Jogando pelas regras

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Agora é pra valer – após a morte de centenas (milhares?) de cidadãos, pelas mãos de mercenários ou sob o fogo de aviões de combate, o malvado ditador Kadafi não escapará do punho da justiça internacional! Mesmo com suas bravatas e seu país em uma guerra civil informal, a aguardada resposta internacional está a todo vapor e tende a consolidar a pressão sobre o ditador no que mais aflige a essa classe de governantes: o bolso. Nada de invasões ou coisa parecida (os norte-americanos parecem ter aprendido algo nos últimos 9 anos…): EUA e UE já estão com as sanções prontas, incluindo proibição de viagens, embargo de armas e fechamento de espaço aéreo. Com a chancela do CS, a ONU já clama por ações concretas – e o promotor Luis Moreno-Ocampo, do Tribunal Penal Internacional, aquele que conseguiu emitir um mandado de prisão contra o presidente do Sudão, já prepara a papelada de acusação de crimes contra a humanidade. A isso se somando a conquista pela oposição de cada vez mais territórios, parece que Kadafi não terá muita saída a não ser se tornar o mártir que tanto vocifera.

Mas até que enfim os Amigos da Justiça resolveram agir hein? Estranho, pois imagino que não seja de hoje que Kadafi trate com essa delicadeza seus súditos. Foram necessárias tantas atrocidades para que a comunidade internacional agisse? Ou é apenas uma resposta a essa coisa do momento, a tal “Primavera Árabe”? Um pouco de cada. A verdade é que todos estão caindo sobre Kadafi com paus e pedras pelo fato de ele ter “violado” as regras do jogo internacional. Vejam bem, a um ditador pode ser tolerado pela comunidade internacional, desde que seja útil ou não atraia muita atenção para si. O caso da Arábia Saudita é o mais notório: o rei Abdullah não é o maior entusiasta da democracia, mas quando começaram os protestos, eis que o dinheiro jorrou e os ânimos populares foram acalmados. A monarquia autoritária prossegue, não mancha sua imagem com o sangue de inocentes (ao menos às vistas…) e continua amicíssima dos EUA. Esse parece ser, por sinal, o destino de boa parte dos governos autoritários da região: o temor de levantes e desgaste com a comunidade internacional simplesmente faz com que optem por algumas reformas ou agrados que aliviem as tensões sociais. No jogo internacional, as rodadas ao bem demoradas, mas até quando funcionará? Quem sabe.

O fato é que Kadafi já não era o governante mais bem-quisto no Ocidente, seu regime é notório financiador do terrorismo e muitos países não hesitariam em retirá-lo do poder por bem ou por mal – só lhes faltava a oportunidade, dado que há muitos interesses conflitantes, especialmente de empresas, na região. Todavia, Kadafi fez a gentileza de oferecer-lhes não apenas essa chance, mas de fazê-lo com o aval da comunidade internacional e sob a bandeira da defesa dos direitos humanos, e provavelmente é um caminho sem retorno.


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Esqueceram de mim

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Em meio aos protestos que seguem no Oriente Médio, muitos acabam esquecendo ou deixando de lado outros assuntos também importantes. As grandes potências têm interesses estratégicos vinculados à chamada “primavera árabe”. Três palavras definem toda a preocupação recente: fornecimento de petróleo. Enquanto uns temem, projetam cenários e discutem soluções plausíveis, outros respiram aliviados e agradecem. Pela primeira vez em dois anos o preço do petróleo ultrapassou os 100 dólares. Hugo Chávez possivelmente é umas das pessoas satisfeitas com o ritmo de oscilação atual da commodity.

Desde que assumiu a presidência na Venezuela, Chávez adotou como política a nacionalização de empresas; o aparelhamento de empresas estatais por seus aliados; e o cerceamento ao setor corporativo no país. Uma das conseqüências foi a diminuição da produção de petróleo pela empresa estatal PDVSA, de 3.3 bilhões de barris/dia em 1998 passando a 2.25 barris/dia na atualidade. Desta produção, quase metade é subsidiada para o consumo interno ou em exportações à aliados regionais. Sobra pouco para a exportação baseada nos preços internacionais.

