And the Oscar goes to…Chávez?

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Não, objetivo do post não é tratar da premiação do Oscar desse ano que já fora há algumas semanas. Tratamos de uma premiação assaz singular, a um líder também singular e por feitos em um campo ainda mais singular. Talvez esse seja um adjetivo adequado para tratar do prêmio dado ao presidente venezuelano, Hugo Chávez por suas contribuições à liberdade de imprensa. Um episódio que parece ser distante da realidade atual, tanto do país sede do prêmio quanto do chefe de Estado que o recebeu. Como se ambos tentassem garantir ao grande escritor e jornalista argentino, Rodolfo Walsh, uma caneta para traçar novos caminhos nas páginas da história sul-americana.

Se singularidade for um adjetivo adequado para o ocorrido, somos capazes de ver, até sem um grande esforço, algumas incongruências e incoerências no evento. Comecemos pelo prêmio e pelo vencedor. Essa é uma homenagem de telecomunicações garantida sempre a destaques ou àqueles com feitos memoráveis no campo. E não podemos dizer que entupir as cadeias nacionais com discursos presidenciais ou mover redes televisivas para a TV sejam formas muito claras de liberdades.

Ora, outra incoerência é o fato de o prêmio ser garantido a Chávez na Argentina, um país que atualmente não é um grande exemplo da liberdade de imprensa. Apesar de ser concedido por uma universidade, a Faculdade de Jornalismo e Ciência da Comunicação (UNLP), e não pelo governo, o simples fato de ocorrer em território argentino é representativo. É bom lembrar que no domingo, o jornal O Clarín (principal crítico do governo) não circulou no país por uma manifestação do sindicato dos caminhoneiros na garagem do jornal.

Como no Brasil, na Argentina, os sindicatos são ligados ao governo e os líderes sindicais são funcionários públicos como quaisquer outros. O que sugere alguns questionamentos sobre se eles tinham o aval do governo para agir dessa forma. Bom, as dúvidas a parte sobre a participação de Cristina Kirchner apenas aumentam essa incongruência.

Bom, todos sabemos que seria muito difícil para uma personalidade como o líder venezuelano não causar uma polêmica sequer em seu giro pela América do Sul. Pode ser que Chávez talvez merecesse mais. Poderia muito bem ganhar um Oscar por sua atuação nesse filme, passado em um território onde a imprensa não está lá com muita bola e no qual o prêmio com o nome de um questionador de censuras e autoritarismos é dado a um líder que pratica, no mínimo, um desses dos dois delitos. É de se pensar…


Categorias: Américas, Polêmica


A princípio, uma guerra…

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Antes de começarmos o post de hoje, devemos prestar nossas devidas condolências pela morte de José Alencar, ex-vice-presidente do Brasil. Poucas pessoas foram capazes de despertar tamanha comoção no povo brasileiro. Um exemplo grandioso de quem ficou de frente para morte em inúmeras ocasiões e ensinou que o sorriso, a simplicidade e a perseverança são as melhores armas, quando a força está debilitada. Um gigante parte para viver eternamente na história e em nossas memórias.

E a guerra na Líbia? Por lá, a situação não está nada fácil. A intervenção tem sido entendida como uma manobra precipitada, porém necessária. Depois de bombardeios, enfraquecimento das exíguas tropas de Kadafi e avanço dos rebeldes, os desencontros que precederam as iniciativas da coalizão começam a se acentuar. Para agravar, as manifestações se intensificaram no Iêmen e na Síria, enquanto o Bahrein já recorreu até as tropas sauditas para controlar os protestos.

No século XIX, o general prussiano Clausewitz disse que “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Em sua assertiva, a política é entendida enquanto um ato de imposição da vontade. Na Líbia, a comunidade internacional quis o cessar-fogo. Kadafi rejeitou. Quando a palavra falha, a vontade é lançada à sorte das armas. Porém, trata-se de vontades – por exemplo, a busca do prestígio externo francês, ou o controle da imigração africana para a Itália –, no plural, e não uma única vontade, esta condensada no cessar-fogo. Essas vontades podem explicar a ausência de uma grande estratégia em relação ao cessar-fogo: derrubar Kadafi ou apenas proteger os cidadãos líbios, com a zona de exclusão aérea? Ou algo mais?

