Conversando com a Teoria

Por

Se na semana passada procuramos apresentar a Teoria dos Jogos de maneira geral e demonstrar a sua importância para a análise do comportamento humano, em específico, a tendência para a cooperação ou para o conflito, nesta semana, o objetivo é apresentarmos os “jogos hipotéticos” propriamente ditos, cuja analogia encontra amparo na realidade.

Mesmo aqueles que não gostam de números, lógica, raciocínio, etc., não vão deixar de se impressionar com a linguagem facilitada pela qual estes jogos transmitem de situações reais, por meio de comparações. Isso os deixa ainda mais interessantes! Chega de papo, vamos aos jogos: dilema do prisioneiro, chicken game, stag hunt, assurance, deadlock. Não é possível trabalhar detalhadamente com cada jogo e aplicá-los na prática, mas esperamos apresentá-los ao leitor e despertar-lhe a curiosidade, estimulando-o a interpretar determinadas situações a partir desses jogos.

O mais tradicional dos jogos é o “dilema do prisioneiro”. Parte-se da situação em que dois prisioneiros, envolvidos com um crime, são colocados em salas separadas e questionados por um promotor, que não dispõe de provas suficientes para incriminá-los. São lhes dadas as opções incriminar o outro ou permanecerem calados. Se ambos permanecem calados, vão para a prisão por um tempo relativamente curto. Porém, se um incrimina e outro permanece calado, quem incriminou é libertado, enquanto o outro ficará por mais tempo. Se ambos se incriminam, vão para prisão por um tempo maior do que se tivessem ficado calados.

Assim, é feita uma lista de preferência: DC > CC > DD > CD. D = delatar/denunciar e C = cooperar (silêncio). O resultado mais provável é que ambos se denunciem, temendo o pior: ser bonzinho com o amiguinho pode ser ruim para si mesmo. Porém, seria melhor se ambos fossem bonzinhos. Poderíamos pensar na questão nuclear iraniana, o que acham? Por um lado, as potências ocidentais e o Irã trocaram farpas, enquanto Brasil e Turquia optaram pelo diálogo. Qual a melhor opção?

Seguimos jogando. Dois jogos interessantes aqui: chicken game e stag hunt. O primeiro diz respeito a uma situação típica de um racha norte-americano, com dois carros posicionados em rota de colisão. Assim que é dada a largada, ambos os carros partem em direção ao outro. Quem desviar é o “frango”, o covarde. Ambos podem cooperar e serem frangos, ou continuarem a trajetória e bancarem os “machões”, só que mortos. Pensem no caso da Crise dos Mísseis de 1962. Já o stag hunt simula uma situação de caçada, na qual dois caçadores podem se juntar e caçar algo maior, como um veado, ou cada um caçar sozinho e conseguir, no máximo, um coelho. Acordos bilaterais parecem ilustrar bem este jogo, como os acordos de livre comércio entre Estados Unidos e Chile.

Deixamos, por enquanto, de jogar dois jogos (assurance e deadlock). Os três que foram aqui apresentados são suficientes para entendermos situações de cooperação e conflito, variando de acordo com os comportamentos e expectativas dos jogadores envolvidos. Outro ponto importante é que nem sempre o melhor resultado para ambos é alcançado, pretendendo-se, assim, o resultado que minimize as próprias perdas.

É hora de cada qual escolher o seu jogo e jogar de acordo com as relações internacionais. Bom jogo a todos vocês!


Categorias: Conversando com a Teoria


O casamento do século

Por

A dois dias do (já chamado) “casamento do século” (apesar de estarmos apenas em 2011), a união do Príncipe William com Kate Middleton está mais em pauta que nunca na mídia. O foco em tantos detalhes, segredos, notícias, especulações e expectativas demonstra claramente o interesse midiático pelo prestígio da realeza britânica, que impressiona o mundo inteiro e, por conseqüência, tem o poder de concentrar as atenções internacionais – especialmente nas últimas semanas.

Talvez uma primeira constatação válida a este espaço seja o impacto político favorável à monarquia que os casamentos reais promovem – direta e indiretamente. E não podia ser diferente neste caso, especialmente considerando o carisma, a beleza e a juventude do casal. Segundo dados de pesquisas recentes, 67% dos britânicos pensam que sua monarquia é ainda apropriada no século XXI e 63% afirmam que o país se encontra em melhor situação com uma família real.