No campo político, o mandatário venezuelano também buscou ancorar-se em medidas para aumentar seu poder, limitando a atuação do legislativo e do judiciário. Até mesmo o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) criticou a última movimentação arquitetada por Chávez junto ao Congresso, na qual aprovou uma série de medidas em seu favor antes que os novos congressistas assumissem seus respectivos postos. Há ainda, passando para o campo econômico, uma aberta conivência com um mercado paralelo para a venda de dólares acima da taxa estabelecida pelo governo, o comprometimento de parte da produção petrolífera para o abatimento de um empréstimo com a China, somado ainda a recessão econômica (estimada em -2,5% para 2011) e uma inflação galopante (na casa dos 40%).

De acordo com a consultoria britânica em macroeconomia Capital Economics, há um risco crescente da Venezuela não ter suficiente capital para cobrir suas obrigações financeiras já em 2012. O cenário, nesse sentido, seria sombrio para a Venezuela e seus credores com o risco de insolvência em um dos maiores produtores mundiais de petróleo. Nada que faça Chávez diminuir o tom, ser cauteloso ou pelo menos fingir que se importa mais com a opinião de seus opositores. O aumento dos preços do petróleo nos mercados internacionais vem como um fator externo que faz Chávez ganhar mais espaço de manobra. Talvez não dure muito, porém definitivamente a instabilidade no Mundo Árabe, até o momento, fez um vencedor indireto.

Apesar de todo o cenário econômico adverso, foi dado seguimento à política interna. Cresce a polêmica em torno dos presos políticos e quanto ao (des)respeito aos Direitos Humanos no país. A América Latina não representa a evolução política ante a ruptura, o desenvolvimento econômico e a democracia estável ante a instabilidade política e a volatilidade financeira? Parece que a Venezuela segue a passos largos no caminho contrário. A OEA já se posicionou, Chávez prefere seguir afirmando que o organismo funciona como um instrumento do imperialismo americano.

Quando sofreu a tentativa de golpe de 2002, Chávez tinha uma visão um pouco diferente da OEA, a mesma que trabalhou como intermediária entre o presidente e sua oposição na ocasião. Se há duas coisas que incitam o povo à revolta, a fome e a opressão, é melhor o Chávez abrir o olho. O sentimento é cada vez maior que o segundo critério se aproxima se de ser cumprido, faltaria o primeiro. Ainda bem que os olhos estão voltados para o Oriente Médio. Melhor assim, ao menos para Chávez.

Fonte (charge)


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Conversando com a Teoria

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Décadas em mutação, teorias em gestação – I

Neste post da CCaT e nos próximos, vamos nos aventurar pelas décadas de 1960 e 1970, de maneira a compreender o que elas têm de tão especial para o surgimento de novas teorias nas Relações Internacionais. Tentaremos, em certa medida, cobrir parte dos principais acontecimentos que conduziram a novas agendas e programas de pesquisa. É certo que nem tudo é uma novidade, porém permaneceu enterrado no simplismo do choque entre Leste e Oeste.

Um olhar em retrospectiva nos recorda que, com o término da Segunda Grande Guerra, a descolonização se espalhou pela África e Sudeste da Ásia. Aos poucos, novos países foram se incorporando ao mundo. Esses países somaram-se aos países “esquecidos” (a América Latina, no geral) e não queriam necessariamente o que queriam os países já acomodados na ordem internacional. O Tejo, o mais belo rio de Pessoa, não cruzava todos os territórios. A solução era transformar os rios que cortavam as suas respectivas aldeias no próprio Tejo (ver poema).

Vieram Conferência de Bandung, em 1955, sobre o não-alinhamento a nenhum pólo de poder, a criação da UNCTAD no âmbito da ONU, em 1964, e a onda terceiromundista na década de 1970, anunciando uma Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI). O grande desafio passou a ser como acomodar os países nascentes e os esquecidos e como levar em consideração as suas demandas.

Entre as suas demandas específicas, destaca-se o pleito pela inversão de prioridades na ordem internacional: conferir primazia à economia ao invés da política. Em outros termos, isso significou priorizar o desenvolvimento econômico e comercial em detrimento do poder militar (ou segurança) e dos espaços de influência. Tratava-se, pois, de renegociar as regras que regiam o mundo e privilegiavam exclusivamente os países mais desenvolvidos, como se o desenvolvimento apenas lhes pertencesse, à custa dos demais. Nem o Sistema de Bretton Woods (com o FMI, o Banco Mundial e o padrão dólar) nem o GATT estavam preparados para lidar com o terceiromundismo.