Esta estratégia não foi levada a cabo durante a discussão sobre o tipo de abordagem na Líbia, nem qual seria a estrutura de comando (até a OTAN assumir). Desacertos e inércias gritantes podem ter um preço alto. Em debate, está a queda de Kadafi pelos próprios rebeldes, os quais se converteriam na força terrestre – armados pelos países da coalizão (França e Estados Unidos já deram sinal favorável a isso) – para terminar o trabalho que a força aérea estrangeira iniciou. Aqui, retorna a iminência de uma sangrenta guerra civil; o pré-intervenção foi só o aquecimento.

Outra questão cara: e depois da queda? A coalizão, a OTAN ou qualquer outra organização ou país vai participar do processo de reconstrução da Líbia? Em nossa memória ainda fresca, permanecem as aventuras hercúleas no Afeganistão e no Iraque. Uma das últimas coisas que os interventores querem é plantar e cultivar a democracia em terreno pedregoso.

A guerra, quando fica órfã da política, toma caminhos sombrios e ainda mais incertos. Sem objetivos claros e com vontades ocultas e contrastantes entre os membros da coalizão, os três meses para “arrumar” a Líbia serão absolutamente insuficientes. Permanece também a dúvida se essa guerra pode se espalhar na região, no caso de contestadas lideranças vizinhas abusarem da força na repressão dos protestos. Mal se pensou a guerra, que dirá as suas conseqüências…


Categorias: Brasil, Conflitos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Dança portuguesa

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A coisa anda feia na Europa, especialmente em termos de eleições – ao menos, para os que estão no poder agora. Na França e na Alemanha, seus governantes sofrem por motivos diversos o peso de possíveis derrotas políticas no futuro (no caso de Sarkozy, o desgaste já comentado anteriormente aqui no blog; na Alemanha, o temor de acidentes nucleares alimentado pelo caos japonês enfraqueceu o partido de Angela Merkel, favorável ao uso de energia nuclear). Em Portugal, contudo, o resultado é mais sombrio: a saída de José Sócrates da chefia do governo abriu uma crise institucional e assombra a UE com a necessidade de um pacote de ajuda bilionário para saldar as finanças do país.

No fim das contas, é mais uma vez o lance da crise financeira e os PIIGS, fazendo mais uma vítima. Enquanto por esses lados o Brasil é aclamado como modelo de condução econômica, na Europa os efeitos da crise ainda vão perdurar. É a vez de Portugal pagar o pato, pois nenhum político quer aceitar o ônus de fazer o pedido da ajuda européia antes das eleições previstas para o meio do ano (e convocadas justamente pela saída de José Sócrates). Afinal, se a maior parte das pessoas fica encabulada ao pedir dinheiro, quanto mais um empréstimo da ordem de 75 bilhões de euros, e que implicaria em medidas pouco populares como os cortes de gastos e enxugamento do setor público.

É um remédio amargo e necessário, mas que está sendo postergado para evitar o dano político – ou, ao menos, deixar que ocorra após as eleições. Enquanto isso, as finanças portuguesas se debilitam (e o país é rebaixado em notas de risco) e já ameaçam contaminar a ainda cambaleante Espanha – e, por extensão, a Europa como um todo. Em um exemplo de como política interna pode afetar de maneira decisiva a arena externa, Portugal dança ao som de um triste fado.


Categorias: Economia, Europa, Política e Política Externa


Há um ano...

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O desastre ambiental no Japão somado as danos ocasionados à usina nuclear de Fukushima criaram um grande debate com relação aos riscos da energia nuclear. De um lado, existem aqueles que defendem a ampliação do uso de fontes renováveis na matriz energética internacional, o que diminuiria o risco da utilização de mecanismos que possam lesar o meio ambiente ou a saúde humana. No lado oposto estão os especialistas que defendem a manutenção da diversidade de fontes energéticas, incluindo a nuclear. Afinal, o que aconteceria nos dias em que o vento não sopre como o usual? De acordo com as estimativas deste grupo, as fontes renováveis podem representar entre 20% e 30% da matriz energética internacional, o que as deixaria longe de ser a solução perfeita.