Contudo, também o debate antimonárquico ganha força nesta época, sendo que grupos republicanos estão preparando inclusive uma celebração ao “Não Casamento Real” para sexta-feira, voltada à “democracia e ao poder popular, e não aos privilegiados herdados”

Polêmica foi a nota divulgada pela Human Rights Foundation, reconhecida Organização de Assistência Humanitária, dizendo que este casamento real está “divorciado dos direitos humanos”. Isso se deve ao fato de controversos líderes árabes – de países como Bahrein, Marrocos, Catar e Omã – terem sido convidados para a festa. O príncipe do Bahrein recusou o convite com “com profunda tristeza” (!); convite este que não chegou para a Líbia, dada a intensificação dos conflitos no país…

Além do impacto político, em termos econômicos vê-se que o apelo turístico do casamento é notável: mais de 1 milhão de visitantes devem estar em Londres nos próximos dias. O mercado também se aquece com os mais diversos produtos relacionados, de alguma forma, ao casamento. Entretanto, há ainda críticas sobre os gastos governamentais necessários a um evento deste porte.

Estes comentários refletem um contexto internacional em que, diante de instabilidades políticas e sociais, desastres nucleares, desafios ambientais, etc., as atenções se voltam, ainda que momentaneamente, para um festejo real de impressionantes proporções. Se será efetivamente o “casamento do século”, só daqui a algumas décadas se saberá efetivamente, mas que este assunto envolve mais questões que apenas os detalhes de decoração, ah, isso é inegável…


Categorias: Europa


Nada de novo no front

Por

Nada de novo no front é um impressionante livro de Remarque, riquíssimo nos relatos sobre a Primeira Grande Guerra, e que inspirou a canção homônima da banda Inocentes. No front do Oriente Médio, em particular na Síria, não há nada de novo. Ao menos, por enquanto…

Novamente, vemos a combinação tão característica da região desde o início deste ano. Promessas de reformas políticas e socioeconômicas não cumpridas, as pessoas saindo às ruas para protestar e o governo reagindo. Reação que, como na Líbia, assumiu a forma de uma intensa repressão. Se Muamar Kadafi utilizou a força aérea líbia para conter os protestantes, Bashar al Assad soltou os tanques. Só neste fim de semana, 120 pessoas foram mortas, mais de um terço das 300 que morreram desde o início das manifestações. Agora, toda sexta, dia de descanso para os sírios, tornou-se sinônimo de dia de protestos, após o término das orações.

Segundo um breve relato, os protestos se intensificam porque alguém que elas conheciam morreu, sejam nos próprios protestos, na saída das mesquitas ou até nos funerais (outros relatos podem ser vistos aqui). A princípio, não se tratava de manifestações contra a deposição de Assad, mas agora as são. A imagem do ditador aos moldes ocidentais, de natureza reformista, foi por água abaixo. Um governo secular, e não religioso ou sectário, ao contrário do que muitos pensam, como afirma Gustavo Chacra em seu blog (muito interessante), pode desmoronar por si mesmo ou por alguma intervenção estrangeira. (Acompanhem esta análise)

A situação está cada vez mais complicada na Síria. É possível que se tenha chegado ao ponto em que só é possível conter os protestos ou com a queda do atual governo – e não mais por meio de reformas –, ou com uma brutal repressão. A primeira opção parece descartável, enquanto o regime é também apoiado pelo exército. A segunda, problemática. E muito problemática. Bashar al Assad pode seguir o exemplo do seu pai, Hafez Assad, que, em 1982, massacrou cerca de 20 mil pessoas para extinguir um levante de radicais islâmicos no país. É aí que entra a tal da “intervenção humanitária preventiva”, um conceito norte-americano, cunhado para justificar a intervenção na Líbia, que até agora ninguém sabe explicar.

Outra vez, as principais potências ocidentais, no pretenso altruísmo de evitar uma grande matança humana, são chamadas a intervir. A França parece tomar a iniciativa de novo, enquanto os Estados Unidos até cogitam agir sem o aval da ONU. Inevitavelmente, surgem perguntas: qual a legitimidade para essas intervenções? O que diz a ONU? Será mesmo que essa é a principal solução para o que ocorre no Oriente Médio? O que vem depois das intervenções?