Por outro lado, a necessidade de se desenvolver gerou um impasse em outra questão: a ambiental. Em que medida é possível compatibilizar a marcha desenvolvimentista com a preservação do meio ambiente? Os países ricos começaram a se preocupar com isso, enquanto que os países pobres permaneceram reticentes, pois preservar era sinônimo de se desenvolver menos, além de perceberem a preocupação de maneira negativa: a perda de um direito inerente. Os ricos se desenvolveram e os pobres, não, e tampouco o farão.

Por enquanto, cobrimos uma parte significativa do que desencadeou um grande debate e repercussões nas relações internacionais nas décadas de 1960 e 1970: a ascensão de novos países na ordem internacional e as suas demandas específicas. Embora tenha sido um movimento consentâneo, o grau de coesão variou; por exemplo, a América Latina chegou a desenvolver um pensamento ideológico próprio. Falemos de outros acontecimentos na próxima semana. Até lá!


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Pão e circo

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Desde a Roma Antiga, a expressão “pão e circo” é conhecida como uma prática política destinada a acalmar os ânimos dos cidadãos, sem que fossem articuladas rebeliões contra os governantes. Feriados, atrações, agrados, acrobacias, espetáculos, etc. são alguns exemplos de meios utilizados à época para distrair e inibir o povo em seus anseios políticos.

Mas será que essa prática se restringe aos áureos tempos romanos? Talvez o nome sim, mas o modo de agir certamente não. Em várias situações nos cenários nacional e internacional, esse tipo de manipulação se apresenta das mais diversas formas: eventos esportivos, programas televisivos, notícias sensacionalistas, e tantos outros tipos de “atrações” para a população são visíveis a olhares atentos/esclarecidos.

As tentativas de “pão e circo” que merecem destaque hoje se encontram, desta forma, no cenário mais polêmico da atualidade: o Oriente Médio em meio a revoluções populares históricas. Pelo menos é o que parece estar acontecendo na Arábia Saudita e no Bahrein, com as recentes atitudes de seus governantes receosos de serem os próximos a deixar seus (confortáveis) cargos.

O rei da Arábia Saudita anunciou um investimento social na casa dos bilhões, de forma a conceder subsídios a desempregados; ampliar notadamente os recursos do Fundo de Desenvolvimento que se destina ao financiamento de imóveis, casamentos e negócios aos cidadãos; e aumentar o salário dos funcionários públicos, por exemplo. No Bahrein, por sua vez, foram libertados 23 militantes xiitas acusados de práticas terroristas, adiando ainda processos contra outros presos políticos do país.

Diante de tamanha mobilização popular no Oriente Médio, monarquias e ditaduras – que têm permanecido no poder por décadas – estão se desfazendo por meio de protestos e revoltas que demonstram a vontade de populações silenciadas durante muito tempo. Talvez a política do “pão e circo” tenha sido muito utilizada no mundo inteiro e venha a se mostrar efetiva em diversas situações mesmo atualmente. Porém cabe questionar até que ponto os cidadãos do Oriente Médio ainda se encontram vulneráveis a esse tipo de estratégia, especialmente no momento em que as trocas de informação instantâneas demonstram empreitadas bem-sucedidas de seus vizinhos em situações semelhantes.

Afinal, segundo um provérbio taoísta, “Quanto mais instruído o povo, tanto mais difícil de o governar”… especialmente com base em políticas que evidenciam a fraqueza institucional de governos há muito estagnados no poder – em que se ressalte o impulso de um contexto social de anseios por melhoras significativas na representação popular.


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Desenvolvimento socioeconômico ou apenas econômico?

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Esta é uma questão crucial para o Brasil. Para agora e para o futuro que pretende alcançar. Uma nação socialmente justa, idealizada nos discursos de nossa presidenta e de seus predecessores, depende da equalização do desenvolvimento econômico com o atendimento das necessidades sociais. Por sinal, este foi o tema de um artigo de Érica Fraga, publicado ontem na Folha de São Paulo. Para a autora, este é o grande desafio do nosso país: traduzir os avanços econômicos em melhoria dos indicadores sociais.