Contudo, há outro debate com relação ao uso da energia nuclear: as armas que se podem produzir a partir da mesma. Raphael tratava em seu post das negociações entre Estados Unidos e Rússia para a redução de seus arsenais nucleares. Na verdade, foi a renovação de um tratado firmado na década de 1990. Em abril de 2010, Obama e Medvedev confirmaram a expectativa e acertaram os últimos detalhes do acordo. Para Obama, as duas maiores potências nucleares (detentoras de 95% da totalidade de tais armamentos) sinalizavam a intenção de liderar pelo exemplo em temas de desarmamento, ao mesmo tempo em que representava um argumento incisivo para pressionar outros países a repensarem suas ambições nucleares.

Uma das razões que levaram Obama a ser laureado com o Nobel da Paz foi justamente o seu compromisso de diminuir os estoques de armamento nuclear e atuar no sentido de fortalecer as perspectivas de paz mundial. Nada além de um compromisso, não necessariamente seguido por ações efetivas neste sentido. Ainda temos um longo caminho a seguir, críticos questionam os reais números da redução que são apregoados pelas potências mundiais. Mesmo uma significativa diminuição deve representar pouco, uma vez que as ogivas restantes são mais que suficientes para a aniquilação do mundo. Será que existe algum país altruísta a ponto de abrir mão de seu arsenal nuclear? Como parece que não, países como Irã e Coréia do Norte seguem com o discurso “se eles têm, por que eu não posso ter”?

Poucos são os indícios que os novos acordos firmados possam aproximar o mundo do objetivo final. Como afirma o Giovanni em seu último post: “se a política internacional fosse a arena do altruísmo, o mundo seria perfeito”. O mesmo vale para o armamento nuclear. O perigo imanente da energia nuclear deixa uma mensagem importante. Se um mero acidente em uma usina pode gerar tanto receio e perigo em uma comunidade, imaginem um ataque nuclear preparado por uma potência detentora de tal tecnologia. Um marco simbólico do poder norte-americano foi o ataque final ao Japão na Segunda Guerra Mundial através das bombas nucleares lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Desde então, não foram mais vistos ataques desta natureza. Que caminho seguimos, um mundo sem armas nucleares ou a destruição total? Será suficiente o precedente do acidente em Fukushima para os líderes mundiais abrirem mão de seus arsenais nucleares? Tudo indica que não, afinal a política internacional ainda não se tornou a arena do altruísmo.


Categorias: Há um ano...


Tibete sem Dalai?

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É possível imaginar o Tibete (“o teto do mundo”) sem a liderança de Dalai Lama (“o oceano de sabedoria”)? Em termos espirituais, efetivamente não. Porém, esta é a situação atual em termos políticos: a solicitação de Tenzin Gyatso para retirar-se das funções políticas do Tibet foi aceita hoje por seu Parlamento, em Dharamsala, local do exílio tibetano na Índia.

Tenzin Gyatso é o 14º Dalai Lama da História, denominação concedida à principal autoridade do budismo tibetano (visto como a própria reencarnação de Buda). Líder espiritual e político, sua luta pela autonomia do Tibete o tornou conhecido pela comunidade internacional e lhe rendeu inclusive o Prêmio Nobel da Paz, em 1989. Envolvido politicamente nas questões do Tibete há mais de 60 anos, seu afastamento deve ser visto como um marco histórico. Uma nova era de lutas deve se iniciar sob uma nova liderança política.

O Tibete constitui um dos principais impasses territoriais das Relações Internacionais modernas, envolvendo o gigante chinês. A disputa histórica pela região tibetana remonta ao início do século XX, sendo que sua independência nunca foi reconhecida pela China. Os interesses na região são de caráter geopolítico e estratégico, envolvendo desde as riquezas naturais locais até as ambições imperiais seculares chinesas.

Há anos que a independência efetiva da localidade não tem sido cogitada (apesar de sempre sonhada) pelos tibetanos e por Dalai Lama, sendo que as pacíficas reivindicações têm se voltado principalmente para a busca de maior autonomia religiosa e cultural. Aspectos que as autoridades chinesas se recusam a aceitar minimamente. Existe a estimativa de que o número aproximado de tibetanos mortos durante as décadas de conflitos com o governo chinês chegue a 1 milhão, sendo que o auge dos protestos ocorreu no ano de 1959 e foi relembrado em 2008.