Um processo cíclico em que uns se rebelam, outros reprimem e outros ainda intervêm, está se formando, no entanto, sem chegar à solução alguma. Todos se embolam e a única variável é quem: pessoas, países, organizações…

[Segue a indicação de dois artigos interessantes. Um sobre a história síria que saiu na Foreign Policy. O outro sobre estas manifestações no mundo árabe, que o autor classificou como revoluções pós-islâmicas, e saiu na Foreign Affairs.]


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


Viajar é preciso…

Por

Fim de feriado prolongado, muitos estão voltando de viagem. E o que pode ser mais “internacional” que viajar pra fora do país? É normal que governantes passem algum tempo no exterior. Claro, sem exageros como o rei Ricardo III da Inglaterra, o Coração de Leão (que morava na França e nem inglês falava). No Brasil, lembro da época em que havia até um quadro humorístico com uma sátira, o presidente “Viajando Henrique Cardoso”. Lula não ficou muito atrás, e passou quase 500 dias fora do Brasil em seus dois mandatos. Agora, é a vez de Dilma, que já tem ao menos 8 viagens programadas para 2011. Os assuntos variam, de construir um telescópio a abrir a Assembleia Geral da ONU, mas o teor e o destino dessas visitas podem dizer muito sobre os rumos que o país vai tomar no seu mandato.

Até o momento, é meio complicado avaliar as grandes “diferenças” na política externa de Lula e Dilma. A grande mudança até agora foi com relação aos Direitos Humanos (tema em que Dilma parece ser bem mais aguerrida que Lula). Agora, se essas viagens de 2011 podem dizer alguma coisa, é uma possível mudança no foco de como o país conduz seus negócios. Sim, negócios – eles estavam presentes nas visitas de Lula, em maior ou menor grau, mas ainda prevalecia uma noção bastante política, de aproximação com países periféricos e busca de novos parceiros.

Ao que parece, os objetivos de Dilma são mais pragmáticos nessa esfera econômica – literalmente, o Brasil estaria indo atrás de resultados, relacionamentos mais “estáveis” e que tragam algo em troca, especialmente para a balança comercial. Se vai dar certo ou não, é outra história, mas fora uma possível visita sentimental à Bulgária, terra de sua família, todas as demais tem em vista algum objetivo mais concreto, político ou econômico. Isso é bem diferente de muitas das visitas de Lula, feitas mais para divulgar a imagem do país e “fazer amigos” – o que colocava o presidente em algumas saias-justas perto de ditadores e afins.

Por fim, merece atenção o esforço de visitar os países menores dos Mercosul, Paraguai e Uruguai – será que o bloco vai ser uma prioridade em seu governo? Fica o indício.


Categorias: Américas, Brasil, Política e Política Externa


Somos apáticos?

Por

Quantas vezes você já pensou em apatia política? As pessoas não têm interesse, provavelmente é o que veio instantaneamente a sua mente. Todos sofrem de uma preguiça incrível, a mesma que termina por impedir o engajamento em qualquer temática além do seu próprio bem-estar. Será isso mesmo? Ou será que são impostos obstáculos que se sobressaem ao fato de você se importar e ter uma opinião?

David Meslin faz uma distinção entre apatia e exclusão intencional. Você já leu um edital público? Alguém teria interesse em participar de uma atividade comunitária que utilizasse tal modelo de convocatória? Parece ser óbvia a sua escolha. Pense em como as principais marcas de produtos de consumo tentam ganhar sua atenção. Existe algum movimento similar dos setores públicos? Muito pelo contrário, a imagem que muitas pessoas têm é que os políticos são corruptos, sem-vergonhas, aproveitadores, entre tantas outras alcunhas. O setor público, por outro lado, é associado à lentidão, falta de criatividade e burocracia.