Nunca é demais recordar que a persecução do desenvolvimento figura no cenário político brasileiro desde a década de 1930. Ora, foi traduzido como industrialização, ora como crescimento econômico. Na década de 1990, adicionou-se definitivamente o prefixo “socio”. Uma nota teórica: a partir do conceito de “desenvolvimento humano” do renomado economista indiano Amartya Sem, o desenvolvimento passou a significar muito mais do que crescimento econômico, senão como a eliminação de todas as formas de privações que impeçam as pessoas de viverem uma vida plena e digna. Privações estas que podem ser de natureza diversa: pobreza, fome, preconceito, desigualdade de gênero, analfabetismo, etc.

Do ponto de vista econômico, muitas projeções, a priori, são otimistas. A expectativa é que o Brasil ultrapassará Itália, Reino Unido e França, no ano de 2015, e se tornará a 5ª maior economia do mundo. Até 2040, juntamente com os demais membros dos BRIC – agora com a adição da África do Sul e, possivelmente, deve entrar a Indonésia –, superará a economia do G-7. O nosso “bilhete premiado”, ou seja, o pré-sal, pode gerar nada mais nada menos do que US$ 1 trilhão, o que significa a adição – se comparado com os dados atuais – de um terço ao PIB brasileiro. O lado pessimista é que crescer demais gera a inflação e sua cadeia causal: menos consumo, menos crescimento. Outro fator é a desconfiança: é possível converter nossas potencialidades em possibilidades concretas?

Agora o lado social. É absolutamente fantástico e louvável o esforço dos nossos governos de libertarem mais de 20 milhões de pessoas da pobreza. Porém, libertar da pobreza significa, de acordo com os padrões do Banco Mundial, viver com mais de US$ 2 por dia. Com R$ 3,34 por dia ou R$ 100,20 mensais, uma pessoa sobrevive? Para retomar o conceito de Sen, a libertação da pobreza é apenas a libertação das formas de privação e, portanto, não pressupõe o alcance final do desenvolvimento. Há privações que persistem: de acordo com o coeficiente Gini, o Brasil é o 11º país mais desigual do mundo, e, segundo o último Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD, o Brasil ocupa a 80ª posição em matéria de desigualdade de gênero. Ademais, para especialistas, a melhoria da educação é condição indispensável para nos consolidarmos como um país desenvolvido.

Estas são apenas algumas reflexões de uma discussão muito intensa. Para concluir, convém apresentar uma frase de Lúcio Costa, um dos construtores de Brasília: “O Brasil não tem vocação para mediocridade.” De fato, se não temos vocação para a mediocridade econômica, não devemos ter também para a social. A Colômbia (sim, surpreendam-se!) está mais nesse caminho inseparável do que o Brasil, como apresentou Fraga. O desenvolvimento socioeconômico deve ser um pacto de sangue e suor entre o povo e seus governantes, entre a nação e a sua história.


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O que fazer?

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Bem, prosseguimos nossa análise das revoltas populares que estremecem o Oriente Médio e o norte da África. Parece que a bola da vez é a Líbia, do folclórico e nada sutil ditador Muamar Kadafi (aquele que governa há uns 40 anos e rasgou uma carta da ONU na própria Assembleia Geral da instituição) e que bem demonstra como devem se desenrolar os fatos nos demais países envoltos nesse turbilhão.

A cobertura dos fatos é ampla e assustadora. Como todos sabem, os protestos por toda a região não tardaram após o sucesso das revoltas no Egito e Tunísia. Contudo, a esperança dessas novidades enfrenta a dureza da realidade: infelizmente, os casos “exitosos” parecem ter dependido de uma situação muito específica, como a insatisfação dos militares com Mubarak. No caso da Líbia, o exército está nas mãos de Kadafi, e reage impiedosamente, com mais de 230 mortos. As coisas estão em um nível tão grave que muitos diplomatas líbios, escandalizados com a repressão violenta, deixaram seus cargos como forma de protesto, enquanto o caos impera, forças de segurança pública somem e a guerra civil é iminente.