Em 1959, Dalai Lama e a maior parte dos tibetanos foram forçados a deixar a região, exilando-se no norte da Índia, em Dharamsala. E foi lá que Dalai hoje renunciou às suas funções políticas ao alegar preocupação a longo prazo com o Tibete, considerando que as responsabilidades oficiais devam ser transmitidas a um novo primeiro-ministro eleito diretamente e com poderes mais amplos.

Foi divulgado que o Parlamento tibetano hesitou em aceitar tal renúncia, temendo o enfraquecimento da causa tibetana. Contudo, certamente o Tibete ficará apenas sem o político Dalai, mas não sem seu grande e carismático líder Dalai, símbolo da busca pela paz na região e por melhores condições de vida ao povo tibetano. Motivação para que o Tibete seja ouvido em seus anseios. Símbolo da busca efetiva por ser a mudança que se quer (e se espera) ver no mundo…


Categorias: Ásia e Oceania, Conflitos


Conversando com a Teoria

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Neoliberalismo: uma breve introdução

É hora de teorizar! E começaremos pelo neoliberalismo, ou teoria neoliberal institucionalista, ou institucionalismo neoliberal. Antes de apresentarmos o seu corpo teórico propriamente dito, é importante termos em mente que não se trata do famoso neoliberalismo, iniciado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, que se espalhou pela América Latina a partir do final dos anos 1980, com as medidas ditadas pelo Consenso de Washington. No Brasil, em específico, a lembrança de eras neoliberais nos remete aos governos de Collor, Franco e Cardoso.

Nas relações internacionais, o neoliberalismo difere da prática político-econômica adotada pelos governos daqui da região. Não prevê o Estado mínimo, com as privatizações, ou a abertura indiscriminada dos mercados nacionais. Trata-se, resumidamente, de uma teoria que se dedica a entender a cooperação a partir do conflito – e não da natureza humana boa, como acreditavam os liberais.

É importante destacar que, embora o neoliberalismo tenha sido cunhado na década de 1970, outras teorias, desenvolvidas nas décadas de 1950 e 1960, já traziam algumas ideias que seriam retomadas pelos autores neoliberais das Relações Internacionais. Entre esse conjunto de ideias, podemos destacar a teoria “funcionalista” e “neofuncionalista”, bem como a própria contribuição de Norman Angell, um autor que se enquadra na vertente liberal, mas que previa que a interdependência entre as nações afastava a perspectiva do conflito.

Particularmente, era do interesse dos autores funcionalistas estudarem o funcionamento das organizações internacionais, para compreender de que maneira elas ajudavam no aprofundamento da cooperação. Termos como “peace by pieces” (“a paz por partes”) ou “spill-over effect” (“efeito de transbordamento”) ganharam coro. O primeiro, no sentido de que as organizações internacionais formariam redes e assumiriam cada vez mais funções que os Estados não poderiam desempenhar sozinhos. O segundo, trazia consigo o pressuposto de que a cooperação em uma determinada área poderia ser transbordada para outra, num processo de aprendizado constante; por exemplo, se dois países cooperam em ciência e tecnologia, podem, futuramente, também cooperar em defesa e segurança.

Basicamente, esta é a sala de entrada para a teoria neoliberal das Relações Internacionais. Não tem o mesmo significado que na economia e também retoma alguns conceitos que foram se desenvolvendo no pós-guerra. Para encerrar, vale notar um ponto que é bastante discutível: muitos consideram que o neoliberalismo não se apresenta como uma evolução do pensamento liberal, mas, antes, uma ruptura com o mesmo – diferente do realismo para o neorrealismo. Alguns até consideram que o neoliberalismo parte de uma concepção realista sobre a “sombra da guerra” no sistema internacional, mas enxerga a possibilidade de superá-la. Seguimos conversando…