No Equador se discute atualmente uma consulta popular com a intenção que o povo ofereça seu veredicto sobre as reformas do poder judiciário propostas por Rafael Correa. O presidente já deixou bem claro que a idéia é de fato colocar as mãos na justiça, à medida que ninguém poderia estar satisfeito com o atual desempenho das cortes pelo país. São 10 perguntas, já propriamente revisadas pela Corte Constitucional do país, que estarão disponíveis aos cidadãos. Tais perguntas fazem referência à documentos adicionais e à constituição federal, como se não bastasse a já árdua missão de analisar e decidir sobre temas como a Lei de Comunicação, os jogos de azar, as touradas, o Código Penal, a Composição do Conselho de Justiça; isso para centrar nossa atenção somente em alguns exemplos.

Diante da complexidade da discussão, muitos preferem pensar em como ficaria o país sem touradas. Esse tema sim tem apelo e é acessível para muitas pessoas. Enquanto isso, a reforma do Judiciário fica em segundo plano. Afinal, o governo conseguiu deixar as perguntas da consulta, as fontes de pesquisa e os temas tão complicados que certamente quase ninguém conseguirá formar uma opinião em cada uma das dez questões. Por tal razão, em grande medida o “votar sim” ou o “votar não” será pautado na aprovação (ou desaprovação) do governo e da conduta do presidente. Isso é prato-cheio para ainda mais desinformação. Os partidários de Correa defendem a consulta como uma continuação da Revolução Cidadã, ao passo que os opositores a entendem como mais um passo rumo ao autoritarismo.

Tal como Meslin, não julgo as pessoas desinteressadas pela consulta como apáticas. A intenção parece ser levar a discussão para longe dos verdadeiros pontos importantes, delimitando o debate a uma mera aprovação política do atual governo. Será que ninguém se importa sobre o controle do conteúdo vinculado por meios de comunicação e a estrutura do poder judiciário? Ou simplesmente ninguém (ou quase ninguém) é capaz de entender a profundidade de tais discussões? Sim, as pessoas se importam. Contudo, as entidades políticas fazem questão de tornar os debates ininteligíveis, como se fosse algo circunscrito a uma parte da elite intelectual. Para que todos possam participar, os mesmos atores trazem questões interessantes à ótica popular (os jogos de azar e as touradas). No final, eles têm a esperança que poucos percebam que são as outras perguntas que realmente escondem o “ouro”. Povo, não precisa se preocupar em ler e entender. Se você aprova o Correa, vote sim. Basicamente vai ser assim, independente da importância das questões em pauta.


Categorias: Américas


Há um ano...

Por

Dia 22 de abril. Nesse ano, momento para se comemorar a Páscoa, tempo de celebrar memórias religiosas. Ao mesmo tempo, só por curiosidade o dia da Força Aérea Brasileira, do Planeta Terra e também do Descobrimento do Brasil. Se é um dia de tantas lembranças, por que não usá-lo também para lembrar textos e questões memoráveis que tratávamos há um ano? O famoso exercício de memórias da Página Internacional será o tema de hoje.

Comecemos pelo post que se deu há exatamente um ano. Um texto de minha autoria (clique aqui para ler) que discutiu o ultimato do famoso caso das Papeleiras, entre Uruguai e Argentina. Sim, aquela polêmica ocasião de um contencioso entre os dois países quando da instalação de indústrias papeleiras do lado uruguaio do rio Uruguai iniciada no ano de 2003. Discuti a decisão da Corte Internacional de Justiça que condenava a ação uruguaia, mas não o obrigava a desativar as indústrias. Ambos governos declararam-se satisfeitos e pouco se ouviu sobre a questão desde então.

Na mesma semana, o Kita discutiu a história da Polônia (clique aqui para conferir). O texto veio no contexto do acidente de avião que causou o falecimento do então presidente polonês, Kaczynski e de sua comitiva. Foram retomados momentos marcantes da história polonesa mostrando que esse povo não teria a necessidade de criar mártires ou fantasiar contos de identidade nacional já que sua história já foi sofrida o suficiente para demonstrar a determinação dos poloneses.

O Giovanni também tratou, em seu post, de uma questão interessante que pode ser discutida até hoje, um suposto paradoxo do governo de Obama. À época, ao passo que o governo recebia avaliações negativas de desconfiança no plano interno, no plano externo, era visto como portador de possíveis mudanças, ou seja, possuía uma visão positiva. Esse paradoxo materializou-se no final do ano de 2010 pela perda de maioria no congresso. Há aqueles que dizem que Obama será um novo Jimmy Carter, um outsider na política estadunidense que não terá forças para se reeleger. Seria esse outro presidente de um mandato só? Mandato que pode ter sido minado ao final do ano de 2010. Agora com o anuncio de sua campanha de reeleição, o presidente estadunidense ainda terá que trabalhar muito para manter-se no governo.