Como muitos regimes autoritários ao redor, parece que infelizmente a vontade popular pode continuar sufocada pela força. No Iêmen, por exemplo, apesar de mesmo os clérigos muçulmanos exortarem aos militares que não usem a força, o presidente Ali Abdala Saleh deixou bem claro que se o povo quer mudanças, que o faça nas urnas e considera inadmissível a abdicação, e a polícia não poupa esforços para reprimir de modo cada vez mais contundente os protestos. No Bahrein, a demanda pelo fim da monarquia, disputa interna por melhores condições, atritos entre classes e revolta contra privilégios já causou 7 mortes e acabou adiando até mesmo a corrida de Formula 1 no país para o fim do ano (se for ocorrer). Não é impossível, logo, imaginar que esse pareça ser o destino da maioria dos países da região que estão sob regimes autoritários – ou poucas mudanças serão implementadas, como está planejado na Jordânia, mantendo-se o status quo, ou sem mudança alguma, com a manutenção do regime pela força.

Por fim, e para tornar o quadro mais sombrio, mesmo o Egito e a Tunísia enfrentam problemas após suas “revoluções”. Na Tunísia persiste o temor da permanência de aliados de Ben Ali no governo (o que seria mais do mesmo), enquanto no Egito ainda há protestos e a economia segue em queda livre. É muito cedo para taxar de “fracassos” esses casos, e a contínua esperança de um desenvolvimento democrático na região animaria até mesmo o processo de negociação de paz entre israelenses e palestinos. Mas restam estes desafios aos que ultrapassaram a barreira dos ditadores, e um longo caminho aos que mal começaram a empreitada. O que fazer?


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Quem quer democracia?

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Em 2001, o renomado cientista político Francis Fukuyama insistia em sua teoria sobre o “fim da história”. Em poucas palavras, defendia que a longa batalha entre o liberalismo político-econômico e o socialismo/comunismo havia, por fim, chegado ao fim com um vencedor. A democracia liberal se sobressaiu, trazendo consigo novas dinâmicas fruto da globalização cada vez mais intensa. O terrorismo e o acirramento das tensões entre os modelos de civilização seriam uma parte do processo irremediável da vitória do liberalismo.

A perpetuação no poder, o autoritarismo, a sociedade sob o julgo dos militares e subserviência das grandes potências formam um quadro conhecido para os latino-americanos. Enquanto americanos se dividiam entre democratas e republicanos traçando planos para extinguir o comunismo, nossa região se viu jogada nos braços do “melhor aluno”. Esses “melhores alunos”, espalhados por diversos países latino-americanos, governaram ancorados no medo, repressão e o apoio de forças externas (em parte ocultas). Muito ligado a este histórico está nossa situação atual, na qual resplandece novas formas de populismos e governantes fortes sob um regime democrático.

Em certo sentido, é possível observar um paralelo entre os acontecimentos no Oriente Médio e a herança histórica latino-americana. As grandes potências, em ambos os casos, fecharam os olhos e seguiram cooperando com regimes ditatoriais. Mais que isso, suas políticas para o Oriente Médio eram ancoradas em países-chave, independentemente da dinâmica política e social interna que apresentavam. Os Estados Unidos talvez sejam o exemplo mais representativo disso. Antes da renúncia de Mubarak se encontrava em uma situação constrangedora, entre seus ideários democráticos históricos e um aliado de décadas, no qual se pautaram muitas políticas para toda a região.

Obama esteve em Cairo em 2009 para discursar sobre “um novo começo”. Bush (filho) deixou uma profunda cisão entre o Ocidente e o Oriente, a partir da qual se fortaleceram fundamentalismos e conseqüentemente foram geradas ameaças a coexistência pacífica entre ambas. O que os norte-americanos parecem não entender é que a origem da cisão é mais antiga e profunda do que se admite formalmente. As alianças e a manutenção de governos intermináveis no Oriente Médio como em outras regiões, foi um elemento essencial para o acirramento entre nossas civilizações. A escolha que foi feita, e nunca desfeita por Obama e outras potências, deveria ter sido considerada para este “novo começo”. O fundamentalismo foi também fruto, entre outros fatores, do apoio a ditadores vistos como “melhores alunos” da região, uma vez que não conseguiram ancorar governos autoritários em outros fatores que não fossem a tradição e a religião.