Categorias: Conversando com a Teoria


Em cima do muro

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O que antes eram manifestações se converteu em guerra civil e, agora, tomou proporções internacionais. Uma coalizão de países, liderada por Estados Unidos, França e Reino Unido, decidiu intervir militarmente na Líbia, com a finalidade de proteger os cidadãos do país das tropas sanguinárias de Muamar Kadafi. Por enquanto, derrubar o polêmico tirano não faz parte dos planos, mas os objetivos da coalizão ainda não estão perfeitamente claros e podem ir além do estabelecimento de uma zona de exclusão aérea (no-fly zone), ou mesmo atravessar as fronteiras da Líbia, sob a discreta forma de intervenção humanitária. (Seguem dois artigos bastante explicativos sobre a Guerra na Líbia: aqui e aqui)

Ora, que ninguém se engane, se a política internacional fosse a arena do altruísmo, o mundo seria perfeito. Os interesses nacionais acabam falando mais alto, principalmente aqueles de natureza econômica e geopolítica. Fora da coalizão, mas igualmente interessado nos acontecimentos na Líbia, está o Brasil. A abstenção brasileira na votação da resolução do Conselho de Segurança da ONU que autorizou o estabelecimento da zona de exclusão aérea está muito longe de significar desinteresse na questão. Nosso país tem se pronunciado o tempo todo. Tenta agradar a gregos e troianos com um insustentável laissez-faire. E, assim, fica em cima do muro.

O Brasil condenou os ataques contra o povo líbio, promovido pelo seu próprio líder, mas discordou do tipo de abordagem com relação à questão. Para não causar mal-estar, absteve-se de votar. Qual seria a solução brasileira? O diálogo pacífico! Evidentemente, este seria o melhor caminho, se a situação não demandasse urgência. Rubens Ricupero, em recente artigo publicado na Folha de São Paulo, chegou a dizer que o Brasil faz o “melhor de dois mundos”, já que não se compromete e deixa os outros resolver o problema.

Uma situação como esta evidencia um despreparo do Brasil para assumir um posto permanente no Conselho de Segurança. Não adianta o ex-chanceler Celso Amorim escrever um artigo na Foreing Policy explicando por que os Estados Unidos deveriam apoiar a pretensão brasileira, ou o governo ficar todo excitado com o “apreço” de Obama – digno de míseras linhas de uma nota diplomática norte-americana – à inclusão do Brasil, manifestado com veemência hoje, em Manaus, pela presidenta Dilma. Não é apenas a nova realidade global do poder, a capacidade de estabelecer diálogo com todos os países do mundo ou a dimensão econômica do nosso país que carimbam as nossas credenciais para administração da segurança internacional. Quando as negociações fracassam, a fala cede espaço para a sorte das armas e as decisões se tornam inadiáveis.

Particularmente, manifesto-me favorável à reforma do Conselho de Segurança e gostaria de ver o Brasil incluído no órgão. No entanto, nossa conduta recorrente não tem passado de uma aventura homérica. Protestamos, discordamos e até sugerimos outras soluções, mas quando se trata de implementá-las, não temos força. O mundo árabe tem uma imagem positiva do Brasil, mas não há como falar e querer negociar se não tivermos capital político, econômico e, principalmente, militar à altura de nossa voz. Não há também como dizer “não” para os grandes ou tratar de igual para igual, de maneira clara, por exemplo, o sentido da intervenção na Líbia. Resta ficar em cima do muro.


Categorias: Brasil, Estados Unidos, Organizações Internacionais, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


O preço da liberdade?

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Antes de liberdade e igualdade, poderíamos ter pão e carne?

As revoltas no mundo árabe continuam dando corda para o noticiário internacional. Nessa última semana, com o aval do CS da ONU, países aliados encabeçados por França, Reino Unido e EUA passaram a fazer valer uma “no-fly zone” na Líbia, para evitar que Kadafi continuasse a massacrar os insurgentes (e civis) com aeronaves. Até onde se sabe, parece que sua força aérea já foi, se não destruída, enfraquecida o suficiente para garantir a segurança dos cidadãos.

Ora, chegamos ao ponto principal dessa revolta – e de todas as que andam acontecendo na região: são marcadas pela participação popular, de variados modos, mas o que se pode esperar de suas conseqüências para o povo? Afinal, mais do que derrubar ditadores e instaurar a democracia, os seus protagonistas estarão sendo contemplados?