Esses foram alguns dos temas tratados no blog há ano. E é isso aí, pessoal, lembrar é sempre bom para refletirmos sobre algumas questões atuais. Que continuemos postando e relembrando!


Categorias: Há um ano...


Conversando com a Teoria

Por

Teoria dos Jogos: por Relações Internacinacionais mais científicas

Aqueles que gostam de números, lógica, raciocínio e testes encontrarão um amparo na Teoria dos Jogos. Aqueles mais aficionados por jogos podem considerar a Teoria dos Jogos como um grande pôquer das Relações Internacionais, em que o blefe é perigoso e a aposta é sempre um risco. É preciso saber quando blefar e quando se arriscar em função do fim desejado.

Essa teoria não é propriamente uma teoria das Relações Internacionais, foi desenvolvida pelos trabalhos dos matemáticos Von Neumann e Morgenstern durante a década de 1940 e, a princípio, serviu como um modelo para descrever e prever o comportamento econômico. Com o tempo, passou a ser incorporada por outras áreas do conhecimento, como a psicologia, antropologia, e chegou também às Relações Internacionais.

Por volta dos anos 1950, momento em que emergiu o Segundo Grande Debate das Relações Internacionais (revejam o post sobre ele aqui), cientificistas se contrapuseram aos tradicionalistas. Os primeiros defendiam uma abordagem mais científica para a disciplina, o que incluía o emprego da Teoria dos Jogos para analisar o comportamento dos atores internacionais em suas interações. Tal teoria encontrou expressão no neoliberalismo e no neorrealismo, de maneira a prever as possibilidades de cooperação e as perspectivas de conflito.

Mas, afinal, em que consiste a Teoria dos Jogos? Ela parte do pressuposto de que os atores envolvidos nos jogos (entenda-se, situações de interação) são “racionais” e, portanto”, buscam maximizar os seus lucros e minimizar as suas perdas. Em outros termos, os jogadores devem assegurar os melhores resultados para si mesmos. Isso não é tarefa fácil. Eles devem fazer escolhas, num conjunto finito ou infinito de possibilidades e estratégias, que envolve outros jogadores, sabendo que o resultado final dependerá das combinações decorrentes das escolhas feitas por todos envolvidos no jogo.

[Uma demonstração esquematizada da Teoria dos Jogos]

Não basta apenas o jogador fazer uma escolha entre todas as possíveis, é preciso também imaginar que escolha fará os demais jogadores para que se chegue no resultado mais favorável para si. Vejamos uma situação hipotética. Um país pode optar por se manter neutro numa guerra feita pelo seu principal aliado, para não ser afetado pelo conflito, entretanto, a neutralidade acaba tendo um custo: o encerramento de um contrato de transferência de tecnologia militar. Qual seria o melhor resultado para o esse país: a neutralidade ou a guerra?

É por isso que se organiza o raciocínio da Teoria dos Jogos numa lista de preferência, em que nem sempre se atinge o melhor resultado possível, alcançando, na maioria das vezes, a segunda melhor opção. O país supracitado não perde soldados, nem se desgasta economicamente, mas, por outro lado, não recebe tecnologia militar. Na próxima semana, com a demonstração de “jogos específicos”, construiremos uma escala de preferência para tornar mais claro este ponto.

Enfim, o que é importante saber é que as Relações Internacionais ganham aqui o reforço das ciências exatas, e, por meio de um modelo teórico, dedica-se a descrever e prever o comportamento de atores, apresentando-lhe escolhas, individuais e alheias, com vistas à formulação da melhor estratégia para atingir o melhor resultado possível.

[Para quem se interessar, fica a dica de um interessante artigo (aqui) da Foreign Affairs a respeito do Totalitarismo no século XX.]


Categorias: Conversando com a Teoria


Por que o Bahrein?