Todo o ocorrido na Tunísia e no Egito segue reverberando pela região. Tudo indica que deixará profundas marcas, ainda que não estejam claras até o momento. Todos os que se orgulhavam em tirar fotos e participar de reuniões com os países árabes devem estar inquietos em seus assentos, afinal governantes ilegítimos e regimes autoritários que eles ajudaram a manter começam a desmoronar. Alguns poderão afirmar que chegou o “fim da história, outros que existe um “novo começo”. Contudo, a meu ver soa hipócrita que as grandes nações agora se coloquem ao lado dos anseios populares. Resta saber se o fundamentalismo perderá espaço e como emergirão os novos líderes regionais. Poderiam seguir os latino-americanos, apelando a modelos populistas (ou populares)? A classe dos “melhores alunos” das grandes potências está cada vez mais vazia. O mais surpreendente, no entanto, é que tudo indica que quanto mais vazia se apresente, mais seguros estarão seus professores e maestros. Restaram aqueles alunos do fundo da sala, que não respeitam ninguém e seguem sem aceitar o sistema.

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O primeiro veto

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Diz-se popularmente que “o primeiro a gente nunca esquece”… talvez hoje essa frase se aplique a Obama, visto que foi o dia do seu primeiro veto enquanto presidente dos EUA no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O assunto? Um dos mais polêmicos e recorrentes possíveis: a ocupação israelense em territórios palestinos. (Vale ressaltar que, dependendo do ponto de vista, basta inverter as palavras “israelense” e “palestinos” para avaliar a amplitude deste que se caracteriza como um dos conflitos históricos mais complicados das Relações Internacionais. Para se aprofundar um pouco mais no tema, clique aqui e aqui.)

Contra o interesse dos EUA, grandes aliados de Israel, foi apresentado há mais de um mês ao Conselho de Segurança das Nações Unidas um projeto de resolução que condenava a política israelense de construção de assentamentos nos territórios palestinos ocupados. Este projeto foi apoiado por mais de 120 Estados, demonstrando a indignação da comunidade internacional diante de uma situação que dificulta enormemente o diálogo com a Autoridade Palestina em busca da paz na região.

Segundo declarações norte-americanas, contudo, este assunto deve ser discutido bilateralmente, considerando que “levar o assunto para a ONU só deve complicar os esforços para que seja retomado o processo de paz entre palestinos e israelenses”. Vale ressaltar que o veto dos EUA – enquanto membro permanente com o poder de inviabilizar o projeto – já era esperado, dado seu apoio histórico ao governo israelense, de forma que a votação veio apenas demonstrar o isolamento norte-americano (com o único voto contrário) diante da questão, despertando um profundo debate político.

Variadas são as questões que emergem neste momento, podendo levar a discussões muito mais amplas no âmbito dos estudos em Relações Internacionais, como as seguintes, por exemplo: Qual é o papel da ONU diante de um cenário de “impotência”? E qual é a perspectiva de desfecho nas negociações entre Israel e Palestina? Como a sociedade civil pode/deve intervir? Ou, enfim: pode apenas um país inviabilizar uma causa apoiada por dezenas? Neste caso, tal como a charge no início do post sugere, sim, eles podem


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Conversando com a Teoria

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A ascensão do novo

Pois é, pessoal, hora de adicionar um prefixo aos “ismo’s”. E o prefixo escolhido é o “neo” – não é o protagonista do filme Matrix. Assim, teremos: neorrealismo, neoliberalismo e neomarxismo. A mera adição do “neo” muda também a substância do pensamento e, consequentemente, o corpo teórico. Há diferenças entre o antigo e o novo e, em certa medida, as três teorias também encontram os seus pontos de cruzamento.

Particularmente, as décadas de 1960 e 1970 serviram de cenário para a emersão desses três “neo’s”. Desde o término da Segunda Guerra Mundial, o realismo predominava como a vertente explicativa das relações internacionais. A trindade do poder, segurança e sobrevivência guiavam os Estados em seus relacionamentos, num ambiente que implicaria, à Carl Schmidtt, definir inimigos e amigos. Com os amigos se coopera, aos inimigos se combate. Veio a Guerra Fria. No transcorrer do tempo, as definições e as ações deixaram de ser tão claras, bem como o dogma da trindade passou a ser questionado.

