no Oriente Médio ou nas nossas próprias realidades cotidianas…


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


A Argentina e o tango do Mercosul

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Se há muito o que comemorar com os 20 anos de aniversário do Mercosul, há também muito o que se lamentar. Há um vai e volta de avanços e retrocessos, bloqueios e novas adesões, proteções e benefícios que mais parecem uma dança e não anunciam um fim no horizonte sul-americano. Essa dança mercosulina, tem, resumidamente, requererido de seus dançarinos proximidade sem necessariamente demandar intimidade ou romance.

Traços que lembrariam muito bem um tango argentino. Mas por que falamos de tango?

Bom, porque a terra-mãe dessa dança já foi o epicentro de algumas crises no bloco durante a década de 1990, e hoje vive novamente o antigo paradoxo do desenvolvimento – a dúvida entre proteger o mercado ou aderir ao livre-comércio –, que tem complicado bastante o proceder do Mercosul comercial. Na dúvida, o país optou por uma versão mista, já muito conhecida pelos grandes países ocidentais, a de proteger o seu lado e liberar o do outro.

Uma área de livre-comércio mais unilateral, espécie de liberdade de bloqueios, de um lado, e manutenção de benefícios da união-aduaneira, de outro. Em outras palavras, a Argentina tem ido de encontro com a ideia de bloco mercosulina, não permitindo as famosas licenças automáticas de importações (importações automáticas, sem necessidade de licença anterior do governo) e promovendo longos bloqueios de produtos, provindos de países como Paraguai e Brasil, em seus portos e rodovias.

Nesse contexto de dança de produtos estrangeiros pelas vias argentinas que o Brasil resolveu adotar uma medida semelhante ao bloquear produtos estratégicos para a Argentina, como automóveis e autopeças, na semana passada. Apesar de o Brasil depender muito desses produtos argentinos, houve certo teor de malandragem nessa atuação, já que nos últimos meses temos tentado limitar a demanda por bens desse tipo para evitar a escalada da inflação.

A questão é que, malandragens ou não, um vai e volta de bloqueios dentro do Mercosul não é saudável para o bloco, pois se perde o senso de cooperação. Mas se ações como as da Argentina não encontrarem uma mão amiga do outro lado, pode ser que seja alguns daqueles males que vem para o bem.

Resta esperar para ver, se nesse festival sul-americano de dúvidas e incertezas, o tango mercosulino será sempre certo ou se poderá apresentar uma nova dança da integração comercial.


Categorias: Américas, Economia, Política e Política Externa


Há um ano...

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Há um ano, o cenário internacional não se encontrava tão agitado como neste momento de 2011, em que nos vemos cercados de polêmicas diversas, tais como a morte de Bin Laden, a prisão do chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) por abuso sexual e a declaração de prisão de Kadafi, o ditador líbio, por parte do Tribunal Penal Internacional acusado de crimes contra a humanidade. Relembremos alguns fatos, pois.

Por falar em FMI, há um ano a Grécia estava recebendo um pacote financeiro de ajuda internacional por conta de suas dificuldades internas ainda em conseqüência da crise mundial. Este ano, Portugal é que está vivendo situação muito similar, tendo sido aprovado ontem um plano de resgate para o país a partir de recursos do FMI em conjunto com a União Européia. Passam os anos, mas a União Européia permanece com suas grandes desigualdades, sendo que o receio é que a “crise grega” do ano passado possa “contagiar”, de alguma forma, o conjunto da Zona do Euro.

Também é válido destacar que, neste período do ano passado, Obama estava entre “dengos e afagos” com o presidente afegão Hamid Karzai na Casa Branca. E eis que, aproximadamente um ano depois, Obama se vangloria internacionalmente por ter eliminado o inimigo número um dos Estados Unidos da América, Osama Bin Laden, em terras paquistanesas, depois de anos durante os quais todos acreditavam que ele estivesse no Afeganistão. Contudo, a polêmica gira em torno dos meios utilizados para “promover justiça”… até que ponto os fins podem efetivamente justificar os meios?

Há um ano outro fato interessante é que Lula estava no Irã em meio a (tentativas de) negociações com Ahmadinejad. O mesmo Ahmadinejad que está hoje enfrentando tremendas dificuldades internas devido a afrontas ao líder religioso supremo do país.

Será que daqui a um ano os comentários serão diferentes a respeito destes acontecimentos? De fato, existem coisas que só o tempo poderá nos dizer. Enquanto isso, vamos postando e relembrando…


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