Por

Porque o futuro do Oriente Médio depende do que está acontecendo no Bahrein. Os holofotes podem se voltar para Tunísia, Egito ou Líbia, mas o verdadeiro show acontece em solo bareinita. Um país praticamente invisível, pouco conhecido, pode definir o curso das relações internacionais na região e da região para o mundo.

Não faz muito tempo, Thomas Friedman disse que esta onda democratizante que se espalha pelo mundo árabe é diferente daquela que se espalhou pela Europa Oriental nos anos 1990. Naquele momento, todos os países eram homogêneos, como a Alemanha. Hoje, a maior parte do mundo árabe se assemelha à Iugoslávia, multiétnico e multireligioso. Essa característica se acentuou no Bahrein, onde a população xiita – que corresponde a cerca de 70% do país – tem conduzido protestos contra a monarquia (pseudo)constitucional sunita, que governa o país.

Problema: a Arábia Saudita não gostou nada disso, nem os Estados Unidos, enquanto que o Irã curtiu. Comecemos pela Arábia Saudita. A última coisa que o Rei Abdullah quer é um protesto xiita de larga escala numa ilha vizinha, que ameace o seu próprio governo, de maioria sunita, e provoque um “efeito dominó”, com a queda das demais monarquias do Oriente Médio. Isso é exatamente o que também incomoda os Estados Unidos, que espalhou governos fantoches pela região e percebe a sua influência comprometida. Porém, a situação é favorável ao Irã, de maioria xiita e que vê com bons olhos essas manifestações: a Revolução Islâmica de 1979 alcançaria todo o Golfo Pérsico.

Obviamente, a Arábia Saudita não ficou parada. Com a aprovação do Conselho de Cooperação do Golfo e a pedido do rei Hamad Bin Isa al-Khalifa, enviou tropas para conter os protestos xiitas no Bahrein. Se a intervenção é legítima ou não é bastante discutível, mas aconteceu. A questão agora é se a intervenção é o melhor caminho e como lidar com os desdobramentos posteriores a ela.

Diwan, por exemplo, argumenta que a solução mais cabível seria a incorporação dos xiitas na política bareinita, que tornaria a repressão dispensável e atenuaria a influência iraniana. Fato é que os acontecimentos no Bahrein abriram uma oportunidade para a consolidação da influência regional do Irã, um antigo desejo do país, e, inclusive, para a formação daquilo que muitos analistas têm chamado de “um bloco islâmico e anti-Israel”. Isso gera polêmicas (aqui e aqui).

De inimigo dos árabes – o principal –, o Irã passaria para uma posição de liderança. De uma colcha de retalhos, o mundo islâmico se tornaria uma fina tapeçaria para ornamentar com brilho próprio as relações internacionais. Não é à toa que Ahmadinejad critica tanto os Estados Unidos por incitarem a tensão entre árabes e iranianos e prevê o surgimento de “um novo Oriente Médio”. Não é à toa que os Estados Unidos se preocupam tanto com o programa nuclear iraniano. Não é à toa que a questão bareinita é tão importante e ganha o reforço do vácuo de poder deixado no Iraque desestabilizado, de maioria xiita.

[Para aqueles que tiverem curiosidade para entenderem melhor a questão, segue a indicação de alguns artigos: 1, 2, 3 e 4. Também é interessante dar uma olhada no mapa da Freedom House sobre os países considerados livres, particialmente livres e não-livres: aqui.]


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


Nada de novo em… opa

Por

Post breve sobre as novidades da ilha de Cuba. No dia de hoje o congresso do Partido Comunista deu início a votações para os cargos de liderança do partido (ou seja, do país). Com isso, é esperado que Raul Castro assuma oficialmente o posto de secretário do partido, deixando o velhinho Fidel curtindo a aposentadoria e apenas soltando seus pitacos na imprensa quando bem entender. Mas outras novidades vieram com algumas declarações bem pontuais, justamente dos irmãos Castro. Hoje mesmo Fidel conclamou aos novos líderes cubanos que este é o momento de retificar tudo que deva ser revisto e mudado no futuro de Cuba, enquanto Raul já defendeu que haja limites no tempo de permanência nos cargos de liderança.