No Egito e Tunísia, onde o furor já passou, a coisa não parece muito melhor – o Egito tem um momentâneo (e, quem sabe, contínuo?) poder castrense, enquanto na Tunísia houve uma divisão de poder entre partidos incluindo antigos aliados do ditador deposto. Já na Líbia, apesar do que possa parecer, os países aliados não estão atacando para derrubar Kadafi ou coisa parecida – e nem podem fazer isso! Apenas estão cumprido uma vaga resolução da ONU para proteger a população de seu próprio governante. Ou seja, estão dizendo que quem deve fazer o trabalho são os próprios líbios. Se vai dar certo ou não? Mistério. O que importa é que líbios continuam morrendo diariamente (pelas tropas de Kadafi? Ou mesmo pelas bombas ocidentais?).

A coisa está pior em outros países da região, como no Iêmen. Lá, o presidente teve de destituir partes do governo e perdeu apoio de generais e outros políticos após o massacre de civis em protestos. Se a perda de vidas nesses processos de democratização acaba sendo inevitável nesse contexto de choque, o problema é não ter a certeza de que o resultado final atingirá os objetivos esperados pelo povo.

Os protestos continuam, na Síria, Iêmen, Bahrein e outros países. A violência, também. Com a incerteza dos resultados nos casos de “sucesso” e a aparente falta de evolução nos que estão ocorrendo agora, o futuro dessas revoluções é, no mínimo, nebuloso, e não se tem nem democracia, nem melhora de condições em um horizonte próximo para esses povos. Seria exagero se pergutar se não seria um preço muito alto pela democracia?


Categorias: África, Ásia e Oceania, Conflitos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica


Presidente Obama no Brasil

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Um dos exemplos mais emblemáticos do conceito “Soft Power” é o presidente Obama. Os Estados Unidos tem as forças armadas mais poderosas do mundo, investe anualmente 700 bilhões de dólares em defesa (o que equivale a três vezes o PIB do Egito), além de manter dois conflitos armados externos. Contudo, quando se pensa em Obama, qual palavra vem imediatamente a sua cabeça? Aposto que ninguém, ou quase ninguém, pensa em guerra ou associa sua imagem ao tradicional unilateralismo norte-americano. Ao invés disso, Obama significa mudança, multilateralismo, o fato novo; uma espécie retorno aos ideários dos fundadores de sua nação. Muito do que menciono obviamente não funciona na prática, mas traz uma forte carga retórica associada.

De que outra maneira se poderia explicar o seu poder de mobilizar pessoas? Obama parece ter claro que o seu principal campo de atuação para 2011 é a arena internacional. Em âmbito interno, sua “política da esperança” tem enfrentado desafios extremos e críticos vorazes. Frente a indícios cada vez mais evidentes que a política em seu país não mudará no curto prazo, talvez deixar sua marca na política internacional seja algo mais plausível. Obama não cumpriu a totalidade de suas promessas, o que terminou gerando oportunidades de críticas por vezes ácidas. Nada, no entanto, que tenha corroído sua imagem. Todos querem tirar um foto com ele, ouvir seus discursos ou ler seus livros. Que levante a mão que gostaria de tirar uma foto com George W. Bush.

Essa ambivalência que representa Obama é algo notável. Por um lado, pouco fez de diferente do establishment político internacional. Por outro, é uma das figuras mais admiradas internacionalmente. Seus discursos arrastaram multidões. Talvez sua popularidade seja maior fora de seu próprio país. Mais popular que ele somente Michelle Obama, a primeira dama. Sua visita ao Brasil foi cercada de imensa expectativa, especialmente quanto à possibilidade que incluísse um pronunciamento contundente sobre a importância do Brasil no sistema internacional. Tal fato somado a cooperação econômica e científica entre os dois países, seria o roteiro que todos gostaríamos de ver. O que podemos realmente esperar? Um efeito meramente midiático ou realmente uma renovada aliança entre Brasil e Estados Unidos?