Para além dos Estados, não haveria empresas? Em um estudo, Joseph Nye concluiu que algumas empresas multinacionais detinham um patrimônio superior ao PIB de muitos países, separados ou juntos. Há mais questões importantes: quais os interesses dessas empresas? Segurança não se relacionaria também com o bem-estar econômico? Sobreviver é o suficiente? O poder é medido apenas nos termos absolutos das capacidades militares, econômicas, naturais, sociais, culturais, etc.? O que permite dizer que alguém é mais ‘poderoso’ que outro? E, quando é mais poderoso, não haveria uma estrutura imperceptível de domínio que condiciona outras lógicas?

Tais questões ampliam o horizonte de pesquisa. Não se trata apenas de falar sobre poder, utopia e exclusão, mas de buscar as suas causas profundas a nível sistêmico, considerando o mundo como o ponto de partida para o que acontece em cada país. Outrossim, quando se depara com novos problemas, é natural que se procure novas maneiras de se lhe dar com eles. O realismo tornou-se insuficiente, o liberalismo estava em outra galáxia e o marxismo apegado a luta de classes. Como explicar a emersão de novos atores, das questões de outra ordem – como o meio ambiente –, do Norte contra o Sul, quando a guerra era entre Leste e Oeste?

Fato é que o mundo estava em transformação. É preciso um olhar mais acurado sobre o mesmo para entendermos de que maneira o neorrealismo, o neoliberalismo e o neomarxismo se dedicaram a analisá-lo. Esta é a aventura para a qual todos vocês, leitores, estão convidados nas próximas semanas. Vamos voltar ao mundo de mais de quatro décadas e teorizar junto com ele. Paradoxalmente, é hora de dizer: bem-vindos ao novo!


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Revelações

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A política externa estadunidense durante o governo de George W. Bush é objeto em constante mudança e construção, na longa história dos Estados Unidos. Temos visto tentativas diversas de construir novas imagens, como a biografia de Bush (clique aqui para mais sobre esse assunto no blog), e outras de revelar questões contraditórias no período, como os vazamentos de documentos diplomáticos do Wikileaks sobre a guerra do Iraque e do Afeganistão.

De toda forma, com ou sem essas tentativas, o período já foi conturbado o suficiente para render muitas dúvidas e questionamentos, seja para a imprensa, seja para a opinião pública internacional, seja para os cidadãos estadunidenses. Com duas guerras e uma agenda internacional de combate a um inimigo sem face, o terrorismo, o governo Bush marcou um interessante episódio da política estadunidense.

Mas, como dito anteriormente, a história continua a ser construída. E uma entrevista de um desertor do governo de Hussein revelou informações que, apesar de não serem surpreendentes a muitos, constituem uma interessante peça no quebra-cabeça da política externa de Bush e, principalmente, da guerra do Iraque.

Essa peça, digna de nota, foi fornecida pelo engenheiro, Rafid Ahmed Alwan al-Janabi, conhecido pela inteligência estadunidense e alemã como “Curveball” que passou informações sobre a existência de armas biológicas para a BND, agência de inteligência alemã. Segundo entrevista ao jornal britânico, The Guardian, ele havia mentido como forma de opor-se ao governo (confira aqui o vídeo).

Apesar de já se ter sido divulgado que os Estados Unidos não foram capazes de encontrar armas biológicas no país, agora, com toda certeza, um dos pilares de vidro que sustentavam a justificativa dos EUA para a invasão despedaçou-se de vez.

A declaração de “Curveball” é interessante porque é capaz de despertar novos questionamentos e dúvidas, além de sugerir novas respostas. Primeiramente, a credibilidade das informações obtidas por serviços secretos é posta em xeque. Segundo, a tese de que Jalabi apenas disse o que o governo estadunidense gostaria de ouvir, saiu fortalecida, tendo em vista que foram utilizadas informações decerto pouco confiáveis em detrimento dos largos relatórios da AIEA.

Aos poucos, por vazamentos de documentos, textos diversos e declarações como essa, vai se construindo um novo entendimento sobre os bastidores que motivaram a polêmica guerra do Iraque e a política externa de Bush para o Oriente Médio. Decerto ainda muito se falará sobre esse assunto e muitos outros remendos comporão essa colcha de retalhos que se tornou a guerra do Iraque. As repercussões das declarações são ainda muito incertas, tendo em vista que a guerra é ainda muito popular na terra do Tio Sam. Resta esperar para ver o desenrolar dos acontecimentos.


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