Bom, é claro que estamos esperando mudanças em Cuba desde que Fidel saiu de cena há alguns anos, mas por enquanto nada de muito drástico ocorreu. O impacto dessas novidades recentes é basicamente a renovação política expressa de maneira mais clara pela primeira vez, por exemplo com a expectativa da possibilidade de um político mais jovem assumir o segundo cargo mais importante do país depois de mais de 50 anos de Castros. Isso também passa pela limitação dos mandatos e discussões mais pesadas sobre reformas econômicas (em discussão no congresso).

Parece que esse modelo cubano de socialismo vai resistir por um certo tempo. Como isso vai ocorrer, não sabemos. Vai ter a capacidade de conduzir um modelo híbrido como o chinês? Vai desabar? Os irmãos Castro provavelmente não vão ver como isso acaba (na verdade, talvez isso só comece quando eles saírem de cena definitivamente!), mas é inegável que estão, se não conduzindo, ao menos defendendo o caminho da mudança.


Categorias: Américas, Política e Política Externa


A crise realmente acabou?

Por

Quem não se lembra da crise econômica que se iniciou no final de 2007? O seu marco inicial foi a quebra do banco de investimento Lehman Brothers, que representou somente a primeira etapa da denominada “crise dos subprimes”. Logo outras instituições financeiras entraram em colapso, a desconfiança nos mercados internacionais se expandiu e as maiores economias do mundo entraram em recessão.

Para mitigar os efeitos negativos da crise financeira, diversos países adotaram pacotes de estímulo, diminuíram suas taxas básicas de juros aos níveis mais baixos da história, socorreram bancos, entre outras medidas. A ação rápida através de medidas sem precedentes dos diversos governos mundiais tiveram um papel fundamental na estabilização dos mercados financeiros e para a recuperação econômica. De certa maneira, a crise foi estancada.

Anualmente a Organização das Nações Unidas (ONU) prepara um relatório com previsões para a economia mundial. O relatório deste ano apresenta as tendências e propõe medidas com o intuito de fortalecer a recuperação econômica. Em primeiro lugar, aponta para a austeridade em lugar de amplos pacotes de estímulo, política que arrefecerá o crescimento das economias mundiais. Além disso, destaca mercados cambiais voláteis, migração de investimentos de curto-prazo rumo a países em desenvolvimento e um desemprego persistentemente alto.

Os países que ditaram e comandaram a recuperação mundial foram os chamados “em desenvolvimento”, uma vez que os países centrais se viram mais expostos aos riscos de um mercado financeiro irresponsável. Tal constatação gerou efeitos na dinâmica política da comunidade internacional, seja pelo questionamento das tradicionais potências ou por meio da ampliação dos grupos de discussão. Antes os principais temas eram tratados no G-8, o pós-crise viu um G-20 vitaminado e reconhecido como o principal fórum de negociação e cooperação internacional.

Passado o pior da crise, alguns países viram uma forte deterioração de sua segurança social e econômica, sendo o caso mais recente Portugal. A encruzilhada que muitos governos enfrentam é escolher entre a austeridade e a manutenção de estímulos para a recuperação. O primeiro representaria o reequilíbrio econômico, ao passo que o segundo foca na continuidade do combate ao desemprego e a recessão. Encontrar um meio-termo é essencial, errar a medida para um lado ou para o outro pode representar riscos à recuperação. Contudo, os países em profunda crise (Portugal, Grécia e Irlanda, por exemplo) possivelmente não terão escolha, à medida que serão forçados por seus credores a escolher austeridade frente a qualquer outra prioridade.

Por fim, as Nações Unidas defende uma maior sinergia na cooperação internacional. Os estímulos fiscais/monetários deveriam enfocar um modelo mais sustentável de desenvolvimento, a proteção social e a geração de novos empregos. No mesmo sentido, a coordenação deveria envolver a regulação do setor financeiro mundial, a facilitação dos fluxos de capital pelos países em desenvolvimento e a reforma do sistema de reservas e pagamentos. A falta de cooperação poderia desencadear uma nova recessão. Não se pode perder de vista também os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que sofreram perdas e se viram ainda mais desafiadores para diversos países. A questão-chave é justamente a adoção de políticas nacionais integradas a um plano internacional abrangente. No final das contas, talvez a crise ainda não tenha acabado.


Categorias: Economia, Política e Política Externa