Passamos para o ato principal: o pronunciamento no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. De acordo com o previsto, Obama enfocou seu discurso na parceria entre Estados Unidos e Brasil. Mais além da cooperação entre governos, uma aliança entre os cidadãos, entre as nações. Entre os pontos mais importantes, o presidente norte-americano destacou a fundo histórico comum, ambos como parte de um “Novo Mundo” dominado por metrópoles, que logo conseguiram conquistar suas independências. Além disso, a democracia representou para ambos os países um caminho para liberdade, crescimento econômico e prosperidade. O país do futuro, ainda nas palavras de Obama, viu sua vez chegar. O Brasil é um exemplo do que a democracia pode gerar. Nesse sentido, nossa aliança, que se funda em valores e exemplos comuns, poderia ser intensificada em diversos setores.

Caminha para o fim a tão esperada visita do presidente norte-americano. Fica a esperança que essa aliança entre nossos países torne-se efetivamente discussões de igual para igual, como apregoou Obama. Para um país que busca o palco principal no sistema internacional, a abertura e o reconhecimento da (ainda) maior potência mundial pode ser um caminho profícuo. Para os que esperavam uma declaração ainda mais contundente, apoiando aspirações brasileiras nas Nações Unidas, talvez fique uma sensação de decepção. Resta, independente do ponto de vista, a oportunidade de capitalizar em nossa reafirmada parceria.


Categorias: Américas, Estados Unidos


Energia nuclear em questão

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“A energia nuclear é uma forma boa, limpa e segura de se gerar energia, e pode ser usada em larga escala”. Esta é a opinião do cientista James Lovelock, famoso por polemizar em seu meio a respeito da geração de energia a partir de fontes nucleares. Em certa medida, seus argumentos são válidos e defendidos por muitos, já que a energia nuclear efetivamente não gera gases de efeito estufa, não compromete áreas de reservas naturais e demonstra um potencial financeiro e científico elevado para que o enriquecimento de urânio ocorra.

Contudo, esta discussão vem à tona no momento em que um dos principais efeitos negativos da geração de energia nuclear é visível após os desastres naturais que assolaram o Japão: a contaminação radioativa. Os níveis de radiação estão comprovadamente altos em um raio de 30 quilômetros da usina de Fukushima Daiichi, no Japão. O terremoto da semana passada danificou os reatores dessa usina, cuja responsabilidade é da empresa Tokyo Electric Power Co.

A situação, que já constitui um cenário de crise nuclear, se encontra no nível cinco de uma escala internacional de risco (o nível sete é o máximo, alcançado no caso de Chernobyl, em 1986). Jatos d’água estão sendo lançados nos reatores para resfriá-los, evitando que a disseminação das partículas radioativas se intensifique na localidade; porém, a opção de enterrar esses reatores está sendo cogitada pela primeira vez, demonstrando a gravidade da situação.

Este contexto remonta a um questionamento básico: a geração de energia nuclear compensa os riscos de sua implementação? Sabe-se, por meio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) – órgão da ONU que fiscaliza questões relativas à tecnologia nuclear – que aproximadamente 14% da energia gerada no mundo é nuclear, constituindo-se esta na terceira maior fonte energética existente (e o Japão é um dos países que possui o maior número de reatores, depois dos Estados Unidos e da França).

Além da preocupação com a produtividade energética em si, pode-se argumentar que, muitas vezes, os Estados prezam pela energia nuclear (a despeito de outros tipos renováveis/não-poluentes de geração de energia) ao avaliarem aspectos político-estratégicos nas Relações Internacionais. Com vistas à ampliação de seu poder relativo e ao seu crescimento em termos de influência no cenário inter-estatal, investimentos financeiros altíssimos são direcionados à tecnologia nuclear.

Entretanto, desastres do porte deste ocorrido no Japão reforçam a necessidade de cautela e promovem o debate a respeito, sendo que a Europa já repensa investimentos nessa área – especialmente considerando a baixa aceitação da sociedade civil em geral neste âmbito. Assim, não fica tão difícil perceber o porquê de Lovelock ser considerado polêmico em sua acalorada defesa da geração de energia nuclear que, se por um lado pode ser “boa, limpa e segura”, por outro pode ser extremamente danosa em vários sentidos.


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